Redenção - Um Novo Caminho
12 Capítulo 12 – Escuridão
Notas iniciais
O tempo passou muito lentamente para mim naquela masmorra. Ficava com fome e com frio regularmente, às vezes ficava desnutrido. Meu irmão cuidava de mim aos poucos. Por um curto período de tempo. Ele nunca apareceu é claro, mas só ele enviaria uma aia até mim naquelas condições. Ela não olhava em meu rosto e o seu sempre era coberto por um véu. Apenas chegava, me banhava com uma esponja, me alimentava com um pouco de pão e saía, antes que os guardas a vissem. Era tudo muito rápido e eu apenas acordava quando ela já havia terminado de me banhar. Nunca soube se ela me despia ou não, e foi melhor que ficasse na ignorância... Ela segurava o pão em minha boca até que eu tivesse terminado e depois me dava um pouco de água. Depois disso, ela saía, tão silenciosa quanto entrara. Nunca soube seu nome. E mesmo assim, ainda hoje penso em agradecê-la de algum modo.
Mas isso, era a parte boa do meu dia... Perdi a conta das vezes que meus braços doeram, dependurado como uma carne de açougue. E as visitas diárias e constantes de Carrau sempre me traziam um gosto amargo à boca. As torturas continuavam. E Carrau era mesmo inventivo. Creio que ele deve ter influenciado a tortura medieval na Terra, pois era simplesmente bizarro o que fez comigo em certas ocasiões. Não satisfeito, às vezes me usava como um “saco de areia humano”. Ele sabia como me atingir, e como me fazer ficar parado. Ele fazia um gesto, e uma espécie de tela de sombras aparecia, mostrando imagens de Yumi, de Layla, de Ryu e de Onimura. Ele os ameaçava, dizia que enviaria Hypnus e Morphius lá se eu tentasse fugir ou se eu tentasse reagir. E assim, mais uma semana, eu ficava preso lá.
E assim se passaram.... longos... desesperadores.... angustiantes... seis meses...
Foi numa noite, perto do final do sexto mês, que ele entrou. Parecia um rei, vestindo sua armadura negra e, por cima dela, um manto negro, que o deixava mais empoado que um pavão. Mas seus cabelos azuis, presos num rabo de cavalo, lhe deram um ar vampírico tão acentuado que fiquei com medo. Ele se sentou em um banquinho próximo. Ele gostava de fazer isso de vez em quando. Ficar ali e me espetar com os espinhos que tinha na língua.
- Então Garlock. Gostando da estadia no nosso “hotel”?
- É. O café da manhã até que é bom, mas as acomodações são um lixo.
- Hehe. Sempre o mesmo Garlock. Mesmo atolado até o pescoço em merda de dragão, ele não cala a boca. – Ele se aproximou e olhou bem nos meus olhos sorrindo. Então começou a andar pela cela – Sabe Garlock. Eu acho que já te disse isso, mas eu estou começando a ficar cansado de você. Cansado de te humilhar, te bater, te ferir, te espancar, te maltratar, te queimar, te espetar, te cortar, te...
- Entendi Sir Fumaça, pára de enrolar e vai direto ao assunto... – disse isso meio entediado. Ele realmente era uma tortura.
Ele riu, olhou pra mim e continuou, gesticulando enquanto falava.
- Ah Garlock. Sabe, eu estou me sentindo uma criança cujo aniversário está chegando... e o brinquedo que ela ganhou no último parece tão... feio... torto. E ela espera algo.. melhor... – ele me olhou e sorriu de um modo sugestivo. Se não fosse pelas correntes e pelas estacas eu o teria esganado! – Então... chega a hora de me desfazer de um brinquedo velho.
- Finalmente decidiu me matar não é?
- Matá-lo? – Ele disse surpreso. Riu e continuou a andar e gesticular – Não Garlock. Quantas vezes terei que falar? Não vou matar você. Meu pai achava que a melhor solução pra destruir um inimigo era matá-lo. Mas eu não. Eu acho que, para destruir alguém, basta apenas tirar-lhe... o que ele mais preza na vida. O que ele mais... ama. – Ele sorriu sinistramente pra mim. Percebi onde ele queria chegar e rosnei. Então ele ia me ferir através de Yumi. Mas ele recomeçou a falar – Não pense que matarei a humana tampouco. Ela pra mim não significa nada, sequer uma ameaça. Mas eu sei que você sente algo por ela. Algo que cultivou com todo o seu sacrifício. Você a ama não é Garlock.
- Que te importa se eu a amo? – respondi meio malcriado. Ele se virou e me encarou com raiva.
- VOCÊ A AMA GALAHAD? – ele gritou e até o fogo perdeu o brilho. Isso me assustou um pouco e engoli em seco. Ele continuou gritando - RESPONDA! A AMA O SUFICIENTE PRA DESISTIR DELA? A AMA O SUFICIENTE PRA..... – ele sorriu malicioso e se aproximou de mim sussurrando – A ama o suficiente... pra deixá-la? Pra protegê-la... poderia perdê-la?
Aquilo me deixou atônito. Suor frio escorreu pelo meu rosto. Uma parte de mim gritava aos quatro ventos que despedaçaria Carrau assim que tivesse chance. Mas a outra parte lembrou de Yumi, revendo cada detalhe de seu rosto e lágrimas começaram a cair do meu rosto. Se ele estava propondo o que acho que estava... então... era a única solução... pelo menos enquanto Morphius e Hypnus ainda vivessem.
- Sim... Se pra mantê-la segura eu tivesse que desistir dela... eu desistiria...
- Ah... mas isso não seria dor suficiente... seria?
- O quê? – Que droga! Ele não se decidia! Isso me angustiava mais que qualquer coisa. Quase pedi pelos chicotes.
- Veja bem Garlock. Separá-lo de Yumi o faria sofrer, mas não muito. Principalmente por quê eu sei, sei que você daria um jeito de burlar a minha vigilância e voltaria a vê-la. Mas... manter você com ela... privando-o de tê-la... isso... isso sim faria você sofrer.
- E como fará isso ô puro-osso.
- Adoro quando tenta me ofender com esses apelidos. São hilários. Mas me diga, o que é mais importante pra você Garlock? Vê-la todos os dias... ou... ouvir sua voz? – Ele dizia isso concentrando uma quantidade grande de energia negra na mão direita. Ele fez sinal pro carrasco descer a corrente e eu fiquei, finalmente, com os pés no chão. As sombras em sua mão envolveram seu braço como uma luva e havia pontas como lâminas. Isso estava ficando muito sinistro pra mim. Mas pensei bem e finalmente falei, sem pensar muito nas conseqüências.
- A voz dela é um bálsamo pra mim. Mas é a visão dela. Poder vê-la, poder enxergar o rosto dela, o sorriso dela. Isso é o que eu mais prezo. Poder vê-la todos os dias!
- Ah... Então... é isso... – Ele sorriu e se aproximou um passo – Eu poderia privá-lo disso. Deixá-lo preso aqui pra sempre, sem lhe conceder uma visão dela, mas eu sei que um dia você escaparia e tudo seria em vão... Então... – ele correu e me socou, bem no meio dos olhos. Senti uma fisgada estranha nos olhos quando ele me socou. O impulso foi tão forte que quebrou as correntes e fui lançado em direção à parede, onde caí de joelhos. Estava livre! Me ergui de olhos fechados. Sentia algo escorrer pelo meu rosto, mas não ligava. Sorri ao pensar que poderia escapar se passasse por Carrau e abri os olhos!
...
Mas não vi nada.
...
Fiquei em choque alguns segundos. Virei a cabeça pra todos os lados e não conseguia enxergar nada. Fiquei com mais fúria ainda quando ele começou a rir.
- Que foi desgraçado? É isso não é? Vai me cegar? IDIOTA! Yumi é uma maga da luz! Essa magia de cegueira não vai me parar por muito tempo!
- Magia? – ele riu ainda mais,gargalhava – Meu caro cachorrinho idiota! QUEM FALOU EM MAGIA? Vamos Galahad! Toque seu rosto! Descubra o que realmente fiz com você!
Senti um frio na espinha ao ouvir isso. Como uma criança relutante, ergui as mãos ao rosto e o segurei entre as palmas. Tateei meu rosto com as pontas dos dedos, até chegar aos olhos... mas o que meus dedos me mostraram me deixou simplesmente estático. Meu rosto estava molhado. Molhado de algo quente, grosso, que escorria dos meus olhos... ou de onde eles estiveram um dia. Um dos dedos da mão esquerda procurou o globo ocular, mas só achou um buraco vazio. O mesmo que a mão direita. Não havia nada pra ser curado. Não havia nada pra restaurar... Carrau me cegara, de uma maneira que sabia que nem eu nem Yumi poderíamos curar. Ele urrava de felicidade enquanto eu escorria pela parede, ainda com o rosto nas mãos. As lágrimas vieram e começaram a arder nas feridas abertas. Anos me livrando desse idiota e ser derrotado assim, tão facilmente... eu realmente devia tê-lo matado quando tive chance... mas agora... apenas a dor era minha companheira, enquanto lágrimas e sangue escorriam pelo meu rosto.
- Viu só! Eu te disse Galahad! Agora sim! Apenas magia Divina poderia restaurar seus olhos! E nem isso você pode arrumar! O último paladino da Terra está velho demais pra ajudar e não há mais como recorrer aos anjos! Eu vou garantir que você não encontre uma cura!
- Seu.... bastardo filho de uma cadela! SEU MONSTRO DO INFERNO!!! EU VOU CORTAR FORA SUA CABEÇA E ARRANCAR SEU CORAÇÃO!!!
Senti uma mão forte me agarrando pelo pescoço e me erguendo, sufocando. Também senti um portal se abrindo às minhas costas e um vento gelado, perfumado com rosas, entrava pelo portal.
- Não consegue sequer perceber quando seu inimigo está se aproximando de você... como vai derrotá-lo?
Ele riu e me jogou pelo portal, me lançando a um queda, que durou alguns segundos. Percebi meu corpo passando pela barreira e, um milésimo de segundo depois, bater em uma roseira. Me mover seria pior, eu não sabia pra que lado estava a casa, não sabia pra onde me dirigir. Poderia vagar pelo quintal como um zumbi, e levar horas pra achar a entrada. Me ajeitei o melhor que pude e usei o que me restava de poder pra cicatrizar as feridas nos olhos. Fechei as pálpebras deixei que a inconsciência viesse ao me auxílio. Dormi no quintal da casa de Yumi aquela noite e, apesar de tudo... foi a noite que melhor dormi até aquele momento.
Acordei de manhã com um grito de Ryu. Abri as pálpebras desejando que tudo não passasse de um pesadelo. Mas a escuridão apagou meus sonhos, e apenas sabia que estava acordado, pelo calor do sol em meu rosto. Senti uma mão amiga me ajudando a levantar. Senti Ryu me ajudando e me apoiei em seu braço.
- Garlock! O que houve cara! Você sumiu tem seis meses! Onde você tava e... – Ele engasgou. Acho que olhou pro meu rosto – Que que fizeram com você mano!!!
- Só me leva pra dentro e me ajuda a tomar banho Ryu... por favor... A Yumi ta aí?
- Não... ela saiu pra treinar com o Dark tem um mês mais ou menos e só volta amanhã.
- Melhor... Me guia... Não tenho energia nem pra me guiar até a casa Ryu...
- Cara... a Yumi vai ter um troço quando ver isso...
Entramos na casa e Ryu me ajudou a me banhar, me deixando deitado na cama. Havia lavado o rosto e tirado, ao menos um pouco, o cheiro que aquela masmorra havia me deixado impregnada no corpo. Ouvi Ryu na porta.
- Mano, vou fazer o serviço da casa. Qualquer coisa me grita. E a Layla não acordou ainda também. Melhor eu ir acordá-la e deixá-la á par da situação.
- Vai lá Ryu, eu vou descansar um pouco... Fiquei muito tempo pendurado...
- Ok. Bons sonhos mano...
Ouvi Ryu saindo e, alguns segundos depois, uma bagunça em um dos quartos no corredor. Layla tinha acordado. Sorri e fechei as pálpebras, apenas pra sentir o sono chegando. Dormi todo o dia... sonhei coisas confusas... e percebi que, em partes, Carrau havia mesmo destruído minha vida....
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N.a: E como sempre, mais um desenho de alguém da saga né! Dessa vez, o pai do Garlock:
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