Redenção - Um Novo Caminho
11 Capítulo 11 – Cilada! A Verdadeira força de Carrau
Notas iniciais
Meus olhos chamejavam. À minha frente, barrando minhas espadas, Carrau me observava transformado no ser de sombras, brilhando seus olhos vermelhos em minha direção. Nossas armas se confrontavam, exalando um calor sobrenatural, queimando o ar ao nosso redor, fazendo algumas centelhas subirem. Às vezes, uma parte de nossas roupas se queimava. Nenhum de nós se movia, mas o ar ao nosso redor rodopiava como um pequeno ciclone de fogo, envolvendo-nos como uma redoma. Rilhando os dentes, percebi que não conseguiria nada daquele jeito. Ele não tinha sido nomeado general à toa. Empurrei Carrau pra frente e dei um salto mortal pra trás, me colocando em posição e observando Carrau deslizar como fumaça e segurar sua foice em posição de ataque também.
- Vejo que andou praticando gasparzinho.[*] Mas só com essas técnicas de luta não vai me vencer. Thanatos não foi capaz, Morphius não foi capaz. – estreitei os olhos e sorri – E você não será.
- Não me faça rir, Pluto.[*] Ainda latindo muito e mordendo muito pouco Galahad! Você verá que não sou como esses que você mencionou. Sou pior. Muito... muito pior.
Rilhando os dentes, comecei a correr em direção a ele e ele voou em minha direção. Nossas lâminas eram borrões prateados no ar, enquanto nos movíamos de um lado pro outro, rodeando-nos, desviando, aparando, atacando.
A sala sofria mais que nós mesmos. O trono estava em pedaços, as cortinas rasgadas, vários vasos despedaçados, cadeiras sem pernas. Enfim, a sala estava totalmente destruída. Com um impulso, comecei a correr pelas paredes, até ficar por trás de Carrau, então pulei, descrevendo um arco sobre ele, e girando meu corpo no ar, desferindo um golpe duplo com as espadas na cabeça de Carrau. Mas ele se tornou intangível, e aplicou uma estocada com a foice, acertando sua parte sem lâmina em minha barriga, me fazendo cair perto da porta. Me ergui e guardei as espadas, esticando as mãos para os lados e concentrando energia negra em cada uma das mãos, formando duas esferas. Carrau pareceu preocupado e colocou a foice em frente ao corpo.
- Energia negra? No reino das trevas? Não acha pouco apropriado Galahad?
- Tá brincado Pluft[**]? – Sorri ao chamá-lo assim, estava me divertindo muito nessa sequência de batalhas – Energia da luz não seria tão efetiva nesse planeta. Mas a energia negra triplica sua força.
Ele engoliu em seco e comecei a correr em sua direção. Estiquei as duas mãos pra frente e pulei, quase encostando nele.
- TENEBRA IMPERIAL!
A parede às costas de Carrau explodiu com o impacto do poder. Ele foi atirado pra fora, no pátio interno da fortaleza. Saí atrás dele e ainda pude vê-lo rolando pelo chão, seu braço direito agora normal e os cacos do anel negro em seu pulso caindo pelo chão arenoso. Me ergui com as espadas em punho e ele também se ergueu, agora compreendendo a extensão de seu problema. Seu braço direito não era o problema, mas sim a metade de seu tórax exposta. Ainda que com a armadura, agora poderia infligir dano a ele. Raciocinei um plano audacioso e comecei a concentrar aura branca em meus braços e a rodear Carrau que segurava sua foice em posição de ataque.
- Se acha muito bom não é Galahad? Mas foi apenas uma pequena vitória. Ainda que meu braço esteja tangível, posso te derrotar!
- Não me faça rir Carrau! Seu blefe é pior que seu estilo de luta! Não vai me vencer! Nem agora nem nunca!
- Veremos Galahad!
Ele voou em minha direção, gritando como uma Banshee[***], atacando com sua foice, girando-a no ar e me atacando, tentando me cortar. Ele atacava para a direita e eu saltava pra esquerda, ele regirava a foice pra esquerda e eu girava pra direita. Eu ria dos ataques frustrados dele. Ele atacou com um corte frontal e eu via chance que tanto esperava. Dei um salto pra trás e rolei pra frente entre um golpe e, saltando e ficando quase encostado com ele de novo, soquei com os dois braços liberando toda a aura branca que havia acumulado.
- FLASH ATACK!!
Um flash de luz branca saiu de meus braços, cegando Carrau por alguns segundos e retirando seu manto de sombras. O choque foi tão intenso que ele foi lançado pra trás um pouco e sua foice foi quebrada ao meio. Sabia que teria muito pouco tempo antes de elas retornarem, então segurei seus anéis, no pescoço e no braço esquerdo e, apoiando meu pé em sua cintura, me lancei pra cima, pegando impulso também em seu ombro, e arranquei as duas, quebrando-as ao meio e passando por cima dele, caindo de joelhos atrás de Carrau, ainda segurando as metades dos anéis e sorrindo.
Me ergui e me virei, jogando os pedaços de seus anéis pra longe. Então saquei as espadas e sorri. O vi prostrado no chão, a capa como uma mortalha a encobri-lo.
- Vamos Carrau. Levante-se. Me enfrente e me derrote como disse que faria!
E ele se ergueu. Como um rei que é desafiado. A capa começou a escorrer pelo seu corpo, apenas um pano simples, mas que agora parecia ainda mais como uma sombra líquida, caindo pelo corpo dele. Eu estava espantado com o que via. Era... era impressionante...
Pude ouvir a capa dele cair no chão, como um pano simples. E então meus olhos o contemplaram, como a ameaça que ele era. Nunca imaginei Carrau daquela maneira.
Ele vestia uma armadura negra, que o cobria do pescoço pra baixo. Seus cabelos eram de um tom azul-claro como o céu, o que achei uma ironia muito grande. Eles desciam até sua cintura e eram lisos, parecia uma cortina azul de seda. Sua armadura, justa em seu corpo, apenas salientava os músculos, que agora percebi serem bem proeminentes. Ele sorria. Não sabia o por quê, mas ele sorria. Olhou pra mim e pude perceber seus olhos vermelhos brasa me encarando. Ele riu, baixou a cabeça e começou a gargalhar. Era muito estranho e me irritava aquela atitude. Será que ele não percebia que estava perdido agora sem sua capa e sem sua foice?
- O quê é tão engraçado ô do lençol! Pirou de vez na batatinha é?
- Você não percebe o que fez Cão! Não percebe o quê libertou agora?
Não entendia, mas então ele moveu as mãos, quase unindo-as, e uma energia negra, reluzente em púrpura e negro, se formou em suas mãos. Temi um ataque, mas ele apenas materializou um elmo... Com a forma de uma caveira de corvo. Ele colocou o elmo e começou a andar em círculos. Isso não estava muito divertido agora.
- Sabe Galahad, a maioria dos guerreiros das trevas, só tem um espírito guia, ou seja, apenas um espírito a delimitar seus poderes. – Ele riu e continuou – Eu, infelizmente pra você, tenho cinco. – Me espantei. Thanatos tinha apenas três! E esse desgraçado tinha cinco? Então como ele era subordinado a Thanatos? Aí tinha coisa. Ele continuou: – E sabe, Galahad, Eu nunca tive que usar esses poderes, a não ser quando lutei contra a Imperatriz da luz. E ela me venceu apenas por ter seis espíritos. Está vendo onde quero chegar Galahad? Você desistiu de seus espíritos de nascença quando se alistou nas trevas e apenas há pouco tempo os recuperou. Aliás, apenas um deles. – ele sorria sinistro. Ele sabia que estava no controle da situação. Já eu engolia em seco. Era verdade isso... – O Lobo, animal símbolo e sua linhagem, ele é apenas um. E com a Pantera são dois... Contra meus cinco? Não acho que conseguiria me derrotar... Afinal, além do Corvo, possuo o Mantis, a Mamba Negra, o Lince Negro e o Falcão negro. Faça as contas Galahad, Habilidade e Agilidade, Agilidade de Vôo, Visão Telescópica, Velocidade de Ataque e Camuflagem. Isso só pra começar!
Engoli em seco e me preparei. Não deixaria isso me impedir. Ele riu e abriu o maior par de asas negras que eu já vi! Deviam ter quatro metros de envergadura cada! Ele riu do meu espanto e estendeu os braços pros lados, olhando pra mim e fechando os punhos. Duas lâminas curvas, como braços de Mantis, saíram das costas de suas mãos e ele levantou vôo. Uivei e me transformei no lobisomem alado, preparando ambas as espadas e voando de encontro a ele.
A fúria de nossos golpes rasgava os ventos. Nossas lâminas se encontravam com tal força que pareciam trovões se chocando. Meus olhos ferviam de raiva e encontravam os de Carrau, ativos, brilhantes, insanos. Nossas lâminas parecendo borrões acinzentados, corriam os céus, formando ondas de impacto titânicas. Nos afastamos, ofegantes. Eu sorria, mas não baixei a guarda. Era hora de revidar e eu comecei a atacá-lo, com esferas de energia branca. Ele rebateu algumas mas foi pego por uma maior. Eu me aproximei rápido e comecei a socá-lo, na barriga, no peito, no rosto, nos braços. Ele cuspia sangue. Segurei seus punhos e concentrei minha energia ali. Houve uma explosão e ele voou longe, parando a alguns metros acima do castelo. Suas manoplas[****] estavam destruídas, assim como suas lâminas. Eu estava confiante, mas o destino sempre me prega peças cruéis. Dessa vez não foi diferente. Novamente ele me atacou, me forçando a mergulhar. Foi quando tudo deu errado. Ele veio atrás de mim, mas não com as lâminas, com esferas negras. Elas o circundavam e rodopiavam, giravam em todas as direções ao seu redor e ele se aproximava. Achei que ele queria me aprisionar no meio do caos que elas eram, mas ele as lançou contra mim, um ataque difícil de escapar, do qual eu não consegui.
Elas acertaram cada parte minha, cada membro do meu corpo, me lançando ao solo de Darkoron. Senti que uma chuva de esferas Caía sobre mim, me acertando, me rasgando. Senti alguns ossos quebrando. Perdi a visão por alguns segundos devido ao impacto e, quando os abri, vi a mão de Carrau a milímetros da minha cabeça. Ouvi sua risada e suas palavras:
- Imperia Mortis.
Minha consciência desapareceu. Apenas havia a escuridão.
- Olha pra ele. Parece um peru de natal pronto pro abate.
Meus ouvidos voltaram antes de mim. Ouvia vozes. Uma era de Carrau.
- Disse que não o mataria Carrau. Eu ainda tenho que protegê-lo, afinal esse peste é meu irmão mais novo.
- Meio irmão Hypnus, meio irmão.
- Que seja.
Ouvi passos deixando o lugar e deduzi que eram de Hypnus. Forçando os olhos a funcionar, os abri e me vi preso por correntes uns quatro metros acima do chão, no que parecia ser uma das masmorras de Karum. Olhei pra baixo e vi Carrau olhando pra mim sorrindo.
- Não esperava aquilo de você. Sério. E olha que você enfrentou Morphius antes. Devia estar cansado.
- Onde estou Carrau?
- Não percebeu ainda? Oras, é meu convidado na Masmorra de Thanatos. – Ele disse com um falso tom anfitrião. Comecei a ficar preocupado – Sabe, você destruiu minha foice, minhas manoplas e meus anéis negros. Sabe quanto tempo vou levar reconstruindo tudo isso? Um ano, ou mais.
- E daí? Acha que pode me prender aqui? Essas correntes não vão me segurar!
- É claro que não. Por isso providenciei pra que você sofresse muito, caso tentasse. Está sentindo algo Galahad? Dor? Fisgadas?
- Não. – Parecia confuso. Onde aquela serpente venenosa queria chegar? – Deveria?
- Ainda não. É cedo. O anestésico ainda faz efeito. Daqui a alguns minutos talvez. Sim... daqui a alguns minutos. — Anestésico? Agora sim estava ficando sinistro. – Enquanto isso. Quer saber de um segredo? – fiz uma cara indiferente. Ele riu e continuou – Sabe, Thanatos achava que a morte, era o pior castigo que um inimigo podia receber... Já eu... não penso assim. Sabe Galahad, você tem sido uma pedra no meu sapato já tem um tempo. E agora, eu vou tratar você como o tormento que é.
Ele fez um gesto com as mãos e várias estacas de sombra surgiram do chão, uma encostando no meu queixo, cortando um pouco. Ele sorriu e a abaixou, apenas o suficiente pra que eu percebesse sua presença, a milímetros da minha pele.
- Essas estacas vão impedir que fuja.
Ele tinha razão. Se eu movesse demais e quebrasse as correntes, não teria como escapar das estacas, sendo provavelmente empalado pela primeira e morrendo como um peixe idiota. Teria que esperar uma brecha. E ele continuou. Meus deuses, será que ele não cala a boca?
- Sabe. Eu sempre pensei que haviam coisas piores que a morte. E... realmente.. há... –comecei a sentir uma certa fisgada nas asas. Em diversos pontos. Era como se houvesse agulhas nelas. – Sabe, privar a pessoa de algo que ela goste, pode ser mais torturante que arrancar-lhe um braço ou perna... por vezes... até mais divertido. – Ele sorriu. A sensação aumentava. Era uma dor fina, que incomodava. Algo suportável mas muito desagradável. Tentei virar a cabeça, mas a estaca roçou em minha bochecha e no ouvido, me fazendo voltar o rosto rápido e me cortar um pouco. Ele sorriu e estreitou os olhos juntando as pontas dos dedos. – Ótimo... o efeito do anestésico está passando. Já, já vai sentir. – E eu comecei a sentir, algo me repuxava pra cima. Além das algemas, algo segurava minhas asas. Ele sorriu e abaixou mais a estava que roçava em minha garganta e eu pude olhar...
Antes não tivesse feito. Presas em toda a extensão das asas, começando a rasgar um pouco a pele, haviam ganchos, anzóis e várias ferrarias tortas, presas ao teto por correntes e segurando as asas acima do limite da corrente que segurava meu pulso, fazendo com que meu corpo as esticasse, e fazendo com que as ferragens rasgassem a carne e puxassem os ossos. O sangue que escorria das feridas era absorvido pelas penas e não chegava às costas, mas eu podia ver que a dor estava apenas começando. Olhei pra Carrau. Ele sorriu. Nunca precisou das estacas pra me manter ali, afinal, se me livrasse das correntes em meus pulsos, arrancaria as asas.
- Olhe Garlock. Parece que não tem escolha a não ser ficar aqui... – Ele disse isso como alguém que diz que a chuva não vai passar. A dor aumentava e já conseguia sentir os anzóis em minhas juntas se movendo entre os ossos. Nada agradável. Muito doloroso – E acho que terei que ser o melhor anfitrião possível não é?
Ele se aproximou de mim e, fazendo as estacas baixarem, puxou meus pés, fazendo com que alguns anzóis rasgassem mais a pele e que alguns puxassem os ossos, como se quisesse arrancá-los. Segurei um gemido. A dor agora era lancinante. Lágrimas vieram aos meus olhos e percebi, nesse momento, que estava perdido. Senti mais uma dor e uma pontada muito forte na asa esquerda e gritei. Carrau olhou e viu o que era.
- Oh... Sua asa esquerda está muito rasgada Galahad... Não vai conseguir voar com ela... Me desculpe, acho que vou ter que dar um jeito nisso. -Ele sorriu de um modo tão sinistro que senti um arrepio percorrer meu corpo por dentro. Ele abriu as asas e flutuou pela sala, segurando uma faca prateada. Se aproximou da asa esquerda e segurou em sua base. Eu suava frio e ele apontou a faca pra asa. Percebi o que ele ia fazer antes que fizesse, mas não tive sequer forças pra gritar. – Calma Galahad. Isso só vai doer..... MUITO!
Foi pior do que pude supor. Ele não cortou minha asa fora, o que seria rápido e muito doloroso. Ele ENFIOU a faca em minhas costas, bem rente à junta da asa com a omoplata, fazendo uma espécie de alavanca com a ponta da faca, enquanto a afundava cada vez mais, deslocando a junta e rasgando a cartilagem que a unia. Urrei como um condenado. O sangue escorria pelas minhas costas, pelas pernas e escorria pro chão. Ele mexia com a faca pra todos os lados, tornando minha dor cada vez maior. Então começou a cortar em volta da junta, devagar e em cortes pequenos.
- Sente isso Galahad? Isso NEM se compara ao que te espera. Não se preocupe, não vou matá-lo... Isso seria um alívio pra você... Você vai sofrer coisa pior... muito.... muito PIOR!
Ele enfiou a faca novamente. Meu grito ecoou pelos corredores do castelo e senti meu lado esquerdo ficar mais pendurado, puxando a asa direita. Ele pousou e jogou a asa esquerda no chão, á minha frente, como um troféu macabro. Ativou as estacas de novo. Olhou pro carrasco e deu a ordem:
- Desçam a corrente dos braços dez centímetros. Veremos se essa asa suporta tanto peso.
Ele ria. Saiu dali e me deixou pendurado como uma carne de abate. A noite passou lentamente e minha asa esquerda jazia no chão, morta, soltando algumas penas lentamente.
A noite foi de dor. O dia seguinte de danação. Alguns ossos da minha asa haviam saído pela carne rasgada durante a noite. Eu já nem tinha forças pra gritar. Ele repetiu o processo da asa esquerda na direita, e eu me senti perdido.
Na verdade... eu estava perdido...
O tempo passou devagar, como se saboreando as minhas torturas. Ele se divertia com isso a cada dia, a cada noite, a cada segundo. Depois da terceira semana, perdi a noção do tempo... e simplesmente me deixei ser torturado. Pelo menos tinha a certeza que, enquanto me torturava, ele não teria tempo pra atazanar Yumi. Baixei a cabeça, e mergulhei na escuridão...
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