Redentor
13 Via Crucis - Ato VI : Evocações
Notas iniciais
A noite caíra há pouco, e a escuridão já tomara conta do Vale, de tal forma que foi necessário um jipe levar Aldebaran à sua cabana, distante do Tabernáculo cerca de sete quilômetros. Isso porque o ex pastor recebera de Hades a incumbência de abrigar em seu lar o novato “atacado” pelos fiéis, após ter sido chamado de “anjo” pelo Redentor.
O veículo parou diante da cabana do brasileiro, cercada de árvores coníferas. Notava-se a proximidade do riacho que desembocava no rio Shilah pelo som das águas corredias. Aldebaran e Milo desceram do carro, agradeceram aos seguranças, que partiram em seguida. Maquinalmente, o policial elevou os olhos para o véu de estrelas estendido no firmamento. Após abrir a porta, o “gigante gentil” chamou:
—Venha, Mikael. É tarde. Precisamos descansar, amanhã você contempla as estrelas.
Concordando, o loiro seguiu-o; adentrou a residência, completamente nas trevas. O ex pastor acendeu logo um lampião próximo à entrada. Chegou a outros, acendendo-os. Logo uma tênue iluminação dourada tomou conta do ambiente. Enquanto Aldebaran foi iluminar os demais cômodos, Milo permaneceu na sala, observando ao redor. A casa era rústica, como se poderia supor, mas aconchegante e bem cuidada. Tapetes de pele e de lã cobriam o assoalho, poucos móveis de madeira se distribuíam, um deles com uma grande Bíblia aberta apoiada em uma estrutura trabalhada em pedra. Um sofá coberto por uma manta xadrez e uma poltrona antiga de feltro verde musgo marcavam o centro do recinto, bem diante da lareira. Sobre esta – que Milo adoraria ver acesa — vasos de flores vistosas, tão belas que pareciam artificiais. Remeteu-as a um toque feminino de que Aldebaran não queria se desfazer. Olhou em volta, imaginando que ali vivera uma família. Uma família bela e feliz, extinta por uma fatalidade sem sentido.
Acariciou as pétalas de uma magnífica flor lilás, admirando-se de quão aveludadas eram ao toque. Uma dor pungente atingiu-lhe o coração, ao se lembrar do filho e até mesmo da ex esposa, com quem realmente gostaria de ter permanecido. Certo, nunca amara Natassia, mas será que não teria sido mais feliz se tivesse mantido o casamento? Sim, porque ainda que tivesse sido dela a decisão pelo divórcio, havia sido ELE o causador... ela era atraente, inteligente, responsável, boa mãe... ELE fora o errado. Displicente, ausente, traidor. Por que não fora capaz de valorizar sua família? Aldebaran o fizera… e foi despojado da ventura de continuar com os seus...
— Mikael?
O loiro teve um breve sobressalto com a aproximação do brasileiro detrás de si.
— Ah! M-me desculpe. Eu não deveria ficar mexendo nas suas coisas... – escusou-se, constrangido.
— Não, que isso! Sem problema, a casa agora é sua, pode olhar o que quiser, ora. – Afirmou em meio a um riso que, em seguida, tornou-se um sorriso melancólico. – São lindas, não?
— Sim, lindas mesmo.
— Minha mulher e minha filha sempre colhiam as mais lindas flores para adornarmos o lar. Aliás, meu conhecimento de plantas medicinais provém da minha falecida esposa, já te disse. Ela recebeu o nome de Agar quando veio para cá. Seu nome cherokee era Aiyana, que quer dizer “flor eterna”. E foi no que se tornou... – sorriu com uma doçura nostálgica. – Aiyana era a verdadeira chefe da casa, apesar de nossa religião pregar o contrário: que deve ser o homem o “cabeça da família”.
— Pelo jeito, isso não te incomodava nem um pouco.
— Ah, não. Não mesmo. – Riu. – Éramos felizes assim. Às vezes eu achava que... considerando onde vivemos... era felicidade demais. Porque a norma aqui no vale é a austeridade, né... mal sabia eu que era assim porque duraria... pouco tempo.
Desconfortável, Milo não encontrou o que dizer.
— E você, Mikael? Tem filhos?
— Eu? Não. Não tenho. – Respondeu, com segurança.
— Ah, não sabe o que está perdendo. É a melhor coisa da vida, meu amigo. A melhor coisa da vida!
Como o agente saberia disso? Ele sequer se permitira descobrir...
“Hyoga...”, pensou, entristecido. Se ao menos voltasse no tempo!
— Nunca se casou? – Aldebaran indagou, curioso.
— Não.
— Olha, não me entenda mal, mas isso é bem estranho. Quer dizer, não que você seja bonitão assim como eu, mas até que é um cara razoavelmente apanhado...
Achando graça na pilhéria, o loiro riu com gosto. E desfiou o roteiro:
—Tive que assumir os negócios do meu pai assim que saí da faculdade. Mal tive tempo para um namoro, quanto mais para um casamento! Depois que toda minha família se foi, tudo ficou ainda mais complicado...
O sorriso do brasileiro murchou.
— Você também perdeu sua família?
— Sim... não como você, de uma vez, mas... bem, não quero incomodá-lo com histórias tristes.
— Que incomodar o quê. Vem, me conta enquanto preparo algo para comermos. Deixei um coelho já temperado me esperando para o jantar. Eu não sabia que teria uma companhia, senão teria deixado algo maior...
— Não se incomode com isso. – Retrucou o agente, que à mera menção de carne salivou.
Foram para a cozinha, que parecia saída de um filme sobre os pioneiros americanos. Toda em pinho, panelas de cobre, barro e estanho penduradas ao lado de peças de caça salgadas. Não havia geladeira para a conservação, sendo aquela a única maneira, pelo menos até a chegada do inverno, quando o frio de -20° colaborava para tal.
— Não sei se gosta de coelho... gente da cidade não costuma mais comer coelho, penso eu.
— Não tenho frescura pra comer, pode acreditar. Tenho certeza de que ficará delicioso.
— Qualquer coisa é melhor do que a comida dos refeitórios comunitários, né?
Sem jeito, novato admitiu:
—Bom… eu não quero passar por mal agradecido ou murmurador, mas...
O grandalhão soltou uma gargalhada.
— Sem problemas, Mikael. Um dia estive no seu lugar, o que acha? Argh, até hoje lembro dos mingaus empelotados, das sopas aguadas, a pouca carne cheia de nervos, tudo insosso como papel molhado...
— Já comeu papel molhado pra saber? – Brincou Milo, descontraído.
— Deveria ter tentado, aposto que teria sido melhor que comer aquelas lavagens.
Rindo mais, o policial pensava em como Aldebaran diferia das demais Ovelhas. Se bem que... ele estava tendo mais contato com o ex pastor, e agora, na intimidade de seu lar, podia vislumbrar uma faceta que consideraria inexistente em um seguidor da Aurora do Novo Porvir. Talvez alguns dos colonos, sem o crivo julgador sob o qual ficavam quase todo o tempo, fossem assim também, quem poderia saber?
— Então, me conta sobre a sua perda. – O brasileiro incitou, escolhendo uma panela de barro. – É bom para desanuviar o coração.
Milo narrou todos os infortúnios de "Michael Segerson”, enquanto o anfitrião preparava a refeição. Com exímia habilidade, Aldebaran destrinchou o coelho, depositando os pedaços no fundo do tacho escolhido. Levou-o a cozer em um antigo fogão a lenha de ferro fundido, que o agente só havia visto em filmes e museus. Sempre atento ao relato do hóspede, o brasileiro cortava cebolas, cenouras, vagens, aspargos, a fim de agregá-los ao cozido; recusara a oferta do Novato para ajudá-lo. O loiro admirou-se com a desenvoltura do novo amigo – será que já poderia falar assim? Claro, considerando-se como “Mikael”...
Quando terminou de contar a história do “pobre menino rico de Red Meadow”, deparou-se com a expressão consternada do outro.
— Você deve ter sofrido muito, caro Mikael. Mas nada acontece sem que seja da vontade de Deus... felizmente está, agora, entre irmãos.
— Sim, estou. É uma bênção maravilhosa, jamais esperaria por semelhante graça. – Simulou um ar contrito.
— Certo, agora só faltam uns arremates... – Comentou o ex pastor, moendo pimenta branca sobre o tacho. – Vou fazer um purê de batata. Antes, deixe-me mostrar o seu quarto e o banheiro. Sugiro que tome um banho e tire esses curativos fajutos. A pomada que te dei será muito melhor.
— Com certeza! Pena que aquela que você me deu as Ovelhas levaram... depois de tanto trabalho que deve ter tido para fazer...
— Eu tenho um pouco ainda da que fiz. Já coloquei a água para esquentar. Tome você o banho primeiro, aplico o remédio, e em seguida me banho. Até lá está tudo pronto.
O quarto que a partir de então seria ocupado por “Mikael” tinha o triplo do tamanho do anterior. Em cima da cama simples, porém bem mais convidativa que a do alojamento, seus novos pertences. Tomando a toalha, Milo foi se limpar. Seria o melhor momento do dia, talvez até melhor que alimentar-se com propriedade; sentia-se imundo após os acontecimentos absurdos daquele dia.
Pessoas agarrando-o, tocando-o imperiosamente.
Pessoas hipócritas, demagogas, enganadas, iludidas, tripudiadas.
Havia pessoas de todo tipo naquele lugar pavoroso. Não podia se esquecer do próprio Aldebaran; bondoso, desprendido, bem humorado... e solitário.
E o que dizer do Redentor?
Até a farsa carnalizada fora ludibriada!
“Mesmo ele sendo a figura central desta seita de malucos, mesmo sendo ele o DEUS deste hospício... foi o único que pediu PERMISSÃO pra me tocar. Que ironia bizarra!”, pensava, despindo-se. Meteu-se rapidamente no chuveiro, pulando de frio. Feita a prévia higienização, meteu-se com volúpia na banheira. Como sentira falta de um bom banho quente! Só faltou chorar de felicidade. Havia um sistema de aquecimento a carvão no banheiro de Aldebaran, um luxo que Milo jamais imaginaria presente na casa de alguma Ovelha. Deixou pender a cabeça, sem se importar se estava tarde para lavar os cabelos.
Enquanto relaxava como há tempos não conseguia, lembrava de seu encontro com o “messias”. Algo no rapaz despertava-lhe compaixão, e ele quase se culpou por tê-lo julgado um canalha dissimulado como os que orquestravam aquele circo de horrores. Bom, ele não tinha uma bola de cristal, tinha? E a coisa toda estava BEM DIFERENTE de como costumavam ser as histórias de falsos cristos. De acordo com as pesquisas, os que se faziam passar por “messias” em geral situavam-se em dois grupos: o primeiro, dos que REALMENTE acreditam que são, devido a problemas psicológicos ou mentais; o segundo, dos abertamente farsantes, que fingem a coisa toda, inclusive recorrendo a truques pirotécnicos.
Camus não parecia se encaixar em nenhum dos grupos. Provavelmente, fora convencido pelo próprio pai, fundador da seita, de que possuía a essência de Jesus Cristo, e, pior ainda, de que deveria se submeter a uma série de martírios para repetir o feito do Salvador. Isso inaugurava uma terceira categoria, por certo...
E por que justamente esse homem, que era a espinha dorsal de uma seita já influente mundo afora, parecia tão afetado por ele? Foi mesmo difícil deixar o Tabernáculo para a casa de Aldebaran... ao anúncio de que seguranças haviam chegado para acompanhar o novato e a Ovelha, Camus adiantou-se para Milo, detendo-se à sua frente. O policial parou de andar, esperando que o jovem lhe dissesse algo, mas nada foi proferido. Encarava-o de modo tão insistente e enigmático que o agente perguntou:
— O... o que foi?
Os olhos rubros cintilaram. Camus abriu a boca como se fosse falar enfim. Pacientemente, o loiro esperou. Palavra alguma, porém, saiu dos lábios do Redentor. Este abaixou a cabeça, e retirou-se da frente de “Mikael”. Simpático, o policial lhe sorriu e se despediu:
—Tenha uma boa noite, Messias.
Retirou-se do quarto com Aldebaran e os homens que os escoltariam até a cabana do ex pastor. Ao descer as escadas, Milo sentiu-se observado: olhou para cima. Lá estava o Redentor, cercado por seus irmãos e por assessores de seu pai, seu olhar entre condoído nunca abandonando o agente.
Um olhar que guardava um quê de súplica.
Teria sido impressão?
“Ele realmente acredita que eu seja o anjo que lhe aparecia nos sonhos. Isso eu entendi, ainda que tenha consciência de que sou um homem como ele, nascido na Terra e não vindo do céu... não sei como processa essas coisas na cabeça. Mas a julgar pelo que vi, ele foi criado em uma realidade totalmente diferente da normal. O coitado não sabe nem a própria idade... não conhece coisas do mundo, nem nada. Tem sido manipulado há tempos para acreditar nesta merda toda.”, refletia-se o loiro, esfregando-se com uma bucha vegetal. Olhou para a janela; a lua amarelada encarou-o de volta.
“Faltam umas cinco semanas pro Saga entrar em contato com a secretaria do Vale, se fazendo passar pelo mesquinho tio grego de Michael Segerson. Até lá, certamente terei algo de concreto para apresentar. Os hematomas naquele rapaz me dizem isso. Sem contar as agressões sofridas pelos colonos... Samuel... eu próprio!”, pensava. Não sendo permitido portar agendas ou calendários, teria de marcar a passagem das semanas com os domingos, os dias especiais em que o Redentor falava aos seus fiéis. “Eu não posso nem dar uma de Robinson Crusoé; os miseráveis não nos deixam ter lápis nem cadernos para anotar nada.” (1)
Deu por encerrado o banho. Enxugou-se, vestiu uma calça de bege de tecido ordinário e uma semi-bata verde clara. Penteou os longos cabelos, tarefa bem difícil pela ausência de condicionador... mesmo assim, estava satisfeitíssimo por se sentir limpo. Deixou a sala de banhos, indo até a cozinha, a mesa já arrumada para o jantar.
— Aí está você. Parece até um novo homem. – Comentou Aldebaran, sentando-se.
— É exatamente como se sinto, meu amigo.
— Espero que não se importe de eu tomar meu banho depois que comermos. Senão a comida esfriará.
— Claro que não, o que mais quero é cair logo de boca nisso aí que você fez. O cheiro está maravilhoso! – O policial tomou lugar à mesa, animado.
— Espero fazer jus à sua expectativa. – Riu o brasileiro. Uniu as mãos diante do rosto e propôs – Você faz a oração ou eu faço?
— Ah... pode fazer.
Claro, a prece antes da refeição não poderia faltar.
Terminada a oração, serviram-se. O aroma não ludibriara o agente, a comida estava estupenda. Quase verteu uma lágrima ao sentir a explosão de sabores em sua boca. Há semanas não experimentava tal sensação!
— Se você cozinha sempre deste jeito, melhor eu intercalar o trabalho na lavoura com corridas pelo campo. – Brincou Milo, deliciado. O anfitrião serviu-lhe um copo de limonada.
— Eu não cozinho sempre assim; costumo ser MELHOR.
— Estou em dúvida se isso é soberba ou uma ameaça.
— É apenas a verdade.
O jantar transcorreu tranquilo e leve, como se os últimos dias não tivessem sido os mais aberrantes da vida de Milo. De sua parte, Aldebaran não fazia menções aos ocorridos naquele domingo. Ao agente isso não passou despercebido, e ele tampouco rememorou-os.
Recolheram-se pouco depois, afinal, deveria estar de pé antes das cinco horas da manhã.
*************
Foi com alegria que Milo se deu conta, após uma bela espreguiçada ao acordar, de que não precisava mais se dirigir ao refeitório comunitário.
O cardápio oferecido por Aldebaran não tão variado, no entanto, estava a anos luz do mingau insosso, do café aguado e do pão endurecido servidos aos que não possuíam cabanas como o brasileiro. Este serviu café, leite, ovos mexidos e pão de milho com geleia de amoras ao novato, que tudo devorou feliz.
Após a refeição, deixaram a cabana e andaram por uns vinte minutos, até que chegaram a um galpão já repleto de fiéis para o culto matinal. Ali se reuniam aqueles que trabalhariam nas plantações de batatas, leguminosas, milho, cenouras. Bastou aparecerem na porta para que dezenas de cabeças se voltassem em sua direção. Maquinalmente, Milo assentiu em um cumprimento mudo, ao que viu semblantes se iluminarem, olhos se arregalarem. Percebeu o fascínio fanático naquelas miradas; estacou de receio. A enorme mão de Aldebaran pousou em seu ombro, em um gesto de encorajamento. O loiro, nitidamente ansioso, olhou para ele, que lhe sussurrou:
— Está tudo bem. Ninguém vai te fazer nada, estou aqui.
Um tanto sem jeito, o agente concordou. Adentraram o recinto, sob intensa observação. Juntaram-se aos fiéis que, à chegada do reverendo responsável pelo devocional, deixaram de encarar “o anjo”. Milo respirou aliviado. Bem alimentado, encarou até com mais disposição aquilo que considerava uma modalidade de tortura: um culto às seis horas da manhã, e antes de as Ovelhas se entregarem aos seus pesados fardos.
Findo o culto, aquele grupo foi para as lavouras correspondentes. Os cerca de 2500 habitantes do Vale distribuíam-se pelos mais variados postos de ofício – plantações, criação de animais, abatedouros, produção de leite e derivados, apicultura, granjas, construção, manufaturas, dentre outros – ficando os locais de culto matinal perto de onde passariam o dia trabalhando. Ao caminhar rumo à área de cultivo de batatas, Milo viu-se rodeado pelos fiéis, sempre com os olhares fixos e perseguidores. O agente optou por ignorá-los. “Quanto menos fizer caso disso, melhor.”, pensava, incomodado com o assédio contido e silencioso. Bom, era melhor do que ser agarrado e puxado daqui e dali, quase sendo desmembrado, afinal...
Quando foi com os demais pegar sua enxada, Gideão e outros supervisores estremeceram diante do “anjo do Redentor”. Caíram de joelhos perante um atônito Milo.
— Perdão! Perdão, ó anjo do Senhor!!! – Clamou um deles, quase esfregando a cara no chão.
— Perdoe-nos por tê-lo castigado tão severamente na sexta-feira! – Implorou outro, unindo as palmas em súplica.
— Anjo de Deus, Anjo de Nosso Redentor, eu te peço perdão por ter te açoitado! Nunca faria aquilo se soubesse quem você era!!! – Gideão choramingou aos pés do espantado policial.
Os lavradores fizeram-se contritos perante a cena.
— Não... tá... tá tudo bem... – Tartamudeou Milo, balançando as mãos, querendo ardentemente se livrar da embaraçosa situação. – vocês... só estavam cumprindo com seus deveres... eu...
— Me perdoe, Anjo do Redentor! Eu o denunciei! Fui eu que falei que você tinha sumido! – Gritou um dos colonos em prantos. Outros a ele se seguiram, lamentando-se e pedindo perdão ao novato. Quando começaram a se aproximar do loiro, Aldebaran se interpôs, caprichando na expressão intimidante. Sua voz de trovão se fez ouvir:
—Irmãos, lembremos do que disse o Grande Pai Hades: ele não quer manifestações idólatras entre nós.
Aquelas palavras fizeram-nos estremecer. Pouco a pouco foram para suas posições de labuta, de posse das ferramentas de trabalho. De igual maneira os supervisores tomaram seus lugares, de quando em quando olhando ora para o “anjo”, ora ao redor, temerosos de que sua veneração tivesse sido testemunhada por algum assessor próximo de Hades.
Aliviado, Milo virou-se para Aldebaran.
— Obrigado.
— Não há de quê. Vamos, muito serviço nos espera.
Pegaram enxadas e se dirigiram para a lateral do roçado. A caminho, Milo certificou-se de que estavam a uma média distância dos outros lavradores e disse em voz baixa:
— Fico feliz em saber que você não acredita que eu seja um anjo.
— Quem disse que não acredito?
— Hã? Mas… pensei que…
—Se o Messias disse que você é um anjo, como eu poderia achar que não é?
— É... vendo por esse lado, dá pra entender porque acredita. – Murmurou, desanimado. Aldebaran lhe parecera tão sensato e equilibrado, tão diferente daquelas pessoas cegas!
— Eu sei que você não é um anjo como os que vemos na Bíblia. Mas se Deus decidiu enviar Jesus mais uma vez ao nosso mundo, só que encarnado em uma pessoa comum, talvez tenha decidido fazer o mesmo com você. É como o próprio Redentor falou: é um mistério de Deus.
— O Grande Pai prometeu desvendá-lo.
— Sendo a ponte entre o Divino e o Terreno, não duvido que o fará. Ele recebeu a Revelação sobre o Redentor do próprio Anjo Gabriel. Ele fundou nossa igreja, se há alguém que poderá, no momento certo, entender o que se passa...
— Será ele. – O policial completou, torcendo para que o assunto se extinguisse, pois já se aproximavam de outros colonos. Sempre observados, agora de forma mais discreta.
O dia avançou, sem maiores contratempos.
À tarde, os Arautos passaram por onde Milo colhia os tubérculos. Ele teve a vívida impressão de que foram a mando de Hades, para certificarem de que a presença do “anjo” não estava causando comoções no campo. Viu-os conversando com os supervisores, sempre olhando para ele. Devido à distância, não poderia saber o teor da conversa. Surpreendeu-se ao ver Chrysaor e Albior acenarem para ele. Acenou de volta, pensando “Esses até que parecem ser gente boa. Posso estar enganado, claro.”
Bem, nada de distrações. Tinha que continuar com a comédia de “Ovelha novata que quer mostrar serviço”...
Mesmo que já estivesse morto de cansaço.
*************
A belíssima mulher de pele de porcelana estirou-se lânguida ao lado do sogro. Este sorriu embevecido e a beijou com tal volúpia que a fez comentar, assim que pôde:
— Não me diga que quer outra vez!?
— Não me diga que tem alguma dúvida disso!?
Pandora riu:
—Deus, por que Radamanthys não poderia ter herdado um pouquinho desse seu fogo? Um pouquinho, ao menos?
— E isso faria diferença? Você não ama ninguém.
Longe de se ofender, a jovem retrucou, orgulhosa:
— Não mesmo. Mas amo sentir prazer. E nisso, você é o próprio Deus.
— Sem blasfêmias, por favor...
Ela acariciou o rosto do pai do marido, enquanto este prosseguia:
— Ocorre que Radamanthys é extremamente dedicado à causa da Aurora do Novo Porvir. A vida dele é Camus e a Igreja. Isso é mais uma virtude do que um defeito, por mais que deixe a desejar como esposo.
— Sabe qual a real natureza da fixação dele por Camus, não sabe?
Hades afastou-se da nora, sentando-se na cama. Pegou um maço de cigarros em cima da mesinha de cabeceira; ofereceu um à amante.
— Lá vem você com suas insinuações maldosas. Reconheço que Algol tenha se desvirtuado, nunca foi um menino equilibrado, afinal... mas até mesmo isso faz parte da missão de Camus. Mas Radamanthys! Ele é TODO dever, não há nada nele que seja interesse próprio. Quando sevicia o irmão, é pelo Plano, não por lascívia. – Soltou a fumaça, que espiralou sob a tênue luz dos abajures.
— Você nunca seria enganado. Aposto que fala isso para que eu não deixe o seu filho de vez.
Dando um sorriso perverso, o líder perverso replicou, tácito:
— Sabe que tal atitude mundana e egoísta lhe custaria A VIDA, não sabe, minha bela?
O sorriso da nora arrefeceu. Ela desviou o olhar, tragando o cigarro com ímpeto.
Batidas à porta surpreenderam Hades. Nunca que um empregado ousaria incomodar o Grande Pai estando este encerrado há horas em seu quarto. Em tom indulgente, falou:
— Espero que haja um EXCELENTE motivo para me importunar...
— Me perdoe, senhor Hades, mas seus filhos insistem em falar com o senhor. Não consegui fazer com que fossem embora... – Explanou o criado, com voz trêmula.
“Seus filhos”.
Camus não sairia de seus aposentos, pois era dia de leitura e meditação. Além do quê, não se encontrava nele a faculdade de ser INSISTENTE. Logo...
— Radamanthys e Algol... – Pandora revirou os olhos. – Juntos... não deve ser coisa boa.
— Cale-se, vá abrir a porta.
Ela se levantou, contrafeita. Sequer se importou em jogar um robe sobre o corpo níveo e perfeito; foi atender o marido e o cunhado inteiramente nua.
Algol arregalou os olhos, sorrindo maliciosamente. Não se furtou a analisar a jovem de alto a baixo. Por sua vez, o mais velho daquilo não fez caso algum. Mal considerou a esposa despida, tampouco o fato de assim estar no quarto do Grande Pai. Não era nenhuma novidade, afinal.
A despeito da postura dos filhos, que sugeria de fato alguma emergência, o líder religioso permaneceu confortavelmente deitado, envolto nos lençóis negros de seda.
— Que vocês dois andam tomando certas atitudes destemperadas de uns tempos para cá, eu já havia percebido. Mas que haviam perdido totalmente a noção de LIMITES, é nova até para mim. Que seja EXTREMAMENTE importante o motivo pelo qual vieram até aqui sem serem chamados, e, pior ainda, insistirem em me perturbar. Ou então, cuidarei pessoalmente da punição de vocês. – O tom fleumático destoava do conteúdo da mensagem.
Sem aparentar o temor que o rosto do caçula estampou, o primogênito tomou as rédeas da situação:
— Senhor meu pai, viemos falar sobre Mikael. Perdoe-nos por vir incomodá-lo na intimidade de seu quarto, jamais seríamos tão insolentes não fosse uma questão urgente. E como o senhor partirá para Nova York esta noite, preferimos vir o quanto antes, pois não sabíamos se teríamos tempo para tratar do assunto.
— Deve ser sério mesmo, só agora ele falou mais do que falou comigo um ano inteiro. – Zombou Pandora, indo buscar algo para cobrir a nudez.
— Bem, o que tem Mikael? Aconteceu algo relacionado a ele hoje também? Algum tumulto? – Hades quis saber, com leve interesse.
—Hã... hoje não. Nada aconteceu. – Admitiu Algol, sem jeito.
— Nesse caso, que vieram me contar sobre o rapaz?
O caçula aproximou-se para argumentar:
— Senhor meu pai, as Ovelhas estão desenvolvendo uma certa... devoção a ele. Ontem, algumas invadiram o alojamento onde ele ficava e levaram tudo que lhe pertencia, e...
— Disso eu SEI, seus idiotas. Por que acham que permiti que ele ficasse afastado de residências comunitárias, bem isolado com aquele macaco dos trópicos? – O mentor da seita apagou o cigarro em um cinzeiro de prata, expelindo o último jato de fumaça. – Sei de TUDO que aconteceu ontem.
— Isso aconteceu ontem, Grande Pai, mas o senhor sabe com que intuito levaram as coisas de Mikael: para serem RELÍQUIAS! – Algol persistiu no raciocínio. – Esses objetos estão sendo cultuados HOJE. Soubemos de reuniões secretas para visitação às “relíquias do Anjo do Redentor.”
Hades apontou para seu roupão vermelho pendurado em uma estrutura de metal fundido. A nora apanhou-o e o entregou a ele. O líder religioso vestiu-o assim que se ergueu do leito.
— Os Sentinelas aos quais ordenamos que observassem as áreas da propriedade frequentadas por Mikael informaram que os fiéis ficam em estado de graça só em vê-lo passar. Soubemos de pessoas que...
— E tumulto, Rada, teve? Desordem, balbúrdia, escândalo? – Hades gesticulou impaciente ao inquirir.
— N-não, mas...
— Os Arautos estiveram na lavoura onde Mikael trabalha e garantiram que estava tudo perfeitamente normal.
— Esses idiotas interromperam nossa festinha particular por NADA, Grande Pai.
— Cale-se, Pandora. Sirva-me um uísque. Duas pedras de gelo.
— Sim, meu senhor.
— Escutem... – O líder religioso voltou-se para os dois rapazes, enfastiado. – Tudo isso é muito natural. Pensem comigo: Camus declarou, diante de toda sua igreja, que Mikael é um ANJO. E, em seguida, cai desacordado, como que visitado pelo Espírito Santo. Acham mesmo que o novato não despertaria nada nos fiéis? Mikael é como a materialização da FÉ deles!
— Essa materialização deveria ser tão somente Camus, a meu ver.
— Não seja simplório, Radamanthys. Anjos, Arcanjos, Principados, Potestades, Serafins... há todo um séquito a assessorar o Criador. Um Mensageiro Celestial é uma parte do Céu, o mesmo Céu para o qual as Ovelhas creem que vão. (2)
— Então isso NÃO incomoda o senhor?
Algo fulgurou no olhar do líder religioso durante sua hesitação disfarçada de reflexão. Foi o tempo de a nora lhe entregar a bebida. Sorveu-a lentamente. Lambendo os lábios pensativo, respondeu enfim:
—POR ENQUANTO não, meus filhos. Não enquanto estiver DESTA maneira.
Abrindo os braços em aflição, Algol questionou:
— Mas pai! E se ele for um anjo caído? Um ser de trevas disfarçado em ser de luz?!?
Pandora fechou vagarosamente os olhos, como quem pensa “Meu Deus, o imbecil acredita mesmo então...”
— ISSO – Hades apontou para o jovem, reprovando-o. – é extremamente PERIGOSO. Deslegitimar o discurso do Redentor.
Eles miraram o pai, abismados.
— A palavra de Camus equivale à palavra de Jesus Cristo! Onde a Igreja estaria se o Nazareno tivesse sido contestado pelos seus diante do mundo?
— Sim, mas...
— SILÊNCIO. Eu NÃO quero mais manifestações de dúvidas acerca do que o Messias afirmou. Ele afirmou diante dos crentes que Mikael é um ANJO. Afirmou diante dos Vigias, diante dos Arautos que via Mikael em suas visões. Já pararam para para pensar que até mesmo os Vigias e Arautos já aceitam que Mikael é “um mistério de Deus”? Eu creio mesmo que alguns acreditam que o rapaz é, de fato, UM ANJO.
— E o senhor, meu pai? O que pensa verdadeiramente sobre isso tudo?
Hades encarou o filho mais velho, impressionado com a ousadia da pergunta. Esvaziou o copo; nem foi necessário mostrá-lo à Pandora, ela já lhe servia mais uísque.
— O que penso... VERDADEIRAMENTE? Eu penso que esse evento talvez tenha vindo nos fortalecer. Um verdadeiro anjo, visto nos sonhos de revelação do Redentor, é um troféu para a Aurora do Novo Porvir. Nosso galardão. A prova de que nossa Cidade Santa tem ligação direta com o Plano Superior. Com o Divino.
Algol e Radamanthys entreolharam-se.
— Então... – Murmurou o mais novo. – Sobre Mikael ser um anjo de verdade...
— Já deixei clara minha posição. Quem tem ouvidos, que ouça. E... sabem que exijo ser ouvido. – O olhar negro tornou-se gélido. – Parem de demonstrar sua incredulidade àqueles que creem. Isso não será prejudicial ao novato, e sim A NÓS. Fui bem claro?
—Sim, Grande Pai. – Os irmãos responderam em uníssono.
— De mais a mais, não me parece que o rapaz esteja se aproveitando disso para nada. Ao contrário, me pareceu um jovem muito humilde, que sabe seu lugar. Até demonstrou estranheza por Camus pensar que ele é um anjo. Deixem-no em paz.
— Nós entendemos, Grande Pai. Não nos colocaremos contra o novato, o senhor pode ficar tranquilo. Mas e quanto a Camus?
—O que é que tem ele, Rada...
— Ele parecia um pouco... diferente depois que encontrou Mikael.
— Verdade! – Exclamou Algol. – Eu também achei! Também achei!
As pálpebras de Hades tremularam como se ele estivesse revirando as órbitas por trás das pestanas.
— “Diferente” como? – Indagou, terminando a bebida e ordenando outra à nora.
— Ele se mostrou rebelde! Se recusou a vir comigo, quando disse que deixássemos o quarto onde estava o novato. Se recusou!
Desta vez o líder religioso franziu as negras sobrancelhas. Olhou para o filho mais velho, esperando pela confirmação daquela informação.
— Além disso, algo na postura de Camus me pareceu menos... maleável. Ele é naturalmente altivo, sabemos, só que... era... era diferente. – Pontuou o primogênito, reflexivo.
Hades preferiu não revelar que tivera a mesma impressão ao falar com o ruivo.
Sim.
Camus enfrentara-lhe.
“Ele se mostrou rebelde comigo!”
“Algo na postura de Camus me pareceu menos maleável.”
“Acaso mente o Filho do Senhor Teu Deus?”
“Nem todos os mistérios de Deus devem ser perscrutados pelos homens.”
Deu um longo suspiro, e rebateu:
— Ora, o que vocês queriam? O menino encontrou o anjinho dele. Ficou tocado, impressionado, é tudo. Não se incomodem muito com isso. A MENOS que percebam que a coisa toda está tomando um rumo diferente... o que, a julgar pelo caráter simples e honesto de Michael Segerson, não ocorrerá.
— Sim, Grande Pai!
— Entendido, Grande Pai.
— Agora vão, saiam, saiam. Quero ter uma última foda de qualidade antes de viajar. – Dispensou-os fazendo gestos de quem espanta moscas.
Feita uma breve reverência, os dois deixaram os aposentos do mentor da seita. Pandora foi trancar a porta e, em seguida, atirou-se ao leito, sorridente e convidativa. Ali um sorridente Hades também se lançou, agarrando a jovem enquanto rosnava de brincadeira.
— Acho que eles só ficaram enciumados com a atenção que o Redentor foi dar ao novato ontem – Ela deduziu, enlaçando-o com as pernas alvas.
— Você é perspicaz, norinha, porque penso exatamente o mesmo... – e, ao ouvido dela, provocante – E pensar que o único varão que te recusou em todos estes anos de Colheita (3) viria a ser conhecido como um anjo em nossa comunidade...
— Hunf, só mesmo um SANTO pra me rejeitar, não concorda comigo, Grande Pai? – Fez uma vozinha manhosa, levando a mão direita às partes íntimas do sogro. Ele riu, já excitado.
— Anjos não são santos, minha bela. Mas não deixa de ter sua lógica. – Agarrou-a pelos cabelos na região da nuca de um jeito possessivo. – Tampouco sou eu um santo... embora seja um homem de Deus... portanto...
Mordeu-a com volúpia na base do pescoço. Ela gemeu entre risinhos, e os dois logo se entregaram a mais um tórrido e lascivo embate entre os lençóis negros.
*************
(...)
7 Vai, dize a Jeroboão: Assim diz o Senhor Deus de Israel: Porquanto te levantei do meio do povo, e te pus por príncipe sobre o meu povo de Israel,
8 E rasguei o reino da casa de Davi, e o dei a ti, e tu não foste como o meu servo Davi, que guardou os meus mandamentos e que andou após mim com todo o seu coração para fazer somente o que era reto aos meus olhos,
9 Antes tu fizeste o mal, pior do que todos os que foram antes de ti; e foste, e fizeste outros deuses e imagens de fundição, para provocar-me à ira, e me lançaste para trás das tuas costas;
10 Portanto, eis que trarei mal sobre a casa de Jeroboão; destruirei de Jeroboão todo o homem até ao menino, tanto o escravo como o livre em Israel; e lançarei fora os descendentes da casa de Jeroboão, como se lança fora o esterco, até que de todo se acabe.
11 Quem morrer dos de Jeroboão, na cidade, os cães o comerão, e o que morrer no campo as aves do céu o comerão, porque o Senhor o disse.
12 Tu, pois, levanta-te, e vai para tua casa; entrando os teus pés na cidade, o menino morrerá.
13 E todo o Israel o pranteará, e o sepultará; porque de Jeroboão só este entrará em sepultura, porquanto se achou nele coisa boa para com o Senhor Deus de Israel em casa de Jeroboão.
14 O Senhor, porém, levantará para si um rei sobre Israel, que destruirá a casa de Jeroboão no mesmo dia. Que digo eu? Há de ser já.
15 Também o Senhor ferirá a Israel como se agita a cana nas águas; e arrancará a Israel desta boa terra que tinha dado a seus pais, e o espalhará para além do rio; porquanto fizeram os seus ídolos, provocando o Senhor à ira.
16 E entregará a Israel por causa dos pecados de Jeroboão, o qual pecou, e fez pecar a Israel.
17 Então a mulher de Jeroboão se levantou, e foi, e chegou a Tirza; chegando ela ao limiar da porta, morreu o menino.
18 E o sepultaram, e todo o Israel o pranteou, conforme a palavra do Senhor, a qual dissera pelo ministério de seu servo Aías, o profeta.
19 Quanto ao mais dos atos de Jeroboão, como guerreou, e como reinou, eis que está escrito no livro das crônicas dos reis de Israel.
20 E foram os dias que Jeroboão reinou vinte e dois anos; e dormiu com seus pais; e Nadabe, seu filho, reinou em seu lugar.
21 E Roboão, filho de Salomão, reinava em Judá; de quarenta e um anos de idade era Roboão quando começou a reinar, e dezessete anos reinou em Jerusalém, na cidade que o Senhor escolhera de todas as tribos de Israel para pôr ali o seu nome; e era o nome de sua mãe Naamá, amonita.
22 E fez Judá o que era mau aos olhos do Senhor; e com os seus pecados que cometeram, provocaram-no a zelos, mais do que todos os seus pais fizeram.
(...)
As palavras de 1 Reis 14 desfilavam diante de seus olhos castanhos como nuvens que se desfazem nos céus antes que suas formas sejam interpretadas.
Há horas dedicava-se à leitura indicada por seu pai. No entanto, sua mente e seu coração dedicavam-se às lembranças do dia anterior.
Mikael.
O anjo de seus sonhos.
O anjo que viera...
Ele tentava não completar essa frase. Nem mesmo em pensamentos seria propício.
Claro que o sentido residia em seu âmago, a ideia que preenchia um cismar, um anelo secreto... e, obviamente, pecaminoso.
Por isso, empregava todas as forças mentais para não verbalizar essa noção difusa, porém ardentemente presente.
“Não perguntei a ele. Não tive a oportunidade de lhe perguntar qual seria a mensagem... e se ele realmente veio para me... me...”
Não, de novo não.
Ele caminhava pela beirada do abismo!
“Preciso orar.”
Não deveria retornar àquela trilha vil, egoísta.
Não deveria pensar, não podia pensar.
“Orar... devo clamar a Deus...”
Se havia uma coisa que sempre urgia evitar... era PENSAR.
Nascera para ser o Cordeiro. Tudo, TUDO já fora pensado, planejado, traçado para si.
Não precisava pensar.
Não nascera para pensar.
Não para pensar. Não para “ser”. Assim como ferramentas e utensílios não “são”. Existem. Servem. Funcionam.
Pensou na imensidão do céu. Pensou na amplitude azul...
Evocou os olhos azuis de Mikael.
Fechou lentamente seus olhos rubros...
Evocou os cabelos da cor do sol outonal.
A pele dourada. O sorriso luminoso.
Jamais havia visto algo como o sorriso de Mikael.
Jamais.
Seu coração disparou... quase doloroso... contudo... envolveu-o um calor sublime...
Entrelaçou seus dedos sobre a mesa, em seguida, espalmando na superfície as mãos como fizera sobre o peito largo do novato. Quase sentia-lhe a palpitação. Ao deixar entreabrir os olhos, teve um leve sobressalto ao perceber que não se encontrava só.
— Desculpe. Te assustei? Não quis interromper a prece que você fazia. – Hades disse, trajando um impecável terno chumbo, mãos para trás, os cabelos negros cuidadosamente presos para trás em um comprido rabo de cavalo.
— Oh. – Balbuciou o ruivo, apenas.
NÃO podia falar que NÃO estava orando. Pediu a Deus que o pai não lhe perguntasse... umedeceu os lábios, ocultando o nervosismo com a habitual máscara de frieza. Plácido, comentou:
— Vejo que o senhor já está de saída... demora-se?
— Espero que não. Os negócios de sempre a resolver... demandam minha estada no “império dos mundanos”. Desta vez, Nova York. Aproveito para visitar a congregação de lá.
— É a maior do mundo, não?
— Numericamente não. Mas é a mais influente. – Respondeu, percorrendo o quarto do rapaz, sondando a ordem reinante... e se a Bíblia estava mesmo no livro de 1 Reis. Prosseguiu – Nova York é uma cidade ímpia, imersa na vaidade de ser “a capital do mundo”. Somos muito visados e perseguidos lá. Os mundanos de Nova York estão entre os mais soberbos e combativos da Terra.
— Tome cuidado por favor, meu pai. – A recomendação, autêntica, fez o líder religioso sorrir, quase comovido.
— Não se preocupe. “Se Deus é por nós, quem será contra nós”?
— Estarei em oração pelo senhor.
— Eu sei que sim, meu amado menino. – Sentou-se perto dele à mesa de estudos. Pôs sua mão sobre a mão do filho. Achou-a mais quente que o usual; Camus sempre tinha as mãos tão frias! Estaria com febre? Olhando-o atentamente, considerou-o um tanto ruborizado. Bem, pediria a algum médico de Lázaro para vir verificar. Por ora...
— Camus. Como se sente hoje, depois de haver encontrado o anjo de seus sonhos?
Fazendo todo o possível para não deixar transparecer a surpresa causada por aquela pergunta, o “messias” respondeu:
— Sinto-me bem. Ainda em dúvidas quanto à aparição de Mikael em minhas visões, como um anjo... mas acredito que o Pai Celestial há de me revelar tudo no tempo certo.
A resposta pareceu agradar o mentor da seita. Esfregou afetuosamente sua mão na do filho ao falar:
— Sim, eu também acredito nisso, Camus. Sei que o que ocorreu ontem escapou ao seu controle... mas reitero que que você NÃO pode se dar ao luxo de perder o controle.
O ruivo engoliu em seco, consciente de que seu pai se referia ao culto em que as Ovelhas avançaram sobre Mikael, ocasionando toda aquela loucura.
— Criou-nos uma situação complicada. Inclusive para o próprio Mikael. Você viu.
— Sim, eu lamento muito. Não voltará a acontecer. – Murmurou, o olhar baixo sob o peso da culpa.
— Eu deveria castigar você, Camus... mas não o farei. Não fique assim, se eu fosse castigá-lo, teria o feito ontem.
— E por que não o fez? – Emoção alguma depreendia-se no tom do jovem.
— Teria sido o CERTO a se fazer. Entretanto, foi tanta coisa ao mesmo tempo... bom, agora não importa. De mais a mais, no sábado você passará por um Auto. Tem de ser preservado.
— Um Auto?
—Sim, já faz tempo que as Ovelhas não presenciam um suplício de seu Redentor. Quebranta-lhes a alma, fortalece seus espíritos.
Encarando Hades com notável galhardia, inquiriu, a tormenta sob a capa de abnegação:
— Posso saber qual será a modalidade? Sei que o senhor não gosta que eu tenha ferimentos... marcas recentes no corpo quando temos uma “Santa Ceia”, e pelo que me lembre, há uma marcada para breve...
— Será o garrote.
A respiração do ruivo extinguiu-se momentaneamente. Poucas vezes fora submetido ao garrote, e considerava-o mais tenebroso que o chicote.
O chicote não lhe trazia sensação de MORTE. Já o garrote...
Se bem que...
Não seria uma bênção se ENFIM...
ALGO DESSE ERRADO.
Se não controlassem o tempo, ele poderia...
Não.
Não agora que encontrara o anjo!
Não agora que conhecera Mikael!
Não agora que descobrira o sorriso de Mikael!
— Não se aflija, filho. Além de não ser correto, você sabe... quem manipula o garrote é sempre um especialista de saúde. Ele saberá quando parar sem lhe trazer danos.
— Sim, senhor. – Nem saberia dizer como conseguira falar.
— Bom, preciso ir. – Anunciou, erguendo-se da mesa e estendendo a mão para que o rapaz fizesse o mesmo. – Que tal ajoelharmos e orarmos juntos?
Assentindo, Camus cedeu ao proposto. No centro do austero cômodo ocupado pelo Redentor, puseram-se de joelhos. Hades sorriu docemente para o jovem. Combinou:
— Que tal você começar? Em seguida, farei outra prece.
Tomando um fôlego que por uns instantes julgara até extinto, o “messias” iniciou:
— Pai Nosso que estais no céu, santificado seja o Vosso Nome...
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