Redentor
14 Via Crucis - Ato VII : Mortificação
Notas iniciais
Quando o sol começou a mergulhar nas costas das montanhas, Milo mais uma vez enxugou o suor da testa, desta vez na expectativa do tão esperado anúncio:
— Irmãos, por hoje é só...
“SÓ. Que filhos da puta... trabalhamos como burros de carga...”, pensou o loiro, a revolta cuidadosamente oculta. Intervalos inexistiam, as paradas eram apenas para comer, beber água e ir ao banheiro. Os lavradores exauridos eram repreendidos com rispidez: cansaço demonstrava pouca boa vontade, fé fraca. Pedissem vigor aos Céus!
— Façamos uma oração para agradecer a Deus pela força concedida para mais um dia de trabalho. – Conclamou Gideão, com o costumeiro vozeirão.
“Que inferno, liberte-nos logo!!!”
Se ele, que possuía excelente condicionamento físico – embora a musculação estivesse lhe fazendo falta – sentia o corpo em frangalhos, o que diria daquelas pessoas? Mais de uma vez, presenciou colonos caindo de exaustão. Não havia qualquer distinção entre homens fortes e franzinos, mulheres, velhos, crianças. A imagem de meninos e meninas com a idade de seu Hyoga submetidos àquilo o revoltava... crianças que deveriam estar estudando em uma escola, brincando, praticando esportes, saboreando a infância, ali, esperdiçando-a por causa de exploradores vis. Batatas! SABIA que aquela exploração pouco tinha de econômica, na realidade. Tratava-se de algo bem mais complexo...
— Mikael. Não vai se ajoelhar? – Ouviu Aldebaran a seu lado lhe perguntar.
Foi então que se deu conta de que todos se encontravam de joelhos no chão, olhando-o com curiosidade.
— Ah! Me desculpem... me distraí por uns instantes... – Alegou, abaixando-se.
Os supervisores tão somente menearam as cabeças, aparentemente compreensivos. Até lhe sorriam. Ora, quer dizer que dali em diante seria assim? Há poucos dias, gritavam com ele quando percebiam-no pensativo...
— Mikael, gostaria de conduzir a oração?
— EU...?
Quis recusar o oferecimento de Gideão. No entanto, 150 pares de olhos cravaram-se nele, ansiosos. Sabia o motivo. E isso o preocupava.
Bem, estava metido naquilo até o pescoço. Talvez fosse melhor seguir a maré.
— Com muito gosto. Mas não sei se todos conseguirão me ouvir, não tenho uma voz potente como a do senhor.
— Não se preocupe. Tenho certeza de que todos conseguirão ouvir a voz de um enviado do Altíssimo, se não pelos ouvidos, pelo espírito. – Retrucou Gideão, mostrando dentes podres no sorriso estúpido. – Venha, venha até aqui na frente.
Milo olhou para Aldebaran, como a buscar apoio. O brasileiro assentiu, encorajando-o. Suspirando, o agente caminhou até os supervisores. Silêncio absoluto. Angariando a atenção de todos, sentia-se confuso sobre que linha de atuação seguir: encarnar o novato tímido e humilde ou assumir ativamente o destaque que claramente estava ganhando?
“Bom, já estou aqui, e esses doidos tão esperando. Vamos lá...”. Projetou a voz tanto quanto pôde:
— Pai Nosso que estais no Céu, santificado seja o Vosso nome. Aqui estamos diante de Vós, ó Pai Celestial, para agradecer por mais um dia de trabalho. Multiplicai o fruto de nosso suor, concedei ao nosso lar a fartura que provém de vossa misericórdia. Perdoai-nos por todas as vezes que fraquejamos, mesmo que tenha sido em pensamento. Sede o bálsamo de nossos corpos e preparai-nos para o amanhã, dando-nos vigor para a labuta nos campos desta que é Vossa terra. Em nome de Vosso Filho amado, amém.
As Ovelhas repetiram o “amém” em um alto uníssono. Começaram a se despedir. Milo voltou para perto de Aldebaran, que pôs a mão em seu ombro, dizendo:
— Foi uma bela prece. Vamos?
Fazendo um gesto afirmativo, o policial seguiu o enorme homem. Os fiéis foram se dispersando, cada qual para seu destino, alguns para suas cabanas, onde fariam a refeição da noite que chegava, outros para os refeitórios comunitários. Milo achava-se bem satisfeito por não estar entre estes. Já se distanciara significativamente com o ex pastor, por isso não escutou a conversa de um grupo de colonos, que não os perdiam de vista:
— É engraçado, irmãos... – Disse uma mulher, em voz baixa. – Eu estava com tanta dor nas costas... mal conseguia ficar ereta! Mas depois que Mikael fez a oração, a dor SE FOI completamente...!
Alguns assentiram, em contido maravilhamento. Um sexagenário arregalou os olhos ao garantir:
— Eu melhorei da dor de cabeça que tinha desde a manhã! Assim que ele disse “amém”... foi instantâneo!
— Meus joelhos estavam me matando! – Falou um rapaz. – A dor SUMIU depois que ele orou...
— Ele só pode ser um anjo mesmo, porque todo meu corpo se encheu de uma energia que... não sei explicar a vocês. O cansaço até foi embora...
Confabulavam discretamente, atentos à proibição de manifestações de idolatria. Se bem que, oras... aquilo não constituía uma idolatria. Sequer veneração: era apenas “constatação de fatos”.
Fatos eram fatos, quisesse o Grande Pai ou não.
*************
Dois dias se passaram sem acontecimentos dignos de nota. Sob a vigilância incólume dos homens de Hades, as Ovelhas seguiam em sua árdua rotina de labuta e doutrinação. Disfarçavam, entretanto, a euforia de ter um “anjo” entre eles. Cresciam os rumores de que o novato detinha faculdades milagrosas. Outrossim, o encantamento dos fiéis limitava-se a olhares embevecidos e curtas saudações, não destituídas de certa euforia.
Por muito que Milo fingisse indiferença, nenhum ponto do novo panorama lhe passava despercebido. Antes, mal lhe dirigiam a palavra, agora, recebia até breves reverências. Ele respondia com um aceno, pois não queria fazer desfeita. Não se ressentia em nada da ordem de Hades; não fosse por ela, na certa aquelas pessoas estariam aproveitando toda e qualquer oportunidade para falar com ele, tocar nele, pegar fios de cabelos seus, sabe-se lá. Ainda o perturbava a ideia de que seus modestos pertences haviam sido levados do alojamento por causa daquela crença absurda de que ele era um anjo. Como era possível que existissem pessoas assim, em pleno século XXI? Se o jovem não tivesse aprendido sobre o processo de convencimento de seitas abusivas, sem dúvida insistiria naquela dúvida.
Era tudo muito, MUITO estranho. Tinha a desagradável impressão de que a qualquer momento poderiam investir novamente sobre ele, repetir a ação do culto do domingo. Felizmente, o temor ao Grande Pai continha aquele fervor, bastante perceptível nas expressões devotas que encontrava.
Meio da semana. Tinha ido para a plantação de batatas com Aldebaran, sendo cumprimentado por todos que cruzavam seu caminho. Pegando uma enxada, elevou o rosto para o céu alaranjado; seria mais um estupendo dia de primavera. Recebidas as orientações da manhã, cada qual assumiu seu posto de trabalho, e assim seguiu-se a aquela quarta-feira.
À tarde, as flores pareciam mais vistosas, e o verde que a tudo cercava ainda mais intenso. Caminhando bem disposto pelo campo, Camus entretinha-se com o mavioso canto dos pássaros, empenhados em celebrar a sua estação favorita. À frente do Arauto Chrysaor, ignorava-lhe as admoestações:
— Messias, procure andar pela sombra! Vai acabar se queimando.
— É difícil fazer um dia luminoso assim. Não tem importância me queimar um pouco.
— Perdoe-me, mas tem sim... sua pele é muito branca, até eu preciso me proteger, quanto mais você! Hunf. Eu deveria ter trazido um guarda-sol. Que negligência, a minha!
— Eu não teria usado. Nem estamos no verão ainda, não é para tanto...
— Se você virar um pimentão, quem vai ouvir do seu pai serei EU.
As feições do ruivo adquiriram súbita melancolia. Replicou:
— Não esteja tão certo disso, Chrysaor. Sabe que ele não me poupa de reprimendas. Nem de castigos...
O cingalês contraiu os lábios, apiedado do rapaz. Tinha consciência daquilo. Não fora algo justo a ser dito, reconhecia. Abrandou o tom e sugeriu:
—Neste caso, não é melhor evitar possíveis desgastes? Vamos pela sombra.
— Está bem. – Murmurou o “messias”, abaixando a cabeça.
A leveza do passeio se dissipara. A menção do rígido controle sob o qual vivia o Redentor fora a responsável. Aquelas voltas pela propriedade faziam parte dos poucos momentos de lazer de sua vida oprimida. Tencionando eliminar a influência daquele assunto, Chrysaor comentou distraidamente:
— Vi Mikael anteontem. Você ficou se sentindo culpado pelo que aconteceu a ele no domingo, mas ele estava ótimo.
— Você o viu?
— Sim, eu e os outros Arautos. Fomos averiguar como estava o rapaz em seu posto de trabalho. Estava muito bem, forte... nem parecia que passara por todo aquele... turbilhão um dia antes.
Parando à frente do acompanhante, o ruivo inquiriu, mal ocultando a ansiedade:
— Então você sabe onde ele trabalha?
— Sim, é na lavoura onde cultivam batatas...
Camus mordeu o lábio inferior. Quase falou “Eu gostaria de ir até lá”. Algo dentro de si, porém, crepitou.
— Chrysaor. Eu quero ir até lá. Leve-me até essa lavoura, por favor.
— O quê? Mas, Redentor… para quê?
— Para que seria? – Franziu as sobrancelhas, como quem diz o óbvio. – Desejo conversar com ele.
— Eu... eu não sei se seria propício, meu senhor...
— E que problema haveria? Não visito os fiéis em seus locais de trabalho de quando em quando, durante minhas rondas? – Argumentou o jovem, uma sagacidade inédita no semblante comumente inexpressivo.
— De fato... mas...
— O que te preocupa? Você mesmo disse antes de deixarmos o Tabernáculo que meus irmãos estão em reunião desde a manhã, na sede do Vale.
— É verdade. Radamanthys e Algol, juntamente com os Vigias, estão reunidos com advogados e investidores do senhor Hades. E depois receberão alguns pastores...
— Não terei melhor oportunidade. – Camus murmurou, pensativo. – Não há risco de eles aparecerem...
Chrysaor estranhou tal atitude. Desde quando o Redentor arquitetava coisas? Não obstante, assentiu.
— Está bem. Eu te levo até lá. E se por acaso surgirem, assumo a responsabilidade.
— Não é necessário. Ficarão mais contentes se EU assumir, creia-me. – Assegurou, com o olhar vago.
A princípio, o cingalês não compreendeu plenamente. Contudo, logo evocou ocasiões em que Radamanthys e Algol... principalmente Algol... demonstraram exímia habilidade em punir o rapaz.
Habilidade... e por vezes...
Cerrou os punhos, tentando refrear os próprios pensamentos.
Não queria pecar. Mas por vezes, em recônditos que jamais julgadores vigilantes alcançariam, perguntava-se se os irmãos do Redentor não eram excessivos no cumprimento do dever... ou se realmente estavam “em espírito” durante certas situações...
Mordeu a língua violentamente, para se punir por aquele ímpio questionamento. Ele, um Arauto, questionando os desígnios do Plano!...
— Chrysaor? – Camus percebeu a repentina expressão de dor do mais velho.
— Não... não é nada. Vamos. Estamos um pouco longe. Mas, se não estiver cansado, chegamos lá em vinte ou trinta minutos.
— Certo. – Concordou o ruivo, sem saber exatamente o que “vinte ou trinta minutos” representava. Sabia que não era pouco, mas também não era demasiado.
Tanto mais para ver Mikael.
Não tivera oportunidade de lhe perguntar sobre algumas coisas. A culpa fora sua mesmo. O tempo que poderia ter empregado com isso, ele preencheu se maravilhando com a aparição do loiro, tal qual seus sonhos...
Envergonhou-se de ter sido tão leviano. Deus lhe enviara um sinal, provavelmente uma mensagem! E acaso ele tentara sondar as significações daquele mistério encarnado?
Nada!
Fora fútil... deixara-se fascinar, não pelo mistério em si, mas pelo homem que o continha...
— Está tudo bem, Redentor?
— Sim, claro.
— O senhor enrubesceu de repente. Pensei que pudesse estar se sentindo mal.
— Oh, não! – Sorriu, tentando recuperar a fleuma habitual, evadida durante as próprias ponderações. – Estou ótimo. Prossigamos.
— Certo. Pela sombra, que tal? Tanto quanto possível...
Camus deixou escapar um risinho, pela insistência do outro:
— Está bem, está bem.
Algo em seu âmago parecia florescer. Só de saber que veria Mikael, adquiria mais fôlego, mais energia para a caminhada, mais gosto em apreciar a paisagem...
Se pudesse, correria até a lavoura de batatas.
Claro que não o faria.
Para começar, não se lembrava com exatidão do caminho. Não estivera lá com frequência suficiente para tal. E mesmo que soubesse, não seria adequado!
Ademais, Chrysaor usaria o dispositivo paralisante. Não que o Arauto fosse querer fazê-lo... era a ordem recebida por todos que acompanhavam o Messias em seus passeios pelo Vale: se ele corresse ou se afastasse bruscamente...
Bem, nada de rememorar fatos desagradáveis.
Estava prestes a reencontrar o “seu anjo”!
*************
Milo parou novamente para enxugar o suor do rosto. Prendera os longos cabelos em um rabo de cavalo, mas nem isso cuidara de aplacar o calor. Naquela localidade raramente ficava quente de fato. No entanto, o árduo trabalho na roça, durante longo período sob o sol, podia mudar essa percepção para os colonos. Pensou em pedir para beber água. Perguntou a Aldebaran se ele queria; o amigo fez que sim com a cabeça, sem nem ao menos parar de manusear a enxada. Obtendo a permissão – agora conseguia-a sempre... – o loiro foi em busca de água. Retornou ao seu posto com uma pequena moringa. Viu, porém, um menino vacilar e cair ao chão. Correu até ele, pois ninguém fez mais do que lançar uma breve olhada. Ajoelhou-se junto ao pequeno, que deveria ter uns doze anos.
— Ei! Tá tudo bem?
“Que pergunta inteligente, Milo...”. Vendo-o consciente, pôs água em um dos copos de cerâmica que trazia e ofereceu ao garoto, amparado por um de seus braços:
— Tome, beba... vai fazer você se sentir melhor.
Os olhos úmidos e distantes do pré-adolescente enfim encontraram os do policial.
— Vamos, tá fresquinha. Beba.
Sem proferir palavra, o menino bebeu. A princípio lentamente, depois com sofreguidão. Tossiu duas vezes. Parecia extremamente fraco.
— Senhor Gideão! – Gritou. – Ele não poderia descansar um pouco? Está desidratado. Quase desmaiou de exaustão!
Os supervisores trocaram murmúrios entre si. O chefe gritou de volta:
— Está bem! Tobias, vá para a sombra. Quando se sentir melhor, volte ao trabalho!
— Sim, senhor. – A pobre Ovelha só conseguiu balbuciar.
Milo ergueu a criança em seus braços, e a carregou até um frondoso castanheiro. Colocou-o sobre a relva macia, com grande cuidado. Sorriu para ele, despedindo-se com um menear de cabeça. Quando ia partir, sentiu sua mão ser agarrada. Alarmado, virou-se para o pequeno.
Profunda e quase comovente gratidão irradiava dos grandes olhos acinzentados de Tobias.
— Obrigado... muito obrigado, Anjo do Redentor.
— Olha... aceito o agradecimento, mas... – quase disse que não, não era anjo nenhum. Entretanto, lembrou-se de que poderia não ser conveniente ficar refutando o que afirmara o Redentor. Sorriu e apenas assentiu. Quando a mão de Tobias enfim libertou a sua, retornou ao seu posto. Tomou da enxada novamente. Foi quando percebeu uma insistente mirada amistosa de Aldebaran. Respondeu com um olhar interrogativo. O brasileiro deu uma risadinha.
— Depois não quer que achem que você é um anjo... – Disse, piscando um olho.
— Ora, qualquer um teria feito o que eu fiz...
— Você já viu alguém fazer isso por aqui?
Dando de ombros, Milo preferiu não responder. O ex pastor deu um último sorriso e voltou a se concentrar no trabalho, antes que lhe chamassem a atenção...
Cerca de meia hora depois, o agente percebeu os lavradores agitados. Alguns puseram os instrumentos de trabalho de lado, outros no chão para se ajoelharem, outros apontavam extasiados em uma direção que o olhar curioso de Milo seguiu. Então compreendeu a repentina comoção.
O Redentor estava ali!
Acompanhava-o o Arauto Chrysaor, vestido com uma túnica amarela sobre calças brancas. Camus, como de praxe, de túnica longa e branca. Os dois vinham rumo à lavoura, a passos lentos e decididos. À medida que passavam, as Ovelhas caíam de joelhos no chão. Ao contrário da maioria das vezes em que visitava os fiéis, Camus não se importou em dispensar aquela deferência; em geral, erguia a mão, humilde, e dizia que não precisavam se ajoelhar em sua presença.
Desta vez, contudo, o ruivo sequer via os demais.
Seus olhos castanho-avermelhados fixavam-se unicamente no novato “Mikael”.
Milo pousou a enxada na terra, para ajoelhar-se como todos. Ouviu Gideão saudar o “messias”, assim que este parou diante do supervisor chefe.
— Meu senhor, que honra magnânima tê-lo aqui! Louvado seja Deus!
— Como está, Gideão? – Indagou Chrysaor, notando que Camus nem abrira a boca. Só tinha olhos para o “anjo”.
— Na paz de Nosso Senhor Altíssimo! Deus seja louvado! Melhor ainda vendo o...
— O Redentor veio até aqui com o intuito de levar consigo um de seus trabalhadores. Tem assuntos importantes a tratar com ele.
Murmúrios se fizeram ouvir.
— Ora, mas é claro, grande Arauto. Eu imagino quem seja... Mikael, certo?
—Chame-o logo, sim? – O cingalês ordenou secamente.
Sem maiores delongas, o supervisor virou-se para trás e chamou:
— MIKAEL! Mikael, venha até aqui, meu jovem!
Com expressão confusa, Milo olhou ao redor, erguendo-se só depois que Aldebaran lhe deu um cutucão, sussurrando “Vai logo!!!” Aproximou-se de Gideão e dos recém chegados, quase hesitante. Fez uma reverência perante os importantes visitantes.
— Como vai, Mikael? – Perguntou o ruivo, o tom neutro a combinar com a postura altiva.
— Muito bem, Messias. Na santa paz de Deus. – Respondeu o policial sentindo pelo menos duzentos pares de olhos sobre si.
— E quanto aos machucados? Estão melhores?
— Estou ótimo, meu senhor, totalmente recuperado! – Afirmou sorridente, no afã de passar confiança ao rapaz. – Fico lisonjeado em saber que o senhor se preocupou com este diminuto servo seu.
O “servilismo” do loiro pareceu não causar nenhum efeito no “messias”; este mirava o novato com impassível fleuma. Então lhe disse, sempre sereno:
— Estou em meio a um de meus passeios pela comunidade. Gostaria que me acompanhasse.
A julgar pelo falatório que se erguia detrás de si, bem como a surpresa nos rostos de seus supervisores, Milo inferiu que estava metido em uma situação bastante incomum. Talvez INÉDITA. Educadamente, declinou:
— Sinto muito, meu senhor, mas não posso deixar meu trabalho...
Gideão e seus colegas deixaram escapar exclamações estupefatas. O homem que o açoitara tão cruelmente dias antes adiantou-se para ele, passando o braço pelos seus ombros, como se grandes amigos fossem.
— Mikael, Mikael! Que PENSA que está fazendo, meu bom rapaz? – Riu sem jeito; foi horrível, pois Milo pôde sentir-lhe o mau hálito em toda sua glória. – É O REDENTOR EM PESSOA quem está te convidando para ACOMPANHÁ-LO! Como ousa rejeitar um oferecimento do enviado do Altíssimo?
Virou-se para Camus, ostentando aquele riso patético ao falar:
— Ele deve ter pegado muito sol na cabeça, Messias, não sabe o que está dizendo! Ou talvez o coitado esteja emocionado demais e...
Se o filho de Hades partilhava do estupor geral, ninguém poderia assegurar, já que continuava inexpressivo a encarar o novato. Gideão virou-se para Milo de novo, praticamente sacudindo-o.
— É CLARO que você PODE deixar o seu serviço, Mikael, se é o Redentor quem requer sua presença, não seja tolo!!!
— Hã... certo... então... sendo assim...
— Não precisa voltar à lavoura hoje, certo? Leve o tempo que quiser o Nosso Senhor! Ouviu bem?
—Tudo bem. – Concordou por fim o novato, procurando bater a terra da barra de suas calças, como a mostrar preocupação em estar apresentável junto ao Redentor. Este deu sua bênção de forma breve aos colonos e seus supervisores. Virou-se para deixar o lugar, sendo prontamente seguido por Chrysaor e depois um ainda aturdido Milo. Enquanto se afastavam da plantação, mantiveram silêncio. Cauteloso, o agente achou por bem esperar que o ruivo lhe dirigisse a palavra. Camus lançou um olhar para o cingalês; ao que parecia, um sinal para que o Arauto se afastasse um pouco, pois que Chrysaor retardou seus passos, ficando deliberadamente para trás. Ainda que pudesse ouvir o que seria falado, reservava ao “messias” alguma privacidade.
— Por que se recusou em me acompanhar?
O questionamento de Camus veio em tom impessoal.
— Peço desculpas por tamanha desfeita, meu senhor, mas é que recebemos ordens expressas para nunca abandonarmos...
— Eu já disse que você não precisa me tratar por “senhor”. E que pode me chamar pelo meu nome.
— Hã... posso mesmo? Nossa. Que honra! – Fingiu uma animação pueril, que o outro contemplou sem qualquer expressão no rosto imoto.
Como o ruivo guardou silêncio por alguns minutos, Milo fez o mesmo, à espera que ele voltasse a conduzir a conversação. Passaram às margens de um lago margeado por exuberante vegetação. Pássaros alçaram voo à passagem deles.
— Que linda tarde, não? – Comentou o policial, quebrando o mutismo vigente. – Sabe, este é o lugar mais bonito em que pisei na vida!
Sorrindo levemente, Camus disse:
— Levando em consideração que todos que vêm para cá afirmam o mesmo, devo acreditar nisso.
— E você, Camus? Qual foi o lugar mais bonito em que esteve?
Contemplando as montanhas beijadas pelo sol vespertino, o jovem respondeu, sem qualquer inflexão emocional na voz, aquilo que Milo já deduzia:
— Nunca saí do Vale da Aurora Dourada. Logo, penso que o meu lar é o lugar mais bonito do mundo.
Engolindo em seco, o loiro tencionou ignorar a estranha sensação que o invadia.
Precisava se manter imparcial.
Seguir adiante.
— Existe alguma razão específica pra você nunca deixar o Vale? Pergunto isso porque... seu pai... alguns dos que aqui vivem... vão “lá fora” algumas vezes, que sei. – Arriscou o policial.
— Sou o Sucessor do Cristo. Devo permanecer em solo consagrado e daqui partir tão somente para a Morada Celestial, juntamente com minhas Ovelhas... pensei que soubesse disso.
— E sei. Só estava me perguntando se você nunca quis andar pelo mundo. Jesus foi um peregrino, afinal...
Camus parou de andar e encarou friamente o novato. Retrucou em um tom gélido:
— Não sou Jesus. Nossas obras são diferentes. Ele veio como Filho de Deus. Veio para espalhar a Palavra do Pai Celestial. Vim com uma missão diversa. Não para continuar sua Obra, mas para concluir o Plano.
— Perdoe a minha ignorância com as palavras. Sei que o mundo se tornou ímpio de tal modo que Deus não encontrou mais nenhuma alma realmente digna de salvação na Terra... – Milo elucidou cuidadosamente. – E que achou necessário um novo sacrifício para limpar a alma dos temente a Ele.
Assentindo, o “messias” retomou o caminho. Adentraram uma trilha sob copas de árvores floridas.
— Supostamente, o sangue de meu Antecessor teria sido suficiente para fazer isso pelos séculos vindouros... mas... não foi o que se verificou. A maldade imperou de maneira que nem o próprio Deus esperava.
Chegando à beira de um riacho cristalino, Camus sentou-se em uma grande pedra lisa, sob a sombra das árvores. Milo olhou para trás; Chrysaor continuava a uma respeitosa distância. Juntou-se ao ruivo, tomando cuidado para não se aproximar demais. O Redentor prosseguiu, olhos perdidos nas réstias luminosas sobre as margens das águas:
— De acordo com a Profecia, Jesus só poderia retornar à Terra no Dia do Juízo Final, após o Arrebatamento. No entanto, o Arrebatamento estava comprometido. Assim... foi determinado que eu nascesse com Sua Essência, e com a missão de purificar as almas de Seus escolhidos com o MEU sacrifício.
Lançou um olhar de soslaio para o loiro.
— Mas por que é que estou te falando isto? Não é nenhuma informação nova para você. – Observou, neutro.
Milo deu um sorriso curto ao presumir:
— Bem, talvez você esteja falando isso pra aliviar seu coração.
Ante a expressão interrogativa do Redentor, o agente explicou:
— É um fardo muito pesado, não é? Mesmo o Cristo se sentiu cansado, algumas vezes...
— Mas Ele não vacilou. Se bem que...
Calou-se, temeroso de blasfemar.
Sim, pois que nome daria à ação de comparar a duração de seus martírios?
— “Se bem que...”? – Milo não desistiria facilmente.
Camus considerou-o um pouco antes de sentenciar:
— Não devo deixar sair as sombras que por vezes povoam meu espírito.
Vendo a surpresa no semblante de “Mikael”, permitiu-se explicar:
— Ao contrário de Jesus, eu NÃO sou perfeito. Devo sempre vigiar.
Milo via-se cada vez mais perplexo pelo que ouvia do rapaz. Camus não era um prisioneiro somente em termos físicos.
Sua mente encontrava-se cativa.
Condicionada.
E a julgar pelo assombroso grau de alienação... desde que nascera!
— Mikael. Deve estar se perguntando por que fui chamá-lo para vir ter comigo.
— Não era pra te acompanhar no passeio? – Fingiu um misto de ignorância e inocência.
— Eu precisava perguntar-lhe algumas coisas... coisas que não pude perguntar quando nos vimos pela primeira vez... por culpa minha, reconheço.
— Ainda está falando de “culpa”? Já te disse que você não teve culpa de as Ovelhas...
— Não me refiro apenas àquilo. – Interrompeu-o bruscamente. Pôs-se de pé e foi até a margem do riacho. O vento brincou com seus cabelos extremamente longos. De costas daquele jeito, a túnica alvíssima tremulando, sua figura integrando-se à natureza intocada daquele santuário, Camus assemelhava-se de fato a um ser elevado. Algo incompreensível, acima de tudo e de todos que Milo havia conhecido. Decidiu ir até ele, disposto a obter mais informações do jovem. Parou a seu lado.
— Há coisas que devo lhe perguntar. – Repetiu o ruivo, antes de se voltar para o policial. – Você aparecia em meus sonhos como um anjo. Anjos são, prioritariamente, mensageiros...
Hesitou diante dos esfuziantes olhos azuis de “Mikael”. Encheu-se de coragem e inquiriu:
— ... qual era a mensagem? Ou melhor… qual É a mensagem?
— O quê?
— A mensagem. A mensagem que queria me transmitir nas visões. Preciso saber... eu QUERO saber.
— Ei, ei, ei, espera aí. – O agente ergueu as mão, mostrando as palmas, defensivo. – Eu... cara, eu tô tão no escuro quanto você, OK?
Camus arregalou os olhos confuso, e Milo soube que a expressão utilizada não fora compreendida. Levou uma das mãos para trás da cabeça, rindo desajeitado.
— Ah... digo... não, eu sei que você é um “ser de luz”... que veio da luz... não das trevas, hehehehe... “estar no escuro” quer dizer “não estar entendendo alguma coisa”... e eu... – Pigarreou, tentando soar convincente. – Eu também não sei o que Deus quis que eu lhe transmitisse, Camus. Obviamente, há um propósito em tudo isso, mas eu ainda não sei qual é.
Uma aura de desânimo cobriu a imagem do ruivo.
Desânimo não.
Decepção.
E Milo não soube por que aquilo lhe atingia tanto. A ponto de fazer com que botasse as mãos nos ombros do “messias”; pode sentir-lhe o estremecimento ao contato.
— Não sei qual é a mensagem que Deus me incumbiu de transmitir a você. Mas rogarei a Ele que me revele. – “prometeu”, objetivando conquistar-lhe a confiança.
— Você promete?
De longe, Chrysaor ficou alerta à visão daquela proximidade. Chegou a dar dois passos, mas deteve-se ao reparar a fisionomia de Camus.
Ele parecia iluminado.
— Eu prometo. – As mãos de Milo firmaram-se mais nos ombros do jovem. – Farei jejum por essa causa.
— Não, você não deve! – O ruivo sacudiu a cabeça. – Há pouco tempo enfrentou um longo período de jejum. E além do mais, realiza trabalhos pesados no campo. Ficará fraco.
— Deus me dará força. E sua confiança em mim também, Camus.
Um intenso rubor subiu às faces do “messias”. Balançando a cabeça novamente, insistiu:
— Não, não, esse é o MEU dever! EU farei jejum por essa causa!
— De jeito nenhum! Escute, se não me deixar tomar a frente disto, pode ser que eu nunca venha a saber por que fui o escolhido para ser o “anjo” de suas revelações.
Mesclada à fala encenada, residia uma uma real e incompreensível emoção. Uma preocupação legítima com aquele jovem, já tão aviltado. Não poderia submetê-lo a mais uma privação, a mais um sofrimento... por causa de um estratagema SEU.
“Merda, tática errada.”, pensou, mordendo o lábio.
Felizmente, talvez movido pela súbita perturbação no rosto do loiro, Camus concordou, sorrindo com brandura:
— Está bem. Confiarei em você, Mikael.
Milo retirou as mãos dos ombros do rapaz, arrependido por ter cedido ao impulso de tocá-lo. Correra risco de ter sido interrompido pelo Arauto. Verificou que o mesmo continuava distante, a despeito da dureza de seu semblante. Deveria estar intrigado com as reações do “messias” durante aquela conversa. Por algum motivo, o médico respeitara o desejo de privacidade de Camus.
Voltou-se para o Redentor, que o encarava novamente com desconcertante insistência.
— Hã... algum problema?
Desviando o olhar para as águas brilhantes, Camus enunciou, timidamente:
— Sabe... em minhas visões... em meus sonhos... eu tinha a impressão de que você viria para... para...
Respirou fundo, procurando coragem para confessar. Mas a confissão não veio.
Milo suavizou bem a voz para perguntar:
— Sim? Tinha a impressão de que eu viria para quê? Pode falar, não tenha medo.
Estimulado pelo tom gentil do novato, o “messias” voltou a fitá-lo para responder, decidido:
— Todas as vezes em que você aparecia para mim... eu tinha a impressão de que você viria para me SALVAR.
O estupor causado por tal revelação emudeceu o policial momentaneamente.
Com efeito, ele tinha uma missão: investigar a seita. Infiltrar-se na comunidade secreta da seita. Descobrir indícios de crimes contra os Direitos Humanos, a única evidência que poderia efetivamente destruir a aurora do Novo Porvir. Neste ínterim, sim, ele tinha TAMBÉM a missão de salvar pessoas... pessoas cativas, iludidas, manipuladas, torturadas pela horrenda organização.
Todos os pelos do seu corpo se arrepiaram com aquela... coincidência.
Coincidência.
Sim, como Camus poderia saber?
Como Camus poderia...
Umedeceu os lábios, e lenta e pacientemente expôs:
— Messias, me perdoe... mas de que forma um simples homem como eu poderia salvar aquele que é o Salvador? Eu não entendo...
Por uns segundos, Camus assemelhou-se a uma estátua de mármore. Então um súbito horror desvelou-se em seu rosto. Balbuciou:
—E-eu não deveria... não deveria ter falado isso... eu... eu pequei!
— Pecou? Mas pecou por quê? – Espantou-se o agente.
Toda serenidade esvaíra-se da figura do Redentor. Camus repetia, quase ofegante:
—Eu não devo... eu não posso... não devo, não posso... não devo... eu pequei... pequei... Pai, perdoai-me!
“Deus, ele parece em choque!”, o policial pensou, incerto sobre como agir.
— Eu pagarei por isso, prometo-Vos, eu pagarei...
— Camus, ouça – Pediu, colocando-se na frente do filho de Hades. – Por que você teria pecado, só por ter me falado que pensou que eu viesse te salvar?
Ele já não via nem escutava o loiro. Tremia dos pés à cabeça e tinha uma expressão aterrorizada no semblante sempre plácido. Com voz baixa e tremida, não parava de dizer:
— Preciso ser castigado! Preciso ser punido! Preciso ser castigado! Penitência... sim, uma Penitência... devo pagar...
Por ter se agitado, quase perdeu o equilíbrio, fazendo com que Milo o segurasse. Neste processo, o policial envolveu o jovem em plena crise com seus braços. Assustado, Chrysaor fez menção de ir até eles. Notando, Milo demandou:
— NÃO! Por favor, ESPERE... por favor. Eu te suplico. Só quero ajudar. Veja como ele está.
O cingalês constatou que seu Messias parecia abalado por um violento frenesi. Os olhos esgazeados do Redentor perdiam-se no nada, seu corpo sacudia no amplexo do homem por ele considerado um anjo do Senhor. Algo tocou a alma de Chrysaor a ponto de sua espinha gelar. Sem proferir uma palavra, assentiu e retrocedeu.
Satisfeito por ter sido atendido, Milo resolveu reformular a indagação ao jovem trêmulo junto a si:
— Camus, me diga... DO QUE é que eu poderia te salvar? Do que é que o Salvador do mundo precisa ser salvo?
— Da dor... – Murmurou, afundando seu rosto no peito de Milo, os punhos unidos ali, exatamente como fizera em um dos sonhos...
— Da dor. – Repetiu o agente, dando-se conta de que agora estava realmente abraçando o “messias”. Bem, um gesto de solidariedade, que poderia fazer agora? E Camus se aninhara ali de tal modo que seria impossível se afastar... ou afastá-lo.
Deixou escapar um suspiro e continuou, resistindo ao estranho e descabido anelo de afagar os cabelos vermelhos:
— Entendo. Sua missão é sofrer por nós, pecadores. Repetir os martírios de Cristo para que os...
— Por que comigo tem que DURAR TANTO? – A voz embargada anunciava a derrota de Camus para as emoções represadas. – Eu NÃO contesto a necessidade da dor... apenas sua duração! Estou cansado...
Milo sequer tomou ciência de que levara uma das mãos para a cabeça do Redentor. Seus dedos curvaram-se sobre as madeixas rubras, em uma espécie de carícia inconsciente. Não poderia perceber, ocupado que estava em manter o foco; uma imensa compaixão invadiu-o, e isso embaralhava seu raciocínio. Esforçou-se para retornar ao controle de suas emoções.
Então... Camus era a prova viva de que precisava para aniquilar Hades e sua infame “igreja”.
— Camus, me diz... eles fazem isso com você desde criança?
Silêncio.
Inesperadamente, o policial foi empurrado pelo “messias”. Atônito, Milo balbuciou:
—Ca… Camus?
Eis que retornava ao rosto do Redentor a costumeira inexpressividade.
— O que houve, Camus?
Não saberia, ao menos, não naquele dia; o rapaz somente mirava-o, agora sombrio. Girou sobre os calcanhares e caminhou na direção do Arauto. Calma porém firmemente, ordenou, ao se afastar:
— Vá para a casa de Aldebaran, Mikael. Nosso assunto por hoje está encerrado.
Não se virou para o aturdido policial uma única vez. Chrysaor, entretanto, dirigiu a Milo um olhar piedoso, e um breve menear de cabeça em uma muda despedida. O agente retribuiu, sem conseguir sorrir como gostaria. Viu os dois se afastando como quem vê um sonho chegando ao fim. Deixando-se recostar no tronco de uma árvore, perguntou-se mentalmente: “Mas que diabos aconteceu aqui? O que foi isso tudo?”
Seu corpo parecia formigar.
Evocou as declarações que tão viva impressão lhe causaram...
“Por que comigo tem que durar tanto?”
“Estou cansado...”
“Eu não contesto a necessidade da dor... apenas sua duração!”
Camus vivia aquele pesadelo há ANOS.
“Estou cansado...”, dissera.
E ainda achava que falar naquilo era um pecado.
Claro.
Fora condicionado a considerar qualquer questionamento como tal.
De que forma se submeteria àquilo POR TANTO TEMPO?
Durante a aproximação física, notara marcas nos pulsos, uma cicatriz na base do pescoço... mais não se via por causa do traje comprido.
“Meu Deus, o que posso fazer? Enquanto não tomarem este hospício... enquanto Saga e os outros não chegarem... eu não posso fazer NADA!”
Cobriu os olhos com os dedos, consternado. Esfregou-os, sob comoção singular... e a inquietação da própria impotência.
“Não posso fazer nada.”
*************
Através de um comunicador, Chrysaor chamara um jipe para levar seu senhor ao Tabernáculo. Decidira que, após a crise nervosa que o jovem tivera, seria melhor evitar que o mesmo se cansasse com a longa caminhada de volta. Durante o trajeto, notara o abatimento do jovem. Sua função de Arauto permitia-lhe perguntar:
— O que tem, Messias? Parecia animado, e agora...
— Por favor, Chrysaor, não me faça perguntas... – Pediu, pois que não podia mentir, e de forma alguma, verbalizar o que lhe ia no íntimo. O intuito não era simplesmente omitir; não deveria sequer deixar fluir aquele anseio blasfemo.
Encurtar seu sofrimento.
Trair sua Missão.
Trair a Deus.
Não, ele não queria trair a Deus.
Não queria trair seu Antecessor.
Não queria trair seus fiéis.
Não queria trair sua família.
— ... só estou cansado. – Deixou escapar pelos seus lábios, a cabeça encostada na janela do veículo.
O Arauto julgou tratar-se de cansaço físico:
— Logo estará em seus aposentos, meu senhor. Posse lhe administrar um relaxante muscular se por acaso estiver...
— Não é preciso. Só quero ficar no meu quarto.
O fastio presente na interrupção demoveu qualquer intenção de réplica por parte do cingalês. Até chegarem ao destino, o silêncio reinou no interior do carro.
Dezenas de Sentinelas – os que trabalhavam servindo no Tabernáculo – posicionaram na frente da edificação para recepcionar o Redentor. Este atravessou lépido por todos, sem responder a nenhum de seus oferecimentos. Seguiu resoluto por um extenso corredor no andar térreo, rumo ao apartamento que ocupava nos fundos do prédio. Suas acomodações eram modestas, para o padrão do Tabernáculo; consistiam em um quarto de dormir, um banheiro e uma pequena sala de estudos, todos em madeira e revestidos de uma simplicidade que evocava a origem humilde do Nazareno. Adorno algum guarnecia o austero ambiente, à parte da vista que ele tinha da varanda; dava para um aprazível vale, ornado de pinheiros ao redor e vigiado pelas montanhas ao longe.
Não só as montanhas o vigiavam. Podia ver aqui e ali guardas em meio à vegetação, olhos atentos voltados para a morada do Redentor.
Camus deixou-se cair de bruços na cama, desalentado. Pensou em se auto flagelar. Sim, era o que deveria fazer. Se pedisse a um de seus irmãos ou a algum Vigia que o castigasse, perguntar-lhe-iam o motivo.
Levantou-se e abriu a porta de um armário em mogno, retirando de dentro de uma de suas gavetas um açoite trançado. Segurando-o com firmeza, definia quantas chibatadas seriam... não obstante, veio-lhe a lembrança de que o pai não queria machucados recentes em seu corpo, para a “Santa Ceia”.
Estremeceu só de pensar nela. Um evento anual, em que “servidos eram sua carne e seu sangue”...
Apertou os olhos, decidido a não pensar naquilo. Antecipar tormentos nunca conferia vantagem alguma para o seu espírito.
E este já estava suficientemente atribulado.
Guardou o chicote. Pôs a mão sob o queixo, refletindo;
Talvez...
Sim...
Foi até o baú do outro lado do recinto. Retirou dele uma caixa retangular de pinho envernizado. Levou-o até sua cama e o abriu.
Os cilícios.
Havia um em forma de cinto e um em forma de cordão; confeccionados em arame galvanizado, possuíam pontas lixadas, eficazes para o padecimento constante, mas não para incapacitar. Garantia que o auto flagelo fosse secreto, como deveria ser, aliás.
Camus escolheu o menor; ergueu a túnica e atou o cilício à coxa direita, apertando-o bem. A corrente dentada mordeu-lhe a carne, prontamente o presenteando com a dor almejada.
Sim.
O medo da dor combatido com a própria dor.
A quantos pensamentos aberrantes conduzira aquele medo egoísta!
Ajustou mais o instrumento, bem rente, bem doloroso... gemeu baixinho. Usá-lo-ia até a hora de dormir.
Ajoelhou-se defronte um pequeno altar em que se via entalhada uma cruz em cipreste.
“Mikael... vou orar também para que você receba a resposta de Deus.”
Uniu as palmas das mãos e, contrito, pôs-se a orar.
*************
Seguindo a orientação de Gideão e do próprio Redentor, Milo voltou para a cabana de Aldebaran. Como chegara bem antes do ex pastor, decidiu preparar o jantar. O brasileiro teve uma grata surpresa ao encontrar sobre a mesa frango frito à moda sulista, batatas coradas com alecrim, ervilhas salteadas e espigas de milho na manteiga.
— Eu não sabia que você sabia cozinhar – Comentou o recém chegado, erguendo as sobrancelhas admirado. Riu ao ver que o loiro trazia um avental florido à cintura.
— Não tão bem quanto você, mas morava sozinho antes de vir pro Vale. Aprendi meus truques.
— Estou vendo. Um deles é vestir o avental de Aiyana e permanecer razoavelmente digno. – Brincou.
Milo tencionou não deixar o clima pesar.
— Imaginei que fosse dela... espero que não se importe. Mas era melhor isso do que eu todo sujo e engordurado recebendo meu amigo pro jantar.
— Claro que não me importo, que ideia. Ela me obrigava a usar aventais quando eu ia cozinhar e ficava rindo, vê se pode. Até Tabita ria de mim!
— Nem a filha perdoava, hã?
Eles riram.
— Pois é. Sabe... é a primeira vez desde que elas se foram que risadas ecoam nesta casa. – O brasileiro observou, sorrindo melancólico. – É bom ter você aqui, Mikael.
— Hah, vamos ver se essa opinião continuará a mesma depois que você provar a minha comida. – Brincou Milo, piscando um olho.
— É, vamos ver!
Não, a opinião de Aldebaran não mudou, porque além de o novato cozinhar bem, era gentil e espirituoso, uma excelente companhia.
Há muito não era chamado de “amigo” por alguém.
Desde que se convertera à Aurora do Novo Porvir, tal vocábulo fora riscado de seu léxico.
Da parte de Milo, por mais que estivesse encenando, estava se afeiçoando ao grandalhão para valer. Tentava não pensar em como ficaria o brasileiro quando descobrisse quem ele era de fato... quando a seita, à qual entregara toda sua vida, fosse condenada...
Não, definitivamente, era um pensamento que ele deveria evitar com toda veemência.
Após o jantar, lavaram a louça, tomaram seus banhos. Para alegria do policial, Aldebaran acendera a lareira; diante dela estavam confortavelmente sentados, tomando chá enquanto conversavam. Os momentos com o brasileiro assemelhavam-se a um oásis naquele deserto pavoroso que era o Vale. Passado um certo tempo de colóquio, Milo lançou:
— O que tá esperando pra me perguntar o que o Redentor queria comigo?
O colono mirou-o, quase surpreso. Pousou a xícara na mesinha de centro, reabastecendo-a de chá preto. Ofereceu mais ao novato, que aceitou de bom grado. Então respondeu, tranquilo:
—Não é questão de perguntar, e sim de ouvir.
— Mas você quer ouvir?
— Você quer que eu ouça?
— Eu quero que você se sinta à vontade pra me perguntar as coisas, Debas.
— Debas?
Rindo divertido, o agente justificou-se:
— “Aldebaran” é um nome muito grande pra ficar falando toda hora. Gostou do apelido que criei?
— É engraçado. – Admitiu, em meio a um sorriso.
— Então, Debas... eu quero que você ouça... porque somos amigos agora, e porque conto com sua maior experiência para entender algumas coisas.
O mais velho tornou-se sério.
— Pois bem, vá em frente, Mikael. No que eu puder auxiliar...
— O Messias veio até mim porque queria saber qual mensagem eu tinha para ele. Já que anjos são mensageiros de Deus, ele está convencido de que eu tinha algo a lhe transmitir. Algo que não foi transmitido em seus sonhos. Só que eu não tenho essa resposta. Nem ao menos consigo entender por que ele me via nos tais sonhos... ainda mais como um ANJO! Ele... pareceu bem decepcionado, sabe?
— Na certa, não com você, mas com a situação em si. Estou certo de que Deus há de revelar a razão de tudo isso no tempo certo.
— Foi o que eu disse ao Redentor.
— Fez bem. Ao Pai Celestial pertencem todos os mistérios... mas... vejo que há OUTRA questão te afligindo.
Milo terminou a segunda xícara de chá e a depositou sobre a mesinha coberta por uma toalha alvíssima. Uniu as mãos sobre os joelhos, dobrou o corpo para frente. Parecia buscar uma maneira de falar.
— Debas, você disse que veio pro Vale há dez anos. O Redentor já... já enfrentava sua missão pelas almas pecadoras? Digo, ele já... passava pelos martírios?
—Passava sim.
Engolindo em eco, o policial estreitou mais seus dedos entrelaçados.
— É bastante tempo.
— O senhor Hades fundou nossa sagrada Igreja há cerca de 17 anos. Foi depois que o Anjo Gabriel lhe revelou que o filho do meio era a reencarnação de Jesus.
Sim, o que diziam os relatórios da operação policial.
Mas agora, tais afirmações adquiriam uma faceta diferente. Impactante.
Dezessete anos.
Não era possível que aquele homem vinha sendo sumariamente torturado há dezessete anos!!! E pelo próprio pai!
Com voz surda, questionou:
— Quantos anos será que ele tem, ao certo?
— A maioria acredita que 24 ou 25 anos.
— E você... assistiu a muitos desses... suplícios?
— Muitos, não. Os flagelos públicos são pouco frequentes.
— “Públicos”? Há outros tipos? – Milo tentava não parecer surpreso demais.
Não estava sendo bem sucedido.
— Não escutou nada sobre isso na igreja em que congregava?
Sorrindo como que pego em falta por sua formação deficitária, o novato elucidou:
— Sim, claro, mas não se tem acesso a detalhes de como o Redentor reproduz o sacrifício de Cristo.
Não era mentira.
— Hum, de fato, esses pormenores só devem ser conhecidos aos que estão aqui na comunidade. Vejo que isso não mudou. – O brasileiro reconheceu, coçando o queixo.
— Não. Só sabemos que ele é submetido aos suplícios que seu Antecessor sofreu...
Olhando-o longamente, Aldebaran dispôs-se a explicar:
— Basicamente, há três níveis de sacrifícios pelos quais passa nosso Messias. Há os Cerimoniais, rituais reservados e com finalidade de angariar doações...
— Como é?
— Sobre esse não posso dar detalhes. A esmagadora maioria das Ovelhas nunca presenciou um. Apenas as que ainda possuem negócios no “mundo exterior”, e alguns fiéis de lá também, desde que contribuam com altos valores.
— Tá me dizendo que tem gente que PAGA pra ver o Messias sendo martirizado?
Dirigindo-lhe uma expressão levemente indignada, o ex pastor disse:
— Não “pagam” para vê-lo “sofrendo”. Já que é algo pelo qual o Redentor fatalmente precisa passar, alguns fazem doações generosas em agradecimento por isso... e por alguma graça que porventura queiram alcançar.
Percebendo que pisava em terreno perigoso, Milo tentou contornar aquele caminho equivocado:
— Claro, sei que dinheiro é necessário! O que me surpreendeu foi terem sangue frio para vê-lo sofrer... e pagarem para isso.
— Como eu disse, são doações. Mostras de gratidão pelo que o Redentor faz por nós.
— Certo, entendi. Fale-me dos outros.
— Tem os Autos de Fé, demonstrações abertas a todos habitantes do Vale; e, por fim, as Punições ou Penitências, infligidas pelo próprio senhor Hades ou assessores bem próximos deste.
Se não estivesse sentado, Milo provavelmente cairia. Aterrado, processava com um resistente ceticismo o que acabara de escutar.
Era doentio demais!
— Nossa, eu... eu não sei o que dizer. Sabia que era missão do Redentor passar por esses martírios por nós, pecadores, mas...
Nada de cênico havia na fala de Milo daquela vez. Ele realmente se via pasmado com tais informações.
— Inclusive... interessante você tocar nesse assunto, já que no próximo sábado haverá um Auto de Fé.
— O quê?!?
— Sim, ficamos sabendo esta tarde. É que você tinha saído com o Redentor e o Arauto, por isso não escutou o...
O policial fracassou em disfarçar sua estupefação:
— Cê tá querendo me dizer que Camus vai ser TORTURADO no sábado, diante das Ovelhas?
Aldebaran tornou-se gravemente sério. Ergueu-se do sofá, encarando o loiro com severa reprovação.
— Mikael. Não deve chamar o Messias de modo tão pessoal. – Advertiu. – Apenas a família dele e os membros mais próximos do Grande Pai possuem direito de se dirigirem ao Redentor pelo nome de batismo.
— Eu... certo. Vou me lembrar disso, me desculpe. É que ele... me deu permissão... acabei usando o nome e...
— Ele te deu permissão de chamá-lo pelo nome de batismo?
— Sim... mas... você tá certo, eu não posso sair por aí falando assim...
A seriedade do brasileiro deu lugar à legítima surpresa e, em seguida, à empatia pelo que claramente o amigo sentia; estava evidente no semblante perturbado do novato.
— Não fique assim, Mikael. A primeira vez nunca é fácil para ninguém. Vê-lo passando pelos suplícios é doloroso para nós também. É necessário, porém, que isso ocorra. São as Leis da nossa Remissão. Ele foi enviado para isso!
— Sim, eu sei. Você tem toda a razão, Debas.
O ex pastor pôs a mão no ombro do agente, no intuito de confortá-lo.
— Vai ver que é um momento de glória. Somos privilegiados por testemunhar o Sacrifício do nosso Messias!
Boquiaberto, Milo tornou seu rosto petrificado para o outro e fitou-o, quase sem crer que aquele homem bondoso e equilibrado acreditava, de fato, que o sofrimento brutal de um inocente pudesse salvar alguém.
Contudo, não ficara evidente durante as pesquisas?
Homens, mulheres, jovens, adolescentes... ricos, pobres, classe média... empresários, profissionais liberais, assalariados, professores, pesquisadores, vendedores, operários... pessoas cultas, estudadas, simples, humildes, prestigiadas... pessoas frágeis, fortes, suscetíveis, decididas, bem estruturadas ou não...
QUALQUER pessoa estava sujeita a cair nas garras de uma seita abusiva.
Bastava o momento certo.
O estímulo certo.
A palavra certa.
O TOQUE.
Alcançar-lhes-ia a mente, a alma, o coração.
Aprisionar-lhes-ia o espírito.
— Pode ser que por você ter tido um contato tão próximo com o Redentor, e tão rapidamente, acabe se sentindo tão consternado como está se sentindo. Não é um pecado. Só sugiro que não... Mikael?
Milo somente assentia, em um reflexo abandonado.
Mirava as chamas douradas a consumirem a lenha.
Lampejos rubros pulsavam no seio da lareira.
Aproximava-se uma etapa da investigação em que deveria congelar DE VEZ suas emoções.
Não podia se deixar envolver.
Não podia voltar a ser compassivo por demais.
Não podia...
Malgrado seu coração ardesse como aquela lenha, tinha que ser como o cume das montanhas permanentemente geladas.
“Que Deus me ajude.”
E, ao se dar conta do que evocara em pensamento, deixou escapar um riso amargo.
— Mikael? – Repetiu Aldebaran, preocupado com o amigo, em cujos olhos algo cintilou...
Um brilho de lágrimas, que desvendava-se na áurea luz oriunda do fogo.
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