Redentor
11 Via Crucis - Ato IV : Mistérios Divinos
Notas iniciais
A Cerimônia de Unção das Novas Ovelhas tinha tudo para ser um evento auspicioso: o Messias da Igreja Aurora do Novo Porvir, “temporariamente” residente à Comunidade Vale da Aurora Dourada, diante de milhares de seguidores receberia as 112 almas egressas do “mundo que jazia no Maligno”, e as agraciaria com a ablução de sua água santificada.
Definitivamente, aquele não era o cenário esperado para tal cerimônia; pois que no chão do palco estendia-se, desacordado, o jovem apontado como a reencarnação de Cristo, e, a despeito disto, as atenções convergiam-se notadamente para o homem de longos e anelados cabelos loiros a quem o Redentor chamara de “anjo” antes de desfalecer. A estupefação silenciara a todos. Neste ínterim, Milo olhava aturdido para o rapaz desmaiado.
Que diabos acontecera? O “messias” apontara para ele, em visível êxtase místico, e em seguida tombara sem sentidos. O policial sentiu sobre si milhares de olhares assombrados, inclusive os do próprio Hades. As íris cinzentas do mentor espiritual faiscavam sinistramente, intensificando o desconforto do agente. Os irmãos do Redentor ajoelharam-se próximo ao rapaz inconsciente, verificando sua pulsação. Homens carregando uma maca surgiram apressados nos fundos do palco, saídos da porta pela qual os altos membros entravam. Com cuidado, depositaram o ruivo na maca. Isso acontecia ao mesmo tempo em que, um a um, os murmúrios da plateia convertiam-se em uma sinfonia exclamativa da qual se depreendia:
— Um anjo?
—O Redentor disse que ele é um anjo!
— “Um” anjo não... disse que é “o” anjo...
— Que anjo?
—Sim, ele disse que o loiro é um anjo!
— Um anjo entre nós!!!
Milo olhava ao redor, percebendo que as pessoas se achegavam a ele.
Dizer que não estava gostando daquilo seria um eufemismo dos bem tolos.
— Vocês ouviram? O próprio Messias disse que ele é um anjo!
— Sim, o Messias disse...!
— Um anjo...
— Um anjo!
Quando as primeiras mãos alcançaram as costas e os ombros do policial, este teve um sobressalto alarmado. Em um volteio, deparou-se com a assustadora visão de um dezenas e dezenas de braços estendidos para ele; um cerco humano fechava-se. Entreabriu a boca, mas, atônito como se encontrava, não conseguiu emitir palavra alguma.
— Um anjo!
— Ele é um anjo!
— É um sinal de Deus! O céu está chegando para nós!!!
— Sim, está chegando!!!
Todos queriam tocar aquele “sinal de Deus”, aquele “enviado dos céus”. Avançaram sobre ele, espalmando as mãos sobre o corpo do loiro, que retrocedeu, agora verdadeiramente amedrontado. Mais não pôde, porque os fiéis, temerosos de que o “milagre” se desvanecesse diante deles antes que pudessem extrair-lhe alguma influência beatífica, passaram a agarrá-lo, a puxá-lo.
— N-não... parem! Afastem-se de mim! – Era mais uma súplica do que uma ordem.
Ouvindo-a, alta e aflita, Hades saiu de seu estado contemplativo e bradou:
— Parem com isso, meus filhos! Larguem o rapaz! Larguem-no, AGORA!!!
Não obstante, a emoção de tocar um anjo sobrepujava até mesmo a voz do líder religioso. Sentia-se algo elétrico no ar, algo contagiante e único. Era como tocar uma parte do Céu que por eles esperava. Aquele fenômeno comprovava o êxito de sua fé! O Redentor dissera que aquele homem era um anjo, e nem as ordens de Hades e de seus assessores convenceriam a turba a não obter a glória de encostar em um ser celestial!
— Ovelhas, parem já com isso! Parem!!! – O pai de Hades repetiu a ordem ao microfone, colérico.
Até os enfermeiros se detiveram, observando a insólita cena. Foi preciso que Radamanthys vociferasse:
— O que estão fazendo aí parados, seus idiotas? Levem o Messias daqui! VÃO!
Assustados, eles obedeceram. O primogênito de Hades chegou à beirada do palco e viu o novato loiro afundando naquele mar de enlouquecidos. Ao ter os cabelos violentamente puxados por mãos sôfregas, ansiosas, Milo gritou, menos de dor do que de pavor.
— PAREM COM ESSA LOUCURA! IDÓLATRAS! ESSE HOMEM NÃO É ANJO COISA NENHUMA!
— Pai, eles NÃO estão te escutando! – Apontou Radamanthys, nervoso.
— Idólatras! Vocês serão CASTIGADOS! – Hades tampouco escutou o filho.
Radamanthys estalou a língua.Voltou-se para trás, berrando para os seguranças que já chegavam pelos fundos:
— Rápido! O rapaz vai ser feito em pedaços! Rápido, seus molengas!!! – Demandou, antes de correr para a escada que dava acesso à congregação.
— Rada, cuidado! – Gritou Algol, impressionado como os Vigias, diante da atitude desprendida do primogênito de Hades.
Assim como ele, os Arautos Chrysaor e Albior deixaram seus postos para tentar resgatar o “anjo” do tumulto. O jovem debatia-se vigorosamente; no entanto, não podia muita coisa contra dezenas sobre ele. Rasgavam-lhe as roupas, agarravam-no pelo pescoço, pelos pulsos e pelos braços, arrancavam-lhe os dourados cabelos, arranhavam-lhe as faces. Estivesse em seu estado normal, Milo estaria xingando a plenos pulmões e desferindo socos e pontapés em todas as direções. Entretanto, a certeza de que seria desmembrado VIVO para virar relíquias de fanáticos paralisava-o. Os seguranças, Radamanthys, Chrysaor, Albior, e agora Dante e Bian tentavam conter a turba. Um homem imenso chegou por trás dos insanos fiéis. Literalmente atirou alguns pelos ares, como se fossem figuras de papelão; apavorados, as Ovelhas saíram do caminho do brutamontes, que assim conseguiu chegar até Milo, arrancando-o das garras dos fiéis ensandecidos.
— Leve-o para o Tabernáculo! – Radamanthys ordenou a Aldebaran, que segurava Milo. E gritou para os seguranças – Vocês! Quero metade acompanhando o grandão! Vão!!!
Por mais que o policial tivesse reconhecido Aldebaran, e dele já fizesse bom julgamento, ainda estava sob pânico, agora por se ver retirado sabia-se lá para onde. Instintivamente, tentou se desvencilhar dele. O brasileiro segurou-o com mais força. Em um reflexo desesperado, o loiro debateu-se furiosamente. Aldebaran percebeu-lhe o vigor, a despeito da compleição e altura inferiores às suas.
Não; havia mais do que vigor. Havia TÉCNICA. O cara havia de ser lutador, ou algo do tipo, pensou o ex-pastor.
— Me desculpa, Mikael, mas eu TENHO que te tirar daqui – Avisou, reforçando a contenção. Conseguiu arrastá-lo até os fundos do Templo, seguido por vários seguranças do Vale, sempre observado por Hades e seus assessores.
— Não! Para ONDE estão me levando?!?
— Mikael, fique calmo, por favor...
— Não! ME SOLTA! ME LARGA! – Gritava Milo, em estado de choque. Estava aterrorizado, confuso e fisicamente ferido.
— Pare, você só vai se machucar mais! – Pediu Aldebaran, preocupado em ter de empregar mais força para conter o rapaz.
Hades apontou para Aldebaran e gritou:
— Enfermeiros!!!
Eles entenderam prontamente o que era para fazer. Dois correram até o imenso homem que segurava o “anjo” pela cintura e pelo pescoço.
— ME SOLTA! ME LARGA!!!
— Mikael, por favor!!!
Quando estavam próximos da saída, foram alcançados pelos enfermeiros; um deles segurou, com as duas mãos, um dos braços do agitado loiro. Rapidamente o outro ergueu a seringa que portava na mão direita. Impossível mirar bem, o homem não parava de se debater. A solução foi ajudar o colega a segurá-lo e injetar o tranquilizante em um ponto aleatório do braço musculoso.
— Aaaahh!! – Milo gritou de dor. – M-maldi...
Seu incômodo, contudo, não durou muito, pois que, quase que instantaneamente, amoleceu nos braços hercúleos do gigante brasileiro e foi de encontro à escuridão.
*************
Na principal sala de reuniões do Tabernáculo, sentados à extensa mesa com tampo de mármore, encontravam-se Hades, seus filhos, os Vigias e os Arautos. O líder religioso mantinha unidos sob o queixo contraído os dedos lívidos entrelaçados. Ninguém se atrevia a proferir qualquer coisa antes que seu grande mentor o fizesse. Mas este permanecia em um silêncio reflexivo, as sobrancelhas franzidas compondo uma expressão dura e nada resignada com o ocorrido no Templo da Aurora.
— Muito bem, eu gostaria de ouvir as opiniões dos senhores. O que acham que pode ter acontecido no culto? – Indagou, o tom controlado em desacordo com a preocupação no olhar concentrado.
— Confesso que ainda não consegui chegar a um entendimento. – Admitiu Minos, fitando as próprias mãos. – Nunca presenciei semelhante loucura nesta terra de paz e serenidade.
— É prematuro chamar de “loucura” o que pode ter sido motivado pelo contato com algo superior. – Observou Aiacos.
— Camus disse que aquele homem era um anjo. Foi o bastante para desencadear aquela insanidade. – Algol comentou, fitando cada um dos presentes.
— Insanidade? – Interveio Asterion, quase severo. – Podemos assim nomear? A manifestação do Espírito Santo em alguns dos nossos também é tomada por insanidade pelos infiéis.
— Está me chamando de “infiel”, Asterion?
— Eu não quis dizer isso, Algol. – Defendeu-se o Vigia, nada intimidado. – Apelo apenas para que se lembrem de como a presença do Divino excita as emoções. Pessoas podem sim se entregar a reações como as que presenciamos.
— Acredita mesmo que o rapaz tenha essa “presença do Divino”? – Perguntou Bian, com receio de trair a própria crença.
— Vocês não? O próprio Messias disse que ele era um ANJO. – Asterion ergueu as sobrancelhas, genuinamente surpreso com o questionamento dos companheiros.
— Sim, todos nós ouvimos. – Murmurou Albior, tenso. – O Redentor disse que o rapaz era um anjo. E em seguida, caiu como se a revelação lhe varresse o espírito. É frequente a perda da consciência quando de um contato muito intenso com o Divino.
— O desmaio de Camus comprovaria, então? Digo... só de ele ter apontado aquele homem como um anjo... já provaria que estamos diante de algo superior. É a palavra do Messias... – Dante raciocinou. Lembrou-se de quando o ruivo falou com alguém “invisível” no bosque. – E acho que não foi a primeira vez que Camus o viu...
— Eu também acho. Ele falou até como se CONHECESSE “o anjo”.
— Não só por isso, Bian, mas porque... bem, quando eu acompanhava o Redentor em um de seus passeios pela propriedade, tive a impressão de que ele VIU esse anjo na mata. Falou com ele. Mas eu não vi nada.
— Você tem certeza disso, Dante?
— Como eu disse, Chrysaor, eu tive a “impressão”. O que posso garantir é que ele FALAVA com alguém que, para mim, não estava visível.
— Você não me contou isso. – Hades apontou, em uma branda reprimenda.
O Arauto apressou-se em se explicar:
— Repito, meu senhor, foi uma IMPRESSÃO que eu tive! Não julguei que uma simples sensação minha pudesse ter relevância para...
— TUDO em relação ao Cristo Reencarnado tem relevância. – Interrompeu-o, seco. Inspirou longamente antes de declarar – Vocês sabem que o tal rapaz NÃO é anjo coisa nenhuma. É um novato, seu nome é Michael Segerson, é empresário e vem de Red Meadow. Adquiriu o nome santo de Mikael ao ser sagrado Ovelha do Vale.
— Mas então por que o Messias disse que ele é um ANJO?
— É o que estamos tentando descobrir, meu caro Aiacos. – Volveu o líder, quase impaciente. – Quero descobrir por que o meu filho, que NUNCA havia visto esse novato antes, fez essa afirmação. E por que isso o afetou a ponto de fazê-lo desfalecer.
— Não foi a primeira vez que Camus o viu.
Todos se voltaram para o sisudo primogênito de Hades. Vendo o efeito de suas palavras, o loiro não esperou que lhe questionassem:
— Há mais de um ano que Camus vem tendo sonhos, os quais ele afirma serem “visões”. Ele tem visto sempre um mesmo anjo nestes sonhos.
— O quê? Como sabe disso? – Quis saber um irritado Algol.
— Ele me contou.
Surpresos, os homens se entreolharam, murmurando entre si.
— E por que não contou ao nosso pai? Como saber se não é uma armadilha do Diabo para confundir nosso irmão e desviá-lo de sua Missão?
— Cuidado, Algol. Não considero conveniente você cogitar ser o Diabo alguém que o Redentor em pessoa afirmou ser um anjo. – Observou Chrysaor, seriamente.
O caçula de Hades gesticulou afobado:
— Você ouviu o meu pai! Esse homem é uma OVELHA! Acabou de chegar à nossa Comunidade! Como é que ele seria um anjo?!?
—Camus afirma categoricamente que Mikael é “o anjo que veio”. – Informou Albior, angariando a atenção de todos. – Estive em seu quarto até ele recobrar a consciência, e quando voltou a si, só ficava repetindo isso. E dizendo que QUER VÊ-LO.
— A reação do Messias condiz com o que nos contou Radamanthys. Camus nunca havia tido qualquer contato com Mikael, mas quando o viu, foi, de fato, como se o estivesse RECONHECENDO de algum lugar. — Apresentou Minos, muito sério.
Hades encarou duramente o primogênito ao indagar:
— Por que é que você não me contou nada disso, Radamanthys?
Emudecidos, todos aguardaram pela resposta do jovem. Se este possuía algum temor, não o demonstrava.
— Senhor meu pai, não julguei que alguns sonhos do meu irmão constituíssem assunto de importância para ser levado ao senhor.
— Não considerou que esses sonhos pudessem ser proféticos ou algo assim?
— Se fossem, ele teria me revelado. Camus nunca esclareceu acerca de seu conteúdo, nem de qualquer mensagem que porventura o anjo tivesse lhe transmitido.
— Bem, mas sendo Camus o Messias desta era, é evidente que esses sonhos têm alguma significação. – Capella pontuou.
Minos balançou a cabeça ao sentenciar:
— Deveria ter comunicado isso ao Grande Hades, Radamanthys.
— Mas eu não imaginava que...
— CALE-SE! – Bradou o líder religioso, erguendo-se de súbito e estapeando o próprio cálice de água diante de si. – Você me decepcionou, Radamanthys. Faltou com a confiança que deposito em ti. Não tinha o direito de conferir relevância ou irrelevância aos assuntos relacionados ao Cristo Reencarnado. Tinha o DEVER de reportá-los, quaisquer que fossem!
Com um mal disfarçado sorriso de satisfação, Algol saboreava a repreensão que recebia o superestimado irmão mais velho. Viu-o de cabeça baixa, aceitando a humilhação, servil como um cordeirinho. Desejou ardentemente presenciar o castigo que o pai certamente lhe infligiria. Para sua amarga decepção, Hades tão somente declarou:
—Se não estivéssemos em meio a uma questão maior, eu te castigaria pessoalmente. Não há tempo para isso, e eu preciso de ti neste momento. Proceda com retidão e eficiência, e talvez eu te perdoe, Radamanthys.
— Sim, senhor meu pai. – O rapaz levantou-se para se curvar com respeito. – O que deseja de mim?
— Por enquanto, que me conte o contexto que te possibilitou ficar a par das... “visões” de Camus. Precisamos entender o que está acontecendo antes que tudo isso cresça.
— Isso o quê, meu senhor?
— O que acha, Bian? Essa HISTERIA, essa idolatria! Aquilo que vimos no Templo foi a mais pura manifestação de idolatria! Aquelas pessoas acreditaram que Mikael fosse de fato um anjo, e só por isso, deu no que deu!
— E o senhor NÃO acredita, Grande Pai?
A pergunta de Albior, feita de forma ponderada, congelou a todos. E trouxe a Hades um dilema.
CLARO que Michael Segerson NÃO ERA UM ANJO.
Mas desmerecer o proclame do Redentor seria desmerecer o próprio Redentor!
A figura messiânica constituída com êxito, que garantira prestígio e poder à seita por ele, Hades, erigida, perderia a credibilidade se o fundador da Igreja saísse contestando abertamente o que Camus dizia. Ou... ELE MESMO perderia a tal credibilidade. Ambas consequências seriam funestas. Percebeu que alguns de seus próprios assessores ali presentes já o olhavam de um modo inquietante...
— Vejam bem... – Abrandou o tom, fazendo-se quase terno. – Logicamente, acredito em tudo que o Redentor acredita. Porém, sabemos que Mikael é um homem comum, egresso da congregação de Red Meadow. O que nos leva a uma única constatação: estamos diante de um mistério divino.
— Talvez Mikael seja um anjo reencarnado.
— Anjos não reencarnam, Dante.
— Como podemos ter certeza? As maravilhas de Deus nem sempre são por nós compreendidas, Aiacos. – Argumentou Capella, analítico. – Assim como Camus recebeu a essência de Cristo, que, a princípio, somente retornaria para o Arrebatamento, Mikael poderia também ter recebido alguma missão de Deus... alguma influência angélica.
— Vocês devem estar brincando. Aquele cara é tão anjo quanto eu... – Debochou Algol.
— Quer dizer que você NEGA a palavra de nosso Salvador?
O caçula de Hades travou a mandíbula ante a réplica de Chrysaor. Olhou para Radamanthys, que se mantinha calado, de braços cruzados e pensativo.
— E você, irmão? Acredita que Mikael seja um anjo?
Os olhos ambarinos cravaram-se impassíveis no mais novo.
— Eu acredito no que o Redentor acredita.
“Mentiroso filho de uma puta!”, pensou Algol, fervendo de raiva. Radamanthys não passava de um dissimulado, sempre assim!
— Albior, você disse que Camus quer ver “o anjo”, certo?
— Sim, Grande Hades. Insiste nisso desde que acordou... diz que esperou muito por ele e que quer saber a mensagem que o anjo lhe trouxe.
Deixando escapar um suspiro, o líder continuou:
— Entendo. Depois resolveremos isso. Até onde sei, Mikael encontra-se sedado em um dos quartos do Tabernáculo. Dante, como estão as Ovelhas?
—Alvoroçadas, meu senhor. Saber que há um anjo em nossa comunidade está mexendo com todo mundo.
— Soube que já há gente peregrinando até aqueles que conseguiram cabelos e pedaços de roupa de Mikael. – Ajuntou Chrysaor.
Consternado, Hades falou sombrio:
—“Não terás outros deuses além de mim”. Será que já se esqueceram das palavras de Deus?!?
— Se me permite, senhor Hades, não me parece ser o caso de entronizarem o novato como um deus. Os fiéis querem relíquias, as quais nunca se restringiram a pertences de Cristo. Relíquias de Santos sempre foram procuradas por conferirem graças aos crentes, através dos tempos. – Albior sabia que ousava em proferir tais palavras, mas sua fé era maior que o respeito a Hades. Este fuzilou o Arauto com o olhar, conquanto não o contradissesse.
— O senhor vai deixar Camus ir falar com o cara? – Quis saber Algol.
— Vou falar primeiro com Camus. O homem chamado Aldebaran está com o novato. Albior, quero que vá até lá. Não hesite em acionar os guardas caso o rapaz se descontrole novamente. Mande sedá-lo de novo, se for necessário. Basta de escândalos por aqui. – Amparou a testa com os dedos, aparentando cansaço.
— Sim, Grande Pai. – O Arauto prontamente ergueu-se da mesa para atender à ordem. Algol viu-o se retirar. Fumegava de ódio por mais uma vez ter sido deixado de lado das ações almejadas. Ele bem gostaria de ir ver aquele belo jovem ferido e em andrajos, preso e vulnerável...
— Enquanto vou conversar com o Messias, quero que articulem guardas suficientes para fazer uma ronda extra pelo Vale. Manifestações superticiosas não devem ser toleradas, no entanto... por ora, que não empreguem rigor na restrição. O povo pode pensar que estamos contra um “mensageiro celestial” e até mesmo refutando o que afirmou o Redentor.
Eles acataram-lhe o pedido e respeitosamente se retiraram de sua presença.
Vendo-se só, Hades afundou os dedos na basta cabeleira negra, pensando, atribulado: “Michael Segerson... quem é você, afinal de contas?!?”
*************
Camus aceitava das mãos da cunhada uma xícara de chá de ervas quando viu seu pai adentrar abruptamente o quarto. O ruivo, ainda trajando a túnica cerimonial, estava sentado em sua cama de solteiro. Fez menção de se levantar, ao que o líder religioso impediu com um gesto. A moça que servia o cunhado não conseguiu disfarçar o sobressalto causado pela chegada do sogro. Com o semblante funestamente fechado, ele mandou, ríspido:
—Saia, June. Quero falar com o meu flho.
— Pois não, Grande Pai. – Assentiu a loira, em um fio de voz. Retirou-se sem delongas, fechando suavemente a porta de madeira.
Após depositar a xícara sobre a mesinha de cabeceira, Camus uniu as mãos sobre as coxas, aguardando que o pai começasse a conversa.
Hades trocara de roupas; vestia uma bata roxa sobre calças pretas e calçava sandálias de couro escuro. Tivera os cabelos presos em uma grossa trança, jogada displicentemente para a frente do corpo atlético. O Redentor achou o pai com uma aparência jovial, o que o confundia sem que ele soubesse exatamente a razão.
— Como se sente, meu filho?
A pergunta, casual, em tom afetuoso.
Nada acusatório.
Quase... paternal.
— Bem.
Ante a lacônica resposta, Hades sorriu, afável; sentou-se no colchão ao lado do jovem, notando que não era lá muito confortável. Não como o leito em que dormia em seus luxuosos aposentos, estes também bem diferentes da simplicidade dos ocupados por Camus.
— Camus. Eu gostaria de entender o que aconteceu na Cerimônia da Unção. Você estava normal, como sempre cumprindo suas funções, sereno e confiante... e então...
— O senhor está bravo comigo?
O líder religioso preferiu não se ater àquela interrupção, incomum por parte de Camus.
— Não, meu filho, não estou bravo contigo. Estou apenas intrigado. Você disse, diante de todos e de forma bem veemente, que Mikael era um anjo. Parecia tê-lo reconhecido de algum lugar e, obviamente, era a primeira vez em que via aquele rapaz. Pelo menos... aqui na Comunidade.
O ruivo contraiu os lábios e continuou a fitar as mãos brancas cujos dedos agora se entrelaçavam com firmeza quase dolorosa.
— Radamanthys disse-me que você contou a ele sobre alguns sonhos...
O peito do “messias” ficou subitamente pesado.
— ... que nesses sonhos, você costumava ver um anjo, e...
— Não eram apenas sonhos. Eram visões. O anjo me visitava através delas.
Pela primeira vez em muito tempo, os olhos castanho avermelhados encontraram de forma direta e audaz os cinzentos do pai.
— Eu nunca sonho. Meu sono é escuro como o céu noturno, o céu sem lua.
— E então você passou a vê-lo.
O rapaz fez que sim com um gesto breve e decidido.
— Rada falou que deve ter mais de um ano que você... é visitado por esse anjo. É bastante tempo.
— Eu não sei quanto tempo tem. Não tenho como saber. – Camus não tinha acesso a calendários. Hades distinguiu certo tom queixoso ali ou era impressão? – Mas sei que, sim, faz bastante tempo que ELE vem até mim.
— E por que você achou que Mikael, uma Ovelha novata, pudesse ser... “ele”?
—Porque É ele.
Mordendo de leve o lábio inferior, Hades suspirou pelo nariz. Insistiu, em um sussurro cuidadoso:
—O que te faz pensar isso, filho?
— Porque era ELE nas visões. O anjo... tinha o rosto dele...
— Mikael se parece com o anjo das suas visões?
— Não “se parece”. ERA ELE nas minhas visões.
Hades considerou o filho; havia uma fulgência rara no olhar costumeiramente apático e submisso.
— Está me dizendo que o homem... o ANJO que você vem vendo há mais de um ano é IGUAL ao novato Mikael? É o que quer me dizer?
Com plácida segurança de quem crê piamente no que afirma, o ruivo confirmou:
— O anjo ERA Mikael. Mikael é “o anjo que veio”.
Hades cerrou os olhos firmemente, no afã de dissipar uma súbita dor de cabeça que o acometeu. Falou, mais para si mesmo do que para o filho:
— Isso é... isso é absolutamente incompreensível para mim. Se você tivesse visto esse homem antes alguma vez, poderia até haver alguma explicação, mas... estar vendo-o há mais de um ano, quando ele não está aqui no Vale nem há um mês...
Poderia creditar a associação de “Mikael” a uma padronizada figura angélica em função de suas características físicas: ele era belo, muito belo, possuía uma imponência única, olhos inacreditavelmente da cor do céu de outono, longos e brilhantes cabelos da cor do sol de verão, traços harmoniosos e ao mesmo tempo fortes, todo ele a evocação de uma perfeição que o posicionava acima da vasta maioria das pessoas comuns. Poder-se-ia apelar para a explicação de que Camus transferira para a nova Ovelha a popular efígie angelical.
Só havia um fato que atirava tal explicação por terra: Camus NÃO tinha acesso a livros ilustrados ou a representações artísticas de qualquer espécie que tencionasse reproduzir a figura de um anjo.
Camus NUNCA havia visto ilustrações de anjos.
Um arrepio correu pela espinha do mentor da Igreja. Algo naquela história começava a desconcertá-lo DE VERDADE.
— O anjo... o "anjo que veio"; anjos são mensageiros. Ele... lhe trouxe alguma mensagem? O que ele te dizia?
—Nada. – Respondeu o ruivo, com pesar. – Ele NUNCA dizia nada. Eu sempre sentia que ele estava prestes a me dizer algo, mas então... partia.
— Filho... você JURA que via esse Mikael... digo, via o rosto dele no rosto do anjo que te visitava? Jura que está me dizendo a mais absoluta verdade? Não estará se enganando, não é mesmo?
E foi então que pela primeira vez Camus se fez maior que Hades. Este mesmo sentiu-se sufocado pela presença do filho, que encarou-o com uma perturbadora “superioridade”.
Não sabia se era essa a expressão adequada.
É como se naquele instante... Camus fosse REALMENTE uma DIVINDADE.
E ele... um ser diminuto e abjeto.
Um ser que seria esmagado pelos pés de um DEUS.
Hades engoliu em seco, sentindo umedecerem as córneas imóveis. Pensou que fosse cair da cama, ir ao chão ao ouvir a voz grave e monocórdia do Redentor:
— Acaso mente o Filho do Senhor Teu Deus?
Respirando pesadamente, o líder da seita não tardou em argumentar:
— N-não... é claro que NÃO! Eu SEI que você não mente, Camus. Eu só... – Inspirou longamente, a fim de recobrar a tão necessária autossuficiência (por que se perturbara daquele jeito? Era o SEU FILHO, não era?) – Eu só me pergunto por que nunca me contou sobre o anjo. Por que contou ao Rada e não contou ao seu pai?
Camus tampouco pareceu se perturbar:
— Nem todos os mistérios de Deus devem ser perscrutados pelos homens. Radamanthys descobriu por acaso, vendo-me despertar de um dos sonhos de revelação. Ele cuidava de mim quando eu... o senhor SABE.
— Sim. Quando você se recuperava dos seus suplícios. Aqueles necessários para que possa expiar os pecados da Humanidade... dos escolhidos do Pai Eterno. – Observou Hades, taxativo.
Um desconfortável silêncio se seguiu entre eles. O ruivo mirava o pai com uma expressão destituída de qualquer temor mas também de qualquer emotividade.
— Eu quero vê-lo, pai.
Camus não costumava prescindir da humildade ao pedir algo.
Em verdade, aquilo sequer parecia um pedido.
Hades estranhou-lhe o tom... a expressão... não. Definitivamente não estava gostando NADA daquilo. No entanto, limitou-se a dizer:
—Deixe-me falar com ele primeiro, que tal? Depois, prometo que deixo você ir ter com o “seu” anjo.
— O senhor PROMETE, em nome daquele pelo qual EU vim?
Hesitando, o homem franziu os lábios já secos. Por fim, assegurou:
—Eu prometo.
— E quando é que o senhor vai falar com ele?
— Quando ele acordar.
— Quando ele... acordar?
O ruivo ficou confuso. Acaso era madrugada e ele não sabia? Mas percebia a luminosidade do dia vinda da varanda nos fundos do quarto. A menos que já estivesse amanhecendo... o domingo se fora?...
Notando-lhe a súbita e bem vinda desorientação, Hades acercou-se dele, esclarecendo com assertividade:
— Precisamos colocá-lo para dormir. Mikael ficou muito AGITADO depois que centenas de fiéis avançaram sobre ele. Dezenas e dezenas agarravam-no... o coitado entrou em pânico.
— Mas por que os fiéis fizeram isso com ele?
O líder religioso viu a chance de recuperar sua primazia:
— Porque VOCÊ disse que Mikael era um anjo. Apontou para ele, anunciando isso para TODOS, e veio a perder a consciência no palco. As Ovelhas ficaram maravilhadas e... bem, digamos que perderam o controle.
— Elas... elas machucaram ele? – Inquiriu o ruivo, apreensivo.
— Não intencionalmente, mas... queriam chegar perto dele, tocá-lo. Não paravam de vir. Cercaram-no e, bem, acabaram se excedendo, pois Mikael tentou se desvencilhar delas... com toda razão, devo dizer. O pobre rapaz estava apavorado.
O coração de Camus fremiu dolorosamente.
— Mas POR QUE fizeram isso com ele?!?
Aos olhos perversos de Hades retornava aquele fulgor acusatório. Encarou o filho com extrema reprovação ao responder:
—Porque VOCÊ disse, ou melhor, GRITOU para todos ouvirem, que Mikael era um anjo. Os fiéis quiseram se aproximar dele, tocar nele, como quem vislumbra a glória vindoura, como quem almeja sentir palpável a promessa sob a qual vive...
Camus sentiu-se arrasado em saber daquilo. Com voz sumida, balbuciou:
—Ele se machucou por MINHA causa?
— É CLARO – Sentenciou Hades, implacável. – Por SUA culpa, o rapaz foi praticamente despedaçado pelos idólatras que criam estar diante de uma criatura sobrenatural.
— E-eu... eu não queria...
Vendo a deixa para restabelecer por completo a velha dinâmica do controle, o líder religioso ergueu-se da cama e brandiu o dedo em riste para o filho, enquanto acusava:
— Entende por que você é sempre vigiado? Por que é sempre guardado? Disciplinado? Por que não deve agir com impulsividade? Perca o controle e a ordem estará perdida! Ceda aos impulsos e desgraças virão! Você é o Redentor! Você é o Escolhido e reina sobre essas pessoas! Sua palavra é LEI para elas! Mas as Ovelhas não estão preparadas para tudo. Você as está moldando, purificando com os seus sacrifícios. Elas ainda são fracas e suscetíveis, se impressionaram além da conta ao saberem que um ANJO do Senhor estava ali, no meio de todas. Não as culpe, pois são falhas e muito têm ainda de mundano e idólatra... culpe a SI MESMO!
O rosto do Redentor tornou-se lívido. Seus olhos vidrados cintilaram, porém, nenhuma lágrima por eles foi libertada. Entreabriu a boca, sem que nada lhe saísse pelos lábios trêmulos.
Satisfeito por recobrar o domínio sobre o jovem, Hades suspirou aliviado. Fez menção de se retirar, quando ouviu, não tão baixo como seria de se supor:
— Quero vê-lo. O senhor prometeu.
Inesperadamente, o tremor voltou a correr pelos membros do mentor da Igreja. Virou-se para o filho, decidido a minar-lhe a resistência. Não obstante, algo no olhar febril de Camus, na rigidez de suas feições, na firmeza da postura, demoveu Hades de seu intuito déspota. Limpou a garganta e garantiu:
— Quando eu falar com ele, mandarei Albior vir te buscar.
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Nuances avermelhadas ganharam os contornos das montanhas, anunciando a chegada do crepúsculo. O arrebatado canto das cigarras compunha a sinfonia da despedida do mais estranho dia que o Vale da Aurora Dourada já vivenciara. Malgrado fosse domingo, o culto da noite havia sido suspenso, e evitava falar-se sobre o assunto: pequenos cultos domésticos ocorriam aqui e ali, afinal, era o Dia do Senhor. Os colonos preparavam-se para o início de mais uma árdua semana, mas desta vez algo de especial parecia rondar-lhes as expectativas...
No interior de um dos cômodos do Tabernáculo, Milo voltava à consciência. Levou a palma da mão direita à fronte, gemendo pela forte dor de cabeça. Percebeu que não estava em sua diminuta célula do alojamento.
Fixou o olhar titubeante no teto claro e liso que encontrou no lugar do escuro e mofado de madeira. Viu surgir o rosto largo e moreno de Aldebaran.
— Graças a Deus, você acordou! – Disse o brasileiro, com um sorriso reluzente.
Sem nada dizer, Milo considerou-o, confuso. Ergueu meio corpo; sentiu-se tonto.
— Não, não levante...
— Por quê? Por que ainda estou sob o efeito da DROGA, não é? – Rosnou o loiro, afastando a mão do outro, que pousara sobre seu ombro. Não lhe obedeceu; preferiu sentar-se na cama, embora a náusea viesse punir seu esforço.
— Foi apenas um tranquilizante. Você estava descontrolado. Precisamos sedá-lo para podermos tirá-lo do Templo.
O olhar zangado do policial volveu na direção de onde viera aquela voz límpida, calma. Reconheceu o Arauto Albior.
— O que houve lá? Onde é que eu estou?
— Acalme-se. – O Arauto aproximou-se do leito. – Está tudo bem agora. Você está no Tabernáculo.
Milo encarou os dois homens, inquieto. No Tabernáculo? A residência de Hades, dos altos membros ainda não casados... e do próprio Redentor? Considerando em torno, notou a incrível diferença entre as modestas instalações que ocupava e aquele lugar, todo claro, refulgente, com colunetas douradas como os frisos no teto e os rodapés. O chão de mármore caramelo era tão luzidio que refletia os móveis que guarneciam o recinto com sóbria elegância. Os lençóis sob si eram sedosos, macios como uma carícia, e perfumados como flores do campo. Bem diferentes dos grosseiros panos com que se enrolava à noite sobre a dura e nada confortável cama do alojamento. Um delicado cheiro de incenso enchia-lhe as narinas, envolvendo-lhes os sentidos excitados.
— E por que é que eu estou aqui e não no meu quarto, lá no alojamento?
Nem Aldebaran nem Albior responderam de imediato. Trocaram olhares, como que decidindo o que dizer. Perspicaz, como, aliás, exigia sua profissão, o agente indagou:
—Estou PRESO aqui, é isso?
— Errado. Está sendo mantido em SEGURANÇA aqui. – A despeito da brandura, Albior fez-se firme.
— “Em segurança”? Por quê?
—Você ainda pergunta, Mikael?
Ante a réplica de Aldebaran, Milo pôs-se a reparar em seus braços e mãos. Estava arranhado em vários lugares. Viu vermelhidões e manchas roxas pelos pulsos, pelos antebraços. Encostou os dedos em um ponto dolorido na base do pescoço. Percebeu a roupa toda rasgada, ele estava quase desnudo da cintura para cima. Deu-se conta da dor que sentia no corpo, nada comparável, entretanto, à cefaleia que o importunava impiedosamente agora. Lembrava-se aos poucos do horror de, possivelmente, horas antes.
— Por que aquelas pessoas quiseram me agredir? Eu não fiz nada a elas!
— Não quiseram te agredir. – Falou o brasileiro, paciente. – Estavam te REVERENCIANDO.
— Que jeito curioso de reverenciar alguém. Não quero nem imaginar como fazem para linchar um pobre diabo.
— Queriam chegar perto de você, encostar em você... ocorre que a coisa saiu do controle... – Desfiava Albior, igualmente paciente. – Entraram em êxtase ao ouvirem o Redentor dizer que você era um anjo, Mikael.
Milo calou-se, incerto sobre o que falar.
— Você se lembra de que o Redentor mostrou-se surpreso ao te ver? Que afirmou que você “era o anjo que...”, mais ele não disse, pois veio a desfalecer? – Questionou o Arauto, postando-se diante do agente.
— Eu... sim, eu... eu me lembro, mas... por quê?
— Você não sabe?
—Como é que EU vou saber por que o Redentor achou que eu fosse um ANJO? – Retrucou o loiro, perdendo a paciência; impossível mantê-la com aquela dor de cabeça, aquele mal estar...
Aldebaran e Albior pareciam analisar o rapaz. O policial não estava nada satisfeito com aquela situação. Estava confuso e ao mesmo tempo frustrado por ter atraído tantas atenções sobre si! Como prosseguir a investigação, quando a ideia primordial era ser uma simples e despercebida Ovelha dentre as milhares?
A porta de madeira envernizada abriu-se. Desta vez seu coração quase saltara-lhe pela boca entreaberta.
Hades!
— Vejo que cheguei na hora certa. Está acordado.
O ar tornou-se denso, quase irrespirável. A cefaleia de Milo intensificou-se.
— Albior. Quero que traga Camus até aqui, ele deseja VER Mikael. Mas só entre com ele depois que EU sair. Quero ter uma conversa particular com Mikael.
— Sim, meu senhor. Com a sua licença. – O Arauto assentiu e em seguida, retirou-se.
Milo podia ouvir as palpitações desordenadas em sua cabeça dolorida.
Sob o olhar curioso de Aldebaran, cuja presença o líder religioso parecia ignorar, Hades parou diante do novato.
— Meu filho Camus, a encarnação do Cristo nesta era... acredita que você é o anjo que ele tem visto há meses em sonhos e visões.
Tanto Milo como Aldebaran arregalaram os olhos ante aquela revelação.
— O... o quê? EU? M-mas…
— O Redentor afirma, com total segurança, receber a visita deste mensageiro celestial faz tempo. – Continuou o líder espiritual, mãos para trás, com tom solene. – Segundo ele, o anjo tinha o SEU rosto, a SUA aparência. O Messias está convencido de que o anjo de suas visões... É VOCÊ, Mikael.
Piscando nervosamente, o agente questionava-se se aquilo se tratava de algum teste maluco a algum novo fiel escolhido aleatoriamente.
— O que acha disso, Mikael? Diga-me, é você UM ANJO?
O maldito testava-o, era isso?!? Que tipo de pergunta sem sentido era aquela?
“Não quiseram te agredir. Estavam te REVERENCIANDO.”
— Mas... mas é claro que NÃO, Grande Pai! – Respondeu, em meio a uma aflição que pouco tinha de fingida. – E-eu sou apenas uma humilde Ovelha... um NOVATO, ainda por cima!
Hades sondou minuciosamente o jovem sentado à sua frente.
— Hum. Imaginei que dissesse isso, Mikael. Faz ideia, então, do PORQUÊ de o Redentor achar que é VOCÊ o anjo que o tem visitado? E muito, muito antes de sua vinda para cá.
— Eu não faço a menor ideia. Estou tão confuso quanto o senhor. – Não era nenhuma mentira...
— Quem disse que estou confuso, Mikael?
Embaraçado, Milo mordeu o lábio inferior. Percebeu apreensão no semblante de Aldebaran, que se mantinha à distância, quase encostado à parede.
— Me perdoe, Grande Pai. Foi uma afirmação infeliz, não tive a intenção de...
— Não, Mikael, NÃO estou confuso. Estou apenas analisando as possibilidades. Embora eu saiba que não tem como você ser um anjo, é evidente que algo misterioso está se movendo por aqui. Contestar as palavras do Redentor está fora de cogitação. No entanto, também é fora de cogitação que um empresário de Red Meadow seja quem meu filho acredita que seja. – Com uma frieza desconcertante encarava-o ao falar. – Não digo que ele esteja errado. Talvez apenas tenha sido... confundido por um poder superior o qual ainda não compreendo. Talvez haja REALMENTE uma mensagem por trás disso. Eu vou descobrir.
— Então... posso voltar para o meu quarto no alojamento, meu senhor? – Arriscou o policial; a última coisa que queria era ficar naquele lugar. Via-o como o centro do ninho de serpentes.
— Isso está fora de questão. Se AQUILO aconteceu debaixo dos meus olhos, pode imaginar o que te aconteceria naquela morada coletiva, no calar da noite? Nos banheiros, nas demais áreas em comum? Você, em meio àqueles que quiseram a todo custo relíquias de um “autêntico anjo”?
Das últimas palavras do líder religioso depreendia-se claramente um acerbo sarcasmo. O loiro cerrou os punhos, lutando para não ceder à angústia que o cerceava.
— Senhor Hades, permita que eu dê uma sugestão?
— Diga, hã... Aldebaran... é este o seu nome, não?
— Sim, sim senhor! – Alegrou-se o brasileiro, honrado por ter o nome lembrado pelo mentor.
— Bem, diga a sua sugestão.
O ex-pastor posicionou-se mais perto do líder e enunciou, humildemente:
— Moro em uma cabana às margens do Rio Shilah. É afastada dos alojamentos e das casas comunais. Há poucas residências por perto. Mikael pode ficar hospedado em um dos quartos de minha casa, se o senhor considerar conveniente.
Hades ergueu uma das sobrancelhas ao considerar o brasileiro com interesse.
— E quanto à sua esposa, aos seus filhos? A presença de um estranho não afetará a harmonia de seu lar?
Aldebaran tornou-se melancólico ao responder:
— Eu sou viúvo, Grande Pai. Perdi também minha única filha. Desde então vivo só. Há espaço de sobra para abrigar este homem. E, pelo meu tamanho, o senhor deve imaginar que posso cuidar da segurança dele, assim como cuidei lá no Templo.
A curiosidade de Hades aumentou:
— Perdeu a mulher e a filha? Como se deu isso?
— Pereceram em uma queda, quando colhiam ervas medicinais nas montanhas. Pisaram onde as rochas estavam soltas, em virtude das chuvas que assolaram o Vale semanas antes, e caíram em um precipício.
— Aldebaran... – Murmurou Milo, chocado, contemplando o ex-pastor. Então fora assim que perdera a família! Que lamentável ocorrido!
— Oh. Eu me lembro desse triste acontecimento. – Comentou Hades, em tom consternado. – Uma fatalidade. Uma triste fatalidade. Foi há uns dois anos, não?
—Sim, meu senhor.
—Lamento muito. Foi a vontade de Deus. Eram criaturas tão puras e santas que Ele as quis logo perto de Si... e as levou...
— Sim, foi a vontade de Deus.
Ao agente não passou despercebido um sinistro brilho nos olhos escuros de Aldebaran. Naquele brevíssimo instante, o homem bonachão pareceu desaparecer.
— Neste caso, meu bom Aldebaran, eu aceito o seu oferecimento. Enquanto as Ovelhas acharem que Mikael é um anjo pode ser que ele realmente não esteja seguro, como você supõe. Basta ver as marcas que o lastimável incidente deixou em seu corpo...
— Oh, isso... isso não é nada. Eu estou bem, Grande Pai. – Milo não aguentava mais aquele olhar inquisidor sobre si.
— Mandarei um enfermeiro vir cuidar dessas machucados, meu bom rapaz. Você não teve culpa de o Redentor tê-lo... confundido com um ser sobrenatural...
Ao notar a expressão atenta de Aldebaran, Hades procurou mudar o discurso cético:
— ... sei que não é um anjo, ao menos não da maneira pela qual conhecemos o conceito de “anjo”. Mas se o Messias o vê como um, há de ser algum sinal divino. Eu creio sim que você tem uma missão diferenciada aqui no Vale, Mikael. Bem... por ora, isso é tudo.
O mentor da seita fez menção de se retirar do recinto. Então virou-se novamente para os dois homens.
— Ah, sim... você tem uma visita, Mikael.
— Uma visita? – O loiro arqueou as sobrancelhas.
Meneando a cabeça, Hades foi abrir a porta.
— Não demore muito. – Ouviram-no dizer enquanto partia.
Eis que, acompanhado pelo Arauto Albior, o Redentor adentrou o aposento. Em um reflexo, Milo ergueu-se do leito, ao mesmo tempo em que Aldebaran curvou-se em reverência.
— Me...Messias... – Balbuciou o policial, surpreso.
O ruivo aproximou-se dele, considerando-o atentamente. Como sempre, trajava uma túnica branca e trazia os cabelos muito longos soltos, brilhantes sob a iluminação do lustre pendente de cristal.
— Mikael... é o seu nome, não?
Algo na voz do rapaz causou estremecimentos em Milo. Não, havia de ser suas próprias emoções bagunçadas pelos últimos acontecimentos...
— É sim, meu senhor. Ao seu completo dispor. – Lembrou-se de mostrar deferência para com o suposto Salvador da seita em que se infiltrara.
Camus teve o cuidado de mirar profundamente nos olhos de Albior e de Aldebaran ao demandar, com plácida autoridade:
— Deixem-nos a sós. Gostaria de falar com Mikael... em particular.
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