Redentor

12 Via Crucis - Ato V : Encontro com o "Messias"


Notas iniciais
Olá a todos! Antes de mais nada, gostaria de agradecer pelo apoio maravilhoso que recebi de vocês estes últimos dias. Como eu disse lá no grupo do Facebook, "vida que se segue", e segue mais um capítulo de "Redentor". Agradeço também pelos comentários recebidos, fico muito feliz em saber o que estão achando da história, bem como em saber suas teorias e suposições xD Não há avisos neste capítulo. Boa leitura ;)

— Camus... está mandando que eu saia?

— Não apenas você, Albior, mas esse gentil homem também. Quero falar a sós com Mikael. – A despeito da voz tranquila, depreendia-se ali uma sutil autoridade que não tencionava ser contestada.

— Talvez não seja propício. O seu pai... – Albior alegou, cuidadosamente. – ... o seu pai pode não gostar que te deixemos sozinho neste quarto com...

— ELE me deu a permissão de vir. – Interrompeu o ruivo, com polida firmeza. – E estamos no Tabernáculo, o local mais bem guardado do Vale. Há seguranças do lado de fora, e também vocês estarão por perto. Só peço que me concedam privacidade para falar com este homem.

O Arauto franziu o cenho, intrigado. Não se lembrava de o jovem almejar por algo que nunca, nunca tivera.

Privacidade.

Imaginava que ele sequer conhecesse o conceito da palavra. Anuiu, com respeito:

— Está certo, Messias. Eu e Aldebaran estaremos bem à porta, se precisar de nós. Não hesite em nos chamar, por favor.

Recebendo um gesto afirmativo do rapaz, Albior se retirou, sendo seguido pelo brasileiro, que lançou a Milo um olhar encorajador. O agente respondeu-lhe com um curto sorriso. Ao ver a porta branca se fechar, a consciência do real cenário em que se encontrava veio como um abrupto despertar.

Diante dele, o Redentor em pessoa.

A figura central da seita alvo de sua investigação, que por acasos absurdos tomava rumos inimagináveis.

Precisava parar e estabelecer novas estratégias, novos passos.

— Redentor... – Murmurou, fingindo-se presa de forte emoção. Ajoelhou-se diante do ruivo, que prontamente estendeu a mão, dizendo:

— Não é necessário que um anjo do Senhor se ajoelhe perante mim.

“O demente realmente acredita nisso!”, pensou o agente. Sustentou a encenação:

—O senhor possui a essência de Jesus Cristo, o Filho de Deus! É o Messias desta era, como não é necessário que lhe preste reverência?

— Levante-se.

O tom empregado, menos de ordem do que de humilde súplica, causou estranha impressão no policial. Pôs-se de pé defronte o jovem. Camus era apenas um pouco mais baixo do que ele, três ou quatro centímetros quando muito, no entanto, a fragilidade desconcertante de sua figura fazia-o parecer bem menor que o atlético agente. De perto, era ainda mais pálido, com finas veias azuladas e arroxeadas perceptíveis pela base do nariz afilado. Os olhos bem abertos revelavam uma cor jamais vista pelo loiro, um castanho tão avermelhado que poderia ser tomado por vivo escarlate, dependendo da incidência da luminosidade. Os lábios entreabertos sugeriam que o “messias” entregava-se ao processo de procurar palavras adequadas para iniciar o almejado colóquio.

Oh sim.

Esperara tanto, TANTO por aquele momento!

Contemplava Milo quase com assombro.

Era ELE mesmo. Ali. Diante de si.

O mesmíssimo rosto perfeito de tez banhada por sóis cuja luz parecia ter sido capturada pelos compridos e ondulados cabelos. Os mesmos olhos azuis que capturaram o firmamento vespertino. O corpo imponente cujo vigor revelava-se ainda mais devido aos rasgos em suas roupas, seu torso quase todo à mostra... deu-se conta dos arroxeados e arranhões na pele lisa e bronzeada do “anjo”. De admirativa a expressão de Camus passou a consternada.

— Está tão machucado... – Sussurrou, a culpa toldando os antes vívidos olhos.

— Hã? – Milo não teve certeza de ter-lhe entendido. Acompanhou aquele olhar tristonho e compreendeu, um tanto perturbado. – Não... isto não foi nada!

A expressão do ruivo, porém, não desanuviou. Milo suspendeu a respiração ao ver o “messias” diminuir ainda mais a distância entre eles.

— Eu posso... tocar em você?

O policial fitou-o, atônito.

Ao menos o “deus” daqueles fanáticos pedia permissão para tocá-lo.

Mas para que diabos o cara queria...

— É claro, meu senhor. – Assentiu, simulando humildade.

Não havia como dizer “não” para alguém que supostamente se adorava, havia?

Por mais perturbador que aquilo tudo fosse.

A mão direita do Redentor surgiu diante de seus olhos arregalados. Os dedos pousaram tão suavemente em sua face que mal os sentiu. Camus, quase temeroso, apenas roçou-os de leve na superfície aveludada. Milo impressionou-se com o quão gelada era a mão do “messias”. Ao contrário do que julgara, o contato não lhe causou a repulsa esperada. Seria por causa da expressão piedosa, ou pela inocência patente nas feições suaves do rapaz? Malgrado Camus fosse um homem de porte, naquele instante mais se assemelhava a uma criança tentando descobrir o mundo.

Uma criança pura e curiosa.

O policial permaneceu imóvel, enquanto o Redentor percorria-lhe o rosto com os dedos, o pescoço e até a parte superior do peito desnudo devido à túnica quase toda rasgada. Com a respiração suspensa, Milo até tentou desviar o olhar, mas algo trazia-o de volta às íris rubras.

Era como um ímã.

Um maldito ímã...

— Você... é mesmo real... – Sussurrou o ruivo, quase em um transe. – Você veio...

“Ele realmente fala como se me conhecesse. É como o dia lá na mata.”, analisava o agente, sem saber ao certo o que fazer.

A palma da mão do Redentor repousou mais demoradamente sobre o peitoral do novato. Agora ele olhava para baixo, com súbito pesar. O loiro mirou-o, sem entender-lhe a mudança repentina.

— Meu pai terreno me contou o que houve. Contou-me o que lhe aconteceu. – Falou o “messias” desalentado. – Eu não deveria ter me exaltado. Incitei as Ovelhas ao alvoroço que te vitimou. Fui o culpado por você ter se ferido.

— O quê?!?

— É como meu pai me disse. Meu desequilíbrio sempre traz consequências danosas sobre os outros. É culpa minha o que te...

— Espera, o seu pai disse que VOCÊ foi o culpado por aquela confusão?

Surpreso por aquela indignada interrupção, o jovem limitou-se a confirmar com um lento menear de cabeça.

— Quê? Escuta… não. NÃO foi culpa sua. – Abismado com o que ouvia, Milo gesticulava para o outro. – Deus. Você passou mal... DESMAIOU, caramba. Foi tudo! Deus. Como é que se controla algo assim?

Franzindo as sobrancelhas ruivas, o rapaz considerou o agente com intenso interesse. Jamais havia presenciado alguém contestar o Grande Hades com tanta paixão.

Notando a confusão do “messias”, o loiro suavizou o tom:

— Ouça... meu senhor... sei que pensa que sou um anjo. Me contaram que há tempos o senhor sonha com um anjo... parecido comigo...

— Ele ERA você.

— Messias... o senhor estava prestes a me dar a sua unção na recepção às novas Ovelhas. Eu SOU uma delas. Sou um recém chegado ao Vale, e é por esse motivo que eu estava lá, diante do senhor...

Como Camus apenas o olhasse fixamente, mergulhado em enigmático silêncio, o policial prosseguiu:

— Meu nome de batismo é Michael Segerson, sou um empresário em Red Meadow, uma cidade ao sul daqui, e...

— Sim, eu sei. Agora você se chama Mikael.

— Isso, isso mesmo. Viu só? – Sorriu o agente, desejoso de livrar-se daquela confusão. – Você... digo, o senhor SABE que NÃO TEM COMO eu ser esse anjo, não é?

— Mas então como... como explicar que ele tivesse o SEU rosto, a SUA aparência? – Camus insistiu, cabisbaixo.

Sem que se desse conta, Milo teve um pouco de pena do rapaz. Dando de ombros, arriscou:

—Bem, isso deve ter alguma explicação na Psicologia...

— O que é “psicologia”?

Não fosse a seriedade no semblante do ruivo, o policial tomaria aquela pergunta por algum tipo de brincadeira. Não se furtou, contudo, a indagar:

—Não sabe o que é Psicologia?

— Não. – Respondeu com uma simplicidade inquietante. – Nunca ouvi essa palavra.

Boquiaberto, o loiro encarou-o. Então deixou escapar uma risada displicente e falou, disfarçando a estranheza despertada por aquela declaração:

— Bem, não se incomode. É um negócio complicado até pra quem conhece! Eu diria enrolado, mesmo.

Um tanto desconfortável pela mirada interrogativa de Camus, pôs a mão atrás da cabeça e procurou mudar de assunto:

— Mas me diga... há quanto tempo sonha com esse anjo... er... “comigo”?

—Tem bastante tempo.

—Sim, mas… quanto tempo é esse “bastante tempo”?

Não obtendo resposta que não fosse o inquietante e insistente olhar, Milo tentou especificar:

— Três meses, seis meses, um ano, dois anos...?

— Eu não sei. Não conto o tempo como “vocês”. Não me é necessário, visto que me farei eterno. – Respondeu, como se enunciasse o mais lógico dos discursos... o que intrigou o policial. Este viu a chance de sondar a verdade do Redentor.

Que ele era uma FRAUDE, isso era óbvio. Mas por que o cara parecia REALMENTE acreditar no que falava? Por que parecia tão autêntico, tão honesto?

“Esse miserável tá me confundindo... esta merda toda tá me confundindo. Isso não tá legal.”, pensou, inconscientemente cerrando as pálpebras, em uma tentativa de colocar os pensamentos em ordem.

De fato, estava lidando com algo MUITO PERIGOSO.

O QUE, exatamente, não sabia ao certo.

Abriu os olhos azuis, fitando-o profundamente.

— É claro, eu deveria saber que o senhor não precisa de convenções como o tempo... – Comentou, como em um velado pedido de desculpas por sua ignorância.

— Pode me tratar por “você”. – Disse o “messias”, tímido.

— Ah, certo! Eu... eu posso mesmo? Hã... a propósito... qual é a sua idade... “terrena”? Se não for algo inconveniente de me ser revelado...

— Não é que seja inconveniente. É impossível.

Milo fez-se de constrangido.

— Oh, claro! Claro, me perdoa, eu não estava no direito de...

— Não, não... – O ruivo cortou-o, balançando a cabeça. Pôs um leve sorriso nos lábios ao esclarecer – Não é isso, Mikael. Ocorre que desconheço minha idade.

Desta vez o agente quase caiu sentado na cama.

“O que foi que ele disse? Que NÃO SABE quantos anos tem?!?”

Como se tivesse ouvido a questão que reverberava na cabeça do novato, o Redentor elucidou:

— Tudo que sei é que sou mais velho que meu irmão Algol, de 23 anos, e mais novo que meu irmão Radamanthys, de 27 anos. Embora... bem, embora não tenha noção do que seja isso.

Finalmente, Milo se viu incapaz de continuar a conversa. Era tudo tão absurdo que ele mesmo encontrava-se em dúvida entre o que era real e o que era farsa.

Camus era uma farsa, e isso era real.

No entanto, dele emanava uma pureza tão perturbadora... detinha o filho habilidades cênicas ainda mais desenvolvidas que o pai?

Ou Camus acreditava DE FATO que era a reencarnação do Cristo da Bíblia?!?

Uma ideia ousada lhe passou pela cabeça.

Hesitou; por sua ousadia agora tinha marcas de chicotadas nas costas.

Mas uma chance como aquela...

Não tinha como ser negligenciada.

— Messias... será que pode impor a sua mão sobre minha cabeça? De repente, me deu uma dor terrível... terrível!...

Assentindo preocupado, o ruivo levantou seu braço direito. Neste momento, a longa manga da túnica branca desceu-lhe um pouco pelo antebraço... lá estavam.

Hematomas.

Arroxeados.

Marcas escuras.

Rápido como o bote de uma cobra, Milo agarrou a mão do Redentor, que sufocou um grito de susto.

Afastando o pano até o cotovelo, o policial analisou a pele branca, horrivelmente maculada em tantos e tantos pontos. Horrorizado, o loiro constatava o completo oposto do que concluíra quando assistira ao vídeo no Natal, na sede da Polícia Federal.

NÃO era maquiagem.

Não. De forma alguma.

As marcas da violência... eram REAIS!

Atônito, o filho de Hades limitou-se a ver o “anjo” tomar-lhe o outro braço e proceder a semelhante análise.

“Ele tem marcas de cordas... algemas nos pulsos... marcas de tortura, sem dúvida... meu Deus... há ferimentos bem antigos aqui... “, de boca aberta e olhar esgazeado, o policial confirmava a tenebrosa verdade.

Neste exato momento, a porta do quarto abriu-se e surgiu diante deles um enfurecido Algol. Milo foi violentamente empurrado, afastado do ruivo aturdido.

— Que pensa que está fazendo? Como ousa tocar o Redentor dessa forma? – Gritou, raivoso. – Ainda bem que não me deixei convencer por aqueles dois idiotas ali fora e entrei!

Albior e Aldebaran entraram logo em seguida, incapazes, porém, de conter o irmão mais novo do “messias”. Pararam perto do iracundo rapaz, dispostos a impedi-lo de agredir “Mikael”.

Controlando tanto quanto podia a vontade de socar Algol, o novato ergueu as mãos defensivamente, ao argumentar, caprichando na expressão inocente:

— Eu só queria a bênção dele! Me perdoe! Me perdoe...

— Hunf. Ponha-se no seu lugar. Onde já se viu? – Cuspiu, com desprezo. Virou-se para o irmão, estendendo-lhe a mão – Camus. Venha comigo. Não deve ficar aqui com esse homem estranho.

Mas o jovem não pôs sua mão na palma do mais novo. Antes, interpôs-se entre Algol e “a nova Ovelha”.

— Eu recebi permissão de nosso pai Hades para vir ao quarto de Mikael.

— O quê? Camus... você... você está me contrariando?!?

— Não. Estou apenas servindo-me da permissão do Grande Hades, que está ACIMA de você. – Rebateu, gélido. – É VOCÊ quem está contrariando o nosso líder... e o Filho Encarnado.

Algol paralisou de estupefação.

— Ele tem razão, Algol. – Acorreu o Arauto, firme. – De mais a mais, você está faltando ao respeito com Camus. Acho que está se esquecendo de que, antes de ele ser seu irmão, é o enviado do próprio Deus para nos salvar.

Ante tais palavras, Algol engoliu em seco. Ele não duvidava da origem divina do irmão. Duvidava, sim, de que o novato fosse um anjo, como já apregoavam as tolas Ovelhas, aos quatro cantos. Como acreditava seu amado Camus.

Bobagem!

ELE era o instrumento do Messias. O veículo de sua expiação! O novo Judas!

Judas lhe falara...

Judas lhe sussurrara...

Judas lhe beijara... como beijara Jesus...

Sim, duvidava de Mikael. Mikael... um falso anjo, ele sabia! Se até o Diabo poderia disfarçar-se de Anjo de Luz...

Mas... arriscava-se a rebelar-se abertamente contra um estatuto do Redentor, diante de testemunhas. Encolheu os ombros, derrotado.

Não.

Não derrotado. Não em definitivo.

Momentaneamente derrotado...

Lançou um olhar venenoso a Milo ao questionar:

— Hum. Então você é o homem a quem estão considerando o Anjo pelo qual esperava o Redentor...

— O fato de me considerarem um anjo não implica em que EU assim me considere, meu senhor. – O policial fingiu-se servil a ponto de se curvar diante de Algol. – Também eu desejo entender o propósito de o Messias ter visto a minha pessoa personificada em um mensageiro dos Céus.

Camus virou-se para o loiro, suas íris cintilando como os mais puros rubis.

— Sim, há de ter um propósito. – Observou serenamente. – Mikael pode não ser um anjo no sentido pleno da palavra. Mas está claro para mim que reside nele algum mistério de meu Pai Celestial. Alguma mensagem, alguma missão que ainda hei de compreender.

— O Messias está certo. Aliás... – Albior posicionou-se ao lado de Camus, ficando ambos na frente de Milo. – O Redentor está SEMPRE certo.

Sendo uma simples Ovelha, e não possuidor de um cargo de prestígio na comunidade como Albior, Aldebaran não podia contribuir naquele embate senão com sua presença portentosa e seu olhar julgador sobre Algol. Este, acuado, calou-se; em seguida, sorriu sem graça, dizendo:

— Mas é claro que o Redentor está sempre certo! Mikael é, sem dúvida, alguém especial. Eu peço desculpas por agir tão impulsivamente. Temi por meu querido irmão e... enfim, me desculpe, Mikael. Camus.

Os quatro homens apenas encararam o rapaz, nada convencidos com aquele “arrependimento”.

— O que está acontecendo aqui?

Todos olharam para Radamanthys, que adentrava o quarto, dirigindo a cada um dos presentes uma mirada inquisitória.

— N-nada! Nada, Radamanthys! Eu vim ver como estava o novato que... ahn... você sabe... – A última coisa que Algol queria era que alguma querela com o Redentor fosse reportada a seu pai. Maltratar Camus fisicamente nem era o problema, o Redentor VIVIA para passar por aquilo. Mas ter sua palavra posta em dúvida, tanto mais diante de pessoas... ah, Hades não gostaria nada de saber daquilo.

Nada mesmo.

Albior tomou-lhe a frente e respondeu:

— Nada de mais, Radamanthys. Estávamos conversando, e Algol estava de saída agorinha mesmo. Não é verdade, Algol?

O rapaz teve que engolir sua fúria, ainda que a deixasse transparecer nos olhos cobalto. Não havia remédio senão envergar um sorriso falso, e concordar:

— Sim, eu já ia me retirar! Vem também, Rada?

O mais velho fitou um por um até responder:

— Só um momento...

Caminhou até o pequeno grupo. Parou diante de Milo.

— Como está, Mikael? Sente-se melhor? Você ficou bem nervoso lá no Templo. Não que eu o culpe, claro.

— Ah, sim... estou bem melhor. Obrigado.

— Lamento pelo ocorrido. As pessoas se excederam. Ficaram muito impressionadas com o fato de um anjo estar entre elas.

Sem saber se Radamanthys falava a sério ou usava de ironia, o policial tão somente encarou o primogênito de Hades. Esse se mostrava frio e enigmático, algo bem diferente do passional e efusivo Algol.

Não que aquela frieza não fosse igualmente desagradável.

Radamanthys estendeu a mão para o novato.

— Sabe, Mikael, eu sou o único que estava a par das visões do Redentor contigo. Sou testemunha da forte impressão que tal experiência causou nele. Creio que você esteja a serviço do Altíssimo, de uma forma análoga à do Redentor: sob influência divina.

Aceitando o cumprimento, o agente apertou cordialmente a mão de Radamanthys. Via-se satisfação no rosto de Camus... e desconfiança nos rostos dos demais.

— Um enfermeiro está vindo cuidar desses ferimentos. Descanse mais um pouco aqui, antes de ir para a habitação de Aldebaran.

— Sim, obrigado. Hã... não devo antes ir até o alojamento buscar minhas coisas? – Quis saber o novato.

— Não havia mais nada em seu quarto. Você receberá tudo novo.

— Não havia?... mas…

Radamanthys deixou escapar um breve sorriso, cujo significado o policial não foi capaz de inferir.

— Todos os seus pertences foram surrupiados de seus aposentos. Nem mesmo os lençóis foram poupados. Levaram TUDO que foi usado ou tocado por você, Mikael.

— Tornaram-se relíquias. – Sintetizou Albior, seriamente.

— Eles... as Ovelhas... estão realmente achando que eu sou um anjo? – Perguntou Milo, como que dando-se conta da proporção que a coisa toda tomava.

Em um tom professoral, o primogênito de Hades simplificou:

— Se o próprio Redentor assim o declarou, Mikael, NADA irá demovê-los da ideia.

— Declarei porque VI em minhas revelações. – Pontuou Camus, com firmeza.

— Sei disso, meu irmão. Eu testemunhei, lembra? Já é admitido por todos nós que Mikael possui algo de especial para a sua Missão.

Milo via-se em um redemoinho do qual não conseguiria escapar. Nunca que imaginaria o rumo absurdo que tomaria sua infiltração na seita. Só lhe restava adaptar seus planos à nova e insólita situação.

— Com a licença de todos vocês, eu e meu irmão vamos nos retirar. Estimo seu pronto restabelecimento, Mikael.

— Obrigado... Radamanthys. – Fez uma curta porém polida reverência.

— Também estimo-lhe as melhoras... “anjo” – Algol não pôde resistir a pincelar a despedida com seu sarcasmo. Se o novato se importou, não lhe foi possível decifrar.

Os irmãos de Camus se retiraram. Só quando viu a porta fechar-se completamente, Aldebaran expirou, dramaticamente:

— Ufa...

O Arauto pôs a mão no ombro do ruivo, perguntando:

— Você está bem?

— Estou sim, obrigado.

Em silêncio contemplativo, o agente notara que a presença dos irmãos do “messias” causavam-lhe desconforto. E não apenas nele: durante todo o tempo em que ambos permaneceram no recinto, fora-lhe visível a tensão nos rostos do Arauto e do ex-pastor. Na certa, conheciam os motivos...

Não questionaria ninguém naquele momento, entretanto. Levantaria suspeitas. Mas para ele, já era quase certo: Algol e Radamanthys, por mais diferentes que fossem, tinham parte no esquema de controle do Redentor.

Sim, admitia, por fim, que Camus era uma vítima.

Aquelas marcas de tortura NÃO eram falsas.

Seu coração doía ao render-se àquela ideia: o jovem era explorado pelo próprio pai... e para piorar, acreditava em toda aquela pantomima aberrante!

Quem diria que as provas de crimes contra os Direitos Humanos que levariam ao desmantelamento daquela odiosa seita... residiriam no próprio Redentor!!!

— Com licença... – Um rapaz negro bateu na porta entreaberta, a fim de anunciar sua chegada. – Mestre Hades me mandou vir cuidar do an... do senhor Mikael.

— Oh, o enfermeiro. Entre, entre. – Albior deu-lhe permissão.

— Puxa, não era necessário... O QUÊ? VOCÊ???

Milo literalmente pulou para a cama ao ver surgir por trás do jovem enfermeiro o Arauto Chrysaor.

Camus e Aldebaran olharam espantados para o assustado novato, sem compreender-lhe o pavor. Albior deu um discreto sorriso, devidamente coberto pela mão.

— Sim, EU. Sou um dos coordenadores das enfermarias... – Disse Chrysaor calmamente.

— NÃO ME DIGA QUE VAI INSPECIONAR MEU RABO DE NOVO!

— Quê? – Fez o Redentor, confuso. Aldebaran cobriu os ouvidos do ruivo, ralhando com o novato:

— Mikael, que linguajar inadequado é esse, perante o Messias?!?

Encostado à parede, o policial apontava, trêmulo e raivoso, para o Arauto moreno:

— Inadequado foi o que esse indiano fez comigo! Me revistou no...

— Aquilo não se repetirá, Mikael, acalme-se, por favor. Ademais, vim apenas supervisionar o Miquéias aqui. – Deu umas batidinhas no ombro do rapaz, que fazia caretas devido à linguagem do paciente. – Farei tão somente um relatório sobre seu estado para o Grande Pai. A propósito, não sou indiano. Sou cingalês.

— E isso é...?

Chrysaor suspirou, possivelmente acostumado àquele questionamento...

— É como é chamado quem é natural do Sri Lanka.

— Sei nem onde é isso. Na verdade, nem quero saber.

— Não importa. – Riu o Arauto recém chegado. – Em breve deixaremos este mundo mesmo.

— Hã?

— Sim, ora… o Redentor há de nos levar para o Paraíso, não é o que diz a Profecia?

— Ah, sim! Claro!...

Miquéias aproximou-se do loiro, já sentado na cama e pediu:

— Tire a roupa de cima, por gentileza.

— Eu posso ficar enquanto vocês cuidam dele? – Camus perguntou, educadamente.

— Mas é claro, Messias, tua vontade é a nossa Lei. – O cingalês assegurou.

Milo questionou em pensamento “Como, se ele é um prisioneiro de sua própria ‘missão’?”. Descartou a túnica em andrajos, revelando o magnífico torso moldado por inúmeras atividades físicas e esportivas, e agora, pelo trabalho pesado na lavoura. Olhou fundo nos olhos do ruivo que o encarava embevecido e disse, simpático:

— Obrigado por se preocupar, Redentor.

Seria a iluminação? Reflexo dos cabelos vermelhos sob o lustre?

Mas se fosse... por que não reparara no rubor nas faces de Camus antes?

*************

Radamanthys e Algol caminhavam silenciosos pelo corredor do segundo pavimento do Tabernáculo. Em determinado momento, sem qualquer aviso, o mais velho empurrou o mais novo contra a parede. Algol viu-se presa do poderoso braço do irmão, que proferiu em tom baixo e ameaçador:

— Você é mesmo um tolo imprudente...

— Aaack... q-que foi que eu f-fiz?

— Com que intuito foi mostrar hostilidade contra o novato apontado como “o Anjo do Redentor”? É como estão chamando ele, sabia?

—Q-quê...? Isso… isso é sério?!?

—Não sabe a comoção que o incidente está causando? Quer atrair a reprovação para si, mais do que a que JÁ tem?

Dando um riso sufocado, Algol provocou:

— Hehehehe,então você estava me e-espreitando... gasp! E-está preocupado comigo, irmãozinho? Isso é... t-tão raro... vou chorar...

— A credibilidade de nossa família santa estará ameaçada se mais pessoas souberem de sua obsessão lasciva pelo nosso irmão, o Cristo Reencarnado!

— Hah... como se VOCÊ não partilhasse do mesmo tipo de... UGH! – Seu pescoço foi apertado pelo primogênito.

— Sou apenas um VEÍCULO do Plano Divino, não me sirvo disso com segundas intenções.

— Arrgh... m-me largue, seu hi-hipócrita maldito...

O apelo foi atendido com tal brusquidão que Algol quase caiu. Ficou tossindo um pouco enquanto o mais velho enunciava, tranquilo:

— Entenda... não podemos mais ficar separados, irmão... – Agora acariciava o queixo do mais novo, que ainda recuperava o fôlego. – É preciso que fiquemos de olho nesse Mikael.

— Cof, cof... n-nisso eu concordo. Camus ficou todo abusado perto dele... cheio de si... nunca o vi daquele jeito.. prepotente... de uma forma que...

— Não é só isso.

— É o quê, então?

—Prefiro observar antes de concluir alguma coisa. Por isso digo que devemos ficar de olho no novato.

— Então você também não acredita que ele seja um anjo?

— Acredito que ele NÃO seja um homem comum. – Murmurou, sombrio. – Camus não mente, e diz ver o tal Mikael há mais de um ano em sonhos. Sou testemunha ocular disso. Há algo de misterioso em toda a história. Eu só não sei se para o bem... ou...

— Ou para o mal. – Completou o mais novo, estreitando os olhos.

Assentindo, Radamanthys ajeitou os cabelos do caçula, bagunçados naquele confronto. Complementou:

— Observemos o tal Mikael. Está claro para mim que algo irá mudar aqui.

— Mudar em que sentido, Rada?

— Prefiro não dizer, Algol. Por ora... observemos... observemos.

Eles chegaram a uma vasta varanda que dava para a maravilhosa vista das montanhas imersas no ouro do ocaso. O vento soprou amistosamente em seus rostos sisudos pelas maquinações de suas mentes.

*************

Notas finais
"O Anjo do Redentor"... Milo jamais imaginaria que se encontraria em tão surreal situação. De investigador, ele passa a objeto de culto da própria seita que foi investigar! E... vocês notaram que o Redentor ficou encantadinho com seu "anjo"? Se vai dar treta? Claro ou óbvio? Só ver a conversa dos irmãos do ruivo... e lembrar do desconforto do próprio Hades... Mês que vem tem mais... agora vamos à produção do novo capítulo de "Dame", atrasada jááá xc Obrigada por prestigiarem... até a próxima, beijo grande!