Redentor
10 Via Crucis - Ato III : O Anjo Que Veio
Notas iniciais
Milo suspendera a respiração por tanto tempo que expirar foi um processo sôfrego, tanto mais por evitar fazer qualquer ruído. Mesmo à distância do Arauto Dante e do Redentor, seus instintos assim lhe demandaram.
Acabara de presenciar o falso messias ser violentamente impedido por Dante de se afastar. O jovem então não tinha direito de ir e vir... não que as demais pessoas naquela comunidade tenebrosa tivessem, porém o policial jamais esperaria que o mesmo se estendesse ao pretenso “Cristo da nova era”.
Sim, o “Redentor” era mais um cativo da seita Aurora do Novo Porvir. Um prisioneiro do Vale da Aurora Dourada. Camus, ouvira-lhe o nome...
— Camus, o que deu em você? Não vejo ninguém ali em cima... – Indagou o Arauto, intrigado com o fato de que, mesmo atordoado pelo choque, o ruivo continuava buscando por alguém, com o olhar direcionado para o alto. Bem onde Milo estava escondido.
Ouvir Dante convenceu o agente de que ele não deveria sair de trás das largas palmas atrás das quais se abrigava. Um único movimento faria o Arauto perceber que se equivocara... o suor começou a escorrer-lhe pelo pescoço. Tinha que voltar logo para a lavoura, entretanto... tinha certeza de que já se passara muito tempo desde que saíra de lá!
De repente, Camus ergueu-se, trôpego, cerrando os punhos ao gritar:
— O que quer de mim? Qual é a sua mensagem? Estou aqui, transmita-me a mensagem!!!
— Messias!... – Dante rapidamente conteve o rapaz, que parecia à beira de um ataque de nervos.
Foi a deixa para Milo mover o corpo para trás e se rastejar até um ponto em que pudesse pôr-se de pé e empreender fuga dali. Sempre abaixado, foi até a declinação, nela se lançando-se cautelosa porém apressadamente. Vencido o barranco acidentado, alcançou a trilha por onde viera. A razão mandava que não corresse, mas contra ela suas pernas cometeram um raríssimo ato de insubordinação. Atravessou a mata lépido, quase sentindo-se aliviado ao ouvir cânticos ecoando pelos arredores. Deteve-se, sondando de trás das árvores.
Não era a “sua” lavoura, ainda.
Estalando a língua decepcionado, seguiu pelo caminho agora sem correr, a passos largos e cautelosos. As sombras das copas sobrepostas protegiam-no do sol abrasador, todavia confundiam-no um pouco. Parou por mais duas vezes, sempre espreitando por trás de troncos e plantas, até constatar que se tratavam de outros campos de trabalho.
“Não é possível que eu tenha me perdido! Guardei as direções, tenho certeza”, pensava, angustiado. Arfava a ponto de o peito doer. Precisava se recompor. Não podia aparecer em seu posto de atividade ofegante daquele jeito. Súbito, distinguiu a voz de um dos capatazes e, logo em seguida, a do supervisor Gideão. Alívio e medo se mesclaram em um coquetel nada palatável. Alívio por ter achado a campina certa. Medo de que sua ausência tivesse sido notada.
A probabilidade de terem dado falta dele era alta, BEM alta, nem adiantava se enganar.
Precisaria enganar A ELES. Não a si mesmo.
O que quer que lhe acontecesse, sentia que a incursão havia, sim, valido muito a pena. Embora o transportasse a uma nova rota de investigação e de ação.
Uma mais difícil e perigosa.
Por trás de um carvalho monumental, procurou a grande rocha onde deixara sua enxada. Identificou-a, relacionando-a a demais elementos da paisagem de que se lembrava. Auxiliado pelo mato alto, felizmente ainda não capinado naquele lugar pelos trabalhadores, rastejou até encontrar a ferramenta. Dando-se conta de sua presença, alguns fiéis viraram-se para ele. Milo percebeu que eles se entreolhavam, o que lhe passou uma má impressão... simulando neutralidade, o loiro ergueu a enxada, calculando uma parte a ser capinada. Iniciou a limpeza da terra. Fingiu estar compenetrado; começava a acreditar que havia sido bem sucedido, de que os superiores não haviam percebido seu sumiço, quando uma voz áspera e elevada destruiu suas esperanças:
— MIKAEL!
Parando imediatamente de capinar, Milo aprumou-se e, sem demonstrar nervosismo, respondeu a Gideão:
— Sim, pois não?
— Venha até aqui. – Ordenou o homem.
— Alguma coisa errada, senhor...
— É o que eu quero saber. Venha JÁ até aqui. – Repetiu, intimidante.
Olhando ao redor e dando com olhares ora assustadiços ora reprovadores, o policial pôs-se a caminhar.
— Deixe a sua enxada aí, Mikael.
Disfarçando a apreensão com maestria, Milo pousou a enxada no solo e dirigiu-se para o supervisor. Tão logo deteve-se à frente do homem, este ergueu as mãos para as “ovelhas” e gritou a plenos pulmões:
— Irmãos e irmãs, parem todos. Parem o que estão fazendo, AGORA!
No mesmo instante, os fiéis atenderam-no. Permaneceram em pé, atentos àquele que os vigiava. O receio de Milo apertava-lhe a garganta.
— Eu quero anunciar para todos o RETORNO do nosso caro irmão Mikael, que ABANDONOU o seu trabalho por mais de meia hora. Ao contrário do que chegamos a pensar, não lhe aconteceu mal algum. Vejam, vejam todos, ele está BEM, graças a Deus!
Diante da expressão interrogativa do loiro, Gideão esclareceu em um detestável falsete:
— Percebemos que não estava conosco, irmão. Sabe, estamos nas proximidades da floresta do Maine, há animais selvagens nos arredores das áreas cultiváveis... por isso, nos preocupamos com a sua ausência NÃO ANUNCIADA.
Com uma desenvoltura que desafiava a própria tensão, “Mikael” tentou se explicar:
— Peço desculpas por minha saída repentina. Tive uma dor de barriga terrível, de repente. Tive medo de não dar tempo de chegar aos banheiros e...
— Ouviram, irmãos? Ele precisou ir se aliviar! – Berrou para os colonos. – TAMBÉM VOCÊS têm as suas necessidades, não é verdade? Me digam, Ovelhas, o que vocês fazem quando precisam “ir se aliviar”?
Alguns responderam sem pestanejar, outros de modo tímido, claudicante:
— Pedimos para ir ao banheiro!
— Pedimos permissão para nos retiramos...
— A gente pede pra ir ao banheiro...
Balançando a cabeça, o supervisor prosseguiu, enérgico:
— Alguma vez EU ou os outros supervisores e os capatazes IMPEDIMOS vocês de irem?!?
Ouviu-se uma enxurrada de “nãos”. Alguns sem hesitar, outros...
Sentindo seus batimentos cardíacos acelerados, Milo reforçou:
— Foi como eu disse, eu não conseguiria segurar até chegar aos banheiros... não tive nem mesmo tempo de pedir para ir aliviar o ventre, a dor foi intensa demais!
Gideão encarou o rapaz, nada convencido. Pôs-se a enunciar, em tom de sermão:
— Sabe por que o nosso Vale é um paraíso de ordem, paz e harmonia, Mikael? Há dois motivos principais: o primeiro é que aqui é a morada provisória do Redentor, que em breve há de nos levar para os Palácios Celestiais...
A menção do Redentor fez Milo estremecer ainda mais.
— ... o segundo é: ao contrário do mundo sujo e caótico do qual você ACABOU de vir, aqui há um código de REGRAS.
O policial soube que tentativas de escapar da reprimenda resultariam em castigo. Os gritos de Samuel em Cafarnaum ecoaram-lhe na lembrança. Em uma semana, já havia visto que argumentar trazia mais problemas do que os esclarecia. Restava apenas esperar para descobrir qual PUNIÇÃO pagaria sua valorosa descoberta sobre o “messias”.
Sim, porque SERIA punido, era certo. O tom professoral que antecede a aplicação de um castigo, a aproximação dos demais supervisores, a reprovação em dezenas e dezenas de olhares, a piedade em algumas dezenas de olhares, o silêncio detrás de si... a pausa na labuta... as “ovelhas” agora constituíam UMA PLATEIA.
Um outro supervisor, um homem robusto, mais baixo que Gideão e também mais velho, enunciou aos brados:
— Os mundanos acreditam que a disciplina cerceia a liberdade. Grandes tolos que são! Ao contrário! A disciplina SEMEIA a liberdade! A liberdade do domínio do Mal, a libertação das amarras do Inimigo... só é livre quem obedece. Todos recebem ordens para que o equilíbrio de nossa santificada comunidade seja mantida. Dentre essas ordens, está aquela que orienta a NÃO abandonar o posto de trabalho sem prévia permissão. Você desobedeceu a essa ordem, Mikael. Não foi o primeiro a fazê-lo, mas o surpreendente é que o tenha feito em sua PRIMEIRA semana no campo conosco. Isso mostra o quanto você é um espírito REBELDE.
— Peço as mais sinceras desculpas, realmente estava passando muito mal. Não quis...
Foi interrompido por um tapa no rosto, desferido pelo supervisor menor. Aturdido, levou a mão à face atingida; a bem dizer, não doera tanto. A ação em si é que o pasmou.
— CALE A BOCA! Ainda há MUITO de mundano em você, Mikael, não ficou totalmente pronto com a Purificação. Mas VAI FICAR, pode confiar. Deus sempre dá uma outra chance aos seus filhos. Arrepender-se é o primeiro passo para recebê-la. PAGAR pelo erro é o passo seguinte. Gideão, por favor...
Afastou-se, dando espaço a que o mais alto voltasse a ficar perto de Milo.
— Jesus transformou a água em vinho. O morto em vivo. O enfermo em são. – Discorria, gravemente. – A transformação faz parte da Obra. Maus exemplos podem vir a se tornar EXEMPLOS. A sua PUNIÇÃO, Mikael, será o exemplo a todas essas boas pessoas do que NÃO se deve fazer. E ajudará a remir seu erro. Tire sua bata.
Inconscientemente, Milo hesitou; engoliu em seco e olhou em volta. Durante sua hesitação, viu um homem entregar uma chibata a Gideão.
Não.
Aquilo NÃO iria acontecer!
— Se não obedecer, vou dobrar o número de chibatadas, Mikael. – Advertiu, preparando o instrumento em suas mãos enormes.
O policial retirou a veste de si em um movimento rápido, atrapalhado.
— Vire-se de costas para mim e de frente para os seus irmãos. Coloque os cabelos para frente do corpo.
Resistindo ao impulso de morder os lábios, Milo obedeceu. Teria de poupá-los... para fazer isso DEPOIS.
Porque DE JEITO NENHUM daria o gosto aos canalhas de ouvi-lo gritar!
“Já passei por coisas piores", pensava, lembrando-se de situações dramáticas que fizeram-no acreditar, durante suas ocorrências, que vivia os últimos instantes de sua vida. Trocas de tiros, infiltração em quadrilha de traficantes, resgate de reféns, desmantelamento de bombas de terroristas. Ossos do ofício. Coisas da profissão.
— Contemplem, fiéis, o que está destinado àqueles que desobedecem às regras de nossa sagrada comunidade! – Anunciou o supervisor mais baixo. – Amados irmãos, amado Mikael, este é um ato de AMOR. Poderá uma árvore ser bem cuidada se não lhe arrancam as ervas daninhas? Não, meus queridos, não. O mal precisa ser extirpado... os frutos que virão depois justificarão o ato...
Então sob um zunido veloz o mundo de Milo foi povoado por dor faiscante e abrupta. Cerrou os dentes com força, sem contudo poder impedir um grunhido rouco. Outra vez a flexível corda de couro abateu-se sobre suas costas nuas, providencialmente bem em cima da primeira vergastada. Não conseguiu conter um sobressalto. Fechou os olhos quando do doloroso impacto e, ao abri-los, viu as dezenas e dezenas de colonos bem atentos a ele.
Sua plateia. A plateia de seu suplício.
Nova investida sobre sua carne, nitidamente mais violenta.
— Uuungh! – Gemeu entre dentes. Fechou os punhos a ponto de as unhas magoarem-lhe as palmas.
Gideão não estava apreciando a falta de gritos e súplicas. Isso comprometia a serventia daquela demonstração. Seguindo os olhares dos supervisores, reparou a estrutura vigorosa do novato, mudo, a despeito das enormes e grotescas linhas sanguinolentas em sua pele perfeita. A indicação para aquele tipo de delito, cometido pela primeira vez, era de três chicotadas, apenas. Um mero aviso. Três chicotadas e o leviano voltaria ao trabalho. Mas esse infeliz não gritava, não pedia, não lamentava. Mesmo seu gemido fora quase inaudível. Decidiu por DOBRAR o número... não. Talvez... SETE. Era um número emblemático, afinal! Olhou para seus colegas, como a buscar aprovação. Os demais assentiram, desvendando logo a intenção do imenso supervisor.
Uns passos para trás. Tomou impulso e procurou concentrar a força da chibatada como nunca.
Feito.
Desta vez o loiro emitiu um barulho semelhante a um relincho de cavalo. Ainda não era um grito, mas era melhor que nada. Gideão quase sorriu.
A dor desatinava os sentidos de Milo. Esforçou-se por manter-se no controle, distraindo-se com os “irmãos” diante de si. Para sua relativa surpresa, encontrou piedade somente em poucos dos semblantes. A grande maioria das expressões estampadas dividiam-se entre vazias e apáticas, e entre depreciativas, acusadoras.
Não.
Havia também o MEDO.
Sim.
Estavam lá apatia, desprezo, reprovação, medo... e um pouco de piedade.
A quinta chibatada pareceu rasgá-lo. Rangeu os dentes, puxou o ar com fúria.
Seu olhar cruzou com o de um homem gigantesco, maior até do que Gideão, bem moreno e de cabelos castanhos escuros compridos. Era difícil distinguir-lhe os olhos devido à posição do sol, entretanto a sua aguçada percepção de policial sugeriu-lhe que aquele olhar queria dizer-lhe algo. Viu o homem balançar vagarosamente a cabeça em uma discreta negativa.
A sexta chibatada arrancou, finalmente, um grito do agente. Cerrou os olhos, mortificado de dor e raiva. Raiva por não ter conseguido conter aquele grito. Inferno, distraíra-se mais do que devia! Fora pego de surpresa, apenas isso!
Razoavelmente satisfeito por ouvir o jovem enfim gritar – embora de forma curta e breve, nada como os berros suplicantes e desesperados que tanto lhe apraziam, e que tão mais úteis eram – Gideão desferiu com gosto a última chicotada, bem por cima da carne retalhada. Mais um grito... rouco. Raivoso. Bem, melhor que nada. Não poderia seguir adiante, o deslize do novato não se fazia à altura... de mais a mais, não queria incapacitá-lo para o trabalho.
— Isto é tudo. – Enunciou, recolhendo o chicote e limpando-o com uma flanela. – Vista-se e volte a capinar a área.
Respirando pesadamente, Milo abaixou-se para pegar a bata. O movimento dava-lhe sensação de facadas, e ele fez uma careta de dor. O contato do tecido grosso com as feridas frescas trouxe-lhe lágrimas nos olhos. As tentativas de não gemer resultavam em grunhidos aflitivos, o ar saía-lhe das narinas sonoramente em laivos desordenados. A passos incertos voltou para onde havia deixado sua enxada. Em meio ao silêncio absoluto, os fiéis voltaram a trabalhar.
O enorme homem que encarara Milo e lhe fizera o enigmático gesto com a cabeça abaixou-se e pegou a enxada do chão. Entregou-a ao agente. Admirado com aquela atitude, Milo pegou o cabo da ferramenta, fitando fixamente os olhos escuros do grandalhão. Não deveria ter menos que dois metros de altura!
"Um gigante gentil... ora só".
— Obrigado. – Murmurou o policial, sem conseguir ficar plenamente ereto.
O desconhecido respondeu com um sorriso curto, quase tímido. Contudo... reconfortante. Então afastou-se e voltou a capinar o terreno como os outros.
Com certa dificuldade, o agente pôs-se a manusear a enxada. Suas córneas ardiam e ele não sabia precisar se as lágrimas que ali represava haviam nascido da dor, da raiva ou da humilhação.
Deu-se conta de que nasceram de tudo isso e mais um pouco.
*************
Já fazia tempo que não o acorrentavam.
Tentava se lembrar da última vez em que o fizeram, estudando as algemas prateadas em seus pulsos e tornozelos, sem que isso o aborrecesse significativamente.
Considerando que seria IMPOSSÍVEL fugir – não que ele quisesse, nunca, jamais – todo aquele aparato fazia-se meramente simbólico.
Uma mensagem.
Nunca, jamais tentaria...
Não.
Houve uma vez.
Há quantos anos? Ele não teria como saber. O tempo não era contado por ele. Não lhe era revelado.
Lembrava de que Algol era uma criança crescida, de voz esganiçada e com o rosto cravejado de espinhas. Remetia a um morango, vermelho e povoado de pontinhos. O caçula chorava por causa daquilo. Rada revirava os olhos e dizia-lhe que “era uma fase”. Revoltado, Algol apontava para os irmãos, reclamando “se é uma fase, por que vocês dois, que já tiveram 14 anos como eu, não tiveram estas espinhas de merda?”
“Modere seu linguajar. Eu te respondo: porque você é SUJO. Tem pensamentos sujos. E isso se reflete no seu rosto.”, respondia-lhe, sério, o primogênito. Algol gargalhava, o deboche mascarando a frustração, quem sabe.
Algol tinha catorze anos quando Camus tentou fugir.
Se agora Algol tinha 23 anos, pelas contas... sua tentativa de fuga havia sido há nove anos.
Sua ÚLTIMA tentativa de fuga.
Lembrava-se, pois.
Era assim que precisava calcular, mais ou menos, os tempos das coisas, ele, que não sabia a própria idade, nem quando nascera, nem em que dia estava.
Nove anos atrás tentara fugir do Vale. Sucumbira àquela tentação do Diabo por ter sido assaltado pela vil convicção de que não suportaria mais os martírios aos quais era submetido. Não gostava de sentir dor. Estava cansado de sentir dor. Tinha medo da dor.
Capricho infantil. Sua missão fazia parte do que era e do que lhe acontecia. Crianças por vezes são tolas e voluntariosas. Ele cedera àquele egoísmo devido à dor incompreensível.
Acabou por compreender.. Cuidaram dele. Fizeram-no compreender. Não que ele já não compreendesse, só que...
Em todo caso, convenceu-se, permanentemente, de que em sua dor residia a estrada para a salvação de milhares e milhares de pessoas.
Não, não tentaria mais fugir.
Sequer o tencionaria.
Mesmo que quisesse – não, não, não, ele não queria, nunca, jamais – havia seguranças no Tabernáculo, guardas ao seu redor, vigias em cada canto da vasta propriedade. Em seus passeios pelo Vale, usava uma tornozeleira eletrônica que o paralisava mediante um desagradável choque elétrico, emitido pelo controle nas mãos do sentinela por ele responsável no momento.
Resumindo: ele não QUERIA e não PODIA fugir.
A última vez em que tentara fugir havia sido há nove anos.
E qual foi a última vez em que foi acorrentado, se nunca mais tentara fugir?
Vasculhando a sua mente, lembrou-se de que a última vez que estivera contido por grilhões tinha sido porque... porque...
Fazia uns meses. Ele não entendia bem o que era um mês. Mas sabia que fazia uns meses.
Não se lembrava bem o que levara a tal... uma insubordinação... um questionamento...
... um questionamento...
"Por que, ó Pai Terreno? Sei que devo ser um veículo de expurgo como meu Antecessor, mas Ele nunca...
... nada na Bíblia menciona...
... são muitos...
... eu vejo o Mal cintilar em seus olhos quando eles me...
... quando eles me..."
Não.
Não deveria pensar nisso.
Levou as mãos aos ouvidos, tapando-os; as correntes tilintaram.
Um questionamento.
Não deveria sequer se lembrar dele.
Poderia REAVIVÁ-LO.
Fechou os olhos, querendo mergulhar naquela escuridão. Naquela ausência.
Abriu-os ao ouvir passos se aproximando.
Hades.
Vestia um impecável terno risca de giz e trazia os cabelos extra longos presos em um rabo de cavalo. Deveria estar de partida para algum encontro de negócios “no mundo”. Só deixava de usar as longas túnicas e mantos quando ia ter com “o mundo”.
Sua figura envolta em negro sobressaía-se no fundo branco do recinto vazio. A voz profunda ecoou no cômodo desprovido de móveis, de qualquer outro objeto:
— Camus. Está se perguntando por que está preso assim. Não está?
Sem evitar-lhe o olhar inquisidor, o jovem assentiu, optando pelo silêncio. Seu pai pôs as mãos para trás ao indagar:
— Lembra-se da última vez em que eu mandei te acorrentar?
Os olhos castanho avermelhados abandonaram o líder religioso e vagaram pela cela, desprovida até mesmo de janelas. Estava encostado à parede, pernas estendidas no chão frio.
— Não vai responder ao seu pai?
— Sim... eu me lembro.
— O que você fez naquele dia?
— Eu... eu questionei o senhor.
— Sobre o quê?
A garganta de Camus constringiu-se. Um gosto amargo invadiu-lhe a boca.
— Sobre a... a natureza de alguns suplícios.
— E depois? O que você fez?
— Eu quis… eu quis…
— FALE! O QUE VOCÊ QUIS?!? – Berrou Hades, tão súbito que assustou o filho. Este umedeceu os lábios e, ofegante pelo susto que desgovernara seus batimentos cardíacos, completou o que tentara dizer:
— Eu quis... eu me recusei a fazer o Cerimonial de Entrega das Almas... – E só naquele momento a recordação visitou-o de maneira integral.
— Sim... você quis fugir a uma obrigação. Tal como anos atrás, quando ousou tentar fugir...
— Eles eram muitos, pai! – Retrucou, sua voz mais alta do que calculara.
Hades ergueu as sobrancelhas, quase sarcástico.
— E por acaso os que afligiram o Cristo se REVEZARAM para fazê-lo? Organizaram filas?
—É que... o senhor... pôs muitos homens... mulheres... para me... eu... de uma só vez...
— Estou vendo que foi bem acertada a decisão de puni-lo. Está me respondendo DEMAIS. E da forma errada. – Comentou o pai, gélido.
O ruivo travou a mandíbula, em um doloroso esforço de se calar.
Não contestar era sua natureza.
Ou melhor... era no que TORNARA sua natureza.
Mas vezes havia em que... por Deus!...
Exaustão abateu-se sobre ele.
Era como se tivesse vivido várias e várias e várias vidas...
Hades deu um longo suspiro. Abaixou-se até ficar na mesma altura em que estava o filho aprisionado.
— Jesus era o filho direto de Deus. Ele não precisou tanto da assessoria de José como você, um simples menino que recebeu a Sua essência, precisa. Sua missão é ainda mais árdua que a do Cristo. Seu fardo é maior porque os pecados desta era são maiores, o número de pecadores é maior. Precisa de MIM. Precisa ME obedecer. EU recebi a Revelação e a missão de te guiar neste espinhoso porém magnífico caminho. – Elucidou, em tom brando.
Não recebendo mais nenhuma réplica do filho, continuou:
— Dante contou que você tentou fugir dele.
Então ERA ISSO!
E era uma MENTIRA!
Nunca tentaria fugir, nunca mais, nunca, jamais... ele só queria...
— Não tive a intenção de fugir. Acontece que eu me afastei, sim, bruscamente dele. Corri... mas não tinha intenção alguma de fugir. – Respondeu, cansado, encostando a cabeça na superfície lisa.
— Sendo assim, por que correu dele? Dante disse que você falou que VIU alguém em cima de uma elevação na mata.
O coração de Camus disparou loucamente. Não poderia mentir, ele nunca mentia... confirmou com um menear de cabeça.
— Alguém te assustou, para você tomar uma atitude dessas.
— Não.
— Então por que correu? – Insistiu Hades, assertivo.
— Eu queria apenas chegar aonde ELE estava...
— Ele QUEM?
O jovem não respondeu.
Reviu na mente o anjo abatendo o pai terreno, Hades...
Seu pai convertendo-se em folhas secas que se revolviam no ar e voltavam para tragá-lo.
— Eu te fiz uma pergunta, Camus, não vai respondê-la?
Ele não podia mentir. Entretanto, algo impedia-lhe de contar sobre o anjo de suas visões.
O anjo que no sonho destruía Hades.
— Uma pessoa.
— Isso é óbvio! Não menospreze a minha inteligência, garoto. – Hades deu um riso que nada tinha de bem humorado. – Quero um NOME.
— Não sei.
Bom, aquilo de jeito nenhum era uma mentira.
Analisando a expressão perdida do rapaz, Hades propôs, em meio a um sorriso desdenhoso:
— Sabe o que eu acho, Camus? Eu acho que você não viu NINGUÉM.
O ruivo manteve-se calado. Desviou o olhar.
— Dante não viu ninguém. Não havia ninguém lá, ele teria visto. Contou-me que você teve uma crise nervosa. Gritou coisas sem sentido.
Sem contestar o pai, sustentou o mutismo, malgrado uma intensa angústia se avolumasse no peito. Ao sentir a mão de Hades estender-se para si, retraiu-se como um bicho assustado. Mas a mão pôs-se gentilmente a acariciar-lhe a face alva.
— Reconheço que seu fardo é imenso, filho meu. Os sofrimentos por que passa são extenuantes para um menino como você. Sei que você entende a necessidade de seu sacrifício. – Dizia, condescendente. – Mas sendo carne, como um dia Jesus se fez carne, está suscetível às fraquezas emocionais que assolam os homens. Até mesmo o seu Antecessor deixou-se dominar pela angústia de ver sua hora se aproximar, a hora de cumprir seu papel como Salvador que levaria sobre si os pecados da Humanidade. Jesus experimentou o desespero antes de ser preso... lembra? “Pai, se quiseres, afasta de mim esse cálice; todavia, não se faça a minha vontade, mas a tua.”. Lucas 22:42.
Hesitante, Camus voltou a olhar o pai, que passou a afagar-lhes os cabelos.
— Vê, filho? Mesmo o Cristo tencionou ser poupado… porém, reconhecia que não era escolha dele, e sim do Pai Celestial. E cumpriu com o seu destino. Lembra do que o seu Antecessor disse na Cruz? “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. Inúmeros estudiosos se debruçam sobre essas palavras, alguns insinuam que fossem uma manifestação de revolta para com Deus. Bobagem. Ali foi a influência da carne. Desamparo? Desespero? Angústia? Eu diria que foi a dor. A dor leva os homens – e Jesus ali era um HOMEM – a irem contra suas próprias convicções, ainda que momentaneamente. Acredito que seja o teu caso, Camus. Eu creio que o que houve esta tarde não passou de uma crise nervosa. Puro destempero.
— Então... eu não mereço ser punido.
Hades considerou-o, intimamente intrigado com aquela declaração. Insólita nos lábios de quem tudo suportava em nome de sua Missão.
— Não. Não merece. – Admitiu. Ergueu-se, de repente. Seu olhar voltou a cintilar como cristais de gelo. – Mas precisa refletir sobre o que houve. Uma crise nervosa não o absolve totalmente. Reflita sobre o autodomínio. Jesus temeu, entretanto nunca perdeu o autodomínio. Nunca tentou escapar. Nunca correu. Nunca se afastou.
Assolado pela culpa, o ruivo mirou o pai, que já se dirigia à porta sem olhar para trás.
— Ficará aqui esta noite, sem comer e sem beber, para purificar seus pensamentos caóticos. Tê-los é pecaminoso, mas sucumbir a eles é devastador.
— Mas pai!... tenho sede!
— Lamento. É para o seu próprio bem. – Volveu Hades, ganhando a saída sem mais nada dizer.
Quando ouviu o som metálico do trinco, Camus enfim libertou as lágrimas que tão bravamente contivera até aquele instante.
Tinha fome.
Tinha sede. Tanta sede... tanta sede!
Estava tão cansado!
Contemplou em seu corpo as marcas do último Cerimonial. Não doíam-lhe tanto quanto a secura em sua garganta.
Recostou a cabeça na parede branca, evocando as cenas da tarde.
O anjo, o SEU anjo, no alto do barranco.
A mesma face.
Os mesmos olhos.
Os mesmos cabelos.
Era ele!
Ele viera!
Ele só parecia um tanto CONFUSO.
Por quê?
Mas ERA ELE. Confuso ou não.
Por que não se revelara?
Por que não lhe respondera?
Por que... por que o ABANDONARA?
Seria possível que o anjo de suas vigílias, de suas visões, de seus sonhos... lhe ABANDONARA?
Viu o Cristo recostar a cabeça na Cruz: “Deus meu, Deus meu...”
— ... por que me desamparaste? – Sussurrou, sentindo o gosto salobro das lágrimas em seus lábios.
*************
—Uhnn... aah... desgraçados... – Praguejava Milo, baixinho, enquanto tentava tratar dos horríveis ferimentos nas costas. Por mais que não pudesse vê-los, só de sentir-lhes a extensão e ver o quanto de sangue ficava no pano usado, sabia que tinha um problemão ali.
Não lhe fora qualquer assistência após a odiosa punição na lavoura, e ele tampouco por isso pediu. Sem acesso a medicamentos ou bandagens, o jeito foi pedir um punhado de sal na cozinha, que estava usando no momento: misturou-o na água que aparou em uma pequena bacia encontrada no quarto, molhava uma peça de roupa na solução e a esfregava nos machucados. Ardia como o inferno! Puxava o ar entre os dentes cerrados, tamanha a dor. Retraía o braço; vendo o pano ensanguentado, voltava a mergulhá-lo na bacia de água com sal.
Ao ver subirem espirais vermelhas à superfície, cogitara se fora um preço razoável pela informação obtida.
Acreditava que sim.
As rubras réstias na água remeteram-no ao “Redentor”.
Os longos cabelos do falso messias espalhados por sobre a relva. Como caminhos de sangue de uma criatura que precipitara do céu.
Os dedos do agente, nos quais despontavam calos pela labuta nos campos, apertaram o pano molhado.
“Então o cara que se faz passar pelo Salvador destes loucos é apenas um fantoche dos grandões...”, pensou, franzindo o cenho.
Tudo mudava de perspectiva. Acreditara que o ruivo estivesse mancomunado com Hades e sua quadrilha. Malgrado ele fosse um farsante, talvez não estivesse agindo por livre e espontânea vontade.
TALVEZ?
“Porra, meteram uma tornozeleira paralisante no cara. Ele só se afastou de repente e aquele animal quase fritou ele. Não parece algo a que alguém se submetesse de bom grado, porra.”
Coçou o queixo, subitamente esquecido dos próprios ferimentos.
“Aquele vídeo do Natal... ele fazendo sermão... achei que as marcas que vimos nos braços e pulsos fossem maquiagem... já não estou bem certo. Não depois do que vi.”
Camus.
Dante chamara-o assim.
“Nome francês. Um filósofo francês. Li na época da faculdade... Saga entende mais disso do que eu... bom, supondo que... OK, ADMITINDO que o tal Camus esteja sendo FORÇADO a encarnar essa farsa, COMO foi que ele parou nessa? Teria sido enganado depois que topou o teatrinho de quinta? Ou...”
Batidas à porta interromperam seus pensamentos e causaram-lhe um sobressalto que quase suspendeu-lhe o fôlego.
“Pelo visto eu tô um tanto quanto impressionado”, pensou, espalmando a mão no peito. Com o coração disparado, levantou-se do modesto leito. Foi até a porta e a abriu, sem se importar em perguntar quem batia.
O gigante gentil.
O homenzarrão que pegara a enxada no chão e a lhe entregara.
Um dos poucos que lhe enviaram conforto pela expressão compadecida.
O único de quem recebera uma gentileza desprendida naquele lugar, desde que chegara.
— Oh. Oi. Hã... pois não? – Milo não disfarçou a surpresa em vê-lo diante de sua cela. O que será que queria?
Erguendo uma Bíblia e mostrando-a ao loiro, o desconhecido anunciou:
— Boa noite, Mikael. Meu nome é Aldebaran. Era pastor em minha congregação de origem. Vim ministrar-lhe uma reflexão usando a Palavra de Deus.
— Como é? Digo…
— Recebi um chamado do Senhor. Ele me disse que depois do que houve hoje na lavoura, você está precisando de assessoria e conforto. Será que posso entrar para conversarmos?
Boquiaberto, o agente olhou o enorme homem de alto a baixo. Resistindo à vontade de bater a porta naquela cara larga, esforçou-se em dizer:
— Eu... eu agradeço a preocupação... mas...
— Então, posso entrar?
— É que... está tarde e... – Milo estava desconfiado por demais para aceitar ficar a sós com um completo desconhecido, ainda mais daquele lugar maluco... e daquele TAMANHO.
— O irmão recusa-se a ouvir a Palavra de Deus?
— N-não... não! – Apreensivo, o loiro olhou para todos os lados do corredor do alojamento. Alguns poucos homens iam e voltavam dos banheiros. Pareciam alheios ao que se passava em sua porta.
— Sendo assim, com licença. – O inconveniente foi entrando. Precisou abaixar a cabeça para adentrar o pequeno cômodo.
“Puta merda, era só o que me faltava. Um carola pé no saco...”, resmungava o policial, em pensamento. Fechou a porta e virou-se para o visitante, estampando um sorriso forçado.
— Como eu disse, Mikael, Deus me revelou que eu precisava vir até aqui para confortá-lo e, ao mesmo tempo, transmitir uma mensagem a você...
O recém chegado tirou uma pequena trouxa de pano do bolso da calça de sarja. Depositou-a sobre a mesinha ao lado da cama de Milo, que ergueu uma sobrancelha, curioso. O agente viu-o desembrulhar o embrulho enquanto continuava a tagarelar:
—… sei que tudo aqui é novo para você, Mikael, mas quero que saiba que a obediência irrestrita às regras de nossa comunidade é apenas mais uma prova da lealdade que você se comprometeu a ter para com Deus no momento de sua conversão...
Os olhos azuis arregalaram-se ao perceber o conteúdo da trouxinha: uma espécie de pasta verde escura, brilhante e aromática.
— O que é...
O estranho calou-o com um gesto, pedindo silêncio ao posicionar o indicador em riste sobre os próprios lábios, grossos e contraídos. Foi até a porta de madeira e passou o trinco, sem fazer o menor ruído. Prosseguiu:
— O que é que estou falando? Estou falando de disciplina, Mikael. De ter disciplina. Ter disciplina é ter fé, é entregar-se aos desígnios daqueles que sabem o que é melhor para você.. Contestar as leis do Vale é contestar as leis de Deus.
Aldebaran apontou a cama do quarto, sinalizando para que o loiro deitasse nela. Milo compreendeu o que o outro pretendia. Subiu sobre ela, deitando-se de bruços.
— Eu imagino que, como o bom servo que é, você tenha ficado envergonhado tanto pelo que fez quanto pela punição que recebeu. O que quero saber, irmão, é: pediu perdão sincero a Deus?
— Sim, eu pedi. – Milo respondeu, projetando a voz. – me senti mal por ter errado, e logo em minha primeira semana entre vocês, trabalhando...
Percebeu que o que o grandalhão trouxera era uma espécie de emplastro de ervas, ao vê-lo esfregar os dedos na pasta escura.
— Entendo sua frustração, mas lembre-se... todos pecamos e destituídos estamos da graça de Deus. Entretanto, a Sua misericórdia é infinita, contanto que O busquemos sempre que errarmos. – Ouvindo-o, Milo crispou os punhos no lençol ao sentir a dor lancinante causada pelo toque do homem em suas feridas abertas. – A ordem de não se ausentar do seu posto de trabalho sem permissão faz parte de um código que objetiva tão somente a harmonia desta santa colônia.
Pouco a pouco a dor do policial foi sendo substituída por um agradável frescor. O aroma das plantas medicinais chegou-lhe às narinas, contribuindo para seu relaxamento. Enunciou:
— Eu compreendo, irmão. Fui um tolo, deveria ter pedido permissão ao invés de sair sem avisar ninguém. A dor de barriga...
— Se estivesse de fato em espírito de oração não teria se sentido mal durante seu trabalho, e se tivesse sentido, ele não tiraria sua razão. – Aldebaran fingiu interrompê-lo com severidade. – Da próxima vez em que se sentir mal, lembre-se primeiro de buscar a Deus, que tudo pode curar. E em seguida comunicar aos seus superiores. Entendido?
Milo continha gemidos de alívio. Livrar-se daquela dor de horas dava-lhe vontade de chorar.
— Sim, irmão Aldebaran. Eu agradeço muito por essa palavra. Precisava dela.
Após esfregar o remédio nas costas do jovem, o grandalhão olhou para debaixo da porta, procurando alguma sombra reveladora. Não havia nenhuma. Mesmo assim, deveria continuar cauteloso em seu ato. Retirou um grosso rolo de pano do outro bolso; fez Milo se sentar no fino colchão. Pôs-se a enrolá-lo pelo torso do rapaz, continuando o “sermão”:
— Não agradeça a mim. Agradeça a Deus, que me trouxe até o seu quarto, e que te trouxe para onde está o Redentor, a reencarnação do Seu Filho. Vamos orar, Mikael. Venha, ajoelhemos...
Sussurrou-lhe ao ouvido:
— Não molhe o local, nada de banho. Virei trocar esse curativo amanhã à noite.
A despeito do sotaque rascante, Milo entendeu com perfeição, confirmando-o com um menear de cabeça.
— Oremos, pois... – Aldebaran voltou a elevar a voz grossa. – Pai nosso que estais no céu, rogo-vos que olheis pelo vosso servo Mikael, que no momento é como uma criança que está aprendendo a andar e que, por isso, muitos tombos ainda sofrerá. Conduzi-o pelas sendas de vossos domínios, que ele possa...
Enquanto “orava”, o moreno encarava o jovem, mais uma vez fazendo gesto de “silêncio”; em seguida, apontou para a porta e para a janela fechada. Milo decifrou-lhe a mensagem: não deveria contar nada do que acontecera ali a NINGUÉM. Assentiu, querendo dizer que nem precisava que lhe pedisse aquilo.
Ao término da longa "prece", Aldebaran anunciou sua partida:
— Espero que possa refletir e não mais incorrer no mesmo erro, irmão.
— Com a graça de Deus, não mais, irmão. – E acrescentou, com sinceridade absoluta – Muito obrigado pelo que fez. Eu me sinto bem melhor. Mesmo. Muito melhor.
O outro sorriu, meneando a cabeça.
— Conforme disse anteriormente, Mikael, agradeça a Deus. Sou apenas um instrumento Dele. Agradeça sempre a Ele. Sempre.
— Eu agradecerei...
— Amanhã é sábado, trabalharemos até a hora do almoço. Depois, se quiser, junte-se ao meu grupo de estudos dirigidos. Estarei próximo ao laranjal.
— Oh, sim, será um prazer. Estarei lá. – Não mentia; se tivesse que passar a tarde livre de sábado com alguém, certamente procuraria a única pessoa daquele maldito Vale que procedera com real gentileza para com ele.
Fechou a porta após se despedir de Aldebaran. Vestiu uma bata limpa, de cor marrom escuro. Apagou as velas, deixando apenas uma acesa; estirou-se sobre a cama de bruços, feliz por se ver quase que totalmente livre da dor. Do que quer que fosse feito aquele unguento ministrado em seus ferimentos, aliviara-o de tal forma que ele sorria como um bobo. Permitiu-se sussurrar, antes de se entregar ao sono moldado pela fadiga:
— Obrigado, meu Deus. Muito obrigado...
*************
—... espero que os irmãos levem essas palavras em seus corações, não apenas hoje como também amanhã e sempre. Vamos fazer uma oração para encerrarmos este estudo de hoje. Quem gostaria de conduzir a prece?
Mais de uma dezena de braços ergueram-se em oferecimento; Aldebaran foi obrigado a escolher:
— Por gentileza, irmã Hadassa...
Durante vários minutos a voz arrastada da mulher enumerou graças e pedidos, acompanhada por nada abafados “aleluia”, “amém”, “Deus seja louvado”. Ao término da oração, as trinta pessoas que acompanhavam a classe ministrada pelo ex-pastor brasileiro começaram a se despedir e a se dispersar. Milo recebeu e deu muitos abraços, torcendo avidamente para que aquilo tivesse um fim. Em relação àquele contato físico, nem um pouco apreciado por ele. Em relação à palestra de Aldebaran... nem havia sido tão desagradável. O grandalhão expressava-se com parcimônia e suavidade, bem diferente dos religiosos acusadores, escandalosos que irritavam o loiro. Aldebaran escolhera o livro de Provérbios para o estudo daquela tarde, discorrendo sobre possíveis interpretações e aplicações nas vidas dos fiéis. A Milo pareceu até interessante, em parte pelo conteúdo, em parte pela retórica do moreno. Havia reverência, mas não “terrorismo”; foi a primeira vez que viu um religioso da Aurora do Novo Porvir expor uma preleção daquela forma. Quando não restava quase ninguém debaixo das laranjeiras – enfim poderiam ter as reais horas livres! – Aldebaran preparou-se para partir. Pegou sua Bíblia e anotações; Milo aproximou-se dele:
— Oi, quer ajuda?
— Ah! Não, Mikael, obrigado, é só isto aqui mesmo...
— Certo... olha, foi uma excelente classe, gostei muito. Quero sempre participar de suas aulas.
O imenso homem riu:
— Fico feliz que tenha gostado, irmão, mas não é assim que funciona... você tem que revezar de Preceptores.
— De quê...?
— Preceptores. É como somos chamados nós, que nos organizamos para ministrar os estudos dirigidos de sábado. Formamos vários grupos pelo Vale ao ar livre, ou em salas do Templo, caso seja a preferência do organizador da turma. – Explicava ao loiro, enquanto caminhavam próximo à plantação de laranjas. – Eu sempre prefiro ficar em meio à natureza. Perto de algum pomar, de um lago, de um jardim, de uma cachoeira... as classes são rotativas, hoje você escolheu a minha, semana que vem deverá escolher outra.
— Que droga, não posso repetir?
Aldebaran mirou-o como se falasse a uma criança insistente.
— Bom, foi apenas sua primeira vez... acho que não haverá problema em te receber novamente sábado que vem.
— Valeu... espero que fique perto da cachoeira. Até que seria legal pular em uma.
— Vê aqueles irmãos lá perto dos carvalhos? Estão a caminho de uma. Soube que farão um piquenique... só não vai poder "pular em uma". Lembre-se... — sussurrou-lhe — não pode molhar as costas por uns dias... mas vá. Está em um de seus raros tempos livres.
— E você, vai fazer o quê? Digo, agora?
— Apenas dar uma caminhada por aí. Talvez chegar até o Rio de Prata. É um lugar maravilhoso, e a água tão clara que se vê o fundo e os peixinhos.
— Posso te acompanhar? Se eu não estiver te incomodando, claro.
— Claro que não está me incomodando! – Riu de novo. – Hoje não trouxe nada, mas em um outro sábado poderemos pescar lá.
— Legal!
Em semanas, enfim um sorriso legítimo nascia nos lábios do policial. A companhia do “gigante gentil” era um alento naquele hospício... andaram pelas planícies verdejantes e floridas, apenas os sons dos grilos, pássaros e cigarras a povoarem o silêncio que instituíram. As habitações foram ficando para trás, bem como qualquer sinal de que havia ocupação humana naquele santuário natural. As montanhas desafiavam os céus límpidos, os quais poucas nuvens se atreviam a singrar.
Instintivamente olhando para trás e deparando-se com uma parede de árvores e arbustos altos, Milo comentou:
— Seu sotaque... eu não consigo definir de onde é... arriscaria Argentina.
— Brasil. – Respondeu em meio a uma risadinha. – Se fosse em outros tempos, eu ficaria ofendido com esse seu palpite.
— Hã? Por quê?
— Bobagens da minha época de “mundano”. Rivalidade por conta de futebol... quer dizer, principalmente por conta de futebol.
— Não gosta mais de futebol?
— Não de torcer, não devemos, você sabe. Jogar pode até ser, embora qualquer um tivesse medo de jogar comigo.
— Hunf. Só porque você é um POUQUINHO alto? – Brincou o agente. – Quanto mede, hein? Aposto que mais de dois metros...
— Acertou. Minha altura é de 2,10m.
Milo deu um assobio.
— Nunca pensei que fosse me sentir anão com os meus 1,85m!
Aldebaran sorriu, divertido. Colocando as mãos para trás da cabeça, Milo quis saber:
— Então você veio do Brasil... disse que era pastor em sua antiga congregação.
— Sim, eu era pastor em uma das unidades da Aurora do Novo Porvir. Ainda são poucas no Brasil.
— De onde você é? Eu estive no Brasil com meus pais, há muitos anos, era um moleque... fomos ao Rio de Janeiro.
— Sou do estado de Minas Gerais. Vim para cá após receber um chamado de Deus.
— Uau... deve ter sido uma mudança e tanto.
— A princípio, vim para fazer um curso, nos moldes de uma especialização em Teologia, só que junto aos próprios líderes da Aurora do Novo Porvir. Fui convidado para viver aqui no Vale e... bem, aqui estou, até hoje, dez anos depois.
— Entendo. Escuta, Aldebaran... – Abaixou a voz. – Ontem... hã... que era aquilo? Melhorou muito... a dor praticamente se foi toda.
O brasileiro olhou ao redor, só para garantir. Também abaixou a voz, mas Milo pôde ouvi-lo:
— Uma pomada de verbasco, calêndula e milefólio. Ajuda na coagulação do sangue, estimula a cicatrização e tem efeito anestésico.
— Fantástico! Como conhece tanto de ervas medicinais assim? Aprendeu em seu país, com sua família...?
Um sorriso triste precedeu a resposta:
— Não aprendi em meu país, mas sim, aprendi com minha família... com minha esposa. Ela... aprendeu com a família dela, são Cherokee. (1)
— Ah, que legal, e onde está ela?
— Está no cemitério do nosso Vale.
Milo deixou entreabrir a boca, dividido entre a surpresa e o constrangimento.
— E-eu... eu sinto muito...
— Eu também. – Suspirou o brasileiro, contemplando um bando de aves que grasnavam pelos ares.
— Hã... ela... desculpe, de que ela...?
— Eu a conheci aqui no Vale, quando cheguei. Apesar de nosso casamento ter sido arranjado, eu a amei à primeira vista. E fui amado por ela. Tivemos uma filhinha. Está lá com ela. Contava sete anos quando partiu com a mãe.
— As duas...? Que lástima... eu lamento tanto, Aldebaran! Mas... morreram juntas?
—Sim. Uma… uma fatalidade. – Seu rosto fez-se sombrio, e Milo arrependeu-se um pouco de ter perguntado. Decidiu não insistir.
Atravessaram uma clareira e embrenharam-se por um caminho mais cerrado. Ao cabo de vários minutos, Aldebaran inquiriu:
— Não vai perguntar qual foi a causa da morte das duas?
Sem saber se fora o tom nefasto da indagação ou o teor da mesma que causara-lhe arrepios, o loiro devolveu, acanhado:
— Não quis ser intrometido.
O grandão virou-se para ele e riu, deixando-o confuso.
— Mas se é EXATAMENTE o que você deverá ser daqui em diante, Mikael...
Aquela sentença enigmática intrigou o loiro de tal forma que ele parou de caminhar, fitando estupefato o homem à sua frente. Quando se preparava para perguntar qual o sentido daquelas palavras, escutou-lhe o anúncio animado:
— Veja, chegamos!
Adiantou-se até o ex-pastor e deteve-se diante da extasiante vista. Parecia um quadro pintado a óleo pelo mais virtuoso artista da Terra. A cordilheira em nuances de verde e violeta desembocava em um mar de pinheiros imponentes como guardiões eternos; abaixo, o rio cristalino, cujo leito se revelava, colorido e brilhante, povoado de peixinhos travessos. O aroma da vegetação inebriava os sentidos, já estremecidos pela suntuosidade da paisagem.
— Meu Deus, você falava a sério... é maravilhoso... – Admirava-se o policial. – É o lugar mais bonito que já vi em toda minha vida...
— Há outros tão bonitos quanto este, por aqui. Mas este é o meu preferido... até porque é ótimo para pescar. Gosta de pescar, Mikael?
— Faz uns vinte anos que não pesco, e ainda assim, quando pesquei, não peguei nada. Coitado do meu pai, teve que aturar meus resmungos até em casa!
— Bem, um dia combinamos de vir. Não tem como não voltar com pelo menos um balde de trutas.
— E o que eu faria com elas? Nem disponho de cozinha...
— Ah, sim. Mas isso é temporário. Assim que você se CASAR terá sua própria cabana.
— C-casar... eu?
— Ou se subir de posto, poderá habitar uma das casas geminadas... ou as vilas... não importa, não ficará para sempre nos alojamentos de celas. Até lá, pode vir à minha casa. Prepararei as trutas que você pescar.
— Puxa, isso é gentileza ou quer comer minhas trutas, além das suas?
— Como acha que cheguei a este tamanho, garoto?
Eles riram, espantando uns esquilos que os vigiavam. Sentaram-se na grama, pernas flexionadas e olhares no firmamento claro de verão. Após desfrutarem do doce silêncio por bastante tempo, Aldebaran tomou fôlego, como que se preparando para dizer alguma coisa. Milo esperou, olhando-o de soslaio.
— Mikael. O que quer que estivesse fazendo ontem... o que quer que tenha vindo fazer no Vale... TOME CUIDADO.
— Hã? O que quer dizer… – Milo ficou vivamente apreensivo com aquela fala. Procurou disfarçar, sorrindo e arrematando – Da onde veio isso? Uma dor de barriga, foi tudo que houve. Claro, agi como um idiota, mas...
— Eu estou falando sério.
Eles se encararam e o ar pareceu subitamente pesado.
— Eu sei. – Murmurou o loiro, por fim. Não encontrou mais nada para dizer. Procurava ainda, quando viu o brasileiro deitar-se na relva, apoiando a cabeça com os braços cruzados.
Imitou-o e nada mais falaram até o céu vestir-se com as cores do ocaso.
— É, meu amigo... hora de voltar. Já já servirão o jantar.
Assentindo em concordância, Milo levantou-se com presteza. Fez uma careta pelo movimento brusco. Rindo, Aldebaran lembrou-lhe:
—O curativo foi tão bom que até se esqueceu dele, hein! Cuidado... mais tarde irei trocá-lo.
— Ai... verdade. Eu te agradeço, viu... aaaah... pronto, passou. – Empertigou-se. – Bem, e amanhã, enfim conhecerei o Redentor! Que tipo de homem ele deve ser? Escuta, Aldebaran… ouvi dizer que o nome verdadeiro dele é Camus...
— Não existe “nome verdadeiro”, filho. Há nomes, alcunhas e títulos. “Redentor” é um título, “Camus” é um nome.
— Você me chama de "garoto", “filho” como se fosse muito mais velho! – Riu o loiro, acompanhando o ex-pastor. – Não deve ter mais que 30 anos.
— Tenho 41.
— QUÊÊ? Nossa... eu nunca diria! Parece tão mais novo!
— Hehehehe, a paz de espírito nos mantém jovens...
— Será? Bem, tomara! Mas então... voltando ao Redentor... Camus... é o nome de um filósofo francês...
— Sim, eu sei...
— Não, não estou sugerindo que você não saiba, tu é um cara culto, estudado... o que gostaria de saber é... da onde veio essa associação... ou será que é apenas coincidência?
— Bem, talvez seja uma das preferências literárias do Senhor Hades.
Milo contraiu as sobrancelhas, sem entender.
— Como assim? O que Hades tem a ver com o nome do Redentor? – Confessou.
Perplexo, Aldebaran voltou-se para ele.
— Tudo a ver, ora, uma vez que Hades É O PAI DELE.
As pernas do agente não lhe obedeceram mais a ordem de prosseguir.
— O... o quê?
— Não sabia? – Estranhou o moreno. – Ora... que curioso. Na minha época de “Purificação” ficamos sabendo logo no início. Não contaram a vocês?
— Não. Não nos contaram. – Balbuciou, tentando não parecer tão surpreso.
“Não pode ser. HADES É O PAI DAQUELE CARA!? Hades está A PAR do que FAZEM com o...”
— Está tudo bem, Mikael?
Viu que fracassara no intento de disfarçar a estupefação.
— Está, está sim! É que de repente me deu uma fome daquelas... fiquei até zonzo!
Aldebaran olhou-o desconfiado. Em seguida sorriu e lhe deu tapinhas nos ombros, dizendo:
— Então somos dois, meu amigo. Vamos!
— Vamos... – O policial fez uma cara de desânimo, evocando a refeição pobre oferecida no refeitório. – ... ainda não são as nossas trutas, mas... dá pro gasto, né...
— “Em tudo dai graças”, irmão Mikael, “em tudo dai graças!”
*************
Domingo.
Milo vasculhou as poucas roupas de que dispunha. Elas não se diferiam significativamente, no entanto havia uma de melhor aspecto. Talvez fosse destinada para as ocasiões mais “importantes”.
Como a daquele dia.
Dia em que as novas “ovelhas” seriam apresentadas ao Redentor. Receberiam dele a Unção, o que deveria oficializar a posição delas como membros da comunidade. Em quarenta dias, seriam pelo novo Messias batizado em um dos rios da propriedade, chamado de “Rio Jordão”. Seria bem à época de Saga fazer contato com a sede do Vale...
O agente vestiu uma calça comprida de corte reto e simples, de cor cinza clara, e uma camisa de manga semilonga bege. As cores eram sempre monótonas. Estampas, inexistentes. Cores muito escuras e vibrantes de modo algum se viam nas vestes das “ovelhas”. Apenas Hades e os membros mais elevados usavam cores como preto, dourado, vermelho, roxo, violeta. Ajeitou os longos cabelos previamente penteados no banheiro do alojamento. Calçou as sandálias de couro, as únicas que possuía, cuidadosamente limpas de véspera.
Deixou o alojamento juntamente com vários “irmãos”, unindo-se a uma procissão em direção ao Templo. Centenas de pessoas afluíam, adentrando a imensa edificação, nos moldes dos santuários antigos, da época da Lei.
Os recém convertidos foram conduzidos às últimas fileiras de bancos, homens de um lado, mulheres de outro. Os membros mais antigos não se separavam, podendo famílias ficarem unidas na hora do culto. Milo olhava ao redor, impressionado com as dimensões do local e com a riqueza da decoração; uma cúpula dourada reluzia pela farta iluminação – ali sim tinha luz elétrica... no palco, distante uns dois metros do chão, carpetes vermelhos e cruzes douradas. Havia sete tronos, e ao fundo deles, um trono dourado, maior. Pelas paredes, toda sorte de cruzes entalhadas em um material metálico que poderia ser cobre, Milo não saberia precisar... inúmeros jarros com vistosas flores espalhavam-se pelos cantos do imenso auditório. Uma suave música marcava a concentração para o grande evento.
“Duas mil e quinhentas pessoas aqui”, pensava, assombrado, o agente. Era o número suposto de habitantes do Vale. Por Deus, parecia até mais. Milo, que nunca fora de se apavorar com lugares cheios, sentiu-se desconfortável como nunca. Algo ali lhe dava MEDO, a despeito da luminosidade, dos semblantes bondosos e serenos, da beleza majestosa de tudo que sua vista alcançava. Começava a suar, recriminando-se por aquela tensão supostamente fora de propósito. Concentrou-se no frescor advindo do sistema de refrigeração, conforto ausente em sua humilde cela. Viu Aldebaran passar pelo corredor; o brasileiro vestia uma túnica verde clara por sobre uma calça comprida branca. Trazia os longos cabelos castanho escuros soltos. Ao ver Milo, acenou para ele, sendo efusivamente correspondido. Ver Aldebaran deu-lhe segurança. Sentiu-se tolo por isso, mas o que podia fazer, se era o que acontecera? O ex-pastor continuou o trajeto até sumir no meio da multidão bem mais para a frente. Milo uniu as mãos sobre os joelhos, torcendo-as de quando em quando.
O volume do devocional foi abaixando, até que cessou de vez.
Prontamente instituiu-se o silêncio por parte da audiência também.
“OK, o show vai começar”, pensou Milo, ficando de pé como os demais. Homens entravam no palco. Primeiro os Vigias: Minos, Aiacos, Capella e Asterion. Vestiam túnicas violeta cravejadas de pedrarias no peito e nas mangas longas; sentaram-se em quatro dos tronos menores. Depois entraram os dois filhos de Hades, Radamanthys e Algol, ambos com túnicas roxas igualmente adornadas.
Filhos de Hades.
“Irmãos do Redentor”, lembrou, com estranheza. Será que sabiam do que faziam com o irmão? Sentaram-se em dois dos tronos no palco.
Eis que aparecia o grande líder da seita, Hades. Chamado ora de “Pai Hades” ou “Grande Hades” pelos fiéis. Trajava uma túnica preta, de tecido brilhante, um imenso crucifixo dourado pendendo-lhe do pescoço. Sentou-se no último dos tronos menores vagos.
Enfim, ele...
... o Redentor.
Como sempre, vestido de branco. Uma longa veste cerimonial branca, sem qualquer adereço. Tomou assento no trono ao fundo, o maior e mais vistoso. Só de vê-lo algumas pessoas suspiraram e começaram a se emocionar, ainda que contendo-se para não emitirem nenhum barulho.
Passados momentos de novo devocional, Hades foi até a frente do palco e anunciou o início do culto.
Tudo como sempre, apenas mais... emocional.
Se é que isso era possível.
A tudo o ruivo observava, impassível. Pela distância Milo não poderia distinguir-lhe sequer as feições, quanto mais as expressões. O que cuidava de auxiliá-lo era o telão por trás do palco, que por vezes mostrava a imagem do falso messias bem de perto.
Mantinha sempre uma fria serenidade de estátua marmórea. Os olhos semicerrados transmitiam algo que fazia Milo se arrepiar. Algo em sua figura causava uma impressão que mesmo um agente federal experiente como o loiro não poderia explicar.
“Camus, Camus... quem será você, realmente? Será você a chave para os mistérios desta seita amaldiçoada?”, pensava, batendo palmas ritmadas durante um hino cantado pelas “ovelhas”.
Camus, um prisioneiro.
O “messias”, que se arvorava libertar a humanidade... um cativo!
Revivendo o martírio do Cristo original, ele salvaria almas que estavam irremediavelmente perdidas até sua aparição... até Hades revelá-lo para seus fiéis...
Hades afirmava que o Anjo Gabriel lhe revelara quem era a reencarnação de Jesus. Aquele sob o qual a Noiva se submeteria, para enfim ascender ao Infinito...
“Camus, filho de Hades.”
Estivera a se perguntar se Hades estaria a par do que acontecia com o rapaz.
Ora... não fora ELE quem CRIARA o mito?
Quem fundara a Igreja Aurora do Novo Porvir?
Quem inventara toda aquela história de “novo messias” e “novo suplício”?
“Meu Deus”, chegava, horrorizado, a uma conjectura que sequer conseguia concluir... mas que bem sugestionada em seu subconsciente estava.
Quantas horas se passaram? Como saber? Nenhum dos fiéis possuía relógio. Nenhum dos fiéis PODIAM possuir um relógio. Foram-lhes tomados quando da detestável “triagem”. Tinha arrepios só de se lembrar daquela noite abjeta.
Fosse como fosse, HORAS haviam se passado... sabia-o.
Cânticos, orações, pregações, hinos, choros, gritos, lamentos... e então...
O Redentor pôs-se de pé. Caminhou até a frente do palco.
Parecia flutuar.
Respirações foram suspensas, prantos libertos.
Postou-se ao lado de Hades. Sorrindo para o filho e a seguir para a plateia, o mentor da seita declarou:
— Hoje é um dia especial para nossa Cidade Santa. É o dia em que as novas Ovelhas serão apresentadas diante de nosso Redentor, e dele receberão a Santa Unção. Pode-se dizer que sua estada em Cafarnaum foi a sua gestação, e agora... o seu NASCIMENTO. Nasçam, pois, para a nova vida!
Palmas eclodiram, brados, aleluias. Milo engoliu em seco, sabendo o que viria a seguir. Os novatos haviam sido orientados.
Formariam uma linha única, primeiro as 42 mulheres, e depois, os 80 homens; marchariam até a frente do Templo, rumo ao palco, de onde o “messias” banharia suas mãos no que chamavam de “água consagrada”, em uma bacia de prata, e jogaria neles, recebendo-os com aquele ato sacro. O ruivo falou, enfim, ao microfone que trazia preso a si:
— Filhos e filhas de Deus, como disse o meu Pai Terreno, é um dia auspicioso. Um dia de festa e de acolhimento a essas 122 almas que se juntam às fileiras de nosso Exército Santo, que em breve marchará para a Glória. Serão estrelas de minha coroa nos Céus, serão joias de minhas vestes feitas de luz, serão meus corações, todos palpitando como um só, ressoando misteriosamente pelo Eterno e Infindo. Envoltos na Paz Eterna, todos nós, juntos... – Algo cintilou em seus olhos.
“Lágrimas”, percebeu Milo, estranhamente emocionado.
A voz do Redentor.
Os olhos do Redentor.
A luminescência do Redentor.
Sim, ele era ILUMINADO.
Resplandecia...
Besteira, eram os refletores!
Truque barato. Apenas mais um!
“Mantenha os olhos bem abertos. Não se concentre demais no que ouve, no que vê.”, ouvia a voz de Saori em sua mente. Apertou as unhas nas palmas das mãos.
— ... sei que muito padeceram em Cafarnaum, e vencedores foram, por mim. Venham, pois, recebam uma parte de seu galardão... muito mais receberão quando eu enfim, cumprir o Plano de meu Pai Celestial... viveremos juntos eternamente... que assim seja...!
Nova explosão de “améns”, “aleluias”, “que assim seja”, “glória a Deus”. Choros, brados, convulsões, êxtases, desmaios.
Assim se deu o processo, e foi só começar que tudo silenciou novamente: uma a uma, as mulheres receberam a unção daquele que acreditavam ser o seu Cristo Renascido.
Posicionado na fila, Milo seguia o trajeto, imaginando-se em um fluxo fluvial em direção a uma queda d’água.
Os homens começavam a receber a Sagrada Unção.
Do alto do palco, bem na beira, Camus aparava a tal água santa e jogava sobre o servo abaixo de si.
As mãos de Milo suavam. Ele ergueu o rosto para o teto, tentando restabelecer o ritmo normal da respiração. Inspirar com calma, expirar com mais calma ainda. Para todos os efeitos, não passava de emoção...
Foi assim que tudo se deu.
Os mais atentos perceberam a súbita mudança no semblante do Redentor.
De receptiva, amorosa e solene, para confusa, intrigada... e espantada.
Seus lábios fremiram visivelmente para as câmeras. Os que notaram olhavam, em dúvida, para o sempre sereno jovem.
Milo abaixou o rosto e olhou para a frente, boca entreaberta, os olhos estupendamente azuis luzindo pelas luzes do ambiente. Eis que elevou o olhar... até encontrar com o aturdido do Redentor.
“O que ele tem?”, pensou, dando-se conta do bizarro tremor do ruivo no palco. Estaria o rapaz passando mal?
Os Vigias e seus familiares perceberam a perturbação de Camus. Então viram que ele balbuciava algo a princípio ininteligível.
Milo teve a sensação que se experimenta em um show, quando o espectador acredita, em um mágico momento, que está sendo encarado pelo cantor.
Sensação?
Chegara a vez de Milo.
Estava abaixo do “messias”, mas poder-se-ia dizer que estava frente a frente com o dito salvador.
Não era sensação.
O Redentor OLHAVA diretamente para ele.
— É ele... é ele... o anjo... É O ANJO... – Ouviram claramente o “messias” repetir, extático. – O...
Apontou para Milo, trêmulo e embevecido, reiterando, obsessivamente:
— É O ANJO QUE VEIO ME...
De repente suas íris avermelhadas desapareceram como a lua desaparece no horizonte ao amanhecer.
Revirou os olhos, em um frenesi assustador. Para o estupor de toda audiência, Camus desfaleceu, vindo a tombar no chão, inconsciente.
Homens que assessoravam os líderes no palco acorreram para seu senhor, sem sentidos sobre o carpete escarlate. Os Vigias e os irmãos do ruivo puseram-se de pé, aterrados com o ocorrido.
Um silêncio sepulcral precedeu os primeiros murmúrios.
Todos, TODOS olhavam para Milo.
Aturdidos, apontaram para ele.
Do alto do palco, os Vigias, Hades, Radamanthys e Algol, igualmente atônitos, miraram o novato loiro.
“Puta merda... se eu queria passar despercebido aqui... falhei miseravelmente...”, pensou um paralisado Milo.
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