Redentor

9 Via Crucis - Ato II : Prisioneiro


Notas iniciais
Hello, people! Cá está o segundo capítulo do segundo arco, "Via Crucis", espero que gostem. Não há avisos nem trechos numerados para as notas finais. A arte da capa é de minha autoria ^^ Boa leitura!

Ajoelhados, fracos, atordoados, porém (ou talvez por isso mesmo) dóceis e esperançosos, os dezesseis homens reunidos na sala de culto de uma das cabanas pertencentes a Cafarnaum ouviam o Arauto Dante, que anunciava:

— Dezenove dias se passaram. Vocês estão se saindo muito bem. Pelo sangue vertido por Cristo, e pelo que hoje em Seu Nome o verte, o Redentor, já se vê algo de santo, de elevado, de melhorado nos semblantes de vocês. Louvado seja Deus!

— Louvado!

— Louvado seja Deus!

— Aleluia!

— Obrigado, Senhor!...

Em meio às exultantes exclamações, um baque surdo. Alguém caíra no chão.

Desmaiara.

Milo umedeceu os lábios com a língua, olhando o pobre homem sem sentidos.

Ninguém o socorreu.

Ninguém o socorreria, não até a Preleção terminar.

Não era a primeira vez que aquilo acontecia. Pelo menos dez deles já haviam perdido a consciência em decorrência do jejum prolongado. Apenas se esperava que voltassem a si. Caso não voltassem, aí sim “ovelhas” vinham prestar assistência ao infeliz.

— A partir de amanhã inicia-se o jejum total. Antes, o pão lhes era entregue. Depois, não mais. Antes, a água estava à disposição de vocês, tanto a água para beber quanto a água encanada dos banheiros. Neste momento, assim como lhes será privada a água de beber, também será fechado o fornecimento de água para Cafarnaum. Não terão água sequer nas torneiras das pias ou dos chuveiros.

Os novatos se entreolharam, abismados.

— Perdão, senhor Dante, quer dizer que não teremos água nem para tomarmos banho, escovarmos os dentes ou limpar as latrinas? – Um homem questionou. Não havia indignação em seu questionamento, era mais um lamento.

— Não. Por dois dias, os dois dias finais de Purificação... não terão.

— Mas... por quê? – Ciciou um rapaz, espantado.

Dante fitou-os, condescendente, ao responder:

— Para garantir que não bebam água das torneiras nem dos chuveiros, por que mais seria, irmão?

Murmúrios correram pelo recinto. Um dos fiéis adiantou-se e, gesticulando aborrecido, não conseguiu conter a insatisfação:

— Perdoe-nos, senhor Dante, mas isso é muita falta de confiança em nós, nós, que deixamos TUDO para estarmos aqui! Não usaríamos de trapaça perante os olhos do Altíssimo! Nenhum crente que se compromete a oferecer um jejum a Deus tem a água de sua casa cortada ou coisa do tipo!

Por uns instantes o Arauto encarou-o gravemente. Então foi até a mesa sobre a qual deixara sua bolsa de couro e tirou algo de seu interior. Segurando-o firmemente entre as mãos voltou para a frente dos ouvintes. Todos estremeceram ao perceber do que se tratava.

Um chicote.

Dante desenrolou-o lentamente enquanto falava, com voz macia:

— Qual é o seu nome, meu rapaz?

“Não, não é possível... não é possível que esse filho da puta vai...”, aterrou-se Milo, evitando encará-lo diretamente.

Tremendo dos pés a cabeça, o jovem não respondeu. Não por teimosia, e sim pelo pavor de antever o que iria lhe acontecer.

— Venha até a frente. – Ordenou-lhe o Ministro, calmo.

Ofegando, o novato obedeceu.

O chicote bailou no ar, sonoramente, e encontrou a face pálida do homem. Ele gritou de dor, levando a mão ao rosto. O sangue desceu vivo, rápido por entre os dedos.

Milo arregalou os olhos, estarrecido como os demais.

— Recomponha-se. – Disse o Arauto, friamente. – Eu NÃO acabei.

Gemendo, o novato obedeceu. Novo açoite, agora no ombro, atingindo também o pescoço. O policial e os fiéis tiveram um sobressalto coletivo, virando seus rostos ao ouvirem um dos seus berrar horrivelmente.

— O primeiro açoite foi por sua REBELDIA. Ousou contestar o santo procedimento sem o qual ninguém está apto a conviver em meio às Ovelhas e ao seu Salvador. O segundo foi por não ter respondido a uma pergunta que lhe foi educadamente feita... – Enrolou o instrumento, como que preparando para usá-lo novamente. – ... o TERCEIRO açoite só ocorrerá se continuar sem me responder...

— SAMUEL! SAMUEL! MEU NOME É SAMUEL, SENHOR! SAMUEL! MEU NOME É...

Desta vez o açoite foi na outra face do rapaz, alcançando-lhe parte do peito. Ele tombou, ganindo tal qual uma fera abatida em uma caça.

— ESTE foi por desobedecer a lei de “Ordem e Mansidão”. Foi desnecessário que me informasse seu nome aos brados como um endemoniado...

Com as faces queimando de ódio, Milo mordeu o lábio inferior. Seu coração disparava. Uma gota de suor desceu-lhe pelo rosto lívido.

Dante olhou de relance para os dezesseis novatos, a fim de vislumbrar qualquer indício de insubordinação. Não o detectando, voltou a se dirigir para o fiel ferido, debatendo-se em agonia:

— Samuel, Samuel... querido Samuel... as coisas são porque SÃO. Não murmure. Não conteste. Não questione. – Virou-se para o restante, que permanecia estático. – Após 40 anos de peregrinação pelo deserto, não foi permitida a entrada dos israelitas em Canaã, a Terra tão almejada... por quê? Porque murmuraram. Murmuraram contra Moisés... mas murmurando contra Moisés, estavam na verdade murmurando CONTRA DEUS!

Apontou o homem que se contorcia de dor, agora entregue ao pranto.

— Saibam que Samuel ao me contestar, contestou a Deus, pois que aqui estou como Moisés estava com os hebreus: enviado de Deus para guiar aqueles pecadores rumo à Terra Prometida. A Terra de onde manava leite e mel. Para guiá-los à Salvação. Peguem suas Bíblias e leiam Números 14, versículos 1 a 12... leiamos em uníssono...

“Então toda a congregação levantou a sua voz; e o povo chorou naquela noite. E todos os filhos de Israel murmuraram contra Moisés e contra Arão; e toda a congregação lhes disse: Quem dera tivéssemos morrido na terra do Egito! ou, mesmo neste deserto! E por que o Senhor nos traz a esta terra, para cairmos à espada, e para que nossas mulheres e nossas crianças sejam por presa? Não nos seria melhor voltarmos ao Egito? E diziam uns aos outros: Constituamos um líder, e voltemos ao Egito. Então Moisés e Arão caíram sobre os seus rostos perante toda a congregação dos filhos de Israel. E Josué, filho de Num, e Calebe filho de Jefoné, dos que espiaram a terra, rasgaram as suas vestes. E falaram a toda a congregação dos filhos de Israel, dizendo: A terra pela qual passamos a espiar é terra muito boa.Se o Senhor se agradar de nós, então nos porá nesta terra, e no-la dará; terra que mana leite e mel. Tão-somente não sejais rebeldes contra o Senhor, e não temais o povo dessa terra, porquanto são eles nosso pão; retirou-se deles o seu amparo, e o Senhor é conosco; não os temais. Mas toda a congregação disse que os apedrejassem; porém a glória do Senhor apareceu na tenda da congregação a todos os filhos de Israel.
E disse o Senhor a Moisés: Até quando me provocará este povo? e até quando não crerá em mim, apesar de todos os sinais que fiz no meio dele? Com pestilência o ferirei, e o rejeitarei; e te farei a ti povo maior e mais forte do que este.”

— E por causa da murmuração iníqua de um povo pelo qual Deus tanto zelou, o que disse o Pai Celestial? Leiam agora o versículo 23...

“Não verão a terra de que a seus pais jurei, e nenhum daqueles que me provocaram a verá.”

— É isso que querem? Provocar a Deus? Com suas reclamações, suas lógicas mundanas?

Cabisbaixos, ressentiam-se como se todos tivessem pecado, meramente por ter ouvido o questionamento de Samuel. Os que pensaram como ele tinham os olhos cheios de lágrimas, e mesmo os que nem haviam pensado, arrepiavam-se sob um obscuro temor. Nenhum som era emitido, a não ser as fungadas sentidas do fiel castigado.

Dante fechou sua Bíblia, dizendo:

— Mandarei que venha alguém fazer curativos em ti, amado Samuel. Quanto aos demais...sentem-se e prossigam com a leitura de Números 14, seguindo até o capítulo 18. São passagens intimamente relacionadas com o que se deu aqui hoje.

Em um volteio, Dante retirou-se da sala. Os dezesseis homens ali continuaram, agora assentados nas cadeiras de madeira, lendo a Bíblia conforme ordenara o Arauto. Milo dirigiu, de soslaio, uma olhada ao homem desfeito no chão, ao qual ninguém se dirigia. Sentiu-se impotente. Queria ajudá-lo, mas sabia que não era possível.

Não ali, não naquele momento.

Cerrou os olhos, angustiado e tenso. Abriu-os logo. Não podia deixar transparecer desconforto pelas normas do Vale. Isso colocaria todo seu trabalho em risco.

“Devo me acostumar... me preparar... ao que parece, verei muitas coisas semelhantes...”, refletiu, pesaroso.

Procurou o trecho no qual havia parado e retomou a leitura.

*************

— Hoje é um dia de glória, um dia de júbilo! Entoemos louvores para comemorar o término da Purificação! – Conclamou um dos Ministros de Hades, diante dos novatos reunidos fora das cabanas de Cafarnaum. Após três semanas sem ver a luz do sol, a mesma despertava neles um misto de alívio e incômodo. Mal conseguiam abrir os olhos, em parte pela luminosidade, em parte pela fraqueza.

Oito dos oitenta homens tinham caído seriamente doentes e não se sabia deles. Pessoas do Vale vieram buscá-los, alegando que seriam levados para Lázaro, que era como chamavam o centro médico da comunidade. Os que resistiram agora estavam ali, em pé, cantando com um fervor religioso que desafiava a fadiga. Via-se um brilho estranho em seus olhos.

Alegria não era.

Tampouco tristeza ou desânimo.

Era algo NOVO.

Algo para o qual haviam despertado.

Algo DESPERTARA neles.

Se fosse lhes fosse pedido ou imposto, muitos deles continuariam o jejum de bom grado.

Milo sentia-se fraco, porém relativamente bem. A sede atormentava-o bem mais que a fome, nem se lembrava de como era sentir fome. Só de pensar em pôr comida na boca lacrimejava. Queria água, acima de tudo. Estava tão difícil cantar com a boca seca, parecia que queriam torturá-los até o fim! Alguém desmaiou durante o louvor. Assessores vieram recolher “a nova ovelha”, afagando-a com carinho. A cena reanimou o policial, que preferiria continuar cantando por horas a ser carregado por aqueles miseráveis. Dava-lhe náuseas só de pensar em um daqueles canalhas tocando nele!

— Amados irmãos, os céus festejam a vitória de vocês. É chegada a hora de se unirem a nós e às Ovelhas do Santo Vale. – Declarou Asterion, alegremente. – A partir deste instante, são novas criaturas em Cristo, novos homens! E como tais, receberão novos nomes, nomes consagrados, com significados especiais, cuidadosamente escolhidos pelo Grande Pai Hades. Vou chamá-los agora... Abraham Antler?

—Sim, senhor? – Levantou a mão um homem de meia idade e cabelos prateados. Tremia levemente.

— Seu nome será “Uziel”, que quer dizer “Deus é minha fortaleza”. Adam Stewart?

—Sou eu, senhor Vigia. – Um rapaz de cabelos crespos ruivos deu uns passos à frente.

— A partir de agora, você será chamado “Eliabe”, “Meu Deus é pai”. Albert Emmerich?

— Eu aqui, senhor Asterion. – Apresentou-se um homem de cabelos médios castanhos, usando óculos de grau.

— Será “Naamã”, “agradável”.

Os nomes foram sendo chamados e suas trocas anunciadas. Variavam entre o hebraico, o grego e mesmo o latim. Milo se perguntava qual seria o seu. Já tinha se acostumado com “Michael”.

Então a vez do agente disfarçado chegou...

— ... Michael Segerson?

—Pois não, senhor? – Atendeu, polido.

— Mikael, a forma hebraica de seu nome, “Quem é como Deus?”

“Que originalidade.”, pensou, assentindo respeitosamente.

Quando todos os 72 presentes receberam suas alcunhas de “ovelhas”, Asterion anunciou:

— Agora, vocês serão conduzidos ao refeitório em que farão sua primeira refeição após este período de Purificação. A seguir, serão levados às suas novas moradas. Depois de instalados e descansados, serão orientados quanto às ocupações que assumirão a partir de amanhã. Como sabem, aqui temos paz, harmonia, qualidade de vida e fartura. Em prol dessas dádivas, também temos trabalho a fazer, trabalho este que é o pilar desta colônia, trabalho este de onde vem a roupa que vestimos, a comida que comemos, a matéria com que erigimos nossos lares, com que construímos as camas em que repousamos, em suma, os recursos de que nos servimos enquanto vivemos esta existência física, até o dia em que o Redentor nos levar para o Paraíso...

Eles assentiram em concordância, animados.

— ... no próximo domingo, hão de celebrar seu “nascimento” com o próprio Redentor. Sim, o Redentor em pessoa irá saudá-los, abençoando cada um de vocês com a Unção Santa!

Murmúrios mais animados ainda. Riam, felizes.

— E daqui a quarenta dias, serão batizados pelo Cristo Reencarnado no Rio Jordão, que corta nossa linda Cidade Santa!

Os novatos comemoraram vivamente, alguns se prostrando, outros se abraçando, em meio a “aleluias” que ecoavam. Milo uniu as mãos e fingiu entusiasmo com a anunciação.

Partiram do complexo de Cafarnaum.

Entretanto, não foi uma refeição auspiciosa como aquela com que foram recebidos quando da chegada ao Vale: pães, batatas, ovos cozidos, uma sopa rala de legumes, maçãs. Não obstante, devidamente saboreada por aqueles homens famintos.Creditavam a modéstia do cardápio ao fato de não poderem comer em excesso após tantos dias de jejum. Lembrando-se de depoimentos e relatórios, Milo, porém, sabia que o que tinha à mesa era o usual consumido pelos fiéis. Pouca proteína, pouca variedade, apenas o suficiente para não deixarem os pobres diabos morrerem de inanição... e lhes garantirem o mínimo de energia para trabalharem.

Pouca comida, pouca resistência. Pouca resistência, muita obediência.

Olhando para a boa forma física e a aparência saudável dos assessores de Hades, deduzia que para eles o cardápio havia de ser radicalmente diferente...

Enfim, os alojamentos.

De longe, assemelhavam-se a estábulos.

De perto, veriam que talvez não fossem tão melhores que as habitações dos animais.

Extensas estruturas geminadas de madeira, cujo interior fazia-se tão pouco aprazível quanto seu exterior. Estas eram as residências dos recém chegados e daqueles que ainda não haviam constituído família. Homens e mulheres ficavam em alojamentos separados.

Cada novato recebeu uma célula, guarnecida de uma cama de solteiro, uma mesa, uma cadeira, um pequeno armário no qual estavam dispostos um lampião, uma Bíblia, toalhas, cobertores, algumas roupas. Pelo visto, os calçados seriam as mesmas sandálias de couro que lhes deram no primeiro dia; receberam uma bolsa com os itens de higiene.

Nada de espelhos, enfeites, tapetes.

— Os banheiros, comunitários, ficam no final do corredor. Terão duas horas para comparecer à reunião com os Ministros, no Salão da Casa. Em seguida, haverá um culto de boas vindas no Grande Templo. Que a paz esteja convosco. – Informou o Arauto Albior, sempre muito sério.

Milo não perdeu tempo, rumou logo para os dois banheiros, apressado. Dois dias sem tomar banho, sem nem lavar o rosto, demônios... os dentes ele escovara sem água mesmo, que não era doido de ficar dois dias sem higienizar seus lindos e perolados dentes! Chegara a improvisar um fio dental desfiando parte da túnica... constatou com desalento que nem ali tinha chuveiro elétrico. “Quando falaram que não havia eletricidade nos alojamentos dos colonos, não estavam para brincadeiras, os malditos...”, entrando de uma vez debaixo da ducha. Deu vários pulos e puxou o ar, tentando se acostumar à horrenda frialdade da água. “Santo Deus, se tá assim no verão, como vai ser no outono... no inverno?”

Bom, de acordo com o plano ele estaria fora dali antes do bendito inverno... mas restava a dúvida atordoante de COMO as Ovelhas tomavam banho no inverno...

Pelo menos, havia portas nos banheiros e toaletes. Aleluia.

“Tem que ser daqui a dois meses... tem que dar certo... se bem que, depois da ‘Purificação’, encaro qualquer merda.”, pensava, ensaboando-se cuidadosamente. Lavou os longos cabelos, que por sorte os carolas não quiseram cortar, com o sabonete ordinário. A julgar pela maioria dos Ministros, cabelos compridos era mais que permitido, talvez mesmo estimulado. Se bem que para os desgraçados deveria ter um bom shampoozinho, condicionadores, creminhos... para a “ralé”... um sabonete com o qual ele nem lavaria seus tênis em Red Meadow!

Lembrou-se dos cabelos do Redentor.

Eram enormes.

“É, vou ter que esperar até domingo pra ver o messias de araque”, pensou. Pôs-se a enxaguar os cabelos, já acostumado com a temperatura da água e até se agradando dela.

Fechou a torneira e enxugou-se, revigorado. Enrolou a toalha na cintura e foi buscar a roupa, deixada em cima de um balcão com divisórias. Deteve-se frente a um dos espelhos próximos às pias. Ali eram indispensáveis, para que se barbeassem. Parece que pouquíssimos cultivavam barba, tanto é que aparelho de barbear não faltava nas bolsas a eles entregues.

O policial imaginava que, após 21 dias enfurnado em uma cabana, em jejum, sem dormir direito, sem ver a luz do sol, sem exercício algum, a aparência da qual tanto se orgulhava deveria estar razoavelmente comprometida.

No entanto, o reflexo assustou-o além do imaginado.

Emagrecera muito. Olheiras davam o tétrico efeito de aumentar seus olhos. Até o azul das íris parecia mais esmaecido que o usual vivo, celeste. Ele, que quase sempre mantinha-se bronzeado – mesmo no inverno, dava umas escapulidas para algum balneário ao sul – agora exibia uma palidez inédita. Mordeu o lábio inferior, decepcionado. Era um homem muito apegado à imagem, à SUA imagem mais que tudo, para ser sincero. Ora, acostumaram-no a isso, não? Sempre tão assediado, bajulado, elogiado, admirado...

“Agora estou murcho”, pensou, em um auto gracejo triste. “Bom, não é tão terrível. Pra três semanas de jejum, poderia estar pior. Os músculos ajudaram, mas agora parecem balões que estouraram.”

Vestiu-se. Uma calça mais ou menos larga de tecido grosso, rústico, em um tom puxado para o caramelo, e uma espécie de bata amarela, mais fina que a peça de baixo. Por falar em peça de baixo...

“É, fiquei três semanas sem cuecas, pelo visto serão mais...”, pensou, com um muxoxo. “Ao menos, isto é melhor que aquele camisolão.”

Pentear os cabelos não foi tarefa fácil. Mas depois de Cafarnaum, ele já tinha desenvolvido uma técnica... Armando-se de paciência, desembaraçou os cabelos com os dedos primeiro e depois, penteando da extremidade para cima.

“Não devo me desanimar. O pior já passou. O pior já passou.”

Procurava se agarrar ferrenhamente àquele pensamento.

Esperava não se enganar...

Mas algo em seu íntimo dizia-lhe, em alto e bom som, que ele iria se enganar.

*************

— As novas Ovelhas estão bem? – Indagou Camus, curioso, durante o almoço com seus familiares em um grande salão do Tabernáculo.

— Estão sim. Algumas ainda estão no Complexo Lázaro, mas este ano foram em menor proporção do que no ano passado. – Respondeu seu pai, sorvendo vinho tinto em uma taça de prata.

Algol riu com desdém.

— Estes que não conseguiram ficar até o fim em Cafarnaum ficarão com os trabalhos mais baixos do Vale. Limparão latrinas, excrementos dos animais, e...

— Argh... por favor, não vê que estamos comendo? Por Deus. – Reclamou Pandora, fazendo expressão de desgosto.

Ignorando a gargalhada do caçula, Radamanthys ponderou:

— Podem ser “trabalhos mais baixos” mas nem por isso são motivos de chacota. São atividades tão necessárias quanto as mais altas, realizadas aqui no Tabernáculo e nos escritórios.

— Quê?!? Não exagera, vai, Rada.

— Estou exagerando? É você quem descarta seus próprios dejetos?

— Olha... tô perdendo a fome, sério... – Pandora resmungou, empurrando o prato com salmão assado com batatas e aspargos.

Algol resolveu provocar a cunhada, cuja vaidade fazia-se notória:

— Seria bom, você já tá passando do seu peso ideal, não? – Apontou a esposa, sempre cabisbaixa. – Olha pra June, ela sim é uma mulher esbelta...

— O que foi que disse, seu...

— Pandora, contenha-se. Não vê que ele só quer te perturbar? – Ordenou Radamanthys, brandamente. E para o irmão – Por que não come como se deve, Algol… de boca FECHADA?

— Radamanthys tem razão, Algol. – Interveio Hades, sorrindo levemente. – O Vale é como um grande relógio; cada pecinha, por mínima que seja, é imprescindível para o seu pleno funcionamento. Não tripudie dos membros menores, sempre há aqueles que ascendem na nossa Ordem. Vejam Minos, por exemplo. Começou cuidando de porcos e galinhas, quando aqui chegou. Hoje é um dos Quatro Vigias.

— E Dante era um lavrador, chegou a Arauto em menos de um ano. – Completou o primogênito.

— Exceções... meras exceções. – Algol murmurou, abocanhando o tenro pernil com ervas.

— Quantos são os que estão em Lázaro?

Todos se viraram para Camus, que persistiu no assunto, ainda que timidamente. Como ninguém lhe respondeu, June tomou a palavra, com a humildade que a caracterizava:

— São quinze, meu senhor. Oito homens e sete mulheres.

— Eu gostaria de visitá-los.

Um breve silêncio se fez. Mesmo Algol manteve seriedade ao fitá-lo.

O líder limpou os lábios em um guardanapo de seda branca. Pôs as mãos sobre a toalha de linho fino e respondeu, amistoso:

— É claro, meu filho. Como sempre, a misericórdia é um de seus traços mais marcantes. Que tal no final da tarde? Pedirei a Capella e Aiacos que te acompanhem.

— Agradeço, senhor meu pai. – O ruivo assentiu, em sutil satisfação.

— Se quiser, posso te acompanhar também, Messias.

— Seria ótimo, June, agradeço teu oferecimento. – Atencioso, achou por bem convidar a outra cunhada. – Gostaria de ir conosco, Pandora?

A morena ergueu as sobrancelhas e espalmou a mão sobre o peito, dramaticamente.

— Eeeeu? Na enfermaria? De jeito nenhum, nunquinha, lá é cheio de doentes!

— Jura, Pan? Na enfermaria? Achei que fosse cheio de dançarinos! Ou engolidores de fogo, acrobatas...

— Algol, mais uma palavra sua e este garfo vai parar no seu OLHO!

— Parem com isso, vocês dois, parecem crianças!

— Tudo bem, Pandora, as boas ações têm de ser espontâneas, do contrário não têm valor. Se você não se sente à vontade para ir, não precisa se forçar. – Acudiu Camus, simpático à jovem.

— Ah, meu senhor, me perdoe, perdoe a fraqueza desta serva! – Disse, afetada. – Mas eu tenho a saúde frágil... vai que pego alguma doença lá daqueles enfermos... você também não deveria ir, Messias. Arrisca-se, sabia?

—Eu não tenho medo. Prefiro ficar doente a não mostrar compaixão pelas Ovelhas que tanto se entregam pela Obra. – Respondeu, em tom suave e nada acusatório.

A grande mão de Hades sobrepôs-se à sua. Voltou-se para o pai e encontrou um olhar quente e terno, misto de orgulho e aprovação. O jovem sorriu, discretamente.

Diferentemente dos refeitórios simples e abarrotados dos colonos, no Tabernáculo fazia-se as refeições em extensos e confortáveis salões, em mesas de madeira nobre, sobre as quais se dispunham finas pratarias e candelabros de ouro. Tapetes vermelhos cobriam parte do chão de mármore. Dias havia em que Camus alimentava-se em seus aposentos, que ficavam no Complexo, bem como os filhos de Hades e os Ministros o faziam em suas casas, separadas do Tabernáculo. Viviam ali Camus, Hades, os Vigias e Arautos que ainda não haviam constituído família, e os Sentinelas que cuidavam mais diretamente do Redentor e do Complexo, revezando por vezes com os demais Ministros em algumas funções. Lá também ficavam salas de reuniões, gabinetes, escritórios, bem como as Salas dos Cerimoniais mais exclusivos, pelos quais pagavam-se altas somas... o Tabernáculo era o coração do Vale, e via-se de longe a suntuosa construção , que perdia em magnitude apenas para o Templo da Aurora. Possuía três andares e acesso completamente restrito, sendo constantemente vigiado por homens armados em diversos pontos do perímetro. A arquitetura emulava um tabernáculo, o telhado dourado refulgia soberbamente, sendo visto mesmo de longe.

Radamanthys e Pandora, assim como Algol e June, viviam em cabanas próximas do Tabernáculo, bem mais confortáveis e guarnecidas que as dos demais moradores da comunidade. Mesmo assim, por vezes participavam de almoços como aquele, ou jantares, no Tabernáculo, quando Hades mostrava desejo em fazer a refeição em família. Nestas ocasiões, as crianças da família ficavam sob cuidados de servos; Algol e June tinham um filho, Jacob, e Radamanthys e Pandora dois, Ikki e Shun.

— Por que da próxima vez em que nos reunirmos aqui não trazem as crianças? – O ruivo perguntou, dando por encerrada sua refeição.

— Justamente porque são crianças. – Disparou Algol, irônico.

— Em uma outra hora, traremos. – Prometeu Radamanthys, mais cortês.

O Redentor balançou a cabeça em concordância, compreensivo.

— Voltando às novas Ovelhas, daqui a pouco devem receber as orientações sobre o funcionamento da comunidade e sobre os serviços pelos quais ficarão responsáveis. Em seguida, o culto de “manutenção”. Camus só aparecerá diante deles no dia da Santa Unção, mas eu devo ter com eles antes disso. Foi uma excelente safra. – Comentou Hades, ao que o caçula completou:

— Os contadores nos enviaram prognósticos animadores. O que levantamos somente com o ingresso das novas Ovelhas superou as expectativas.

— E isso é só o começo. – Apontou o primogênito. – Muitos venderam todos seus bens e entregaram à Obra, mas ainda há aqueles que além de fazerem isso, aguardam por resoluções trabalhistas e por decisões judiciais...

— Ou seja, muito mais está por vir – Riu Algol, virando uma taça de vinho com avidez.

Camus ouvia apenas, apático. Sobre questões administrativas nada entendia. Malgrado reconhecesse a importância das finanças na manutenção da Obra, incomodava-o o teor daquelas conversas. Não tinha certeza se era pelo tópico em si ou pela prioridade com a qual era tratado. Preferia que pudessem dedicar igual atenção aos assuntos espirituais.

Arrependeu-se daquela leve reprovação à atitude do pai e dos irmãos, e prontamente entregou-se a uma silenciosa oração.

Pediu perdão por sua audácia. E também intercedeu pelos novos egressos do Vale da Aurora Dourada. Que ele cumprisse com eficácia o seu papel. Era o mínimo que podia fazer por aquelas almas abnegadas que deram tanto de si para estarem ali!

Suportaria tudo por elas.

Tinha que suportar.

— Será que ao menos posso ir ao campo e às lavouras cumprimentá-los amanhã? – Quis saber, assim que terminou a prece.

— Não é propício, meu filho. Deixe que aguardem, ansiosos, pelo domingo. Amanhã eles estarão aprendendo sobre os ofícios. De mais a mais, você estará em jejum. À noite haverá um Cerimonial.

— Um Cerimonial, meu pai? Não me lembrava de que haveria.

— Foi coisa de última hora. – Hades falou, como se fosse algo sem muita importância.

— E... qual a natureza do Cerimonial? – Radamanthys inquiriu, franzindo a espessa sobrancelha.

— Trata-se de um Cerimonial da Sagrada Semente.

Uma sombra passou pelo semblante do jovem ruivo, que não se furtou a balbuciar:

— Pensei que o próximo Cerimonial da Sagrada Semente fosse daqui a um mês.

— Aquele será OUTRO. Surgiu uma petição urgente. – Explicou o líder, imperturbável com o desconforto do filho.

— Então... serão dois... em um mês...

— O de amanhã é para um pastor, o Reverendo Schiller, da congregação de Mineapollis. Ele está com o “problema dos homens”. Tratamento nenhum tem surtido efeito... e é um homem jovem, mal tem seus quarenta anos. Logo, é uma prioridade. É um dos nossos. A comunidade receberá uma oferta substanciosa em troca.

— Compreendo. Se é pelo bem das Ovelhas...

— Sempre é, meu filho. SEMPRE É.

O olhar desanimado de Camus cruzou momentaneamente com o de June, consternada com os atos aos quais era submetido seu querido cunhado. Secretamente, a moça nutria imensa piedade por ele, mesmo temendo estar em pecado. Ora, se era o destino do Redentor dar-se por inteiro pela Missão Suprema, reproduzir o martírio do Cristo original, e mais além, em virtude de a humanidade estar ainda mais corrupta... quem era ela para se apiedar dele? E apiedando-se, não pecava contra o próprio Deus, pois que naquela piedade escondia-se uma certa aversão ao que ali se fazia... ao que faziam com o rapaz... com as pessoas... com Albior... com ela e seu filho...

Cerrou os olhos com força, quase deixando escapar lágrimas. Como arrepender-se fazia o peito doer!

— O que foi, June? Por acaso mordeu a língua, foi? – Indagou Pandora, que reparou o súbito incômodo da cunhada.

— Oh... sim... acabei mordendo sim...

— Você é uma descuidada. – Riu a morena, aceitando o vinho que o marido lhe servia.

As vozes das conversas que se seguiram se mesclaram em uma cacofonia da qual Camus involuntariamente se evadiu.

Ele não entendia.

No entanto... DEVERIA entender.

Deveria aceitar.

SEMPRE.

Era sua missão.

Era sua obrigação.

Não tinha direito de...

“É pelas Ovelhas.”

Suportaria tudo por elas.

Tinha que suportar.

*************

Sob um sol tépido, o qual em breve lhe devolveria o bronzeado perdido, Milo trabalhava na terra, mais especificamente nas plantação de batatas, cenouras e beterrabas, juntamente com pelo menos duas centenas de pessoas. Majoritariamente homens, já que as mulheres ficavam mais nas lavouras de hortaliças e na pomicultura.

Prendera os longos cabelos em um rabo de cavalo; o suor continuava acumulando-se em seu pescoço. Enxugou o rosto com a mão suja de terra.

Devido à sua vigorosa compleição, fora selecionado para o serviço nas lavouras.

Cerca de duas mil pessoas viviam no Vale da Aurora Dourada, portanto, nunca se faltava o que fazer.

Tanto mais porque se tratava de uma comunidade religiosa, e nesta, uma das principais metas era manter o fiel SEMPRE ocupado.

A “ovelha” não escolhia sua função na colônia, a ocupação advinha de fatores físicos (a regra, no início), de aptidões demonstradas no decorrer do tempo e, os novatos ainda não sabiam, de trocas de favores e favorecimentos variados. Dentre os inúmeros trabalhos, podia-se trabalhar nas lavouras, no processamento dos alimentos, na criação de animais, na limpeza das habitações, nos serviços gerais, nas cozinhas dos refeitórios, nos pesqueiros, na comercialização da produção, na construção, nos escritórios e na vigilância da propriedade. Os quatro últimos costumavam ser destinados a membros com mais vivência no Vale, pois demandavam alto grau de confiança e técnica adquirida.

A rotina era árdua, como o policial achou que seria. Acordavam às cinco da manhã, oravam até as seis. Às sete, o desjejum. Das oito às nove, um devocional, distribuído em grupos de duzentas pessoas pela colônia. Às nove iniciavam os trabalhos, que iam até as 14 horas, quando faziam uma pausa para o almoço. Às 15 horas voltavam para a labuta, seguindo até o sol se pôr. O jantar costumava ser por volta das 19 horas, emendados com cultos e pregações, até as 22 horas. Às 23 horas dava-se o toque de recolher, sendo terminantemente proibido deixar os alojamentos, as residências comunais ou mesmo as cabanas sem a devida permissão.

Soubera que, após o almoço, o sábado era destinado a atividades tidas como “recreacionais”, sempre relacionadas com a religiosidade que queriam incutir ou manter nos fiéis: gincanas com temas bíblicos, estudos dirigidos ao ar livre, passeios e piqueniques pelo Vale. Em tempo bom, poderia-se mesmo nadar e pescar nos rios e lagos, que abundavam na região.

Os domingos, por sua vez, eram totalmente consagrados, havendo cultos, palestras e estudos dirigidos por todo o dia, por vezes abarcando alguma programação especial, como a do próximo, em que seria celebrada a chegada das “novas ovelhas”, e em que o Redentor pessoalmente procederia à Unção das mesmas.

Uma rotina árdua, mas permeada de momentos reservados para reforçar nos fiéis a ideia de que aquele lugar era especial, e de que eles eram especiais por estarem ali.

Três dias haviam se passado desde que Milo começara a trabalhar no campo. Já estava terrivelmente cansado, pois além de não estar acostumado a serviços braçais, o mesmo era realizada debaixo de sol forte. Sem contar que ele acabara de sair de um longo período de privação alimentar. Estava se recuperando bem, se alimentando bem, apesar da simplicidade do cardápio, mas...

“Logo tudo ficaria mais fácil”, prometiam alguns a novatos extenuados, que pareciam prestes a desfalecer. Ninguém, porém, sucumbiu. Supervisores atentos sinalizavam para que os fiéis não descuidassem da hidratação, e permitia-lhes breves descansos, caso necessitassem... MUITO. Sempre estipulavam a duração, notadamente curta demais para que o repouso fosse efetivo. Todavia, os supervisores não tencionavam que fosse. Bastava apenas que os lavradores não desmaiassem.

Por vezes, cantavam hinos. Milo só podia acompanhá-los naqueles que aprendera quando da Purificação.

Em um determinado momento, o loiro repousou a enxada por uns instantes, tomando fôlego. Lançou um olhar ao derredor, enxugando o suor da testa com as costas das mãos. Cercavam-nos montes altos e bem arborizados, ao fundo, as montanhas verdejantes ornamentadas de pinheiros. Queria ver o que havia pelos arredores. Sabia que o ideal seria esperar até sábado, quando havia mais liberdade para andar pela propriedade. No entanto, eram tantas as denúncias que pairavam sobre aquela seita... mal chegara e já vira pessoas privadas de alimento, de higiene, de cuidados, vira crianças trabalhando... Deus, ele presenciara um rapaz ser açoitado! Sentia que devia começar a intensificar sua observação, se era de crimes contra direitos humanos de que precisavam para afundar a Aurora do Novo Porvir... já ficara evidente que estes ocorriam no Vale...

— Mikael! Por que está parado? Está sentindo alguma coisa?

Ele se voltou, quase em um sobressalto, para o supervisor que o chamara, um homem alto e hirsuto.

— Quis apenas esticar a coluna, eu estava curvado há muito tempo...

— Tanto quanto o resto do pessoal, e eu não vejo ninguém parando e olhando pro nada. – A reprimenda não fora dada aos berros, mas continha uma incontestável carga agressiva.

— Eu só me distraí com a beleza do lugar, me desculpe. – Falou o agente, sob olhares curiosos dos mais próximos.

O homenzarrão sorriu, como que orgulhoso, respondendo:

— É bonito mesmo, né? É para vivermos bem, e com fartura, neste paraíso que Deus nos deu que temos que trabalhar sem maiores paradas. No sábado poderá apreciar melhor a vista, dar uma volta com seus irmãos. Por ora, concentre-se no trabalho, certo? Há hora para tudo.

— Tem razão, irmão Gideão. – Ele assentiu, fingindo submissão. Voltou a revolver a terra escura com a enxada.

Naquela noite, após o jantar – broa de milho, queijo de cabra e sopa de frango com vegetais – ouviu uma pregação sobre insubordinação. Reconheceu os trechos bíblicos que serviam de pano de fundo à preleção. Números, capítulo 14. A lição dada por Dante aos novatos em Cafarnaum. E de quando Deus mandou fogo do céu para consumir israelitas que adoravam bezerros de ouro. De quando Deus fez o chão do deserto tragar israelitas, tragar seus sonhos de adentrar a terra que manava leite e mel, sonhos desfeitos por suas concupiscências. Várias Ovelhas se emocionavam. Choravam, talvez com medo de que lhes ocorresse o mesmo. Não pecavam eles também? Em seguida, o pranto era de felicidade, pois lhe era enfatizado que bema li, ENTRE ELES, encontrava-se o Salvador em pessoa, a Reencarnação do Filho de Deus.

O Redentor.

Naquela noite, fora acordado por gritos vindos de fora. Abriu a janela, todavia tudo que seus olhos flagraram foi a absoluta escuridão, na qual brincavam alguns vagalumes. De pé no meio do pequeno e escuro quarto, apurou os ouvidos. Escutou vizinhos dizendo que puniam um casal que fora flagrado em algum arbusto...

O policial imaginou que tal incidente não fosse raro de ocorrer. Homens e mulheres somente podiam manter relações depois de casados... e, solteiros, tendo que ficar separados na maior parte do tempo... os gritos recomeçaram, e também pedidos de “perdão”. O coração de Milo fragmentou-se ao ouvir a voz do homem implorar “Castiguem a mim, a ideia foi minha, deixem ela ir, por favor!”.

Não suportando mais, irrompeu pelo corredor, encontrando alguns rapazes parados cochichando, igualmente assustados.

— Me digam, o que está acontecendo com eles lá fora? Não consigo ver nada!

— Você abriu a janela pra ver? – Espantou-se um deles, arregalando os olhos, brilhantes sob a chama das velas.

— Nunca faça isso. Teve SORTE que não te viram. – Sussurrou o outro, olhando para trás.

— Certo, certo, mas o que estão fazendo com os coitados? – Milo insistiu, gesticulando.

Um homem deu-lhe uma mirada repleta de reprovação:

— Não são “coitados”, Mikael. São pecadores sujos e vulgares.

Desta vez o grito foi da mulher, agudo e desesperado. A voz masculina gritou em seguida.

— Certo! Mas... o que está acontecendo com eles? Parece que estão sendo agredidos... estão batendo neles?! – O tom do loiro abrandou-se, a despeito da horrível aflição que experimentava. Achou a própia pergunta ridícula. Evidente que o casal estava sendo espancado.

No mínimo.

— Estão sendo punidos.

— Ninguém pode deixar os alojamentos à noite. Tanto mais para pecar...

— Meu Deus... – Ciciou o policial, estarrecido. – Mas...

“Mas NÃO PODEM fazer isso! Esses fanáticos não têm o DIREITO de fazer isso com as pessoas!”, Milo pensou, e só pensou, porque de forma alguma poderia verbalizar aquela indignação. Já tinha percebido que ali NÃO era um lugar de falar...

Berros, lamentos, choro.

O loiro cerrou os dentes ante a agonia de ouvir gritos de dor de pessoas a quem ele jamais poderia ajudar.

— Vocês aí! Voltem aos seus quartos! – Ordenou um vigia, apontando a luz da lanterna para eles. – Vão acordar os outros. Vão, andem!

“Ele acha que com esses gritos PAVOROSOS lá fora ainda tem alguém dormindo?”, Milo pensou, sentindo-se pesaroso e incapaz. Olhou para os outros rapazes e percebeu que eles haviam pensado o mesmo.

Mas ali NÃO era um lugar de falar.

Milo retornou à sua cela. Enfiou-se na cama, que rangeu um pouco. Cobriu-se com a manta, perguntando-se se realmente conseguiria dormir, mesmo com as vozes chorosas se distanciando, distanciando... até serem substituídas pelos inocentes sons dos grilos e sapos.

*************

Sexta-feira.

Quinto dia de trabalho.

Vigésimo sétimo dia no Vale.

Trinta e três dias até Saga entrar em contato com o escritório central do Vale da Aurora Dourada.

Após cinco dias se alimentando melhor, e de trabalho ao ar livre, sob o sol, Milo via sua aparência se tornar menos doentia. Não fazia tanto calor naquele dia, o que considerou o mesmo que seus companheiros no campo: uma verdadeira bênção.

Entoavam canções enquanto labutavam, bem dispostos pelo clima ameno e pela proximidade do final de semana.

O serviço seguiu até a hora do almoço. As Ovelhas comeram ensopado de carne com cenouras e ervilhas – os cubos de carne, escassos como o sabor do prato – purê de batatas, e verduras na manteiga. Enquanto isso, servia-se no Tabernáculo e nas casas dos Ministros pratos bem mais atraentes e palatáveis... enquanto mastigava o alimento, Milo deixava a ideia da madrugada maturar.

Estava disposto a dar uma escapulida para sondar os arredores.

Voltou com os outros para o campo. Trabalhou por cerca de uma hora e meia, capinando um terreno onde o mato era razoavelmente alto. Abaixando-se bem, teria a chance de desaparecer das vistas dos supervisores, que pareciam distraídos, falando sobre o escândalo da noite anterior. Milo também escutara acerca dele, esclarecido assim o que ouvira no alojamento: um jovem de vinte anos e uma de dezenove foram surpreendidos pelos vigias noturnos. O casal nem chegara a consumar qualquer ato, tão imediato fora o flagrante. Desconfiava-se de que haviam sido denunciados por pessoas próximas. Amigos, talvez.

Ali não era um lugar de falar.

Não conseguiu, entretanto, saber qual o destino, tampouco o paradeiro dos dois.

Infelizmente, o triste ocorrido lhe favoreceria. Pois que os supervisores estavam realmente entretidos na conversa sobre aquilo.

Foi manuseando a ferramenta, dirigindo-se à lateral do campo que limpavam, onde havia bastantes árvores. Percebera que ali dava para um barranco que desembocava em um emaranhado de vegetação e cipós. Quando o mato atingiu sua cintura, e se viu sem ninguém muito próximo, abaixou-se de súbito. Esperou uns minutos para ver se alguém o chamava.

Nada.

De quatro, com o rosto colado ao solo, esperou mais.

Apenas a cantoria enjoada recomeçara.

Utilizando táticas de seu treinamento policial, esgueirou-se quase rente à terra, ágil como uma serpente. Escondeu-se atrás de uma rocha e esperou mais.

Ninguém o chamou.

Já estava suficientemente distante dos olhos perigosos. Escondeu ali sua enxada. Encontrou o barranco pronunciado e desceu por ele rapidamente, tomando o cuidado de se embrenhar pelos arbustos. Soubera que não deixavam mais os cães soltos de dia, em vista de terem acontecido acidentes lamentáveis com os trabalhadores... mesmo assim, seria um problema se um vigia o flagrasse naquela atitude suspeita. Olhava para cima, verificando se não surgia uma cabeça raivosa do cume. Mas ninguém apareceu. Desceu até chegar a uma trilha fechada. Olhou para trás. Seguiu por ela, tentando não pisar em folhas secas e lascas de troncos que fizessem barulho demasiado. Olhava ao redor, acompanhado pelos sons da mata. Pássaros, grilos, cigarras... e sua respiração, cujo ritmo normal ele tentava a todo custo restabelecer.

Caminhou, caminhou, até que ouviu vozes. Deveria estar perto de outra lavoura.

Cânticos.

“Merda, preciso sair daqui.”, decidiu subir por um barranco do outro lado, enganchando firme as mãos nas rochas que brotavam da terra. Animou-se porque ali a vegetação era tão cerrada que escurecia por onde seguia. Um enorme besouro pousou em seu rosto e o susto quase causou sua queda.

“Bicho maldito”, chegou a bufar, ao menos em pensamento.

A elevação começava a se tornar íngreme. Estava consciente de que se afastava muito, e sentiu um certo receio... contudo, a chance não poderia ser desperdiçada agora.

Lá de cima talvez tivesse uma visão mais esclarecedora do que tinha nos arredores daquele lugar tenebroso. Chegou a um ponto de onde se descortinava uma vista privilegiada do local. Não fazia jus aos horrores que ali comportava. As montanhas ao fundo do mar de pinheiros, um rio que serpenteava dividindo as clareiras, dentes de leão que flutuavam nos ares frescos do bosque. De cócoras, ele adiantou-se pelo topo, observando tudo que podia. Ao longe, distinguiu fumaças das chaminés, os topos dos telhados das cabanas. Direção perigosa; sua silhueta poderia ser notada mesmo que de longe. Foi para o lado contrário, sempre abaixado. Dardejava sua atenção para todas direções. Começou a se perguntar se havia sido boa ideia ter escolhido aquele caminho.

“Já estou longe da lavoura... vou demorar a voltar. Isso se eu não me perder...”, cerrou os dentes, reprovando-se a si mesmo, quase com raiva. Por mais que espreitasse, nada encontrava além de lindas e pacíficas paisagens, campos cultiváveis, lavouras com trabalhadores, habitações, estábulos... e então mato, mato e mais mato.

“O que eu esperava encontrar logo de cara? Altares com crianças sacrificadas? Mulheres apedrejadas até a morte? Hades bebendo sangue no meio da floresta com seus filhos dementes? Merda!”, sua raiva só fazia aumentar.

Tomara uma atitude deveras arriscada e em troca de informação nenhuma!

Bom, não se pode ganhar todas.

Ainda haveria tempo de descobrir os podres daquele “vale encantado de amor”.

Melhor retomar o caminho de volta. E torcer para que nenhum supervisor tivesse dado conta de sua ausência.

“De qualquer maneira, melhor pensar em algo pra dizer... deixe-me ver... uma dor de barriga? É, tive uma dor de barriga incontrolável, e aí eu tive que... hum?”

Largas folhas, palmas de uma exótica planta cuja espécie abundava debaixo de alguns carvalhos, serviram-lhe de valioso abrigo para poder avaliar, em segurança, algo curioso que finalmente surgiu.

Lá embaixo, em uma clareira plana e florida, da qual elevavam-se miríades de dentes-de-leão, os quais assemelhavam-se a flocos de neve, uma figura de branco jazia, completamente alheia ao fato de que era observada.

Milo chegou a suspender a respiração. Apertou os olhos, um tanto duvidoso de que fosse real. Era como se um anjo tivesse precipitado à Terra, e ao solo se fundira, envolto por cabelos muito compridos que espalhavam-se pela relva, tão vermelhos que poderiam ser tomados pelo sangue da criatura, espargido no impacto da queda. Sua tez confundia-se com a alvura da longa túnica que, naquela posição, ajustava-se perfeitamente às linhas e curvas daquele corpo longilíneo. Os lábios entreabertos denunciavam a entrega total àquele repouso. Eram finos e rosados como os botões das pequeninas flores que pontilhavam o verde em que ele se largara. Dormia? Mantinha os olhos fechados. Os braços, flexionados e acima da cabeça ruiva.

Será que estava vivo?

Será que era real?

“Espera... CARALHO... É ELE...”, a constatação enviou uma corrente elétrica de alarme por todos seus músculos tensos.

O “REDENTOR”.

Milo fez um movimento para sair dali, antes que sua presença fosse notada pelo falso messias. Seria ruim, MUITO RUIM se a testemunha de sua escapada e de suas espiadas pela propriedade... fosse JUSTAMENTE o maldito Redentor!

Anos de experiência tornaram-se inúteis, inválidos, vãos.

Pois no momento em que as pálpebras antes cerradas revelaram duas íris quase tão rubras quanto os cabelos espalhados na relva, Milo foi incapaz de se mover.

Anos de experiência esvaíram-se como areia ao vento.

Pois encontrar aquele olhar teve em Milo o efeito de um gás paralisante.

Foram meros segundos, mas na memória do agente tudo ficaria registrado em câmera lenta.

O ruivo ergueu meio corpo, apoiando-se com as mãos espalmadas.

Viu os lábios do ruivo se moverem.

Viu os olhos do ruivo se arregalarem.

“Puta que pariu”, pensou o agente, aterrado. “ELE ME VIU.”

O Redentor ergueu-se com assombrosa presteza.

“O que eu faço?”

O Redentor fala alguma coisa.

“Falo com ele? Dou as costas e saio correndo? E se depois esse desgraçado contar pra alguém?”

— É você? É VOCÊ MESMO? – Indagou o Redentor, fitando Milo.

“Hã?”

— Camus! Com quem está falando?

Milo não sabia se fora instinto de preservação ou a rápida decisão de um experiente policial. O certo é que a segunda voz, alta e autoritária, fez com que finalmente se abaixasse novamente, quase se fundindo às largas e abundantes folhas. Correr agora não era opção, seria visto pelo segundo homem que entrava em seu campo de visão. Principalmente porque o reconhecera.

Dante.

O Arauto que açoitara o pobre Samuel em Cafarnaum.

De onde estava, observou o ruivo responder ao outro, em tom aflito:

— Era... era ele! Eu O VI!

— Viu QUEM? Do que está falando, Messias?

— Ele... ele...

“O cara tá me confundindo com alguém”, pensou o loiro, intrigado. “Bom, pelo menos se o farsante disser que tinha gente espreitando ele, a suspeita não vai cair sobre mim, já que nunca me viu.”

— Não tem ninguém lá em cima – Disse Dante, olhando na direção do olhar esgazeado do jovem. – Você viu alguém ali?

— Eu vou até lá! – Anunciou o ruivo, correndo para a base do barranco. Começou a escalar, apoiando-se nas rochas que abundavam na elevação.

“Caralho, o que eu faço...?”, o loiro questionou-se novamente, tenso.

— Camus, NÃO, PARE! Você vai cair dessas pedras! É perigoso!

O ruivo hesitou, analisando a dificuldade da subida. Saiu em disparada para a direção oposta, surpreendendo tanto o agente quanto o Arauto, que gritou:

— ESPERE! NÃO PODE SE AFASTAR ASSIM!

— Vou até lá em cima por aqui! – O rapaz de túnica avisou durante a corrida, sem ao menos olhar para trás.

— PARE! NÃO SE AFASTE, POR FAVOR! OU EU...

Antes que o jovem alcançasse o caminho pretendido, Milo ouviu-o gritar. E no mesmo instante, viu-o perder o equilíbrio, indo ao chão. O policial, espantado, percebeu que ele convulsionou sobre a relva. E assim pôde ver, pois que o tecido levantara-se com os movimentos agonizantes, revelando-lhe parte das pernas...

“O quê? Aquilo é...”

— Camus, me perdoe! Oh, Messias! Perdão, perdão...! – Lastimava-se Dante, ainda brandindo o aparelho para o rapaz caído. Ajoelhou-se perto dele, desculpando-se sem parar.

Aparentemente atordoado, o jovem apoiou-se em um cotovelo, e, tomando impulso com o outro braço, ergueu meio corpo. Os longos cabelos caíam sobre sua figura como uma cortina de sangue. Ele se sentou, o olhar destituído de raiva. Tampouco revolta ou mesmo insatisfação. Era um olhar misto de confusão e resignação. O agente, boquiaberto, ouvia a palpitação ecoar-lhes nos ouvidos.

— Recebemos ordens expressas para acionar a tornozeleira se você tentar fugir ou se afastar bruscamente, se distanciar demais, nós temos que... por favor, entenda, ó Redentor!

O homem que castigara cruelmente um novato curvou-se perante o rapaz no qual acabara de usar uma arma de choque.

Sem sentir o ar nos pulmões, Milo só conseguia pensar, horrorizado:

“O Redentor... Santo Deus, o Redentor... é PRISIONEIRO deles!”

*************

Notas finais
Que acontecerá a seguir? Eu estaria mentindo a vocês se dissesse que os próximos capítulos estarão menos que ELETRIZANTES. A coisa começou a esquentar MESMO na história! Acompanhem-me nesta aventura... ação não vai faltar :) Obrigada por prestigiarem! Beijo grande :x