Redentor

8 Via Crucis - Ato I : Triagem


Notas iniciais
Hello, people! Inicia-se então o segundo arco da fic, "Via Crucis". Gostaria de agradecer o apoio que vêm dado a esta fic, notadamente quem prestigia com um comentário ^^ Explicações sobre os trechos numerados nas notas finais. Não há avisos neste capítulo, ou seja, nenhuma cena de violência explícita. Boa leitura!

Ele estava fraco.

Tão fraco que, paradoxalmente, o sono que lhe molestara durante todo o dia ausentara-se naquela noite.

Revirava-se no colchão fino, fazendo a rústica cama ranger irritantemente. O mal estar atormentava-o sem trégua.

Inútil fechar os olhos.

O que sentia... na verdade era FOME.

A dor, o vazio, o enjoo, a fadiga...

FOME.

Água.

Precisava beber água.

ENQUANTO PODIA.

Ergueu meio copo para visualizar o caminho que teria de percorrer até uma das mesas onde estavam as jarras de cerâmica. Ouviu um lamento sentido. Um choramingo doído.

Alguém reclamou do barulho.

Ele se levantou, calçou as sandálias e foi pegar a sua água, auxiliado pela parca iluminação do único lampião aceso. Serviu-se.

Não era o ideal. Queria comer. Melhor nem imaginar o quê.

Mas até os pães sem gosto das semanas anteriores seriam para ele verdadeiras iguarias.

De que adiantava pensar naquilo?

Restavam-lhes ainda seis dias de jejum.

AINDA.

E os dois últimos seriam os mais rigorosos... nem água poderiam ingerir!

O lamento continuou.

Distinguiu, em meio a penumbra, a silhueta sentada na cama, corpo dobrado, sacudindo-se pelos espasmos chorosos.

A pessoa estava passando mal de verdade.

Não seria de se estranhar: àquela altura, a fome propriamente dita nem era o mais incômodo dos sintomas. Cãibras, dores de cabeça, enjoos, dores nas juntas, dores nas articulações, confusão mental, costumam ser alguns dos brindes oferecidos pela privação prolongada de alimentos.

Estavam há quinze dias em jejum.

Faltavam seis para completar o período determinado.

Seriam vinte e um dias de Purificação.

Milo aproximou-se do homem soluçante, colocando a mão em seu ombro, suavemente.

— Falta pouco. – Sussurrou, esperando que o pobre gemente o ouvisse.

Será que teria ouvido?

Será que ele teria falado alto o suficiente para ser ouvido?

Será...

... que realmente havia saído algo de seus lábios?

Ele nem conseguia ter certeza.

— Aaaah... oh, Deus... uuh...

— Cala a boca! – Rosnou um.

— Tem gente tentando dormir, sabia?!? – Ralhou outro.

— Desse jeito você está cedendo ao Diabo, não vê? – Esbravejou mais um.

Enquanto as reclamações se seguiram, Milo voltou até a jarra e os copos. Andando bem devagar, retornou ao leito do novato repreendido. Milo estava tão fraco que teve medo de derrubar a água sobre o coitado.

— Stephen... não é?

—Snif… uhhn… s-sim…

Stephen Alley, de Chicago. Jovem de compleição magra... se não franzino, também nada atlético. Não dispunha das reservas com que os músculos bem trabalhados de Milo vinham auxiliando-o naquela provação.

— Tome, beba... – O policial ordenou, baixinho.

— E-eu não a... aguento mais...

— Silêncio aí!! – Um dos homens reclamou novamente.

— Tenha paciência com ele, por favor. – Pediu Milo, com cansaço na voz.

— “Paciência”? Eu tenho é SONO! Não vê que já vai amanhecer?

— Sim, daqui a pouco já temos que estar de pé!

— O jejum não se trata apenas de pararmos de comer, e sim de como lidamos com isso... – Retrucou Milo, a astenia travestida de paciência. – Precisamos ser pacientes, ter o pensamento em Deus... acham que cedendo a essa raiva vocês estão fazendo isso?

Atingidas em cheio pela lógica daquela admoestação, as vozes iradas se calaram. Alguns apoiaram o agente:

— Michael está certo. Melhor é exercitar a piedade do que alimentar a intolerância pela fraqueza de um irmão.

— Verdade. Isso é ser condizente com o que queremos nos tornar.

— Vamos orar por ele. Que Deus lhe dê forças. E a todos nós.

O silêncio voltou a reinar, obliterado apenas pelas fungadas de Alley. Milo insistiu, sussurrando:

—Beba. Se beber água, sentirá menos fome, sabe disso. E os sintomas que estão te incomodando serão minimizados.

— Obrigado... – Agradeceu o pobre rapaz, aceitando o copo oferecido pelo agente. Este tentou animá-lo:

— Aguente firme. Só faltam seis dias. Não os culpe... a carência de alimentos... deixa a todos nós abalados... de mau humor...

— Agora é você quem vai ficar tagarelando, Michael? – Inquiriu alguém bastante irritado, valendo-se do anonimato conferido pela escuridão.

— E você por que não usa a boca pra orar, ao invés de ficar resmungando como um “mundano” qualquer? – Devolveu o policial, ríspido.

Todos se calaram novamente. Enquanto voltava para o seu leito, Milo ainda ameaçou:

— Não pense que não reconheci tua voz... da próxima vez, te deixo sem dentes.

O silêncio tornou-se ainda mais profundo. Irritado, o loiro meteu-se na cama desconfortável, maldizendo em pensamento aquele colchão fino e rígido. Cobriu-se com a manta, que fazia-se pouco eficaz para protegê-lo do frio da madrugada. Embora fosse verão, em uma área localizada em uma floresta medianamente cerrada nas proximidades do Maine a temperatura caía drasticamente pela noite. Sem se alimentar direito também ficava difícil reter o calor corporal.

A fome tornara-se excessiva demais para que a água que bebera tivesse sido bem recebida em seu estômago; ele suprimiu um gemido de dor, apertando a barriga. Sentia todo seu interior gelado, como se tivesse roído cubos de gelo. Cerrou os olhos com força, tentando não ceder à agonia.

Os demais não estavam desprovidos de razão ao se desesperarem por terem o sono precioso interrompido pelo chorão do Stephen. Dentro de poucas horas seriam acordados abruptamente para mais um sofrido dia de privações e de obrigações extenuantes.

Mais um dia.

Faltavam seis.

Passaram por quinze.

Ele tinha que se agarrar aos números. À comparação encorajadora entre eles.

É certo que ao se iniciar um período de jejum os primeiros dois ou três dias são os mais difíceis. Passado esse início incômodo, a sensação de fome é misericordiosamente aplacada, retornando, porém, de forma violenta dias depois. Queimando as próprias reservas, o corpo começa a falhar em alguns aspectos. A mente não se exclui desse processo.

Milo começou a ter medo de não conseguir mais dormir.

Cobriu os olhos com o antebraço, respirando profundamente. Pôs-se a rememorar os últimos acontecimentos.

Tudo que tinha acontecido... desde que chegara ao Vale da Aurora Dourada, dezesseis dias atrás...

*************

(Flashback de Milo)

—Por aqui, senhores. – Guiava-os um senhor de roupas largas e claras, uma calça e uma bata. – Senhores, venham comigo. As senhoras seguirão minha esposa aqui.

Pôs a mão enrugada no ombro de uma simpática idosa trajando um comprido vestido azul claro. Ela assentiu, obediente, e sinalizou o caminho para um galpão um pouco mais distante do que aquele para o qual os homens se dirigiam.

Milo imaginara que haveria algum tipo de triagem. E imaginou que perderia toda bagagem que trouxera. Já contava com o fato, corriqueiro em relatos lidos anteriormente sobre comunidades de seitas. Por isso, não trouxera nada de valor sentimental ou de maior importância. Claro que tivera o cuidado de deixar parecendo a autêntica bagagem de um homem abastado como o “senhor Segerson”. Que crente demonstraria total apego do mundo se adentrasse “o paraíso na Terra” conservando suas meias e cuecas mundanas?

Os oitenta homens entraram no galpão de madeira, completamente vazio. Parecia grande o suficiente para guardar tratores, porém nada se via a não ser um vasto espaço iluminado por lâmpadas frias. Um homem de túnica roxa veio recebê-los, acompanhado de outros homens com semelhantes trajes. Tinha cabelos prateados muito longos, com uma volumosa franja a quase cobrir-lhes os olhos.

Diferente da expressão nada amistosa dos que se detiveram atrás dele, o rapaz grisalho ostentava um cativante sorriso ao se apresentar:

— Que a paz do Nosso Senhor Deus seja convosco hoje e sempre. Eu sou Minos, um dos Quatro Vigias do Vale da Aurora Dourada. Somos os ministros mais próximos do Grande Hades, subordinados apenas a ele e a seus filhos. Fui o escolhido para lhes dar as boas vindas e orientá-los neste momento tão importante e feliz, momento em que todos vocês têm o privilégio de adentrar a cidade habitada pelo Redentor em pessoa.

Sorrisos ansiosos brotaram nas faces dos recém chegados. Apesar de decepcionado com a ausência do falso messias, Milo sorriu também, simulando empolgação.

— Sim, meus queridos, em breve deixarão de ser “mundanos” e passarão a ser “ovelhas” pastoreadas pelo próprio Cristo Reencarnado. Alguns procedimentos se fazem necessários antes que se juntem permanentemente a esta santa congregação...

“Opa...”, pensou Milo, atento.

— ... por isso, peço encarecidamente a atenção de todos. Serão chamados de cinco em cinco, e se dirigirão às salas cujos números forem informados após cada nome. Basta seguirem até o fundo deste salão, ali estão as portas numeradas. – Ele apontou para os fundos do lugar. – Pedirei que os demais aguardem em absoluto silêncio enquanto seus nomes não forem chamados.

Os visitantes assentiram em concordância, ainda que trocassem entre si olhares divididos entre a excitação e a apreensão.

O instinto humano é infalível.

Por mais que quisessem estar ali... que ali era o lugar com o qual sonharam... que ali estariam a salvo das tentações e horrores do mundo, perto da Salvação Eterna com o Messias... aqueles homens experimentavam um nítido receio.

Talvez apenas o medo do desconhecido. Talvez.

— Abraham Antler, sala 1. Adam Stewart, sala 2. Albert Emmerich, sala 3. Andrew Sullivan, sala 4. Anthony Fitzroy, sala 5.

“Ótimo, ordem alfabética. Vou mofar aqui...”, pensou Milo, resistindo ao impulso de revirar os olhos. Os cinco fiéis chamados adiantaram-se. Os outros 75 se entreolharam, dando-se conta de que sequer lhes fora oferecidos um assento, uma água...

— Senhor Minos, nós aguardamos aqui mesmo? – Um deles achou por bem confirmar.

— Sim, foi o que acabei de falar.

— Ah... sim...

O policial podia sentir-lhes a surpresa, mesmo sem olhá-los. Estava mais interessado em analisar Minos.

Tudo, a partir de então, dependeria UNICAMENTE de sua observação.

Sabia que seria PRIVADO DE TUDO.

Não poderia contar com câmeras, microfones, transmissores, escutas...

NADA. Antes de ir para o Vale, havia sido combinado com a equipe de investigação que em dois meses Saga entraria em contato com a administração da comunidade, único contato disponível para os conhecidos daqueles que nela ingressavam. O procurador então se faria passar pelo “tio Oton”, o “irmão do falecido pai de Michael Segerson”, que disputava com o sobrinho espólios variados. A conversa, a princípio, seria no idioma grego. No entanto, quase certos de que os telefones utilizados pelos fiéis estariam grampeados, decidiram que a comunicação entre o agente e seu superior seria através de códigos previamente estabelecidos e cuidadosamente organizados a fim de se tecer um testemunho do que de fato acontecia no local. E, principalmente, combinarem a data e o horário da invasão policial.

— Se tiverem sede, há um barril com água bem ali. Se precisarem usar o banheiro, podem ir ao compartimento anexo ao balcão, logo na entrada. Se se sentirem cansados de ficar em pé podem se sentar... no chão. – Disse Minos, sempre sorrindo vivamente.

“Putamerda... já vi que isso vai levar HORAS...”, deduziu Milo, e, assim como os outros, levou um susto ante o brado colérico do Vigia:

— SILÊÊÊÊNCIOOO!!!

Todos, emudecidos, cravaram os olhos esgazeados no religioso, que continuou a severa reprimenda:

— Estão em um lugar sagrado! Aqui não é o mundo irreverente em que vocês estavam acostumados a chafurdar e murmurar!!! Se querem conversar, conversem COM DEUS! EM ESPÍRITO!!!

Eles engoliram em seco, trocando olhares atônitos. Milo estava perplexo... conversar? Mal havia se distinguido alguns sussurros entre os fiéis!

Se nem tinham de fato adentrado aquela sociedade secreta e já eram tratados assim... o que esperaria por aquelas pessoas?, pensava o policial, intrigado.

Meia hora se passou. Outros cinco nomes foram chamados.

Milo – e provavelmente muitos outros além dele – pôs-se a calcular o tempo mentalmente. Naquele ritmo, aquela triagem duraria umas oito horas!

Aqueles cujos nomes se iniciavam com as letras finais do alfabeto começaram a se preocupar de verdade.

Meia hora depois, a terceira leva foi chamada.

Seriam dezesseis levas. Faltavam... treze...

Cada vez mais sentava-se gente no chão frio. Não demorou muito, Milo se juntou a eles, pernas flexionadas, segurando os joelhos com as mãos. Alguns usavam as próprias malas como apoio ou mesmo travesseiro. O loiro não quis fazer o mesmo, temendo relaxar demais e cair no sono. Foi-lhes advertido que, caso perdessem a vez, iriam para o final da fila. Por isso, via-se homens cochilando e acordando, sobressaltados.

A noite chegara e com ela as baixas temperaturas típicas de áreas florestadas com aquela em que se encontrava a propriedade. Alguns fizeram menção de abrir as malas para pegarem casacos. Foram impedidos por homens do Vale, sentinelas que os cercavam. Assustados, se viram destituídos do direito de mexerem nas próprias bagagens.

Uns cruzavam os braços para reter o calor, esfregando-os de quando em quando. Milo procurava resignar-se. Passara por situações piores, bem piores. Grandes merdas aquilo tudo. Os desgraçados achavam que podiam quebrantar logo aqueles espíritos frágeis... não o conheciam, hah, não mesmo. Ficou satisfeito ao lançar um olhar em torno e ver que havia outros como ele. Determinados, firmes, sem receio no olhar.

Com o avançar das horas tal obstinação foi sendo substituída por cansaço... desânimo... sono.

O agente esfregava os olhos, que ardiam terrivelmente. Olhou o relógio de pulso: 20 horas. Fazia quatro horas que estavam ali. Ele sabia que ficariam pelo menos o dobro. Menos da metade dos homens haviam sido chamados. Tentava se distrair pensando em outras coisas. Tarefa não muito simples quando tudo que se quer é uma ducha, um prato de comida e esticar as pernas em um confortável sofá em frente à TV.

A vez dele demoraria mais para chegar se muitos não tivessem sucumbido ao sono. Levantou-se, pegou a mala e a bolsa de viagem e dirigiu-se para a sala de número 3. Adentrou-a, apertando as pálpebras devido ao choque da forte luz fluorescente.

Assim que pôde, distinguiu uma escrivaninha à qual assentava-se um senhor de barba comprida e branca.

— Senhor Michael Segerson?

—Sim, sou eu.

— Entre, por favor.

O recinto assemelhava-se a um consultório médico, toda branca, com um armário alto da mesma cor, e uma maca acolchoada. A diferença estava no tamanho, bem maior, e nos cantos da sala. Neles, várias malas empilhadas, abertas, com roupas e acessórios caindo pelos lados. Havia três homens de pé, todos mais altos, olhos fixos nele, de roupas casuais e claras. Um tinha o olhar arrogante, cabelos compridos cor de ocre. Outro possuía um olhar sereno, porém melancólico; também tinha cabelos longos, loiros claros, contrastando com a tez bronzeada, mais até que a sua. O terceiro pareceu-lhe indiano, ou de ascendência indiana (1), pele escura, cabelos muito claros raspados na altura do crânio, com mechas lisas ao longo do corpo; mantinha raspadas as sobrancelhas.

— Entregue sua bagagem a Albior, senhor Segerson, e sente-se, por gentileza.

O tal Albior adiantou-se e estendeu as mãos sem nada dizer. Assentindo, Milo fez conforme solicitado, sorrindo sem jeito para o Arauto:

— Como vai? Obrigado...

O rapaz, sisudo, não lhe respondeu. Sem qualquer aviso, abriu a mala maior e, para surpresa do agente, despejou todo seu conteúdo no chão. Repetiu o ato com a bolsa de viagem. Milo sabia que teria a bagagem revistada, e que lhe confiscariam tudo, mas não imaginaria que o fariam com tamanho descaso. Mais que descaso, empáfia! Boquiaberto, contemplou em silêncio o outro revirando as roupas como um mendigo que revista avidamente o lixo. Albior remexia as roupas, abria nécessaires e estojos, arrebentava caixas, rasgava pacotes...

— Está tudo bem, senhor Segerson?

— Ah! Claro, perdão... – Virou-se para o velho, exagerando a surpresa. – Eu só fiquei com medo de ele quebrar meus perfumes... ainda bem que estão nas caixas e...

O cara de cabelos ocre riu, não se sabia se por comicidade ou por deboche. O “indiano” mantinha-se sério.

— E por que razão consideraria isso um motivo de preocupação, senhor Segerson? – Inquiriu o idoso sentado, friamente.

— Hein?

—Considera que tais frivolidades são necessárias à sua vida neste lugar?

— B-bom... e-eu... de fato, não... – Simulou um riso constrangido. – mas é que ficaria insuportável de se permanecer nesta sala caso os vidros se quebrassem, porque...

— Chrysaor. Livre-se dos tais perfumes do senhor Segerson. – Ordenou secamente, fitando Milo sem piscar.

O tal “indiano” recolheu as quatro caixas de perfumes e jogou-os dentro de um dos vários sacos de lixo junto à parede.

— Possui muitas coisas de qualidade, senhor Segerson. Vejo que é um homem abastado. – Comentou o ancião, com desprezo, observando Albior remexendo os pertences do novato no chão. – No entanto, não precisará de mais nada disso. Nós usamos roupas simples, de lã e de algodão produzidos pela comunidade, confeccionadas por nossas valorosas irmãs em Cristo. O senhor vai receber tudo de que precisa para viver no Vale. Lembre-se do que nos diz a Bíblia; se nem os pássaros precisam se preocupar com o amanhã, por que precisariam se preocupar os filhos de Deus? (2)

— Sim senhor. – Murmurou o policial, fazendo-se servil.

— Com exceção de seus documentos, carteiras, agendas e celulares, tudo o mais será enviado para a caridade. Já o que mencionei ficará guardado conosco. Entregue-me o que tem consigo.

— Os... meus documentos e...

— Sim, tudo isso fica guardado em uma sala anexa ao escritório central de nossa colônia, em arquivos pessoais das “ovelhas”. Todos esses objetos estarão à disposição de seus donos em caso de real necessidade. Obviamente, sob análise e permissão previamente acordadas.

— Oh.

— Está hesitante, novato? – Algol inquiriu, sarcástico.

— N-não, só... só me surpreendi um pouco. – Continuou a representar uma mal contida estupefação. Nada daquilo o surpreendia, verdadeiramente, apenas não sabia a que nível as vilanias eram praticadas. – E também... pra ser sincero, não esperava ficar sem o celular, pois estou resolvendo alguns negócios a respeito de...

— Sei disso, meu filho. Ocorre que mesmo que eu deixasse o seu querido aparelho contigo, fora de nossos escritórios a cobertura é quase que inexistente. E não há luz elétrica nos alojamentos das “ovelhas”, de modo que somente é possível carregar seu celular e utilizá-lo em nossa central. Conforme informei anteriormente, “sob análise e permissão”.

O agente sorriu com simpatia, parecendo despreocupado:

— Não faço a menor objeção quanto a isso, senhor. Apenas fiquei um pouco surpreso, é tudo novidade para mim.

Chrysaor assentiu, concordando com o recém chegado:

— É compreensível. De fato, é uma nova vida que se inicia para o senhor. O espanto é natural. Saiba, porém, que tudo é em prol de uma comunhão plena com Deus e com a sua nova família. Essas tranqueiras mundanas são obstáculos perigosos. Assim como armas em uma casa devem ficar guardados sob a vigilância dos responsáveis pelo lar, devem ficar esses instrumentos.

Milo agradeceu-lhe com um sorriso e um menear de cabeça. O velho falava com ele com um desdém infinito. O de cabelos ocre, com sarcasmo odioso. O tal Albior mantinha-se indiferente. Somente esse Chrysaor lhe parecia razoável.

— Agora, senhor Segerson, fique de pé e tire suas roupas.

OK, talvez não tão razoável assim.

— Hã... claro. – Levantou da cadeira, disfarçando o nervosismo.

Sim, esperava que o revistassem.

Mas não como se estivesse virando um maldito presidiário.

Que ingenuidade... era EXATAMENTE no que ele estava se tornando.

Tirou os tênis, prontamente recolhidos por Albior; este sondou-lhes o interior e a sola, e foi colocá-los junto a dezenas de outros calçados “separados para a caridade”. Igual à calça jeans clara e a camisa pólo preta, não sem antes terem bolsos e fundos cuidadosamente inspecionados. Deles tiraram uma caixinha de chicletes, fones de ouvido, uma pequena soma em dinheiro. Tudo confiscado.

O policial ficou apenas de cueca preta e meias brancas. Os quatro homens observavam-no de cima a baixo. Ele notou que o rapaz de cabelos ocre... Algol... mantinha o detestável sorriso escarninho, destoando dos demais. Teve ganas de perguntar-lhe “Qual é o teu problema, imbecil?”

— Senhor Segerson, pedi que tirasse suas roupas. – Disse Chrysaor, brando.

Quando Milo, com ar interrogativo, se virou para "o indiano", o ancião falou:

— Que eu saiba, meias e cuecas também são roupas...

Franzindo o cenho em um gesto involuntário, o loiro apressou-se em dizer:

— Claro, claro. Me desculpe.

— O que temos aqui, um pudico... – Ironizou o rapaz por quem o agente já estava nutrindo verdadeira aversão.

— Algol, por favor. – Albior murmurou, em uma repreensão entediada.

— Servos verdadeiramente PUROS não têm vergonha de seus corpos. A vergonha advém da maldade de seus corações, de seus pensamentos pecaminosos. Adão e Eva só se envergonharam de sua nudez quando se viram em pecado...

— Ele está chegando HOJE ao Vale. Ainda tem muito a aprender, e irá. Mas não será através de suas acusações virulentas que o fará. – Interveio Chrysaor.

Algol arregalou os olhos anis. Crispou os punhos e vociferou, indignado:

— Como é que é? Você, um reles Arauto, ousa se dirigir dessa forma A MIM, um dos filhos do Grande Hades?!?

“Quê? Esse babaca é FILHO do Hades?”, surpreendeu-se o agente.

Encarando-o firmemente, Albior manifestou-se enfim:

— O Grande Hades deu-nos ordens de não ceder ao que diz se isso atrapalhar o equilíbrio de nossas ações, Algol. Ele mesmo disse o poder anda lhe subindo à cabeça e pretende tomar providências quanto a isso. Contenha-se, para que nosso trabalho não se estenda demasiado. Aqueles homens lá fora estão cansados!

Rindo debochado, Algol pôs-se bem perto do sereno Albior, e atirou-lhe:

— “Não ceder ao que digo”, hein? Quando foi de sua CONVENIÊNCIA, você bem que não viu problemas em ceder, não foi, Albior? Hein?

— BASTA! – O velho ergueu-se da mesa, desgostoso com a cena. – Algol, cale-se! Chrysaor, Albior, voc”es também, cessem já esse palavrório. Quanto ao senhor, senhor Segerson... DISPA-SE.

Sob um silêncio esmagador, Milo abaixou-se e tirou as meias. Depois foi a vez de a última peça abandonar o vigoroso corpo do novato. De forma neutra, o ancião observou:

— Parece que o senhor goza de excelente saúde... é esportista, por acaso?

— Eu... eu pratico algumas atividades físicas... digo, praticava...

— Não precisa conjugar o verbo no passado, meu jovem, aqui todos trabalham para ter o que comer e o que vestir. Isso manterá a invejável forma física que está exibindo.

Por mais que o policial fosse “desencanado” com sua nudez – já frequentara até praias de nudismo... – não pôde deixar de se sentir perturbado ante os olhares daqueles homens sobre si. Sentiu-se um cativo de guerra sendo avaliado por compradores de escravos.

O mais velho, trajando uma túnica roxa, pôs as mãos para trás e chegou a andar em torno do agente. Deteve-se diante deste, analisando-o atentamente. A Milo pareceu que o desgraçado focava demais sua área genital.

Não que os outros não estivessem fazendo o mesmo.

— Por que o senhor se manteve solteiro? Vê-se que é um jovem de predicados os quais sua óbvia vaidade há de reconhecer... além do que, sua coroa da masculinidade foi grandemente abençoada.

— A menos que seja um pederasta... – falou Algol. Aproximou-se do loiro, encarando-o, desafiador. – O mundo está repleto de ímpios que se deitam com seus iguais e rejeitam as bênçãos do matrimônio ordenado por Paulo, a fim de continuarem felizes em seu reino de devassidão...

— Não sou nenhum viado, meu amigo. – Rebateu, sustentando a mirada, com indisfarçável raiva. – Sempre tive relacionamentos mais ou menos estáveis com mulheres. Acontece que nunca tive a pretensão de me casar antes dos trinta anos, assim como várias pessoas que conheço.

Voltou-se para o ancião, abrandando o tom da resposta:

— De mais a mais, conforme informei nas entrevistas, perdi meus pais e meu irmão em um curto espaço de tempo. Um cara que se vê o único responsável por uma empresa de grande porte aos 26 anos dificilmente vai pensar em casamento tão rápido.

Alisando a barba, o idoso balançou a cabeça em uma breve concordância.

— Com certeza, vai gerar filhos fortes como touros. Com uma bênção dessas entre as pernas... – Algol riu, fazendo o sangue do agente ferver. Felizmente o ancião levantou a mão, afastando o impertinente do “empresário”.

— Chrysaor. Verifique-o.

O “indiano” assentiu e chegou mais perto de Milo. Pôs as mãos em seus longos cabelos, erguendo-os. Com os dedos separados, sondou-lhe o couro cabeludo.

“Mas... que diabos esse cara...”

Era claro. A revista agora era em seu PRÓPRIO CORPO.

O indicador do religioso perscrutou-lhe os ouvidos, as orelhas.

— Abra a boca. – Ordenou-lhe, segurando-lhe o rosto pelo maxilar.

Milo obedeceu, controlando a respiração para não parecer tenso.

— Levante a língua.

Neste meio tempo, Algol se posicionara atrás deles, deleitando-se com as fartas nádegas do loiro. Sob o olhar reprovador de Albior, puxou mais a bata para ocultar a protuberância que começava a se formar em suas calças...

— Tudo certo, POR FORA. – Anunciou Chrysaor, cujas últimas palavras fizeram o novato franzir as sobrancelhas. – Deite-se na maca, senhor Segerson.

— O... o quê?

— Precisarei tirar o seu sangue.

— Eu... eu já fiz os exames pedidos pela associação, será que o resultado do hemograma não foi enviado com meus dados?

— Foram sim. Mas aqueles exames são de semanas atrás. Serviram para a classificação. Precisa fazer um no momento da admissão. – Explicou, com paciência, conduzindo Milo para a maca.

— Entendo. Tudo bem. – Ele subiu pela pequena escada e deitou-se no estofado preto.

Enquanto Chrysaor preparava os instrumentos para a coleta, Albior lia uma ficha em voz alta:

— Michael Makantonis Segerson, 28 anos, natural de Michigan, vindo da congregação de Red Meadow, filho de imigrantes gregos. Resultados negativos para HIV, hepatite, nenhuma doença infecciosa detectada, bem como sexualmente transmissível, taxa de glicose dentro do normal, colesterol um pouco acima, sangue tipo O positivo...

— É, é o meu currículo. – Inconscientemente, o policial acabou recorrendo a um pouco de humor para aplacar a tensão que se avolumava dentro de si.

Para alívio do loiro, o “indiano” fez o trabalho de modo rápido e quase indolor. Quando fez menção de se erguer, ouviu-o dizer:

— Não se levante.

— Hã... tá.

— Vire-se de bruços, senhor Segerson.

— Hum?

— Vire-se de costas.

A ordem apenas foi repetida. Não foi justificada. Viu Chrysaor acondicionar a amostra do sangue em um estojo próprio e depois abrir um tubo do qual se desprendeu um cheiro como de álcool. Em seguida, rasgou uma embalagem, retirando dela um par de luvas descartáveis. Vestiu-as. Milo estremeceu ante a cena. Para que demônios o cara estava...

— Eu posso fazer isso por você, sabe, já fiz várias vezes...

— Agradeço seu gentil oferecimento, Algol. Hoje o responsável por isso sou eu, e cumpro com meus deveres. – Retrucou o moreno, levemente irônico.

— O que... que vai fazer? – Milo sequer se dera conta de que gaguejava.

— Revista íntima. É de praxe. Não vai demorar.

Deixando entreabrir a boca, o policial olhou-o, incrédulo.

— O quê? Você vai...

— Sossegue. Não é doloroso, a menos que fique muito tenso. Por isso... – Auxiliando-o, Albior despejou um pouco do conteúdo do frasco em suas palmas enluvadas. Ele esfregou-as para espalhar. – é essencial que relaxe.

Claro.

Milo não era o primeiro policial a se infiltrar na comunidade. E os que foram antes dele haviam sido descobertos. Na certa, aquela experiência fizera a Aurora do Novo Porvir incrementar suas medidas de segurança. Mas AQUILO...

— Separe as pernas um pouco, por favor.

“Não é possível, isso não vai acontecer...”, sem saída, obedeceu a contra gosto.

Sentiu as mãos do Arauto separando-lhe as nádegas. Algo gelado escorria para dentro, e a pele ficou logo dormente ao contato do produto que fora esfregado nas luvas.

“Revista íntima o CACETE! Isso é a porra de uma INTERVENÇÃO CORPORAL!”, pensou, alarmado, virando o rosto para baixo, aflito.

Claro que ele não poderia mostrar que conhecia a diferença entre uma revista íntima e uma intervenção corporal. (3)

“Meu Deus... isso NÃO TÁ acontecendo...”, pensou, mordendo o lábio inferior. Ouviu:

— Senhor Segerson, não vai sentir nada porque usei um gel anestésico. Mesmo assim, eu realmente preciso que relaxe. Vai facilitar meu trabalho e diminuir seu próprio desconforto.

“Falar é fácil, como vou relaxar com UM FILHO DA PUTA enfiando os dedos na porra do meu cu?!?”

— É, retiro o que eu disse... – Falou Algol, risonho, abaixando-se para tentar ver o rosto agoniado do novato, oculto pelos cachos dourados. – Ele NÃO é pederasta. Bem se vê que está muito incomodado com isso...

Milo travou a mandíbula, evitando emitir qualquer som.

Diabos.

Em alguns anos teria que fazer exames de próstata e tal.

Era só fingir que antecipara...

Fechou os olhos com força, enquanto Chrysaor explorava-lhe a cavidade anal em busca de objetos que porventura pudessem ter sido ali introduzidos. Ora, em inspeções como esta, os religiosos já haviam encontrado drogas, medicamentos e até celulares assim. Os mundanos faziam coisas incríveis para não se separarem de seus pequeninos “deuses”. E havia também a precaução lógica, após a descoberta de espiões no seio sagrado dos fiéis. O Arauto cumpria seu ofício com fleuma e neutralidade. No entanto...

— Segerson, você NÃO está relaxado. Assim vou acabar te machucando.

— Huung! Aah... n-não! Pronto... tô relaxado... tô zen!

Bom, era uma tremenda mentira. Quem sabe acabasse acreditando nela como apregoava o ditado?

Afortunadamente, sentiu que a invasão chegara ao fim. Os dedos invasores abandonaram seu interior, deixando o gel escorrer por entre suas pernas abertas.

— Ele está limpo.

— Por enquanto. Tem uns que acabam se sujando depois e...

— Algol, por favor. – Chrysaor suplicou, malgrado soasse como uma ordem. E para Milo, ainda deitado de bruços – Vou só limpar o gel e pode se levantar.

— Ah, sim. Obrigado. – Ciciou o agente, ainda sem acreditar no que acabara de acontecer.

Desceu da maca, esforçando-se por manter-se neutro. Albior estendeu-lhe uma túnica cinza claro.

— Pode se vestir, senhor Segerson.

— Obrigado. – Vestiu-se com presteza.

— Tome, calce estas sandálias. Veja se é este tamanho mesmo.

— Sim, ótimo, muito confortáveis. Obrigado. – Pôs os calçados de couro cru, mecanicamente.

— A triagem acabou, senhor Segerson, agora pode ir se juntar aos seus colegas que aguardam por você e os demais. Basta sair ali pelos fundos e entrar pela segunda porta à direita. – Informou-lhe o velho, gesticulando para a saída.

— Certo. Com licença. Obrigado.

Sentindo-se um robô por dizer tantos obrigados depois de ter tido sua intimidade aviltada e todos pertences tirados de si, ele seguiu pelo caminho indicado, até chegar a um grande salão onde aqueles com os quais havia chegado o Vale estavam sentados em bancos inteiriços, diante de compridas mesas de refeitório. Todos vestiam a mesma túnica cinza, de tecido grosseiro. Juntou-se a eles, reparando discretamente em seus semblantes confusos. Em nenhum deles se distinguia a alegria que julgaram experimentar tão logo adentrassem o Vale.

Ao que parece, aguardava-se que todos os oitenta homens enfim se reunissem, pois apenas ficaram ali, em silêncio, imóveis, à espera de novas orientações. Homens de túnicas roxas vigiavam-nos. Acima deles, na parede, estendia-se uma grande faixa onde se lia “Esperai em oração: serenidade e mansidão”.

Cansados da longa viagem, da espera de horas e pelo longo tempo sem refeição alguma, os recém chegados bocejavam, alguns chegando a cochilar apoiando o queixo ou o rosto com as mãos. Alguns pareciam estar em oração. Alguns fitavam o nada, expressando nada... Milo sentia a fadiga se apossando dele, porém resistia tenazmente, distraindo-se com pensamentos esparsos. Contudo, logo se forçava a prestar atenção ao seu redor.

Reparou que nenhum dos presentes trazia aliança no dedo. Os únicos acessórios com que lhes foram permitidos permanecer, pelo visto, eram óculos.

Horas e horas se passaram no mais profundo tédio, quando finalmente surgiram os que haviam realizado as triagens dos recém-chegados. Em fila, posicionaram-se na parte frontal do salão, de modo a serem vistos por todos novatos. Um homem de cabelos curtos espetados e loiros adiantou-se e elevou a voz, auxiliado pela mudez dos presentes e pela acústica do local:

— Sejam todos bem vindos ao seu novo lugar, o Vale da Aurora Dourada. Parabenizo a cada um dos presentes, pois esta aqui é um privilégio concedido apenas aos vencedores do Altíssimo. Vocês fazem parte de um grupo seleto. Especial. Eu sou Radamanthys, primogênito do Grande Hades, que fundou a Igreja Aurora do Novo Porvir mediante desígnios divinos transmitidos pelo Anjo Gabriel. – Ele apontou Algol, agora sério. – Este é meu irmão mais novo, Algol. Acima do nosso Pai Hades, o Cristo Reencarnado, que vive entre nós nesta cidade sagrada...

Alguns “aleluias” foram ouvidos; Radamanthys não os reprimiu. Prosseguiu, em sua voz grave e monocórdia:

— ... abaixo do nosso Pai Hades, eu e Algol. Abaixo de nós, os Vigias, que assessoram-nos, bem como ao próprio Redentor. São eles – À medida que os apresentava, eles se curvavam em reverência. – Minos, Aiacos, Asterion e Capella. Abaixo dos Vigias estão os Arautos, a saber... Albior, Chrysaor, Dante e Bian. Auxiliando-nos estão os Diáconos e os Sentinelas, função que vocês podem vir a ocupar, desde que se destaquem em nossa comunidade, com disciplina e dedicação. Estes mencionados vivem no Tabernáculo, complexo que guarda a morada do Messias. As “ovelhas” vivem primeiramente em alojamentos comunitários e, posteriormente, em cabanas, quando formadas suas próprias famílias carnais. Vocês serão conduzidos pelos Arautos e pelos Diáconos a Cafarnaum (4), o complexo onde ocorre a Purificação.

— Purificação? – Murmuraram alguns.

— Pensem em uma cesta com frutas boas e frescas. Juntariam a elas frutas estragadas, ou passadas? Pois bem, meus irmãos... nossa colônia é habitada por pessoas consagradas que vivem em comunhão entre si e com o próprio Salvador da Humanidade. Não é propício que recebam, diretamente, a presença de vocês, que trazem consigo vícios, nódoas, elementos mundanos que há muito foram extirpados de nosso meio sagrado. Precisam passar pela Purificação.

“Cacete. Eu não tô gostando nada disso. NADA.”, pensou o policial, certo de que ele não era o único a pensar aquilo.

— Durante 21 dias, ficarão concentrados no complexo, e neste período, serão preparados para viverem entre nós. Serão removidos de vocês resquícios prejudiciais à plenitude em nossa comunidade. Lerão a Palavra, ficarão em oração, aprenderão a ser “ovelhas”, e não mais “ervas daninhas”... ou mundanos. Receberão toda orientação necessária para sua nova vida, e serão submetidos a um jejum durante todo o processo de Purificação.

O estupor fez-se evidente nos novatos, que se entreolharam como se perguntassem “Foi isso mesmo que ouvimos? Um jejum de 21 dias?”.

— O jejum será organizado da seguinte maneira: nos onze primeiros dias, a alimentação consistirá apenas d pão, três vezes ao dia, e água. Nos oito dias seguintes, apenas água. E nos dois últimos, não poderão ingerir nada, nem mesmo água.

“Esses LOUCOS!”, pensou Milo, com horror. “Três dias sem água podem levar um homem à MORTE!”

Foi como se Radamanthys tivesse lido seu revoltado pensamento, pois acrescentou:

— Percebo apreensão em muitos de vocês. Infundada, devo dizer. Todos que foram aprovados para estarem aqui têm plenas condições de atravessar esses 21 dias de jejum. Os exames médicos que realizaram antes de entrar para o Vale atestam isso com segurança. O que quer dizer que, se não conseguirem, será porque o ESPÍRITO fraquejou, e não o corpo. E as “ovelhas” do Vale devem, antes de mais nada, possuir um espírito puro e forte, que despreza os anseios a as limitações do corpo.

Os recém chegados assentiram em concordância, uns resolutos, outros um tanto receosos. Milo imaginou que seria submetido a jejuns mais cedo ou mais tarde. Só que NÃO POR TANTO TEMPO.

A um sinal de Radamanthys, entraram dezenas de mulheres carregando pratos, travessas, copos, garrafas, recipientes de barro.

— Antes de darmos por iniciado o Processo de Purificação, devem se alimentar, pois a viagem foi longa. Comam, bebam, desfrutem do que nos oferece a terra santificada em que se encontra o Vale da Aurora Dourada.

Foram dispostos às mesas travessas contendo guisado de carneiro, lentilhas ensopadas, frango com batatas e vagens, arroz com abóbora, peixe e milho assados, pão, bolos de aveia e bolos de mel, jarras com água fresca. Os semblantes dos fiéis se iluminaram. Agora sorriam largamente, servindo-se e sendo servidos pelas mulheres, todas trajando longas túnicas roxas.

Notando que a maioria comia com grande avidez, Milo teve vontade de adverti-los para que não se alimentassem tão rapidamente. Logo se fartariam e dariam por encerrada aquela que seria a última refeição pelas próximas três semanas! Isso se não passassem mal, o que poderia acarretar a precoce eliminação do alimento, antes de terem absorvidos seus nutrientes... naturalmente, o policial não poderia agir daquela forma. De sua parte, comia aos poucos, mastigando bem o alimento e evitando ao máximo beber água junto com a comida. Beberia apenas meia hora depois de se saciar.

Não sabia se era a fome, o fato é que estava tudo delicioso, tinha que admitir.

Quando terminaram a refeição, os oitenta homens foram conduzidos aos alojamentos. Andaram por cerca de vinte minutos, até que chegaram a um conjunto de cinco cabanas. Em uma tabuleta lia-se “Cafarnaum”.

Foram distribuídos, ficando dezesseis em cada habitação. As casas, todas em madeira ao estilo dos pioneiros, eram tão simples por dentro quanto por fora. Não havia divisões suficientes que garantissem privacidade. Conforto, tampouco.

Continham apenas dois banheiros cada, nenhum com box ou toalete; apenas um chuveiro, sem divisória alguma, uma latrina rústica de madeira, dois baldes de madeira e um armário com rolos de papel higiênico, além de bolsas personalizadas, dentro das quais encontrariam itens básicos de higiene separados para eles: escova e pasta de dente, pente, sabonete, lâmina de barbear, uma bucha de sabugo. Na pequena janela, a luz da lua revelava uma intrincada teia de aranha.

Ao invés de quartos separados, um grande dormitório, com beliches e algumas camas de solteiro, rústicas e pouco convidativas. Sobre cada um dos finos colchões, uma manta e uma toalha. Encostada à parede havia duas mesas com dois lampiões, quatro jarras e dezesseis copos. Nenhum outro móvel, sequer um guarda-roupa. Pensando bem... para quê?

Além do dormitório havia duas grandes salas anexas; uma completamente vazia, e a outra, com algumas mesas e cadeiras de madeira, estantes com Bíblias e mais lampiões.

À medida que “o novo lar” ia-lhes sendo mostrado, Milo dava-se conta de como a missão começava a lhe parecer BEM MAIS DURA do que julgara que seria.

— Façam sua higiene convenientemente e durmam. Às cinco da manhã o sino em frente à cabana será tocado. Acordem os companheiros que não tiverem conseguido despertar com o sinal. – Um dos Vigias, de cabelos compridos e negros, orientava os novatos. – A primeira refeição será trazida para vocês, em seguida, começarão as atividades programadas, sempre supervisionados por um Ministro de nossa comunidade. Conforme devem imaginar, todo o processo será feito dentro desta cabana, sendo terminantemente proibida a saída. Enquanto não estiverem aptos para tal, vocês não têm permissão de andar pelo Vale. Há cães de guarda por toda propriedade, bem como guardas e seguranças vigilantes a noite toda. Mantenham a ordem e a reverência e, desde já, em oração. Que Deus os abençoe. Tenham todos um bom descanso.

— Senhor Aiacos! Me desculpe, senhor, eu gostaria de fazer uma pergunta...

— Pois não, senhor...

— David. David Miller.

— Qual seria a sua pergunta?

O homem limpou a garganta antes de indagar, entre humilde e ansioso:

— Quando nós veremos o Redentor?

Encorajados, outros se uniram a ele:

— Sim, quando o veremos?

— Com todo o respeito, senhor Aiacos, eu gostaria tanto de ver o Messias!

— Eu também!

— Eu também!

— Oh, seria maravilhoso!

— Na certa, isso nos daria forças!

Milo esperou que o Vigia se zangasse com aquele falatório e desse um berro de estremecer as paredes, a exemplo do que fizera Minos no galpão de triagem horas atrás. No entanto, Aiacos deu um sorriso repleto de complacência ao responder:

— Acalmem-se! Posso imaginar a ansiedade por tal encontro. Também eu me senti assim quando aqui cheguei, sete anos atrás. O mesmo, porém, só poderá ocorrer quando vocês tiverem passado com êxito pela Purificação. Trevas não coabitam com a Luz, sabem disso muito bem. O Redentor é pura Luz. E vocês ainda trazem contaminação mundana. Utilizem essa vontade de encontrar nosso Salvador para se esforçarem durante esses dias.

Embora frustrados com a recusa, os fiéis anuíram, resignados. Era uma boa resposta, afinal. Pertinente.

Onze dias se passaram.

Conforme dito, não lhes era permitido deixar a cabana. Acordavam às cinco da manhã, tomavam o desjejum trazido por uma “ovelha” – cada homem recebia um pequeno pão, sem qualquer acompanhamento. Após a higiene, ficavam em oração, sob a vigilância de um Diácono ou um Sentinela. Horas depois, um culto era realizado. Por vezes, comparecia um Vigia ou um Arauto. Fora isso, faziam leituras compartilhadas da Bíblia, entoavam cânticos impressos em pequenos cadernos que haviam recebido posteriormente. Todos dias recebiam preleções de servos experientes, que se revezavam entre os Ministros mais ou menos altos na hierarquia do Vale. Versava-se sobre o plano divino, o vindouro reino dos céus, a condenação do mundo, o controle sobre o pecado, a obediência irrestrita aos preceitos ali enunciados. Vendo o sol no topo do firmamento, sabia-se que a tarde chegara. Comiam um fino pão sírio. Seguiam-se os estudos vespertinos, louvores, meditações. O consumo de água era livre, logo, acabavam se valendo disso para mascarar a fome que já os afligia desde o primeiro dia.

Milo não estava ali por nenhum anseio religioso. Em determinados períodos, o tédio, porém, levava-o a se dedicar verdadeiramente à leitura da Bíblia. Era TUDO que tinha para fazer.

O céu tornava-se anil. Recebiam a terceira e última refeição do dia, um pão ainda menor que os dois primeiros.

Recolhiam-se cedo. Sem relógio, não poderiam precisar a que horas. Mas não passava muito do momento em que mais lampiões eram acesos. Durante o dia, valiam-se da luz natural, proveniente das janelas abertas. Estando nublado, precisavam acender alguns. Antes de se entregarem enfim ao sono, mais orações. Eram sempre vigiados... precisavam orar, orar e orar.

Foi um verdadeiro tormento para Milo. E, malgrado jamais algum de seus companheiros de alojamento fosse confessar, sabia que aquele tormento era geral. Às vezes Milo ouvia soluços pelos cantos. Lamentos sufocados, baixinhos. Barulhos e gemidos no banheiro. Vomitavam porque haviam bebido água em excesso junto com o pão. O loiro exortava-os gentilmente a comer o escasso alimento apenas, mastigando-o cada pequenino bocado demoradamente... só então passado algum tempo, ingerir o líquido permitido. Tomava o cuidado de sugerir-lhes tais medidas sem que os Ministros percebessem.

Eis que teve início a segunda etapa do jejum.

Por oito dias, somente poderiam ingerir água.

Seriam dias difíceis.

(fim do flashback)

*************

Foram dias dias difíceis.

E seriam ainda mais.

Estavam na etapa final.

Faltavam seis dias.

Por mais que Milo tivesse tentado animar o pobre Stephen, dizendo-lhe: “Só faltam seis dias!”, em sua mente a mesma enunciação soava tal qual uma sentença desalentadora:

“AINDA FALTAM SEIS DIAS!”

Apertou os olhos, tentando ignorar a dor em seu estômago. Era como se tivesse levado um soco no ventre, e toda sua massa corporal tivesse sido virada ao avesso.

Quase rezou pedindo que aqueles dias passassem rapidamente.

Quase.

Tencionou voltar atrás. Ora, ele não era exatamente um ateu.

Não é porque algumas pessoas usavam Deus com finalidades escusas que ele estava impedido de buscar alento em algo.

E QUE ALGO tinha ao seu alcance?

Riu baixinho, se sentindo ridículo.

Mas o que era mais ridículo que aquela fome, aquele frio, aquela dor?

Fome. Frio, dor, frio, dor. Fome. Fome. Fome.

E dentro de alguns dias até a água lhes seria tirada.

Precisava dormir. Ah, se ao menos dormisse!

A dor dormiria. O frio dormiria. A fome dormiria.

Ele desapareceria por algumas horas.

“Deus... eu... olha... porra... desculpe. Eu nem sei o que eu tô fazendo. Eu nem falo com o Senhor. Quer dizer, falando assim parece que tenho algo CONTRA o Senhor. Não é assim. Eu só não penso muito no Senhor. Tá, não penso nunca. Nem sei se ainda acredito. Será que um dia eu acreditei no Senhor? Bom, eu frequentei a igreja quando criança, mas era tipo ser levado ao mercado, ao açougue, à padaria... ir porque os pais levam e... bom, eu até que tentava ser bonzinho, lembra? Hah, CLARO que o Senhor lembra, que estupidez a minha. É um cara que SABE TUDO. VÊ TUDO. Mas... olha... então... se o Senhor vê tudo... como DEIXA que usem Teu nome pra fazer ISTO com as pessoas? Eu quero dizer, olha estes caras aqui... tão sofrendo... eu mesmo tô na merda... e sei que vai piorar. É uma impressão bem forte. Gostaria de estar errado... mas SEI que não estou. Tem coisa feia acontecendo aqui, e eu não falo só do que eu e estes caras estamos passando. Algo lá fora... neste Vale... eles não teriam enfiado os dedos nos nossos RABOS se não temessem que alguém registrasse o que se passa neste camping de lunáticos. Tá, me desculpe pela linguagem, e, caralho, eu não tô ‘falando’ coisa com coisa, acho que tô ficando maluco de tanta fome. A dor também tá foda... eu só... cara, eu só queria dormir. Sabe, dormindo, a dor vai embora... a fome vai embora... e este frio... e ainda é verão... eu precisava tanto dormir...”

Ou Milo foi atendido... ou distrair-se pensando se falava com alguma forma superior o ajudou.

O fato é que, como por um milagre, o policial adormecera.

*************

Notas finais
(1) Chrysaor, na série Saint Seiya o General Marina Krishna de Chrysaor, é na verdade cingalês (natural do Sri Lanka), mas Milo acha que o religioso é descendente de indiano. Por acaso, conheci uma moça do Sri Lanka no Japão, um dos seres mais doces que conheci em toda vida. Me ensinou que "Eu te amo" em cingalês se fala "Aderei" ^^ (2) A fala do ancião que comanda a triagem de Milo se refere à mensagem encontrada em Mateus 6 : 25 - 34 e Lucas 12 : 22 - 34. Reproduzo aqui a versão de Mateus: Mateus 6 25 "Portanto eu digo: Não se preocupem com sua própria vida, quanto ao que comer ou beber; nem com seu próprio corpo, quanto ao que vestir. Não é a vida mais importante que a comida, e o corpo mais importante que a roupa? 26 Observem as aves do céu: não semeiam nem colhem nem armazenam em celeiros; contudo, o Pai celestial as alimenta. Não têm vocês muito mais valor do que elas? 27 Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja à sua vida? 28 "Por que vocês se preocupam com roupas? Vejam como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem tecem. 29 Contudo, eu digo que nem Salomão, em todo o seu esplendor, vestiu-se como um deles. 30 Se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, não vestirá muito mais a vocês, homens de pequena fé? 31 Portanto, não se preocupem, dizendo: 'Que vamos comer?' ou 'Que vamos beber?' ou 'Que vamos vestir?' 32 Pois os pagãos é que correm atrás dessas coisas; mas o Pai celestial sabe que vocês precisam delas. 33 Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas serão acrescentadas a vocês. 34 Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã trará as suas próprias preocupações. Basta a cada dia o seu próprio mal." (3) Milo faz distinção entre revista íntima e intervenção corporal porque, conforme o nome pode sugerir, na segunda há manipulação invasiva do corpo do revistado, podendo ser inspecionadas as partes íntimas, canal retal e vaginal. Esta, OFICIALMENTE, é proibida no Brasil, porém permitida nos Estados Unidos, especialmente nos presídios. (4) Cafarnaum (do hebraico "Aldeia do Consolo") foi a cidade em que Jesus e seus discípulos iniciaram a vida ministerial. Alguns dos apóstolos foram chamados para seguir a Cristo nesta localidade. ************* É, Camus nem deu as caras neste capítulo, foi só Milo se lascando xD E tá só começando... Ah, tenho um grupo no Facebook onde posto informações e curiosidades relacionadas a esta e às outras fics, taqui ó https://www.facebook.com/groups/1690225937895246/ Obrigada por prestigiar, até a próxima! o/