Redentor

45 Religare - Ato III : Passado e Névoa


Notas iniciais
Olá! Antes de mais nada, os costumeiros pedidos de desculpas pela demora da atualização. Conforme expliquei no grupo das fics no Facebook, foi um ano muito ocupado, com trabalho pelo teto, viagem a trabalho, dentre outras questões. A atualização, que viria no início deste mês de janeiro, foi atrasada em razão de mais uma internação de minha mãe, infelizmente, a última... ela não resistiu e veio a falecer no dia 10/01/2024, o que me devastou, me devasta. E é a ela que dedico este capítulo. Muito obrigada pelo apoio recebido. Obrigada pelos comentários no último capítulo. Há duas notas do capítulo, caso se interessem em averiguar. Boa leitura! E um Feliz 2024!

“Eu perdi tudo. Tudo. Família, amigos, emprego, bens, tudo, tudo eu deixei, por causa da minha fé cega. Eu realmente acreditava em tudo aquilo, de todo o meu coração. Na verdade, eu não perdi, né? Eu ABRI MÃO de tudo.”

Via-se nos lampejos nas irises azuladas da mulher a sua luta para não se render ao pranto durante o depoimento. Ela parecia resoluta a não permitir que lágrimas invasoras a impedissem de continuar, afinal, sua voz embargara nas últimas palavras. Se por acaso capitulasse, sabia o que viria a seguir, a exemplo de alguns que falaram antes dela. Não, ela queria falar até o fim. Sua determinação fazia-se inegavelmente visível.

“Meus pais tentaram me alertar, o que eu vi como uma artimanha do Maligno para evitar que eu seguisse o caminho até a Salvação. Eu até propus que eles fossem comigo, que pedissem para entrar na Comunidade também, mas eles disseram que eu estava louca...”

“E seu marido? Tentou dissuadir a senhora de ir para a Comunidade?”

“No início sim, bastante. Quando ele viu que eu não ia desistir, e, pior, que pretendia levar nosso filho, na época com 6 anos, ele foi embora... com nosso filho. Faz sete anos que não vejo meu menino.”

Naquele momento, Shelby Robson perdeu a batalha que tão arduamente travava e grossas lágrimas deslizaram por suas faces castigadas pelos elementos através dos anos. “Eu tinha herdado a casa de uma tia, de modo que, prontamente, a entreguei para a Igreja, assim como meu carro, minhas joias, tudo que tinha... e, por fim, a mim mesma.”

“Então a senhora ficou 7 anos no Vale da Aurora Dourada. Como era viver lá?”

“Logo para entrar de vez passei por duras provas para ser definitivamente admitida... fome, frio, punições por vacilar e murmurar... digo, chorar... é que eu tinha tanta fome...”

“Que tipo de punições?”

“Aconteceu de me baterem duas vezes, mas porque reclamei de fome. Eu não me revoltei, pois achava que era o certo, que eu devia ser punida. Eu tinha que aceitar, se quisesse fazer parte daquela Comunidade. Mas, depois, acreditei estar no Paraíso. Num paraíso de paz e harmonia com meus irmãos. Quando vi o rosto do Redentor, bem à minha frente, na noite em que fui apresentada à congregação, eu soube que todo meu sacrifício havia valido a pena, sabe? Ele tinha algo no olhar que nos dizia que era MESMO o Salvador.”

“Por quê?”

“Havia uma mistura de tristeza, dor e ternura no seu semblante sempre sereno. Como se ele sofresse, e, ao mesmo, sofresse por nos ver sofrer. Vê-lo passar pelos Suplícios justificava os nossos. Fazia com que os nossos parecessem pequenos. Insignificantes.”

Quase sem piscar, Camus engoliu em seco. Seu coração comprimiu-se em seu peito gelado novamente.

Seguiu-se uma série de depoimentos de pessoas que haviam pertencido à Comunidade do Vale da Aurora Dourada. O documentário dava voz àqueles que um dia foram as “Ovelhas” do Redentor. Pela primeira vez, ele, em pessoa, as ouvia, de fato. Conhecia-lhes as duras rotinas como colonos da outrora Santa Cidadela, mas, apesar de ter travado conhecimento semelhante durante o inquérito, a dinâmica daquele programa televisivo trazia-lhe sensações diferentes.

“Meu filho permaneceu no Complexo de Punição por uma semana, por levantar alguns questionamentos que, claro, nunca eram bem-vindos”, relatava um senhor com olhar fatigado. “Não podíamos pensar, o que diria questionar! Ele nunca mais foi o mesmo depois que saiu... não nos contava o que lhe fizeram. Chorava todas as noites, tinha pesadelos horríveis, achávamos até que estava possuído ou amaldiçoado. Então, ele... ele...”, soluçou alto e dolorosamente, “atirou-se ao rio que corria detrás da plantação onde trabalhávamos. Sammy... meu Deus... meu Sammy... ele só tinha dezenove anos...”

Instintivamente, Camus pôs a mão no peito.

“Alguns de nós... talvez muitos... sabiam que algo não era certo. Mas o que podíamos fazer? Vi meu marido ser açoitado mais de uma vez. Presenciei pessoas sendo presas ou tendo seus trabalhos forçados dobrados, triplicados.”

“É verdade”, uma mulher de traços latinos interrompeu a que falava, “eu mesma, por ter me recusado a castigar meus filhos com vergastadas, por terem escapado de uma das preleções para brincar, as recebi, aumentadas em dez vezes... e fui obrigada a, além de meus serviços usuais, cortar e carregar lenha por todo tempo restante, usando uma mordaça para não comer nem beber nada durante o trabalho...”

“Era o medo”, declarou um rapaz que aparentava pelo menos vinte anos a mais do que deveria ter, “um medo que tinha várias faces. Medo do que nos fariam. Medo de desagradar a Deus. Medo de perder a salvação pela qual estávamos ali... pela qual o Redentor tanto sofria...”

“Tudo podia acontecer no Complexo da Punição. Espancamentos, afogamentos, queimaduras, sessões de eletrochoque”, enumerava um homem de barba ruiva, imensos sulcos a lhe marcarem a face macilenta. “Não era apenas o castigo, mas a forma de ‘expulsarem’ os demônios dos colonos que ‘vacilavam na fé’, o que não apenas os arrastariam, segundo acreditávamos, para o inferno, como também contaminaria os demais.”

− Ca... Capella! – Exclamou Camus, os olhos avelã tão arregalados que doeram.

“Então essas punições serviam de ‘exemplos’, também?”

“Sim, muitas vezes. Mas eu reconheço que havia uma categoria de castigos que serviam mais a propósitos puramente sádicos que propriamente de correção... ou de exemplo.”

“Isso incluía violências sexuais?”

“Sim, incluía.”

“Contra mulheres?”

“Mulheres, homens... e... não importava a idade. Sim, acontecia, sim.”

A mão trêmula de Camus cobriu-lhe a boca aberta.

“O senhor, como um dos auxiliares mais próximos do ‘Grande Pai’, participava dessas sessões de tortura nesse lugar?”, indagou a repórter, a voz mais baixa que o usual.

Capella abaixou a cabeça.

“Sim. Eu fazia parte do grupo dos Vigias. O mais próximo de Hades. Eu não era com frequência designado para tal, porém... algumas vezes... sim, estive lá.”

“Mencionou que ‘não importava a idade’. Crianças... TAMBÉM passaram por isso, é o que quis dizer?”

“Eventualmente. O mais comum, no entanto, é que os pais fossem orientados a punirem seus filhos. Havia casos em que a criança ou o adolescente recebia a pena, mas, podia ser um modo de ‘dobrar’ seus pais...”

− Camus.

O jovem teve um leve sobressalto ao ouvir seu nome na sala escura.

− Milo! Eu... e-eu já ia desligar – Procurou o controle da TV.

− Não, não precisa desligar – Disse o loiro, em tom nitidamente sonolento. Sentou-se no sofá, ao lado do parceiro. – Eu não ia ralhar contigo por estar assistindo isso, não, relaxa.

− Ah, não? – Murmurou, como uma criança pega em falta, com o controle na mão, olhando para o agente e não para a TV.

− São quase quatro da manhã. Por que perdeu o sono? Teve algum pesadelo?

− Não...

− Não tá mentindo, não, né?

− Não! Eu juro.

− Hunf. Não precisa tanto. – O policial recostou-se, mirando as imagens do documentário.

− Capella apareceu no programa, Milo!

− É, ele tá colaborando bastante, bem que o Saga disse.

− São pessoas falando do que passaram... lá – Pôs-se a explicar, como se o outro não soubesse do que se tratasse. – A June, o Albior e o Aldebaran também deveriam dar seus testemunhos na TV. Por que eles não falam nesses programas, também?

Após bocejar longamente, Milo respondeu:

− Não foi por falta de convite, te garanto. Jornais e emissoras chamaram os três para darem seus depoimentos nesses especiais sobre o caso, só que, até agora, eles se recusaram.

− Mas por quê? – O ruivo parecia legitimamente intrigado.

− June e Albior, por serem próximos a você. Aldebaran, por ser próximo a mim. Ou seja, por serem nossos amigos, eles preferiram não se expor, ao menos, por ora.

Camus voltou a olhar para a frente.

− Não entendo. Eles deveriam... que eu não possa falar, é compreensível, mas eles...?

− Foi uma escolha deles. Ninguém os proibiu. No seu caso, nós achamos melhor te preservar, mesmo. Mas... você queria ir a esses programas? Queria ser entrevistado?

Um tanto sem jeito, o ex-Redentor apertou as mãos enquanto respondia vagarosamente:

− Um dia, talvez. Acho que eu... devo isso a essas pessoas.

− Camus, você não deve NADA a ninguém. – Volveu Milo, com firmeza no tom baixo e cúmplice.

Balançando a cabeça como que negando, Camus retrucou:

− Vocês sempre falam como se eu tivesse sido a pessoa que mais sofreu no Vale. No entanto, muitas e muitas pessoas sofreram lá!

Milo segurou as mãos de Camus.

− Amor, você era o FILHO do maníaco que criou toda essa merda. Você foi aprisionado e torturado pelo próprio PAI, por malditos 17 anos. Eles... foram por um LÍDER. – Argumentou, assertivo.

− Mesmo assim, muitos sofreram como eu! Milo...

− Que é, anjo?

Os olhos avelã baixaram como temerosos de encontrarem com os da cor do céu outonal.

− Eu... nunca perguntei isso, mas... é possível eu ir... aonde meus irmãos estão enterrados?

Com um breve suspiro, o policial confessou:

− Não é que eu não esperasse que você quisesse, um dia, pedir isso. Só não esperava que seria às vésperas do julgamento... – Considerou o amado, com cautelosa hesitação. – Você... quer visitar o túmulo deles?

Seguro, o ruivo assentiu.

− Se eu puder, sim.

− Eu nunca te proibiria de nada, Camus. Quando eu tentava te impedir de ver esses programas, notícias e tal, era pra te preservar. Tanto de lembranças desagradáveis quanto do fato de que há, sim, gente que NÃO acredita que você é uma VÍTIMA da seita.

− Eu sei. E agradeço por seu cuidado. Mas se agora vou viver “neste mundo”, não haverá como fugir para sempre de certas coisas.

Repleto de admiração e carinho, Milo abraçou-o.

− Você é o homem mais corajoso que já conheci.

− Eu? – A surpresa do ruivo foi sincera, autêntica, por mais que aquela não fosse a primeira vez que ouvia aquilo do amado.

O agente preferiu abster-se de explicar. Afastou-se um pouco para encará-lo ao indagar:

− Quer mesmo visitar o túmulo de Radamanthys e Algol?

− Quero.

− Certo. Vou te levar lá hoje.

*************

Com o frio que estava fazendo naquela manhã de 3 de novembro de 2018, o “disfarce” de ambos não se fez nem um pouco incômodo, principalmente para Milo, mais friorento que Camus. O policial aprendera a duras penas que também deveria manter a identidade oculta ao frequentar espaços públicos, já que sua presença em algum lugar prontamente implicava a do “Redentor”, cuja figura despertava curiosidade por vezes à beira da histeria, bastava lembrar do episódio no estacionamento no Aquário de Green Meadow (1). Os dois traziam os cabelos presos por baixo de toucas de lã sob os capuzes de suas jaquetas impermeáveis de semelhante tom escuro, bem úteis para o tempo instável, de chuviscos intermitentes.

Com irritação, Milo, ao volante, lembrava dos repórteres e curiosos em frente ao condomínio em que vivia. Depois que a informação de que o “ex-messias” estava abrigado na casa do agente que o resgatara vazara na mídia, descobrirem o endereço do loiro fora uma consequência até esperada, mas não com aquela presteza. Dia após dia, o número de pessoas aumentava e, provavelmente, a situação pioraria após o julgamento de Hades, quando, enfim, Camus pudesse dar entrevistas e o caso, abastecido de novos e sórdidos detalhes, obtivesse fortalecido fôlego nos meios de comunicação.

“Não vamos poder continuar morando ali”, pensou, aborrecido, pois mudança de domicílio não era, de forma alguma, algo previsto para os próximos meses.

− O que foi? – Camus perguntou, intrigado com o estalo de língua que Milo, sem perceber, deixara escapar.

O loiro simulou um ar bem-humorado.

− Nada, nada, não!

− Te aborrece fazer isso?

− Hã? Fazer isso, o quê?

− Me levar até o cemitério, onde...

− Ah, isso? Não, amor, que nada! Se é o que você quer fazer, não me aborrece, não.

− Tive a impressão de que estava pensando em algo desagradável.

− Tava, sim, meu anjo, mas não era nisso, relaxa.

Camus pensou em perguntar do que se tratava, contudo, preferiu não fazê-lo, e ocupar-se da vista da estrada, pontilhada por miríades de gotículas prateadas.

Cerca de 40 minutos depois...

− Chegamos – Anunciou Milo, manobrando a pick-up para estacionar.

Desceram do automóvel; havia pouca gente por ali, porém, precaução nunca se fazia excessiva. Não se sabia de onde poderiam sair câmeras, microfones, repórteres, curiosos.

A chuva fina mergulhava na tênue névoa que abraçava o solo verdejante. Caminharam em silêncio por vários minutos, o vento frio fustigando-lhes as poucas partes descobertas do corpo. E ainda faltava mais de um mês para o inverno! Se ali estava daquele jeito, como não estaria Grayville, tão mais ao norte, a terra que abrigara a outrora Cidade Santa da qual viera o jovem que, sem demonstrar qualquer hesitação, avançava pelas úmidas sendas, das quais lápides brancas emergiam aqui e ali. Após olhar Camus de soslaio por uns instantes, Milo tirou o celular do bolso para confirmar a localização do que buscavam.

− Por aqui, Camus – Disse, resistindo ao impulso de tomar-lhe o braço.

Seguiram pela esquerda, enveredando por uma alameda desguarnecida de árvores. Somente a relva, as lápides, a neblina e, acima deles, o céu de um onipresente e quase cansativo branco. Para ele, Camus erguia seus olhos, evocando aquela distante terra, agora morta como seus irmãos, que um dia chamara de “lar”.

Lar.

Sorriu por trás da grossa pescoceira de lã chumbo.

Como poderia chamar aquele INFERNO de “lar”? Assim como não poderia chamar aqueles cujos jazigos procurava de “irmãos”.

De “família”.

E ainda assim...

Deteve-se ao ver Milo parado diante de uma fileira de pedras tumulares.

− É aqui – O loiro anunciou, simplesmente.

A passos lentos, o “ex-messias” aproximou-se daquelas bem defronte o parceiro. Sentindo-se dentro de um sonho, tornou os olhos para as lápides, lado a lado, sem qualquer flor, adorno ou foto.

“Radamanthys De La Faure – 30/10/1992 – 05/09/2018”

“Algol De La Faure – 11/11/1996 – 05/09/2018”

Imóvel, o ruivo ficou apenas olhando, olhando... Milo nada disse, nada fez, a não ser pôr as mãos nos bolsos da jaqueta molhada.

Ali dormiam os homens que, assim, como ele, foram gerados por Armand e Marie de La Faure, anos antes da Igreja Aurora do Novo Porvir surgir e condenar as vidas de todos.

Homens que causaram-lhe tanta dor, e que, a despeito disso, chamara de “irmãos”.

− Você tá bem? – Quis saber o policial, num fio de voz.

Um discreto menear de cabeça foi toda resposta capaz de Camus dar no momento.

− Caramba, olha só! – Comentou Milo, rindo discretamente. – Os dois eram do mesmo signo que o meu!

− Signo?

− Sim, Escorpião... que coincidência bizarra!!!

Ainda que Camus claramente não entendesse do que Milo falava, este continuou:

− Só que eu faço aniversário dia 8 de novembro, hehehe.

− Você faz aniversário daqui a cinco dias? – Sussurrou o ruivo. – Meus irmãos nunca mencionaram nada acerca de datas de aniversário. Bem, de qualquer forma, o tempo não existia para mim.

− Você sequer sabia do seu próprio...

− É.

− Quando eles foram enterrados aqui?

− Hum... foi quando estávamos naquele hospital de Portland nos recuperando.

− Por isso não pude estar presente...

Com um aperto no coração, Milo rememorou:

− Os dois morreram no dia da batida policial no Vale. Assim que foi feita a autópsia em cada um, foram sepultados neste cemitério público.

− Autópsia? O que é isso?

− Uma espécie de exame que é feito no corpo após a morte.

Camus franziu as sobrancelhas, incerto de que entendera.

− Um exame médico após a morte? E para que, se a pessoa já está morta?

− Bom, basicamente... para confirmar ou averiguar a causa da morte.

A estupefação do ex-Redentor beirava a revolta.

− Mas eu não contei que Rada ATIROU em Algol? E todos não presenciaram Rada ser abatido pela polícia?

Com paciência, Milo elucidou:

− Ainda assim, é necessário.

− Não entendo.

− Camus, tudo precisa ser comprovado, entende? Periciado. A autópsia confirmou seu testemunho acerca do assassinato de Algol.

− Absurdo – Grunhiu, virando-se de costas para Milo. – E no caso de Rada? Precisavam COMPROVAR o que TODOS viram?

− Precisavam comprovar a causa CLÍNICA da morte. Se foi imediata, se foi de hemorragia, se foi a caminho do hospital... entende?

− Não – Admitiu, fechando os olhos, como que cansado. – E por que não os enterraram no cemitério do Vale?

A chuva fina escasseara de vez. Milo tirou as mãos dos bolsos, cruzando os braços, enquanto respondia sem rodeios:

− NÃO existe mais o Vale. Consequentemente, não existe mais o cemitério, ao menos, não para novos sepultamentos. Aquela área, agora, pertence ao governo.

− Mas... e as pessoas que lá repousam?...

− Não tem importância, Camus – Cortou-o, sério. – Tudo é passado, assim como a maldita Comunidade, a maldita seita!

Novamente o silêncio instalou-se entre eles. Memórias muito antigas vinham visitar Camus, envolto naquela névoa que serpenteava nascida do chão.

“Rada! Algol! Que estão fazendo?”

“Estamos brincando, papai!”

“Eu já não falei que NÃO podem brincar? Muito menos com o Camus?”

“Mas, veja, papai, o Rada fez cavalinhos de madeira pra gente brincar! Não é, Camus?”

“É, sim...”

“Eu já DISSE que não é para vocês brincarem! Brincadeiras são coisas do DEMÔNIO! Ele as inventou para desviar nossa atenção das coisas SANTAS!”

“Pai, não! Não faz isso! Devolve nossos cavalinhos!”

“O quê? Rada, você OUSA erguer a voz para mim?”

“Papai, por favor, não bate no Rada!”

“Você também, Camus? Logo você? Também se atreve? Então vai ser o primeiro, venha!”

“Eu vou, mas, por favor, não bate no Rada!”

“Camus, NÃO! Escuta, EU sou o irmão mais velho, tenho responsabilidade sobre vocês! Então, EU serei castigado, não tem importância. Tá?”

“Não, Rada!”

“E vai também aprender a não desperdiçar nossos recursos com baboseiras!”

“Não, papai, não jogue na fogueira nossos...”

“CALE-SE, Algol! Por acaso quer ser castigado como eles?!?”

“Pelo amor de Deus, Armand, são CRIANÇAS! Pare com isso!!!”

“Sua meretriz... pelo visto, quer ser castigada com seu primogênito... muito bem, cadela, seu desejo é uma ORDEM!”

Ao ver o amado cerrar os olhos com força, o policial tornou a perguntar:

− Camus, tá tudo bem?

Abrindo os olhos, sem deles desviar a visão dos sepulcros aos seus pés, Camus murmurou:

− Nem sempre foi assim.

− O quê? – Fez Milo, sem entender direito.

Aumentando a voz, Camus pontuou calma e melancolicamente:

− Rada nem sempre foi... mau comigo, sabe? Houve uma época em que ele me protegia. Me amava. Ele só mudou... tempos depois.

− É mesmo? É difícil de acreditar, mas...

− Algol também era um bom irmão, quando éramos bem novos.

− Camus...

− Eu acredito que foi Hades quem semeou o Mal neles. Que os transformou em... – Ia falar “monstros”, mas, por algum motivo, diante de suas sepulturas, não teve coragem, e se sentiu patético por aquilo.

− Não importa, Camus. Isso não apaga o fato de que foram cruéis contigo. Com June, Albior e Jacó. Com Pandora, Ikki e Shun. Com Chrysaor. E com quantos outros...!

− Sim, eu sei. – Concordou, em meio a uma desanimada certeza. Não que diminuísse a intensidade do sentimento inexplicável que o absorvia como a umidade daquele dia.

Olhou ao redor, sem evitar comparar a austeridade da vista ao seu alcance com a exuberância do Vale, cuja necrópole tinha como guardiãs as imponentes montanhas a se insurgirem contra o firmamento.

− Podemos ir – Declarou. – Ao menos, ISTO foi resolvido.

E, com resignação, acrescentou:

− É como se tudo que eu quisesse saber estivesse envolto por esta mesma névoa que nos cerca... pelo menos o túmulo de meus irmãos não me é mais um mistério.

− E o que mais lhe seria um “mistério”?

− Tantas coisas – Respondeu, com um erguer de ombros.

− Refere-se à dúvida que te fez ir até o presídio onde Hades está?

Um súbito rubor no rosto de Camus seria desvendado, não estivesse ele tão coberto.

− Não quero falar disso. – Tornou, ríspido, em um volteio, fazendo menção de sair dali.

− Olos me contou.

− Eu sei.

− Eu digo... me contou sobre seus questionamentos a Hades. A resposta que você procurava.

O ruivo pôs-se se andar, como em uma fuga àquela recordação. Milo seguiu-o.

− Acho incrível que ninguém tenha te dado a resposta certa – Falou, caminhando logo após – porque EU a tenho.

Apertando o passo, Camus volveu, exasperado:

− Nem mesmo Saori, em quem você confia como a pessoa mais indicada para me dar respostas, pôde encontrá-la.

− Pois EU encontrei, você não quer ouvir?

Alcançou-o e agarrou-lhe o braço, puxando-o de súbito até que seus olhares se encontrassem.

− Milo, eu NÃO quero mais falar disso! – Bradou, entre autoritário e suplicante.

− Por ser PAI, eu não tinha uma resposta pra você. Como um pai pôde fazer ao próprio filho as coisas que ELE te fez? Não, como PAI, eu jamais teria como entender e, consequentemente, te dar uma resposta...

− Eu não me importo mais, não precisamos...

− Mas como um POLICIAL, como alguém que está há anos nesse ramo, em contato com tudo o que há de mais BAIXO no ser humano, eu POSSO te responder.

− Milo... por favor... – Suplicou Camus, tentando se desvencilhar.

A chuva voltara, fina e fria. O ar condensava-se e formava nuvenzinhas diante do agente quando este prosseguiu:

− Por que ele PÔDE.

Por uns instantes, os olhos avelã fitaram-no vidrados, estáticos.

− É claro que ele pôde! Mas POR QUE o fez?

− A única razão foi simplesmente ESSA, você não entende? Camus, ele NÃO tem sentimentos. Logo, não sente remorso, arrependimento, nada! Hades é um maldito narcisista que só fazia o que queria porque não encontrava obstáculos! Ele te usou apenas por isso... porque PÔDE. Porque PODIA. Porque escapava impune.

Milo percebeu que o amado tremia bastante. Efeito de suas palavras, conjugado com o frio, com a umidade, decerto... sem ouvir-lhe qualquer réplica, disse, com autoridade:

− Vamos voltar pro carro. A chuva tá apertando. − Não houve qualquer resistência quando o segurou pelo pulso e o conduziu.

Malgrado se sentisse impelido a olhar para trás, até que as lápides lhe sumissem da vista, Camus não o fez. Olhou em volta, esperando ver por detrás do tronco de alguma daquelas árvores uma silhueta... ou melhor, duas...

Mas nada viu.

“Agora sei e aceito... vocês estão mesmo mortos...”

*************

Não demorou muito tempo na estrada para que Milo decidisse parar num café.

− Você precisa tomar algo quente. Não quero que fique resfriado por causa... – Quase falou “daqueles filhos da puta”, contudo, freou a língua. – ...da chuva.

− Eu estou bem.

− AGORA. Melhor prevenir. E, de mais a mais, também quero um café.

− Você? Só o ouço dizer que quer cerveja.

− Bom, eu super tomaria uma, hehehe, mas tô dirigindo – Riu, pensando em como há algum tempo, aquilo de forma alguma seria impeditivo...

Adentraram aquele simpático estabelecimento de madeira pintado de branco e vermelho, com cortinas em xadrez de mesmas cores em cada uma das janelas salpicadas pela chuvinha insistente. Era tão atraente por fora como por dentro, com bancos acolchoados de couro carmesim junto às paredes repletas de pequenos quadros com motivos “vintage”, demonstrando ser tão aconchegante quanto seu exterior prometia.

− Pois não? – Uma garçonete jovem de sardas e grandes olhos verdes foi atendê-los, assim que tomaram assento.

− Dois cafés duplos, sem açúcar, um com creme e... hã... – Virou-se para o companheiro. – Quer comer algo?

Camus fez um gesto negativo com a cabeça devidamente coberta.

− Então é só isso mesmo, por favor – O policial confirmou.

− É pra já.

A moça retirou-se para providenciar o pedido. No balcão, do outro lado do pequeno salão, algumas pessoas pareciam discutir com um dos atendentes.

− Tira desse programa besta! Tá passando a cobertura “do caso do Redentor” na CNN!

− Cara, isso tá passando em QUASE TODOS os canais, eu deixei aí justamente porque é uma coisa diferente pra ver – O funcionário defendeu-se, apontando para o telão instalado na parede; tratava-se de um show de música country...

− Ei, Norman, nunca ouviu falar que “o cliente tem sempre razão”? – Bradou um senhor, em uma mesa próxima à ocupada por Milo e Camus. – Bota logo nas notícias, homem!

− Ah, essa não... – Suspirou Milo, desalentado.

Vencido, o funcionário do café mudou de canal...

“... todo o país espera ansiosamente pelo desfecho desse caso, o que, entretanto, está muito longe. Armand De La Faure enfrentará julgamentos por vários crimes, sendo que já se encontra preso devido à condenação por lavagem de dinheiro, tráfico de influência, corrupção, enriquecimento indevido, fraude, estelionato e suborno. A partir de agora, o fundador da seita enfrentará o júri popular para responder por crimes cometidos contra os Direitos Humanos, tanto contra os colonos que povoavam a Comunidade Vale da Aurora Dourada, quanto contra seu próprio filho, Camus De La Faure, o ‘Redentor’, que era...”

Em um gesto brusco, Milo ergueu-se do assento.

− Vamos embora daqui.

− Não é preciso. – Falou o ruivo, calmamente.

− Como não? Toda hora essa merda de...

− Senta, vai chamar mais a atenção assim.

− Mas...

− Está tudo bem. Vamos só tomar nosso café, OK? – E apoiando o queixo com a mão enquanto tornava o olhar desinteressado para a TV, acrescentou: − De mais a mais, agora fiquei realmente com vontade de tomar café com creme.

Contrariado e, ao mesmo tempo, admirado com aquela atitude, o policial voltou a se sentar.

“... mas é indiscutível que o julgamento que acontecerá no próximo dia 6 é o que mais atrai a atenção, pois aquele que um dia foi chamado de ‘Grande Pai’ da seita Igreja Aurora do Novo Porvir estará frente a frente com seu filho Camus De La Faure, a quem pôs o título de ‘Redentor’ da doutrina que criou em...”

− Esse MONSTRO tinha era que ir pro corredor da morte pelo que fez com o filho! Pena que não tem mais pena de morte, agora... (2)

− Ah, fala sério, Elise, você é desses tontos que acreditam que o cara tava mesmo inocente na parada? – Rebateu um rapaz de boné branco ao lado da jovem que enunciara a opinião. − Era tudo combinado! Agora que derrubaram a seita, ele tá tirando o corpo fora...

− O filho dele era OBRIGADO a ser o Redentor, Greg, pelo amor de Deus!

− Bah, você fala isso só porque acha o cara bonitinho, admite, vai! Aí fica com peninha...

− Você é um ridículo, mesmo! – Ela se afastou dele, injuriada: pelo visto, eram namorados.

− Qualé, Greg, cê acha que alguém ia mesmo ser torturado como o coitado era, por puro teatro? Tem centenas de testemunhas, mano – Ataviou um jovem negro de dreads sob uma grossa touca de lã marfim.

− Ou estuprado nos rituais malucos lá? Não tem como um homem se sujeitar a isso, nem pra ganhar alguma coisa – O atendente do balcão acabou por se meter.

− Ah, porra, vai saber se o cara não gostava? Aí, ficava fácil fazer a encenação.

Milo contraiu o punho sobre a mesa. Agarrou o pulso de Camus e disse entre dentes, contendo a raiva a todo custo:

− Você NÃO tem que ficar ouvindo isso, vamos embora, JÁ.

− Eu vou ouvir muitas e muitas vezes, ainda. Não se preocupe comigo. – Malgrado seu semblante denotasse amargura, assegurou, em voz baixa: − O pior já passou, Milo. De que forma ISSO pode ser pior do que a vida que tive... LÁ?

Assentindo, conquanto a contra gosto, o loiro soltou o pulso do ex-Redentor. Camus completou:

− A única coisa que poderia ser pior para mim, agora... seria te perder.

− Isso não vai acontecer NUNCA!

− Nesse caso, com o que mais devo me afligir? – Volveu o ruivo, com um sorriso tão doce que fez o coração do agente estremecer.

− Aqui está, desculpem a demora – A garçonete chegara com os grandes copos fumegantes.

Eles agradeceram e tentaram tão somente se ocupar com suas bebidas; procuraram ignorar os comentários inflamados que continuavam a ecoar no recinto.

− Quer dizer que seu aniversário é dia 8 de novembro? – Habilmente, Camus tencionou desviar a atenção do companheiro.

− Sim! E o aniversário deste ano terá um sabor todo especial!

− Por quê?

− Ora, porque você estará comigo, e, também, porque vou ver aquele desgraçado pegar uma pena BEM pesada!

− Dia oito? Mas o julgamento não é dia seis?

− A previsão é de que dure dois ou três dias.

− Ah, sim, Saga tinha mencionado algo do tipo. E... quando serão os demais julgamentos? Em que meu... em que Hades responderá pelo que fez às outras pessoas?

− É difícil precisar agora. São tantas, as vítimas dele, direta ou indiretamente... sua mãe Marie, Albior, Ayana, Tabitha... e as centenas de ex-fiéis que estão processando o canalha. Não esqueça as demais denúncias de assassinato, incluindo...

− Cindy e a família dela – Lembrou Camus, baixando o olhar triste.

− Isso tudo pode levar anos, Camus. O importante é que, durante esse tempo, ele estará preso, respondendo por mais e mais processos. Bem longe de você... de todos nós!

Uma sombra de dúvida pairou na expressão do ruivo.

− Você tem certeza mesmo de que ele será condenado no julgamento desta semana?

Aturdido, Milo encarou-o. Respondeu quase sufocando:

− Mas é CLARO! Com tantas provas, com tantas testemunhas, com o VÍDEO que fiz, com tudo que existe, NÃO tem jeito de o miserável escapar!

Ao mencionar o vídeo da Santa Ceia, o agente desviou o olhar, constrangido.

− É desagradável, mas ele terá de ser exibido durante a audiência no Tribunal.

− Sim, Saga me explicou – disse Camus, tentando parecer despreocupado. – para aqueles a quem vocês chamam “Júri”, a fim de que eles decidam, certo?

− Exatamente.

Após sorver mais um gole do café com creme, um calor agradável percorreu o corpo do ex-messias. Sentia-se confortável, apesar do teor da conversa. Olhou para o telão, o qual entretinha sobremaneira os que continuavam a debater sobre o caso da Igreja Aurora do Novo Porvir.

− É monstruoso pensar que você passava por aquele horror todos os anos. – Comentou Milo, com ódio.

− Se ainda se refere à “Santa Ceia”, não sei se é um consolo para você, mas, ao menos, não me lembro muito bem dessas... ocasiões. Afinal de contas, eu estava sempre drogado.

Arrepios correram pelo corpo aquecido do tenso policial.

− Não chega a ser um consolo. Até porque isso colocava sua vida mais em RISCO ainda.

− Chrysaor era um excelente médico, ele tomava muito cuidado ao administrar as dosagens.

− Eu me pergunto como um homem íntegro como ele se dispôs a cumprir os desmandos de Hades – Pontuou Milo, logo se dando conta de que o comentário fora despropositado. Ele conhecia as razões. Em seguida, acrescentou:

− É pena que ele não conseguiu se salvar.

− Ele morreu defendendo a mim e a June. – Camus lamentou, com pesar.

Tomando-lhe as mãos, Milo garantiu, com fervor:

− Nós vamos honrar o sacrifício dele condenando Hades. Você vai ver.

− Tantos sofreram... tantos se foram... Pandora... Ikki... Shun... minha mãe... Cindy e a família dela... a de Aldebaran... tantos, tantos outros!

− Camus... – Milo apertou-lhe mais as mãos. Largou-as, porém, ao perceber alguns olhares em sua direção. Preocupou-se vivamente: será que, a despeito do tom baixo com que conversavam e do volume alto da TV e das vozes inflamadas dos que discutiam na lanchonete, tinham sido ouvidos?

− Vamos embora.

− Me desculpe, eu não queria...

− Não é isso, vamos logo – Insistiu o agente, já de pé puxando o jovem.

Deixou umas notas sobre a mesa, que excediam o valor do consumido, e saiu apressadamente, quase arrastando o parceiro.

*************

Chegaram ao apartamento por volta das 14h30. Milo pôs as mãos na cintura ao contemplar a vasta sala de estar.

“É isso, vou precisar vender este apartamento. Não só pelos curiosos de agora, mas pelos que virão daqui em diante. Esse caso não vai ser esgotado tão cedo”, refletia, considerando a quantidade de pessoas que se avolumava na frente do prédio.

Alguns repórteres chegaram a correr para a pick-up quando Milo esperava o portão eletrônico da garagem abrir. Habilmente, Camus havia se abaixado no banco do carona, consciente do que se tratava. O policial rangeu os dentes para não proferir a sequência de palavrões que lhe vieram à cabeça. Os cretinos estavam filmando, ele que não iria colaborar para o show que aqueles abutres queriam! Enquanto manobrava, curiosos quase se jogaram sobre o carro, no afã de ver o personagem principal da história sórdida que sacudira os corações e mentes do país.

“Não tem saída. Talvez comprar uma casa menor perto da praia? Como eu cheguei a pensar quando Saga falou em pôr Camus em uma instituição de saúde mental...”

− O que foi? – Indagou o ruivo, ante o alheamento do amante. Este deu-se conta de que divagava e se virou prontamente para o outro, sorrindo.

− Nada, não, amor! Só pensando umas coisas!

− Está pensando na confusão lá embaixo. – O ex-messias inferiu.

− Também, mas não é só isso – Mentir, ele não mentia. – Olha, vou tomar um banho. Faz o mesmo. Depois, agito algo pra comermos, tá?

− OK – Respondeu, sem mais insistir. Reparando que Antonio não fora recepcioná-los, inquiriu: − Onde está Aldebaran?

− Ele foi visitar June, Albior e Jacó. Aiolia e Marin ficaram de ir até lá e levarem todos para passear por Red Meadow.

− Entendo.

Deixando-o na sala, o policial rumou para a suíte.

“Que dia”, pensava, enquanto arrancava as roupas de si com impaciência. Enfiou-se debaixo da ducha, com a água abundante e quente a relaxar seus músculos quase que imediatamente. Preparava-se para lavar os cabelos quando viu a porta do box se abrir. Ficou verdadeiramente surpreso com o inédito fato de Camus, completamente nu, “invadir” seu banho. Por sua vez, já o fizera algumas vezes, mas não esperava o mesmo ato do ruivo. Este deteve-se em silêncio à sua frente, mirando-o de modo fixo e indecifrável. Os cabelos de imediato colaram-se ao corpo, úmidos e escuros, em um vívido contraste com a pele clara tão marcada de cicatrizes. O policial engoliu em seco, inconscientemente dando um passo para trás.

− Amor, era só falar que queria que tomássemos banho juntos, eu teria te esperado pra...

Foi calado pelos lábios desbravadores do ex-Redentor, que colou seu corpo ao dele com urgente prontidão, pés erguidos para alcançar-lhe a boca.

Quase gemendo de alegria, Milo correspondeu com ardor àquele beijo profundo e inesperado. A água tépida corria pelos membros unidos. Eles, que haviam chegado tão cansados física e emocionalmente, sentiram-se revigorados, energizados. Quase guerrearam para dar prazer um ao outro, começando por Camus, que ajoelhou-se diante de um boquiaberto Milo e buscou-lhe o sexo com as mãos e, a seguir, com sua boca ávida. O policial teve que morder os lábios para não elevar demasiado a voz, tamanho o deleite de estar entregue daquele jeito ao homem que tanto amava. Gozou fartamente, agarrando-se onde podia, gemendo como um alucinado. Camus chegou a se assustar, achando que tinha feito algo de errado. Antes que conseguisse perguntar, foi erguido por louca urgência por Milo, que tencionava deixá-lo na posição de receber a mesma dádiva com que fora agraciado. O loiro posicionou-se entre as pernas do amado e abocanhou-lhe o membro túrgido, arrancando do ruivo um gemido alto que o deixou mais afoito. Lambeu, sugou e aspirou com desejo incontrolável, que estalava em seu próprio sexo, até que sentiu a boca se encher do sêmen abundante de um Camus já sem fôlego de tanto prazer. Sem perder tempo, pôs-se de pé e ergueu uma das pernas de Camus, e depois a outra; os braços do outro enlaçaram-se no torso vigoroso do homem que o penetrava, enquanto mais uma vez suas bocas se encontravam sequiosas mesmo debaixo da água cadente. Milo arremetia-se dentro dele, aprofundando a penetração até tocar-lhe o ponto que o levou a gritar de prazer. O orgasmo foi mútuo e poderoso, tal qual o sentimento que os unia, que os uniria para sempre.

Sem se importar com as poças que ia deixando pelo corredor, Milo carregou-o até o quarto. Jogou-o na cama e a ele se atirou, cobiçoso de mais do que o já deixara satisfeito. Camus não se fez de rogado e abrigou-o mais uma vez dentro de sua carne pulsante, agarrando-lhe a ponto de arranhar-lhe as costas.

− Eu te amo, Milo – Declarou, em tom gemente.

− Eu também, Camus, eu te amo, muito, muito... aah! Eu morreria dentro de você!

− N-não diga isso... eu... n-nunca iria querer que você...

Um novo e profundo beijo impediu-o de continuar. As mãos uniram-se enquanto eles fremiam em meio àquele sublime e tórrido amplexo.

− Mi-Milo... e-eu... eu vou...

− E-eu também, meu anjo... de novo... juntos... vamos...

Em completo frenesi, o casal chegou ao estrondoso ápice, o frio extinto, o medo extinto, todos pensamentos extintos. Exauridos, um nos braços do outro, contemplaram-se plenos e ofegantes. Camus sorria em meio à respiração entrecortada.

− Você fica... tão lindo sorrindo... é a coisa mais linda que já vi em toda a minha vida – Milo balbuciou, extasiado, acariciando-lhe o rosto úmido.

− Você é o único responsável por isso. E também é a coisa mais linda que já tive diante meus olhos.

Ficaram um bom tempo assim, até que Milo beijou-o suavemente nos lábios macios.

− Esqueci do nosso lanche.

− Eu estou mais do que satisfeito.

− Ora, não é que o senhor está mesmo aprendendo a fazer trocadilhos?

*************

“É amanhã”, pensava Milo, programando o despertador para o dia seguinte. Olhou novamente para as malas prontas, no canto do quarto acarpetado. Deviam tomar o avião para Nova York às 9h, logo, teriam que estar no aeroporto por volta das 7h. Incrível como dois meses haviam se passado tão rápido...

Tantas coisas haviam acontecido!

Ele sequer tivera tempo de parar para fazer um balanço minucioso dos ocorridos desde o decisivo mês de setembro de 2018 até aquele momento. A descoberta (melhor seria dizer, a aceitação) do amor por Camus obliterava tudo, tudo... no entanto, uma vida se desenrolara naqueles 60 dias.

Olhou para Camus, já adormecido graças à medicação à qual não mais se opunha. Acariciou-lhe os cabelos ao retirar uma mecha teimosa sobre o rosto pálido.

Deitou-se ao seu lado e fechou os olhos, sob estranha comoção.

A punição de Camus que levara sobre si – levou a mão sobre as cicatrizes no peito e abdômen.

O beijo de agradecimento de Camus na cabana de Aldebaran.

A perseguição a Radamanthys.

Os dias no hospital.

Ele gritando para retirarem as amarras de Camus no leito.

Camus aninhando-se em seu colo após ser liberto.

Ele trazendo Camus para seu apartamento.

A primeira vez em que caminharam pelo deck da praia.

O desejo despertado ao ver Camus tomando sorvete naquele dia.

Os pesadelos de Camus.

Camus fazendo sexo oral nele.

Ele planejando afastar Camus de si... de sua vida...

A noite em que Camus fora até seu quarto.

E desde então...

A consumação do que estava escrito desde a primeira vez em que se viram. O desejo pungente não apenas de salvá-lo, mas de trazê-lo para junto de si, de fazê-lo feliz.

“Eu quero te fazer feliz... eu PRECISO te fazer feliz!”

Camus afirmava que já era feliz. Por estar ali, ao seu lado, livre, amado... mas...

“Não basta. Não basta. Não basta!”

Cerrou o punho, agarrando o lençol.

“Hades TEM que ser condenado.”

Sem aquela certeza, a felicidade de ambos era temporária. Frágil.

Seus companheiros asseguravam que a condenação máxima era certa. Então, como explicar a dor em seu peito sempre que pensava naquilo? Principalmente agora, a menos de 48 horas do grande julgamento, o principal deles.

Sua garganta apertava-se dolorosamente. Ele reviu em sua mente cenas do horrível suplício do garrote, sofrido pelo então Redentor, agora adormecido pacificamente a seu lado. Fechou os olhos subitamente úmidos.

“Hades TEM que ser condenado! Por favor, meu Deus, permita que haja JUSTIÇA! Tu és o Deus de justiça, o Deus dos justos, assim me ensinaram meus pais... por favor, se está me ouvindo, manda um sinal, QUALQUER UM, antes que eu enlouqueça! E eu NÃO posso, não agora, não quando preciso amparar Camus, por favor, manda um sinal...”

Então sentiu dedos suaves por sobre suas lágrimas, a enxugá-las ternamente. Ele abriu os olhos lentamente e viu diante de si o rosto sereno do ex-messias, envolto na meia luz que vinha do corredor.

− Não se aflija, Milo. Durma. Você precisa descansar.

O policial arregalou os olhos, arrepiado dos pés à cabeça.

− C-Camus? Você...

Foi gentilmente enlaçado pelo ruivo, que o trouxe para mais perto de si.

− Camus... eu...

E viu que Camus, ao que parecia, já havia se rendido ao sono.

“Por acaso eu rezei em voz alta?”, pensou.

Mas tinha CERTEZA de que não.

E... por que, afinal, ele, de todas pessoas, teria feito uma PRECE?

Achou que aquilo não o deixaria dormir tão cedo. Misericordiosamente, enganou-se.

*************

Notas finais
(1) Evento ocorrido no capítulo 36, "Cativeiros". (2) Em 2018, momento no qual se localizam os eventos da fic, a pena de morte havia sido suspensa nos Estados Unidos, medida revogada em 2020. é isso, gente, no próximo capítulo, o tão esperado julgamento de Hades! Espero todo mundo lá... até! E obrigada por prestigiarem! Grupo das minhas fics no Facebook é este aqui, ó, ó https://www.facebook.com/groups/1690225937895246/?multi_permalinks=3472202406364248&notif_id=1705720531412663&notif_t=feedback_reaction_generic&ref=notif