Redentor
46 Religare - Ato IV: Inicia-se a Batalha no Tribunal
Notas iniciais
Fazia tempo que Milo não sentia vontade de acender um cigarro. Sua natureza persistente era a única razão de não ceder ao estúpido impulso. Respirou fundo, enquanto tentava se convencer de que o nervosismo era normal, e que ele ansiara por aquele dia, logo, não deveria fraquejar em nenhum aspecto.
Terminou de digitar o e-mail para Saga, no qual anexara observações finais dos últimos relatórios, e o enviou. Suspirou levemente incomodado com a gravata, devido à falta de costume com o acessório. Desligou o computador e levantou-se resoluto da escrivaninha.
Deteve-se ao espelho para conferir a aparência mais uma vez. Jurava que tinha envelhecido aqueles meses... pensou em prender os cabelos num rabo de cavalo, mas já fazia por demais usar um terno de linho esnobe e sapatos italianos envernizados, não fazia?
Saiu do quarto e dirigiu-se para a sala, onde Aldebaran e Camus, ambos trajando o mesmo tipo de vestimenta que ele, o esperavam. Chegou a suspender a respiração ao ver o ruivo de terno cinza chumbo, gravata azul marinho sob a camisa preta, os longos cabelos vermelhos e brilhantes presos em uma trança larga por sobre o torso esguio.
− Camus... você... vo-você está... – Quase falou “maravilhoso”, porém, se conteve, para não deixar o parceiro constrangido pela presença de Aldebaran. Este, por sua vez, riu bem-humorado.
− Que que há, Milo? Pode dizer, ele está bonitão, né? Não precisa ter vergonha de falar na frente do seu amigo aqui.
Descontraindo-se, o policial sorriu e assentiu.
− Obrigado por ter ajudado o Camus a colocar a gravata, Debas, eu ia fazer isso, mas acabei demorando mais do que devia no escritório.
− Trabalho é trabalho – Pontuou o brasileiro, com simpatia.
Sem disfarçar o desconforto, Camus inquiriu:
− Milo, é realmente necessário usar este tipo de roupa?
− Infelizmente sim, meu anjo. No tribunal, devemos nos vestir de um jeito mais formal.
O telefone tocou, fazendo Milo revirar os olhos de impaciência.
− O que será agora? Bem na hora de a gente ir!... – Atendeu contrafeito, logo a expressão suavizando-se. – Alô? Mãe? Oi!! Quanto tempo! Tudo bem?
Camus sorriu ao ver o sorriso de Milo lhe iluminar o rosto bonito enquanto falava com a mãe.
− Estou bem, não se preocupe. Não, mãe, eu me recuperei completamente. Nunca tive qualquer problema. O Camus? – Virou-se para o ex-Redentor. – Ele está bem. Está aqui perto. Pode deixar, transmito a ele. Vou falar com o pai rapidinho porque a gente já tem que sair, tá?
À meia distância, o ruivo ficou observando, com nítida doçura no olhar, o parceiro absorto, ainda que brevemente, em uma conversa com os pais. Não sabia muito sobre eles, até porque não viviam mais nos Estados Unidos, tendo optado por regressar à terra natal, a Grécia, após se aposentarem.
O que Milo lhe contara era que com o falecimento do avô paterno, este retornara à Grécia, pois que havia herdado uma bela casa debruçada sobre o mar turquesa da baía que banhava a aldeia de Assos, em Kefalonia. Certa vez, Milo prometera que, depois de todo aquele furacão sossegasse, fariam uma viagem àquele belo país, tanto para que ele matasse as saudades dos pais, quanto para que Camus conhecesse um dos mais idílicos lugares do mundo.
− Pai, eu preciso mesmo desligar, tá? A gente tá quase se atrasando pra ir pro aeroporto. Não, não se preocupe, vamos em um jato particular do FBI.
Tão logo conseguiu concluir a ligação, abriu um sorriso para Camus e Aldebaran.
− Ele ficou aliviado em saber. Depois de tantas cenas correndo o mundo de pessoas vindo como moscas pra cima da gente, né? – Comentou. Em seguida, ficou um tanto sério ao admitir: − Não que isso não vá acontecer quando chegarmos ao Tribunal de Nova Iorque, já previno vocês...
− É de se imaginar! Não se preocupa, não, a gente dá conta. Não é, Camus? – garantiu o brasileiro, com ar otimista.
O ex-Redentor apenas assentiu, com um tímido sorriso, mais para transmitir tranquilidade a Milo do que, efetivamente, por real calma.
Poucas horas depois, os três embarcaram no jato, bem como Saga, Saiori, Aiolos, Aiolia, Marin, Kanon, Dohko, June e Albior. Demais reforços, como outras testemunhas de acusação que não os ali presentes, dirigiam-se de outros lugares para aquele que seria o centro das atenções dos Estados Unidos nos próximos dias.
Cada um deles levava no coração um ardente anseio que, custasse o que custasse – e assim haveria de ser! – a Justiça fosse feita, culminando no esfacelamento total, definitivo daquele império de horror, símbolo do que de mais sombrio habitava a alma humana.
Com o olhar fixo nas nuvens que de quando em quando deixavam entrever o áureo poente, Camus rememorava a primeira vez em que voava em um avião: fora há três meses, mas parecia ter sido há muito, muito mais tempo. Tanta coisa acontecera! Era incrível que em três meses pudesse ter vivido tudo aquilo com o qual jamais poderia sonhar: o amor, o carinho, a amizade, o amparo, o acolhimento de todos que com ele estavam. Sentiu o peito inflar de gratidão.
Não se ocupava demasiado em entender se ainda acreditava em Deus ou não, pois sua referência de Deus fora uma seta envenenada por Hades. Contudo, aquelas pessoas bem justificavam o Deus de amor sobre o qual tanto lera e pregara...
− Tá tudo bem, amor? – Indagou Milo baixinho, segurando-lhe a mão suavemente.
Para ele o ruivo tornou um doce sorriso ao responder, de forma quase inaudível:
− E como não haveria de estar?
*************
5 de novembro de 2018.
Há mais de um ano, Milo infiltrara-se numa igrejinha em Red Meadow, filial da Igreja Aurora do Novo Porvir, sem imaginar, nem de leve, a proporção que adquiriria o resultado daquela investigação.
Agora, o alarido das ruas, o vai-e-vem frenético de carros de emissoras e de curiosos brandindo faixas com os mais diversos dizeres, o som onipresente dos helicópteros, as silhuetas traçantes dos drones, tudo contrastava tão vivamente com a austeridade das instalações que tão fria e cruelmente o receberam, oito meses antes, na remota propriedade encravada nas montanhas de Grayville. O velho clichê “um filme na sua cabeça” materializava-se de modo imperioso, o que exigiu do policial esforço hercúleo para emergir daquele estado. Decidido, abriu a porta do carro, que estacionara bem diante da escadaria do imponente Tribunal; como quem se atira incontinenti para mergulhar num mar bravio, ele deixou o automóvel, sendo recepcionado pelo eclodir sucessivo dos flashes. Pelo bem de seus olhos claros e sensíveis, fizera bem em usar óculos escuros. Virou-se para oferecer a mão à personagem principal de todo aquele evento, como o agente, vestido de maneira impecável. A despeito de toda densidade da aparição de ambos, estes arrancaram suspiros e exclamações mistas. Algumas mídias já os tratavam como os homens mais bonitos da América...
Do mesmo automóvel saíram Saga e Aiolos, que prontamente uniram-se a Milo para, junto dos guarda-costas que já os aguardavam, formar um cerco protetor em torno do ex-Redentor. Camus trocou um breve olhar cúmplice com Milo, para mostrar ao amado que nada temia. Ao contrário do que mesmo seus companheiros imaginariam, o ruivo ergueu a cabeça e pôs-se a galgar os degraus por entre os cordões de isolamento apinhados de mãos, braços, torsos, celulares, câmeras e microfones. Fazia o possível para se concentrar na subida, nas colunas brancas a precederem a grande entrada do prédio; não obstante, aos seus ouvidos chegavam, imersos na cacofonia:
− Camus, estamos com você!!!
− Seu Anticristo, devia estar sendo julgado também!
− Você vai vencer o seu pai!
− A América está contigo, Redentor!!
− Você é tão falso profeta quanto Hades!!!
− Deus é contigo, Camus!!!
− Prostituta da Babilônia, é isso que você é!!
Fossem brados de apoio, fossem brados de condenação, ignorava a todos. Nada mais lhe importava, a não ser o fim de todo aquele calvário. Pois que não era mais o SEU Calvário: era de Milo, de seu amado Milo... e o começo do fim do Calvário de Aldebaran, June e Albior, também. De tantos, aliás...
De uma van que estacionou atrás do carro dos quatro homens a ascenderem a escadaria, saíram Aiolia, Kanon, Saori, Marin, Dohko, June, Aldebaran e Albior. Foram conduzidos, não sem certa dificuldade, a uma entrada acessível, devido à condição do ex-Arauto.
Resistindo ao impulso de perguntar se o companheiro estava bem, Milo tão somente espalmou a mão nas costas do ex-Messias durante o trajeto, que parecia infindável.
− Senhor Hatzis, uma palavra, por favor!
− Policial Hatzis, acha que Hades será condenado pelo testemunho do Redentor?
− Camus, como se sente sendo o principal instrumento da condenação de seu próprio pai?
− Você REALMENTE foi forçado por Hades a agir como Redentor?
− Camus, o que tem a dizer aos fiéis que foram explorados em seu nome?
− Senhor De La Faure, como se sentirá se seu pai for condenado?
Em meio à luta interna para não dar importância àqueles questionamentos – ainda que Milo balançasse a mão livre nervosamente na direção dos profissionais de imprensa, manifestando recusa em responde-los – eles alcançaram, por fim, o hall do Tribunal.
Acessaram seu interior a passos decididos. Chegaram a uma sala de teto alto, paredes em tom ocre, em cujo fundo encontrava-se o lugar ocupado pela juíza Mercedes Montañez. Sua cadeira alta e estofada era ladeada pela bandeira norte-americana e pela bandeira do estado. O recinto, completamente acarpetado, dispunha de dezenas de lugares em cadeiras enfileiradas, formando dois lados, antecedendo uma espécie de cercado talhado em madeira de lei escura, o qual separava os demais dos advogados e seus clientes. À frente da sala, do lado esquerdo, também isolado por estrutura similar, o espaço a ser ocupado pelo júri. As janelas brancas, quase tão altas quanto o teto, deixavam escapar réstias fugidias que incidiam dramaticamente nos quadros de molduras douradas.
Antes de cruzar o pórtico para o qual o conduzia Aiolos, Camus foi parado de súbito por Milo.
− Nos separamos aqui, amor – Anunciou, sem ocultar a tensão no olhar.
O ruivo encarou-o com firmeza em uma brava tentativa de tranquilizá-lo.
− Sim, Saga me mostrou como seria a disposição dos participantes na sala. Só eu e meu advogado – Virou-se para Aiolos, que assentiu confiante. – e seu lugar, Milo, como uma das testemunhas, logo ali atrás.
− Camus...
− Milo – Aiolos cortou-o ao perceber-lhe o tom preocupado. – Lembre-se do que Saga falou.
− Claro – Apressou-se em atinar. – Só quero dizer a ele que vai dar tudo certo, para ele ter força e que eu... eu... bom, ele sabe.
O jeito quase impaciente do amado arrancou uma improvável risadinha do ex-Redentor.
− Eu sei. E você também sabe que eu... você sabe.
Como era difícil para os dois amantes não poderem trocar um abraço amoroso e cúmplice da forma que seus corpos e corações os impeliam: limitaram-se a apertar-se as mãos, o olhar de um mergulhado amorosamente no do outro.
Mas quando Camus soltou a mão de Milo, sentiu uma total paralisia apoderar de si.
A calma que aportara em seu semblante após mirar o céu dos olhos de Milo fora substituída pela tensão gerada pela figura do homem que entrava com macacão laranja, mãos unidas à frente do corpo comprido por algemas e correntes, conduzido por um policial. Ao dar-se conta da presença do filho, de pé, imóvel, Hades encarou-o firmemente. Ele sorria? Camus não tinha certeza. Sequer poderia distinguir com exatidão. Sentia um poderoso e úmido vento frio a fustigar-lhe a face, certo que empalidecia. Ante sua arrebatada impressão, o Grande Pai caminhava orgulhosamente em câmera lenta, impávido, certo de seu poder, malgrado a posição e a restrição em seu corpo alto, esquio, imponente. Camus via-se pequeno, prestes a cair de joelhos, como tantas vezes fizera à aproximação do genitor. À média distância, ao lado de onde ele e Aiolos se encontravam, Hades tomou assento, sempre sustentando o olhar superior na direção do filho. Este virou-se para mirar, por cima do ombro encolhido, Milo, que àquilo assistia, ressabiado.
“Meu Deus, o rosto dele tá branco como cera!”, Pensou, resistindo ao impulso de morder os lábios já secos. Preferiu menear a cabeça para transmitir segurança ao ruivo. O ex-Redentor assentiu de volta, decidido a não se deixar abater.
− Você está bem? – Quis saber um atento Aiolos.
− Sim – Respondeu, tão somente, também ele se sentando.
− A Seção 81, do Tribunal de Justiça do Estado de Nova Iorque, em Nova Iorque, está agora em sessão. A Meritíssima Juíza Mercedes Montañez está presidindo. Pedimos ordem e silêncio. Deus salve o Estado de Nova Iorque e este Tribunal – Declarou uma mulher de pé, à mesa defronte a todos, de costas para o lugar a ser ocupado pela juíza.
Outra pessoa anunciou:
− Todos de pé para a Meritíssima Juíza Mercedes Montañez.
A Juíza, de tez morena e cabelos médios pretos brilhantes e anelados, trajando uma toga negra de punhos de renda imaculadamente brancos, sobe a escada de carvalho escuro até seu assento estofado em veludo vermelho. Ela profere, altiva:
− Pode trazê-los.
Por uma porta larga no fundo do vasto recinto, o Júri entra, e cada um dos cidadãos que o formam tomam assento à lateral. De forma lenta, a juíza aproxima seu rosto quase severo do microfone:
− Bom dia, jurados. – Saúda-os; e aos demais que se levantaram para a entrada dos jurados: − Por favor, sentem-se.
Assim eles fazem.
− O Tribunal realiza o julgamento do Estado de Nova Iorque contra Armand Chermont de La Faure, sob acusação de cárcere, tortura, exploração e estupro contra seu filho, Camus Chermont de La Faure. – A mulher à frente da juíza enuncia ao microfone. Ao que se segue a fala límpida, ininterrupta de Montañez:
− O réu já cumpre pena por crimes de estelionato, tráfico de influência e lavagem de dinheiro: devido à gravidade das acusações do julgamento de hoje, o caso foi transferido para este Tribunal. Queiram vir até a frente os advogados de defesa e de acusação.
Prontamente, Aiolos e Moses deixam seus lugares para obedecer-lhe ao chamado. Ela debruça-se de leve para falar-lhes:
− Senhores, que comecem seus ofícios, dentro das normas já conhecidas.
Os dois homens efetuam gestos de concordância. Aiolos adianta-se para a frente do júri.
− Bom dia. Obrigado por estarem aqui. O caso diante dos senhores é dos mais impactantes dos últimos tempos. Simultâneo aos eventos que já levaram Armand de La Faure à condenação mencionada pela Meritíssima Juíza e aos que ainda demandam julgamento; trata-se de encarceramento, lavagem cerebral, manipulação, atos de violência bárbaros e aviltantes contra o próprio filho, Camus de La Faure. No intuito de usá-lo, mais que como símbolo, como chamariz para a seita que criou com fins escusos e puramente gananciosos, manteve-o em regime de cárcere por revoltantes dezessete anos. Explorou-o, torturou-o física, sexual e psicologicamente e incitou contra Camus de La Faure estupros sistemáticos, por vezes coletivos. – Brandiu a mão na direção de Hades, que não procurou nem por um momento desviar o olhar impávido. – O réu que ali está, repito-o, é o pai do jovem que costumavam, na Aurora do Novo Porvir, chamar de “Redentor”. Armand Chermont De La Faure. O “Grande Pai”. Um dito líder religioso, que se arvorava pastorear legiões de fiéis. Entretanto, há dezessete anos, alegando ter recebido instruções por meio de uma visão com o anjo Gabriel, fez o filho virar uma figura messiânica e fundou a seita, de cunho obviamente messiânica, Aurora do Novo Porvir. Contudo, ação não fruto de real crença no que pudesse chamar de divino, de mistério, e, sim, de caso pensado para ENRIQUECER. Para FATURAR. Uma ação, sim, senhores, premeditada. Como todos seus crimes foram... PREMEDITADOS. Vamos provar isso. Talvez ouçam da outra parte que, nããão, foi tudo em nome da fé! Da religião! De um credo! E somos um país que preza pela liberdade religiosa, não?
Parou por alguns segundos, suas faces nitidamente afogueadas pelo teor dramaticamente denso ao qual ele, por mais profissional que fosse, não conseguia ficar impassível. Retomou, o tom mais arrastado:
− Quero frisar, porém, que para Camus, essa liberdade NUNCA existiu, senhores. Camus NÃO teve escolha. Nem por um momento. Se ele creu, por todos esses anos, que era o Redentor... foi porque foi levado a isso. Espero que considerem tudo que lhes disse... e voltem com o veredicto de “culpado”, por crimes contra a dignidade humana, tais como cárcere, estupro, tortura contra alguém a quem deveria ter amado e protegido. Obrigado.
Feita a apresentação, Aiolos voltou para a mesa que ocupava com o seu agora ainda mais pálido cliente. A juíza não pôde deixar de erguer discretamente as sobrancelhas; aquela fora a mais longa apresentação já feita e, por certo, a da defesa seria igualmente longa. Quando Moses para a frente se dirigiu, ela considerou que, uma vez que não interrompera o primeiro advogado, de forma alguma poderia fazê-lo agora.
“Oh, Deus, será um longo dia.”, pensou.
*************
− Meritíssima, senhores jurados e todos aqui presentes, bom dia. – Enunciou o advogado de Hades, este já com semblante orgulhoso de ouvi-lo. Claramente confiava nele... – Estamos aqui hoje para um julgamento que vai contra um dos mais representativos fundamentos de nossa amada pátria: a liberdade religiosa. Os Estados Unidos da América é, indiscutivelmente, o maior modelo de liberdade de credo de todo o mundo, patenteado em nossa Constituição. O homem que hoje ocupa o lugar de réu neste Tribunal tão somente levou a fé em que acredita àqueles que estiveram dispostos a ouvi-la, senti-la e segui-la. Armand, antes de ser Hades, acreditou ter recebido a missão de alargar os caminhos para a salvação por intermédio do sacrifício de seu filho Camus, tal qual José criou e preparou o Nazareno para o papel sublime que cumpriria. Tal qual Jesus, Camus ACEITOU o fardo. Em obediência a Deus e a seu pai, foi por anos a figura central da Igreja Aurora do Novo Porvir, que a tantos ajudou com suas obras e assistência espiritual. Hoje, Camus encontra-se aqui acusando o pai de tê-lo enganado e explorado. Uma consciência despertada de modo estranhamente tardio, espero que considerem. E que considerem que essa dita consciência, muito provavelmente, eu diria, aflorou quando o então Redentor teve contato com o policial Milo Hatzis, que se infiltrou como espião na Comunidade a qual, até então, só conhecia a paz e a harmonia, protegida pelo direito conferido pela Constituição, direito esse que a polícia, mais uma vez, tencionou solapar: o de liberdade religiosa. Peço, pois, serenidade dos senhores no encaminhamento deste julgamento, e a consideração de que não houve crime de exploração do homem que um dia tomou para si o título de “Redentor”... simplesmente porque ele NUNCA foi obrigado a sê-lo. Camus sempre esteve de acordo com os preceitos da religião que o cultuava, com os direcionamentos de seu cuidadoso e esmerado pai.
Também Moses se permitiu uma pausa dramática, fitando ora o Júri ora os demais presentes, para prosseguir, enfático:
− Em outras palavras, que considerem a inocência de Armand Chermont De La Faure, pois que esse agiu segundo sua fé, nunca prejudicando nem obrigando ninguém a nada. Nem aos seus fiéis, que de bom grado o seguiam, nem seu filho Camus, que sempre aceitou o papel de Redentor, o qual desempenhou com total responsabilidade durante esses dezessete anos.
Quando Moses terminou de falar, alguns murmúrios correram pelo recinto, um deles tão inflamado que arriscou se tornar um protesto:
− Mas que cara de pau! Era exatamente o que eu achava que esses cretinos iriam...
− Shhh, Milo, por favor! Vai ajudar mais se puder se conter!
− Eu não tenho gelo correndo nas minhas veias, Sao – Rosnou e apontou para um aparentemente plácido Hades. – como aquele...
− Silêncio no Tribunal! – Demandou a Juíza.
Milo respirou fundo, o olhar fixo no parceiro, cujo olhar em verdade pouco diferia do odioso pai.
Em tom grave como sua mirada sobre os presentes, a juíza indagou:
− Da parte da acusação, a primeira testemunha está pronta?
− Sim, Meritíssima – Aiolos respondeu com prontidão, ao se levantar para pedir a June que se adiantasse até a frente.
De cabeça erguida, malgrado o semblante lívido e ansioso, a jovem caminhou até o lugar reservado às testemunhas. Seus longos cabelos loiros muito claros estavam presos num comprido rabo de cavalo, conferindo ainda mais sobriedade à indumentária pela moça adotada, uma calça de alfaiataria vinho escuro, blusa de seda preta e um blazer lavanda. Tomou assento sob dezenas de olhares curiosos, alguns bem admirativos.
− Jura dizer a verdade, toda a verdade e só a verdade?
Sentada ao lado da bancada da juíza, a trêmula June fez o possível para deixar a voz firme:
− Sim, eu juro.
Aiolos posicionou-se diante dela.
− Como se chama?
− June Sanders Schmidt.
− Qual é a sua ocupação, senhora Schmidt?
Ela remexeu-se um pouco na cadeira.
− Eu nunca tive uma... ocupação, se o senhor se refere a profissão. Não tive direito a ensino ou instrução que pudesse me proporcionar uma.
− PROTESTO! – Moses ergueu-se enérgico. – Meritíssima, a testemunha deveria apenas responder à pergunta, não tecer comentários adiantando suas acusações.
− Protesto aceito. – Assentiu a juíza; Aiolos engoliu em seco ao vê-la encarar a assustada testemunha. – Responda objetivamente acerca de sua ocupação.
June também engoliu em seco.
− Dona de casa.
− É nora do réu, correto, senhora Schmidt?
− Sim.
− Por que, apesar da proximidade familiar, a senhora decidiu testemunhar contra ele?
− Porque... – Aproximou-se mais do microfone porque percebeu sua voz fraca. – presenciei o sofrimento de meu cunhado Camus todos estes anos e... e sei que ele... não se submeteu àquilo por vontade própria.
− Mencionou que Camus, o Redentor, é seu cunhado. É casada com qual dos irmãos dele?
− Eu FUI. Do irmão mais novo, Algol.
− “Foi”. Separou-se? O que aconteceu com ele?
− Ele foi assassinado pelo irmão mais velho, Radamanthys.
− Trata-se de uma revelação impactante... saberia dizer em que circunstâncias, senhora Schmidt?
− Radamanthys pretendia... planejava... levar Camus com ele no momento da chegada da polícia e não queria que Algol o impedisse...
− Levar Camus para onde?
− Eu... não sei ao certo... Radamanthys era... ele era OBCECADO por Camus. Quando viu que a polícia iria salvar Camus da seita, quis fugir e levá-lo consigo. Para onde... sinceramente não sei. E como Algol também era... bem, era... acho que pensou que ficaria em seu caminho, e...
− “Salvar Camus da seita”? – Moses interrompeu-a sem qualquer cerimônia. – Como “salvar” de uma Comunidade na qual Camus era venerado como uma divindade viva, e tinha, obviamente, privilégios?
− PRIVILÉGIOS? – Enfim June erguera a voz e o espírito. – Camus era sumariamente agredido e explorado por...
− Por “agressão” e “exploração”, a senhora se refere aos ritos aos quais ele se submeteu, por 16 anos, por vontade PRÓPRIA, uma vez que aceitou o título de “Redentor”?
− Protesto!!! – Aiolos manifestou-se, resoluto – O advogado de defesa não está deixando a testemunha responder a questão até o fim, antes está dando sua interpretação conivente com o réu.
− Protesto deferido – A juíza acatou, fitando Moses. – Deixe a testemunha terminar, antes de fazer seus apontamentos. Pode fazê-los, a partir de agora. Venha até a testemunha.
− Pois não, Meritíssima. – Ele assentiu e olhou calmamente para June, que continuou:
− Como eu dizia... não era nenhum privilégio ser o “Redentor”, mesmo que ele fosse reverenciado pela igreja. Os ritos aos quais ele se submetia não eram voluntários. Nunca foram!
− E ele a esses ritos se recusou?
− Todas as vezes, não.
− Então em algumas vezes, ele se recusou. Por quê?
− Não sei estipular, mas ele não estava sempre de acordo.
− Não é o que o réu afirma – Disse Moses. – Meu cliente alega que o filho sempre cumpriu com os sacrifícios, porque acreditava que era sua missão. Camus aceitava que tudo aquilo era a missão dele. Estou errado?
O olhar de June vagueou incerto.
− Não... – Admitiu em um fio de voz.
− Queira responder mais alto, senhora June.
Milo e Saga se entreolharam, as respirações pesadas como seus corações.
− Não.
− Ele aceitava que era a missão dele, portanto.
− Mas ele estava sendo manipulado pelo pai!
− A segunda parte da declaração da senhora é puramente subjetiva. É como JULGA o FATO. E é sobre o fato, o palpável, o objetivo, o que ACONTECIA, que pergunto. Camus aceitava o papel de Redentor.
− Sim, aceitava! – Ela se exasperou. – Mas uma hora ele ACORDOU e viu que não deveria mais se submeter àquilo!
− Bom, AGORA estamos falando de fatos. – Em um volteio dramático, Moses contemplou a audiência, mãos erguidas, palmas para o alto. – Não de CONJECTURAS. Obrigada, senhora June.
Antes que Aiolos demandasse um “protesto” por causa daquele deboche, o advogado de Hades atirou a uma desconcertada June:
− Que hora foi essa em que Camus “acordou”, seguindo a expressão usada pela senhora?
− Que... hora...?
− Quando Camus passou a questionar seu papel na igreja? Quando passou a ir contra o próprio pai?
Ela considerou-o com um desprezo que rivalizava com a postura defensiva de até então.
− Em nenhum momento Camus se ergueu em rebeldia. Ele só considerou que seu fardo era excessivo.
− E isso coincidiu com a chegada do policial Milo Hatzis, por certo, não?
Por mais que soubesse que seria citado pela defesa, Milo não pôde deixar de cerrar os dentes de indignação.
− O senhor que diz isso – Ela volveu, subitamente altiva. – mas a verdade é que, todos sabem, aos 14 anos, Camus tentou fugir da Comunidade. Então não acho que o policial detenha, sozinho, essa “responsabilidade”.
− Boa, garota! – Saga murmurou, sorrindo.
− Mas ele fugiu sozinho?
− O senhor, e todos sabem, que ele fugiu com a mãe.
Em um gesto teatral, Moses abriu os braços para chasquear:
− Ah, isso nunca acontece no resto do mundo, esposas fugindo de seus maridos levando seus filhos, não é mesmo?
Aiolos não perdeu tempo:
− Protesto! A defesa está usando de sarcasmo para argumentar contra a testemunha!
− Sarcasmo? Meu colega confunde analogia com sarcasmo... apenas fiz uma analogia com um fato corriqueiro.
− Senhor Moses, argumente sem analogias que possam ser tomadas por sarcasmo. – Demandou a juíza.
Moses deu de ombros irredutível.
− Certo, Meritíssima. Senhora June, como a senhora bem lembrou, aos 14 anos, Camus fugiu, não por vontade própria, mas levado pela mãe, que tencionou, não se sabe por quê, se separar do marido. Algo bem comum em todas sociedades. Não seria diferente na Comunidade.
− Marie tentou salvar o filho dos horrores pelos quais o marido fazia o filho DELES passar. Na ocasião, ela quis salvar Camus da “Santa Ceia”, que todos aqui sabem EXATAMENTE do que se tratava.
− A senhora tem como PROVAR que essa foi a motivação dela?
− Eu... não, claro que não!
− Entramos no campo das conjecturas novamente então, pelo visto. Senhora, atente-se aos FATOS. Camus fugiu porque a mãe dele fugiu e o levou consigo. Correto?
− Mas ela estava tentando...
− Sim ou não, senhora June?
− Sim.
Sob uma náusea que se anunciava, Camus contraiu os punhos. Procurou se manter sereno, conquanto lhe fosse custoso. Tinha consciência de que era apenas o início. A ele não passou despercebida a expressão triunfante de Moses.
− Sem mais perguntas. – Anunciou Moses, antes de ceder espaço ao seu “adversário”, que novamente se aproximou de June.
− Senhora... senhora June, qual era seu papel na Comunidade da Aurora Dourada?
− Eu era a supervisora dos Sentinelas. Aqueles que trabalhavam no Tabernáculo, alguns diretamente na assistência ao Redentor.
− Além de coordenar eventos, você cuidava de Camus de um modo geral. No dia a dia. É isso?
− Sim.
− Como era sua impressão acerca da disposição de Camus em cumprir os deveres como Redentor?
− Ele os cumpria sem resistência, ele aceitava, sim, porque acreditava que era sua missão, porque obedecia ao pai.
− E... o fazia de livre e espontânea vontade?
− Ele sequer sabia o que era vontade – Respondeu June, com pesar. – Camus foi criado dentro DAQUELA realidade, era a única que conhecia. Vocês que viviam aqui fora talvez não entendam isso!
− Mas ele se recusava em alguma ocasião a...?
− Não tinha como, mesmo que isso passasse pela cabeça dele.
− O que quer dizer?
Lampejos de revolta puderam ser claramente identificados na fulgurante mirada de June para Aiolos:
− Hades castigava ele. Ou alguém próximo. Como já fez com os irmãos. Como fez com a pobre família que testemunhou a fuga de Camus.
− Refere-se à família que por ter abrigado o fugitivo Camus, ainda menino, foi CHACINADA pelos capangas de Hades?
− PROTESTO! – Bradou Moses. – Estão falando de algo que sequer ficou provado que esse evento, criado por Camus, aconteceu, de fato?
Milo viu Camus abaixar a cabeça e levar a mão direita ao peito.
− Se o senhor não sabe onde estão, como pode afirmar que estão mortos? Lembre-se de que o usual era adotar nomes diferentes. Possivelmente esses nem eram os nomes dessas pessoas, isto é, considerando que essas pessoas existiram!
Ao ouvir tais palavras, Camus sentiu como que uma descarga elétrica percorrer seu corpo momentaneamente anestesiado. Levantou-se e clamou, repleto de revolta:
− Cindy EXISTIU! Não é porque Hades a MATOU que ela não existiu! Cindy, Annie, Tom, Martin, Andy, Emma e Jimmy, TODOS EXISTIRAM!!!
O som do martelo da juíza batendo nervosamente sucedeu-se aos murmúrios e exclamações que correram pelo público.
− Ordem! Ordem no Tribunal! Ordem!!!
− Camus, calma! Sente-se por favor! – Pediu Saori, que o segurou pelo braço com cautela porém com firmeza.
− Meritíssima, que eu saiba, nenhum corpo foi encontrado pelas buscas, além dos daqueles que pereceram em razão da invasão policial – Argumentou Moses. – Não podem utilizar personagens de uma história contada pelo Redentor como parte dos fatos que estão sendo apurados aqui.
− Senhor Aiolos, a defesa está certa. Nada sobre o suposto massacre foi comprovado ainda. Não pode ser levado em consideração. – E a juíza olhou para Hades. – Ainda.
− Não será NUNCA, uma vez que não aconteceu.
− Não importa que a família tenha existido ou não. O fato é que Camus era mantido em seu papel de Redentor mediante coerção e tortura. – Aiolos disparou, encarando o advogado de defesa.
June ajuntou, mais assertiva pela indignação:
− Sim, exatamente! E eu presenciei várias vezes, fora as vezes em que eu via Camus machucado ou sendo para alguma punição.
− Sendo assim, a senhora atesta que Camus era forçado a se portar como Redentor.
− Ele não era “forçado”, ele ACREDITAVA que era seu dever, mas, sim, se ressentia dos excessos que o esgotavam, o que era frequente.
− Por isso a senhora ajudou Milo Hatzis a entrar disfarçado na última Santa Ceia.
Ela balançou a cabeça com vigor.
− Sim. Por isso e pelo que fizeram ao meu agora companheiro Albior.
Aiolos pressentiu o risco daquele relato. Ao que ele poderia levar...
− Também ele sofreu violência nas mãos de subordinados de Hades, por isso a senhora viu o perigo que oferecia a continuação da existência da seita.
− Sim... muitas pessoas inocentes já estava sofrendo. Eu mesma passei por vários episódios de violência por ter sido escolhida pelo filho caçula de Hades. Ninguém fez nada porque, ao ver deles, era meu dever como membro da família do Grande Pai.
− Pode nos dizer que tipo de violências?
− PROTESTO! – Moses bradou. – O julgamento de hoje não se trata do que aconteceu com a testemunha, ela está aqui para falar de Camus, não dela.
Ao contrário do que esperou Aiolos e seus amigos, a juíza acatou a demanda:
− De fato, o caso da senhora June será julgado em outra ocasião. Peço que se atenham ao que for referente ao jovem que era considerado “Redentor”.
Hades sorriu triunfante, ao mesmo tempo que Aiolos deixou escapar um suspiro decepcionado. Mas ele não se deixaria abater:
− Camus era assediado pelos irmãos sob permissão do pai, assim consta dos depoimentos. A senhora poderia confirmar essa informação?
− Sim, meu marido... digo, finado marido tinha verdadeira obsessão por Camus. E o mais velho também tinha essa horrível obsessão, Radamanthys.
− Meritíssima, que relação tem meu cliente com os atos dos filhos maiores de idade? Falam como se até disso ele tivesse culpa! – Disse Moses.
June fitou-o com genuíno ódio:
− Ele SABIA e não impedia! Isso não faz ele culpado? Sei de uma vez que até MANDOU os dois abusarem dele para castigar... para castigar Camus!
− Isso é o que você está dizendo, mocinha, quero ver as provas...
Os murmúrios converteram-se em ruídos estupefatos, indignados. Milo rangeu os dentes ao reparar o semblante angustiado do amado.
− Ordem, ordem no tribunal! – A juíza batia o martelo freneticamente. Brandiu-o para Moses. – Senhor, ordeno que fique em silêncio. Está interrompendo mais que o necessário. Deixe para argumentar em seu turno.
Foi a vez de Aiolos sorrir triunfante e Hades fazer um muxoxo de descontentamento.
− Prossiga, senhor Aiolos, com a testemunha.
− Obrigado, Meritíssima. – Ele assentiu respeitosamente. – June, então confirma quem os irmãos abusavam de Camus sob aval de Hades?
− Sim, confirmo.
− Sem mais perguntas. Obrigado.
Ela ergueu-se de seu assento, mirando seu cunhado, que se esforçou-se em premiá-la com um sorriso agradecido.
Aiolos dirigiu-se à juíza.
− Gostaria de chamar agora o senhor Antonio, também conhecido como Aldebaran, para depor.
A juíza sinalizou concordância e o brasileiro adiantou-se para o lugar anteriormente ocupado por June.
− Como se chama?
− José Antonio de Carvalho Oliveira Filho.
− Que ligação o senhor tinha com Camus na época em que viviam na Comunidade da Aurora Dourada?
− Naquela época, eu era apenas uma Ovelha. Não tinha qualquer relação próxima com ele.
− A bem de manter a todos informados, poderia nos explicar o significado do termo “Ovelha”?
− Pois não... “Ovelhas” era como os fiéis eram chamados.
− Presumo que o nome não tenha sido escolhido ao acaso. “Ovelha” nos remete claramente a docilidade, servidão...
− De fato. Até porque não podíamos nada contestar.
− E se pudesse, teria contestado algo?
− No início, não. Como eu disse a Milo uma vez, “éramos cegos”. Mas depois...
− O que aconteceu depois?
− Perdi minha família... minha mulher e minha filha foram mortas por terem tentado...
− PROTESTO, Meritíssima! Mais uma vez, uma testemunha falando de temas à parte, todas testemunhas do senhor Aiolos serão assim?
− A testemunha está apenas respondendo à pergunta! – Redarguiu Aiolos, indisfarçadamente irritado.
Novamente Moses teve sucesso em seu protesto:
− Advogado, deveria ter lembrado às testemunhas que o dia dos casos a elas relacionados NÃO É HOJE. Que aguardem com mais paciência.
Desta vez, Hades inclinou a cabeça para trás e cerrou os olhos enquanto sorria largamente em uma gargalhada muda. Milo apertou as unhas nas palmas das mãos, sonhando em apertar aquele pescoço.
− Você conheceu o policial Hatzis na Comunidade. Por que, sendo uma Ovelha, decidiu ajudá-lo?
− Não o conheci como policial. Ficamos amigos, após Hades determinar que Milo fosse morar na minha cabana.
− E por que motivo isso aconteceu?
− Quando Camus, ainda Redentor, anunciou que Milo era o anjo com o qual ele sonhava havia tempos, houve uma grande confusão, as Ovelhas chegaram a ameaçar a integridade física de Milo. Então o Grande Pai mandou Milo ficar na minha casa, sob minha vigilância, afinal, meu tamanho é um tanto quanto intimidador para os outros.
Ignorando alguns risinhos abafados, Aiolos questionou:
− Acha que tal decisão foi para proteger a integridade física de Milo? Não seria para não deixar que ele virasse um objeto de culto que rivalizasse com o Redentor?
− Ah, sim, certamente...
− Você cumpria suas funções de Ovelha? O que fazia?
− Trabalhava na lavoura, ajudava na construção de diversas edificações no lugar e, como ex-pastor, eu liderava grupos de estudos da Bíblia.
− Como alguém que era um pastor, conhecedor da Bíblia, se deixou convencer por uma seita que adora um homem e o chama de Redentor? Me parece desobediência ao mandamento “Não terás outros deuses...”
Notou-se um constrangimento no modo com que Aldebaran baixou o olhar momentaneamente.
− Eu me desiludi com a congregação que presidia... – Cuidou de logo encarar o advogado. – Fui vítima de injúria e, por ela, vi os fiéis me abandonando. Alguns ficaram, leais, mas já era tarde, eu não poderia mais continuar lá.
− Pode nos dizer o que aconteceu? Que injúria foi essa?
Por conhecer a história, Milo estava ciente do quanto relembrá-la era penoso para o amigo. Suspirou, resignado. Todos teriam que se prestar a situações desconfortáveis para condenar o Grande Pai.
− Uma irmã da igreja solicitou uma entrevista comigo. No dia acordado, eu a recebi em meu gabinete; ela alegava estar passando por problemas conjugais e estava grávida. Entretanto, durante a conversa, ela tentou me seduzir... eu a repeli, claro. Mas a mulher contou OUTRA história aos fiéis. Contou que EU havia tentado seduzi-la. Tanto fez que levantou suspeitas e... bem, nada mais foi o mesmo.
− Foi então que soube da Aurora do Novo Porvir e se candidatou para viver na Comunidade.
− Isso foi depois que imigrei para os Estados Unidos. Eu quis abandonar tudo...
− E viveu por anos na Comunidade até conhecer o policial Milo Hatzis.
− Correto.
− Qual seu parecer quanto ao modo de vida do Redentor?
Conquanto consciente do ar tenso que passava, Aldebaran procurou manter-se o mais firme possível ao responder:
− Para mim, e para todas as Ovelhas, ele se mostrava sempre sereno, calmo, e transmitia muita paz ao falar conosco.
− Falar com vocês?
− Digo, pregar. Ou quando se dirigia a nós que trabalhávamos nos campos, quando ele passeava por eles.
− Camus sempre se mostrava calmo e sereno para você, Antônio?
− Sim. Digo... havia os RITOS. Os... – Ele baixou a voz, sem perceber. – Durante os cultos em que o Redentor pregava, nos transmitia paz, serenidade, mas...
− Mas durante os ritos, nem tanto, não é?
− Nessas ocasiões, não... não era o que nos passava. Claro, ele SOFRIA. E por mais que procurasse enfrentar seus suplícios com a serenidade de sempre, obviamente sofria muito, e perante todos, para mostrar o quanto o Salvador desta era estava disposto, como o Cristo original, a se submeter ao mesmo sacrifício pela humanidade. Assim, ele... ele se submetia a todos horrores possíveis por NÓS.
− Pode exemplificar alguns desses “horrores”, Antônio?
Com um aperto incômodo na garganta, o brasileiro tomou fôlego antes de responder, sob a culpa e o pesar que, por mais que Milo dissesse que ele não deveria sentir, vinham-lhe oprimir o coração.
− Sim... torturas, como o do garrote, no qual ele recebia uma restrição no pescoço, que ficava cada vez mais apertada, até... até ele perder os sentidos. Por vezes, era açoitado diante da congregação... ou obrigado a carregar uma pesada cruz, com uma coroa de espinhos... nós víamos o sangue descer pelo seu rosto, pescoço...
Milo sentiu um arrepio frio correr-lhe pelo corpo. A última modalidade não chegara a ser testemunhada por ele. Quantas, de quantas sevícias mais ele sequer fazia ideia terem acontecido?!
− E a partir de que momento a situação do homem que você acreditava ser o “Redentor” passou a te incomodar, Antônio?
− Quando conheci Milo e ele ficou na minha cabana, por ordem do Grande... de Hades. Quando eu vi... no celular que estava com Milo... a Santa Ceia.
Murmúrios exaltados correram pela sala. O tom grave de Aiolos aprofundou-se ainda mais:
− Foi então que você se deu conta de que o que faziam ao rapaz que chamavam de Redentor estava além do que você julgava ser... HUMANO.
− Sim. Eu fiquei chocado... eu não sabia! Ninguém sabia que ele passava por algo semelhante. Não era apenas cruel... era... era... INDIGNO. DEPLORÁVEL. Aquilo não tinha NADA a ver com os suplícios que Deus reservou ao Seu Filho!
− “Aquilo” – Aiolos frisou o pronome, olhando ao redor e detendo o olhar propositalmente em Moses. – foi amplamente divulgado na mídia. Não de maneira integral. Não seria permitido. Contudo, iremos passar o vídeo no telão para que os senhores jurados vejam.
− Essa não – Murmurou Milo, consternado. A seu lado, Saga tornou, em tom cúmplice:
− Sabíamos que esse momento chegaria. É para o bem dele. Do NOSSO lado.
− Eu sei. – Afirmou, em meio a um sabor misto e amargo de revolta e resignação.
Camus engoliu em seco. Esforçou-se, porém, em manter uma expressão serena no rosto quase lívido. Em vão; Milo já o conhecia o suficiente para não se deixar ludibriar. Cerrou o punho, angustiado. Nada podia fazer. Era necessário...
E as terríveis cenas, que tanto assolavam seus pesadelos, explodiram em sua frente, tão vívidas quanto naquela noite tenebrosa, em que descobrira o lado mais obscuro do ser humano.
Não se lembrava de a filmagem ser tão longa. Torcia avidamente por seu término. Tanto homens quanto mulheres na audiência por vezes exclamavam sentidamente, cobriam as bocas com as mãos ou fechavam instintivamente os olhos enquanto viravam os rostos nauseados.
Quando o vídeo terminou, havia mesmo quem vertesse lágrimas; Milo enxugava apressadamente as dele, na esperança de que Camus não percebesse. Em vão; o ruivo, no entanto, longe como estava, não podia confortá-lo senão mantendo a postura de inalterada placidez.
Também Aldebaran estava às lágrimas. Aiolos mirou-o com simpatia antes de se retirar. Em seu lugar postou-se o advogado de defesa de Hades, que considerou o brasileiro com condescendência cínica ao pontuar lentamente:
− Vejo que o senhor se emocionou.
Fitando-o com indisfarçável hostilidade, Aldebaran esfregou os olhos úmidos e ergueu o rosto quase em desafio.
− Por acaso – Moses prosseguiu, sem mudar o tom. – se emocionou dessa forma alguma vez durante todos os anos em que presenciou os ritos e suplícios aos quais o filho de meu cliente se submeteu?
− Como eu disse antes, eu era CEGO!
− Cego? Ora, eu pensei que o senhor enxergasse muito bem. Passou por alguma cirurgia reparadora, ou...
− O senhor entendeu MUITO BEM. Eu quis dizer que não tinha consciência do que Camus era obrigado a fazer. De que ele era OBRIGADO a fazer tudo o que fazia, principalmente essas... coisas INDIGNAS que acabamos de ver!
− Acredita que o rapaz foi “obrigado” a cumprir o papel de Redentor por dezesseis anos? Para alguém que admite não possuir capacidade de julgar, afirmando-se “cego”, o senhor está vendo coisas que não existem...
− Protesto! – Aiolos bradou, já de pé, dedo em riste na direção de Moses. – A defesa está faltando com o respeito com a testemunha!
Assentindo, a juíza acatou:
− Senhor Moses, mantenha o decoro, por favor.
− Sim, meritíssima. Peço desculpas por ter sido demasiadamente direto. – Disfarçou, o cinismo ainda presente na voz e nas feições. E recomeçou o “ataque”, na expressão que soava na cabeça de Milo – Senhor Antônio, uma vez que com a filmagem do policial Hatzis, e a permanência dele em sua residência, o senhor passou a desaprovar a religião que por anos seguia, podemos dizer que o policial Milo Hatzis o influenciou nesse sentido?
− Me... influenciou? – Repetiu, indignado. – Quem, com um mínimo de humanidade, não desaprovaria tal...
− Eu preferia que respondesse “sim” ou “não”, senhor Antônio.
− Mas NÃO se trata apenas de...
− Sim ou não? Hatzis influenciou sua decisão?
− O termo “influenciou” me parece bem fora de lugar, senhor Moses.
− Bem, até travar contato, por que não dizer, “amizade” com o invasor, e assistir ao vídeo que ele fez, o senhor era uma fiel Ovelha, não era?
− Sim.
− Logo, foi sob influência de Hatzis que se voltou contra o Grande Pai.
− Protesto! A defesa está manipulando os fatos e confundindo a testemunha!
− Protesto negado. Continue, senhor Moses. – Disse a juíza, com firmeza que desconcertou Aiolos.
− Perfeitamente. – Moses dirigiu-se a Aldebaran com súbita docilidade na voz. – June passou a conspirar contra a Aurora do Novo Porvir após travar relações com Milo Hatzis. Albior também; no que constam seus testemunhos, e a dele própria, ainda na Comunidade, rebelou-se contra Hades. A atitude deles, e também a do senhor, nasceu do contato com o policial. Qual o problema de chamarmos a isso “influência”?
− Ele abriu nossos olhos para que, sim, agíssemos!
− Contra a Aurora do Novo Porvir.
− Sim!
− O mesmo se deu com o próprio Camus. Não foi assim?
− Ele SALVOU o rapaz! Deus sabe o que teria acontecido a Camus se ele tivesse continuado a viver daquela forma!!!
− De que forma? Da forma que ele ACEITOU viver?
− Ele foi forçado...
− Forçado? Forçado a ser um deus vivo, receber tributos, honras, adoração, ser amado, considerado responsável pela salvação de milhares?
− Ele foi enganado pelo pai...
− Influenciado, você diz?
− Sim!
− Então concorda que sob influência ações, comportamentos e opiniões podem ser modificados, guiados... concebidos?
− É claro...
− Assim como Hatzis fez com o senhor. Com Camus. Com June e Albior.
Transparecendo real cansaço na expressão e no tom, Aldebaran praticamente murmurou:
− Milo não inventou nada... não enganou ninguém...
− Somente influenciou aqueles que hoje se voltam contra o meu cliente. Nenhum de vocês está aqui hoje, contra ele, por ter ele feito algo errado, e sim porque se deixaram convencer por AQUELE homem!
Tendo terminado a declaração com um brado, ousou apontar para Milo, que sentiu o sangue ferver. Vozes murmurantes lembravam um enxame, fazendo Camus estremecer perceptivelmente. Um frêmito de revolta fez Aldebaran rebater:
− Estou aqui hoje por Camus, mas chegará o dia em que minha presença neste tribunal será para buscar justiça à minha FAMÍLIA, que seu cliente MATOU!
− MEU cliente atirou sua filha e esposa EM FUGA de um despenhadeiro? Desconhecia a existência de provas. Pode me mostrá-las?
− Seu... – Rosnou o brasileiro, sem mais poder se conter. Ergueu-se em um ímpeto feroz, em seu campo de visão apenas o homem que tripudiava de sua dor. Quis golpeá-lo a qualquer custo. Quatro policiais cercaram-no, a fim de impedir que a testemunha levasse a cabo seu ávido intento. Tiveram dificuldade em imobilizá-lo, a despeito da vantagem numérica, acrescida do preparo de cada um.
− Debas! – Exclamou Milo, de pé, nervoso.
Em meio ao intenso burburinho, ouviu-se o martelo da juíza bater seguidas vezes.
− Ordem, ordem no Tribunal! Ordem!!!
Aquilo pareceu despertar Aldebaran de seu estado colérico. Parou de se mover, arrependido por haver se exaltado.
− É melhor retirá-lo, vê-se que não se encontra em condições de continuar – Ordenou a juíza, quase impaciente.
O olhar envergonhado de Aldebaran buscou Milo, que, para consolá-lo, fez-lhe um sinal positivo com o polegar, enquanto forçava um sorriso aparentemente doloroso.
− Essa merda não é fácil pra ninguém – comentou Aiolia, apertando a mão de Marin. Saori assentiu, por sua vez recebendo na sua a mão de um preocupado Kanon.
Incerto de sua utilidade para a parte da acusação, e, para não mais atrair para ela holofotes negativos, o brasileiro deixou-se conduzir para fora da Corte.
− Muito bem – Começou a juíza, neutra. – Passemos para a próxima testemunha da defesa. Queira entrar, senhora...
− Receio que ela não tenha chegado ainda, Meritíssima – Moses apressou-se em explicar, pela primeira vez parecendo inseguro.
A juíza mirou-o aparentemente aborrecida. Suspirou discretamente antes de falar:
− Neste caso, passemos à próxima testemunha.
− Quem será a testemunha da defesa que ainda não chegou? – Sussurrou Milo para saga, que deu de ombros, igualmente em dúvida.
Era a pergunta que pairava na mente de todos. E, quando se preparavam para ouvir o nome da próxima testemunha, uma voz se fez anunciar. Uma voz terrivelmente familiar a Milo:
− Meritíssima. Senhores. Peço desculpas pelo meu atraso,
Incrédulo, Milo arregalou os olhos ao balbuciar:
− Não pode ser... – E virou-se para confirmar o que lhe parecia por demais absurdo para acreditar. Deparou-se com a figura bela e esguia a caminhar de modo decidido e imponente até a frente do recinto, pelo corredor entre os bancos dos estupefatos espectadores.
− Natassia?...
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