Redentor
44 Religare - Ato II : Na Cova dos Leões
Notas iniciais
O frio cortante das algemas circundando seus pulsos e tornozelos serpenteou por suas entranhas; seu rosto tornou-se pálido, suas feições, ignotas, a respiração suspensa ao mesmo tempo em que seu coração pesado repercutia as batidas descompassadamente em seus ouvidos.
− Camus?
O chamado de Aiolos provocou-lhe um sobressalto. Baixou o olhar esgazeado até as mãos trêmulas: não havia algema alguma em seus pulsos. Tampouco seus pés estavam restritos. Mas aquela paralisia...
Não estava pronto para reencontrá-lo, era mesmo isso?
− Camus, você não quer...
Antes que o advogado concluísse a pergunta, adiantou-se e postou-se diante da porta gradeada. O falso guarda foi abrir a fechadura.
− Bom, voltarei em duas horas, se vocês ainda não tiverem saído. Estarei monitorando tudo do escritório. Com licença – O supervisor da ala Lloyd Mathews retirou-se tão logo Camus e Aiolos adentraram o recinto, em cujos cantos posicionavam câmeras de segurança.
Aparentemente não se tratava de uma cela e sim de um lugar reservado para tais ocasiões; no centro da sala de paredes de uma cor indefinida, entre o bege e o amarelo, encontrava-se uma grande mesa branca, com tampo de vidro, por sobre o qual pousavam as mãos algemadas do prisioneiro mais ilustre do presídio Holy Savior. Ao lado deste, o advogado Moses Stewart, que prontamente ficou de pé para cumprimentar os recém-chegados.
− Como vai, senhor Giannakos?
− Bem, obrigado, senhor Stewart. Espero que esteja igualmente bem. – Devolveu polido, embora pouco amistoso.
Moses virou-se para Camus, estendendo-lhe a mão, sorridente.
− Acredito que não se lembre de mim, mas estive no Vale em alguns eventos promovidos por seu pai. – Ante o olhar desconfiado do ruivo, não demorou a detalhar em que circunstâncias: − Celebrações de Páscoa e de Natal. Puxa, é difícil não o chamar pelo TÍTULO...
A mão de Moses permaneceu estendida aguardando a retribuição do cumprimento. Em vão, pois Camus manteve-se imóvel, com expressão indecifrável. Por sua vez, Moses não demonstrou desconforto pela recusa, antes gesticulou aos dois visitantes:
− Por favor, sentem-se.
Como o ex-Redentor não fez qualquer menção de se mover, Aiolos puxou uma cadeira para que o rapaz se sentasse. Dirigiu-lhe um olhar cúmplice sinalizando apoio; então o jovem sentou-se, sem tirar os olhos do pai. O noivo de Saga comparou-o mentalmente a uma presa encarando seu predador. Além da inevitável piedade, sentiu que não era bom sinal.
Ao contrário da tensão patente na postura rígida de Camus, Hades parecia relaxado, o semblante quase prazenteiro. Estudou o filho cuidadosamente, os poucos segundos àquela análise dedicados suficientes para concluir que a situação lhe era favorável desde o início.
− Isso tudo é emoção em me ver?
Incapaz de articular uma resposta, o ex-messias continuou calado, encarando-o. Hades contraiu as sobrancelhas e comentou simulando consternação:
− Olhe só para você... como está magro e abatido! Os mundanos decerto não o têm alimentado direito, pobrezinho.
− Está falando sério? – Interpelou-o Aiolos, incrédulo sobre o que ouvia. – Quando foi resgatado, Camus estava com desnutrição e desidratação severas! Precisou ser tratado POR DIAS no hospital!
O olhar despreocupado de Hades chocou-se com o indignado do advogado do filho, antes de voltar para este.
− Não me admira que esteja com esse aspecto doentio. Deixou um lugar onde a alimentação vinha diretamente da terra, dos pastos, dos rios... e agora é obrigado a consumir os industrializados e as comidas falsas dessa gente...
− Você só pode estar brincando! – Aiolos sequer usou o tratamento “senhor” para se dirigir ao Grande Pai. – É NÍTIDO para TODOS que Camus está muito mais...
− Senhor Giannakos – O tom severo de Moses interrompeu-o. – Gostaria de lembrar ao senhor de que esta é uma conversa entre PAI E FILHO. A nós dois cabe apenas acompanhar nossos clientes durante este encontro, permitido pela Corte Judicial!
Cerrando os punhos, Aiolos mordeu o lábio inferior ao considerar que Moses não estava errado, ao contrário... vendo-o exasperado daquela forma, Camus tocou-lhe de leve o braço; Aiolos virou-se para ele, que balançou a cabeça como a demonstrar que não valia a pena. Decidiu por fim tomar as rédeas da situação que aceitara; dirigiu-se a Hades de modo subitamente seguro:
− Tenho me alimentado com propriedade. Para ser sincero, melhor do que nunca.
− Oh, verdade? – Sorriu o Grande Pai. – Já se converteu às pavorosas junkie foods deles? Suas pizzas, seus hambúrgueres, seus refrigerantes e todos seus demais venenos repletos de química?
Camus também sorriu, porém de modo menos expansivo e sarcástico.
− Tudo que o senhor citou é de fato saboroso, não nego. No entanto, eu me refiro a não ter mais RESTRIÇÕES como as impostas pelo senhor no Vale.
− Se não é propício que os filhos de Deus contaminem seus corpos, que são templos do Espírito Santo, o que dirá o Sucessor do Messias?
Aquelas palavras causaram mal-estar ao jovem, que, contudo, o disfarçou com maestria. Rebateu:
− Hoje entendo porque o senhor e seus assessores mais próximos não deixavam de se fartar de carne. Agora que não sou mais PROIBIDO de comê-la, posso atestar que é um alimento delicioso.
− “Proibido”! HAH! Não seja dramático – Hades retrucou zombeteiro. – Você tinha que ser PURO, para cumprir a função que VOCÊ ACEITOU.
− Que ELE aceitou?!?
− Senhor Giannakos, POR FAVOR! – A reprimenda de Moses ecoou alta, impaciente.
Um esgar irônico precedeu a observação de Hades para seu filho:
− Seu advogado parece não acreditar que VOCÊ aceitava ser o Redentor da Igreja Aurora do Novo Porvir de livre e espontânea vontade. Que mentiras andou contando a esses mundanos, Camus?
Sentido a indignação na linguagem corporal de Aiolos, que contraía as mãos sobre os joelhos para se conter, o ruivo respondeu sério:
− Não entendo a que se refere. Fala como se eu tivesse tido alguma escolha. E eu NUNCA tive escolha.
− Por acaso você se recusava a se submeter aos ritos? Aos sacrifícios? A receber a devoção das Ovelhas? Ao seu papel de Messias desta era?
− O senhor sabe muito bem que NÃO. – Respondeu secamente. – Tudo porque...
− Espere, você cortou o seu cabelo? – Astutamente o Grande Pai interrompeu o jovem. – Agora que percebi... Deus, cortou aquele lindo cabelo! Por quê?
Embora atônito pela repentina mudança de assunto, ele não se furtou a explicar:
− Uma vez que não seria mais necessário mechas para serem vendidas no Cerimonial das Relíquias, me livrei do excesso.
Revirando os olhos, Hades estalou a língua antes de argumentar:
− “Vendidas”... elas não eram “vendidas”. Falando assim, faz as doações desprendidas dos que ADORAVAM você parecerem um mero comércio.
− TUDO ali era um mero comércio, e EU, a única mercadoria!!!
Sem deixar transparecer a surpresa em perceber o filho ainda mais indócil do que esperava, Hades não demorou a contra-atacar:
− E de quem foi a ideia de cortar seu cabelo? Não me parece algo que você teria decidido, já que nem tinha esse hábito ou vaidades do tipo...
Camus hesitou um pouco, mas acabou revelando:
− Do Milo.
− Ah, o policial Hatzis agora decide o comprimento que o cabelo do MEU FILHO deve ter. Não bastou tirá-lo de mim.
− Ele só pensou no meu bem-estar.
− Ele pensa BASTANTE em você, isso dava para perceber, desde que ele se infiltrou como um RATO na nossa Santa Comunidade.
Pela primeira vez, os olhos de Camus faiscaram de ira.
− Não fale assim dele – Ordenou.
− Por que não? Não foi o que ele fez? – O ex-líder religioso inclinou-se para o rapaz como se fosse lhe contar um segredo. – Ele agiu EXATAMENTE como um rato que invade um armazém onde se guarda uma colheita farta, obtida com o suor de trabalhadores dedicados. Éramos uma comunidade próspera, pacífica, tranquila, em comunhão com Deus e com a Natureza. Éramos FELIZES, a salvo deste mundo corrupto que jaz no Maligno... e um de Seus emissários invade nosso PARAÍSO e eis agora a situação – Afastou as mãos, mostrando as algemas brilhantes.
Por mais que tentasse controlar, o ex-Redentor não pôde evitar que a voz saísse um pouco tremida ao replicar:
− “Nosso paraíso”? Tudo que conheci naquele lugar foi DOR. Milo me salvou. Ele me salvou da dor!...
− Você servia à missão que ACEITOU. Aceitou ser o Sucessor do Messias. Logo, aceitou se submeter ao que se submeteu para salvar os pecadores, assim como Jesus se submeteu em Sua época.
− Que escolha eu tive? Eu tinha SETE anos quando o senhor me apresentou como o Redentor da SUA igreja... uma igreja que VOCÊ criou!
Franzindo o cenho com desdém, Hades retrucou com autoridade:
− Papel que você desempenhou muito bem por DEZESSEIS anos, até receber a influência nefasta do policial Hatzis e conspirar com ele contra mim!
− Senhor Stewart, sei que não devo me intrometer na conversa entre seu cliente e o meu cliente, mas posso perguntar uma coisa ao senhor?
Pai e filho voltaram suas atenções para os advogados. O repórter disfarçado de guarda, encostado no fundo da sala, lançou sobre eles um olhar atento. Perguntou-se se o homem que viera com o “Redentor” não estava desconfiando de algo.
− Bem, já os interrompeu, então diga. – Moses volveu em tom arrastado, cínico.
− Eu trouxe Camus aqui porque recebemos a petição de Armand De La Faure para uma conversa com o filho. Mas o que estou presenciando parece mais um INTERROGATÓRIO do que a tal “conversa entre pai e filho” que vocês requisitaram. Gostaria de saber, de verdade, o que está acontecendo aqui.
− Vai ter que se explicar melhor, porque, sinceramente, não o entendo.
− Certo, eu explico – E encarou com assertividade o ex-líder religioso, que continuava a sustentar o ar superior. – Hades é o único a conduzir os tópicos dessa “conversa” e do jeito que lhe convém.
− Creio que esteja interpretando tudo de forma precipitada, baseado em suas...
− Não, Moses, ele está certo – Hades interrompeu seu advogado, assumindo uma expressão compreensiva. – Minha ansiedade em encontrar com meu amado filho me deixou afoito demais. Me desculpem.
E sorriu para o ruivo com amabilidade tão falsa que este sentiu a garganta arranhar de aflição. No íntimo do ex-messias, turbilhões de questões e acusações revolviam-se ensandecidamente. Ele SABIA o que tinha de dizer, o que queria perguntar, fora até ali com a intenção formada. Não obstante, sua língua pesava, seus lábios não lhe obedeciam, as névoas em sua mente não se dissipavam. Ao ver o Grande Pai erguer as negras sobrancelhas como quem diz, displicente, “E então? Estou esperando.”, ele comentou, quase gaguejando:
− O... o senhor... o senhor sim emagreceu. Parece até que finalmente envelheceu.
− Efeitos de uma conspiração sórdida e covarde sobre a compleição de um homem inocente.
− Considera-se MESMO inocente?
− Claro! Afinal de contas, o que foi que fiz para estar aqui, hã? Sabe me dizer?
“Ele está fazendo de novo”, pensou Aiolos, certo de que havia intenções escusas naquele colóquio, mais até do que as propaladas por Milo. Talvez fosse melhor tirar Camus dali.
− Estelionato, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro, enriquecimento ilegal, tráfico de influência, suborno, tentativa de suborno, extorsão, cárcere privado, exploração de pessoas que trabalhavam em situação análoga à escravidão.
Os três homens fitaram assombrados o ex-Redentor, que, sem qualquer hesitação ou emoção na voz, enumerara tudo que, de fato, levara Hades até ali. O súbito silêncio logo foi preenchido por uma gargalhada do preso.
− Veja você quantos nomes deram aos atos de um homem abnegado em nome da Fé. Aprendeu todos eles durante a confortável estada no lar do policial Hatzis?
Ante o olhar interrogativo do filho, adiantou-se:
− Da mesma maneira que as notícias pelas quais aprendeu todas essas palavrinhas chegam até você, chegam outras notícias até os pobres diabos aqui aprisionados.
− Tem razão – Murmurou Camus, com mal contida irritação. – aprendi essas... “palavrinhas” assistindo à cobertura do caso que te pôs aqui, aprisionado.
Os dedos longos do homem algemado se uniram enquanto ele desfiava maliciosamente:
− Deve ter aprendido várias delas com o policial que te acolheu tão gentilmente... aliás, como e por que ele quis fazer isso? Através das mesmas notícias a que você teve acesso, eu soube que, a princípio, você ficaria sob custódia do governo, num hospício qualquer.
Mais uma vez, Aiolos não pôde se conter: ergueu-se da cadeira e, com o dedo apontado para Hades, bradou:
− Está fazendo de novo! Está se dirigindo a Camus como se estivesse num interrogatório, está conduzindo as falas, isto NÃO é uma conversa!!!
− Senhor Giannakos, já disse para não se intrometer! – Enunciou severamente Moses.
− O que pretende, Hades? Vamos, diga logo!!
− Aiolos, calma! – Camus levantou-se para conter o advogado, que perdera de vez a paciência. Chegou a se interpor entre o pai e Aiolos.
− Camus, Milo estava certo, não foi boa ideia termos vindo! Eu sugiro que a gente vá agora mesmo.
− Oooh, o policial Hatzis queria impedir você de vir encontrar teu próprio pai? Ele está te controlando mais do que imaginei... – Provocou o ex-líder religioso.
− Vamos embora, Camus – Propôs Aiolos, entre dentes.
− NÃO. Eu vim até aqui para fazer perguntas a Hades. Perguntas que ainda NÃO fiz.
Perturbado por aquela obstinada recusa, Aiolos capitulou:
− Está bem. É sua opção, você tem direito. Mas ele NÃO está com intenção real de conversar contigo.
− Não importa, ele VAI me responder. E só então sairei daqui.
Após se olharem por uns instantes, os dois tornaram a se sentar. Hades deixou escapar um risinho anasalado.
− Hunf. A que ponto chegou a lavagem cerebral do senhor Hatzis... não é sequer capaz de me chamar de “pai”.
A provocação não pareceu surtir efeito, pois que o jovem tão somente lhe direcionou um olhar frio, seu semblante agora severo e sem o menor sinal da tensão anterior.
“Quando foi que esse MOLEQUE ficou assim tão decidido? Tão cheio de si? Ah, mas vou quebrar essa crista de galo já já... voltará a ser o que era, moleque... um BONECO DE BARRO em minhas mãos...”, pensava Hades, a face tranquila a camuflar a cólera que lhe queimava por dentro.
− Hum. Disse que quer me fazer perguntas. Seu advogado nos interrompeu várias vezes, me acusando de estar fazendo um “interrogatório”. Por acaso, quer fazer um?
− O senhor se sente preocupado em saber que quero lhe fazer perguntas?
− Vá em frente. Que mais pode me incomodar um servo de Deus traído pelo próprio filho, e que agora o vê dominado pelo pecador que destruiu nossas vidas de paz e de comunhão sobre a fé?
− Por que fez tudo isso comigo?
A pergunta saiu firme e impessoal, como se alguém perguntasse “como está o tempo lá fora?”. Hades considerou-o um pouco antes de responder, com estudada calma:
− “Tudo isso” o quê? Refere-se a ter te criado como o “Redentor”?
− “Tudo isso”, me refiro a TUDO o que o senhor me submeteu para me manter no papel de Redentor!
− Por que me pergunta algo que sempre soube? Quando o Anjo Gabriel apareceu para mim, fez a revelação de que meu filho do meio deveria continuar a obra de Jesus, pois a humanidade havia se tornado tão corrupta que nem mesmo o Plano Original daria conta de...
− PARA. Eu CONHEÇO a história. Sabe MUITO BEM que conheço!
− Se conhece, então por que pergunta?
O tom de Camus, assim como seu rosto, se tornou grave, quase sombrio.
− Eu pergunto por que sujeitou um FILHO SEU a passar por anos de tormentos... como teve CORAGEM de me fazer passar por tanto sofrimento, sendo EU o SEU filho.
− Ora, era meu filho, sim, mas aquelas eram ORDENS de Deus!!!
− Ordens de Deus – Repetiu mecanicamente. – Eu quero saber: o senhor REALMENTE acreditou... ou desde o início FORJOU tudo?
− Acha que eu teria INVENTADO a Nova Missão para submeter meu próprio filho a provações tão severas?
− Dizem que o senhor INVENTOU tudo para ENRIQUECER às custas das “provações tão severas” do seu próprio filho!
Crispando as mãos, Hades elevou a voz, emulando a indignação de quem recebe uma acusação injusta:
− “Dizem”, é claro que “dizem”! Quando o Cristo foi crucificado, também DIZIAM inverdades sobre ele! E você, Camus, no que acredita? No que viveu, no que acreditou por 16 anos ou no que “dizem”?
− Eles têm PROVAS. Provas de seus crimes. Há testemunhas. O senhor está aqui por esses crimes. – Lágrimas cintilaram nos olhos avelã, mas ele não as deixaria abandoná-lo. – E em alguns dias, o senhor será julgado pelo que fez COMIGO. E depois, por ter matado MINHA MÃE. A família de Aldebaran. Cindy e...
− Quanta baboseira – Cortou-o com um gesto de enfado. – Agora inventam um monte de mentiras para aliviar a sua barra nisto tudo, pensa que não entendi isso?
− Para... o quê? – Não compreendera a expressão.
− À parte dessas mentiras que nunca poderão provar...VOCÊ aceitou o fardo. Você concordava com os desígnios de Deus transmitidos a mim pelo Anjo Gabriel. Você se ofereceu aos altares de sacrifício tal qual Jesus se ofereceu para ser pregado na Cruz. Acaso pergunta se Jesus foi obrigado àquilo?
“Esse desgraçado está querendo jogar a culpa para o Camus?...”, a cada palavra do Grande Pai o sangue de Aiolos fervia mais e mais.
− Você PERMITIA QUE ME VIOLASSEM! – O ruivo finalmente explodiu, o ímpeto com que levantara derrubando a cadeira detrás de si. – Me TORTUROU POR ANOS E ANOS em troca de DINHEIRO!!!
− Dinheiro para sustentar a igreja que idolatrava VOCÊ!
− Eu... eu... O SEU FILHO! O SEU PRÓPRIO FILHO!!! Como pôde... como pôde fazer isso...?
Aiolos tentou conter Camus, mas foi impedido por Moses.
− Fala como se não estivesse à frente da igreja COMIGO...
− Você não sofria como eu sofria! Nunca passou por nada que eu...
− Porque não era EU o Messias desta era – A ira do filho mostrou-lhe que deveria manter a postura “superior” – Se ao Messias desta era cabia a missão de continuar o trabalho do original, como você estaria livre de um martírio, vez ou outra? Se tivesse sido tão grave, você estaria aí, em pé, inteiro, falando todas essas infâmias? Não estaria.
Trêmulo de revolta pelo que ouvia, Camus não conseguiu mais enunciar qualquer sentença. Parecia à beira de um colapso. Aiolos quis tirá-lo daqui a força. Prevendo-o, Hades continuou a atormentar o jovem:
− Você sempre aceitou o fardo, sempre. Até que Hatzis apareceu, te enfeitiçou e te convenceu a juntos tramarem contra mim... contra a Igreja. A SUA igreja!
− Milo me salvou da dor. Eu devo tudo a ele.
− Imagino como está pagando a dívida, já que agora estão debaixo do mesmo teto... ele vai até o seu leito ou é você quem vai até o dele?
De tão inesperada, ninguém poderia ter impedido aquela reação: Camus avançou contra Hades e esbofeteou-o com todas as forças de que dispunha. Aiolos ergueu-se de um salto e com os dois braços conteve o jovem, puxando-o para trás. Completamente aturdido, Hades levou a mão ao rosto.
− Não se atreva a falar de Milo dessa forma! Não o acuse de condutas impuras, humilhantes, como as que VOCÊ permitia contra mim! – Gritou o ruivo cego de fúria.
− Cristo... – Murmurou o Grande Pai, em meio a um sorriso pasmado. Moses fez menção de ver-lhe a face agredida; Hades sinalizou que não era preciso. O advogado voltou ao seu lugar. Movido pela confiança de que tudo saía como queria, Hades prosseguiu:
− “Condutas impuras”? “Humilhantes”? Eram RITOS, você sabia disso e a eles se submetia. Os mundanos é que enfiaram esses julgamentos levianos na sua cabeça... mas... ei... você me estapeou a valer, hein? Tudo porque falei de seu estimadíssimo Hatzis, aquele pelo qual você traiu a sua família, a sua igreja.
− Não tem mais por que ficarmos aqui, Camus, POR FAVOR, vamos embora – Desta vez Aiolos não se envergonhou de suplicar, segurando-o pelo braço. Ele mesmo já se sentia mal.
− Não, ele não me respondeu, eu PRECISO saber...
− A mesma imprensa que me chama de “inimigo número 1 da América” sabe que você só quis se livrar de seu dever para viver com o espião por quem se apaixonou?
Posicionando-se à sua frente, Aiolos segurou firmemente o rosto de Camus, forçando contato visual.
− Camus, me escuta, me ouve: ele está distorcendo tudo para fazer parecer que VOCÊ participou de toda a sujeirada dele por livre e espontânea vontade, não vê? Não percebe? Eu NÃO sei por que ele está fazendo isso, mas é EXATAMENTE o que está fazendo! Ele NÃO vai te responder!
− S-sim... m-mas eu...
− Vamos embora!
− Eu NÃO quero ir antes de...
Moses pôs a mão no ombro de Aiolos e pontuou com gravidade:
− O filho do meu cliente NÃO quer ir agora, por que não pode respeitar a vontade do seu cliente? Ou Camus não está em pleno juízo de suas faculdades mentais para decidir por si mesmo? Eu soube que não era o caso.
Nunca na vida Aiolos quis tanto socar alguém. Foi necessário muito autocontrole e sangue frio para não se render a tal vontade. Por questão de preservar a si e ao outro advogado, demandou em tom baixo e quase ameaçador:
− Tira a mão de mim.
Nesse meio-tempo, Camus desvencilhou-se de seu advogado para se dirigir ao pai:
− A forma como tenta desmerecer Milo faz com que eu acredite cada vez mais no que dizem: que você arquitetou TUDO, de maneira fria e calculada, em nome da fortuna e poder.
− Vocês dois também arquitetaram TUDO para viverem o que começaram lá na Cachoeira do Profeta...
O ódio nos olhos do ex-messias deu lugar ao estupor. Feliz por percebê-lo, Hades prosseguiu, sem se alterar:
− As imagens do vídeo não davam margem a qualquer mal-entendido, você mesmo viu, não foi?
− Como tem coragem de mencionar o que serviu de pretexto para VOCÊ mandar torturar Albior por DIAS?
− Eu não fiz nada disso. Esse homem está inventando coisas...
− O quê? – Espantou-se o jovem.
− Bom, não existem provas disso, existem? Por outro lado, o vídeo prova claramente que o policial Hatzis já estava te aliciando para virar sua cabeça contra a tua fé. Contra os teus. – Tamborilou os dedos alegremente sobre a mesa. – E sabe de uma coisa, querido filho? Apesar de todo vandalismo sofrido por nosso patrimônio consagrado, aquele vídeo SOBREVIVEU... será que vai fazer tanto sucesso na TV quanto sua novelinha de vítima faz?
− E o que é que nesse seu tão querido vídeo pode superar o vídeo da Santa Ceia, Hades? – Aiolos não conseguiu evitar, sem mais dar atenção a Moses, que protestava contra mais aquela intromissão.
A ele o Grande Pai dirigiu um olhar condescendente ao responder:
− Apenas a comprovação visível do que afirmo: que o Redentor só se rebelou contra sua Igreja para poder se relacionar livremente com Milo Hatzis. Afinal, em dezesseis anos de “horrores”, como tão dramaticamente apregoam por aí, ele NUNCA se rebelou contra o seu destino. Ao contrário, CONCORDAVA com ele. Entregava-se de corpo e alma. Só que sua missão não era compatível com seu relacionamento pecaminoso com o pernicioso espião.
Se Aiolos não tivesse sido rápido o suficiente para segurar Camus, Hades teria sido esbofeteado pelo filho outra vez. Insistiu com o ruivo:
− Por Deus, JÁ CHEGA! Não vê que esse homem só quer tirar você do sério?
− EXIJO QUE ME RESPONDA! – Camus gritou, os braços de Aiolos cruzados firmemente em seu peito. – Pare de fugir do assunto e ME RESPONDA!
Puro deleite emanava do largo sorriso do preso.
− O que quer mais que lhe responda, meu filho?
− Por que atirou SEU PRÓPRIO FILHO a uma vida de tanto sofrimento? Por quê? POR QUÊÊÊ??? – Vociferou.
− Quando você tinha sete anos, o Anjo Gabriel... ora, eu já respondi a essa questão dezenas de vezes. – Suspirou, cínico. Calmamente questionou: − Ao menos acredita que eu tenha visto o Anjo Gabriel?
− A visão não é o mais importante, agora. Eu também as tenho.
− Você tem o quê?
− Visões.
− Camus, não...
− Senhor Giannakos, deixe-os, o senhor já interrompeu demais!
Demonstrando vívido interesse, Hades indagou:
− Que tipo de visões?
− Meus irmãos... eu vejo meus irmãos.
Com os olhos cerrados, Aiolos balançou levemente a cabeça. Camus não deveria tocar naquele assunto com o pai!
− Seus irmãos? Os irmãos que os valorosos amigos de seu adorado Hatzis ASSASSINARAM?
− Seu... – Antes mesmo que Aiolos se manifestasse, Camus tomou a frente:
− Os policiais NÃO “assassinaram” Algol e Rada. Algol foi morto por Rada bem diante dos meus olhos – Lágrimas deslizaram pelo rosto pálido do ex-Redentor. – Rada teve de ser abatido porque ia ME MATAR! Antes disso, ele matou Pandora, Ikki e Shun... matou a própria família!
− Ele SABE muito bem disso, Camus! – Falou Aiolos, totalmente ciente de que, fosse qual fosse a razão, o jogo do Grande Pai era tirar de si responsabilidades diante do filho.
− Pobre Rada, a invasão daquele exército de assassinos mexeu com a cabeça do menino, foi só isso...
− Você ENLOUQUECEU os meus irmãos!!!
− Hunf, você vê mortos e EU é quem enlouqueço as pessoas...
Tremores de mágoa e revolta sacudiram o corpo do ruivo, que em espaçados balbucios disse:
− Você os transformou naquilo que foram... em... monstros. Deixou que me machucassem, que me violassem... assim como deixou tantos outros...
− Que bobagem, fala como se tivesse sido forçado à sua boa vida de Deus vivo. Aposto que tem visões com seus irmãos por CULPA.
Ao ver-lhe o semblante atormentado e molhado pelo pranto silencioso, Aiolos tocou de leve o ombro de Camus.
− Você não terá sua resposta. – Murmurou, consternado.
− Hades...
Ciente de que mais uma indagação estava a caminho, ex-líder religioso aguardou em silêncio. O garoto nem mais se dirigia a ele com “pai”!, pensou, um tanto ressabiado.
− O que você obteve todos esses anos... valeu o sacrifício de seus filhos? De sua esposa? De entes familiares? De pessoas que entregaram tudo que tinham à SUA igreja?
Como Hades permanecesse calado, sendo a única expressão a sair de seus lábios um meio sorriso de puro descaso, Camus insistiu:
− Você... realmente... nem por UM INSTANTE SEQUER lamentou ter atirado minha mãe à morte? Ter envenenado meus irmãos para se tornarem aqueles demônios horríveis? Ter ME atirado a um INFERNO de dor e humilhação... TODOS ESSES ANOS?
Os questionamentos foram feitos em voz baixa, embargada. Sem qualquer réstia de emoção na face, Hades recitou, monocórdio:
− Tudo que fiz foi obedecer às ordens do Altíssimo. O modo como agi foi para pôr em prática o Plano que salvaria milhões da condenação eterna.
− SEU FILHO. Eu ERA seu FILHO!!!... seu... próprio...
Incapaz de prosseguir, o ruivo abaixou a cabeça e deixou o pranto correr mudo e livre. Aiolos amparou-o, enquanto dizia a Hades:
− Teve o que queria. Espero que esteja satisfeito.
− Não tenha dúvidas.
− É pena que sua satisfação não vai durar muito. Em quatro dias, receberá o veredicto pelo que fez com Aldebaran, Albior e Camus. Menos de 30 anos você NÃO vai pegar, Armand.
− Controle-se, senhor Giannakos. Não cabe ao senhor determinar NADA. Constranger meu cliente é passível de processo.
− Com todo o respeito que NÃO lhe devo, senhor Stewart, primeiramente, vá para a puta que pariu e, depois, vá tomar no meio do seu cu.
Boquiaberto e totalmente sem ação, o advogado do Grande Pai teve que se contentar em ver Camus e Aiolos se retirarem da cela aberta pelo guarda que esperava pelos visitantes do lado de fora.
− Ah, como são vulgares, os mundanos... – Comentou Hades, em postura relaxada. Sorriu vitorioso ao pensar que, com hábeis edições no ÁUDIO, o jogo, em quatro dias, poderia se virar TAMBÉM contra o seu filho.
Lançou um rápido olhar para o repórter disfarçado no fundo da sala, que lhe correspondeu o olhar, de modo a comprovar silenciosamente o que o Grande Pai pensara. Moses mirou-os brevemente, como a concordar com eles.
Do lado de fora da sala onde o tenso colóquio transcorrera, antes de percorrerem de volta o corredor pelas celas da ala 3, Aiolos apoiou a mão no ombro do ruivo, que se mostrava abalado, e sugeriu:
− Vamos passar bem rápido, para não ficar ouvindo as baboseiras dos presos, está bem?
“As baboseiras dos presos”, pensou Camus; de que forma aquilo poderia afetá-lo, depois de tudo que ouvira de seu próprio pai? Sim, não conseguia mais chamar aquele homem de “pai”! Nunca mais conseguiria! O que, entretanto, jamais extirparia de suas veias o sangue de Armand De La Faure.
De Hades.
À medida que eles avançavam, as vozes dos presos aumentavam de volume e a elas juntavam-se assobios, risos, zombarias.
Os sons chegavam difusos aos seus ouvidos, desprovidos de significado.
Que sentido poderiam ter?
Seus passos tornaram-se incertos, sua cabeça pesada, seu corpo vacilante.
“Tudo foi realmente um estratagema. Um truque. Uma FARSA”, seus pensamentos ecoavam em sua mente. A luz, ao contrário do que poderia imaginar... a luz do entendimento ofuscava e confundia-lhe os caminhos.
O que deveria pensar, mesmo?
Houve um tempo em que ele NÃO podia pensar.
Agora, podia. Mas como doía...!
Nunca houve fé. Apenas cobiça. Sede de poder.
Uma fraude.
Fora tudo uma FRAUDE.
Sede de poder, em nome do qual ele fora seviciado por ANOS.
Por dezesseis anos!
Seu pai... Hades... NUNCA acreditou que fosse questão de salvação de quem quer que fosse. Tinha plena convicção daquilo, antes mesmo de ir para a Pensilvânia. Entretanto, uma fagulha quase imperceptível resistia em seu âmago.
“Seu filho. Eu ERA SEU FILHO!”
− Camus, o que você tem? – Aiolos percebeu seu desequilíbrio.
− A conversa foi boa! O garoto tá até grogue! – Chasqueou um dos presos, aos risos.
− Devem ter tomado o vinho da Santa Ceia! – Bradou outro, angariando assobios e gargalhadas.
“Santa Ceia.”
Um dia, ELE foi a Santa Ceia...
Seus olhos arregalaram-se para reter a luz que principiava a esmorecer.
A escuridão rondava.
− Vai ver, tavam contando os dízimos dos fiéis!
− Camus! – O advogado segurou-o pelas costas, ao perceber que o ruivo ia cair.
− Tá nem conseguindo andar, será que rolou na sala do papai um ritual DAQUELES? – Ao enunciá-lo, o preso fez gestos obscenos. Risos explodiram ruidosamente.
O guarda que acompanhava Camus e Aiolos berrou:
− Silêncio aí, seus cretinos!! Já chega!
De repente, o ex-Redentor se desprendeu do noivo de Saga e dobrou o corpo para vomitar, sem qualquer aviso. Curvado sobre o chão de piso cinza, sob espasmos e franca agonia, regurgitou seguidamente. Preocupado de que ele perdesse por completo o equilíbrio e se acidentasse, Aiolos amparou-o como pôde.
− Camus! Calma, cuidado, estou aqui...
Ele já não ouvia nada. Tudo de dentro de si parecia ansiar por partir, por deixá-lo, por ir embora com aquele vômito. Tossiu angustiado, resfolegava um pouco, quase sufocado pela pressão das golfadas.
Àquela cena os presos assistiam, subitamente emudecidos. Quando Camus finalmente pareceu ter parado de vomitar, Aiolos e o guarda que os acompanhava fizeram menção de continuar o caminho, cada um deles a apoiá-lo pelos braços. O ex-Redentor bem que tentou colaborar com o esforço dos dois, só para, passos à frente, perder o equilíbrio novamente, não por causa de outra regurgitação, mas de um choro convulsivo que o sacudia terrivelmente. Sem mais conseguir se conter, explodiu em uma crise, patenteada por gritos abafados que mal conseguiam sair pela garganta. De joelhos, completamente desfeito, gania, gritava e gemia de tal forma que paralisou Aiolos e impressionou os presos, confusos sobre o que sentir, o que pensar. Alguns até tentaram fazer graça; vendo porém, que a maioria deles apenas assistia, pasmada, preferiam voltar a fazer silêncio.
− AAAAAAAAHHH! UUUH... AAANG... AAAAAHHH!!!
− Cristo, vou chamar os enfermeiros!! – Dispôs-se o guarda, já correndo.
− Espera, não é preciso!... – Aiolos ainda tentou impedi-lo, mas o homem não poderia ouvi-lo em meio aos gritos de Camus.
“Não posso deixar que sedem ele, não neste lugar!”, pensou entre resoluto e apavorado. Abaixou-se para erguer e conter o jovem, embora não soubesse exatamente como fazê-lo. Sem encontrar saída mais prática, enlaçou-o pela cintura e puxou-o para cima, até que ficasse de pé nele apoiado. O ruivo tinha parado de gritar, agora soluçava e gania dolorosamente. Aiolos amparou-o o mais firmemente que pôde e sussurrou-lhe, empático:
− Segure-se em mim, por favor. Vai ficar tudo bem.
Jurou que ouviria zombarias dos presos, contudo, o silêncio destes permaneceu. Olhou ao redor, sem conseguir desvendar a razão. Estariam compadecidos? Assustados? Teria aquela demonstração de desespero genuíno de uma alma destroçada que chegara ao seu limite enviado alguma mensagem àqueles homens privados de sua liberdade?
Voltaria àquela reflexão depois. Por ora, tinha que evadir-se dali, antes que aparecessem enfermeiros com seringas lotadas de tranquilizantes. E que Deus ajudasse o pobre coitado encarregado de limpar aquele chão!
*************
Milo e Aldebaran estavam sentados num dos bancos da aprazível praça anteriormente avistada pelo brasileiro quando chegaram ao distrito do presídio. Tomavam cervejas compradas em um trailer pintado de flores rosas sobre um fundo prateado. Dele emanava um tentador cheiro de cachorro-quente, que atraía a maior parte das pessoas que por ali passavam. À frente de onde os dois se encontravam, havia uma fonte em cujas águas algumas crianças atiravam pedrinhas. Das copas verde e ocre das árvores aves alçavam voo rumo ao céu prateado. Observando-as, Milo se perguntava como estava indo a tal reunião. Tinha mau pressentimento sobre ela, aliás, desde o início tivera. Esperava que a presença de Aiolos de fato minimizasse qualquer risco que pairasse sobre seu amado Camus. Soltou um suspiro e comentou:
− Hoje Albior e June estão prestando o último depoimento antes do grande dia. Tudo encaminhando para o maldito ser condenado.
− Se Deus quiser, ele vai pegar uma pena bem pesada.
− O que ele merecia mesmo não está mais em vigor no país, infelizmente (*).
− Na verdade, mesmo que estivesse, seria bem difícil ele pegar pena de morte. Pelo que pesquisei, somente em alguns estados era permitida. Por mais que Hades se encaixe no âmbito de crime federal, até o momento, não há indícios de que ele tenha cometido assassinato em primeiro grau...
− Claro, ele tinha um monte de lacaios pra fazer o serviço sujo dele! Mas, porra, ele matou a própria mulher... bom, MANDOU matar, né. O que pra mim daria no mesmo.
− Você iria preferir MESMO que ele morresse ao invés de pagar EM VIDA pelos crimes que cometeu?
O jeito com que o policial amassou a lata antes de depositá-la na lixeira ao lado do banco dava pistas de seu emocional ao ouvir tal pergunta.
− Debas, eu preferia vê-lo MORRER diante dos meus olhos sim. Queria olhar bem fundo naqueles olhos sem qualquer sentimento enquanto ele morria. Enquanto ele desaparecesse POR COMPLETO desta existência em que Camus está.
Moralmente, Aldebaran não poderia compactuar com aquele desejo, mas balançou afirmativamente a cabeça ao ponderar se a pessoa que lhe tirara a mulher e a filha realmente não merecia ser extirpada da face da Terra de uma vez por todas. Descartou a lata enquanto comentava:
− Espero que tudo corra bem durante o depoimento de Albior e June. Ele é outro que está sofrendo terrivelmente pelas ações de Hades.
− Tomara que o tratamento que Albior vai fazer dê certo. June tá confiante. Espero que ele também esteja. Isso é muito importante, acredito eu. – Fechou os olhos ao confessar: − Procuro não me culpar, mas... o fato é que Albior foi torturado por ter tirado aquela maldita tornozeleira de Camus quando estávamos na...
− O que te falei sobre “se culpar”? Milo, se a gente procurar... vai acabar se culpando por tantos horrores que aconteceram naquele lugar... lugar criado por Hades!
− Você tá certo, Debas. De mais a mais, nós... ah, espera, meu celular.
Atendeu e quase deixou a lata de cerveja que acabara de abrir cair, ao ouvir a voz aflita de Aiolos:
− Milo, já estamos no carro, vocês podem voltar.
Pela expressão do agente, Aldebaran soube logo que era hora de se pôr de pé.
− Achei que demorariam mais – Observou.
− Achei que demoraram MUITO – Retrucou Milo, o andar apressado denunciando sua ansiedade.
Pelo jeito com que Aiolos falara com ele ao telefone, as coisas – como havia previsto! – não tinham saído nada bem.
Com expressão exausta, Aiolos segurava maquinalmente o volante enquanto esperava o retorno dos outros; no banco de trás, calado como o motorista, estava Camus, de cabeça baixa e olhar parado, esgazeado. Mal abriram a porta, Milo e Aldebaran torceram o nariz devido ao odor pungente que os fizera exclamar por instinto.
− Olos! O que... – Milo espantou-se ao ver-lhe as roupas sujas de vômito, e seu espanto aumentou ao ver Camus mais sujo ainda. – CAMUS! O que houve com você?!?
O ex-messias não se importou em responder, continuou na mesma posição, sem deixar sequer que o companheiro lhe visse o rosto.
− Camus? Olos? – Milo tornava o olhar interrogativo de um para outro.
− Milo, por favor, sem perguntas agora, tá? Só entra.
− Mas Olos, o que foi que...
− PELO AMOR DE DEUS, SÓ ENTRA!!!
O advogado chegou a gritar. Arregalando os olhos, Milo se deu conta de que nunca o testemunhara sequer falar alto. Tomou seu lugar ao lado do ruivo, enquanto Aldebaran sentou-se no banco do carona, para, em seguida, colocar para fora da janela o rosto. Impossível ficar sentindo aquele cheiro...!
− Acho que não é preciso falar que não tem como a gente pegar estrada assim, né? Camus e eu precisamos de banho, roupas novas e o carro, de uma boa lavada antes de voltarmos a Red Meadow.
As palavras foram despejadas com impaciência por Aiolos. Milo convenceu-se de que era mais seguro não fazer qualquer questionamento por enquanto.
− OK, posso pesquisar no celular algum hotel aqui por perto.
− Por favor, O MAIS PERTO que tiver, Milo. Qualquer que seja!
Tão logo Milo mostrou o resultado, Aiolos deu partida no automóvel.
*************
Sem tirar os olhos da porta de madeira pintada de branco, Milo mantinha-se atento a qualquer sinal que denotasse anormalidade. Sentado em uma poltrona verde escuro, disposta junto à janela cujas cortinas escuras deixavam entrever as últimas réstias de claridade daquele dia, ele bebia uma cerveja arrematada do frigobar do apartamento 501 do hotel Pensilvânia Palace. Nome um tanto pomposo para um hotel tão simplório. Verdade que era modesto, mas não haveria como eles terem permanecido muito mais tempo do carro de Aiolos, como o próprio de forma bem assertiva frisara... bem, ao menos, era limpo, silencioso e aconchegante o suficiente para um pernoite. Deu de ombros e abriu uma nova lata, perguntando-se se Camus não estaria demorando demais naquele banho. Certo, depois do estado em que saíra do presídio, o ruivo precisava MESMO de um bom banho, no entanto...
− Camus. – Chegou perto da suíte para se fazer ouvir. Pelo som do chuveiro, soube que o banho continuava. – Tá tudo bem aí?
− Estou terminando!
Percebendo o tom de impaciência na pronta resposta, o policial elucidou:
− Não, amor, sem pressa! Fica o tempo que quiser. Eu só queria saber se você tá bem mesmo. Se não precisa de...
O som da ducha cessou, o que fez Milo engolir em seco. Não era sua intenção apressar o amante. Instintivamente, afastou-se da porta, voltando para o lugar que ocupara antes. Aguardou pacientemente sorvendo sua bebida até que Camus deixou o banheiro, enrolado em uma toalha branca do hotel. Os cabelos molhados cuidaram de deixar um rastro de água detrás de si.
− Eu pedi mais toalhas, toma, usa pra enrolar seus cabelos. – Adiantou-se para Camus, que ainda não se dispusera a encará-lo de frente. O ex-messias pôs a toalha oferecida nos ombros, aparando a farta cabeleira, sem nada proferir. Para fingir que não percebera aquela atitude, o agente apressou-se em dizer:
− O Debas foi a um shopping aqui perto, vai trazer roupas pra você e pro Olos. Enquanto ele não vem, vamos secar seu cabelo com o secador do hotel.
− Não é necessário – Murmurou o ex-Redentor, indiferente.
− Claro que é! Não pode dormir com o cabelo encharcado assim, pode pegar um resfriado! – Insistiu o loiro.
Resignado, Camus deu um suspiro e tomou o aparelho das mãos de Milo.
− Eu posso...
− Sei usar um secador. – O ex-messias cortou-o secamente.
− Claro! Mas posso ajudar a...
− Se quer me ajudar, poderia me dar MINHA medicação?
− Hã... você já tomou o ansiolítico, Camus. Quando chegamos ao hotel.
− Sim, refiro-me ao outro.
− O tranquilizante? É melhor tomar antes de dormir, depois de jantar.
− Não vou jantar.
− Mas... você precisa comer alguma coisa e...
− Por favor – Interrompeu-o, com ar nauseado. – Se falar isso de novo, eu vou acabar... você sabe.
− Tá bom, desculpa, não falo mais.
Depois de ter tomado o remédio, Camus ligou o secador e começou o processo de secagem dos longos cabelos.
Milo precisou morder o lábio inferior para resistir ao impulso de perguntar ao parceiro o que de fato se sucedera durante a conversa com o odioso Hades. A expressão dura, fechada do outro, no entanto, demovia-o do intento. Só lhe restava ficar ali, bebendo suas cervejas, enquanto observava o amado, com ar impenetrável, ocupado em secar as rubras melenas.
*************
Milo começava a ficar relaxado com as cervejas, quando ouviu batidas discretas à porta. Foi atender rapidamente.
− Desculpe a demora.
− Que isso, Debão, entra aí.
O brasileiro adentrou a acomodação enquanto dizia:
− Espero que sirvam, comprei do tamanho que você orientou. E espero que ele goste, também. Procurei prezar pelo conforto. – Entregou a Milo metade das sacolas que carregava. Estavam em uma sala diminuta que precedia o quarto, de onde o barulho do secador já não mais se ouvia.
− É o mais importante. Fica frio, ele vai gostar. Hã... vai entregar as coisas que comprou pro Olos agora, né?
− Isso.
− Eu queria ter uma conversa rápida com o Olos, Debas, acho que ele já tá mais calmo pra me contar o que ACONTECEU.
Assentindo, Aldebaran entregou as sacolas restantes. Milo devolveu-lhe as que segurara.
− Entendo. Mas... e quanto ao Camus...? – O olhar apreensivo do brasileiro tornou-se na direção do quarto.
− Tá secando o cabelo.
− Tudo bem, pode deixar que eu tomo conta dele. Vá tranquilo.
− Obrigado, volto logo – Frisou, antes de sair apressado.
Aiolos atendeu-o de toalha, sem dar mostras de ficar surpreso com a aparição do policial. Milo achou que já era esperado ali.
− Aqui estão as roupas que Debas trouxe. E o seu cartão. Depois eu pago pelas roupas do Camus.
− Que isso, não precisa não.
− Que isso digo eu, claro que...
− Milo, entra logo, vai. – Interrompeu, enfastiado.
O apartamento 402 era tão pequeno quanto o 501, porém tinha uma aparência mais clean. E menos gasta. Mas ao se sentar na poltrona perto da janela, percebeu que esta era menos confortável. Deixou que Aiolos se vestisse primeiro, o que fez na suíte. Ambos quartos tinham duas camas de solteiro; Milo achou por bem não pedir de casal...
Antes mesmo que Milo enunciasse qualquer pergunta, o advogado, já de volta, vestindo um conjunto de moletom preto e verde, disparou:
− Você estava certo o tempo todo.
− Eu FALEI que ia dar merda, e, claramente DEU MERDA. Mas eu não tô nem um pouco satisfeito por ter tido a razão, que fique bem claro isso.
− Eu sei. – Murmurou o outro, sentando-se desanimado em um dos leitos, com cobertas quadriculadas.
Após mirá-lo por uns segundos, o agente indagou com cuidado:
− O que aconteceu lá, Olos? Pode me contar agora?
Aiolos fechou os olhos esverdeados e suspirou, como que tomando coragem para abordar o ocorrido. Abriu os olhos e encarou o amigo de volta.
− A tal conversa foi um completo desastre. Armand... Hades... – Bufou de raiva. – Não sei com que propósito, mas ele parecia incitar Camus a reconhecer que estava CIENTE de todo aquele absurdo... atormentou o coitado até não poder mais!
− Aquele filho da puta... eu sabia! O que ele disse a Camus pra deixá-lo naquele estado?
− Muitas coisas. Só que... não foi apenas o QUE disse, e sim, COMO disse. Era como se estivesse provocando o rapaz, sabe? Levando ele a falar... COISAS... Milo, Hades fez até insinuações sobre VOCÊS DOIS.
− O quê? – O loiro balbuciou, a surpresa quase tomando lugar da ira. Em seguida, fez ar de pouco caso. – Bem, não era tão inesperado que ele fizesse isso. E... como Camus... ele falou algo sobre...
− Não! Camus está ciente de que o relacionamento de vocês não deve vir à tona neste momento, muito menos diante do crápula do pai, mas...
Calou-se, hesitante.
− “Mas” o quê, Olos? Pelo amor de Deus, fala logo!
− Camus também não negou nada.
− Oh.
− Eu não sei... acho que teria sido bom se ele tivesse falado algo como... sei lá, que vocês são só amigos. Acho que ele devia ter refutado as insinuações do pai.
Sorrindo de lado, Milo comentou:
− Camus não mente. Quer dizer, agora ele está aprendendo a fazer isso, inclusive já fez comigo, algumas vezes... mas o normal dele é não mentir. Faz parte do condicionamento a que foi submetido. Imagino que diante do miserável, isso tenha voltado de forma inconsciente.
− Bom, ele não mentiu, mas fez algo BEM DIFERENTE: deu um TAPA na cara de Hades!
− Camus o quê? – O policial exclamou, incrédulo.
− Um tapão, Milo! Eu nem imaginava que o garoto pudesse bater em alguém daquele jeito. Não duvido que foi a primeira vez que fez aquilo na vida – Não pôde deixar de rir, ao mesmo tempo que balançava a cabeça, já se reprovando por achar graça da lembrança.
Por sua vez, Milo seguia estupefato.
− Eu nunca imaginaria que ele sequer soubesse como estapear uma pessoa. Hades deve mesmo tê-lo levado ao limite.
Com um sorriso cúmplice, o advogado disse:
− Ele te ama muito. Hades foi desrespeitoso ao seu respeito, e esse foi o limite pro ruivo.
− O que aquele filho da puta falou?
− Isso não é o mais importante. Eu te disse, o que me intrigou não foi o que ele disse, mas sim a forma como falou. – Tornou-se sério novamente. – Era como se Hades quisesse conduzir Camus a algum lugar. Eu cheguei a dizer que a conversa dele mais parecia um interrogatório.
− Como assim, Olos? – O loiro sentiu um estranho calafrio.
Unindo as mãos visivelmente perturbado, Aiolos esclareceu:
− Hades se dirigia a Camus como se os DOIS partilhassem da mesma culpa pelos horrores da Aurora do Novo Porvir. Melhor dizendo, como se Camus tivesse passado por todos aqueles horrores por VONTADE PRÓPRIA. Porque acreditava ser o Redentor.
− Ele acreditava mesmo, mas foi MANIPULADO pelo pai, foi levado a acreditar...
− Pois então, foi a impressão que me deu, que Hades minimizava a própria responsabilidade, tentando fazer Camus admitir que não foi enganado coisa nenhuma.
Recostando-se mais na poltrona, Milo deixou o olhar intrigado correr pelo teto descascado em alguns pontos. Ponderou lentamente:
− Não parece só um interrogatório, parece algo que fariam com Camus no tribunal. Que “fariam” não... certamente farão!
− Essa é a questão, se vão fazer isso no julgamento, para que fazer isso lá na prisão, sem público nem nada? Se Hades sabe perfeitamente que é o único sujo nesta história toda?
Os dedos do policial afundaram-se no estofado marrom.
− É um cara de pau! Camus, de acordo com tudo que aconteceu? Com as torturas, os martírios, os... os estupros?
Ergueu-se de repente, sob grande tensão. Deu uma curta volta pelo quarto e virou-se transtornado para o advogado.
− Isso tá muito estranho, Olos! Tinha mais alguém lá, além de vocês?
− Só o advogado de Hades, Moses Stewart. Bom, e o guarda da sala em que estávamos.
− Camus... como ficou... como agiu durante toda essa... conversa aí?
− O pai dele dominou os argumentos e boa parte da conversa, o maldito tem as manhas, claro, não é à toa que era o líder daquela abominação. Tudo que Camus fez foi contestar alguns pontos e... e esbofeteá-lo.
Milo coçou o queixo, absorto em um nefasto pensamento.
− Acha que Moses poderia estar gravando a conversa?
Em uma resoluta negativa gestual, Aiolos colocou:
− Difícil. Todos passamos por detectores de metal, scanner corporal e fomos obrigados a deixar relógios, celulares e tudo de metal e eletrônico na checagem de segurança, antes de entrar onde foi a entrevista.
− Não gosto disso – Disse Milo, com semblante tão carregado quanto o tom da voz. – OK, eu já não tava gostando desde o início. Agora que tô sabendo que Hades REALMENTE tinha alguma intenção por trás dessa “vontade de ver o filho”...
− Por favor, não me diz que você está com mau pressentimento?
− Mau? Eu tô é com um PÉSSIMO pressentimento.
− Era o que eu temia. Porque eu também estou...
*************
Milo retornou ao apartamento 501 e com isso Aldebaran pôde enfim ir para o apartamento que dividiria aquela noite com Aiolos. O policial rumou vagarosamente para o quarto, imaginando que o companheiro já estivesse dormindo. De fato, o ruivo encontrava-se debaixo das cobertas quadriculadas. Com cuidado para não fazer barulho nenhum, foi para a suíte e tomou banho. Ele e Aiolos tinham solicitado sanduíches pelo serviço de quarto, de modo que se encontrava bem alimentado e, agora, de banho tomado, só queria se enfiar na cama e dormir. Não se importou em se vestir, o aquecedor dava conta, junto com os cobertores, e ele preferiu preservar as roupas com que fora à Pensilvânia para o retorno a Red Meadow.
Deitou-se, incomodado com o ranger das molas que fez o colchão. Sentiu-se de volta à adolescência, em um leito tão estreito. Bom, o extremo cansaço e os vapores das cervejas haviam de conduzi-lo logo ao sono, acreditava.
− Milo.
Ergueu-se de pronto ao ouvir o chamado baixinho.
− Achei que já estivesse dormindo, amor – Falou, com ternura.
O rosto do ex-Redentor emergiu da coberta, tingido pela luz alaranjada do abajur posicionado na mesa de cabeceira.
− Milo, você estava certo o tempo todo.
− Você e Olos combinaram, foi? Ele disse a mesma coisa! – Brincou. Ao notar a ausência de resposta do parceiro, apressou-se em emendar: − Como eu disse a ele, não fico nem um pouco satisfeito em ter estado “certo”, viu?
− Eu sei.
− Você está bem? Achei que com o tranquilizante, já estaria no décimo sono.
− Estou com sono. Não devo demorar a dormir – Murmurou, semicerrando os olhos. – Mas não queria dormir antes de falar contigo.
− Ô meu amor... – Não resistiu a sentar-se na cama ocupada pelo ruivo. – Agora você pode descansar, tá? Tô aqui.
Pôs-se a acariciar os cabelos do amado, notando-os ainda um pouco úmidos. De fato, secar toda aquela cabeleira com o secador minúsculo do hotel não era tarefa fácil.
− Ele é o puro Mal – sussurrou Camus, sonolento.
Ciente de a que o jovem se referia, o policial disse:
− É sim. Mas logo terá o que merece. Não pensa mais nisso não, tá? Dorme.
− Ele nunca... nem por um momento... lamentou por nada que me fez... que fez à minha mãe... à Cindy... a tantas pessoas... Milo – Fechou os olhos, capitulando perante o sono imperioso que o dominava. – Ele é puro Mal...
− Ele vai pagar por tudo que fez, Camus, pode acreditar.
O silêncio prolongado que se seguiu denotava que o remédio fizera, enfim, seu efeito. Milo curvou-se sobre o amado e beijou-o na fronte. Repetiu a última sentença, em um sussurro em que queria ardentemente acreditar:
− Ele vai pagar por tudo que fez.
*************
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