Redentor

7 Messias - Ato VII : "Estou dentro!"


Notas iniciais
Hello, mes amis! Antes de mais nada, um feliz 2018 para todos, com muita saúde, paz, alegrias e prosperidade. Vamos começar o ano com uma atualização, hum? Ainda que já inicie com uma certa sofrência, neste capítulo não há avisos dignos de nota. Gostaria de agradecer ao apoio que vocês têm dado a esta fic. E aproveitar o espaço para agradecer pelo apoio às outras fics também, claro! ♥ Boa leitura!

Estava quase sucumbindo à escuridão quando ouvi a voz de meu pai terreno bradar “Já chega, tirem-no daí!”

Permito-me um suspiro de alívio. A cada açoite, desferido já não sei por quem, mais eu me perguntava por quanto tempo resistiria. Como lâminas a investirem contra minhas costas, sem trégua, o serpentear do chicote enviava zunidos aos meus ouvidos, cada vez que dançava no ar rumo à minha carne.

Estava amarrado pelos pulsos a um tronco, braços erguidos, de costas para as ovelhas, das quais eu ouvia por vezes um grito, um choramingo, um clamor. Sofriam pelo meu sofrimento, eu, que sofria por elas... não podia deixar de me comover com suas exclamações doridas.

Elas de fato me amavam.

E eu as amava.

Por isso, era necessário que eu as salvasse.

Por isso, era necessário que TUDO se repetisse.

Como há dois mil anos...

Desamarram-me.

Tento manter-me de pé, mas sinto que estou prestes a desfalecer. Aperto os olhos com força, tentando me agarrar à consciência. Quero me retirar do palco com minhas próprias pernas, acenar aos fiéis, dizer que tudo ficará bem, hoje paguei mais um pouco pelo preço de suas almas valiosas.

“Eis que Cristo, reencarnado em nosso Redentor, mais uma vez expia seus pecados através de seu sangue!”, grita Hades. Eu apenas o escuto, minha visão fica enevoada, como se eu estivesse no campo em um dia de inverno. Alguém me ampara. Segura-me pela cintura, tomando cuidado para não encostar no local onde fui açoitado por 20 vezes. Não adianta muito, a dor é atroz, e não consigo suprimir um gemido de dor. Lágrimas vêm aos meus olhos; permito que elas sigam seu curso, pois minhas faces estão banhadas de suor. Então talvez fiquem bem disfarçadas...

A menos que venham as lágrimas rubras.

“Espero que o suplício do Messias sirva para lembrar de quem vocês são. De por que estão aqui. Por que não devem pecar, nem em ações, nem em pensamentos. Aquele que peca em pensamento em NADA se difere do mais torpe adúltero, ladrão, blasfemo ou mesmo assassino!”, advertia meu pai terreno, em tom mais que acusatório; parecia verdadeiramente irado.

Alguns gritam “Perdoa-me, ó, Cristo, porque pequei!”, “Perdão, Messias!”, “Perdão, Redentor, lava-me com teu sangue!”. Os pedidos de perdão multiplicam-se, misturando-se. Ainda ouço o zumbido do açoite em meus ouvidos. O sangue escorre quente rumo aos meus pés. Pisco seguidamente. Sinto as pernas tremerem. Curiosamente, a dor atenua-se à medida que a névoa em meus olhos torna-se mais cerrada.

“Senhor Hades, posso levá-lo? Acho que ele vai…”

Eu me desvencilho de Asterion – vejo agora que é ele quem me segura – para mostrar que NÃO, não vou desmaiar.

Reparo a surpresa de todos ante meu ato de me empertigar. Ergo meu rosto com dificuldade, tanto pelo suplício quanto pela luminosidade que vara meus olhos sensíveis. Ao meu redor, os Vigias, meus irmãos e meu pai terreno. À minha frente, centenas e centenas de amadas ovelhas, desfeitas pelo pranto. Tento sorrir, porém sei que falho na intenção. Ainda assim, imponho minhas mãos na direção delas e faço uma prece. Duvido que possam me ouvir, minha voz é fraca, a despeito do microfone que Radamanthys posiciona diante de meus lábios trêmulos. É o bastante para que todas aquelas vozes se ergam, contritas, como uma só.

Balanço a cabeça em uma muda aprovação.

Meus passos vacilam.

Meu pai terreno vem a mim, tomando-me pelo braço. Sussurra-me “Você fez muito bem, Camus. Parabéns. Agora venha. Merece descansar.”

Saboreio aquelas palavras enquanto desço cuidadosamente as escadas de madeira do palco.

Todo cuidado é vão.

As névoas voltam.

O zumbido volta.

Eu ainda tento avisar, no entanto...

Ainda sinto braços a sustentarem meu corpo.

Não importa.

Não importa que as trevas venham mais uma vez me recepcionar.

Não importa que o silêncio venha mais uma vez me dominar.

Se não há dor...

... se não há dor...

... ainda que a dor seja a razão de minha existência...

Eu não deveria pensar assim.

Não posso dizer “que não importa”.

Tudo tem uma razão de ser.

Nada é sem importância.

Tudo bem.

Tudo bem.

Está tudo bem.

Está escuro.

Está frio.

Está silencioso.

Está escuro.

Não.

Não mais.

Raios de sol irrompem das alturas, dardejando o negrume do qual eu me ergo. Quero entender que luz é esta. Eu preciso entender.

Há TANTA COISA QUE PRECISO ENTENDER.

Envolto pela luz dourada, vejo meu pai terreno. Suas vestes se fundem ao negror do ambiente. Seus olhos contêm a mais pura essência das trevas. Em um sobressalto, vejo que as trevas NASCEM de seus olhos.

De seu manto.

De seus cabelos.

De suas mãos espalmadas para mim.

Pela primeira vez, sinto MEDO de meu pai terreno.

Som algum se eleva malgrado seus lábios se movam.

Ele flutua como as nuvens escuras que se derramam pelas montanhas antes da tempestade.

O medo cresce e minha garganta fecha.

Meu peito se comprime, a ponto de eu levar a ele meu punho fechado, a angústia dormente a me dominar.

A luz detrás dele se intensifica.

As réstias douradas se convertem em cabelos da cor do ouro, serpenteando em todas direções.

Um par de imensas e níveas asas contrasta-se com o negrume de onde elas parecem nascer.

É ELE.

Por trás de meu pai terreno... o anjo... O ANJO...

Ele brande uma espada flamejante na direção de meu pai. Arregalo os olhos em horror.

“Não!”, quero gritar, mas...

... mas...

Eu só penso “não”.

Não articulo um pedido.

Uma súplica.

Uma ordem.

Meu pai terreno se vira para trás, e é cortado ao meio pela lâmina de fogo.

Eu grito até meu ar se esvair.

Um grito mudo. Inexistente.

Quando a espada do anjo atravessa-o, o corpo de meu pai converte-se em miríades de folhas secas. Diante de mim, que já nem sinto meu coração, são levadas em um redemoinho.

Caio de joelhos, incerto do que experimento.

O anjo apenas me olha, e eu me sinto tão aquecido com seu olhar de joias azuis que praticamente me esqueço do que houve com meu pai terreno. O ser celestial se aproxima, a luz diminuindo de intensidade, o que me possibilita distinguir mais sua face.

A mais bela que jamais vi.

Uma túnica trespassada, branca como suas asas, revela o largo peito sutilmente despido, pelo qual ondas de puro ouro descendem.

Ele nada diz.

Estende-me sua mão.

Engolindo em seco, pouso em sua grande palma minha mão hesitante. Ele a toma com firmeza. Em um segundo estou de pé diante dele.

Mal posso acreditar que ele está perto.

Tão perto.

Mais perto do que esteve, em todas as vezes que apareceu.

Sinto o calor que irradia de si. É algo doce, aconchegante, algo que nunca conheci, mas que ouso almejar...

Súbito, lembro-me de indagar, antes que ele se vá sem qualquer aviso, como das outras vezes:

“Por que nunca mais veio até mim? Foi por que não pude compreender a sua mensagem, não é?”

Nenhuma resposta irrompe de seus lábios, que parecem ter sido esculpidos a mão pelo mais hábil dos artesãos... bem como toda sua figura, angelical mas perturbadoramente viril.

“Por favor, me diga... qual é a mensagem... o que tem tentado me dizer?”

O anjo inclina de leve a cabeça, como se não compreendesse meu apelo.

“Você tem tentado me dizer algo... é um mensageiro dos céus, um mensageiro do meu Pai Celestial”, antes que me dê conta, eu me achego a ele. Abrigo-me em seu doce e aconchegante calor. É mais alto do que eu, de modo que tenho que erguer o rosto para seguir em minhas súplicas, “até hoje fui incapaz de entender sua mensagem, e peço perdão por isso... mas por favor... não vá antes de... de...”

Sequer entendo o motivo de minha voz se embargar. Seguro o pranto, o que impossibilita que eu continue a falar. Um misto de ansiedade e vergonha me invade, e fecho os olhos. Abaixo a cabeça, sentindo-me indigno.

A mensagem não me será revelada.

Deve ser algo que fiz.

Ou que não fiz.

Não sou capaz de decifrá-la.

Deus me enviou de novo seu anjo e eu... continuo o ignorante de sempre...

De repente, minhas faces são amparadas pelas palmas do anjo, que faz com que eu levante meu rosto para encontrar o dele: fita-me com infinita compaixão. Perco-me no azul celeste de seus olhos, jurando ver a própria Terra nelas. Então ele aponta para o redemoinho de folhas secas que vagueia ao longe. Um frêmito de horror corre pelo meu corpo: meu pai terreno. Ele...

Ele...

... secas...

... perdidas...

... distantes...

... mortas...

“Meu pai”, murmuro, apavorado. Torno ao olhar para o anjo, contudo... ele já se foi...

O silêncio é substituído pelo farfalhar macabro das folhas secas que rodopiam sinistramente no ar, retornando para onde me encontro.

“Meu pai!”, exclamo, paralisado.

“Camus, está acordado?”

A escuridão cede lugar à tênue iluminação do meu quarto. Vejo Radamanthys sentado à cabeceira da minha cama. Segura um pano ensanguentado, e tem sobre os joelhos uma pequena bacia.

“Meu... pai...?”, repito, ainda confuso.

“Você estava chamando pelo pai. Estava sonhando com ele?”

“Eu... eu... onde ele está?”, não sei por quê, mas sinto uma aflição quase palpável.

“Ele foi para a ‘colheita das almas’.”

“Q-quando...”

“Logo depois do Cerimonial de ontem.”

“Ontem... estou dormindo desde ontem...?”

“Sim. Você acordou algumas vezes, mas dormia logo em seguida. Teve febre. June, eu e Minos nos revezamos para cuidar de ti. Não precisa me olhar desse jeito desconfiado, não te fiz nada. Está machucado demais. Não sou como Argol.”

Desvio o olhar, no qual sequer senti que conferia desconfiança. Estou de bruços e sinto os curativos refrescantes em minhas costas.

“Por quanto tempo ele ficará fora?”

“Mais ou menos uma semana.”

“Trará novas ovelhas?”

“É o que esperamos. Parece que selecionaram 150 fiéis desta vez. Menos do que no ano passado, não? Penso que os homens lá fora devem estar ficando menos tementes a Deus.”, raciocinou Radamanthys, lavando o pano na água da bacia. Voltou a passá-la pelos meus flancos. Reteso um pouco.

“Ainda dói? Colocamos um unguento de ervas bem forte…”

“Só um pouco. Foi mais o nervoso.”

“Quer que te aplique uma injeção?”

“Não”, sem perceber, a recusa sai veemente, nada neutra conforme eu pretendia. Radamanthys estranha, e franze o cenho.

“Estou bem. Obrigado.”, suavizo o tom. Meu irmão assente, sem insistir.

“Argol bem que tentou vir. Mas na ausência de Hades, sou a autoridade máxima”, sorriu, “então você não deve se preocupar.”

Lembro-me da última vez em que Argol me maltratou.

Também naquela ocasião meu pai terreno estava ausente.

Procuro não pensar nisso.

E penso...

... NELE.

Foi diferente.

Embora tenha sido... um pouco assustador.

“Quer falar sobre o que sonhou?”

Faço que “não” com a cabeça, torcendo para que ele respeite minha decisão.

Que não pergunte nada.

Se perguntar... não terei como esconder...

“Sonhou com nosso pai. Parecia amedrontado.”

“Foi um pouco... assustador.”

“E o anjo?”

“Que tem ele?”, digo, em um fio de voz.

“Ele estava no sonho?”

Comprimo meus lábios, em um sinal pré estabelecido entre nós de que não posso ou não quero falar.

“Estava?”

“Não era um sonho. NUNCA FOI.”

“O quê?”

“O anjo não é um sonho. Ele tem uma mensagem para mim.”, confesso, por fim.

Radamanthys suspirou.

“Mas você ainda não foi capaz de decifrá-la, não?”

Constrangido, só me resta assentir. Meu irmão apenas sorri, acaricia-me os cabelos e diz “Descansa. Para de pensar no pai, em anjos, pense apenas em se recuperar. Certo?”

Meneio o rosto em concordância.

Entretanto…

… não lhe obedeço.

Malgrado saiba ser um pecado, o pecado da dissimulação... o pecado da falsidade... fecho meus olhos bem devagar, fingindo um sono que não existe.

Finjo que estou dormindo, só para não falar mais.

Só para pensar no sonho.

Não.

O anjo não é um sonho.

Ele tem uma mensagem para mim.

Então eu penso no anjo.

Ele nunca esteve tão perto.

Ele ESTÁ perto, posso sentir.

*************

Chegando à varanda do apartamento por ele ocupado naquele resort espetacular, Milo aspirou profundamente o ar marinho. Jamais, em suas viagens a balneários diversos, havia se hospedado em tão luxuoso estabelecimento. Não era a sua primeira vez no Havaí. Estivera no paradisíaco arquipélago em duas ocasiões: após a formatura no colegial e quando estava no terceiro período da Faculdade de Direito. Nas duas vezes, para pegar ondas e garotas.

Suspirou, saudoso daquelas épocas sem maiores compromissos.

Agora a história era outra.

E como.

Chegara ao Grand Hyatt Kauai Resort na tarde do dia anterior. Localizado em frente à praia de Poipu, o majestoso complexo hoteleiro gozava de fama internacional, a qual mal adentrara a propriedade, soube que era plenamente justificada. Os ônibus de turismo, que transportavam 142 membros da Igreja Aurora do Novo Porvir selecionados para o encontro com seu líder máximo, cruzaram as alamedas floridas cortadas por rios cristalinos e lagos artificiais até estacionarem. Dos 150 selecionados, oito haviam desistido, declinado ou sido impossibilitados de ir. Defronte à imponente entrada do hotel eles desembarcaram. Não faltou a tradição do recebimento de colares de flores por parte de belas jovens em trajes típicos. Elas sorriam aos recém chegados, saudando-os alegremente: “Aloha!”

No vasto hall, enquanto aguardava para realizar o check-in Milo aproveitava para sondar ao redor.

Nem sinal de Hades.

“Até parece que o ‘grande astro’ vai dar o ar da sua graça tão cedo. Sua entrada tem de ser triunfal, e não em meio a nós, a ‘ralé’”, pensou o agente, pegando os documentos do “empresário Michael Segerson” na carteira de couro marrom. Os “irmãos” iam sendo conduzidos às suas acomodações; teriam algumas horas livres até a abertura oficial do evento, às 19 horas. Hades faria uma breve comunicação no auditório do hotel, e em seguida, haveria um coquetel.

Devidamente instalado, Milo resolveu dar uma volta pelo resort, sem esquecer sua roupa de banho. Nada impedia que ele relaxasse um pouco durante a recapitulação mental de todo o plano de ação. Por mais que soubesse de onde provinham de fato os fundos para custear aquele encontro, tinha que admitir que Hades não brincava em serviço. O canalha poderia ter escolhido qualquer sítio ou igreja, ou mesmo um hotel mais simples, para reunir seus escolhidos. Afinal, estes, só de terem aceitado o convite, supostamente já demonstravam vontade de seguir o “Grande Pai” fosse como fosse. Mas não, ele tinha que enfiar a cambada em um paraíso de tirar o fôlego.

Os olhos do policial perderam-se onde as margens da imensa piscina se fundiam com o mar da mesma cor de suas íris. As palmeiras erguiam-se majestosas rumo ao céu desprovido de nuvens. Flores de colorações infindas pontilhavam as linhas sinuosas dos lagos artificiais, em cujas superfícies deslizavam preguiçosamente canoas e boias transportando turistas risonhos. Ele não pôde deixar de imaginar como seria bom estar ali em um contexto diferente daquele em que se encontrava. Ou seja, poder “tomar todas, jogar todas, pegar todas.”

Contentar-se-ia com um singelo drink em algum daqueles aprazíveis bares molhados. Tirou a camisa cáqui e a bermuda jeans escura, ficando apenas de sunga azul. Entrou na piscina, consciente dos olhares que convergiam para si. Tanto dos hóspedes “normais” quanto dos de alguns egressos de sua caravana, que já se encontravam em um dos balcões, socializando. O loiro decidiu se juntar a eles. Todos se mostravam satisfeitíssimos por estarem ali, tanto pela maravilha do lugar, quanto pela oportunidade de conhecer o “grande” Hades. Milo sabia que o que os satisfazia também era o mero fato de haverem sido selecionados, uma prova de destaque, um atestado de “membro especial” da comunidade da igreja. Adulava-os, enchia-lhes de orgulho.

Conversavam animadamente, sorvendo as bebidas com parcimônia. Milo nunca cessava de se surpreender com a eventual quebra de paradigmas ao conviver com os que pertenciam àquela seita. Aqueles diante de si nem de longe evocavam os dementes fanáticos desesperados com ameaças de danação e por graças. Não; comedidos e elegantes, mantinham condutas esperadas da elite que eram: profissionais liberais, empresários, políticos... vez ou outra, Milo podia notar, dirigido para ele, um olhar cobiçoso de uma “irmã”, ou mesmo de um “irmão”. Seu belo corpo esculpido pela musculação, corrida e nado sempre lhe valiam tais miradas admirativas. Se dissesse que se incomodava estaria incorrendo no pecado da mentira... mas obviamente o sorriso sedutor, os faiscantes olhos da cor de safiras, os cabelos longos a emoldurarem o rosto perfeito também contribuíam para tal.

As horas avançaram.

De volta ao seu quarto, o agente banhou-se e vestiu-se com esmero. Foi necessário secar os cabelos com o secador do hotel, mas não se preocupou em secá-los por completo. Aplicou-lhes um produto que deixava seus cachos dourados ainda mais brilhantes. Verificou ao espelho se o terno chumbo slimfit não estava justo demais. A padronagem da roupa, escolhida por Saori, fugia um pouco do clássico, de modo que ele optou por uma gravata discreta, na cor preta com finíssimas listras brancas. Calçou os lustrosos sapatos pretos italianos. Borrifou um pouco do Straight to Heaven, sorrindo ante o nome do perfume com notas de âmbar, jasmim, almíscar, rum e baunilha. Parecia até uma piada com a situação em que estava se metendo.

Nem para um encontro jamais estivera tão elegante. Riu consigo mesmo, dirigindo-se para a saída do apartamento.

Chegou cedo ao auditório; menos da metade dos assentos estavam ocupados. Checou no relógio: 18:17. Nada mal. Seria bom passar imagem de quem estava ansioso com o grande acontecimento.

Achou melhor não ficar no celular. Conquanto não houvesse ali restrições quanto ao uso do aparelho, preferiu seguir o protocolo adotado na igreja em que congregava. Imaginou que não fariam tal proibição em virtude de ser um hotel, dotado naturalmente de câmeras de circuito interno. Aguardou pelo início do evento conversando com participantes que se sentavam perto dele. Os “irmãos” de Red Meadow chegaram e sentaram próximo a “Michael Segerson”. Ele os cumprimentou efusivamente.

Elizabeth Rollins, Juan Gárcez e Ronald Hall.

Rollins era uma mulher de seus 40 anos, divorciada, sem filhos, um olhar caído a entristecer-lhe o rosto bonito. Cirurgiã dentista bem sucedida, com dois consultórios em Red Meadow. Contava-se que vivia para o trabalho e, agora, para a religião. Sabia-se que fora explorada financeiramente pelo ex marido, que mantinha uma família secreta com esposa e dois filhos em Memphis.

Gárcez era solteiro, uns 25 anos talvez, filho de um dono de um conhecido restaurante de comida mexicano, com dez franquias pelos Estados Unidos. Segundo o próprio, procurara a Aurora do Novo Porvir por ser gay. Nem a família nem ele mesmo aceitavam isso. Acreditava que servir a Deus retiraria de si anseios recriminados. Entregava tudo quanto possuía em doações, ofertas, retiros espirituais, excursões a Jerusalém.

Tinha verdadeira simpatia por Rollins e Gárcez. Via-os como almas boas e perdidas, infelizmente captadas para a “Terra Santa” de Hades... sabia que seria o estágio final para ambos, que tão sofregamente buscavam alento para suas vidas atribuladas.

Já Hall... evidentemente o interesse de Hades nesse concentrava-se no fator financeiro. Afora a fortuna, a maior parte oriunda da atuação do pai e do avô na indústria têxtil, Hall não possuía o perfil servil tão caro àquela causa. Conhecido como patrono de diversas obras e doador generosíssimo, respondia a vários processos de exploração por parte de seus operários, e até mesmo de assédio sexual. O sorriso hipócrita constantemente estampado no rosto muito branco mal ocultava a crueldade, evidente nos olhos marcados e apertados. Era casado e tinha três filhos.

Às 19 horas em ponto, sob murmúrios que iam se abafando pouco a pouco, Hades apareceu diante de todos, trajando um sóbrio terno preto. Os cabelos negros muito compridos estavam presos em um rabo de cavalo que passava dos quadris. Ao microfone, ele se dirigiu à plateia, agora em absoluto silêncio:

— Filhos amados, filhas amadas, sejam muito bem vindos à décima segunda edição deste encontro intitulado “Rumo ao Novo Porvir com Deus e o Redentor”. É realizado anualmente pelas lideranças da Igreja Aurora do Novo Porvir. Cada um dos aqui presentes recebeu o chamado em virtude de suas ações de destaque nas comunidades em que congrega. São irmãos de notáveis condutas, atuações inspiradoras e detentores de incontestável prestígio. Homens mundanos utilizam tais qualidades para erigirem altares a si próprios, para construírem seus próprios impérios. Mas não VOCÊS. Vocês as entregam a DEUS. Escolheram o caminho da glória eterna, ao lado do Salvador, não o caminho da glória fugaz, totalmente solitários, abandonados. Vocês desprezaram holofotes do mundo, preferiram se banhar na luz divina proveniente do trono d’Aquele que tem-nos contemplado. São a Noiva pela qual retornou o Messias. São exemplos para os que se reúnem sob as asas do Altíssimo, inspirações para os que foram, os que vêm e os que virão. Eu, Hades, a quem o Anjo Gabriel revelou a existência do Novo Cristo, veículo do Primeiro... eu, Hades, que sob ordem divina fundei a Igreja Aurora do Novo Porvir, para ser na Terra a residência do Redentor... eu, Hades, intermediário entre o Espírito e a Carne, o Celestial e o Terreno, o Alto e o Baixo, representante da encarnação do Filho Unigênito, o Redentor que habita nossa Comunidade Vale da Aurora Dourada... declaro aberta esta Conferência, que terá duração de quatro dias. Estarão recebendo a partir de agora um kit de nosso evento...

Aos participantes eram distribuídas bolsas que continham folhetos com a programação do encontro, canetas, um caderno e uma agenda, além de camiseta, boné e chaveiro, tudo com o logo da igreja: um sol a emergir de dois montes vermelhos sobre as asas de uma pomba branca. Milo resistiu ao impulso de rir daqueles brindes. Jurou que enfiaria aquele boné na cabeça do Saga.

Voltou a se concentrar no discurso de Hades:

— ... teremos workshops, palestras e estudos dirigidos. Neste meio tempo, serão apresentadas propostas de adesão ao Projeto Êxodo 2018, que consiste na incorporação de novos membros à comunidade santa onde vive nosso Redentor, uma base de operações para a vindoura batalha que havemos de travar no Apocalipse. Por toda Palavra, encontramos referências à necessidade de afastamento deste mundo para o efetivo serviço a Deus...

Milo respirou fundo, sentindo o coração bater mais rápido que o normal. Sequer precisava olhar em torno para saber que TODOS experimentavam semelhante ansiedade, talvez apenas por razões diferentes.

— ... em Gênesis 12, o Senhor conclama a Abraão que deixe a terra onde estava o patriarca. Manda-o para a terra que Ele QUER que o filho leal ocupe... – Pôs-se a recitar o trecho projetado no vasto telão atrás de si. – “Ora, o Senhor disse a Abraão: Sai da tua casa, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção.”

Calando-se, fitou atentamente seus ouvintes. Ostentando um sorriso caloroso, prosseguiu com voz suave:

— Da mesma forma que uma mãe não pode fazer distinção entre os filhos que saíram de seu ventre, Deus ama a todos seus filhos por igual. Não se enganem. Não se deixem assoberbar. Não obstante, nem todos filhos de Deus são como Abraão. Nem todos vêm a ser destacados como Abraão, nem todos serão um Elias, um Enoque, um Elias, um Moisés, um João Batista. Esses homens simplesmente não podiam continuar onde estavam. Também os discípulos de Jesus tudo abandonaram para segui-lo. O mesmo se aplica a vocês. Alcançaram um grau tão elevado nas comunidades que ocupam que Deus resolveu chamá-los para um lugar especial. Longe deste mundo torpe e decadente, perto do Messias, a serviço de um novo céu, uma nova terra... a Comunidade Vale da Aurora Dourada.

Durante a breve pausa feita pelo orador, as expressões continuaram vidradas, extasiadas. Nem um único suspiro. Todos pareciam em animação suspensa. Inconscientemente, Milo mordia o interior do lábio inferior. Estranha sensação fazia seu estômago gelar.

— “Sai da tua casa, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei.” – Repetiu, calmamente assertivo. – Como porta-voz do Salvador Reencarnado, o Redentor que habita o Vale da Aurora Dourada, eis-me aqui para mostrar-lhes essa terra... a terra que Deus quer que ocupem. Uma terra na qual serão abençoados, engrandecidos e preservados deste mundo que não os merece.

Os olhos negros faiscavam como se ali fulgurasse algo de sobrenatural. Pontuou, solenemente:

— Ninguém será coagido a deixar sua vida. Ninguém será minimamente coagido a ingressar na comunidade. Durante estes quatro dias, conhecerão as propostas confeccionadas para cada um de vocês, com todos os pormenores que são devidos. Seus negócios não serão abandonados, tampouco suas famílias, a menos que assim o queiram. Tudo é questão de escolha. Nosso Deus é o Deus do livre arbítrio, não se esqueçam.

“Duvido que assim seja, depois da lavagem cerebral que certamente se intensifica nesse Vale”, pensava Milo, lembrando-se dos relatórios acerca dos ex moradores da comunidade... alguns dos quais para lá retornaram, após se mostrarem irremediavelmente ineptos para a vida em sociedade como outrora.

— Que a paz do Nosso Senhor Celestial esteja com todos aqui presentes. Convido-os para o coquetel de inauguração de nossa Conferência, que com certeza há de ser abençoada. Deus os abençoe, filhos amados. – Hades encerrou a preleção, deixando em seguida o palco, na companhia de assessores.

Juntamente com os “irmãos”, Milo se dirigiu para o Salão de Eventos, acessado por elevadores dispostos no hall do auditório. Em um pavimento superior, o amplo recinto abrigaria pelo menos dez vezes o número de pessoas.

Uma vista panorâmica se desvelava, através das paredes em vidro temperado. A lua se insinuava por entre as silhuetas das palmeiras e o mar refulgia ao fundo das luzes do resort. Sofás e poltronas de designs arrojados dispunham-se sobre o macio carpete verde. O buffet, espalhado em quatro pontos do salão, deixava à disposição acepipes como ovas de salmão, tarteletes de berinjela com cream cheese, canapés de carpaccio, crocantes de queijo brie, torta de cogumelos, crocantes de camarão com pesto de rúcula, canapés de creme de siri, azeitonas espanholas recheadas com aliche, mousse de queijo de cabra, rosbife com funghi secchi, tortelini de lagosta, cestas de pães variados. Em duas mesas, os doces: crepes de pistache com morangos, saladas de frutas com vinho do Porto, creme de papaia com calda de mirtilos, suflê de chocolate com creme inglês, torta de figo com nuvem de damascos e nozes, charlottes de maçã e de chocolate belga. Garçons serviam vinhos gelados, champanhe, espumantes, além das usuais bebidas não alcoólicas, incluindo café e chá. Milo impressionava-se com o aparato daquela empreitada. Por mais que não saísse do bolso do sacripanta que desfilava pelo lugar socializando com os fiéis, ainda assim era de se admirar. Duvidava de que o resultado pudesse ser diferente, caso Hades investisse um décimo do que despendera em todo aquele espetáculo. No entanto, era ISSO que o cabeça da seita almejava.

Impressionar.

“Cerveja que é bom nada... estes bestas enchem as caras de vinho e champanhe mas ficam de cu doce pra uma cervejinha.”, resmungava em pensamento, degustando os aperitivos e aceitando uma taça de vinho branco. Sustentava conversações triviais – até porque sempre chegava alguém querendo falar com o “senhor Segerson” – sem perder Hades de vista. Esperava que a qualquer momento o líder se aproximasse do grupo para um cumprimento, enfim. O safado era um autêntico mestre de cerimônias. Questão de tempo.

E foi então que esse momento chegou.

— Olá, como vão? É um prazer tê-los aqui, espero que esteja tudo do agrado de vocês...

Os oito convidados, que rodeavam Milo, corresponderam à saudação, com fervoroso entusiasmo. Apresentaram-se com presteza ao grande líder. Hades apertava a mão de seus convivas, sempre encarando-os com lisonjeira atenção.

Quando chegou a sua vez, Milo ofereceu-lhe o mais cândido de seus sorrisos. Seu pulso desgovernava com a tão esperada aproximação. Enunciou, durante o vigoroso aperto de mão:

—Senhor, é uma honra imensa conhecê-lo pessoalmente. Sou Michael Segerson, da congregação de Red Meadow, ministrada pelo pastor Ephraim.

Embora não se distinguisse efetiva mudança no semblante sereno do religioso, o policial teve a impressão de algo diferente transpareceu no olhar negro... mas... havia de ser impressão.

Não deveria se deixar impressionar, contudo.

A mão alva demorou-se na sua.

Achou-a assustadoramente fria.

Tentou não encará-lo em demasia.

Tanto por cautela por algo que não sabia precisar.

Tolice.

Engoliu em seco. Sentiu-se tolo. Estivera face a face com criminosos sanguinários. Por que o “Michael Jackson das trevas” havia de intimidá-lo tanto?

A voz de Hades emergiu, aveludada e profunda, dos finos e levemente róseos lábios:

— Prazer em conhecê-lo, senhor Segerson. Espero que aprecie a estada e o evento.

Uma fala mecânica, a qual estivera repetindo dezenas e dezenas de vezes naquela noite. Afastou-se, indo prestigiar um outro grupo.

— Você sentiu, não?

—O quê? – Milo voltara-se para a mulher que lhe fizera a pergunta.

— O toque.

— Toque...?

— Ficou pálido, senhor Segerson... – Observou o senhor Coleman, a quem conhecera há pouco.

— Logo ele, que ostenta um bronzeado invejável... – Brincou a esposa de Coleman, sorrindo de modo sedutor.

O loiro riu, tentando a todo custo não olhar os incríveis seios da senhora Coleman.

— Bem, foi uma emoção única, ver o Grande Pai tão de perto... e ser cumprimentado por ele em pessoa!

— Não se sinta constrangido, todos nós aqui partilhamos da mesma emoção. – Assegurou o senhor Nakajima, gentil.

O coquetel durou três horas. Uma hora antes de seu término, Milo retornou ao seu quarto. Sentia-se relaxado pelos vinhos com que compensara a saudade da amada cervejinha. Quando preparava-se para introduzir o cartão chave no dispositivo ao lado da maçaneta, percebeu que havia alguém no corredor. Virou-se, alerta: fora o único a ficar no sétimo andar, então quem...

Uma mulher.

Caminhava para ele, em um andar balançado e sensual. A pele clara contrastava com os cabelos pretos que desciam lisos, desprovidos de qualquer adorno que não o próprio brilho, quase arroxeado na verdade. Da grande fenda lateral de seu longo negro revelava-se uma perna firme e torneada. Reconheceu-a logo:

—Senhora Coleman…

Ela sorriu satisfeita, detendo-se diante dele.

— Não sabe como me alegra em saber que se lembra de mim.

Ele riu, divertido.

— Como assim, estávamos conversando agora há pouco no salão, eu, a senhora, seu marido...

— Mas o senhor falou com tantas pessoas na recepção, não seria de se estranhar que tivesse se esquecido de mim.

“Isso seria BEM difícil, sendo você a mais gostosa do coquetel”, pensou o loiro. Pôs a mão no batente assim que abriu a porta e considerou-a, enquanto retrucava:

— Bem, eu tenho uma memória relativamente boa.

— Eu também tenho. Quer ver? – Pôs o indicador sobre os lábios pintados de malva , fingindo estar pensativa. Falou, sedutora – Lembro-me de que senhor é solteiro...

Milo deu um sorriso pretensamente tímido, mas que acabou sendo provocante.

— De fato, a senhora também tem boa memória. Sim, eu sou solteiro...

— Neste caso, não há empecilhos a que me convide para entrar.

— Na verdade, há um. A senhora é casada.

— Eu dispensaria o tratamento “senhora” de você, senhor Segerson... posso chamá-lo de Michael? – Perguntou, colocando a mão repleta de anéis valiosos sobre o peito dele.

— Não seria adequado que eu dispensasse tal tratamento, uma vez que estou conversando com uma mulher casada. – Frisou, retirando, com delicadeza, a mão branca de cima de si.

Ela riu, imperturbável. Na verdade, o jogo parecia ganhar novas cores com a resistência daquele belo espécime.

— Casada, porém não morta. Temo não poder afirmar o mesmo sobre meu marido...

— Eu lamento, senhora Coleman. Se me permite, preciso entrar. Estou muito cansado... – Fez menção de fechar a porta. Insistente, a morena impediu-o. Milo olhou-a, fingindo surpresa com aquela atitude ousada. Semicerrando as pálpebras, ela apelou, lânguida:

— É um desperdício um homem na flor da idade, atraente como o senhor, se trancar sozinho nesse quarto de hotel... também eu estou na flor da idade, tenho apenas 25 anos... e pelos olhares que me dirigia lá embaixo, e agora mesmo aqui, diante de sua porta, penso que o senhor também me considera atraente...

O agente comprimiu os lábios, como contendo alguma resposta comprometedora. A jovem continuou, oferecendo a ele visão privilegiada dos seios apertados no decote insinuante.

— ... no entanto, sou menosprezada por Thomas. Não sou mais importante que a roda de um de seus carros. Hah, que estou dizendo! Não sou mais importante que uma de suas ridículas gravatas estampadas! Há muito não sei o que é ser tocada por um homem... ele me repele. Sinto-me tão só. Creio que também se sinta assim, senhor Segerson...

— Quando se está verdadeiramente na presença de Deus não há como se sentir só, senhora Coleman. Sugiro que dobre seus joelhos e fale com Ele. Entregue seus problemas a Ele, e não sua honra a um desconhecido qualquer.

Malgrado o rosto da jovem estivesse meticulosamente maquiado, era nítido que as cores haviam-no abandonado naquele exato instante. Impassível, sustentando o mesmo sorriso condescendente, “Michael” completou:

— Pelo pouco que nos falamos, pude perceber que o senhor Coleman é um bom homem, um servo temente a Deus. Ore por ele, que tudo ficará vem entre vocês. A boa esposa zela pelo marido. De minha parte, eu os incluirei em minhas orações.

Encarando-o estupefata, ela parecia não acreditar naquela recusa. Aturdida, viu-o fechar a porta devagar.

— Boa noite, senhora Coleman. Com a sua licença...

Ela ainda ficou ali por uns dois minutos, contemplando, incrédula, a porta fechada. Então rumou para um dos elevadores, dando pisadas firmes, mais indignada do que gostaria de estar.

Foi até a suíte presidencial, no último andar.

Quatro seguranças guardavam o apartamento. Um deles abriu a porta, prontamente, ao ver a morena chegando. Esta não respondeu ao “boa noite” de nenhum deles.

Hades veio recebê-la de braços abertos.

— Como foi com o candidato Segerson, Pandora? Pela sua cara, nada bem.

— Não, senhor Hades, nada bem. Péssimo, pra ser mais sincera.

— Ele é impotente?

Ela gargalhou, jogando a vasta cabeleira para trás.

— Não fique assim, tome... – Despejou champanhe em uma taça e ofereceu a ela. Brindou, sorrindo – Na certa, o coitado apenas ficou ansioso após...

— ELE ME REJEITOU, Grande Pai, dá pra acreditar? – Interrompeu-o, nervosa.

— Verdade? – Ergueu as sobrancelhas, entre surpreso e divertido.

— Nunca nenhum desses MUNDANOS me rejeitou de forma tão humilhante! O mais estranho é que o cara tava cheio de TESÃO, dava pra ver, como se vê o sol no maldito céu!

— Cuidado com a língua, Pandora.

— Hunf, aquele cara acha que engana quem? Devia era estar me estuprando em pensamentos!

— A atitude faz jus ao perfil traçado pelos avaliadores. Ephraim o recomendou como o mais perfeito dos últimos anos.

— Estou me sentindo humilhada.

— Gosto de saber disso, Pandora. Mostra que ele é um verdadeiro devoto. Controla os instintos de macho em prol do amor a Deus.

— O babaca falou que ia orar por mim e pelo “meu marido”. Pro inferno... – Ela virou a bebida, furiosa.

— Do jeito que ficou contrariada, vou achar que queria MESMO se deitar com o rapaz.

— Sei que o senhor conheceu várias pessoas hoje, mas se lembrar do tal Segerson, vai entender minhas razões. Qualquer mulher seria LOUCA se não quisesse ser fodida por aquele deus grego.

Ele suspirou, em meio a um risinho.

— Além da falta de jeito com a linguagem, tem muita coragem para dizer tais coisas na frente do PAI DE SEU ESPOSO.

A belíssima morena deu de ombros, sem dar a mínima importância. Estendeu a taça ao sogro, sinalizando que queria mais. Paciente, Hades a atendeu.

— Radamanthys só quer saber de Camus, o senhor sabe muito bem. Quer dizer, ele me fode bem, me pega de jeito... mas quando tá metendo aquele pau enorme em mim, eu sei que está fantasiando com o próprio irmão.

O líder deixou escapar um suspiro de enfado.

— Você é quem está fantasiando as coisas, minha querida Pandora. Radamanthys não é como Argol que, Deus que me perdoe, é meu filho, mas perturba-me a obsessão dele pelo menino...

— Pois Radamanthys também tem essa obsessão, posso te garantir. Ele apenas disfarça melhor. Não é um idiota como o Argol, Rada é esperto.

— Radamanthys somente segue ordens. Ele não faz nada com Camus por luxúria. Argol é quem não tem conseguido separar os atos... é algo de que precisarei cuidar.

A jovem sorveu a bebida, braços cruzados, decidindo por não insistir no assunto. O sogro parecia alheio ao fato de que o primogênito também desenvolvera pelo Messias algo além do amor fraternal.

Se é que se podia chamar o que havia naquela família de “amor”.

Ela não se importava. Perguntou:

— Alguma outra além de mim foi rejeitada nestes anos?

— Poucas, bem poucas... hoje, até o presente momento você foi a única.

— E mesmo assim considera seus escolhidos dignos? Mesmo “furando a peneira”?

—Todos que vieram são dignos. Faço isso apenas para conhecê-los um pouco melhor antes de tecer o plano individual de cada “ovelha”. Segerson me surpreendeu positivamente. Confesso que pelo relatório desconfiei... questionei se o rapaz era, de fato, PERFEITO conforme o pintaram. Agora vejo que É.

— Oh, ele é, acredite... perfeito...

— Não nesse sentido, Pandora.

— Aposto que é maior que Radamanthys.

— E será que é maior do que EU?

Achegou-se a ela, malicioso. Ela estremeceu àquela aproximação. Indagou, manhosa:

— Ah, eu duvido, Grande Pai…

— Parece em dúvida... que tal refrescar a memória sobre isso? – Sussurrou-lhe ao ouvido, tocando-lhe a cintura delgada.

— Não sei, meu senhor... eu não deveria procurar o candidato Adam Stewart agora? Ele também estava me comendo com os olhos...

— Há outras cuidando dessas questões. Você pode fazê-lo uma outra hora...

Tomou os lábios da nora, que quase perdeu o equilíbrio ante o furor do mentor da igreja. Ele a conduziu até o quarto e nada mais falaram sobre o Redentor, Radamanthys, Argol, Segerson ou qualquer um dos escolhidos.

*************

Tão logo fechou a porta, Milo nela se encostou, quase deixando-se escorregar.

Levou a mão até a ereção que despontara, quase incômoda. Quase gemeu no processo.

“Ah... piranha gostosa da porra... caralho... BANHEIRO JÁ...”, terminaria o serviço, agora urgente, debaixo de uma ducha.

Então achavam que ele era algum Pinóquio para ceder à primeira raposa que lhe fazia um convite tentador, hã?

“Esses canalhas acham que me enganam.”, pensava. O que não era suficiente para deixá-lo menos duro.

É. Melhor que resolvesse logo AQUILO. Depois pensaria com frieza – tudo de que NÃO dispunha por ora – no real significado que ocorrera.

*************

No decorrer da semana, tudo se desenrolou de acordo com o comunicado por Hades: seminários, estudos dirigidos, palestras. Em uma destas, os participantes assistiram a um filme sobre a rotina no Vale da Aurora Dourada. Cenas de fiéis em suas atividades cotidianas... estudando a Bíblia debaixo de frondosas árvores, sob orientação de mestres a trajarem túnicas brancas. Pessoas orando ao ar livre, em harmonia com a natureza, montanhas ao fundo, pétalas de dente-de-leão a valsarem no ar. Um culto presidido por Hades, com os fiéis cantando e batendo palmas, ostentando luminosos sorrisos. Abraçando-se alegremente . O Messias pregando em um campo verdejante, com todos sentados na relva florida, ouvindo-o emocionados. Crianças brincando felizes, mãos dadas, fazendo uma roda, observadas pelo Cristo Reencarnado, para quem algumas correram em seguida. Pessoas sendo batizadas por ele em um rio claro, de águas tão cristalinas que via-se o leito repleto de seixos...

Milo quase não piscava, tão concentrado estava.Vez ou outra, seu olhar atento pousava mais demoradamente no misterioso ruivo.

Quem de fato seria ele?

O cara era um ator e tanto.

Não seria diferente, com Hades a comandar tudo. Hades o escolhera para o papel de “Redentor”. E que escolha acertada.

Representava tão bem que o policial quase se via acreditando na pureza emanada daquele olhar sempre triste.

Mesmo sorrindo, o “Redentor” sempre transmitia a “tristeza profunda e absoluta” de que falara aos companheiros de investigação.

“Alguma razão tem em passar essa imagem dolorosa. Qual o objetivo? Se quer emular Jesus Cristo, eu esperaria uma expressão piedosa, doce, pacífica... amorosa. Mas por mais que o sujeito esteja tentando passar todas essas coisas, e ELE ESTÁ, o que se evidencia é essa ‘tristeza’. Dizem que ele veio para ser martirizado novamente, em prol da salvação dos pecadores. Será isso? Pra nos comover? Pra nos incutir culpa pelo que ele, supostamente, estaria sofrendo? E se é o que acontece, por que não se fala mais claramente sobre isso? Só nos é dito que ele deve passar por provações em nosso lugar...”

Então as imagens que se seguiram voltaram a contar com a narração do início:

“O Vale da Aurora Dourada é um verdadeiro paraíso na Terra, fazendo-nos antever como será o mundo quando dele o Mal for extirpado pelo Messias, e todos pecados por Ele remidos. Incrustada em um aprazível vale em meio às montanhas da floresta de Grayville, uma das províncias mais preservadas de nosso país, a comunidade abriga atualmente cerca de duas mil pessoas. Habitam a comunidade, em contato direto com toda herança do Criador, em doce convívio uns com os outros e com o próprio Filho de Deus, reencarnado no jovem Redentor. Elas encontraram aqui a ‘vida em abundância’ prometida aos seus pelo Pai Celestial...”

Cenas dos fiéis fazendo refeições em um imenso refeitório. Os pratos, fartos, coloridos, variados.

Em seguida, jovens cultivando hortaliças, moças sorridentes colhendo frutas, velhinhos cuidando de lindas flores, homens em granjas e estábulos, acenando amistosos para a câmera. Seguia a narração:

“Assim descobri que o melhor e o que vale a pena é comer, beber e desfrutar o resultado de todo esforço que se faz debaixo do sol durante os poucos dias que Deus dá ao homem, pois essa é a sua recompensa.”, a narração apresentava os versículos 18 e 19 do capítulo 5 do livro de Eclesiastes, “E, quando Deus concede riquezas e bens a alguém, e o capacita a desfrutá-los, a aceitar a sua sorte e a ser feliz em seu trabalho, isso é um presente de Deus...”

O objetivo era evidente. E plenamente atingido, a julgar pelas expressões que o agente presenciava.

“Tudo que é consumido pelos felizes moradores do Vale é produzido na fértil comunidade. Legumes, frutas, verduras e ovos constituem a base de sua alimentação saudável. Produz-se ainda leite, carne, laticínios, e conta-se ainda com variados tipos de peixes, dádivas dos rios e lagos que abundam na abençoada região. O Vale da Aurora Dourada é sustentado pelas doações e contribuições das afiliadas da Igreja Aurora do Novo Porvir, contando também com a renda obtida através da comercialização dos excedentes da propriedade: hortaliças, legumes e frutas são vendidos a restaurantes de comida orgânica. Com tão excelentes matérias primas, destacam-se de igual modo na fabricação de pães e bolos vendidos nas cidades vizinhas de Grayville. Geleias estão sendo exportadas para Europa e Ásia...”

“Hunf, um feito e tanto para o que se produz com ‘excedentes’”, ponderava Milo, coçando o queixo distraidamente. “Eles devem é botar esses trouxas pra trabalhar como burros de carga. É o que invariavelmente se descobre quando vêm à tona as verdades sobre essas felizes comunidades religiosas que vão parar nos noticiários e nos tribunais.”

Finda a apresentação, procedeu-se a atividades setorizadas, enquanto finalmente alguns participantes eram chamados para as esperadas entrevistas individuais. Milo não sabia qual o critério adotado para o ordenamento das entrevistas. Entretanto, levou apenas algumas horas para que ele fosse chamado. Dirigiu-se a uma das dez mesas dispostas no auditório, guiado por um dos assessores de Hades. Sentou-se diante de um senhor de cabelos grisalhos e rosto macilento, que se apresentou como “pastor Parker” . Tentando imprimir animação ao tom monocórdio, o homem inquiriu:

—Senhor Segerson, qual é a sua atual ocupação?

— Sou acionista majoritário na Segerson Corporation, presidente geral da companhia, que comercializa periféricos de computadores.

— Sócios?

— Apenas meu tio Oton, que está na Grécia. Meramente por questão de herança.

— Ele participa ativamente dos negócios?

— Não, apenas recebe sua parte. Na verdade quase não nos vemos, ele nem veio aos funerais de meu pai.

— Que era irmão dele.

— Correto.

— Está feliz com essa situação, senhor Segerson?

— Nem um pouco. Ainda mais agora, que ele tem me atormentado com outras questões de herança...

— Fale-me sobre elas.

Milo SABIA que Ephraim havia informado tudo a eles. Mesmo assim, explicou, não sem uma boa dose de consternação:

— Meu pai deixou os imóveis que tinha na Grécia apenas em meu nome. Mas Oton vem questionando isso. Alega que entrou com investimentos na fase inicial de expansão imobiliária.

— Acha que ele pode vencer?

— Tenho me consultado com advogados. Parecem um tanto divididos.

O religioso uniu as mãos, mirando-o com seriedade:

— Poderia deixar a cargo da igreja. Há excelentes profissionais a nos servir na parte jurídica. Temo que isso venha a ofuscar o brilho que vejo no senhor. Nada deve vir antes do Senhor teu Deus.

— Sei disso, pastor...

— Saber não é o bastante, filho. Há também o tempo de agir. – O reverendo apontou, didático. – Meu trabalho é ajudar as ovelhas a virem de forma efetiva a Deus. Enquanto você estiver ocupado com tais questões, não poderá se entregar de todo coração ao Senhor. O pastor que seleciona membros da congregação pela qual é responsável envia-nos um relatório sobre o escolhido... o pastor Ephraim teceu comentários bastante elogiosos a seu respeito, senhor Segerson, mas também falou-nos que é um homem bem solitário. Perdeu toda a família de forma trágica em um curto intervalo de tempo, e o único que lhe poderia ser uma referência familiar é alguém que está querendo tirar de você o que Deus lhe deu por direito.

Milo simulou a maior tristeza possível.

— Em meio a tudo isso, tem que cuidar do patrimônio de seu pai, sem contar com o alento de alguém próximo que verdadeiramente cuide do senhor. Que o ampare, o console, o conforte. Se me permite, é muita pressão para um jovem. Pessoas constantemente sob pressão podem se revelar grandes servos de Deus, mas também podem ser incitados a fraquejarem na fé.

— Eu tenho feito o possível para que isso não ocorra, senhor Parker. Tenho contado com o apoio do pastor Ephraim, dos irmãos da igreja... eu posso dizer que encontrei a felicidade junto a eles.

— Não duvido. Mas creia-me, Deus quer MAIS para o senhor, meu rapaz. Ele te chamou aqui porque tem demonstrado ser um filho especial. Então ele traçou um destino especial para o senhor. Gostaria de se juntar a nós em uma vida autenticamente liberta, junto ao Cristo Reencarnado?

Os olhos azuis do policial cintilaram. Boquiaberto, faltavam-lhe palavras. Sendo assim, o reverendo continuou a tecê-las:

— Há muitos como o senhor lá. E posso garantir que estão tão mais felizes que é como se já estivessem na Morada Celestial. O Vale é como uma amostra grátis do que o espera na Eternidade...

“Com a diferença básica de que NÃO é nada grátis”, pensou o loiro, mantendo a fachada de entusiasmo.

— Claro que chegará o tempo em que todos desfrutarão desse paraíso. Da presença do Redentor. Da vida em abundância que têm os habitantes da comunidade. Por enquanto, contudo, isso não é possível. É preciso que a Obra seja efetuada em conjunto tanto por quem está aqui fora, quanto por quem está lá dentro. Por enquanto, apenas aqueles que são as joias especiais da coroa santa detêm o privilégio de residir no Vale da Aurora Dourada. Seus negócios não ficarão desamparados: basta que o senhor entregue a direção de sua empresa a um de nossos associados, ele cuidará de tudo para o senhor. Ou, ainda, se o preferir, vender tudo e empregar na Missão, optando por abandonar de vez o mundo e seguir a Jesus, como fizeram seus discípulos. Mateus, por exemplo, gozava de excelente situação financeira e prestígio social. Ele não pestanejou ante o chamado do Filho de Deus. Os irmãos Pedro e André largaram as redes de pescaria na hora, quando Jesus os chamou para “pescar homens”. Sequer titubearam, e é assim que procedem os verdadeiros fiéis. Ficará a seu critério, senhor Segerson.

Agora Milo deixara pender ainda mais o queixo... e NÃO era representação.

— Não são admitidos aparelhos celulares, computadores ou tablets para uso pessoal na colônia, mas dispomos de escritórios nos quais o senhor poderá continuar verificando o andamento do processo contra o seu tio, bem como as demais questões referentes à sua empresa. As pessoas pensam que ficamos isolados do mundo como topeiras em seus buracos, ou como ursos em uma caverna de hibernação. Não é bem assim. Apenas filtramos o que seria prejudicial a uma verdadeira comunhão com o Divino. O senhor poderá desistir de ficar na comunidade a hora que quiser. Há um telefone cujo número poderá ser divulgado àqueles que o senhor achar conveniente, para que eles possam entrar em contato com o senhor. Não se trata de uma “abdução”, como os mundanos fazem parecer.

— Eu compreendo. Tudo me parece muito organizado, senhor Parker. E depois daquele filme, fiquei seriamente tentado a ir para o Vale...

— “Tentado” não, senhor Segerson: inspirado.

— Claro – Riu o jovem, fazendo-se emocionado. – Meu Deus. Parece um sonho. Quero muito. Este mundo não tem mais nada a me oferecer.

O pastor sorriu, realizado tal qual um executivo que fecha um grande negócio. Para ele, é exatamente o que era.

— O mundo nunca te ofereceu nada além de ilusões vazias. O senhor terá o período de um mês para se organizar. Não sei se vai optar por vender ou alugar sua casa, mas pode concluir o processo já residindo no Vale. Até sugiro que a alugue, pode ser que o senhor desista e queira deixar a colônia...

— Eu duvido muito que isso venha a acontecer. – Retrucou, “animado”, o policial.

– Deus queira que assim seja, caro Segerson! – Levantou as mãos para o alto, dramático. Continuou: – Oferecemos toda ajuda especializada de que possa precisar. Será orientado com eficiência, pode acreditar, meu rapaz. Aqui estão alguns documentos que pedirei que assine. Pode ler o contrato, leia tudo, as coisas de Deus são assim, límpidas como a água.

— Estou tão feliz, senhor Parker! É tudo que mais quero... quando soube do Vale da Aurora Dourada, algo tremeu dentro de mim, sabe? Sempre quis ir para lá, desde que soube de um lugar como esse, em que vive o próprio Cristo Reencarnado! É um sonho... um verdadeiro sonho... – Murmurava Milo, que conseguiu até deixar úmidas as córneas. Cobriu o rosto com as mãos, simulando se entregar à emoção.

Sorrindo de forma quase paternal, o pastor Parker pôs a mão sobre o ombro do jovem à sua frente, e disse brandamente:

— Não, Michael Segerson... não é um sonho, meu filho. É a recompensa de Deus pela sua dedicação, sua fidelidade, sua entrega. Não é um sonho. Será A SUA REALIDADE, dentro de alguns dias.

*************

Um mês depois, Milo desembarcava do ônibus em que viajara por horas, acompanhado de 60 fiéis da Igreja Aurora do Novo Porvir. Havia mais um ônibus e três vans já estacionados diante da propriedade.

Deu com uma paisagem estonteante.

As montanhas tingidas pelo dourado do poente rodeavam um mar de pinheiros, refletidos na superfície plácida de um lago. No céu deslizavam nuvens em tons de rosa e lilás, similares aos de inúmeras flores que se distribuíam ao longo da cerca da propriedade. Havia uma placa bem grande acima de um pórtico ornamentado com plantas, no qual se lia em letra cursiva “Vale da Aurora Dourada” e abaixo “Aqui servimos a Deus”.

Assim como os demais que chegavam, Milo não dava mostras de se impressionar com a quantidade de homens armados nas imediações do portão.

Foi conduzido com o grande grupo pelos líderes que os levaram. Estes trocaram algumas poucas palavras com quatro homens de túnicas claras que pareciam esperá-los. A um sinal, a imensa porteira foi aberta. Durante cerca de trinta minutos caminharam por uma estradinha de chão batido até que avistaram outra cerca. Ali já dava para se distinguir habitações ao fundo, fumaça de chaminés, som de vozes e risos.

Milo olhou em torno, e assim que atravessou o segundo pórtico invadiu-o um pensamento que continha um misto de ansiedade e vitória:

“Estou dentro!”

*************

Notas finais
MILO FINALMENTE "ESTÁ DENTRO"! Como Camus pressentira após sua última visão (ou teria sido apenas um sonho?), "O anjo está perto"... Com este capítulo, chega ao fim a primeira fase da fic, intitulada "Messias". Terá início o segundo arco, chamado "Via Crucis", e só pelo nome vocês já podem sentir o que vem por aí... Muito obrigada por terem prestigiado, até a próxima! Feliz 2018 ;)