Redentor

6 Messias - Ato VI : Projeto Êxodo 2018 - Parte II


Notas iniciais
Quero agradecer imensamente pelos comentários recebidos, ainda preciso responder a alguns, mas com certeza todos serão respondidos c: Temos avisos... capítulo tenso, então, atenção a eles: INCESTO, ESTUPRO e DARK LEMON na PRIMEIRA PARTE DO POV de Camus. Nas notas finais, explicações sobre os trechos numerados. Até lá...

Aquela era a terceira xícara de café bem forte que Milo tomava. Desta vez, sem açúcar. Segundo constava, dessa forma conservava de fato as apregoadas propriedades contra ressaca...

Mas ele não se arrependia de haver se excedido no dia anterior, em sua folga. Ora se ele não iria compensar o detestável Natal que passara, enfurnado naquela igreja, com aquelas cantatas mal executadas, pregações enfadonhas e histriônicas, louvores irritantes, pessoas pegajosas, bajuladoras! Certo, ele admitia gostar de alguns dos “irmãos”... havia um coração ali dentro do largo peitoral, afinal.

Um coração meio estragado, mas havia.

Ter sido o grande patrono da festa de Natal da igreja que frequentava há cinco meses como agente infiltrado da Polícia Federal convergiu mais do que nunca as atenções para si. Melhor seria dizer “as admirações”. Chegaram a lhe propor que fosse um dos líderes da Classe dos Adolescentes, tamanha a influência que já exercia naquele ambiente. Todos queria ser como o “senhor Segerson”: bonito, rico, gentil, espirituoso, bondoso, atuante, generoso… o servo de Deus ideal.

Fora insuportável. Uma provação como poucas que recebera na vida. Por isso, ele se deu de presente um dia de folga regado a bebida, jogo e sexo, em um clube masculino de fino trato, outrora frequentado na companhia de Aiolia. Este, porém, “enrabichado” pela quase noiva de família japonesa, encerrara a carreira de comparsa de farras do primo. Milo não se fez de rogado, foi com outros colegas de trabalho e se divertiu a valer.

É, só que Simon e Oswald estavam de folga naquela sexta-feira dia 29 de dezembro, ao contrário dele, que, se não bastasse, tinha que encarar uma reunião com a equipe de investigação da Operação Vésper. Encontravam-se na espaçosa sala de reuniões da sede, sentados à grande mesa de tampo de vidro, de frente para a parede onde eram exibidas as projeções.

— Muito bem, Milo, então, segundo o que nos contou, “Michael Segerson” está cada vez mais influente na congregação. Isso é ótimo! – Comemorava Saga, a despeito da expressão entediada do amigo. – Hades não quer exatamente anônimos em seu clubinho nas montanhas. Ele quer pessoas que se destaquem, que tenham relevância e poder, dentro e fora da igreja.

— Beleza, Saga, mas escuta aqui. Foi o PIOR Natal da minha vida. Do meu Réveillon eu FAÇO QUESTÃO, vou logo dizendo. Não vão estragá-lo como estragaram meu Natal!

Dohko riu, achando graça do mau humor do agente.

— Não seja ingênuo... Michael Segerson foi o astro do Natal para aqueles fanáticos. Seria um desperdício ele não aparecer no Ano Novo para conservar o prestígio tão rapidamente conquistado pelo novato.

— “Rapidamente”, Dohko? Não fode! Vá VOCÊ ficar frequentando aquele hospício por CINCO MESES!

— Não invente, Milo. – Saga cruzou os braços, sério, à frente do telão. – Para onde iria “Michael Segerson”, um homem solitário que acabou de se encontrar em meio aos queridos irmãos e à sua querida igreja, bem no dia de Ano Novo?

Achando desnecessário dizer qualquer coisa, Aiolia só ria. Bem como a psicóloga Saori, acostumada aos rompantes narcisísticos de Milo.

— É fácil pra VOCÊS falarem! Vão curtir o Réveillon com suas famílias, amigos, parceiros, viajar... e eu? Vou para aquela fábrica de alucinados DE NOVO em uma noite especial. E outra, tenho reservas feitas HÁ QUASE UM ANO para uma festa de Réveillon fodona em Nova York! Em uma cobertura triplex bem na Quinta Avenida, bebida e comida liberada, shows de...

— Chega, Milo! – o procurador Saga estendeu a mão na direção do tagarela. – Tudo bem que você não poderia adivinhar, à época que comprou esse seu Réveillon de gala, que bem no Ano Novo estaria infiltrado em uma seita abusiva. Mas poderia ter cancelado tudo assim que iniciamos as investigações.

— Porra, eu não achei que vocês fossem me fazer perder uma das datas mais importantes do ano... – Bufou, indignado. – Espero que o Departamento tenha a decência de me ressarcir, ao menos.

— Qual seria a obrigação de o Departamento fazer isso? – Dohko provocou, divertido. – A despesa foi assumida por VOCÊ, e não teve relação alguma com a Operação Vésper. Aliás, foi bem antes de ela começar.

— Ele tá certo... – ajuntou Aiolia. – Além do que o Departamento JÁ está gastando fortunas para custear a “generosidade” do “senhor Segerson”...

— Maldição... demônios do inferno...

— Senhor Segerson, contenha-se...

— Logo o senhor, praguejando?

— Vocês dois vão ficar tirando uma com a minha cara ainda por cima?!?

— Mas É CLARO.

— Que graça teria se não fizéssemos isso?

— Chega, vocês TRÊS. – Demandou Saga, manuseando a caneta com a qual seu agente infiltrado filmara o culto. – Analisei o vídeo realizado pela microcâmera embutida nesta caneta, que ficou no bolso da camisa do Milo. Não é permitido o uso de celulares durante as cerimônias da igreja, então tivemos que nos valer desse artifício.

Apontava a parte de metal escuro afixada ao corpo prateado do objeto.

— Dado o enquadramento e as mechas de cabelo com as quais o SEREIO aí disfarçava ainda mais a caneta, a qualidade das imagens não é das melhores, mas dá pro gasto. E temos intactos registros auditivos do que se passou por lá. Não é a primeira vez em que Milo fez isso, só que, até agora, nada do que foi captado foi digno de nota COMO ISTO.

— E o que foi tão “digno de nota”?

— Você já vai ver, Aiolia. – O procurador sentou-se à mesa e pôs-se a abrir o arquivo para ser projetado. – Editei o vídeo. Temos as partes mais relevantes... aí.

Os que ainda estavam de pé se acomodaram para assistir. Elementos familiares... já conheciam o pastor Ephraim, sobre o qual inclusive pairavam algumas denúncias e processos. O “pastor Salsicha” de Milo já era um conhecido da Polícia Federal, e cairia juntamente com dezenas de outros, tão logo eles obtivessem a vitória naquela operação. Foi quando...

— Olha, é o safado do Hades no telão! – Comentou Aiolia. – O Michael Jackson das trevas!

— Esse é o especial de Natal deles? Não conseguiram pagar o cachê de outro “popstar” não? – Zombou Dohko, mastigando chicletes. Melhores que canetas. – Não é a primeira vez que o cretino dá o ar da graça nesse show da fé...

Tamborilando os dedos sobre o tampo de vidro, Milo garantiu, sem tirar os olhos das imagens:

— Esperem só um pouco e cês vão ver a novidade. O Hades não é a grande atração da noite...

— Epa. Quem é esse aí? – O secretário fez-se sério.

— Caramba... não vai me dizer que... – Murmurou o primo de Milo, arregalando os olhos.

“Que a Paz do Senhor Deus Todo Poderoso, Rei dos Céus e da Terra, esteja convosco. Muito embora o dia 25 de dezembro seja uma mera convenção mundana para rememorar a data em que o Verbo se fez carne, aceitamo-na, a bem de prestar-lhe tributos... neste dia, o meu Antecessor veio a este mundo. Gerado em um ventre imaculado, fez-se carne para que, 33 anos depois, se oferecesse em sacrifício por vocês...”

— Puta merda. É ELE? O tal “Redentor”? – Tartamudeou Aiolia, pasmado.

— A aparência, que bate com as descrições de ex-membros, e o conteúdo da mensagem indicam claramente que sim. – Disse Saori, concentrada no que via e no que ouvia.

Ainda que tivesse sido respondida, tratava-se de uma pergunta retórica. Aquela postura, a imposição das mãos, a fala serena, profunda, a estampa beatificada, as vestes cerimoniais, os cabelos muito longos, vermelhos como sangue...

— Ele existe mesmo, o filho da mãe... a cara de pau de Hades não tem limites! Realmente, inventou um “Messias” de quinta categoria...

— E olha como ele domina a plateia com toda a baboseira que diz, Dohko...

— Que tal ouvirmos a “baboseira”? – O chefe da equipe sugeriu quase entre dentes, impaciente.

Fizeram conforme Saga sabiamente apontou. Quase não piscaram, e mais nada proferiram, enquanto durou a pregação do jovem ruivo.

Vinte minutos depois, a mesma se findou. Eles então voltaram a debater entre si:

— Ele não apenas dominou as pessoas que estão com ele, seja lá onde for. Lá na igreja, o efeito foi assustador. Teve gente chorando, dando ataque, desmaiando, só de ver o “garoto de camisola”. E se querem saber... – Milo cogitou, com severidade. – Pode ser que esse cara nem estivesse na tal comunidade.

— É uma possibilidade. Talvez seja um estúdio.

— Não parece, Saori. Eu apostaria que eles alugaram um ginásio, algo do tipo.

– Vocês têm razão. Acontece que o Vale ocupa uma área gigantesca em Grayville. É praticamente uma cidade. Uma cidade pequena, para os padrões americanos, sim, mas ainda assim, mais do que uma simples e bucólica vila de hippies. Não seria nada absurdo se tivessem construído um templo daquelas dimensões no local.

— Dohko tem razão. – Concordou o promotor, fitando atentamente a imagem congelada, de volta ao pastor Ephraim. Ele voltou o vídeo. – Milo, será que na hora do culto você reparou o mesmo que eu reparei no “Messias”?

— O que você reparou?

— Algo curioso…

— Fala sério? “Curioso” é um eufemismo pra esse demente que se acha Jesus.

— “Jesus” não. “Messias”.

— Dá no mesmo, Aiolia.

— Não dá não, seu burro.

— Pois você vai ver o BURRO aqui te dar um coice bem dado nessa sua...

— MILO! – O tom de Saga endureceu. – Apenas RESPONDA. Notou os BRAÇOS do cara do vídeo?

— Os braços?... – Ciciaram os demais.

O agente assentiu, franzindo as sobrancelhas loiras. Quase rosnou, com visível desdém:

— O “Jesus Cabeça-de-Tomate” está usando uma roupa com mangas bem longas. Mas no momento em que ele ergue as mãos e as impõem sobre a plateia, deu pra perceber que ele tem MARCAS nos pulsos e no antebraço. Eu percebi, lá na hora, pois estava bem aumentado...

— Marcas? – Saori, Aiolia e Dohko fizeram quase um uníssono.

— Milo conseguiu ver devido ao tamanho da imagem, e eu, porque estava editando e vi com pormenores. Prestem atenção... – Saga voltou às partes em que o rapaz fazia os movimentos relatados por Milo, os quais deixaram, por breves instantes, visíveis as marcas que chamaram a atenção dos dois policiais. Pausou.

— É como se ele tivesse sido amarrado, não? É bem escura a linha circundando os pulsos... – Apontou Saori, intrigada.

— Há umas manchas nos antebraços também, menos perceptíveis, mas... pena que a definição não é lá essas coisas. – O secretário observou, coçando o queixo. – Em todas as alusões acerca do “messias” do Hades é dito que a função dele na Terra é passar pelos mesmos sofrimentos do “primeiro Cristo”. Supostamente, a segunda vinda dele não bastaria para salvar os pecadores... ele teria que repetir o martírio...

Surpreso, Milo voltou-se para ele, perguntando:

— Você acha que esse cara está se autoflagelando pra passar pelo “novo Cristo”?

— É uma possibilidade. Olha lá, ele tá claramente machucado nos pulsos e nos braços. Mais não podemos ver por causa da roupa comprida...

— Ou... poderia ter ALGUÉM fazendo isso com ele?

Todos olharam para Aiolia. O primo deste balançou a cabeça, incrédulo.

— Querem saber? Pode muito bem ser MAQUIAGEM… – Arriscou, com certo desdém. – Já vimos casos de “Messias” usando coroas de espinhos de PLÁSTICO em outras seitas. Porra, eles bebem SUCO DE UVA nos cultos e dizem que é pra representar o vinho da Santa ceia. Quem não garante que é uma maquiagem representando o suplício do Cristo?

— A qualidade das imagens não nos permitiria descartar nenhuma das hipóteses... entretanto... – A psicóloga analisava o que via, atentamente. – Se fosse maquiagem, acho que optariam por algo mais dramático.

— Não necessariamente – Saga refutou, pensativo. – Podem estar justamente querendo semear a dúvida.

Tomando a palavra, Milo dirigiu-se a todos, enfático:

— OK. Tudo que podemos atestar é o que temos como indiscutível. E o que é indiscutível nessa palhaçada toda? Um: Hades realmente criou um “messias” para sua religiãozinha pessoal. Dois: querem fazer acreditar que o canalha ruivo está repetindo os sacrifícios de Cristo. Três: o “Jesus headbanger” aí sabe convencer.

— Tu tem que considerar que as pessoas que frequentam a seita estão suscetíveis...

— Eu sei disso melhor do que ninguém, Aiolia, mas é... é algo além. A câmera não foi capaz de captar pra vocês o que EU vi...

Não souberam se Milo hesitava por não saber como se expressar, ou por estar se lembrando de mais alguma coisa.

— Fala, cara! – Seu primo insistiu.

O semblante do agente refletia algo incerto de ser identificado:

— Até essa transmissão, eu sempre via as pessoas reagirem a discursos inflamados, dramáticos, acusatórios. Palavras que traziam euforia ou, em outros extremo, a culpa e o medo. Os discursos dos líderes sempre se revestem de uma autoridade irresistível a esses “zumbis”, que só querem que alguém lhes diga o que fazer em troca de benefícios materiais, físicos e espirituais. – Apontou o homem no telão, visto quase em um close, brandindo a mão esquerda. – Não é o caso deste cara. Ele parece TOCAR as pessoas através de algo diferente. Algo como... não sei. Quando ele falava... soava como um líder calmo, sensato e ponderado, nunca se alterando, ou usando as tais inflexões tonais que conduzem aos estados mentais mais... frágeis. Mas HAVIA ALGO ALI. Tinha algo nele que atingia os espectadores de uma forma muito mais pessoal que a simples fé, a submissão, a crença... era através de uma EMPATIA, como se tocasse as pessoas através de algo em comum com elas... algo por todos vivenciado, em algum momento da vida, ou... permanentemente.

— E o que seria, Milo? – Saori instigou-o, admirada de nunca ter presenciado o policial se expressar daquele jeito. Os demais partilhavam da mesma impressão, atônitos.

Ele fitou a cada um de seus parceiros de trabalho e respondeu, com inédita gravidade:

— Tristeza. Uma tristeza profunda e absoluta.

*************

Um novo ano se aproxima.

O ano de 2018.

Sei porque ouço todos dizerem esse número. Na verdade, não sei me localizar no tempo dos homens. Ele é uma convenção. Não preciso medir meu tempo de agir, meu tempo de ser, meu tempo de viver.

Meu tempo é o Plano.

Existo por ele, em meio a ele, e apenas para ele. Para o Propósito da Salvação.

Mas pelo que sei, as pessoas dão grande importância a essa delimitação, principalmente as “mundanas”. Julgam ser um divisor em suas existências. Depositam na mudança das eras esperanças de mudanças. Eu não entendo. Tudo, TUDO é sempre o mesmo sobre a Terra.

A lua sobe.

O sol desce.

A lua desce.

O sol sobe.

Malgrado nossa crença, meu pai terreno, bondoso como é, permite mais uma noite de festejos em nossa Cidade Santa. Não tão auspiciosa quanto o Natal, porém cuida de ser uma noite de consagração, mais do que de comemoração. A julgar pela quantidade de visitantes que vêm pleitear graças para o ano vindouro, mesmo alguns fiéis não conseguem se despojar de certas crendices. O pai terreno considera que é melhor que façam seus pedidos aqui, e que contribuam com a nossa Obra, do que se o dedicassem a fazê-lo “lá fora, para o mundo.”

Esta noite virão alguns homens importantes. “Importantes”. É como são chamados pelos Vigias, pelos Arautos, Obreiros, meus irmãos... e até pelo grande Hades.

Parece-me que detém reinos, ou domínios que se assemelham a reinos. Neste período, às vésperas do que chamam de Consagração do Novo Ciclo Terreno, homens e mulheres “de fora” comparecem, requestando bênçãos para os seus impérios. Os Rituais da Sagrada Semente escasseiam quase por completo. O último foi solicitado por uma mulher, há várias luas.

Os cerimoniais desta época costumam ser do tipo em que os fiéis vêm atrás de uma RELÍQUIA.

Essa relíquia é uma parte de mim. Tal como era nos tempos dos Santos.

Embora eu saiba que o máximo que “as ovelhas” podem levar de mim são cabelos, unhas, um pouco de sangue, pedaços de roupas, não há como não estremecer ao me lembrar das histórias sobre a obtenção das relíquias em priscas eras. (1)

Por isso, meu pai terreno controla minhas leituras com rigor. Ocorreu de, há alguns anos, eu pedir a Minos um livro que contasse relatos de mártires do passado, quando consegui entender o que era o cerimonial das Relíquias. Quando criança, o assunto era fonte de grande curiosidade. Minos me atendeu, porém, ao ser descoberto, foi duramente castigado. Ouvi dizer que apanhou tanto que ficou com um olho vazado, razão pela qual oculta os olhos sob uma volumosa franja prateada. Dizem que seus cabelos se branquearam da noite para o dia...

Não que eu não tenha sido castigado também.

Nunca mais caiu em minhas mãos qualquer outro livro que não fosse a Bíblia. E mesmo ela tem a leitura orientada pelo meu pai terreno. Hoje, por exemplo, estou lendo Hebreus...

“Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo. O qual sendo resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentado todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas; feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles...”

Aquele anjo.

O anjo dos meus sonhos.

Qual será o nome dele?

“... porque a qual dos anjos disse: Tu és meu Filho? Hoje te gerei? E outra vez: Eu lhe serei por Pai, e Ele me será por Filho?”

Meus olhos pesam.

Minha mente vaga.

“E outra vez, quando introduz no mundo o Primogênito diz: e todos os anjos o adorem.”

Aquele anjo.

Não me olhava com adoração.

Quer dizer... não a adoração esperada de um anjo. Não uma adoração servil.

Era antes um...

... um afeto.

... uma piedade.

Como se quisesse me proteger.

Como se quisesse me...

... me salvar.

Suspiro, desgostoso comigo mesmo.

EU sou o Salvador.

Que ministro poderá salvar o imperador?!?

E que salvação demanda o Salvador?!?

Estarei incorrendo em blasfêmia ao ter semelhantes impressões?

Não devo pensar, não devo pensar, não devo pensar, não devo pensar, não devo pensar, não devo...

... faz tempo que ele não aparece.

Não sei se é porque andam me dando cada vez mais injeções, e em doses cada vez mais altas...

Não importa.

Não devo pensar.

Não tenho o direito de fazer isso.

Um anjo é um mensageiro.

Não um bálsamo.

Se ele não vem mais, é porque nada há a me revelar.

Penso com pesar que o anjo talvez não tenha retornado porque não fui capaz de decifrar-lhe sua mensagem.

Que grande néscio sou.

Aperto minhas mãos ante essa reflexão.

Tanto, tanto que as minhas palmas ficam com marcas das unhas.

Como estão grandes.

Uma quase quebra.

Que grande descuidado sou.

Estão deste jeito para o Cerimonial das Relíquias.

Preciso ser mais cuidadoso.

Preciso parar de pensar.

Preciso parar de querer.

É isso que acontece quando ouso querer.

Como posso querer... vê-lo outra vez?

Por que vê-lo me faz tão bem?

Estremeço... e não sei por quê.

Meu coração dispara... e não sei por quê.

“Camus!”, ouço a voz suave de June. Saio da varanda de onde estava a contemplar a neve que caía indolentemente. Ela arregala os olhos azuis ao me ver saindo de lá.

“Camus! Por Deus Todo Poderoso! Não deveria ficar do lado de fora do seu quarto! Está muito frio! Olhe para você, está gelado!”, fala, preocupada, tocando-me as faces, as mãos, o pescoço. Eu rio: asseguro-lhe que está tudo bem, que gosto do frio, que ele limpa, purifica. Ela me encara, nada convencida, e reclama: “E também deixa doente, sabia? Você é nosso Messias, mas seu corpo é tão frágil quanto o de qualquer um de nós, suas ovelhas. Não é o que o próprio pai Hades diz?”

Elimino o sorriso, concordando com minha cunhada em um gesto. Entendo-lhe a preocupação e agradeço.

June entrega-me a túnica que devo usar. E também uns colares e pulseiras. Segundo ela, ordens do pai terreno. Concordo, consciente da utilidade de tais acessórios. Retira-se da alcova e eu me troco. O traje é branco, longo e sedoso. Nenhum detalhe o adorna.

Vou até ela, em silêncio. Aguarda-me no anexo, uma espécie de antesala para meu quarto e sala de estudos.

June se vira para mim e parece me analisar por uns segundos. Aproxima-se, ajeitando alguns sulcos na roupa.

“Senta, vou pentear seus cabelos.”

Faço conforme orientado, enquanto ela pega um pente em uma antiga cristaleira. Ao chegar perto de mim, hesita.

“Seu cabelo tá muito grande. Melhor você ficar de pé, desculpe.”

Sorrio levemente, levantando-me. Digo-lhe que não há problema algum. Com gestos delicados e planejados, ela põe-se a me pentear. Não é tarefa fácil, bem o sei. Dependo dos outros para desembaraçá-los por completo. São exageradamente compridos. Sei que não podem ser curtos, mas, por minha vontade, eu os manteria acima da cintura, da maneira como Argol os mantém.

“Argol não tem... ‘se ocupado’ de você, tem?”

Um desconforto se apossa de mim. Sinto tristeza no acento lamentoso da pergunta. Respondo que não. Não é mentira, uma vez que não minto.

De fato, faz um bom tempo que Argol não “se ocupa” de mim. A última vez foi...

Cerro os olhos, amargurado.

“Então... desde aquela vez... ele não...”

“Não.”

“Graças a Deus”, June completa, com voz embargada.

“Sim. Graças a Deus.”, sussurro. Tento não imprimir nenhuma mágoa no tom.

Desde aquela vez. Acho que tem uns meses. Ou... semanas... tem bastante tempo.

Quando Radamanthys o socou no meu quarto, Argol guardou a afronta no coração. Incapaz de obter sua vingança contra nosso irmão mais velho em virtude da desvantagem física, e menos ainda contra nosso pai, voltou contra mim sua ira sequiosa... que obviamente serviu a outros ensejos.

Dias depois daquela contenda, eu caminhava pelo Vale acompanhado por um dos Arautos, Albiore. Os Arautos são a segunda categoria mais importante de auxiliares do meu pai terreno. Em outras palavras, ficam abaixo apenas dos Quatro Vigias, Minos, Aiacos, Capella e Asterion. Os Quatro Arautos são Albiore, Dante, Bian e Krisaor. Faço passeios ocasionais pelos campos, tanto para que as “ovelhas” tenham contato comigo e nutram seus espíritos de fé, quanto para que eu tenha com elas contato para reforçar em meu próprio espírito o que urge em minha existência.

Além do quê, é um exercício que impede que meus músculos fiquem atrofiados, já que fico tanto tempo trancado em meus aposentos...

Albiore segue a meu lado, silencioso a maior parte do tempo. Acredito que ele seja um pouco mais velho do que eu, mas talvez menos que Radamanthys. Tem os olhos muito azuis, que contrastam com a pele trigueira. Passam algo de sábio, apesar de mortiços. É um olhar de quem sofreu sucessivas desilusões. Os cabelos loiros claros caem em camadas, possuem o comprimento que eu gostaria de ter. Os meus... quase alcançam-me os joelhos!

Aprecio sua companhia. Fala pouco. É um homem calmo, sério, e cortês. Nos detemos diante de um grupo que estuda a Palavra, reunido debaixo de uma nogueira cuja vasta sombra protegia o grupo do sol forte. Eles fazem menção de se ajoelharem e me prestarem reverência. Ergo as mãos, alegando que não há necessidade. Que continuem sua atividade, ou melhor, que falem a mim como estão se saindo nela. Conversamos um pouco e então sigo em meu caminho, junto com o Arauto.

Nos afastamos da lavoura, onde acenei para os trabalhadores, e ganhamos o bosque, que nos presenteou com deliciosas sombras. Ouvimos o som de águas corredias; uma pequena queda d’água desembocando no Rio Jordão. Perto dali, na parte mais rasa e segura, são realizados os batismos em nossa comunidade. Meus sentidos são tomados por um supremo bem estar.

Que, infelizmente, não dura muito.

À nossa frente, saindo de trás do tronco de um maciço carvalho, vemos Argol.

Imediatamente eu e o Arauto estacamos, surpresos em vê-lo ali.

Não se trata de uma surpresa agradável, de minha parte. E a julgar pelo tom ríspido com que Albiore se dirige a ele, o Arauto partilha da mesma sensação: “Argol? O que faz aqui? Pensei que estivesse presidindo atividades na Sala de Oração.”

“Eu já cumpri com minhas obrigações, e vejo que você está a cumprir com as suas, Albiore. Quis aproveitar este lindo dia para dar uma volta. A bem dizer, logo logo estaremos no outono...”, semicerrou os olhos, prazenteiro.

Ao ver seus olhos anis pousando em mim, um arrepio desagradável percorre-me a espinha. Tenho ganas de sair dali.

“Tem razão.”, Albiore enuncia, pouco tocado. “Está um dia magnífico. Uma verdadeira ode ao nosso Criador.”

Argol sorriu, cessando de me encarar. Pôs a mão no ombro de Albiore, e comentou: “Já que eu os encontrei, penso em como seria bom passear pelo Vale na companhia do meu querido irmão, o ‘Escolhido’. Há muito não fazemos isso!”

“Tenho cá minhas dúvidas acerca do ‘acaso’ deste nosso encontro.”, volveu o Arauto, seco. “Em todo caso, por isso não, fique à vontade para nos acompanhar.”

“Na verdade, Albiore, eu... preferia fazer desse um momento entre irmãos... tencionava fazer isso A SÓS com ele...”.

Todo meu corpo fica tenso. Olho para Albiore, sem ter certeza de que disfarço minha aflição.

“Compreendo, Argol. No entanto, tenho ordens expressas de Radamanthys de não deixar o Redentor nem por um único minuto. Estou responsável pela segurança dele hoje.”

Tentando sustentar o sorriso, Argol procura não se intimidar com a recusa do mais velho. Algo ameaçador paira em sua pretensa amabilidade ao argumentar: “Posso igualmente cuidar da segurança de nosso Messias, tanto mais porque sou IRMÃO dele.”.

Inconscientemente, dou um passo para trás, encostando-me no Arauto. Acho que ele percebe meu temor, através do involuntário tremor que se apossa de mim. Até tentei me controlar, mas...

Albiore põe as mãos sobre os meus ombros, como a enfatizar que não abandonará seu posto,

“Eu sei que pode. Jamais afirmaria o contrário. Ocorre que eu NÃO POSSO desobedecer uma ordem de Radamanthys.”

“Supostamente, você não poderia desobedecer a NENHUM dos filhos de Hades”, replicou meu irmão, ainda mantendo a calma, conquanto um certo desdém emane dela. “Estamos acima dos próprios Vigias.”

“Sei disso. Radamanthys, porém, é o PRIMOGÊNITO. Formalmente, tem MAIS autoridade que você. Sinto muito, mas devo acompanhá-los neste... passeio.”

Eu me preparava para romper a barreira do silêncio; vejo, entretanto, que Albiore dá conta do recado. Permito-me relaxar um pouco. Inesperadamente, Argol adquire uma expressão afável. Põe as mãos na cintura, considerando meu guardião ao expor:

“Há quatro anos eu me casei com June. Foi a esposa que o Ministério escolheu pra mim, dentre tantas e tantas... devo dizer que não me desagradei nada nada da decisão. June, além de linda, é modesta, doce, boa mãe e boa dona de casa, servil... ah, sim. Ela é muito servil. Me obedece cegamente. Até porque se não obedecer...”, dá uma risadinha que me faz estremecer de novo. Não entendo sua intenção. No entanto, Albiore parece atento, e com uma expressão sisuda. Parece querer fuzilar meu irmão com os olhos severos. Argol continuou: “Afinal, o marido é o cabeça da mulher. A ele ela presta obediência suplantada apenas à que deve a Deus. Sim, Albiore, June é tudo isso. Sabe o que mais ela é? Sim, você sabe...”, aproxima-se do Arauto e complementa “... é a mulher que VOCÊ AMA.”

Meus lábios se descolam. Boquiaberto, viro-me para Albiore, que paralisa ante a declaração. Abre a boca, sem que nenhum som dela saia.

“Eu sei que você ainda a ama, Albiore. Era a mulher que VOCÊ havia escolhido como esposa. Você a amava desde a primeira juventude, eram tão unidos, pareciam irmãos... com o passar do tempo, ficou evidente a todos que não havia nada de fraternal naquela...”

“Aonde quer chegar com essa conversa? O que pretende?”, interrompeu-o o Arauto, áspero. Noto que crispa as mãos, agora ao longo do corpo.

Argol mostra-lhe uma chave.

“Uma troca. Te dou a chave de minha cabana, onde June está trancada, À SUA ESPERA... e você me cede a sua guarda.”

“Você está louco.”, dispara meu guardião.

“Louco será VOCÊ se perder esta oportunidade: eu ordenei a June que te sirva NA CAMA.”

“O... o quê?”

“Isso que ouviu. Eu disse a ela que você lhe fará uma visita.”, riu, sarcástico. “Conforme eu disse, ela é uma mulher servil. Faz TUDO o que o marido manda. Então... você pode ir até lá, realizar o anseio de toda uma vida. Basta que me entregue o CONTROLE que está no seu bolso e me deixe a sós com o meu querido irmão...”

“Albiore, não faça isso!”

Ambos me olham, espantados. É raro eu interferir nas negociações dos que me cercam.

Meu apelo desesperado atinge em cheio o Arauto. Resoluto, ele se interpõe entre mim e meu irmão. Responde, gravemente:

“De modo algum desobedecerei a uma ordem do Messias. Vá embora, Argol.”

“Devo mesmo? O fogo nos teus olhos me dizem o quanto a proposta te interessou… quanto ao Messias… é DEVER dele se sujeitar a toda sorte de SOFRIMENTOS em prol de sua missão. É para ISSO que ele veio ao mundo. Não lhe infligem suplícios para que ele a cumpra?”

“Argol... está me confessando que você vai...”

“Sabe o que me parece? Que você quer ficar no caminho da incumbência DELE. E isso configura um grave ato de rebelião.”

“Sei o que você está fazendo, está TORCENDO as verdades, para saciar suas torpezas! Pode enganar a muitos, mas a mim NÃO engana!”

Argol balança a chave bem diante do rosto aturdido de Albiore.

“Não me interessa no que você acredita ou não. Se não aceitar minha oferta generosa, não apenas sua amada pagará... vou descontar no filhinho querido dela também...”

Horrorizado como eu, o Arauto balbucia: “É... é TEU FILHO também! Está ameaçando o próprio filho?!?”

“Sim, é meu filho. Ou seja, é MINHA propriedade. Dele faço o que eu quiser. Além do mais... crianças se recuperam rápido. Já bateu em uma? Parece ter elástico nelas”, ri, “são frágeis mas ao mesmo tempo flexíveis... não será a primeira vez do pequeno Jacó; ele aguenta...”

Albiore e eu não articulamos uma única sentença, tamanho o horror que nos domina. Sabemos que Argol é SIM capaz do que promete. De torturar o próprio filho e a mulher, tudo para conseguir o que quer...

A mim.

Busco em meu cerne o eco de uma razão. Não há.

Busco uma forma de inquirir a Deus. Não há.

Nem deveria haver.

É o que deve ser.

Por trás de Argol vejo uma névoa.

Seu sorriso é o sorriso do Mal.

Judas foi um veículo.

Argol é um veículo.

Aperto as pálpebras, confuso. Por algum motivo, enxergo algo que não a Missão.

Enxergo apenas um Mal.

Peco, eu sei.

Peco! Estou pecando... eu deveria me entregar, como Isaque se entregou ao pai Abraão. (2)

Entregar-me ao altar para ser imolado.

Albiore treme da cabeça aos pés. Sinto seu conflito doloroso.

Sei qual será o veredito.

Não o condeno. Sequer o olho.

Ele PRECISA aceitar.

A chave balança, cintilando sob a luz do sol.

Pousa suavemente em sua mão trêmula.

Seus olhos úmidos encontram os meus, secos.

Minhas emoções congelam como gramídeas em uma manhã de geada.

“Camus... me perdoe...”

Ele sabe que o perdoo.

Sabe que meu perdão é infinito.

Sete vezes sete?

Setenta vezes sete. (3)

Argol é meu Judas.

June e Jacó não podem sofrer por minha egoísta recusa em aceitar meu fardo.

Cabisbaixo, Albiore se retira.

Fico sozinho com Argol.

Não há escapatória.

Nunca há.

E nunca deve haver.

É para isso que vim ao mundo.

“Agora somos só eu e você, Camus. Não está contente? Faz tempo que não ficamos assim... a sós.”, comemora, sorridente. Encaro-o, sem corresponder ao seu entusiasmo. “Vamos passar bons momentos. Vem, vamos até o rio. Com essa claridade, poderemos ver os peixes! Outro dia, vi uma família de cervos por lá! Não seria incrível se os encontrássemos? Tinha um bebezinho… a coisa mais linda, Camus!”

Ele toma minha mão. Não esboço contrariedade.

Caminhamos por alguns minutos. Ao meu lado ele assobia, despreocupado. Por entre copas réstias de sol dardejam-nos de quando em quando. Olho-o de soslaio.

Seu rosto se ilumina... é tomado por sombras.

Se ilumina... é tomado por sombras.

Ilumina. Sombras.

O som do rio fica cada vez mais alto.

Não.

Não é o rio.

É a cachoeira.

Agora o barulho das águas sobrepõe-se ao canto dos pássaros, aos ruídos das folhas partindo-se sob nossas sandálias de couro, ao assobio de meu irmão. Este larga minha mão e agarra meu braço, de súbito. Imediatamente paro. Mais por reflexo que por vontade. Segura-me pelo outro braço. Força-me a olhar para ele. Desvio o olhar; ele me segura pelo queixo, forçando-me a tê-lo em meu campo de visão.

Sua face revela-me sua intenção.

Ou melhor... confirma-a.

Não sei precisar o que dá em mim.

Em um inesperado solavanco, desprendo-me de sua restrição e lanço-me em uma escapada.

Uma inédita escapada.

Talvez seja pecado tentar escapar do meu destino.

A fuga é dúvida, é medo, é pecado.

Mas também é mais forte do que eu.

Ergo minha túnica azul clara, por sorte menos comprida do que as cerimoniais. Salto por sobre troncos, buracos, pequenos arbustos, em uma agilidade que nem eu sabia deter.

Não vou muito longe.

Corro por alguns metros, a ponto de ficar bem afastado dele... quando a dor me faz gritar e cair.

Vou ao chão sob agonia, tremendo como um inseto ao qual arrancaram as asas.

Ouço uma gargalhada ao longe.

Não.

Não está longe.

Está perto.

Ele está perto...

Oh, sim.

O CONTROLE.

Eu me esqueci do...

“Você se esqueceu de que Albiore me entregou o controle de sua tornozeleira? O choque que ela produz é forte, não? Eu não teria usado isso”, mostra-me o aparelho, “se você não tivesse corrido. Mas... sabe? Agradeço por ter corrido, irmãozinho. Me fez usar isto... e agora você está aí, atordoado, caído, em meio à dor... do jeito IDEAL para que eu possa colocar ISTO...”

Ele amarra meus pulsos com um pedaço de corda que provavelmente trouxe no bolso da calça. Grito, dizendo que ele não deve fazer isso. Não estamos em um Cerimonial, tampouco em uma Punição ou Tratamento, alego. Argol vira-me para ele e desfere um forte tapa em meu rosto. Mais um. E outro. “Cale-se!”, vocifera, colérico. “Pensa que não sei que se entregou a Radamanthys? Por que com ELE você abre logo as pernas e comigo faz todo esse escândalo?”

Mesmo com as mãos atadas não deixo de me debater, acertando-o algumas vezes. Argol procura conter-me, agredindo-me seguidamente, agora não mais no rosto; não por piedade, e sim por medo de deixar marcas denunciadoras. Por vezes, fita-me pasmado, provavelmente por nunca ter lidado com tamanha resistência de minha parte. E confirma-o:

“O que está acontecendo com você, afinal? Ultimamente anda arredio, rebelde... sabe que a rebeldia foi a causa da queda de incontáveis anjos, hã?”, ele acusa, enervado. Mostra-me o controle da tornozeleira, ao que paraliso de imediato. “Para de se mexer, ou vou ser obrigado a usar isto de novo! Se eu apertar aqui seguidamente, você vai apagar como a chama de uma vela. E com você desmaiado, ah, Camus... eu vou fazer o que eu quiser, na intensidade que eu quiser... você não estará acordado pra reclamar, mesmo!”

Considero as situações.

Não sei qual delas é a pior.

Tudo que sei é que manifestar meu desagrado de modo algum impediria Argol de saciar seus anseios.

Nunca impediu.

Seus... anseios...

Não.

Não é assim.

Ele faz pelo dever.

Eu vim ao mundo para...

É minha imolação.

Ele é o meu Judas.

Esta é a minha missão.

Como o filho de Abraão sobre o altar.

“Meu irmão... por que não pode me amar como ama Radamanthys?”, ele choraminga, passando as mãos ávidas sobre o meu corpo, por entre as minhas pernas.

Ele é o meu Judas.

Ele é meu Satã no deserto.

Ele quer me fazer cair na tentação da dúvida.

É tudo uma provação.

Não devo negar.

PRECISO ACEITAR.

Eu sou o Plano.

Argol faz parte do Plano.

Ele sonda minhas partes, acaricia-me as coxas com afobação desmedida.

Eu sei que preciso aceitar.

Porque é meu destino.

Mas, inconscientemente, um apelo escapa por entre os lábios que ele morde e chupa. Argol ergue-se e me esbofeteia outra vez. Praguejando, retira um lenço do bolso da calça de brim.

O lenço se transforma em uma mordaça.

Meus apelos silenciam-se.

Argol sua muito.

Gotas de seu suor caem em meu peito que sobe e desce, descompassado.

Ele se apossa de meu membro por baixo de minhas vestes. Ergue-as mais, buscando acesso irrestrito à minha carne. Manipula meu órgão com impaciência, bufando enlouquecido. Arqueio as costas e me debato em uma derradeira e vã tentativa de escapar de seus toques intrusos.

Minhas súplicas têm como mortalha o pano que cobre minha boca. Respirar torna-se difícil.

“Ah, Camus, agora sim, vou brincar muito com você... se você tivesse sido bonzinho, eu me saciava e ia embora, tão somente.”, sussurra-me ao ouvido, lambendo-me o lóbulo no processo. Fecho meus olhos com tanta força que dói.

Sequer sinto lágrimas.

Após tentar estimular-me sem sucesso, abre o zíper de sua calça. Ergue uma de minhas pernas e insere um dedo em mim. A dor me consome, mas o tecido não permite que eu a exteriorize. Argol fica brincando, estocando, girando, brincando, estocando, girando...

Sou seu brinquedo.

Não.

Não é assim.

Tudo tem um propósito.

Ele insere mais um dedo...

Deus, por que tem que haver... tanta dor... tanta humilhação?

Sim, sei que meu Antecessor foi humilhado, mas eu... eu...

“Lembra de que eu sei onde é aquele ponto que te faz derreter, hein, Camus? Nem precisa de droga... Radamanthys precisa... eu não preciso... sei te dar prazer, hã?”

Tudo tem...

...um...

... qual... é... o propósito?

Quem… quem disse isso?

Eu não consigo falar.

Quem PENSOU isso?

Ele ri desvairado, deliciando-se com minha tortura.

Não parece ter fim.

Meu Antecessor sofreu por três dias.

Por que eu...?

Meus pulsos amarrados se torcem, buscando por uma libertação que nunca se concretizará.

“Agora vou te dar o MEU membro... depois de ver você assim, ELE está todo melado, olha”, enfia a mão por dentro das próprias roupas íntimas e esfrega-a na minha cara. Tento me esquivar... tento chorar... não sou bem sucedido em nada...

Após retirar de mim seus dedos, ele me possui sem maiores cerimônias.

Eu me remexo na relva, sem mais pensar se estou pecando ou não.

Não sei mais o que é pecado.

EU SÓ SEI QUE NÃO QUERO...

... ISTO...

Não obstante...

Argol...

“Camus? Messias? Está tudo bem?”

A floresta desaparece.

O sol se apaga.

Não há mais o cheiro da grama, o canto das cigarras, o lento balouçar das folhas acima de mim.

Não há mais dor.

Diante de mim, distingo o semblante consternado de June.

A boa, gentil, bela June.

“O que houve, meu senhor? Ficou pálido... parecia tão distante...”

Afasto um pouco a franja de minha fronte.

A despeito do frio, suor empapou-a, fazendo alguns fios se grudarem na pele.

Impossibilitado de mentir, e sem a menor vontade de lhe contar sobre o que estive a me recordar, fico em silêncio.

Ela parece compreender, pois toma minha mão e a beija, enquanto sobre seu dorso deposita sentidas lágrimas.

“Eu sinto muito, meu Senhor. Eu sinto muito! Se eu pudesse, teria sofrido em seu lugar!”

Pobre June.

Ela já sofre o suficiente.

Cubro sua mão com a minha e viro-me para beijar sua fronte.

A boa, gentil e bela June.

“Não chore.”, é tudo que consigo dizer.

Ela se ajoelha aos meus pés, seu pranto enfim liberto.

É por isso que devo ser imolado.

Ontem.

Hoje.

Amanhã.

Sempre.

Para que June e outros alcancem logo o Paraíso e deixem esta terra de desolação.

É para isso que vim ao mundo.

*************

June e eu adentramos o Salão dos Mistérios. É um vasto recinto hexagonal, com uma cúpula de vidro na qual se distinguem pingos de chuva. O chão de mármore clara reflete parcamente a iluminação invasiva com que meus olhos cansados são obrigados a lidar. Nas paredes há inúmeros símbolos sacros, cruzes de todas espécies, tudo sobre o que estudei exaustivamente. E no entanto, detenho-me nas dezenas de homens e mulheres que se mantêm ao redor, fazendo um círculo, ajoelhados e em oração. Posiciono-me bem no centro, acima do qual lustres abrigam centenas de círios.

Hades entra pelo outro lado, seguido por Minos e Aiacos. Vestem trajes cerimoniais, longas túnicas com detalhes em dourado, na cor preta e cinza, respectivamente. Na mão de cada Vigia há uma pequena arca dourada. Eles se prostram e as depositam aos pés do meu pai terreno, assim que este se detém.

“Meus filhos, minhas filhas.”, começa a proceder àquela solenidade. “O ano de 2018 bate à porta. Obterão sucesso em todas empreitadas, no sentido de conquistar e manter a prosperidade aos filhos preferidos do Grande Pai Celestial, mediante o poder sacrossanto das Relíquias. Em nome do poder a mim investido, como intermediário entre o Eterno e o Finito, o Alto e o Baixo, o Espírito e a Carne, inicio o Cerimonial das Relíquias.”

Minos e Aiacos abrem as arcas que depositaram aos pés do líder.

Dentro de uma, as ferramentas de extração das Relíquias: uma tesoura pequena, uma tesoura grande e um punhal, todos feitos de ouro. Dentro da outra, frascos, sacos de veludo e caixinhas.

A tudo observo calado, mantendo meu espírito em sintonia com o Divino.

O Cerimonial das Relíquias não se estende demasiado.

Poucas pessoas compraram o que se chama Relíquias de Primeira Linha ou Classificação, e há uma razão bem específica: são, de longe, as mais caras. Muito, muito caras. Principalmente o sangue. Ouvi dizer que um frasco contendo apenas um pouco do meu sangue pode custar a casa de um homem. Cabelos e unhas também alcançam valores elevados, mas não exorbitantes quanto o sangue. É o que sempre os ouvi dizerem.

A Relíquia é a parte de um Santo. Propriamente dita ou algo que esteve em contato com o Santo.

Pode ser a diferença entre a plenitude e a miséria, para essas pessoas, pelo que entendo.

Segundo o livro que custou um olho ao pobre Minos, oficialmente o culto às relíquias começou em 156 d.C., quando discípulos de São Policarpo, que fora queimado na fogueira, recolheram seus ossos calcinados e instituíram-nos sagrados. (4)

O Cerimonial segue pela ordem das Classificações, que são três.

Com uma pequena incisão em meu antebraço, feita pelo punhal trazido dentro de uma das caixas, meu pai terreno colhe meu sangue, que verte livremente sem que eu demonstre excessiva dor; apara-o em alguns dos frasquinhos. Não me interesso em contá-los. Entrega-os, lacrados, aos felizes compradores, impondo as mãos sobre cada um dos fiéis requerentes. Depois é a vez de me cortarem as unhas. Nem mesmo as dos pés são desperdiçadas. Recolhe-as e guarda em outros frasquinhos. Minos e Aiacos ajudam-no a distribuir, agora. Depois, os cabelos. É por ISSO que são tão compridos. Trata-se da relíquia mais comprada, dentre os que podem pagar por uma de Primeira Linha. Algumas partes do comprimento são cortadas e guardadas em caixinhas. São entregues aos chorosos compradores.

Agora, a parte mais fácil. A cessão de Relíquias de Segunda e de Terceira Classe.

Estas dizem mais respeito a algo que esteve em contato com o Santo do que algo que foi ou é parte desse Santo.

Podem tirar de mim um pedaço de minha túnica, uma sandália, algum adorno que eu esteja usando. Meu pai eterno me faz usar pulseiras e alguns colares nesta ocasião, especificamente para isso. Por valores utilíssimos à Obra, tudo me é arrebatado, a ponto de eu ficar descalço e com a túnica quase na altura das coxas, e as mangas no cotovelo. O que é meio incômodo por causa do frio. Mas... eu não lamento.

No final, alguns dos fiéis vêm me tocar.

Uns beijam-me as mãos, outros, passam seus dedos trêmulos em meu rosto, outros apenas encostam suas mãos, temerosos, em meus ombros, costas, cabelos.

Uma mulher toca meu rosto com as mãos trêmulas. Meus olhos mergulham em seus olhos vidrados, úmidos. Ela solta um som que se assemelha a um ganido e cai aos meus pés, sob forte emoção. Os auxiliares de Hades fazem menção de intervir, porém ergo a mão em um mudo pedido para que a deixem.

Ela chora convulsivamente, desfeita diante de mim. Permaneço com a mão erguida, mirando-a com misto de piedade e empatia.

Ela beija meus pés, molha-os com suas lágrimas. Em seguida, enxuga-os com os próprios cabelos castanhos e lisos, enquanto emite soluços doridos.

Desnecessário dizer que nada declaro.

*************

31 de março de 2018

Sob o cálido sol daquele início de primavera, Milo jogava vôlei com os rapazes da igreja em um aprazível sítio, nas proximidades de um preservado parque florestal. Realizavam o Retiro Espiritual de Páscoa, intercalando cultos e classes de estudos dirigidos com atividades de lazer e esportes, banhos de piscina, cavalgadas e confraternizações. Era o terceiro e penúltimo dia do acampamento, cujo objetivo residia no reforço da fé através do fortalecimento dos laços entre “irmãos”. O agente sabia ser uma “operação em duas frentes”: a doutrinação contínua – os cultos e estudos ocupavam a maior parte do dia – e a manutenção da dependência emocional dos fiéis; somente entre os seus poderiam se satisfazer e se sentirem socialmente aceitos.

O que não lhe impedia de sentir prazer em alguns momentos. Como naquele exato.

— POOONTO! – Gritou um jogador de seu time, comemorando mais uma cortada certeira do loiro.

— Michael é o maiooor!!!

— Nah, só tenho 1,85m, e o Matthew ali, com dois metros?

O grupo praticamente pulou sobre o policial, abraçando-o, pois que fora responsável por mais uma vitória. Não havia sido diferente no dia anterior. A plateia vibrava, ovacionando o time vencedor. Grande parte puxou o coro “Michael, Michael, Michael!...”, patenteando a admiração geral pelo jovem. Haveria algo em que Michael Segerson não fosse PERFEITO?

Duvidavam muito.

Ele já era uma influência bastante positiva na comunidade: saudável, gentil, cordial, bem humorado, generoso, participativo, devoto... isso sem contar sua aparência. Para que negar? A beleza magnética do rapaz vinha apenas coroar-lhe a perfeição que somente o Todo Poderoso poderia conferir.

— Vivaaa! O Time Betel é o vencedor, novamente!!!

— Viva!!! Vivaaa!!! – Exultavam-se, aos pulos, os companheiros de Milo, que ria abraçado a eles.

— Ei, ei! Amanhã o Michael tem que ser do NOSSO time, hein? Temos que equilibrar nossas forças! Sejam caridosos! – brincou um jogador do time Judeia.

— Nada disso, sabichão! Os nomes foram decididos por sorteio, logo no nosso primeiro dia aqui! – Argumentou um integrante do time de Milo. – Amanhã serão as últimas partidas, sairemos daqui com aquelas medalhas em nossos peitos!

Riam a valer, comemorando com todo o entusiasmo típico da mocidade. Eram religiosos fervorosos, mas jovens, acima de tudo. Milo excedia em idade a maioria deles, porém o vigor de seu corpo compensava com vantagem esse aspecto. Dizia ter 28 anos, embora na realidade já tivesse completado 29, em 8 de novembro de 2017...

— Agora só caindo na piscina pra dar conta do suadouro que deu esse jogo, hã? – Propôs um deles, animado.

— Boa ideia!

— Vamos!!!

— Merecemos! – Concordou “Michael”, lamentando-se secretamente por não poder tomar uma cerveja bem geladinha. Era o que faltava para completar aquele momento que, a bem dizer, não estava nada desagradável. Não mesmo.

Certo, estava ali como um agente infiltrado. Contudo, não tinha um coração de pedra. Era humano, afinal. Acabava se divertindo com os rapazes e até se afeiçoando a alguns deles. Claro, sempre havia os chatos, carolas, certinhos... bem, chatos povoam todo e qualquer lugar, não?

Uma diversão adicional – à qual ele precisava fingir estar alheio – eram os olhares apaixonados das mocinhas, admiradas com o “senhor Segerson”. Precisamente naquele instante, oferecia às jovenzinhas espalhadas pelas arquibancadas um espetáculo: a camiseta branca, quase cavada, colava-se ao peitoral largo, o suor deixando-a quase transparente e ainda mais justa. Revelava músculos bem definidos e mamilos um pouco protuberantes em virtude da umidade da transpiração e à justeza da roupa... a bermuda vermelha revelava não apenas as pernas torneadas e morenas como também um traseiro rijo, redondo e bem chamativo... o “senhor Segerson” era todo uma tentação, cochichavam entre si, excitadas tanto pelo belo espécime quanto pelo ato proibido ao qual se entregavam com paixão, tendo, claro, sempre o cuidado de não se deixarem ser notadas por “delatoras”. Suspiraram ao vê-lo jogar os longos cabelos dourados para trás, projetar o peito para frente enquanto prendia-os, nunca deixando de sorrir lindamente. Quase deram gritinhos quando ele acenou para as arquibancadas. A rigidez sob a qual viviam impediu-as. É certo que lhes permitiam períodos de lazer, no entanto a vigilância se fazia constante...

Milo dirigia-se para fora da quadra com os demais jogadores, quando um dos obreiros da igreja chamou:

— Segerson?

—Oi?

—Poderia ter uma palavrinha com você? – Indagou o homem, usando um imenso chapéu de feltro para se proteger do sol. Esperara pelo jovem bem na saída.

— Hã... claro, senhor Eliah! – Com as mãos na cintura, considerou o mais velho com interesse, e se despediu dos companheiros: – Pessoal, vão na frente, a gente se fala depois.

Eles nem disfarçaram a frustração de se separarem do carismático “Michael”.

— Não vai tomar muito tempo, logo logo ele se junta a vocês. – Assegurou o obreiro, tentando passar simpatia aos rapazes subitamente acabrunhados.

Assentindo, os jovens se despediram daquele que já lhes era quase um líder.

Vendo-se a sós com Milo, Eliah revelou:

— O pastor quer conversar contigo.

— Comigo?

Repentino… e fora de horário. Milo estranhou muito aquilo.

— É coisa rápida, mas importante... ele está no escritório da gerência do parque, na cabana central.

— É aquela perto do estacionamento, né?

— Sim, lá mesmo.

— Obrigado, senhor Eliah, já estou indo.

Separou-se do mensageiro, que o fitara de um jeito indecifrável durante o curto colóquio. Sem identificar a razão, o policial sentiu-se apreensivo. Forçou-se a exibir a tranquilidade habitual. Rumou para o local indicado, ignorando o impulso de correr para lá.

Tinha que ser natural.

Sem afobações.

“Será que o pulha vai pedir mais dinheiro?”

Após ter doado 100 mil reais à época do Natal, houve outras vezes: ajudar os missionários, reformar área de lazer da igreja, reformar galpões na propriedade de Red Meadow, então, pela lógica, não passaria outra coisa por sua cabeça.

O fato é que ele sentia que poderia ser outra coisa.

Intuição policial.

E a dele costumava ser certeira.

Chegou à cabana.

Abriu a porta de madeira, encontrando um ambiente bem diferente das rústicas instalações ocupadas por ele e pelos fiéis. As paredes de lustrosas toras cobria-se de quadros e prateleiras com antiguidades variadas. Havia também troféus e cabeças de animais empalhados, emergindo de estruturas acobreadas e datadas. No chão, grandes peles de urso marrom e preto juntavam-se a tapetes felpudos. Coitado de quem tivesse de limpar aquele lugar, parecia um verdadeiro museu. Não fosse o ar condicionado central, Milo teria certeza de que poderia cozinhar ali. Ah, ele e os “irmãos” também não dispunham desse outro conforto: climatização. Adentrou a habitação, chamando:

— Pastor Ephraim?

— Estou aqui, Michael. Segunda sala, seguindo pelo corredor.

Encontrando-a, viu o reverendo gesticulando um convite:

— Entre, meu filho, sente-se.

Milo tomou assento à mesa ocupada pelo religioso. Era a primeira vez que o via com roupas casuais, e não os antiquados ternos: trajava camiseta pólo verde musgo e calça social marrom. O grande relógio dourado – um Audemars Piguet de ouro, e legítimo – fazia conjunto com vistosos anéis apertados em seus dedos entrelaçados sobre o móvel.

— Antes de mais nada, quero parabenizá-lo pela terceira vitória consecutiva no vôlei.

— Obrigado, o time todo fez um bom trabalho.

— Liderado por você não seria diferente.

— O senhor exagera... – Fez-se de modesto.

— Michael, eu vou direto ao ponto, pois sei que esperam por você. O que é uma constante, aliás. Você é uma presença marcante em nossa congregação, eu já te disse. – Ele aprumou-se na cadeira, sinalizando que iria enunciar algo importantíssimo. – Todos os anos, em abril ou maio, doze dias após a Páscoa, realiza-se uma conferência que reúne as lideranças da Aurora do Novo Porvir e seus membros de maior destaque. É presidida pelo senhor Hades em pessoa.

Milo sentiu a boca secar.

Era como estar sedento e ter diante de si um copo de água fresca e cristalina.

— Esse encontro reúne fiéis de todo país, e, certamente, é o evento mais aguardado do ano. Ocorre em um belo resort no Havaí, tudo custeado pelo próprio Hades.

— Puxa... – Simulou estar impressionado.

— Michael, você foi selecionado para participar dele.

— Eu...?

Aqui a surpresa não foi fingimento. Mal conseguia fechar a boca.

Ephraim sorriu, acrescentando alegremente:

—Isso mesmo, meu filho! De nossa congregação, quatro foram escolhidos para estarem nesse encontro: você, Elizabeth Rollins, Ronald Hall e Juan Gárcez. É um evento muito especial, com debates, capacitação, estudos dirigidos, e seleção de novos ministros para se juntarem ao grande Hades no Vale da Aurora Dourada, onde se encontra o nosso “Redentor”.

— Meu Deus...

— Bem, a conferência exigirá que você se ausente por alguns dias de sua empresa, mas estou certo de que você tem a quem delegar funções.

Piscando incrédulo e ainda boquiaberto – ato meio forçado, meio encenado – o policial balbuciou:

— Nossa. Não sei nem o que dizer.

Abrindo os braços em um cômico gesto de empolgação, o pastor respondeu:

— Eu ficaria muito feliz se dissesse “SIM”.

— Oh... Deus... claro, claro que SIM. É uma honra. Irei com prazer.

— Louvado seja Deus! O Pai Celestial sempre recompensa aqueles que se entregam de corpo e alma a Ele, e eu tenho certeza de que esse será apenas o início de um futuro grandioso pra você, Michael!

Apertou a mão do loiro, efusivamente. Assentindo, este correspondia-lhe à animação.

De forma alguma dissimulada.

Por dois motivos: ficar em um resort no Havaí? Nada mau... sempre vindo. O segundo, e, efetivamente mais relevante: finalmente encontraria cara a cara o líder máximo da seita.

Não lhe escapava a real função da dita “conferência”.

Recrutamento.

Saga e os outros que preparassem as cervejas...

Seria convocado para viver no Vale da Aurora Dourada!

************

Notas finais
(1) Relíquias - Do latim "reliquae" (resto), é um objeto preservado para veneração, uma peça associada a uma história religiosa. Não é exclusividade do cristianismo, mas aqui trataremos apenas das relíquias em um âmbito cristão, pois a Aurora do Novo Porvir é uma seita messiânica de influência notadamente protestante e, em menor grau. Uma destas é o culto à relíquia. Embora na Bíblia haja alusões a propriedades milagrosas de objetos ou partes de personalidades bíblicas - Como a passagem em que relata a ressurreição de um homem, após ter sido enterrado junto ao ossário do profeta Eliseu (II Reis, 13, 21) - oficialmente a adoção da tradição se deu em 156 d.C., após o martírio de São Policarpo de Ermina, cujos restos foram recolhidos por discípulos. Há três classes de relíquias. A primeira trata-se literalmente de partes do Santo - cabelos, unha, cabela, ossos. A segunda é um objeto do santo, ou algo com que ele tenha tido contato (roupas, acessórios, lascas das estacas onde foram martirizados). A terceira é uma peça que tenha tido contato com uma relíquia. O temor de Camus provavelmente se deve a algo que leu sobre a cultura das Relíquias em épocas de guerra e peste na Idade Média, quando houve casos extremos para extração de relíquias, como mutilações e assassinatos de pessoas consideradas santificadas! (2) Camus faz referência à passagem bíblica em que Deus exige uma prova de fé a Abraão: que sacrificasse seu único filho, Isaque. O patriarca vai até um monte com o Isaque e dois servos, onde um holocausto é erigido. Isaque, inocente, indaga ao pai onde está o cordeiro que vão sacrificar no fogo, e Abraão revela que ele será a oferta a Deus. Ao que parece, o jovem não oferece resitência, conformando-se com seu destino. Quando Abraão está prestes a sacrificar o filho, Deus anuncia que tratava-se apenas de um "teste" para "saber se o patriarca realmente O temia". (3) "(...) Pedro que, após ter ouvido palavras maravilhosas de sua boca, lhe faz a pergunta: “Senhor, quantas vezes terei que perdoar a meu irmão, se pecar contra mim? Até sete vezes?”. E Jesus: “Não te digo até sete, mas até setenta vezes sete vezes”. Pedro, provavelmente sob a influência da pregação do Mestre – e bom e generoso como era – queria lançar-se em sua nova vida fazendo algo de excepcional, chegando a perdoar até sete vezes. De fato, no judaísmo admitia-se perdoar duas ou três vezes, quatro no máximo. Mas respondendo: “... até setenta vezes sete” Jesus diz que o perdão deve ser ilimitado." (Fonte - Centro Liara Ubich) (4) Segundo a tradição, São Policarpo (século II d.C.) foi condenado à morte na fogueira, por ter se recusado a prestar culto ao imperador de Roma (qual exatamente não se sabe, uns dizem Marco Aurélio) mas era tão santo que nem o fogo se atrevia a chegar perto dele. As chamas nunca alcançavam-no, de modo que morreu apunhalado por um soldado. Somente depois que Policarpo expirou, o fogo avançou e o consumiu. ************* É AGORA... Milo vai encontrar Hades, "cara a cara"! E, ao que tudo indica, será por ele convidado para integrar a comunidade na qual vive Camus, o "Redentor". Enfim, o agente chegará aonde queria a "Operação Vésper". Que surpresas esperam por ele, e como se dará o contato com o homem que ele julga ser um farsante, mas que na verdade é uma vítima? Respostas nos próximos capítulos de "Redentor"... a hora tão esperada por todos se aproxima. Obrigada por terem prestigiado. Tenham todos uma excelente semana. Forte abraço!