Redentor
1 Messias - Ato I
Notas iniciais
Sonhos.
Eu não os tenho.
Meu sono evoca o túmulo escavado na rocha em que Seu Corpo foi encerrado.
Eu já fui visitado por enviados do Inimigo, enquanto dormia. Por muito tempo, eles fustigaram-me, amedrontaram-me, torturaram-me em meio a seus bestiais risos torvos.
Contudo... eles se foram depois dos remédios.
Acharam que seria melhor assim, os que me amam. E desde então... não sonho mais.
Havia de ter uma razão para que os seres abissais se esgueirassem para os recônditos de meu repouso. Houve uma razão para que Satanás tentasse o meu Antecessor no deserto. Comigo não seria diferente, seria? ( 1 )
Por isso, tiraram de mim os sonhos.
Sonhos... nunca mais.
E assim tem sido por... não sei.
Anos. Dizem.
Eu não conto os dias nesta Terra. Eles não importam.
A vida nesta Terra não importa, a não ser para a Obra Dele, por intermédio de mim.
Estou aqui apenas para um propósito, o Seu Propósito.
E não preciso sonhar.
Não devo sonhar.
Tudo é trevas, frio e estéril.
A paz deveria... mas não... ela NUNCA...
Eu nunca sonho.
Um céu sem lua nem estrelas venda meus olhos.
Uma brisa vem ao meu encontro.
Estranho. Aqui nunca venta.
Só venta LÁ... lá fora.
Lá fora.
Onde a carne pulsa e sofre por eles.
Lá onde eles...
Não. Não é uma brisa. Não é um vento.
É mais suave, sutil. Malgrado seu toque sorrateiro, arrepia meu corpo ferido.
Aqui não sinto dor. Mas SEI que meu corpo está ferido.
Porque SEMPRE está.
Porque é ASSIM que tem que ser.
A brisa... não é brisa.
O vento... não é vendo.
A dor morta está.
Então... por quê...?
Por que eu suspendo minha respiração temendo sufocar-me sob o horror desta paz?
A paz morta está, morta como a dor, morta como...
“Deveis morrer para o mundo”.
Que assim seja.
... morta como...
Um ruflar de asas.
Eu não as vejo. Sei, porém, que SÃO asas.
Sou alçado para as alturas, meus braços tão rispidamente abertos que penso que hão de arrancá-los de mim. É uma força que não devo temer.
Não devo temer.
Quero perguntar a Ele por que, apesar de não dever, apossa-se de mim tão aviltante pavor?
“... por que me desamparastes?” ( 2 )
Não devo temer.
Invade-me as narinas um aroma pútrida. Minha respiração acelera-se, torna-se sonora e angustiosa como as batidas de meu coração em chamas.
É agora?
É chegada a hora, ó Pai?
Minha fronte ressente-se da glória da coroa de espinhos.
Deveria ser doce e magnânimo.
Na verdade... é como ferroadas de abelhas invisíveis.
Não foi ISTO que ele sentiu... foi?
Envergonho-me.
Retraio-me.
Gemo no escuro.
Choro nas trevas.
E eis que emergindo do abismo do qual fui arrebatado surge...
... um anjo.
Eu nunca REALMENTE vi um anjo, apesar de meu pai terreno dizer a todos que VI.
Por isso paira a dúvida.
E a dúvida é um punhado de cinzas aspergido em minha pureza.
Não obstante, algo dentro de mim brada, mais alto que o som de meus ofegos.
A mensagem...
Ele é um anjo. Eu sei.
Ele estende os braços para mim.
Ele não se parece com ninguém que eu tenha visto antes... e na verdade...
Eu SEI que ele é um anjo.
Seus longos cabelos serpenteiam pela obscuridade, flamas douradas purificam a indecência travestida de Santidade.
Seus olhos são duas águas-marinhas, tais quais as que adornam as muralhas celestiais.
Seu rosto é longo, sua tez, tocada pelo Sol, e todo seu semblante parece ter sido esculpido pelo Criador em Pessoa, na Aurora dos Tempos.
Ele vem... ele ascende... ele se aproxima.
Fecho meus olhos, tão lentamente que é como se as eras se movessem neste instante.
Fecho meus olhos...
“Pai... seja cumprida a Vossa Vontade...”, murmuro, em uma entrega final.
Então é ele.
É ele quem virá.
É ele quem irá me...
*************
— Milo? Milo, por Deus, acorda, homem!
A voz zangada de Aiolia soou estridente aos ouvidos de Milo, por onde retumbava um insistente zumbido.
As sacudidas impacientes em seu ombro desencadearam um latejar infernal em sua cabeça. Ele gemeu, choroso, sem com isso conquistar a simpatia do jovem que o despertara. Esparramado no sofá, abriu apenas um dos olhos azuis como águas-marinhas. À volta deles, um cenário caótico denunciava os excessos de uma noite de sexta-feira: garrafas e mais garrafas de bebida, maços de cigarros, alguns vazios, outros amassados e esquecidos, copos virados em cujas bordas distinguiam-se marcas de batom. Pedaços de algum enfeite que que se quebrara, tapetes fora do lugar, caixas de pizza abertas contendo alguns restos mordidos. Almofadas pelo chão, preservativos descartados na cúpula de um abajur sofisticado.
— A-Aiolia... o que... como cê entrou na minha casa... – Sequer tentou se levantar. Sabia que o processo seria dolorido.
— Arrombei a porta. Não é à toa que sou um tira, como você.
— O quê? Não acredito que fez isso! – Arregalou os olhos, prontamente se arrependendo de o fazer.
Com ar de pouco caso, Aiolia cruzou os braços, respondendo:
— Por quê? Acha que não sou capaz? Para um agente especial, arrombar uma porta é como uma puta te dar uma mamada.
— Argh... – Levou a mão à testa, fazendo uma careta. – Não é disso que tô falando, seu bosta. Se tu estragou a minha porta, eu...
Procurou se sentar, a fim de angariar um pouco de respeito do amigo. Com a garganta seca e as narinas úmidas, tartamudeou:
— Por favor, me diz que não fez isso. Foi uma fortuna pra arrumar essa porta depois que... depois que eu...
Suspirando, Aiolia desfez a postura severa e mostrou uma chave ao rapaz desgrenhado:
— Não, seu idiota, eu não fiz isso. Você me deu uma cópia da chave do teu apartamento, lembra? Justamente para situações como a de HOJE. – Olhou ao redor, meneando a cabeça em sinal de reprovação. Voltou a fitar o jovem alquebrado, esclarecendo:
— Milo, eu tô te ligando há umas três horas...
— Hum, deixa eu ver. – Procurou o celular nos bolsos da calça jeans amarfanhada. Encontrou-o no bolso traseiro. – É, tá aqui, 38 ligações não atendidas... caralho, Aiolia, batendo o recorde das mulheres que me perseguem...
— Quando deu 11 horas e tu não deu as caras no cais, resolvi vir até aqui pra ver se tu tava vivo mesmo. Confesso que tô em dúvida...
— No cais? – Milo franziu as sobrancelhas. – Por que é que tu tava me esperando no cais?
Aiolia mirou-o, incrédulo.
— Por que é que eu tava te esperando no cais?!? Porra... Milo... tu esqueceu?
— Espera… que horas são agora?
— Onze e meia.
— Puta que pariu...
— Milo, NÃO ACREDITO que tu esqueceu que...
— Cala a boca – Em um salto, Milo levantou-se do sofá e pôs-se a efetuar uma chamada no celular. Praguejava baixinho enquanto dava voltas pela sala bagunçada, chutando um ou outro objeto caído. – Merda, merda, merda, merda...
Ela deveria estar FURIOSA.
E NÃO sem razão.
Do fundo do coração, esperou que ela NÃO atendesse. No entanto, a vida não lhe facilitaria as coisas naquele dia. Quem era ele para achar que merecia?
—Natassia? – O tom saiu mais servil do que gostaria.
— Eu não acredito que você teve coragem de ligar para o meu celular, Milo. Já disse para só fazer isso em casos de emergência!... – Ela calou-se, irritada.
— Mas esta É uma emergência...
— Não, Milo, NÃO É. Você deixou o seu filho plantado na minha casa, esperando por você, então ele NÃO é prioridade alguma na sua vida.
O jovem massageou a base do nariz com o polegar e o indicador, no afã de dissipar a dor ao menos durante aquele inevitável e merecido embate.
— É claro que Hyoga é prioridade na minha vida, eu...
— Não me faça rir, Milo! Eu disse que ia acordar o meu filho às seis da manhã, mas ele levantou da cama às cinco, tão ansioso que estava para ir a esse passeio de barco com você e seu primo Aiolia! Hyoga não falou de outra coisa ontem o dia inteiro, sabia? – Natassia tomou fôlego. – Você ficou de buscá-lo às sete horas, Milo... sete horas! Quando deu dez e meia, Shura e eu resolvemos sair com ele, para pelo menos salvar PARTE do sábado que VOCÊ arruinou!
Algo subiu pela garganta de Milo, e ele não soube discernir se era vômito ou a mais pura angústia.
Angústia... remorso... culpa...
Seus olhos nublaram-se de lágrimas ao imaginar o filho de oito anos, chapeuzinho pescador na cabeça, mochilinha nas costas, sentadinho no sofá da sala da atual residência da ex-mulher, conferindo a todo instante a hora no relógio com cara de urso polar que lhe dera... aguardando o toque do interfone...
— Natassia – Murmurou, agora sim deliberadamente suplicante. – Olha... eu tive um problema de manhã cedo… eu… passei mal, e...
Ouviu a risada sarcástica do outro lado da linha.
— Disso eu NÃO duvido, Milo. Faço uma ideia de POR QUE você NOVAMENTE não pode honrar um compromisso com o seu filho! Você não deixava de agir assim nem quando éramos casados, quanto mais agora, que está LIVRE para “curtir sua vida”...
A cada acusação, uma punhalada certeira em seu peito.
A consciência do merecimento apenas potencializava a dor daquelas estocadas.
Tentando restaurar a dignidade no tom, ousou perguntar:
— Ele... hã... vocês estão indo para onde?
— Shura está nos levando ao Happy Green Fields Park.
À menção do parque temático de personagens antropomórficos fofinhos, na certa lotado de famílias barulhentas em pleno sábado, o loiro deixou escapar um riso desdenhoso:
— Ao Happy Green Fields? Hah. Shura não é um cara lá muito criativo mesmo...
— Pelo menos, ele não deixará uma criança que foi esquecida pelo pai entediada em casa hoje.
Maldição.
Natassia continuava implacável com as palavras. Não era à toa que se estabelecera de forma bem sucedida na carreira de advogada.
Ele tomou fôlego, sentindo a pressão através de seu olho esquerdo intensificar-se inexoravelmente.
— E... me diz uma coisa... como Hyoga está?
— Quer mesmo saber?
— Se eu não quisesse não estaria perguntando! – rebateu, impaciente de súbito.
Poderia adivinhar-lhe a expressão: pálpebras quase cerradas, os longos cílios loiros trêmulos de cólera contida, um discreto rubor tingindo-lhe o rosto lindíssimo.
— Milo, vou desligar.
— Shura tá te olhando feio, né? Não gosta de te ver tanto tempo ao telefone com o ex-marido...
Desta vez foi ela quem perdeu de vez a paciência, conquanto conservasse a calma polida na voz. Oh, fazia-se ainda mais ferina daquele jeito! Natassia, sempre tão elegante! Jamais, jamais conhecera mulher tão elegante!
— Ao contrário de você, Shura é um homem que respeita minhas vontades e decisões.
Certo, ele pedira por isso. Cerrou os olhos com força, o latejar trazido pela ressaca piorando com aquele doloroso colóquio.
Do outro lado da sala, Aiolia a tudo assistia, meneando a cabeça de um lado a outro como quem assiste pela TV uma luta perdida.
Milo resolveu focar no que realmente importava no momento.
— Natassia. Acredite, eu... eu sinto muito. MUITO MESMO.
Um breve silêncio se instaurou.
— Natassia? – Chamou, receoso de que ela tivesse desligado.
— Eu sei, Milo. O pior é que eu SEI. – Sua voz transformara-se; parecia exausta.
— Escute, eu poderia pegá-lo no sábado que vem para o passeio que teríamos feito hoje... prometo que não coloco uma gota de álcool na boca na véspera!... – Sorriu, empolgado, vislumbrando a oportunidade de se redimir com o filho. — Semana que vem vai estar até melhor para pescar, porque será lua cheia e...
— Não vai dar, Milo; no sábado que vem nem estaremos aqui. Vamos viajar para a Espanha.
— Espanha! – Repetiu, abismado. – Mas por que... ah. Claro. Shura.
— É. Shura. – ela fez questão de frisar o nome do namorado, cujos olhos esverdeados a procuraram. – Ele nos convidou para passar uns dias na casa dos pais, em Barcelona. De lá, iremos a Valência e Maiorca.
— Quantos dias ficarão por lá?
— Três semanas.
— TRÊS SEMANAS? E a escola do Hyoga, como fica?
Cobrindo o rosto com as palmas das mãos, Aiolia exclamou um “Ai...”.
— Inacreditável, Milo. Nem para te lembrar que seu filho está em férias de verão os seus neurônios estragados pelos seus excessos prestam...
— Ah.
— Putamerda, Milo... – murmurou o primo, revirando as órbitas.
— Até a próxima.
— Espera, Natassia... eu... eu posso falar com o Hyoga?
Dentro da Ferrari vermelha que atravessava célere a ponte de River Hill, a bela russa de 28 anos considerou o filho, sentado no banco de trás, entretido em algum jogo eletrônico. O menino, loiro como os pais, mantinha a cabeça sempre baixa, aparentemente alheio à discussão travada pelos genitores. Ela hesitou brevemente e, por fim, perguntou ao filho:
—Hyoga, seu pai quer falar com você... você quer falar com ele, querido?
Os olhos azuis sequer abandonaram a tela brilhante. Pacientemente, Natassia esperou. O garotinho continuou jogando, seu silêncio compondo a mais contundente resposta. Ela deu um suspiro resignado e voltou a falar com o ex-marido:
— Ele não quer falar com você.
— Como não? – Revoltou-se. – Natassia, você não pode impedir...
— Eu não estou impedindo nada! – Interrompeu, aborrecida. – Quer que eu filme a cara de desalento do seu filho e te envie?!?
Não.
Aquilo seria mais do que poderia suportar.
Apenas imaginar já estava sendo doloroso o suficiente.
Deu-se por vencido, finalmente:
— Tudo bem, eu entendo. Me desculpe. Não tive a intenção de te... – Manteve-se firme e sereno, mas a ex-esposa conhecia-o o suficiente para depreender-lhe a tristeza na voz. – Bem, façam um bom passeio. Eu ligo durante a semana para lhes desejar uma boa viagem. Se... se estiverem livres algum dia, podemos sair para almoçar e...
— Milo. Vamos deixar para depois da viagem, OK? Estaremos ocupados com os preparativos. Partiremos na quarta-feira.
A despeito do tom benevolente dela, o jovem ressentiu-se como que estapeado. Ergueu o rosto, em um esforço para impedir o pranto de descer pelas faces marcadas pelas almofadas. Evitou falar, pois sabia que a voz sairia embargada. Sentado na poltrona à frente, Aiolia observava-o, sem evitar a piedade que tão desgraçada figura despertava.
— Sabe, não tenho mais nada a ver com a sua vida, mas pelo seu filho, acho que deveria se cuidar mais. Dar um tempo com a bebida, com essa sua... maneira desregrada de viver. Por causa disso, você deixou Hyoga na mão. DE NOVO.
— Eu sei... – a sobriedade proporcionada pela tristeza.
— Por favor... vê se pensa nisso. Por ele.
Impossível sustentar mais aquela conversa.
— Dê um beijo nele por mim. E mande lembranças ao Shura.
— Pode deixar. Milo... é sério. Cuide-se. PROCURE AJUDA.
— Obrigado, cuide-se também, Natassia.
Desligou. Pôs o aparelho sobre a mesinha de centro, voltando a se sentar no sofá. Esfregou o rosto, resmungando:
—Puta que pariu. Depois desta, fiquei até sóbrio.
— Pelo menos algo de bom. – Tornou o primo, sorrindo, tentando animá-lo. Sabendo como Milo havia de estar se sentindo, buscou desviar-lhe a atenção – Porra, tu tem sorte de que tá na sua folga. Olha esta zona, mano...
— Já esteve em piores condições.
— Você também.
Com um sorriso desanimado, Milo ergueu-se do sofá, ousando se espreguiçar. Um osso estalou em algum lugar. Não adiantou para aliviar a dor que dormir no sofá lhe causara.
— Urgh... parecia tão confortável quando fui comprar. Agora vê... – Rosnou, mal humorado. – É como se eu tivesse dormido em uma caçamba de lixo.
— Boa comparação, porque tu tá mesmo um lixo.
— Obrigado. – Passou a mão pela franja que cobria-lhe os olhos, mais bagunçando os cabelos que ajeitando-os. Aiolia questionou, brincalhão:
— Quando é que tu vai adotar um penteado mais condizente com o de um agente da Polícia Federal, e não com um membro de banda glam metal dos anos 80? Mais dia, menos dia, você tá com o cabelo do vocalista do Twisted Sister.
— Nah, não exagera, não tá tão assim – Defendeu-se, indo até a cozinha, seguido pelo outro. Abriu a geladeira. – E o cabelo do Saga? É até maior do que o meu, e o puto é nosso superior.
— Ele deixa sempre preso no trabalho. – Argumentou Aiolia, aceitando a lata de Coca-Cola oferecida pelo primo. – Você que fica aí pra todo lugar com essa cabeleira de Barbie que caiu na máquina de secar.
Rindo de modo patético, Milo abriu sua lata, torcendo para que o refrigerante espantasse de vez o mal estar. Voltando para a sala, eles contemplaram o cenário devastado. Aiolia não resistiu:
—Parece que a festa foi boa mesmo. Para um ADOLESCENTE. Não para um cara de 28 anos. Que tinha um compromisso na manhã seguinte com o filho... e com o primo também, por que não me incluir? Me fez sair cedo da cama à toa, seu idiota.
Vendo que o outro fora atingido por suas palavras, ele abrandou a voz e falou:
— Milo, olha só... você já perdeu uma mulher maravilhosa, perdeu o convívio com o seu filho. Tá correndo risco de perder ainda mais contato com ele. Tá querendo perder o teu trabalho também? Porque se continuar irresponsável assim...
— Vira essa boca pra lá, Olia. O trabalho é tudo que me restou de verdade nesta vida. – Demandou, igualmente mais calmo.
— É, mas se você continuar assim, amigo, vai ficar difícil...
Ponderando o discurso do primo, o loiro pôs as mãos na cintura e lançou um olhar ao redor do ambiente.
— Bem, vou pedir à faxineira para vir mais cedo esta semana...
— Toma vergonha na cara e arruma esta bagunça, vai chamar alguém de fora pra tirar camisinhas da cúpula do abajur?
— Hum… tem razão. Me dá uma força?
— Fazer o quê… pra que fui vir até aqui?
*************
Horas depois, Milo e Aiolia saíram para almoçar. Escolheram um aprazível bar restaurante num deck de onde podiam contemplar a baía de Red Meadow. Os reflexos dourados na superfície do mar calmo por vezes eram pontilhados por gaivotas que ali mergulhavam, em ágeis investidas em busca de alimento. A despeito do conselho de Aiolia para que não bebesse tão cedo, Milo pediu uma cerveja enquanto esperavam a refeição. Aiolia não viu outra saída senão acompanhá-lo. Bom, o desvairado não era ele, não havia por que se privar... fizera seu papel em aconselhar, o que fora sumamente ignorado.
Após alguns goles na bebida gelada, Aiolia permitiu-se inquirir:
— Por que você não considera a sugestão da Natassia? Eu falo de ajuda profissional.
— Não preciso de ajuda nenhuma, Olia. Sabe do que eu preciso? – Deu uma longa golada. – De que as coisas deem certo para mim.
— Mas se é você mesmo quem fode com as coisas, cara... esse, aliás, é o maior indício de que tu PRECISA de um psicólogo, um terapeuta, sei lá. É evidente que a separação ainda mexe muito contigo.
— Eu só lamento ficar longe do Hyoga. Eu e Natassia já não estávamos bem fazia muito tempo. Quanto a ajuda... esquece; preciso DISTO. – Mostrou a garrafa long neck, gotinhas escorrendo pelo rótulo vermelho. – Pode acreditar.
— É exatamente essa questão. Você não sabe a hora de parar...
— E que tal VOCÊ parar, hum? Vai ficar me dando sermão o dia inteiro? Já era, se foi, fiz a merda, pronto, acabou. Não tem mais volta. Simples assim.
Não era bem verdade que se conformava tão facilmente pelo que ocorrera, mas adiantava ficar remoendo?
Em sua concepção prática, não adiantava. Bom, era no que ele TENTAVA acreditar.
Restava conseguir.
Por uns minutos, permaneceram calados, apenas bebendo. O sol amainara com o avançar da tarde. Ao longe, banhistas riam, brincando na água. Uma moça nos ombros de um rapaz dava gritinhos eufóricos. Na areia, jovens jogavam frescobol, para a alegria de um enorme labrador caramelo, que corria de um lado para o outro, acompanhando a jornada da bola. Uma garçonete trouxe os petiscos, preferidos pelos primos a um almoço propriamente dito, devido ao horário. Eles agradeceram e a simpática moça foi atender outros fregueses. Tencionando espantar o incômodo clima instaurado, Milo puxou assunto, enquanto pegava um camarão empanado e o mergulhava no molho agridoce:
— E aí, me conta... como vai o seu namoro com a japonesinha?
— Vai bem. Ela não é japonesa, é “nissei”. ( 3 )
— Maneira de falar. Gatinha, ela.
— Gente boa também. – Aiolia serviu-se de anéis de lula grelhados. – Eu tô curtindo bastante.
— Eu que sei. Nunca te vi mais de seis meses com alguém. Vai pra um ano de namoro, não?
— É, mês que vem. – E, de um jeito sonhador, confidenciou: — Pra te ser sincero, eu tô amarradão na Marin, sabe. Pensando até em, sei lá... cê sabe...
Arregalando dramaticamente os olhos azuis, o outro gesticulou, rindo, um tanto debochado:
— Se vocês estão felizes, pra que estragar tudo? Faça-me o favor, Olia! Nem parece você!
— Eu amo a Marin, cara, sério.
— Mais uma razão pra não fazer essa merda.
— Que merda?
— CASAR, porra, casar! É nisso que tu tá pensando, não é?
Aiolia deu de ombros, sorrindo timidamente.
— Não seria pra agora, claro. Primeiro a gente iria noivar e...
— Não pode só ser feliz com a garota? Tem que estragar a tua vida e a dela? Amor nenhum sobrevive ao convívio diário, Olia, vai por mim.
Tamanha era a amargura captada naquele discurso que Aiolia preferiu abster-se de contra-argumentar. Passou os dedos pelos cachos de um tom de mel similar aos dos olhos amendoados, que por vezes na luminosidade intensa tornavam-se verdes como azeitonas.
— Não é nada certo, ainda. São só conjecturas. – Tencionou eliminar o tópico. Apontou o prato de ostras com limão. – Quer uma dessas?
— Detesto ostra.
— Dizem que são afrodisíacas.
— Melhor eu nem encostar então. – Brincou Milo, esvaziando a segunda garrafa de cerveja. Sinalizou para a garçonete que lhe trouxesse outra.
Neste momento, uma adolescente de longo vestido amarelo claro aproximou-se da mesa deles. Trazia os cabelos loiros rigidamente presos em duas tranças que passavam da cintura. Retirou da cesta que carregava dois folhetos e entregou-os aos jovens, que os aceitaram maquinalmente. Abriu um largo sorriso, que formou covinhas em seu rosto sardento, e pôs-se a falar:
— Boa tarde, senhores, sou da Igreja Aurora do Novo Porvir. Estou vendendo muffins de chocolate e de baunilha a um dólar cada, toda a renda destinada a ajudar na obra santa realizada pela minha Igreja, que tem resgatado inúmeras vidas, para honra e glória de Nosso Pai Todo Poderoso. Nos folhetos que os senhores receberam há endereços de congregações às quais os senhores podem comparecer para...
— Se eu te der cinco dólares, você cala a boca e vai embora?
— Milo! – Repreendeu Aiolia, chocado com a indelicadeza do primo. Era só uma garota vendendo bolinhos, por Deus!
A menina parou por uns instantes, mirando o rapaz, o estupor visível em seu rosto levemente enrubescido. Algo luziu-lhe nos olhos cinzentos. Ela estendeu-lhe a cesta onde estavam acondicionados os doces. Milo entregou-lhe o dinheiro e fez um sinal para mostrar que não os queria.
— Agora vaza.
— Milo – o primo repetiu, quase constrangido; pegou cinco muffins e sorriu para a jovem, como que para se desculpar pela grosseria do companheiro. – Obrigado, mocinha. Bom trabalho para você.
— Deus te abençoe, moço. Bem se vê que a alma do senhor é pura e boa. Seria um grande irmão em nossa congegação. Conhece nossa Igreja?
— Não, não conheço não.
— O senhor costuma frequentar alguma igreja?
— Hã... bem, eu venho de uma família católica... ortodoxa... eu e ele...
— Então deveriam conhecer a Aurora do Novo Porvir. Lá receberão DIRETAMENTE do Messias as bençãos de Deus, e obterão a libertação, tanto mais o senhor – Virou-se para Milo, adquirindo um ar de superioridade que ferveu o sangue do rapaz – que, pelo que Deus está me revelando, encontra-se nas trevas do pecado e da desesperança.
— Escuta aqui, sua...
— Obrigado, moça, vamos pensar no seu convite, tá? Agora nos deixe, sim? Tchauzinho.
Para Aiolia ela assentiu, concordando. Para Milo dirigiu uma expressão acusatória e declarou, antes de se retirar:
— Que Deus liberte o senhor do Diabo. Está claro que ELE é o senhor de sua vida.
Milo teve ganas de proferir os piores palavrões mas se segurou. Não iria bater boca em público com uma adolescentezinha fanática, ele, um homem com 28 anos na cara! Limitou-se a bufar entre dentes, vendo-a se afastar:
— Putinha abusada...
Abrindo os braços, um indignado Aiolia ralhou:
— Milo, que foi isso? Por um momento, achei que tu fosse sair no braço com a garota!
— Vontade não faltou, viu... ei, moça, mais uma cerveja, por favor. Duas. – Tomou os folhetos e amassou-os, atirando-os para o primo. – Odeio esses fanáticos de bosta.
Rindo de leve, Aiolia desamassou um deles, manuseando-o distraidamente enquanto retorquia:
— Que que cê tem contra os coitados? Só ficam vagando por aí, vendendo seus trocinhos e tentando converter uns desavisados. Não é como se fossem viciados ameaçando a tranquilidade dos outros. São inofensivos.
— Nada que me perturbe pode ser inofensivo.
— É, pelo visto, a ressaca passou mas o mau humor ficou...
Sorrindo de canto, Milo sorveu a bebida recém trazida. Colocando-a sobre a mesa, mudou de assunto:
— Olia, Saga disse que na segunda me comunicaria sobre uma nova investigação. Sabe do que se trata?
— Como poderia? Se ele ainda não contou...
— Sei lá, ele é, tipo, teu “cunhado”... – provocou, malicioso – Vai que tivesse te adiantado algo...
Franzindo o cenho em clara reprovação, Aiolia assegurou:
— Saga mantém a vida profissional bem separada da pessoal, assim como o Olos. Você deveria saber. E parar de fazer graça com o relacionamento dos dois.
— Que que eu posso fazer se É engraçado?
— Não sei qual é a graça.
— Talvez... eles serem homens? E os dois, gregos?
— A colônia grega de Red Meadow é a segunda maior dos Estados Unidos, só perde para a de Nova York...( 4 ) sobre isso não tem nada de absurdo. – Serviu-se de lagosta no molho de manteiga e ervas. – Agora, sobre eles serem HOMENS... eu não imaginava que você fosse preconceituoso em pleno ano de 2017. Tá meio deslocado no tempo, meu caro.
— O que é CORRETO não tem tempo, meu caro. – Enfatizou, imitando-lhe o tom. – Não é questão de preconceito.
— Imagina se fosse.
— Eu que nunca vou me meter nisso, respeito muito o Olos, e não tenho intimidade com Saga para criticá-lo abertamente...
— ... nem poderia, ele é APENAS o teu chefe. – Escarneceu Aiolia, lábios brilhantes pela gordura do petisco.
— Que seja. Enfim, nunca vou criticá-los abertamente, mas não sou obrigado em concordar com o que fazem.
— Até porque não te diz o menor respeito, né?
— Não sei como tu fica em paz sabendo que o próprio irmão faz essas coisas.
Aiolia virou a cerveja, escolhendo não se irritar com o primo.
— Não sei se é uma boa o Saga te colocar em algum caso complicado agora.
— Ora, por quê? – Milo ergueu as sobrancelhas.
— Sei lá, tu não tá num bom período... não vou ficar tocando no assunto, fica frio. Mas... que tu tá desestabilizado, acho que é evidente, não?
Ao invés de se zangar, Milo permaneceu plácido. Quieto. Pensativo. Por fim:
— Tu não deixa de ter lá sua razão, Olia. Só que o trabalho é justamente a ÚNICA coisa que me deixa centrado, sabe? – Confessou, sombrio. – Acho bem o contrário; receber uma missão agora será a melhor coisa que pode me acontecer no momento.
Aiolia sorriu-lhe, cúmplice. Analisando sob aquele prisma... aquilo poderia ser bem verdade.
Em apenas cinco anos na Polícia Federal Americana, Milo destacara-se em todas operações de que participara. Sem dúvidas, um dos melhores agentes especiais do Condado de Red Meadow, no sudeste dos Estados Unidos. O próprio Saga, procurador federal, apontava Milo como um futuro supervisor das forças locais. A despeito da vida desregrada, da qual Milo não abrira mão sequer durante os sete anos de casamento com Natassia, o profissionalismo daquele neto de imigrantes gregos era incontestável.
A bem dizer, Milo nunca escondera que se casara com a russa, à época intercambista no curso de Direito na Universidade de Red Meadow, unicamente porque tivera com ela um filho. A beleza estonteante e a aguçada inteligência da moça, juntamente com o pequenino que viera ao mundo por descuido de ambos, pareciam capazes de suprir a ausência de amor naquele relacionamento.
Ledo engano.
— Espero que ele me mande junto contigo pra tal missão.
— Não preciso de babá, Leãozinho. – Brincou, dando-lhe tapinhas amistosos nos ombros, evocando o apelido dado pela tia ao menininho de revoltos cabelos claros, que assemelhavam-se realmente a uma juba.
— Tu anda tão azedo que vou até dispensar o limão na tequila...
— Opa, já vamos partir pra tequila? Aí vi vantagem.
— Quem tá na chuva é pra se molhar.
— Agora sim tô reconhecendo meu primão.
Eles riram animados, um para o outro, dispostos a espantarem o clima pesado e, enfim, aproveitarem o resto do primeiro dia de folga.
*************
Os fiéis acreditam que eu não cometo pecados.
Não é bem assim.
Meu pai terreno mesmo o diz... eu sou puro. Santo. O Escolhido. O Messias.
O Messias deste tempo.
Mas eu peco.
Estou pecando agora mesmo.
Porque sei que minha dor tem um PROPÓSITO. Ela é NECESSÁRIA. Ela é o bálsamo das ovelhas de meu Antecessor.
Mesmo assim... eu enveredo pelas sendas do Mal quando questiono... quando, no âmago de minha alma, pergunto-me por que o Pai Eterno permitiu que o Antecessor sofresse por HORAS... ao passo que EU... eu... há ANOS... anos...
QUANTOS ANOS?
Perdão!
Perdão!
Eu não deveria!
Sinto minhas faces úmidas... passo meus dedos trêmulos pela pele álgida... miro-os... vejo o sangue... o sangue que escorre de meus olhos quase da mesma cor que este sangue santo.
Puro.
Mas como posso ser puro se questionamentos tão ímpios planam sobre meu coração como moscas sobre um bocado de carne?
Olho para as marcas em meus pulsos.
Nem se importaram em me acorrentar: certamente devem ter achado que depois do suplício de hoje, eu não acordaria até amanhã...
Eu teria preferido assim.
Mas... não deve ser como prefiro. Como quero. E sim como o Pai Celestial quer.
Em meu corpo alvo como a neve, chagas abertas, bocas risonhas a acusarem-me de meus delitos.
Corpo alvo como a neve, putrefato como o lodo. Pois que estes pensamentos envolvem-me na clâmide imunda da Dúvida.
Duvidar é afrontar a Palavra.
Duvidar é escarnecer da Fé.
Duvidar é vacilar perante a Missão.
A minha Missão. O Propósito de Deus... em mim... por mim...
Perdão!
Perdão!
Eu não deveria!
O luar esgueira-se por trás das altas copas... as sombras movem-se pelas paredes deste recinto. Não; não há nenhuma mensagem nelas.
São apenas sombras.
Talvez...
Talvez eu devesse pedir que Argol ou Radamanthys me chicoteassem novamente... desta vez com o açoite de espinhos.
Eu preciso.
A Obra precisa.
Somente a Dor pode me purificar novamente.
Eu ainda sinto dor. Muita.
Mas... a Dúvida está aqui.
E ele vem... vejo-o, sua imagem tremida por sobre as areias escaldantes do deserto.
Ele vem.
Meu Antecessor resistiu.
Então... talvez mais dor se faça necessário.
Meu Antecessor resistiu.
Através da Dor, ele lavou os pecados da Humanidade.
Não devo vacilar.
A Dor há de afastar de mim a nefanda Dúvida que enodoa minha Santidade.
Pois que Ele veio...
... e Ele voltou...
... em mim.
... eu sou o Redentor.
*************
Fale com o autor