Redentor

2 Messias - Ato II : Nada É Por Acaso


Notas iniciais
Boa noite Nesta madrugada de Finados trago o segundo capítulo de "Redentor". ATENÇÃO - ABUSO SEXUAL, DESCRIÇÕES GRÁFICAS DE INCESTO NON CON nas partes da história que estão em itálico e negrito (POV do "Redentor") Detalhes dos termos marcados com números nas notas finais. Enjoy...

Não pude mais dormir. Ainda que eu quisesse, não poderia. E eu o desejava. Envergonho-me em admiti-lo, mas dormir é um bálsamo o qual acabo secretamente por ansiar. Sei que a dor é um dever, contudo... por vezes... fadiga-me.

Alívios são raros.

Reconheço meu erro.

E não devo errar.

Não sou isento de erros, ao contrário do meu Antecessor. Contudo, é necessário evitá-los... um dia não mais errarei.

E nesse dia o Plano se concretizará.

Levarei minha Noiva para as Moradas Celestiais. (1)

Dor é um preço irrisório para tão inaudida Graça.

Ouço os primeiros cantos dos pássaros. Estirado na cama de feno, imagino que estou na relva, abaixo das árvores nas quais eles se reúnem para o louvor matinal. Traz-me uma suave paz a visão das copas verdes e salpicadas de florezinhas, os topos dos imponentes pinheiros, o dorso das montanhas que cercam a nossa santa cidade. Fragmentos da natureza criada pelo Pai Eterno, captados da janela de minha célula no Tabernáculo. Parece que será mais um dia de calor.

Ouço chave girando no trinco.

Ouço o ranger da porta.

Não me incomodo em ver quem adentra o quarto.

Ouço passos.

Então vozes.

Argol e Radamanthys. Meus irmãos terrenos.

“Tobias disse que você queria nos ver. Tão cedo, o que houve?”

Quem me pergunta é Radamanthys, o mais velho. Ouvi dizerem que ele tem 26 anos. É o mais alto de nós, e o único da família que mantém os cabelos curtos; são loiros bem claros, assim como as espessas sobrancelhas que se unem acima dos olhos ambarinos. Parecem até uma só. Ergo-me um pouco e fito seu rosto comprido e alvo ao responder que o fiz por precisar prestar uma penitência. Confesso que me entreguei a pensamentos impuros durante minha forçosa vigília. Atento, ele me ouve. Argol não aparenta a mesma seriedade. Já ouvi falarem que ele é mais novo do que eu, e que tem 22 anos. Embora eu não saiba o que signifiquem 2 ou 20 anos.

“Pensamentos impuros, é? Do tipo de deixar seu corpo quente? De deixar formigando entre as pernas? De se tocar LÁ?”

Calmamente, explico que não foram ESSES tipos de pensamentos impuros. Sei a que Argol se refere, e através do meu corpo consagrado, já tratei pessoas que sofriam do mal por ele mencionado. Inclusive ele mesmo. Radamanthys também. No entanto, não foi nada como Argol imagina. Radamanthys cruza os braços e escuta-me, rigoroso e estoico como meu pai terreno, assentindo de quando em quando. Seu olhar duro analisa-me meticulosamente. Franze o cenho de modo enigmático enquanto me responde: “Camus, entendo suas razões, e creio que Deus se alegra desse seu desprendimento abnegado de se oferecer para uma penitência. Acontece que você passou por um Suplício Cerimonial ontem à noite, veja”, ele aponta para os ferimentos em minhas pernas e braços, para os hematomas escuros em minha barriga e peito. “Assim como o Antecessor, o Messias desta era tem limites corporais. E esta noite você deverá aparecer na Vigília dos Santos. Não pode estar excessivamente alquebrado.” Eu argumento: o Demônio da Dúvida visitou-me. É mister uma purificação. Meu fardo não contempla conjecturas. Estou aqui para, através do sacrifício desta carne, redimir as ovelhas desgarradas do Pastor.

O caminho foi pavimentado pelo Antecessor... o Nazareno!

“Radamanthys, não açoitaram as costas dele”, lembra Argol, animado, “eu posso...”

O mais velho se interpõe entre nós.

“Não açoitaram as costas porque JÁ o fizeram há alguns dias. Olhe!” apenas com um braço ele me puxa da cama, o lençol caindo ao chão. Vira-me bruscamente e levanta-me a túnica clara. Não visto nada por baixo, por isso sinto um súbito frio. “Argol, olhe para isso, as feridas estão quase fechando. Se você o chicotear aqui, vai abri-las novamente. Há um outro Cerimonial marcado para daqui a uns dias. Se você fizer isso, vai arruinar tudo, e deixar nosso pai furioso.”

“Então como podemos dar o que ele quer?”

“O que ele PRECISA.”, Radamanthy frisa o termo, corrigindo nosso irmão com veemência.

“Hum, quem sabe pendurá-lo de cabeça para baixo... marca não vai deixar... afogamento também não.”

“Penso que o quarto branco é suficiente.” (2)

“Heh, você é muito mole, Rada. Deixa comigo. Já pensei em uma coisa.”

“Argol, lembre-se de que ele precisa comparecer à Vigília hoje.”

“Não vou fazer nada que o machuque demais ou que acarrete perda de consciência, fique tranquilo.”

Ele se aproxima de mim; não posso verbalizar o que sinto.

Em verdade, eu não poderia NEM PENSAR.

Pensar é duvidar.

Duvidar é vacilar.

Vacilar é cair.

Mas meus tremores intensificam-se com sua aproximação.

Radamanthy nunca sorri quando me suplicia.

Argol é diferente. Parece mesmo divertir-se com a minha dor. Chega a esfregar as mãos, empolgado.

Ouso pensar que não me agrado disso. E incorro em novo delito.

Tudo tem um propósito.

Não devo me agradar ou me desagradar de nada.

Sou o Veículo da Vontade Santa.

Sou o Cordeiro a ser imolado nesta era.

Devo aceitar tudo.

Argol segura-me pelo queixo; inconscientemente, agarro-me mais a Radamanthys, ainda junto a mim.

“Quer dizer que foi o Demônio da Dúvida que voltou a te visitar. Novamente questionou o seu papel? Achou que o seu fardo poderia estar se tornando pesado demais?”

Constrangido, faço que “sim” com um gesto. Indigno de encarar meu irmão, que zela pela Obra, mantenho meus olhos no chão de madeira.

“Orgulho. Foi o que você sentiu.” Argol acusa-me, sorrindo estranhamente, “orgulho foi o teu pecado.”

Estremeço ante o seu apontamento, embora não o transpareça.

“Então Cristo pôde sofrer e até morrer pela Humanidade, mas você se ressente de seu destino. Camus, isso é grave. É muito grave.”

Quero explicar que ele está errado.

Eu quero continuar a Obra.

Eu me entrego de bom grado.

Eu não contesto o Seu Plano.

Apenas... questionei a duração do meu martírio.

Cristo sofreu por HORAS. Eu sofro HÁ ANOS.

Só queria saber POR QUÊ!

Sei que há uma razão, um motivo, tudo tem um propósito, nada é por acaso, é tudo a vontade de Deus, o preço é irrisório diante da maravilhosa graça que será alcançada... minha Noiva... o Antecessor... mas eis que ele vem, sobre as areias escaldantes do deserto...

Uma breve vertigem é trazida pela enxurrada de pensamentos, desordenados, gritantes.

Eu preciso que a dor os tire daqui...

“Venha comigo.” Ordena Argol, virando-se para sair do quarto; Radamanthys quer saber:

“Que pretende fazer?”

“Nada que vá deixá-lo ferido ou inconsciente, já disse! Só vou dissolver esse orgulho que o macula hoje. Ele deve estar puro para o Culto ao qual comparecerá.”

Eu o sigo, com a mão de Radamanthys em meu ombro. Sinto sua tensão.

Caminhamos pelo corredor fracamente iluminado até chegar a uma escada estilo vitoriano. Subimos por ela, até chegar ao pavimento superior. Ali a iluminação é mais generosa, e pelas paredes há quadros com pinturas belíssimas, retratando passagens na Bíblia. Tapetes vermelhos franjados cobrem o assoalho, minimizando os ruídos à medida que andamos.

Chegamos a um aposento reservado.

Um quarto vasto, que conheço muito bem.

A cama com as correias.

A cadeira de metal.

O armário branco.

A ausência de janelas.

“O que pretende, Argol? Sabe que este lugar não é destinado a meras penitências! O suplício infligido aqui é apenas do tipo ‘cerimonial’!”

Argol revira os olhos azuis escuros e bufa, com impaciência: “Se não quiser ficar, basta sair. Posso cuidar disso. Fui instruído pelo meu pai, como você.”

“Não é o caso de que estamos tratando!”

“Ele confessou que ouviu o diabo da dúvida. Dúvida é orgulho. O orgulho é o pior dos pecados, porque foi de todos a gênese”, rosna Argol, sombrio. “Foi o orgulho que fez Lúcifer ser expulso do Céu. Foi o orgulho que levou Eva a aceitar o Fruto Proibido oferecido pela Serpente.”

A raiva é nítida em seu tom quase sufocado.

Ele não está errado.

Quem errou fui eu.

“Devo quebrar o orgulho que o acometeu”, sentencia, encarando-me com severidade.

“Camus”, Radamanthys me chama com voz baixa, quase paternal, “Foi tão grave assim o seu questionamento?”

Mordendo o lábio inferior, hesito unicamente por receio da dor.

Não cogito mentir.

Eu nunca minto.

Por vezes... oculto.

Sou incapaz de responder.

Radamanthys repete a indagação. Agora não posso me furtar a respondê-lo. Faço um silencioso gesto de afirmação.

Radamanthys suspira, quem sabe, por decepção.

Entretanto, Argol sorri.

“Vamos, Camus. Entre. E tire a sua túnica.”

Radamanthys fica na porta. Não parece disposto a adentrar o recinto. Ouço-o admoestar:

“Lembre-se. Nada de excessos.”

“Não vou punir sua carne; punirei seu espírito.”

Escuto o tilintar das chaves.

“Por que não me obedeceu?”, resmunga Argol. Não é que eu o desobedeceria: por um instante, apenas me evadi. Permaneci imóvel, ainda vestido, como se esperasse... como se esperasse que não...

Não devo vacilar.

Arranco de mim a roupa, deixando-a cair ao chão. Mesmo com seus olhos percorrendo cada ponto do meu corpo, não oculto a minha nudez. Escondo meu temor, optando por enfrentar meu castigo com dignidade.

“Muito bem, Camus. Radamanthys não te perguntou diretamente. Mas EU, investido pela autoridade que me cabe na ausência de nosso pai Hades, vou perguntar: NO QUE, exatamente você pensou? Para você requisitar uma penitência de purificação, não foi coisa sem importância. Qual foi, EXATAMENTE, o questionamento trazido pelo demônio da dúvida?”

Meu coração comprime-se em meu peito gelado.

A mentira não é uma opção.

Sequer é uma realidade.

Eu confesso meus pensamentos a Argol.

O sorriso desaparece pouco a pouco de seu rosto, à medida que revelo... fogo arde em suas íris azuladas, seu rosto contorce-se de uma cólera aterrada. Ele me esbofeteia.

Nitidamente revoltado, agarra-me pelos cabelos com força, repreendendo-me com indignação fervorosa: “Como ousa confrontar o Criador? É assim que Lhe agradece pela suprema Graça que você recebeu?!? A honra de ser Seu escolhido? O Cordeiro desta era? Saiba que o seu Antecessor pranteia nos Céus neste exato momento!!!”

Não me defendo. Não há por que fazê-lo.

Ele não mente.

Não mente.

Ele me solta, com brusquidão. Engulo em seco, respirando mais rapidamente.

“Você O invejou, Camus. Você INVEJOU O CRISTO. O que fez foi inominável. Eu deveria te punir de uma forma muito, MUITO mais severa... mas você não deve perder a consciência, ou ficar ferido em demasia... consideremos a PRIMEIRA parte desta sua penitência.”

Suas palavras causam-me viva impressão. Algo arde em minhas córneas. Estou tremendo.

De dor.

De medo.

De culpa.

Argol vai até o armário branco.

É ali que guardam objetos usados em meus suplícios. Alguns deles. Fico no mesmo lugar, de pé, sem me mover, como se tivesse recebido a mesma punição da esposa de Ló. (3)

Argol traz uma caixa. Segura-a com as duas mãos.

Retira de dentro dela a “pulseira” de couro ligada a um dispositivo. Enquanto ajeita-lhe os fios, enrolados no aparelho, me diz “Sabe, eu deveria possuir você. Mas June está nos ‘dias impuros’ da mulher. E a imundície dela nunca vai embora antes de uma semana. Sabe o que isso quer dizer? Há dias que não me satisfaço de maneira plena. Se eu entrar em você, posso não conseguir me conter e te machucar. E não queremos que você entre no púlpito mancando... prometi ao nosso irmãozinho...”

Desvio o olhar de seu rosto, tão próximo ao meu.

Na verdade, Argol NUNCA consegue se conter.

Radamanthys faz pelo dever. Argol...

Não, ele também faz pelo dever. Ou, se não... faz parte do Plano... a própria traição de Iscariotes fazia parte do Plano!

Meu Antecessor aceitou.

Não me resta ação diferente.

Argol se abaixa e toma meu membro entre as mãos. Passa a língua por ele. Cerro meus punhos, sem querer.

Ele o lambe bastante, causando-me a sensação de um animal frio e viscoso passando em minha pele.

Em seguida, acondiciona-o na correia de couro, seccionada em duas partes, uma abaixo da ponta de minha masculidade e a outra mais próxima das bolas que pendem, agora apertadas pelo anel. Afivela-a, um pouco justo, contudo, não demonstro desconforto. Mais do que a “pulseira”, eu temo o “bastão”. Esse é bastante desagradável. Não que a “pulseira” não seja. Só é menos horrível que aquilo entrando no buraco do meu órgão... aquilo é realmente agoniante.

Certificando-se de que está firmemente colocado, Argol considera o controle na palma esquerda: dele saem os fios que vão até a “pulseira”. Emito um grunhido baixo quando ele aperta um botão. O pulsar mais me assusta do que me causa dor.

“Fique calmo, só estou testando. Essa é a corrente mais baixa. Olhe, há seis níveis de intensidade. Sabe que pelo seu pecado eu deveria só deixar na mais alta...”

Reforço em minha mente que é pela Obra.

“De joelhos!”

Obedeço. Não sei o que fazer com minhas mãos, então eu as coloco para trás. Argol abaixa sua calça branca, libertando sua masculinidade. Ele a estreita entre a palma direita, franzindo os lábios enquanto suspira. Fita-me com perturbadora insistência. Um discreto tremor corre pelos meus músculos.

Ele volta a acionar o seu aparelho, e nova corrente passa pelo meu membro. Trinco os dentes para não gemer: a duração se estende impiedosamente. Acabo deixando escapar um ruído, o que claramente lhe agrada. Argol gosta de me ouvir gemer, chorar, gritar. Certa vez, expeliu sua semente só de me ouvir gritar, enquanto inseria em mim um dos artefatos cerimoniais. Meu pai terreno não apenas o repreendeu como também o estapeou diante dos Obreiros e dos Agraciados.

A corrente é interrompida. Respiro aliviado, embora atordoado. Atrás de minhas costas minhas mãos tremem. A palpitação de meu coração desgovernado ecoa em meus ouvidos.

“Olhe para ele.”, ordena, a voz rouca e abafada como a de um velho doente.

Faço o que ele quer. Fixo o olhar entre suas coxas contraídas pelo esforço que ele faz em manipular, vigorosamente, a si mesmo. Sua masculinidade cresce à medida que os movimentos efetuados por seus dedos ágeis tornam-se mais rápidos.

Argol tem pressa.

Talvez seja bom para mim.

Um novo choque elétrico.

Ele aumentou a carga. Ri de um modo estranho, tão estranho.

Um gemido escapa-me de novo. Dói... dói!

Por que ele não interrompe?

Está demorando!

Incapaz de sustentar meu equilíbrio, apoio as mãos no chão, antes que despenque tal qual um tronco atingido por um raio.

Por quanto tempo mais?

Dói!...

Não consigo mais me conter e grito. Ele para na mesma hora.

“Ei! Não foi tão forte assim, foi? Não grite”, ele acaricia meu rosto com a mão a segurar o controle. Estou ofegante de dor, medo e humilhação. “Camus, por mais que eu aprecie ouvi-lo gritar, hoje não é propício, entende? Senão Rada vai achar que estou judiando muito de você. E NÃO estou, estou?”

Movo a cabeça de um lado a outro, bem devagar.

Não.

Não está.

Convenço-me de que não está.

Tudo tem um propósito.

“Isso nem dói tanto assim, não é? Você apenas se assustou, foi isso”, sua voz agora é macia e ecoa ainda mais dolorosamente em meus ouvidos. Ele se abaixa e beija minha testa.

“Se você proceder corretamente... como DEVE ser... não aperto mais o botão. Certo? Confia em mim?”

Aspiro o ar em um repente sôfrego e faço um gesto afirmativo com a cabeça.

“Abra a boca.”

Obedeço.

“Abra mais”, manda, segurando meu queixo, “como vou entrar assim? Vamos, você sabe como faz. Lembre-se do nosso trato...”

Obedeço.

Ele se levanta. Põe seu órgão vermelho e inchado em minha boca.

Eu sei o que devo fazer.

E por uns minutos, realizo o que ele espera. Sinto-o tremer, arrematando-se ansioso.

“Huuumm... assim, assim mesmo, irmãozinho... aahnn...”

Fecho os olhos, em meio a uma súbita náusea. Meu membro é novamente aviltado pela máquina de Argol. Preciso usar de grande esforço para não gemer de dor, poderia mordê-lo sem querer...

“Abra os olhos enquanto cumpre a sua penitência! Não fuja dela, Camus, não seja blasfemo, não outra vez!”

Obedeço.

“Bom menino. Assim é melhor... olhe pra mim... quero ver esses seus olhos vermelhos bem fixos em meu rosto... encare seu dever, liberte-se do orgulho... o orgulho, Camus, é o pecado primordial...”

Em retribuição por eu manter os olhos bem abertos como ele quer, os choques são interrompidos.

“P-perfeito, Camus... oooh... hmm...”

Para me distrair do que acontece, permito-me observar seus longos cabelos cor de ocre, que descem livres pelo torso desvendado pelos botões abertos da camisa azul clara... as mechas lembram serpentes zombeteiras vindo em minha direção... quase vejo-lhes as presas... ouço o sibilar que precede o ataque...

Sem me dar conta, meu olhar vagueia até a porta. Sei que é um delito... mas penso como seria bom se Radamanthys abrisse a porta e interrompesse...

“Eu mandei OLHAR PARA MIM!”

A intensidade empregada deve ter sido a máxima, pois sem querer meus dentes invadem-lhe a carne úmida.

“AAAH! D-desgraçado! VOCÊ ME MORDEU!”

Furioso, ele se retira de minha boca. Antes que eu possa me justificar, Argol desfere um forte golpe em meu estômago. Caio ao solo; um grito abafado faz nosso irmão mais velho bater à porta.

“Argol! Lembre-se do que combinamos!”

“Eu sei, eu sei!”, rosna, agarrando-me com fúria pelos cabelos. A dor irradia-se pelo meu ventre, sobre o qual espalmo as mãos, tão forte que mal sinto o ríspido puxão no couro cabeludo. Lágrimas quentes por fim escapam de seu remanso. Ele me vira, para que eu fique de barriga para cima. Praticamente senta-se sobre mim.

“Cumpra seu papel, Cordeiro! Humilhe-se, extermine o orgulho que ameaça a Obra!”, vocifera, enfiando seu membro novamente em minha boca, tão abruptamente que quase engasgo.

Agora não há mais qualquer intenção de prolongar a ação. Ele se move freneticamente, chocando-se contra mim, grunhindo, bufando, alucinado.

Temo sufocar, e ao mesmo tempo, quero TANTO sufocar...

Perdão, ó Pai!

Eu não deveria desejar isso...

Se sufocar... não.

Não posso desejar o fim!

Só Vós podeis decidir minha hora! Mas...

Mas...

Oxalá fosse AGORA!

Sinto a boca encher-se com a semente de Argol... ele geme loucamente, tentando não elevar seus uivos em demasia. Suas convulsões comprimem meu peito, vocalizo através de seu gozo, no afã de obter o ar que se esvai de meus pulmões. Um pouco escorre-me pelos lábios doloridos, mas procuro engolir todo o leite que mina de sua masculinidade. Sei que se cuspir, vai me bater.

Eu preferia sim apanhar a engolir esta seiva abjeta, contudo, se ele me ferir com gravidade, Radamanthys há de ralhar com ele. E se brigarem, o pai terreno... Hades...

Ele detesta contendas entre os filhos.

O resultado seria bem pior.

Após ofegar por uns instantes, Argol suspira, o bem estar patente em sua expressão relaxada, no rubor de seu rosto empapado de suor. Ele sai de cima de mim, sem dizer uma palavra. Veste-se, trôpego, respirando com certa sofreguidão.

“Radamanthys, entre. Pode entrar agora.”

A porta de madeira se abre imediatamente. Vejo o semblante preocupado de meu irmão mais velho acima de mim, eu, que continuo no chão como se tivesse sido despojado da vida.

“Argol, você disse que...”

“Ele não está inconsciente, apenas cansado!”, interrompe-o, com pouco caso.

“Você usou o eletroestimulador? Que merda, você MENTIU para mim! Disse que não exageraria e agora... olha para ele!”

“Que linguajar chulo, Rada! Ele não está machucado nem nada, olhe, me diga, tem alguma ferida NOVA nele? Eu nem o POSSUÍ. Vai poder se apresentar como se nada tivesse acontecido.”

Eu os escuto discutindo como se, de uma caverna profunda, os ouvisse através de uma queda d’água.

Tão longe.

Tão longe...

“Camus, consegue se levantar? Espera.” Radamanthys remove os anéis de couro de mim. Repete a pergunta. Minha resposta é o ato de me erguer, apoiado por ele. Radamanthys segura-me pelas faces, como a verificar meu estado. Lança um olhar reprovador a Argol, que limita-se a bocejar e, em um volteio displicente, retira-se antes de nós.

Radamanthys estala a língua. Abaixa-se, pega a minha túnica e a estende para mim. Eu me visto e sou conduzido por ele de volta ao meu quarto, no andar de baixo, aos fundos da extensa propriedade conhecida como O Tabernáculo.

“Precisa de ajuda para se limpar?”

Com um gesto breve, nego.

“Ótimo. Vou mandar trazerem sua refeição. E hoje tem que comer TUDO, ouviu bem? As ovelhas têm de ver o seu Pastor em boas condições.”

Assinto, serenamente. Afagando-me os cabelos, Radamanthys comenta, em meio a um sorriso triste: “Vejo que, ao menos, a Dúvida foi removida de sua alma.”

Não consigo corresponder-lhe o sorriso.

Em um gesto automático, faço que “sim”, o que parece satisfazê-lo.

Radamanthys se vai, após trancar a porta. Dirijo-me ao banheiro. Toco a superfície da água que enche a grande tina de madeira.

Fria.

Tão fria.

Não importa.

Ela há de me limpar.

Pelo menos a Dúvida se foi. O Orgulho foi despedaçado pelas garras e presas da Dor.

“Em tudo dai graças”, está escrito.

Livro-me das vestes.

Entro na banheira.

Anseio pelo abrigo das águas.

Revejo o Antecessor entrar no Jordão. (4)

Sê meu Jordão.

Purifica-me.

Suspiro, aliviado.

O preço é alto.

Contudo, pela Salvação de todo um mundo... para livrar as almas do horror de uma eternidade nas regiões abissais... o preço não é TÃO alto.

*************

Malgrado a noite tivesse aportado, o salão iluminado parecia abrigar o sol. E genuíno júbilo transparecia naqueles rostos extáticos, naquele gingado exaltado ao ritmo de guitarra, baixo, bateria, pandeiro e triângulos. O público, de longe, assemelhava-se a um jardim em dia de temporal, braços erguidos como flores que balançam à mercê de um vento implacável. O cântico entoado por centenas de bocas sorridentes alcançavam as alturas, a exultação transbordava no lugar, tido como consagrado.

À frente do mar de fiéis enlevados o púlpito, do qual o pastor Ephraim a tudo rege, brandindo a mão direita em todas direções, enquanto na esquerda segura a Bíblia. O homem bate freneticamente seus pés, cerra os olhos, contrito, e ergue seu rosto para o alto, todo ele efígie da suprema adoração. Suas faces vermelhas brilham devido ao suor oriundo daquela empolgação, ou, quem sabe, de sua escolha em trajar um antiquado terno marrom, a despeito de estarem no auge do verão. O ar condicionado não dá conta de tantas pessoas reunidas, cuja movimentação frenética contribui para o calor. E voltando à referida “escolha em trajar um terno”, bastaria um olhar ao redor para perceber que não deveria exatamente existir alguma escolha nas vestes dos que atendiam ao culto: a esmagadora maioria dos homens usam terno. Assim como quase todas as mulheres parecem ter feito a mesma opção naquele primeiro domingo de agosto: saia comprida e blusa bem fechada ou vestido bem longo, cores lisas e sóbrias. Nas roupas das mais jovens distingue-se um amarelo aqui, um salmão ali, um verde claro acolá.

Não deve ser opção. Não mesmo.

Mas muito provavelmente, todos acreditam que seja.

Seus olhos azuis turquesa passeiam discretamente pelo local, evitando uma parada mais demorada em um único ponto. Permitem-se retornar ao reverendo, homem de meia idade, compleição robusta, tão rubro que faz imaginar uma grande salsicha prestes a rebentar-se de euforia mística. Ouve-se seus balbucios em língua desconhecida, e de quando em quando os brados de “Aleluia!”, “Deus seja Louvado!”, “Viva o Messias, que vive entre nós!”, até que ele volta a entoar o misterioso canto, baixo e trêmulo, audível graças ao microfone que usa na lapela. Atrás do religioso. Um coral de homens e mulheres metidos em longas batas brancas com detalhes dourados cantam e batem palmas ritmadas, acompanhando a melodia em um crescente hipnótico.

Nada é por acaso.

Ele sabe. Ensinaram-lhe isso, antes de estar ali.

Tanto que seu coração REALMENTE acelera.

Algo aquece-lhe no peito, e a cada inflexão inflamada do pastor um fio de tensão é tangido em seu interior.

O telão.

Ele olha para o telão detrás do coral: imagens sequenciadas e entrecortadas por flashes de vista aérea do oceano, de um sol vermelho despontando por entre nuvens escuras, de montanhas verdejantes, de desertos em cujas areias desponta a sarça ardente... (5)

Uma cena é congelada.

A sarça ardente no deserto.

Nada é por acaso.

Ele percebe que há pessoas em pranto. Faz o possível para chorar também. Mas suas habilidades cênicas não chegam a esse nível.

Bem, seria querer demais!

Resta-lhe sorrir, apertar as mãos sobre o peito largo, como quem se maravilha mediante o que vê, ouve e sente.

Isso há de ser o suficiente.

— Irmãos e irmãs, deem as mãos agora! Façamos uma corrente de amor, uma corrente de fé, uma corrente de comunhão santa! – O reverendo conclama, aos berros, gesticulando.

Contrariado por dentro, o visitante faz o que todos os demais fazem.

Obedecem.

Os presentes unem suas palmas às daqueles que estão ao seu lado direito e ao seu lado esquerdo. Sorriem, cantam, choram, riem, gritam. Uma cacofonia indubitavelmente atordoante.

Nada é por acaso.

Incríveis quarenta minutos se passam assim.

Ao cabo desse período, a música abaixa de volume, desembocando em um lento sussurro dos instrumentos, sempre acompanhados do contínuo do órgão. O homem no púlpito dirige à plateia o olhar febril de quem recebe revelações:

— Temos visitantes esta noite conosco, o Anjo do Senhor me diz... pessoas que estão cansadas, feridas, sozinhas, famintas da Verdade, sedentos de Paz, carentes de Justiça...

Ele precisa prender o sorriso. O “sábio” apenas descreveu a Humanidade, pensa.

— ... você que hoje nos visita, venha até aqui na frente, para receber a benção nesta noite. Disse Jesus: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei...

Alguns poucos saem de seus lugares para atender ao chamado do pastor, que prossegue:

— ... tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração...

Mais duas pessoas vão até o púlpito. A voz, chorosa, tremida, insiste:

— ...e encontrareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.” (6)

Algumas tímidas, outras resolutas, seguem até a frente, onde duas fileiras de diáconos formam uma espécie de corredor humano. (7)

Ninguém poderia escapar sem causar um pequeno escândalo: pela frente, daria com o reverendo e seus auxiliares; pelos lados, os diáconos cerceavam a passagem, por trás, outros visitantes em busca da “benção”.

— Venham, apresentem-se à nossa igreja! Recebam o nosso carinho, o nosso abraço, vocês não estão sós! Você, irmão amado, você, irmã amada, não estará só se estiver na nossa Casa!

Vendo que mais ninguém o atende – havia de ser aquela toda “a pescaria da noite”, sete vidas — e que o pastor está por dar continuidade à dinâmica, o jovem se levanta do banco e vai se juntar àqueles que, como ele, são visitantes na acolhedora Igreja Aurora do Novo Porvir.

Como são encorajadores os semblantes dos homens que recepcionam os recém chegados! Como são doces os olhares com que os perscrutam! Como são álacres os sorrisos com que os saúdam!

Ele recebe tapinhas nas costas, apertos de mão e até abraços.

É o máximo de contato corporal que teve em muito tempo, afora as mulheres que tão facilmente conquista e descarta.

É notável o efeito do tal contato nos visitantes. Ele imita-lhes a expressão grata, feliz. A disposição. Evoca a sensação de correr uma hora pela manhã no parque perto de casa.

Sim, bela estratégia.

Até ofega um pouco.

Boas vindas não param de ser professadas. Neste ínterim, os ministros perguntam os nomes dos visitantes. O pastor pede que eles se apresentem para a igreja. Direciona-lhes, um por um, um outro microfone:

—Meu nome é Carl Lyon. – Diz um senhor de seus 50 anos, vestindo camisa floral e calças ridiculamente apertadas.

— Helen Stevenson, muito prazer. – Cicia uma jovem mulher de cabelos médios escuros, franzina, olhos orientais por trás das grossas lentes do óculos de armação preta.

— Kevin Carter, prazer em conhecê-los. – Apresenta-se um homem negro, alto e forte, de olhar tímido.

— Emanuel Walken. Boa noite. – Diz um rapazote ruivo de cabelos curtos ruivos e arrepiados, voz aguda e mãos ossudas.

— Sou Ursula Morgan, é um prazer. – Enuncia uma senhora de cabelos grisalhos presos e face lisa. Ela torce as mãos de visível emoção.

— Eu sou Bryan Martinez... – Apresenta-se um homem latino, em seus 30 anos, exibindo um sorriso tão branco que reflete as luzes.

— Prazer, Richard Mitchell. – É a vez do último antes DELE; este último, talvez em seus 25 ou 30 anos, ostenta uma enorme barba castanha, mal se vê a boca. Veste-se como um “grunge” de Seattle, saído dos anos 90.

E chega a vez do último.

Ele arma-se com seu mais reluzente sorriso. Sabe que seus esfuziantes olhos azuis turquesa são um trunfo excedente de seu notório charme, por isso eleva um pouco as sobrancelhas loiras, tornando-se exuberantemente expressivo ao cumprimentar:

— Muito prazer, sou Michael Segerson. – Seus longos cabelos dourados descem em ondas rutilantes até a cintura esbelta, facilmente identificável no jeans quase justo de lavagem clara. Ele percebe sobre si os olhos cinzentos de uma adolescente de compridas tranças loiras, sentada na segunda fileira do público.

Como no dia em que a viu pela primeira vez.

Conquanto não detivesse a fé daqueles imbecis... rogou a Deus que ela também se lembrasse dele.

Seria bem conveniente.

Tão acolhedor é o sorriso do reverendo Ephraim que torna-se irresistível aos que se apresentaram alargarem ainda mais os sorrisos. O líder volta-se para a audiência e inicia uma oração emocionada. O culto vai se findar. Sua voz abarca entonações cadenciadas, causando arrepios nos presentes. Ao final, uma salva de palmas eclode no templo. Deixando o coral, uma mulher vai até o microfone fixo no púlpito; as palmas escasseiam-se, gradualmente, até cessarem de vez. Unindo as mãos, ela anuncia, animadamente:

—Meus queridos irmãos, será servido um lanche no Salão de Festas de nossa congregação. Amados visitantes, vocês são nossos convidados. Por favor, juntem-se a nós, adoraríamos conhecê-los melhor!

*************

Eu estava lendo a Palavra quando ouvi as batidas à porta.

São apenas para que eu saiba que chegaram. Não sou eu quem abre a porta.

Nunca.

Fecho o Livro Sagrado, tendo o cuidado de deixar a página marcada com a fita vermelha fixa na encadernação. Levanto-me de minha escrivaninha de carvalho e aguardo que venham até onde estou, no recinto anexo ao meu dormitório.

São três irmãs, que se curvam com reverência ao me ver. Permaneço parado, aguardando. A do meio, segurando uma vestimenta branca, adianta-se e diz, respeitosamente:

— Perdoe-nos por interromper seus estudos, Escolhido. O senhor Hades mandou que viéssemos vesti-lo para a Vigília dos Santos.

Assentindo de forma breve, passo por elas, dirigindo-me para o aposento contíguo. Elas seguem-me, em silêncio. Começo a me despir, mantendo a mente nos trechos com que alimentava meu espírito.

“Quando atravessares as águas, Eu estarei contigo; e quando tu atravessares os rios, eles não hão de encobrir-te. Quando caminhares através do fogo, não te queimarás; as chamas não te deixarão em brasas. Pois Eu sou o Senhor, o teu Deus, o Santo de Israel, o teu Salvador; darei o Egito como resgate por ti, a Etiópia e Sebá em troca de ti.” (8)

Não percebo se elas me observam, isso é irrelevante.

Não sou um homem. Não no sentido comum da palavra.

Nada tenho do que me envergonhar.

Apenas após o Pecado Original os Pais da Humanidade se envergonharam por descobrirem-se nus. (9)

Onde há pecado não há vergonha.

É um momento santificado, de preparação para a comunhão com as “ovelhas” Dele.

Entrego minha bata cinza clara para uma das fiéis. Quando vou pegar a túnica branca que me trouxeram, Argol irrompe no quarto, irritado.

“Um momento! Afastem-se dele!”, ordena, empurrando as servas de Deus, que exclamam, assustadas. Toma de minhas mãos a túnica.

Minha respiração acelera um pouco quando ele as expulsa do quarto. E desgoverna-se de vez quando ele avança para mim, estendendo a mão para...

“ARGOL!”, a voz imperiosa de Radamanthys se faz presente. “Que PENSA que está fazendo? Deixe-o se vestir!”

“Radamanthys, você me SEGUIU? Eu não acredito.”

“Por que deixou seu lugar no Altar? Que pretende AQUI? AGORA? Estão todos reunidos.”

“Eu... eu só... só pensei em vir verificar se ele PECOU... você sabe... a Vigília dos Santos é um momento consagrado e...”

“Não precisa TOCAR nele para saber se ele pecou!”

“Ora, e como vou saber se ele não expeliu a semente em vão?”

“Basta perguntar”, e meu irmão mais velho posiciona-se diante de mim. Indaga se eu cedi ao Demônio da Luxúria. Sem abrir a boca, sinalizo que não.

“Viu? Camus NÃO mente. Se ele diz que não desperdiçou sua semente, ele não o fez.”

“Você é crédulo demais, Radamanthys”, retruca Argol, cheio de desprezo.

“Crédulo?”, Radamanthys se enfurece. “Ele não é o Messias? Você DUVIDA dele, Argol? Acho que devo contar isso a Hades, não acha? Se você duvida do Redentor, você duvida de TUDO que estamos fazendo aqui.”

As cores abandonam o rosto de Argol. Empalidecido de medo, ele balbucia:

“N-não foi minha intenção duvidar dele!”

“Não. Sua intenção foi TOCAR nele”, agora é Radamanthys que ostenta desprezo. “Entenda de uma vez: somente tem permissão para tal em caso de penitência, castigo ou de um suplício cerimonial. Se voltar a insistir nessa atitude, terei a certeza de que quem está pecando É VOCÊ.”

Argol fica boquiaberto, estarrecido como um inocente que escuta contra si uma acusação venal. Ele encara nosso irmão mais velho com indignação no olhar revolto. Chega tão perto de Radamanthys a ponto de quase colar seu rosto no dele. Conseguiria, não fosse Radamanthys tão mais alto. É o mais alto de nós três.

“Por acaso está me acusando de alguma coisa, Radamanthys? Eu sugiro que seja mais claro.”

Meu irmão mais velho mantém-se inabalável, seu silêncio sentenciando algo que aterroriza Argol. Sei que é isso, pois este torna-se rubro, quase roxo. Vocifera, descontrolado, ao que Radamanthys sequer pisca:

“Não aja como se você NUNCA fizesse o mesmo com ele! Você já fez com ele TUDO que eu já fiz! Talvez ATÉ MAIS!”

Limito-me a aguardar que me digam o que fazer, o que talvez venha a ocorrer após a inesperada discórdia, cujo motivo não compreendo muito bem. Nada sai de meus lábios selados, a angústia que freme em meu peito contribuindo para tal.

Radamanthys tira a túnica das mãos de Argol e me entrega. Pego a roupa, fitando-o brevemente. Ele mira fundo meus olhos, suspira enfastiado, e volta-se para Argol. Enquanto me visto, ouço-o dizer ao mais novo:

“Tudo que fiz foi pela Obra, e para a Obra. Camus tem uma Missão e nós devemos ser o seu suporte e seu veículo de expiação pelos Pecados dos filhos de Deus. Devemos cuidar para que ele cumpra seu papel. Nunca o toquei sem que me fosse ordenado. Você PODE dizer o mesmo, Argol?”

Argol tremia dos pés à cabeça.

“Você...”

“O que está acontecendo aqui?”

Nossos olhos se convergem, abertos a ponto de quase saltarem, para a porta do quarto.

Nosso pai terreno.

Hades.

Sem perceber, uma puxada de ar mais profunda escapa de minhas narinas.

Mas não sou só eu a ser coberto pelo manto gélido do temor.

Posso sentir a tensão que emana de meus irmãos, como o cheiro metálico que impregna o ar antes da chuva.

Seus olhos, negros como os cabelos muito longos, sondam a nós três.

“Primeiro Argol deixa seu lugar no Altar. Depois é Radamanthys. Em seguida, surgem no Templo as três irmãs que foram incumbidas de trazer as vestes de Camus e de levá-lo para o Culto. Bem... quando as vi de volta ao Salão sem a túnica dele... e SEM ELE... e vocês dois não voltavam... resolvi vir pessoalmente ver o que se passava.” Elucidou, cruzando os braços, repletos de braceletes dourados por sobre as longas mangas de sua batina negra.

Mesmo seu tom baixo, calmo e paternal não dissipa a apreensão que suspende nossas respirações. Eu penso que não transpareço, mas não estou tão certo. Radamanthys é pura máscara de estoicismo. Já Argol arqueja, nervosamente. Aponta para mim e para meu irmão mais velho.

“Radamanthys não quer me deixar verificar se Camus não sucumbiu ao Demônio da Luxúria!”

“Eu não vi por que seria necessário verificar isso justo agora, meu pai.”, Radamanthys nem se deu ao trabalho de se dirigir a Argol.

“É uma pergunta cuja resposta desejo ouvir.”, diz o pai terreno, inexpressivo.

“Camus ficou aqui trancado por três dias inteiros! Ele é jovem, e sabemos que jovens tem seus ardores... eu só queria constatar indícios do pecado, o qual o desqualificaria para comparecer à Vigília dos Santos!”

Radamanthys vira-se para ele, impaciente: “É totalmente fora de propósito que você queira averiguar NESTE MOMENTO se ele fez ou não isso...”

“Fora de propósito?”, nosso pai o corta, estreitando os olhos escuros, inquisitivo. “Radamanthys, está dizendo que manter-se VIGILANTE é estar ‘fora de propósito’?”

“Não, senhor pai.”, nega, firme. “Não foi isso que eu quis dizer.”

“Foi o que disse.” O pai terreno caminha até mim. Seu rosto, cuja palidez é evidenciada pelo negror das mechas que ladeiam suas faces, segue serena. “Vou discipliná-lo depois, Radamanthys. Não temos tempo para castigos agora. Camus. Levante a túnica.”

Eu obedeço.

Não temo seu julgamento. Não fiz o que querem averiguar. Então, nada tenho a temer.

Meu pai abaixa-se e examina por entre minhas pernas. É tudo rápido, não é como quando Argol mexe... lá.

Ele se põe de pé, aparentemente satisfeito.

“Cristo foi o primeiro Messias. Ele preparou o caminho para aquele que voltaria para buscar sua Noiva, a sua amada Igreja... Nestes tempos atribulados, é VOCÊ o Messias, Camus. Mas ao contrário de seu Antecessor, que era o filho direto de Deus, nascido de um ventre imaculado, você é falho. Você nasceu do pecado. É a reencarnação do Primeiro, e a reencarnação do Primeiro NÃO é o primeiro. Cristo era o Cordeiro Imaculado. Você é o Cordeiro desta época, a ser imolado como Aquele foi. Esta era é tão dominada por Satã que não foi possível que viesse totalmente puro. Você é puro por sua essência divina. Porém, precisa de assessoria para manter a pureza. Por isso repetimos em você os tormentos vividos pelo Filho de Deus. Até mais... porque você precisa ser moldado à Imagem da Santidade.”

Faço que concordo, em meio ao meu irredutível mutismo.

“E o que Argol quis fazer foi apenas isso. Zelar por sua Santidade. Você compreende, não é, meu filho?”

Faço que sim com a cabeça.

Nem me passa por ela a possibilidade de contestar.

Eu não contesto nada.

Nunca.

“E quanto a você, Radamanthys? Compreende, meu primogênito precioso?”

Ele também assente silenciosamente.

Argol sorri, vitorioso.

“De mais a mais, Argol prestou-me um serviço, pois que antecipamos esta revista. Amanhã haverá um Cerimonial da Santa Semente. Camus em hipótese alguma deveria desperdiçá-la. Durante o cerimonial, ela deve fluir, abundante e beatificada.

“Amanhã?”

“Sim, Radamanthys, amanhã. Algum problema com isso?”

“Senhor meu pai, achei que o próximo Cerimonial da Santa Semente só seria realizado daqui a um mês. O último não faz nem uma semana, e... ele... Camus ficou bem machucado. Não seria o caso de esperar mais um pouco, apenas para preservá-lo...”

“Radamanthys, eu disse que não queria castigá-lo agora, contudo você parece disposto a me fazer mudar de ideia.” Nosso pai assume uma severidade ameaçadora.

“Não tenho a intenção de afrontá-lo, meu pai. É que se ele ficar tomando tanto as... os remédios... bem, a frequência pode fazer mal a ele e...”

“Mal?” Nosso pai ri. “Ele é o Redentor. O Messias! Seu corpo possui a proteção divina! Aumentar a dosagem, caso isso seja necessário, não é nenhuma ameaça a um corpo que abriga a essência do Cristo!”

“Ao corpo talvez não, mas à mente...”

Desta vez o que calou Radamanthys não foi uma nova interrupção de nosso pai, e sim um violento tapa em sua face branca. Frio e tenaz, o pai terreno ordena “Vá para a Câmara de Gomorra. Cuidarei de você pessoalmente, tão logo eu descanse da Vigília.”

Minha garganta se constringe dolorosamente ao ver Radamanthys se retirando do aposento. A ideia de que ele vai sofrer por ter se preocupado comigo me dói mais que o chicote. Minha língua, dormente, pesada, põe-se a se mover. Apenas digo “Meu pai, poupe meu...” e ele me dá um tapa no rosto, menos pesado do que o que recebeu o primogênito. Mal me restabeleço do susto, ele me acaricia a face atingida. Em um tom amoroso, diz “Não ouça o demônio que ordena que você desobedeça seu próprio pai, Camus. Radamanthys acabou de ser usado por ele.”

“Sim”, sussurro. Quase um gemido, acho.

Detrás de meu pai, Argol passa a língua pelos lábios, fitando-me como faria uma serpente trocista.

“Agora venham, meus filhos. As ovelhas, nossos irmãos, todos os Santos nos esperam. Passam das dez da noite.”

*************

Nos fundos do templo da Igreja Aurora do Novo Porvir localizada no centro de Red Meadow ficava a escada de concreto pintada de amarelo que conduzia ao Salão de Festas. Ao contrário do que o nome sugere, nada há de festivo no clima da reunião que sucede ao culto presidido pelo Reverendo Ephraim. Amistoso, talvez. Solene, quase.

Para o visitante dos compridos e anelados cabelos loiros... SONOLENTO.

Mesmo as crianças são espantosamente comportadas, o que destoa do que ele sabe sobre crianças. Sorri, pensando em Hyoga. O menino difere bastante daquelas ali presentes, sentadas nas cadeiras, juntas de outras e de algumas mães, satisfeitas em mastigar seus bolos e sanduíches. Oh, não. Hyoga estaria jogando, se remexendo no assento a cada jogada mal sucedida, ou então explorando o local e voltando com algum bicho nas mãozinhas. Vivo ainda: Hyoga não matava animais. Adorava-os, sem exceção, até os mais repulsivos na concepção de Natassia, como besouros, sapos, caracóis. Quase riu ao se lembrar do escarcéu que a ex-esposa fez quando o loirinho foi mostrar a ela, feliz da vida, a “mais linda barata silvestre” que já havia visto!

— O senhor aceita uma torta de maçã? – Ofereceu uma amável senhora.

— Minha preferida!

— Eu que fiz. – Revela, orgulhosa, entregando ao jovem um pratinho de papel contendo o doce.

— Muito obrigado. Parece ótima! Aliás, como tudo está maravilhoso aqui. Nem vou precisar dirigir para voltar, depois deste lanche, sairei rolando pela estrada até em casa.

Ela e outras “irmãs” por perto riem do simpático visitante. Uma delas aponta uma pilha de sanduíches de rosbife.

— Eu fiz estes, tem tomates do meu próprio quintal, precisa prová-los, senhor Segerson. Não há iguais em Red Meadow.

— Certamente que vou! Há muito espaço no estômago de um homem que vive só!

Elas riram, entre divertidas e encantadas.

— Quer dizer que cada prato é uma irmã da igreja que traz? – ele indagou, achando a torta realmente deliciosa.

— Sim, às quartas e domingos, após o culto da noite, fazemos esta confraternização.

— Planejamos uma escala de quem trará os pratos, o que será trazido.

— Fantástico! Hum – ele depositou o pratinho vazio em uma bandeja sobre a mesa. – Agora, vamos a esse promissor sanduíche de rosbife...

— Reserve lugar para minha quiche de queijo – Brincou uma jovem de longos cabelos castanhos claros, bonita e vivaz. – Receita tradição de família!

Espalhados pelo ambiente, os fiéis conversavam, comiam, bebiam – obviamente nada de bebida alcoólica – riam de modo comedido. A ordem e a austeridade reinavam no lugar bem iluminado, desprovido de mobiliário que não fossem as cadeiras nas quais sentavam-se os convivas e nas mesas sobre as quais dispunham-se as variadas guloseimas, garrafas de água, de suco, e bules de café e chá.

— Com licença...

Ele se voltou na direção da voz conhecida, agora desprovida do acento arrogante de dias atrás.

— Oh, você! Olá! – Prontamente um lindo sorriso desenhou-se nos lábios carnudos do visitante loiro. Para eles a adolescente olhou, logo disso se envergonhando.

— C-como vai? Então... o senhor veio mesmo. – Começou, ruborizada. Parecia não acreditar. – Eu fico feliz. Vi o senhor lá na frente, quando foi se apresentar junto com os visitantes. Ah, agradeci tanto a Deus que tenha decidido conhecer a nossa igreja!

— É, eu tava bem entediado... – revirou os olhos, dramático — tá, admito, bem pra baixo, sozinho em casa. – Era importante deixar claro o quanto era “um homem só”. – Peguei o folheto que você me deu lá no deck e... aqui estou!

— Deus seja louvado...

— Que coincidência, havia três endereços no panfleto e eu venho parar justamente na igreja que você frequenta! Foi ótimo, porque eu queria mesmo pedir desculpas por aquele dia...

A jovem balançou rapidamente as mãos, em uma negativa constrangida:

— Oh, não, não! O senhor não tem nada que me pedir desculpas. Não mesmo... er... senhor Segerson, não é?

— Sim, Michael Segerson. E você é...

— Rebecca. Rebecca Smith.

— Muito prazer, senhorita Smith. – Ele estendeu a mão para a menina.

Hesitante, ela considerou em torno. Alguns a observavam. Não distinguiu, porém, reprovação. Então correspondeu ao cumprimento, tímida. Um sorriso casto, pueril, residia-lhe no rosto delicado, diferentemente de quando se encontraram no restaurante à beira mar. No fundo, ardia o orgulho religioso de ter, com seu trabalho, conseguido atrair uma alma para a igreja. Quem sabe, uma alma que em breve se converteria e adentrasse os Reinos dos Céus! O melhor galardão para um fiel era conquistar uma vida para Cristo!

— Pode me chamar de Rebecca.

— Rebecca... escolhida por Deus para continuar a descendência de Abraão... mãe de Jacó e Esaú...

— O senhor conhece mesmo a Bíblia.

— Ah, talvez não se lembre, mas, conforme meu primo te disse, eu e ele viemos de famílias católicas ortodoxas. Somos descendentes de gregos.

— Oh, ele é seu primo? É um rapaz muito gentil.

— Ao contrário de mim, não? – Brincou, com ar de auto comiseração.

Ela riu, cobrindo a boca com a mão pequena e rósea.

— Rebecca. Estava te procurando, filha...

“Claro, os papais não deixariam a donzelinha conversando a sós com o visitante bonitão por muito tempo”, pensou, reparando as expressões dos pais da jovem: ostentavam patéticos sorrisos no afã de camuflar a apreensão em ver a filha falando... e RINDO... com um estranho.

Reparou também no receio estampado no semblante da menina.

Sentiu um pouco de pena dela.

— Me desculpe, minha mãe. Eu vim cumprimentar o senhor Segerson porque fui eu quem...

— Podia ter nos chamado para acompanhá-la. Também gostamos de cumprimentar os visitantes. – O teor de repreensão na fala da mãe fazia-se patente, a despeito da modulada suavidade.

Rebecca abaixou a cabeça, consciente de que não deveria argumentar.

— Sim, desculpe.

Ao lado da mulher que ralhava sutilmente com a adolescente, o homem, de vívida e calorosa figura, estendeu a mão ao visitante, apresentando-se:

— Sou Jonathan Smith, ao seu dispor, hã... senhor Segerson, não?

— Sim, Michael Segerson. É um prazer conhecê-lo, senhor Smith.

— Deu-nos a impressão de que conhecia nossa filha. – Observou, curioso e cauteloso.

O pastor se aproximava deles. Acompanhado de dois ministros, ou seja lá o que fossem eles.

Atentos.

Perfeito.

Melhor momento até então.

Tinha que aproveitar.

— Na verdade, senhor Smith, é graças à Rebecca que vim parar aqui, sabe? Eu estava em Red Meadow Beach e... bem, ela me entregou um folheto quando comprei uns muffins dela. Deliciosos, aliás.

— Ora, obrigado, é minha esposa que os prepara.

Claro que a mulher se iluminou em um sorriso prosa.

Juntaram-se ao grupo o reverendo e os dois auxiliares, prestando atenção ao que o vistoso visitante contava:

— Infelizmente, nesse dia, eu fui extremamente grosseiro com a senhorita Smith, e peço desculpas por minha atitude estúpida. Estava muito abalado naquela tarde... acabei descontando na menina.

— Não tem importância, senhor... – a mãe puxou-a para que não se metesse na conversa dos adultos.

— Abalado? O que houve com o senhor? – Quis saber o pastor Ephraim, “oficialmente” tomando parte naquele colóquio.

Ele franziu os lábios antes de responder, com um sorriso triste:

— Eu tinha acabado de perder o meu pai.

— Oh, eu sinto muito... – lamentou-se a mãe de Rebecca.

Assegurando-se de que angariara as atenções do pequeno grupo que cerceava, o visitante continuou:

— Sei que isso não é desculpa para tratar mal os outros, tanto mais uma garota... mas eu estava mal. Há apenas um ano, perdi minha mãe e meu irmão mais novo em um assalto violento. Eu só tinha o meu pai, e ele se foi... ouvir Rebecca falando tão animada de Deus... me revoltou.

— Isso é algo muito comum de acontecer, senhor Segerson, não se lastime tanto. – Disse o Reverendo, colocando a mão em seu ombro. – Quando o homem está distante de Deus, não sabe lidar com a dor. Porque o Único que pode aliviá-la é Nosso senhor.

— É... o que me dói mais nem é a morte dele, propriamente dita, e sim o fato de que eu nem estava lhe dando muita atenção, por causa do meu trabalho. Assumi totalmente a empresa da família, que eu administrava com meu irmão. Mas então ele se foi... e eu fiquei sobrecarregado...

— Entendo que fosse importante para o sustento e manutenção de um status, porém vejo que sente-se culpado por ter negligenciado o que lhe restou de família em prol dos negócios. – Analisava Ephraim, em tom professoral.

— Eu vejo isso agora, pastor. Pena que seja tarde demais.

As íris esverdeadas de Ephraim cintilaram.

— NUNCA é tarde demais para Deus, senhor Segerson. Pode ser tarde demais para os homens, para o mundo. Não para Deus. Ele envia o Seu socorro... o Seu Messias. O Redentor que leva sobre Si nossas falhas. Restaura nossa paz.

O jovem loiro sorriu, deixando transparecer um bem vindo alívio por receber aquela mensagem.

— Paz... isso seria ótimo de obter, pastor. É tanta tristeza...

— Não tem por que continuar vivendo-a, meu amigo. Por que não volta na segunda ou na quarta-feira? Traga sua esposa, seus filhos...

— Não sou casado, pastor. – Bem, não era mentira. Há dois anos, seria...

— Bem, você é meu convidado especial, meu jovem. Retorne e verá as bênçãos de Deus em sua vida. Não tem que viver só, senhor Segerson, conosco aqui. Está em Salmos, capítulo 133, “Oh! Quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união!”

— Eu... oh. – Olhou para o relógio de pulso, fingindo-se surpreso. – Me perdoem, preciso voltar para casa. Tenho uma reunião importantíssima amanhã.

— Claro! Que tal fazermos uma breve oração, então, por essa reunião, e por seu retorno seguro ao lar?

Para desagrado do rapaz, o grupo fez a breve oração... que pareceu interminável.

Despediram-se do simpático visitante. A este foi custoso atravessar o salão rumo à saída, tantos eram os convites, despedidas, entregas de doces e salgados, mais folhetos, alguns informativos. Pôde enfim chegar ao estacionamento. Entrou no Lexus RX prata, atirou os despojos da confraternização no banco traseiro, sentou-se ao volante e deu a partida.

Não deixou de praguejar até chegar à estrada.

Efetuou uma chamada no aparelho acondicionado no porta-celular, já no viva-voz.

— Alô.

— Saga, pelo amor de Deus... este carro é um cu de dirigir...

— É assim que você sai de um culto? Falando o nome de Deus em vão? E junto de palavrão?

— Vou direcionar o próximo palavrão a você...

— É um modelo de luxo, de acordo com o que o empresário Michael Segerson teria. Não Milo, o tresloucado que curte pegar trilhas em sua camionete.

— Carrinho de socialite fresca. Parece que a qualquer momento vou sair da estrada, sério mesmo.

— Correu tudo bem lá?

— Bem até demais. Descolei até jantar grátis. Heh, até o café e o almoço, pela quantidade de comida que tô levando...

— Essa não, vai se converter, logo vi! – pilheriou o procurador.

— Hah, se tivesse cerveja poderia até ser, viu, já que eles fazem essas bocas livres duas vezes por semana!

— Tática do oferecimento...

— É. Bem como a doutora Saori disse. – Milo parou de rir, lembrando-se das reuniões com a psicóloga que estava assessorando-os naquela investigação. – E eu identifiquei várias outras, Saga. Várias.

— Eles não estão crescendo à toa, Milo. Até agora ninguém conseguiu pôr as mãos na Aurora do Novo Porvir. Nem o Ministério Público. A chance vai ser onde nenhum de nós da polícia esteve. Perto do chefão. Hades.

— Isso é que é estranho, Saga, não se falou dele lá... nem dessa tal comunidade que você acredita que exista.

— Não é que eu acredite que exista. EXISTE. Relatos de pessoas que escaparam de lá, mesmo que de diferentes localidades do país, possuem pontos em comum demais para serem meras fantasias.

— Mas por que não falaram disso no culto?

— Porque você é o senhor Michael Segerson... um visitante... não existe comunidade secreta se o segredo é distribuído a quem acabou de chegar à “festa”, concorda?

Estalando a língua de ansiedade, Milo indagou:

— E para quem esses putos contam o tal segredo?

— Para os “escolhidos”.

— E é o que devo ser, hã? – Ele deu um meio sorriso.

— Exato. Este é o plano. Milo, eles falaram algo sobre "um messias”?

— Como assim “um messias”? – Milo estranhou a expressão. – Eles falaram sobre Deus, Jesus... Messias... Redentor...

Esforçou-se por lembrar.

Pastor Ephraim.

O homem salsicha no terno marrom.

“NUNCA é tarde demais para Deus, senhor Segerson. Pode ser tarde demais para os homens, para o mundo. Não para Deus. Ele envia o Seu socorro... o Seu Messias. O Redentor que leva sobre Si nossas falhas. Restaura nossa paz.”

— O pastor falou algo sobre Deus enviar o Messias, sim.

— Não que “enviou”. – sondou Saga.

— Hã... não. “Envia”.

— Não usou o verbo no passado.

— Isso faz alguma diferença? – Milo deu de ombros, como se estivesse diante do chefe e amigo.

— Toda. Amanhã vamos conversar na sede e você vai saber COMO faz.

— Eu não vou dormir, de barriga cheia e de curiosidade. Desembucha, porra. Que diferença isso faz?

— Milo... há a desconfiança de que esse Messias a quem eles se referem NÃO seja o Jesus da Bíblia... e sim ALGUÉM que se encontra lá, na tal comunidade secreta... o Vale da Aurora Dourada.

Milo fez uma careta, e em seguida, deu um sorriso sarcástico.

— De volta aos anos 70. Isso é hippie pra caralho – riu.

— Segundo denúncias, existe um “messias” com eles. Claro, não há prova alguma, nenhuma foto, nenhum documento... chamam-no “Redentor”, dentre outros nomes. Ele é reverenciado como se fosse um novo Jesus, e devido à sua presença, a Aurora do Novo Porvir não para de ganhar força. Doações, dízimos astronômicos, cessão de direitos, bens, ações... temos motivos para acreditar que há inclusive trabalho escravo na propriedade.

— Fica frio, Saguinha. Vamos descobrir esses farsantes todos. Os filhos da puta manipulam pessoas de bem, não é de hoje que essas canalhices acontecem. Esse “Redentor” vai desejar realmente morrer numa cruz quando eu puser as mãos nele!

*************

Notas finais
( 1 ) A Noiva - nas Escrituras, a igreja (povo de Deus) é chamada "Noiva de Cristo". A metáfora evocaria o ato de a noiva abandonar seus pais e sua vida antiga para se unir àquele que será seu esposo. Lembremos também de que a mulher deveria casar-se virgem, então a condição imaculada também é emulada pelo termo. Só para exemplificar, a analogia é mencionada no livro Efésios e no de Apocalipse. (2) O quarto branco - método de tortura psicológica no qual o supliciado fica encarcerado em uma sala branca, sem nenhum ruído, cujos objetos, se houver, são todos brancos. Até mesmo a comida, pratos, talheres devem ser todos da mesma cor, no afã de despersonalizar o prisioneiro. Os guardas usam roupa de mesma cor, e os calçados de quem entrar no lugar são acolchoados para que o silêncio perturbador nunca cesse. Em verdade é um método de longa duração, por isso Argol disse que Radamanthys era " muito mole", quando este sugeriu o "quarto branco" para a "penitência" de Camus; algumas horas não infligiriam danos significativos ao irmão. Vê-se que o mais velho queria mesmo era poupar o "Messias". (3) Esposa de Ló - figura bíblica (não se conhece nome) A família de Ló era a única temente a Deus nas corrompida Sodoma. Anjos ordenaram que ele e os seus deixassem a cidade, que seria por eles destruída, e que não olhassem para trás. A esposa de Ló, contudo, não resistiu a olhar pela última vez para o lugar, em chamas. Como castigo, foi transformada em uma estátua de sal. "Então o Senhor fez chover enxofre e fogo, do Senhor desde os céus, sobre Sodoma; E destruiu aquelas cidades e toda aquela campina, e todos os moradores daquelas cidades, e o que nascia da terra. E a mulher de Ló olhou para trás e ficou convertida numa estátua de sal" (Gênesis 19:24-26)." (4) Jordão - Nome do rio no qual Jesus foi batizado por João Batista, evento que "marca o início de seu ministério público". (5) Sarça ardente no deserto - O livro de Êxodo narra a cena em que Moisés, apascentando o rebanho do sogro, vê, no deserto, um arbusto (sarça) pegando fogo, sem contudo se consumir. Um sinal para que Moisés entendesse que havia uma missão maior para si. (6) Mateus 11: 28 - 30 (7) Relato de uma colega de trabalho. Segundo ela, "formam um verdadeiro 'corredor' polonês, a pessoa fica sem ter pra onde ir, nem pros lados, onde estão os diáconos, nem para frente, onde os religiosos os aguardam, nem para trás, pois vinha gente." Experiência vivenciada por sua mãe e irmã, quando visitavam uma igreja cujos cultos histriônicos são televisionados, considerada como "seita" nos meios protestantes tradicionais. (8) Isaías 43: 1 - 3 (9) De acordo com o Livro de Gênesis, a nudez de Adão e Eva não lhes trazia qualquer constrangimento, até cometerem o "pecado original" e comerem do fruto proibido. ************* Bom, foram tantas notas que é melhor nem falar muito mais coisa. No próximo capítulo, Camus em um hediondo Cerimonial, e Milo conhecendo detalhes acerca da investigação. Como ele fará para se infiltrar na comunidade Vale da Aurora Dourada, na qual se encontra o "Redentor"? Obrigada por lerem... até o próximo capítulo, forte abraço!