Redentor
21 Gólgota - Ato VII : Por Você
Notas iniciais
5 de setembro de 2018.
Faltavam mais de duas semanas para o término do verão. No entanto, a manhã escura e fria parecia anunciar seu precoce fim no Vale da Aurora Dourada. Foi com passos arrastados que os colonos deixaram seus leitos às seis horas da manhã daquela quarta-feira. Grande parte deles tomava o desjejum nos refeitórios da comunidade. Mesmo os que detinham o privilégio de fazê-lo em seus próprios lares não dispunham de variedade muito superior àquele cardápio monótono e pouco nutritivo. Não obstante, agradeciam a Deus pelo alimento; que os sustentasse durante um novo dia de trabalho em prol da Obra.
Em cada um dos seis refeitórios, um membro da Alta Cúpula proferiu a oração matinal. Era longa a ponto de ouvir-se estômagos roncando. Terminada a prece, seguiu-se um surpreendente aviso:
— Irmãos e irmãs em Cristo, Ovelhas do Bendito Redentor. Hoje, excepcionalmente, encerraremos todos nossos ofícios à hora do almoço. Em outras palavras, fica suspenso o trabalho no turno da tarde, e por uma razão muito especial: às três horas, às margens do Rio Jordão, será realizado um Auto de Fé.
Os colonos murmuraram entre si, surpresos. Nunca se soubera de um Auto de Fé em dia de semana, e, principalmente, sem a presença do Grande Pai na Cidadela. O que estaria acontecendo?
— O Pai Celestial tem visto o esfriamento de muitos corações em nosso amado lar. Manifestações descabidas de reverência a qualquer um que NÃO seja o Sucessor de Seu Filho Amado têm-No desagradado. O próprio Cristo derrama lágrimas por semelhante comportamento. Para que a fé em nosso Vale seja renovada, e a ira do Altíssimo aplacada, o Redentor vai se oferecer em sacrifício por VOCÊS.
Centenas de Ovelhas abaixaram as cabeças, atingidas por aquelas palavras. Centenas de outras principiaram a orar, emocionadas.
Horas depois, em uma das salas de reunião do Tabernáculo, opiniões se dividiam...
— O Redentor passou por um Cerimonial complexo, que muito exigiu de si, há poucos dias, Radamanthys. Peço que reconsidere... ele NÃO está em condições de passar por um Auto de Fé tão cedo assim!
À cabeceira da comprida mesa de tampo marmóreo, o primogênito de Hades respondeu calmamente:
— Agradeço por sua opinião, Chrysaor. Porém, já está decidido...
— Minha opinião é MÉDICA! – Interrompeu o Arauto, incisivo. – Eu sou médico, você deve se lembrar!
— E EU sou a autoridade máxima no Vale, abaixo de Hades. Na ausência do Grande Pai, é a MINHA decisão que devem acatar, você TAMBÉM deve se lembrar.
Os Vigias e Arautos entreolharam-se. A tensão fazia-se crescente. Para completar, Algol ergueu-se, quase exaltado, de seu lugar, próximo ao do irmão:
— Depois do que contamos sobre a vigília dos idólatras ao redor da casa de Aldebaran ainda duvidam da necessidade deste Auto?
— Não é que duvidemos da necessidade de um Auto de Fé em virtude do que vocês testemunharam. – Disse Minos, firme, porém menos emocional que o cingalês. – A proximidade dele com uma Santa Ceia recém realizada é que nos preocupa...
— A decisão JÁ está tomada. Rada decidiu. – Algol insistiu. – Se continuarem a questioná-lo, teremos que reportar esse comportamento ao nosso pai.
Os membros da Alta Cúpula calaram-se. Via-se nos semblantes de alguns o apoio irrestrito, e em outros, indignação reprimida. Em meio ao silêncio que se estabeleceu, Radamanthys falou:
— A hora se aproxima. Asterion e Dante, vão buscar Camus para o suplício. Levem para ele o traje cerimonial de hoje...
— Desculpe-me, Radamanthys, mas... só por curiosidade... – Pronunciou-se Aiacos. – Qual será a modalidade?...
— O açoite triplo.
O Arauto Dante ciciou, inseguro:
— De fato, acho que deveria esperar ao menos uns dias...
— Não serão tantas, as chibatadas. Umas quinze bastam. É apenas para botar as Ovelhas idólatras em seus lugares. – Radamanthys respondeu com tal firmeza que, malgrado houvesse vontade por parte de alguns dos sete homens em contestá-lo, ninguém o fez.
— Os demais, venham comigo, para acompanharmos a preparação do palco.
Foi feito conforme ordenara o primogênito de Hades. Entretanto, não sem o protesto de June, que correu para os aposentos do cunhado assim que soube que estavam indo buscá-lo.
— O que estão pensando? – Bradou ela, interpondo-se no caminho dos dois auxiliares. – Faz apenas três dias que o Redentor passou pela Santa Ceia!!!
— Sabemos disso, June. Eu mesmo sugeri que Radamanthys esperasse mais uns dias, mas ele não ouviu... – Retrucou Dante, incomodado.
— Radamanthys está LOUCO! Ele e Algol estão LOUCOS, há MUITO TEMPO! Será que não conseguem enxergar isso? Não podem acatar as ordens deles!
— June... – Murmurou Camus, detrás dela.
O Vigia Asterion aproximou-se dela, fazendo-se intimidador:
— Na ausência do Grande Pai, eles são a autoridade em nossa terra, você sabe disso. Se não os obedecermos, prestaremos contas ao senhor Hades. E se você não quiser passar pelo mesmo, sugiro que saia da frente. E que modere a sua língua, mocinha...
Não obstante, a “mocinha” em nada deixou-se intimidar. Permaneceu entre eles e o ruivo, em uma postura defensiva, querendo a todo custo protegê-lo de mais aquela crueldade. Então sentiu um toque em seu ombro.
— June, está tudo bem. – Camus saiu de trás da moça. – É como eles dizem. Sempre foi. E sempre será...
Desesperada, a loira voltou-se para ele, gesticulando nervosamente ao argumentar:
— Mas Camus, não havia nenhum Auto de Fé previsto para os próximos três meses! Radamanthys está fazendo isso por capricho, por devaneio, por ruindade! Não pela Obra! Você PRECISA se negar! Você PODE se negar!
Assimilando cada uma das palavras da cunhada, ele fechou os olhos. Julgou-as pertinentes, exceto pela parte final...
Ele NÃO podia se negar.
A Lei fazia-se imperiosa.
Abaixo do Grande Pai para guiar os passos do Novo Messias em sua missão na Terra... Radamanthys.
Assim era a Lei.
Sem nenhum traço de emoção na voz ou no olhar, Camus simplesmente enunciou:
— June. Prepare-me, por favor.
— Camus... – Balbuciou a loira, desolada. Por fim, assentiu. – Está bem, cuidarei de tudo.
Sim, por baixo da resignação que já fazia parte de si, o Redentor sabia que a cunhada estava certa. Absteve-se, no entanto, de o declarar. De que adiantaria? Era o SEU destino, o SEU fardo, a SUA missão. Jesus tivera os Dele. Agora... cabia ao Novo Messias empreender a nova etapa da Obra de Deus, do Plano Inaudito da Salvação, fossem quais fossem as circunstâncias.
*************
Quando viu Milo novamente fazer mais uma de suas caretas de dor ao mastigar, Aldebaran não se conteve:
— Ainda sente dor no rosto, não é? – Indagou sem jeito.
— Hum? É, um pouco. Mas é só quando eu como... e quando eu bebo... e quando falo. E quando durmo. E quando respiro.
— Eu sinto muito.
— Ei, era pra ser engraçado. Não precisa fazer essa cara de bunda, vai.
— E como estão suas costelas?
— Deliciosas. Só faltou um molhinho barbecue e uma...
— Seu palhaço, eu falo das SUAS costelas. Doem muito ainda?
— Quase nada. – Maquinalmente olhou para as bandagens no torso. – Graças aos curativos e emplastros feitos por você.
— Sim, feitos por mim... assim como seus ferimentos...
— Ei, ei, pare de se gabar, OK? Também te acertei uns belos golpes, admita.
O ex pastor enfim riu, embora de modo contido.
— Sim, você bate bem. Aprendeu a lutar assim no curso de formação policial?
— Na infância, fiz karatê... eu adorava um filme dos anos 80, “Karate Kid”, conhece?
— Tá brincando? Fez muito sucesso no Brasil.
— Sério? Bom, depois, foram os desenhos de luta… na academia aprendi muay thai, e fui treinar krav maga em Israel com as Forças Especiais.
— Isso é bom. Será muito útil quando houver a invasão policial. A menos que pretenda usar a arma que está guardada...
Notou que o agente tornou-se abatido ante a menção da invasão.
— Alguma coisa tá atrasando o Saga. Burocracias, suponho. Mas tenho certeza de que ele está se empenhando ao máximo. – Comentou Milo, desanimado.
Ficaram os dois em silêncio até o término da refeição. O policial ofereceu-se para lavar a louça, no que foi impedido pelo brasileiro.
— Nada disso, você precisa descansar mais, se quiser que o tratamento surta mesmo efeito...
— Eu já estou melhor, palavra...
— E vai ficar melhor ainda se fizer o que estou MANDANDO.
— Tá bom, papai, já vou – Ironizou o loiro, cruzando as mãos por trás da cabeça. Foi só fazer isso para fazer uma careta de dor enquanto levava uma das mãos às costelas.
— É, dá pra ver como você está BEM. Bem machucado, isso sim. – Brincou o ex pastor.
Derrotado, o agente foi resmungando para o quarto. Se havia algo que detestava era ficar sem fazer nada. Sabia, contudo, que o amigo tinha razão: precisaria estar em boa forma quando seus companheiros invadissem o Vale. Deitou-se na cama, sonhando com uma TV, um celular, um tablet, um home theater... olhos fitos no alto teto de madeira, tencionou esvaziar a mente... mas o rosto de Camus surgia em seus pensamentos...
“Como ele pôde ter suportado viver desta forma por tantos anos? E... como será quando ele SAIR daqui?”, refletia, invadido por uma tristeza profunda.
Enquanto isso, pela janela acima da pia onde lavava os utensílios domésticos, Aldebaran pôde ver que o céu escurecia cada vez mais. As copas das árvores agitavam-se ruidosamente.
“Vento de temporal. Melhor eu ir alimentar os animais, antes que essa chuva caia.”; largou as louças e foi para fora, cuidar das criações de subsistência. Deu comida aos porcos e coelhos, trocou-lhes a água. Fez o mesmo pelas três vacas e pelas cinco cabras e três cabritos. Aproveitou para pegar ovos no pequeno galinheiro que mantinha. Quando ia retornar para o interior da casa, notou uma movimentação anormal pelos campos e trilhas. Incontáveis pessoas, e todo tipo delas, caminhavam em direção oposta aos usuais postos de trabalho, pareciam rumar para o Rio Jordão... intrigado, chegou até a porteira de seu rancho e gritou aos colonos que iam longe:
— EI! O que está acontecendo?
Tinha esperança de que se tratasse a tão esperada invasão policial. Mas a resposta que obteve de um homem corcunda varreu suas expectativas:
— Haverá um Auto de Fé hoje!
— O quê?!? – Espantou-se o brasileiro. – HOJE? Mas por quê?
Não chegou a ouvir a razão, pois que o colono voltara apressado para a procissão. Estalando a língua, Aldebaran enxugou o suor que lhe brotara na testa, fruto do trabalho, e agora, da preocupação.
“Meu Deus, aquele rapaz acabou de passar por tantos horrores no domingo!” De repente deu-se conta: Milo NÃO podia ficar sabendo daquilo! Com certeza, o agente partiria correndo para o local, e toda a farsa da “doença de Mikael” seria desmascarada. Temeroso, voltou para a cabana. Infelizmente, Milo já o aguardava no meio da sala.
— Ouvi você gritando. O que foi?
— Ah, eu… eu vi passarem uns conhecidos… estava apenas cumprimentando-os.
O senso de observação do policial dizia-lhe que Aldebaran mentia. Tentou passar pelo homenzarrão, que abriu os braços, no afã de impedi-lo.
— Espere! Não pode sair assim! Vão saber que “Mikael” não está...
— Debas. Sai da minha frente.
Tão grave o tom e tão diferente de como o amigo falava, que Aldebaran não insistiu. Abaixou os braços e deu passagem ao jovem. Olhou-o, vislumbrando o verdadeiro “Mikael”.
O policial federal Milo Hatzis.
Não teve remédio senão ir atrás dele, já a par do que aconteceria a seguir. Viu-o paralisar junto à porteira do sítio, observando a contínua peregrinação de fiéis, incomum em um dia de semana. Eles não deveriam estar em seus postos de trabalho?
— Debas, o que que tá acontecendo?
— Eles estão indo assistir a um... a um Auto de Fé.
— O quê? Não... não pode ser! – Milo sentiu cada fibra de seu ser estremecer.
— E-eu também estranhei... hoje é quarta-feira... n-não deveria... nunca houve um...
— ELE acabou de passar por aquela horrível “Santa Ceia”! Como isso é possível? Por que vão fazer isso?
Sem perceber, o agente gritava com o ex pastor, que não encontrava uma única resposta plausível para dar. Bufando, Milo fez menção de ir se juntar à multidão. Desta vez o brasileiro segurou-o pelo braço.
— ME SOLTA, DEBAS!
— VOCÊ TAMBÉM não se recuperou plenamente... nem do que passou naquela noite, nem de nossa... briga...
— E NO QUE isso se equivale ao que ELE passa? Ao que ELE sofre? Me diz, Debas, ME DIZ!
— Do que vai adiantar você ir? Não vai poder impedir o Auto!
Aquelas palavras foram como um novo soco no rosto já marcado de Milo.
Sim, nada havia que pudesse fazer para IMPEDIR...
... para impedir...
Súbito, desvencilhou-se violentamente da firme mão do amigo, pois que este julgara-lhe pela imobilidade tê-lo feito cair em si. Ledo engano.
Trajando apenas uma calça branca de algodão que ia-lhe até acima das canelas, o peito trespassado de ataduras, sem nem ao menos ter calçado o único par de calçados de que dispunha, Milo disparou sítio afora, ganhando a pequena colina descendente, os longos cabelos dourados e anelados esvoaçantes pela velocidade que imprimia àquela arrancada.
— ESPERE! MIKAEL! – Bradou Aldebaran, lançando-se em perseguição, agora não mais para impedir o rapaz, e sim, acompanhá-lo. Algo estava muito estranho, dava-lhe a impressão de o evento repentino ser uma ardilosa maquinação... mas com que propósito?
Vendo o homem uma vez apontado pelo próprio Redentor como o anjo que lhe aparecera em sonhos de revelação, as Ovelhas abriram espaço para que ele passasse. Um moderno Mar Vermelho, era o que Milo atravessava, suas vigorosas pernas tão rápidas quanto podia.
— Vejam! Mikael está curado!!!
— Mikael está curado!!!
— Aleluia, o Anjo do Redentor está curado!
— Então Deus se agradou de nossas súplicas sim!
— Sim! Aleluia!
— Aleluia! Deus seja louvado!
Indiferente àqueles clamores, o policial continuou a corrida incontinenti. Os mais jovens e fisicamente capazes sentiram-se impelidos a correr atrás de “Mikael”.
— Eu não acredito! – exclamou Aldebaran, em um esforço hercúleo por acompanhar a insólita maratona.
À medida que Milo se aproximava do local, a aglomeração se concentrava. Ele sequer se importava em mandar que saíssem de sua frente: os menos ágeis eram simplesmente por ele empurrados.
Lá estava a estrutura de madeira, já montada para comportar o hórrido espetáculo. A visão de um mastro erguido no centro do palco apavorou-o: ao que parecia, tencionavam açoitar o falso messias.
— Não, não podem fazer isso, não podem... – Murmurava enquanto se aproximava mais do palco. Minutos depois de conseguir avançar por entre a numerosa plateia, já se tornava impossível de se chegar exatamente aonde queria. Ali, espremido entre centenas e centenas de Ovelhas, poderia machucá-las... ou machucar-se. Só então deu-se conta de como seu corpo doía. Levou a mão em um ponto abaixo da axila esquerda, sem conseguir sufocar um gemido.
Nesse meio tempo, Aldebaran procurava pelo policial; havia perdido-o de vista. Mas sabia que ele deveria ter se aproximado tanto quanto podia do palco. Por isso, tratou de fazer o mesmo.
As Ovelhas se maravilhavam em ver “Mikael”, tão enfermo no dia anterior, ali, entre eles, uma visão espetacular como um milagre! Teria o primogênito do Grande Pai se equivocado?, era o que pensavam alguns… e uns tantos ousaram mesmo questionar aos outros. Com os olhos fitos no mastro, Milo sequer os ouvia. Falavam com ele, davam glórias por ele, porém, o loiro só tinha a atenção voltada para o palco.
Súbito, as vozes calaram-se.
Os Vigias, paramentados como em um dia cerimonioso, surgiram diante da plateia, vindo dos fundos da instalação. Minos aproximou-se de um microfone afixado em uma base.
— Irmãos e irmãs em Cristo, Ovelhas bem aventuradas de Nosso Pai Altíssimo. Aqui nos reunimos para um sagrado Auto de Fé, um sacrifício de nosso amado Redentor, em prol da purificação de suas almas corrompidas pela idolatria.
Contrariando o usual, o público começou a murmurar. Pareciam genuinamente surpresos.
— SILÊNCIO! – Ordenou, enérgico, o Vigia.
Os fiéis calaram-se, ainda que se notasse um ar geral de estupefação.
— Passarei a palavra ao primogênito do Grande Hades, Radamanthys. – Dito isto, afastou-se do microfone. Juntou-se aos demais Vigias. Estes foram solenemente para cada um dos ângulos do palco retangular.
Trajando uma túnica negra, Radamanthys surgiu diante da audiência. Caminhou até o microfone. Por uns instantes, passou a impressão de procurar por ALGUÉM na plateia.
Não demorou muito para encontrar QUEM queria.
Os olhares de Radamanthys e de Milo cruzaram-se.
O irmão mais velho de Camus sorriu discretamente, um sorriso que talvez apenas o agente federal tenha notado. E então:
— O povo de Israel dirigia-se, guiado por Moisés, para a Terra Santa, Canaã, a Terra Prometida de onde manavam leite e mel. Haviam sido libertados de suas vidas miseráveis e cativas no Egito. E o que fizeram vários e vários deles? Construíram um bezerro de ouro e o adoraram... – Encarou Milo diretamente. Os fiéis mais próximos não deixaram de percebê-lo. A mensagem começava a atingir os que empreenderam a vigília pelo “Anjo do Redentor”.
O policial franziu o cenho, nunca abandonando o rosto de Radamanthys. Este prosseguiu, encarando o rapaz de volta:
— Naquela ocasião, Deus fez chover fogo do céu para consumir os idólatras. Além de uma punição, a purificação de Seu povo, o povo escolhido, pelo FOGO. Cristo trouxe o Tempo do Amor. Da Salvação. Da libertação dos pecados através de Seus sacrifícios. Por isso, hoje, faz-se necessário um Auto de Fé.
Como que atingido por uma faca no coração, Milo compreendeu o nefasto intento de Radamanthys.
“Não... não! Maldito!”, praguejou em pensamento, sacudido por frêmitos de cólera.
Então Camus surgiu no palco, o torso alvo nu ainda com nódoas das últimas sevícias. Vestia apenas uma calça branca similar a um sari indiano. As Ovelhas mantiveram-se mudas, contritas. O “messias” parou diante de todos e apenas assentiu. Caminhou decidido para o mastro de madeira, onde já o esperava, encapuzado de branco, o encarregado de infligir-lhe o suplício. Este amarrou para trás do mastro os pulsos do jovem ali encostado, de costas para o seu povo, as costas expostas, o que foi possível após o Verdugo jogar-lhe os longos cabelos vermelhos para a frente do corpo.
“Por Deus, vão MESMO açoitá-lo!”, pensou Milo, aterrorizado.
Seguindo o costume, o Redentor permaneceu impassível, como se não estivesse prestes a ser cruelmente supliciado. O homem com o manto recebeu seu instrumento das mãos de um auxiliar: um chicote trançado, com três pontas na extremidade. Ajustou-o na palma, preparando-se para começar seu ofício. Não mais podiam ver o rosto do Redentor. Não sabiam que ele cerrava lentamente as pálpebras, desejoso de que a morte viesse enfim buscá-lo.
Pela primeira vez, Camus não se sentiu culpado em almejar a libertação por intermédio do fim de sua vida. Estava debilitado, fraco, cansado, sob efeito de tantos medicamentos após a Santa Ceia... quem sabe, desta vez...
— ESPEREM!
O Redentor abriu os olhos no mesmo segundo em que reconheceu a voz de “Mikael”.
— Eu RECEBI, ENFIM, A REVELAÇÃO DE DEUS!!! A Revelação pela qual o Messias tanto esperou! – O agente gritou, a plenos pulmões.
O povo não mais murmurava: exaltava-se. Exultava-se. Radamanthys dirigiu-lhe uma furiosa mirada. Que pretendia o maldito?
— Eu PRECISO chegar ao palco! Ajudem-me… ergam-me… ERGAM-ME! – Clamou Milo aos fiéis próximos de si. Não houve um mísero segundo sequer de hesitação. Auxiliado por dezenas de mãos, braços, ombros, costas, o agente acessou o palco.
Estava frente a frente com o primogênito de Hades.
A multidão agora manifestava-se estrepitosamente. Expectativas corriam pelos milhares de fiéis presentes. Milo e Radamanthys encaravam-se com gravidade. Fora do alcance do microfone, que astutamente desligara, Radamanthys disse-lhe:
— Mikael... vejo que recuperou-se da moléstia misteriosa... onde estão as chagas putrefatas que obrigavam-no a ficar enfaixado dos pés à cabeça? Vejo apenas umas bandagens no tronco...
— Eu cicatrizo rápido.
— Há alguns machucados pelo seu corpo, logo, isso não deve ser uma verdade absoluta... sabe, eu diria que esteve em LUTA CORPORAL com alguém.
Milo não respondeu. Radamanthys observou as arranhaduras nos braços do rapaz.
— E esses braços? Você foi atacado por algum animal? CÃES, talvez?
— Vai deixar o Messias e o povo esperando pela “revelação”? – Milo usou de autoritária petulância. – Ou vai realmente ficar no caminho dela?
— Não sei se você é ousado... ou BURRO. Só sei que vai se arrepender pelo que está fazendo...
Um sorriso sarcástico do outro foi toda resposta que o primogênito de Hades obteve, antes de dar-lhe acesso ao microfone. Deu alguns passos para trás, saindo de perto do aparelho.
— RADA! O que está fazendo? – Da lateral do palco Algol gritou.
Quando o caçula de Hades fez menção de ir até a frente, Chrysaor pôs-se em seu caminho.
— Você ouviu o homem, Algol. A mensagem esperada pelo Redentor finalmente será revelada.
— Você sabe que o desgraçado não é anjo porra nenhuma!!!
— Quer contar isso ao povo? Ou contestar uma ação do primogênito do Hades diante de todos?
Algol paralisou. Rosnou entre dentes:
— Você está do lado dele, não? É um traidor como Albior... vai acabar como seu amigo... pode esperar.
O Arauto não se intimidou. Saiu da frente do enfurecido jovem, consciente de que ele nada faria.
— Mikael – Camus chamou-o debilmente.
Sem ouvi-lo, o policial anunciou ao público, imediatamente silenciado ao vê-lo diante do microfone:
— A enfermidade por que passei foi um sinal divino. Eu recusava-me a abrir meu espírito para decodificar a mensagem de Deus que trazia comigo, e que deveria ser entregue ao Redentor. Entretanto, o Todo Poderoso falou comigo da mesma forma que falou com Jó: através do sofrimento. Através das chagas. E elas se foram quando finalmente entendi minha missão: devo passar pelo Auto de Fé no lugar do Redentor. O ÚLTIMO Auto de Fé.
— Mikael, que está dizendo?!? – Esforçando-se por virar para trás, Camus demandou, atônito.
— A verdade que me foi revelada, Messias. – Desta vez, Milo ouvira o Redentor.
Em polvorosa, o povo não mais se continha. O que “Mikael” queria dizer com “último Auto de Fé”? O tempo da Igreja do Redentor na Terra estaria chegando ao fim? Aproximava-se, então, o momento de ascenderem aos céus?
Radamanthys estreitou os olhos maldosos, fitos no “Anjo”.
— Era ESSA a mensagem que Deus tinha para o Redentor?
— Era sim. Tire-o dali AGORA. Serei EU o supliciado.
Agitando-se, o falso messias clamou:
— Mikael, NÃO!
Ignorando os clamores do Redentor e de seu povo extasiado, Milo repetiu a ordem, de forma autoritária e pausada:
— Você me ouviu, Radamanthys. Tire Camus do mastro. AGORA.
— Se você for amarrado àquele tronco, EU vou, PESSOALMENTE, cuidar de seu suplício. – Falou Radamanthys, apenas para Milo ouvir.
— Anotado. – O policial rebateu, sorrindo com deboche.
Radamanthys virou-se para o encarregado do martírio:
— Desamarre o Redentor. MIKAEL passará pelo Auto de Fé em seu lugar. É o que ordenou o Pai Celestial!
Boquiaberto, Camus viu-se livre das amarras. Tentou impedir “Mikael” quando este se aproximou do mastro.
— Mikael, por favor... você não pode... não pode passar por isso!
Milo sorriu com brandura para o jovem aflito. Ele passava por aquilo há, quem sabe, catorze anos!, e, ainda assim, preocupava-se com outra pessoa passando pela tortura em seu lugar. Ergueu a mão e tocou de leve o rosto do Redentor ao declarar:
— Você não queria tanto saber a mensagem que Deus teria me enviado? Pois é esta... – Somente Camus ouviu. – Você será LIBERTO. Seu tempo de sofrer neste lugar aproxima-se do fim. Na verdade, ele ACABA de terminar.
Os olhos castanho avermelhados arregalaram-se a ponto de ficarem vidrados. Sim, ele almejara a libertação da dor! Mas havia julgado que esta apenas seria trazida pela morte! Então lembrou-se de como o Anjo de seus sonhos sempre vinha resgatá-lo...
O ruivo levou a mão à que continuava posada em seu rosto; segurou-a com firmeza, mantendo-a ali.
— Eu não quero que você sofra. – Confessou.
— Eu sei. Mas eu não consigo mais ver VOCÊ sofrer. – Milo também confessou, embora nem ele entendesse por que se dispunha a fazer o que estava prestes a fazer. Quer dizer, ENTENDIA, mas...
— Por favor, Mikael, NÃO FAÇA ISSO...
Com suavidade porém com convicção, Milo retirou a mão de Camus de cima da sua e afastou-o de seu caminho. Quando o loiro encostou-se no tronco, já retirando seus cabelos das costas, Radamanthys gritou:
— Assim NÃO! Fique de FRENTE para nós.
O verdugo considerou-o, sem entender:
— Mas... eu devo açoitá-lo nas costas...
Radamanthys tirou-lhe o chicote das mãos. Justificou, um ódio frio cintilando nos olhos ambarinos:
— Se ele ficar de costas, não poderemos ver seu rosto se contorcendo de DOR. E eu quero isso mais do que o próprio céu.
— S-senhor, a região peitoral é menos resistente a...
— OBEDEÇA.
Hesitante, o homem acabou de fazer conforme o ordenado. Pediu que Milo encostasse no tronco de modo que ficasse de frente para o público. Amarrou-lhe firmemente os pulsos. Camus tentou impedi-lo, precisando ser contido pelos Arautos.
— Não, NÃO! NÃO FAÇAM ISSO! EU é que devo passar pelo Auto de Fé! – Bradou, debatendo-se. – EU SOU O REDENTOR!
— Pare, Camus! Se continuar com isso, vai colocar em DÚVIDA tudo quanto tem anunciado! – Com energia, Chrysaor chamou-lhe à razão.
O jovem estremeceu e parou de se debater. Dante ajuntou:
— Chrysaor está certo, Messias. Se o próprio Anjo alega que essa é a vontade de Deus, nem mesmo VOCÊ deve se intervir.
— Mas... Mikael...
— Ele ficará bem. E lembre-se da mensagem: é o ÚLTIMO Auto de Fé. – Disse Bian, segurando-lhe o braço direito. – Algo grandioso há de vir depois.
Presa de viva angústia, Camus voltou-se para Mikael, já devidamente imobilizado. Perdeu-se nos olhos azuis, mais resolutos do que nunca, enquanto era dali retirado pelos Arautos. Conduziram-no ao outro lado do palco e ali permaneceram, para ampará-lo.
O silêncio voltou a dominar a multidão. Nuvens escuras ocultaram o sol que tencionara aparecer por entre elas. Um cheiro metálico espalhava-se no ar, uma tensão quase palpável de quem aguarda uma tormenta. Radamanthys posicionou-se de frente para o mastro onde Milo, amarrado, aguardava pelo pior momento de sua vida. Consciente disso, fechou lentamente seus olhos, entregando-se ao seu destino.
Ou ao que ele FIZERA de seu destino.
Por que fizera aquilo? O que estava fazendo ali? Por que se oferecera para ser supliciado no lugar do falso messias?
— Mikael... por quê? – Balbuciou Aldebaran, unindo as mãos trêmulas.
Sim. POR QUÊ?
Por presumíveis catorze anos, Camus vivia cativo, submetido àquela existência devastadora. Milo chegara ao Vale havia apenas quatro ou cinco meses – já se perdia no tempo – e nesse período presenciara Camus ser açoitado, eletrocutado, asfixiado, violentado... não, não podia mais conceber a possibilidade de ver aquilo mais uma vez. Mesmo que fosse a ÚLTIMA VEZ.
Reviu o rosto ruborizado do Redentor quando este tocou-o quase com temor, na primeira vez em que se encontraram. Reviu-lhe os sorrisos ternos quando das caminhadas pelo Vale, da Cachoeira do Profeta, do almoço na humilde cabana. Reviu o momento em que o Redentor... em que CAMUS achegou-se a ele e confidenciou-lhe: “Estou cansado”.
Abriu os olhos, sua resolução potencializada pelas lembranças. Com um sorriso perverso, o primogênito de Hades zombou:
— Acaso estava rezando, “Anjo”?
— É VOCÊ quem deve rezar, Radamanthys. Pois tudo o que vive, e por que vive... ESTÁ NO FIM.
O sorriso de Radamanthys extinguiu-se como as réstias do sol.
— Por que... está dizendo isso? – Indagou com voz vacilante.
Desta vez foi “Mikael” que sorriu. E apenas isso obteve dele.
Por que... por que o maldito afirmava tão categoricamente que “tudo estava no fim”? Que aquele seria o último Auto de Fé? Por que parecia TÃO CERTO daquilo?
As imagens do sonho que tivera com ele lhe voltaram à mente... o Vale sendo consumido pelas chamas da espada do Anjo... Camus sendo arrebatado pelo Anjo... sendo levado para longe... enquanto ele ardia no fogo, seu grito ecoando no nada.
— Nunca vai tirar Camus de mim. – Rosnou. – NUNCA.
E então veio a primeira chibatada, certeira na omoplata esquerda do policial, que cerrou os dentes, decidido a não gritar. Mas Radamanthys tinha outros planos para ele. Oh, sim, ouviria o maldito gritar... por isso, imprimiu mais força na segunda chicotada. E na terceira. E na quarta...
— Oh, meu Deus. Meu Deus. – Balbuciava Aldebaran, seus olhos castanhos marejados sem piscar.
O amigo não estava em suas melhores condições, e agora...
— AAAAHHH!
O grito que finalmente emergiu de um Milo já ensanguentado arrancou-o das aflitivas ponderações.
— MIKAEL! – Desesperou-se Camus, novamente contido pelos Arautos.
— Ora, pensei que só fosse gritar daqui umas dez vergastadas... – Escarneceu Radamanthys enquanto enrolava o chicote. Deliciou-se com a viscosidade do sangue de seu rival em suas mãos. – Pensei que o “Anjo do Redentor” fosse mais resistente que ISTO!
Um novo e cruel golpe, bem acima das ataduras, das quais avistava-se uma crescente mancha vermelha.
— ISSO MESMO, Rada! Mostre a ele! Mostre a ele! – Berrou ensandecido Algol; sua gargalhada grotesca na sequência escandalizou até mesmo os Vigias.
— Não deveria demonstrar júbilo com o martírio de um homem de Deus, Algol! – Minos repreendeu-o.
Nada impressionado com o apontamento, Algol estalou a língua e conteve-se.
As vergastadas no peitoral e na região abdominal doíam muito mais do que nas costas, Milo tinha a vívida impressão. Podia ser também porque o número já superava o que contivera sua punição na lavoura. Sentia-se como um pedaço de carne sendo retalhado aos poucos. O sangue descia em profusão, empapando-lhe a calça branca até os pés. Tentava ao máximo não gritar, mas a dor era excruciante, absurda, inédita, tanto porque Radamanthys se concentrava em regiões já feridas.
— Aaaaahhh! Aaarrh!!! – Seus gritos soavam como a mais harmoniosa das músicas aos ouvidos do primogênito de Hades, que deixara de se preocupar em ocultar o largo e sádico sorriso.
— Rada, pare, por favor! – Implorou Camus, em lágrimas.
De seu lugar, em uma espécie de camarote do palco, June exasperava-se:
— Quantas já foram? Seriam quinze… já passou disso, e há tempo!!!
Fez menção de sair do assento; Pandora, a seu lado, agarrou-lhe o braço. A loira virou-se para a morena, que disse, enfática:
— Não se meta nisso. Ele é capaz de te botar ali depois de conseguir o que quer.
— De “conseguir o que quer”? E o que ele quer?
— Rada sempre odiou Mikael, desde que travou conhecimento dele. – Pandora dirigiu um olhar sombrio ao palco. – Você sabe bem disso.
Aterrada, June encarou-a, convencida de que aquela fala traduzia o que se passava no patíbulo. Voltou a olhar para o hórrido espetáculo enquanto ouvia a própria esposa do carrasco elucidar, com uma gravidade incomum a ela:
— Rada sempre teve apenas uma pessoa no coração: CAMUS. Nem seus filhos, nem seu pai, nem Algol... o único que reside naquele coração apodrecido é Camus. Mikael desde o início representa uma AMEAÇA. Tem inveja do amor dos fiéis para com Mikael. Da atenção que Camus dispensa a Mikael. Ciúmes doentios que só podem resultar em UMA AÇÃO.
— Qual, Pan? Qual? – Só um fio de voz saiu da boca trêmula de June.
Pandora encarou-a longamente, os gritos do supliciado juntando-se à sua resposta:
— Ele NÃO vai parar. Não até que Mikael esteja MORTO naquele mastro.
— N-não... meu Deus, não...! – A loira balançou a cabeça, sem querer acreditar.
Mas acreditava.
— Uhhn... AAAAHHH! – A garganta do policial irritava-se de tanto que ele gritava.
Aiacos saiu de seu posto. Bradou ao líder temporário de sua igreja:
— Radamanthys, você já passou do dobro do número das chibatadas que Camus receberia, um número que VOCÊ mesmo estipulou!
Radamanthys voltou-se para ele. O Vigia chegou a se assustar com o semblante demoniacamente transtornado do filho de seu mestre.
— O estipulado era para o Redentor. Não para este homem, que requer para si tão nobre missão... – Respondeu rouco, ofegante.
E voltou a açoitar “Mikael”, cujos gritos escasseavam simplesmente porque as forças já começavam a abandoná-lo.
— Radamanthys, você VAI MATÁ-LO! – Aiacos fez-se mais enérgico. A ele juntou-se Minos, que, encorajado pelo Vigia mais jovem, deixara seu posto:
— Radamanthys, a intenção do Auto já foi cumprida. Pare agora mesmo!
— Vocês NÃO têm autoridade sobre mim! – Vociferou o irmão mais velho do “messias”, antes de desferir um violento golpe na base do pescoço de Milo.
O policial emitiu um último grunhido, antes de sua cabeça pender para a frente. Todo o seu corpo perdeu a rigidez. Algol chegava a estar excitado. Adoraria poder se tocar vendo o belo e odiado “Mikael” daquele jeito... ria loucamente, insensível aos novos olhares de reprovação dos presentes. Indiferente ao fato de que “Mikael” claramente perdera os sentidos – ou, quem sabe, a vida!, pensou feliz – Radamanthys continuou a infligir as vergastadas.
— Que pena que agora não posso mais ver o seu rosto, “Anjo do Redentor” – Riu, arfante pelo esforço e pela euforia triunfante. Preparou-se para desferir nova chicotada. A quadragésima, talvez? Quinquagésima? Perdera a conta... aliás, para que contar? NÃO IRIA PARAR. Não até que extirpasse do Vale a presença indesejável do homem que era dono do coração de Camus...
— Eles não têm autoridade sobre você, mas SEU PAI tem!
O chicote não mais estalou. Permaneceu imóvel na mão de Radamenthys, parada no ar. Virou-se para a esposa, que acessara o palco.
— Que faz aqui, sua PROSTITUTA?
— Hades jamais mencionou que o intuito do Auto de Fé era tirar a vida daquele que a isso se submetesse. – Bradou a morena. E acusou-o, ainda mais alto: – Você está desvirtuando o santo ritual instituído pelo Grande Pai!
Vozes começaram a se elevar da audiência:
— A senhora Pandora está certa!
— Sim, a senhora Pandora tem razão!
— Por que quer matar o Anjo do Redentor?
Em seguida, palmas, gritos, assobios, vaias.
— Vagabunda... além de se entregar ao meu pai, pretende se entregar a Mikael também? – Rosnou Radamanthys, apenas para ela escutar.
Assumindo uma postura de claro desafio, Pandora pôs as mãos na cintura, queixo erguido, alheia às imprecações do marido. Os Quatro Vigias aproximaram-se, unânimes em apoiá-la.
— Pandora tem razão. – Disse Capella.
— O Auto de Fé foi realizado até o limite desse homem. – Asterion argumentou.
— Já chega, Rada! – Instou Camus, tão alto e tão lamentoso que aumentou a manifestação do povo. Alguns objetos começaram a ser atirados na direção do primogênito de Hades. Os Vigias tiraram a mulher dali, dizendo:
—Solte já o rapaz, não poderá com a revolta dessa multidão!
Cheio de ódio, Radamanthys correu para não ser atingido; agora jogavam-lhe pedras! Berrou para os auxiliares:
—Tirem Mikael do tronco! Soltem ele!
A população da comunidade aplaudiu e entoou glórias ao ver o “Anjo do Redentor” ser retirado do mastro. Enfermeiros acorreram com uma maca, sobre a qual depositaram o jovem desmaiado. Camus correu até eles.
— Por favor, me digam, ele está vivo?
— Está sim, Messias, mas precisa receber cuidados médicos imediatamente. – Respondeu um dos enfermeiros.
— Levem-no para a cabana de Aldebaran. Vou cuidar dele. – Chrysaor ordenou, e como responsável pelo setor médico, ninguém, mesmo superior a ele, contestou-o.
O Redentor quis tocar o rosto lívido de Milo, mas foi gentilmente afastado pelos Vigias. Viu seu protetor ser retirado do palco sob intensos aplausos.
— Camus.
Ele voltou-se para Pandora, que o chamara com voz baixa. Havia no lindo rosto da moça uma expressão que ele nunca tinha visto ali: parecia… compaixão. Ela estendeu-lhe a mão.
— Venha. June vai cuidar de você.
— Pandora... – Surpreendentemente, o ruivo ajoelhou-se perante a cunhada. – Muito obrigado.
— Ora, que é isso? Por Deus, levante-se! Quem sou eu para que você... – Calou-se vendo-o estremecer, convulso no chão.
Camus chorava. Chorava como ela jamais presenciara alguém chorar na vida. Ah, sim, com exceção de June, quando foi obrigada a se casar com Algol e deixar o homem que amava. Comovida, Pandora ajoelhou-se junto ao Redentor. Abraçou-o com ternura, dizendo-lhe:
—Ele vai ficar bem. Não se preocupe, ele vai ficar bem. Tudo vai ficar bem...
*************
7 de setembro de 2018, sexta-feira. Aeroporto de Chicago. 13 horas.
Hades caminha rumo ao setor de embarque. Em breve tomará o próximo voo para o Maine. Acompanham-no alguns três seguranças, à distância, e mais perto, representantes importantes de empresas com as quais o líder da Aurora do Novo Porvir acabara de fechar importantes negócios. Além desses, dois pastores da denominação fundada por Hades. Todos passariam alguns dias no Vale da Aurora Dourada, a fim de participar de reuniões... e também de alguns cerimoniais com o Redentor...
As bagagens já haviam sido despachadas. Tudo que eles querem é tomar um drink na sala VIP da companhia aérea. A semana fora exaustiva. Fomentar um império não era assim tão fácil quanto um incauto poderia julgar.
Na hora em que Hades põe a bagagem de mão na esteira rolante para que o sistema de segurança tudo averiguasse, vê-se cercado por homens de terno escuro. Repara que não é a roupa dos funcionários do aeroporto. Um deles, um homem de estatura mediana, moreno e com bastos cabelos castanhos, mostra-lhe bem de perto, quase esfregando em sua cara, o distintivo da Polícia Federal.
— Armand Chermont De La Faure, ou se preferir, Hades: você vai viajar sim, mas CONOSCO.
O líder religioso não demonstra surpresa, embora suas sobrancelhas negras se crispem levemente.
— E sob qual acusação DESTA VEZ, senhor oficial? – Indaga, com absoluta tranquilidade.
— Nenhuma similar àquelas das quais você já tenha escapado. – Dohko responde, altivo.
Deixando escapar um risinho de pouco caso, Hades questiona:
— Isso é muito vago. Tenha a bondade de ser mais específico...
Dohko fulmina-o com o olhar ao responder:
— Pois não. Está sendo levado acusado de exploração sexual do rapaz a quem sua igreja imunda chama de “Redentor”.
Uma palidez de moribundo cobre o rosto estupefato de Hades. Os pastores e empresários que o acompanham instintivamente tentam escapar dali, em vão. Os policiais que assessoram Dohko não permitem sequer que se afastem. Percebe-se que os homens estão particularmente preocupados com suas pastas apreendidas. Dohko logo mata a charada, arrebatando-as:
— Pelo visto, temos coisinhas importantes dentro dessas pastinhas, hã? – Abre uma delas.
— NÃO pode fazer isso! Nós conhecemos nossos direitos! – Vocifera um dos pastores, debatendo-se freneticamente.
Um dos empresários se une ao protesto:
— Você não sabe com quem está lidando, policial!
Minutos depois, vários papéis espalham-se pelo chão. Menos os que estão nas mãos de Dohko. Brande um deles na direção dos acusados:
—Bem, agora sabemos exatamente com QUEM estamos lidando: com os próximos “clientes sexuais” do “Grande Pai”. Você, senhor Edmund Fitzroy, iria pagar... deixe-me ver... 80 mil dólares para estuprar o garoto no que chamam... hã... “Cerimonial da Sagrada Semente”...
— SEU DESGRAÇADO! – Pragueja o empresário, já na mira de flashes de câmeras e celulares. – Não pode fazer isso comigo! Eu tenho família! Tenho mulher e filhos!!!
— E você não imagina a PENA que tenho deles.
Algemas são fechadas em torno dos pulsos dos pastores e dos empresários, inclusive de Hades, que ainda mantém uma postura de inabalável tranquilidade.
— Não sei que demônio baixo e rasteiro sussurrou à polícia tamanha leviandade. Blasfêmia, isso é que é. Terá que PROVAR os absurdos que afirma contra mim e minha Igreja, oficial. Caso contrário...
— Aí é que está, “Grande Pai”. Nós TEMOS como provar. DESTA VEZ, nós temos como provar o quão criminosa e suja sua “igreja” é. – Declara Dohko vitorioso, em voz alta. – É o FIM da sua seita maldita.
*************
7 de setembro de 2018, sexta-feira. Grayville, Vale da Aurora Dourada. 10 horas da manhã.
— Mandou me chamar, Messias? – Perguntou Chrysaor, tão logo adentrou o quarto de Camus. O Arauto já imaginava o motivo daquele chamado.
— Sim. Quero saber como está Mikael. Ninguém me deu notícias, desde que... que o levaram para a casa de Aldebaran.
O cingalês lançou um olhar para June, que ajeitava flores em um pequeno vaso na janela. A moça ofereceu um chá ao médico. Ele aceitou polidamente. Sentou-se em uma cadeira, como para comunicar ao Redentor que deveria acalmar-se.
— Ele está se recuperando bem. Estive lá ontem e hoje, acabei de voltar de lá. Ficou bastante ferido, é claro, mas acredito que em alguns dias já possa sair do repouso.
— Deve estar sentindo muita dor. Radamanthys foi cruel com o pobre rapaz. – Murmurou June, ao servir o chá para o Arauto e para o cunhado.
— Dei-lhe uma injeção de anestésico e anti inflamatório. Mais do que com dores, é com infecções que devemos nos preocupar. E ele está sendo bem tratado. Aldebaran possui excelentes conhecimentos terapêuticos, embora primitivos...
— Ele estava consciente? – Quis saber o ruivo.
— Encontrei-o consciente, mas acredito que depois de ter tomado a medicação tenha dormido.
— Eu preciso ir até lá. Quero agradecer a ele pelo que fez por mim.
June pôs a mão no ombro do cunhado.
— Meu querido, você sabe que isso não é possível. Radamanthys NUNCA vai permitir. Foi por você gostar tanto de Mikael que ele...
— Está me culpando? – Interrompeu-a, sentido.
— Não, não foi o que quis dizer...
— Não importa. – O ruivo levantou-se, decidido. – Chrysaor, você me acompanharia até a casa de Aldebaran?
— É... é claro que eu o acompanharia, Messias. Mas June tem razão. Hades ainda não retornou, e enquanto isso...
— Eu sei – Camus caminhou até onde estava uma manta azul clara; jogou-a por sobre os ombros, preparando-se para sair. – Rada é a autoridade máxima no Vale. Mas eu TENHO como convencê-lo. Ele há de me conceder a permissão.
Chrysaor e June entreolharam-se, intrigados. A loira considerou o cunhado com inquietação.
— Por favor, não me diga que está pensando em... em... – Ela não tinha coragem de concluir.
Algo que espantou os dois foi ver que o Redentor SORRIA. E era um sorriso BEM diferente do sorriso modesto, contido e tímido que costumava ostentar.
— Apenas chamem meu irmão. E se surpreenderão.
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Não era raro avistar helicópteros sobrevoando o Vale, de modo que aquele, que já passara umas três vezes por ali, não despertara maiores atenções, principalmente de Radamanthys, que adentrou o Tabernáculo após descer de sua pick-up azul marinho. Dificilmente negaria uma oportunidade de encontrar-se com Camus, e se fora o próprio a tê-lo chamado, louco seria se não atendesse. Ademais, não tivera a chance de ficar a sós com Camus desde... desde aquele dia em que fora expulso do quarto do amado irmão... chamado de “Satanás”! Esperava que a conversa nada tivesse a ver com o detestável Mikael, mas sabia que a possibilidade era altíssima.
Não importava.
O que importava é que iria vê-lo... em seu quarto...
Adentrou o apartamento do Redentor: não se importou em cumprimentar June nem Chrysaor.
— Queria me ver, meu irmão? Eis-me aqui.
Camus encarou-o de modo enigmático por breves instantes. E então:
— June. Chrysaor. Podem nos deixar a sós? Não vai demorar.
Eles assentiram e saíram do recinto. Radamanthys virou-se para ele, rindo daquele “não vai demorar”. Quem sabia se ia demorar ou não seria ELE, e ele não estava com a menor pressa...
— Ultimamente tem sido raro você requisitar minha presença. No passado, gostava de quando eu ficava junto contigo... mas agora...
— Você era bom para mim, no passado. Ou pelo menos... não era tão mau quanto Algol.
Bom? Mau?
Camus estava fazendo JULGAMENTOS?
Mas Camus NUNCA os fazia! Apenas ACEITAVA, resignado, abnegado, quase dócil, seu destino.
— Bem, isso não vem ao caso. Preciso de sua autorização para ir visitar Mikael.
Primeiro, o mais velho olhou-o com incredulidade. Então deu sua primeira resposta: uma sonora gargalhada. Quando conseguiu parar de rir, disse:
— Não sei o que é mais engraçado. Se é a sua “ordem” – Enfatizou a palavra com deboche. – ou se é essa postura cheia de si, que, aliás, você anda tendo bastante nos últimos tempos...
— Sinceramente, Rada, isso não me importa nem um pouco. VAI ME DEIXAR IR. Chrysaor me levará até a casa de Aldebaran agora mesmo.
— E o que te faz pensar que eu lhe darei a permissão?
— Se não me der, eu contarei ao Grande Pai sobre o seu plano de ME LEVAR daqui.
Radamanthys empalideceu.
— O-ora... q-que bobagem... a-aquilo foi só um jeito de falar...
— Será mesmo? – O mais novo aproximou-se, braços cruzados em uma posição analítica. – Será que se eu contar o que você me propôs naquele dia, o nosso pai não vai descobrir NADA se investigar minha informação?
Sentindo a espinha gelar e todos os pelos de seu corpo se eriçarem, o primogênito deu uns passos para trás. CLARO que descobriria... havia transferido todos seus bens para uma conta fantasma. Todas operações estavam documentadas nos bancos...
— E você disse que o Diabo estava EM MIM. Vejo agora que ele está EM VOCÊ.
— Dê-me a autorização. – Insistiu Camus, insensível àquele comentário.
— Só se eu te acompanhar.
— Não. Você NUNCA MAIS chegará perto de Mikael. Aproxime-se dele, e eu JURO POR DEUS que conto TUDO a Hades.
De pálido o primogênito tornou-se vermelho. Dir-se que explodiria de ódio a qualquer segunda. Com voz tremida, tartamudeou:
— Autorização concedida.
Sem dizer mais nada, de cabeça erguida, como caberia ao vencedor de um embate, o Redentor saiu do quarto, deixando ali um homem esmagado pela fúria e pela dor. Assim que ouviu a porta se fechar, Radamanthys ganiu desesperado. Começou a quebrar tudo que havia na morada do irmão. Uivava de tal forma que nem os guardas do corredor tinham coragem de verificar o que se passava. Tanto mais porque por eles passavam, em marcha altiva e decidida, o Redentor, e atrás dele, o Arauto Chrysaor e a Sentinela June. Apenas um dos guardas afastou-se um pouco, tirando do bolso um celular. Fez uma ligação:
—Senhor Algol? Melhor vir até o Tabernáculo. É o seu irmão... não, não o Messias... o senhor Radamanthys!
*************
Aldebaran continuava liberado do trabalho nas plantações para cuidar de “Mikael”, cujo estado obviamente inspirava mais cuidados do que antes. Após fazer alguns serviços domésticos, foi até o quarto ocupado pelo policial. Queria ver como estava, antes de ir preparar o almoço.
Abriu a porta bem devagar, com medo de acordá-lo. O cômodo estava bem escuro, pois as cortinas haviam sido cerradas para que o jovem repousasse plenamente. Em meio àquela penumbra, considerou que Milo continuava adormecido. Chegou perto da cama e pôs a mão na testa do agente.
“Graças a Deus, nada de febre.”, pensou, o coração apertado em ver o amigo repleto de curativos no torso, ombros e no abdômen. Tinha também curativos nos braços, devido às arranhaduras dos cães. A origem daqueles ferimentos específicos não havia sido explicada por Milo ainda, mas ele notara um brilho nos olhos claros do Arauto que tratara as feridas. Este se retirara, sem nada sobre aquilo dizer.
“Chrysaor certamente sabe o que são aqueles machucados. Será que dirá a alguém sobre...”
Ouviu batidas na porta. Virou-se em um sobressalto. Saiu apressado, temendo que o barulho arrancasse o policial de seu necessário repouso. Ao abrir, quedou-se boquiaberto ao ver ali a esposa de Algol, o Arauto Chrysaor de volta... e o Redentor!
— Senhores... Messias... – Balbuciou surpreso o ex pastor. Temeu que seus receios de instantes atrás tivessem se concretizado. Contudo...
— Aldebaran, o Messias veio visitar Mikael. – O Arauto anunciou. – Suponho que ele ainda esteja dormindo, mas...
— Eu gostaria de vê-lo assim mesmo. – Fleumático, o Redentor completou.
Imediatamente, Aldebaran deu-lhes passagem.
— É claro, meu senhor! Entrem, por favor... er... são só vocês?
— Somos apenas nós. – Assegurou Chrysaor, a par do que o anfitrião queria dizer.
O ruivo não hesitou:
— Mostre-me onde Mikael está. Mas quero ficar a sós com ele.
— Perfeitamente! Por aqui... por favor, não repare a simplicidade de meu lar...
Camus sorriu de leve. As Ovelhas não imaginavam em que condições ele vivia... em instalações tão ou mais modestas que aquelas...
A porta rangeu um pouco quando o brasileiro a abriu.
— Ele está aqui. Por favor, fique à vontade. Se precisar de alguma coisa, é só chamar...
— Aldebaran – O grandalhão engoliu em seco ao ouvir seu nome na voz quase grave do Redentor. – Muito obrigado.
— O-ora, por nada, Messias! P-pode ficar despreocupado, ninguém irá incomodá-lo, viu? Fique o tempo que quiser.
O dono da casa fechou a porta. Após esperar uns segundos, Camus trancou-a. Ajustou a visão naquele ambiente escuro. Queria ver o rosto de “Mikael”, por isso, acendeu um lampião que encontrou sobre um antigo aparador de madeira. Segurando-o, aproximou-se do leito em que dormia o homem que o livrara do Auto de Fé.
O homem que trouxera luz à sua vida.
O homem que trouxera calor ao seu coração, permanentemente enregelado pela dor e pela solidão de seu fardo.
Depositou o lampião sobre a mesinha de cabeceira. A luz tremulou sobre o semblante plácido de “Mikael”. Ele respirava suavemente, os lábios carnudos entreabertos deixando entrever a linha perfeita de seus dentes alvos. Marcas e hematomas aqui e ali em nada comprometiam a beleza simultaneamente angélica e máscula que por tantas e tantas vezes contemplara em seus sonhos... em seus encontros... em suas lembranças. O olhar do Redentor então desviou-se para os curativos, que ocultavam parte do corpo moreno e vigoroso de que se lembrava. Camus ficou ali de pé, por muito, muito tempo... poderia d=ficar para sempre.
Por fim, em um sussurro emocionado, agradeceu:
— Obrigado, Mikael. Fique bem.
Gostaria de continuar velando o sono de seu “Anjo”. Mas... pensou em June. Em Chrysaor. Não seria propício fazê-los ausentarem-se demasiado de seus afazeres. Justamente quando ia se voltar para a porta, ouviu um profundo suspiro, o arremedo de um gemido seguido de um curto pigarro. Virou-se a tempo de ver as sobrancelhas aloiradas se contraírem debaixo da farta e anelada franja dourada... e de ver surgir o céu do mais esplendoroso azul que já vira nos olhos que se abriram lentamente.
— Uhn... ahh... Ca... Camus?
—Mikael!
O ruivo não se conteve; ajoelhou-se junto à cama.
— Eu te acordei? Me desculpe! Como você está? Sente alguma dor? Eu já estava de saída...
— Ei, ei, ei, calma aí… ahn... desde o colégio não ouço tantas perguntas de uma vez... – Brincou Milo, com voz fraca porém amistosa.
Confuso, o ruivo manteve-se em silêncio, somente olhando-o.
— Foi uma piada... não fica aí com essa cara... aliás, o que faz aqui?
— Vim ver como você estava.
— Você não deveria...
— Por quê? – A réplica veio em um tom decepcionado.
— Seu irmão... ele pode...
O falso messias pôs-se sua mão direita sobre a que o policial mantinha sobre o peito. Garantiu:
— Não se preocupe, ele está bem longe daqui. E não vai aparecer.
— Como sabe...?
— Apenas descanse. É tudo que precisa fazer agora.
A despeito da frieza da palma da mão do rapaz, o gesto contribuiu para que Milo se sentisse relaxado. Após tanta angústia, tanta opressão, tanta dor, tanto horror... aquela voz suave, aquele contato gentil pareciam acalmá-lo como nenhum sedativo o fizera. Deu-se conta de que Camus estava ajoelhado no chão.
— Não fica assim, vai ficar com dor nas costas, garoto. Pode se sentar na cama.
Ante o olhar de grande surpresa do ruivo, explicou-se:
— Não tem mais onde você se sentar aqui.
— C-certo – Concordou Camus, em um murmúrio. Sentou-se à beira do colchão, as palhas estalando-se pela pressão.
O policial e o falso messias encararam-se, como que procurando o que dizer. Camus foi o primeiro a quebrar o silêncio, desviando o olhar:
— Eu... e-eu sinto muito que você tenha passado por isso.
— Besteira. E você? Quantas e quantas vezes passou por ISSO?
Tornando a mirá-lo, o coração palpitando descompassadamente, o Redentor indagou:
— Como estão seus ferimentos?
—Chrysaor disse que tive sorte em estar com aquelas bandagens... acabaram protegendo de maiores danos...
— Mas você está tão ferido!...
— Nada sério, pode acreditar. Os curativos foram muito bem feitos, e os remédios que Chrysaor me deu quase não me deixam sentir dor alguma. – O loiro exagerava, no entanto não via serventia em dizer a verdade. Principalmente pela expressão consternada do visitante.
— Mikael... não precisa mentir para mim.
— Não é mentira!
— Eu... eu quero agradecer... agradecer pelo que fez... ninguém... ninguém NUNCA fez isso por mim... e-eu...
Em um gesto totalmente inesperado, Camus curvou-se sobre Milo e depositou-lhe nos lábios um beijo suave. Sobressaltado, o agente ergueu-se, sentando-se na cama e afastando de si o jovem.
— EI! O que... o que você TÁ FAZENDO?
— E-eu... eu estava beijando você...
— DEU PRA PERCEBER – Milo exaltou-se constrangido. – POR QUE fez isso?
Camus considerou-o, mais aturdido que envergonhado.
— Porque... porque queria te agradecer... e te fazer sentir bem. Meus irmãos sempre dizem se sentir bem quando fazem isso comigo. Então... achei que você também fosse... se sentir bem.
— Espera... você... você disse SEUS IRMÃOS? Seus IRMÃOS fazem ISSO com você?!?
Camus deu de ombros, como se não entendesse o estupor de “Mikael”. Agora totalmente desperto, Milo agarrou-o pelos braços. Mais que desperto, chocado.
— ME DIZ, Camus! Seus irmãos... seus irmãos também...
Foi calado por nova investida: desta vez, o “messias” atirou-se-lhe de tal forma aos lábios que Milo foi acometido de violenta vertigem. Entorpecido por aquele movimento súbito, caiu para trás, pelo torpor e pelo movimento incisivo de Camus. Milo sentiu-se imerso em um calor que há muito não sentia. QUERIA REALMENTE afastar o Redentor de si... no afã de fazê-lo, levou suas mãos aos braços do jovem, agarrando-os para efetuar seu intento. Mas a língua do outro ganhou mais espaço, ao mesmo tempo que o coração do policial disparava. Não entendia o que estava acontecendo. SABIA QUE ERA ERRADO. Porém... quando foi que provara lábios tão macios, tão doces, tão... inebriantes? Não, não, era a medicação, estava drogado, apenas isso.
Camus era um HOMEM.
Ele NÃO poderia sentir o que ESTAVA sentindo... tanto... tanto PRAZER... beijando um HOMEM, poderia? Algo queimava dentro de si, ignorava os ecos internos de “isto é errado, isto é errado, isto é errado!”
Sem abandonar-lhe a boca, sentindo-o totalmente à sua mercê, Camus subiu por cima do corpo do agente. Todos estes anos... todos obtendo dele satisfação, contentamento... eis que agora era ELE quem sentia isso. Gemeu dentro da boca de “Mikael”, sentindo-se pela primeira vez incendiar-se daquela forma:
— Uhnn...
Os dedos de Milo nos braços do ruivo afrouxaram-se para em seguida enterrarem-se ali com mais força. Não para afastá-lo, mas para mantê-lo ali. E... e por que agia diabos agia assim? Não deveria, não deveria, não...
Fazia tanto tempo!
Não.
Nunca fora DAQUELE JEITO.
Besteira! Era justamente porque fazia tempo... porque estavam ali sozinhos... na escuridão, no isolamento de um mundo de um pérfido que sempre quisera feri-los...
No que estava pensando, afinal?
O friccionar em sua virilha... o crepitar em suas entranhas... a pressão em seu baixo ventre... que importava que fosse um homem? Seu sexo há muito negligenciado despertava sob a túnica do Redentor, entre as pernas do Redentor.
Sem querer, gemeu lânguida e demoradamente na boca do falso messias, cedendo-lhe espaço para a exploração que inebriava-lhe os sentidos adormecidos cada vez mais e mais... na mesma cadência, Camus abria-se cada vez mais para ele... quando sentiu que a mão de Camus forçava-lhe o cós da calça de linho para baixo, o policial pareceu despertar daquele transe. Empurrou-o, enfim, libertando-se daquele amplexo completamente condenável.
— CAMUS! – Falou, trêmulo e ofegante. Seu corpo estava em chamas. Do “messias” recebeu um olhar tão confuso que chegava a parecer inocente.
Não, não parecia.
ERA inocente.
Para Camus, aquilo era NORMAL. Sempre havia sido. Ainda que aviltante, doloroso, torturante...
— Eu... eu machuquei você? – O questionamento, legitimamente preocupado, não deixava transparecer malícia alguma! Com os batimentos cardíacos descompassados, o fogo entre suas pernas, Milo respondeu em um balbucio débil:
— N-não... não foi isso... apenas...
Foi interrompido por um som conhecido.
Um estampido seco. E mais outro, E outro.
TIROS.
E então, rajadas de METRALHADORA.
— Que barulhos são esses? – Ajeitando-se, Camus perguntou, alarmado.
Em um salto, Milo saiu do leito; amarrou o laço da calça de linho. Inferno, e aquela ereção!...Pro inferno!
— Fique aqui. – Ordenou ao ruivo, assim que ouviu as insistentes batidas à porta.
Abriu-a, certo do que se tratava... deu de cara com um quase lívido Aldebaran:
— Milo, está começando! ELES CHEGARAM!
*************
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