Redentor
22 Ascensão - Ato I : Sangue sob o Sol
Notas iniciais
Em meio à inquietação provocada pelos estrondos incessantes vindos de fora, e, agora, a aparição de Aldebaran com os estranhos dizeres “Está começando, Milo”, Camus teve tempo de se atentar ao nome pronunciado. “Milo”? Por que Aldebaran chamara Mikael por este nome?
Detrás do ex pastor, surgiram as figuras assustadiças de Chrysaor e June.
— Está tendo um tiroteio! O que pode estar acontecendo? – O Arauto questionou.
Milo não respondeu. Preferiu dirigir-se a Aldebaran:
— Pegue a arma onde você a escondeu. O OUTRO objeto, deixe-o lá.
— Arma? – Surpreendeu-se o cingalês, arqueando as sobrancelhas grisalhas. – Você tem uma ARMA?
Helicópteros varavam os ares, podiam ouvir. Enquanto Aldebaran correu para fazer o que o policial ordenara, Milo passou a mão pela fronte suada.
— Mikael, o que está havendo? – Foi a vez de o Redentor perguntar.
Apressadamente, Aldebaran retornou com a pistola em mãos. Chrysaor arregalou os olhos quando o loiro apontou-a em sua direção.
— Espero que não fique no nosso caminho. Não quero ter que atirar em você. – o olhar bondoso de “Mikael” tornou-se estreito, ameaçador.
Rendido, o Arauto ergueu as mãos. Perguntou um tanto ríspido:
— Quem é você?
— Mikael?
Apontando a arma para Chrysaor, o agente resistiu ao impulso de olhar para Camus, que chamara-o. Limitou-se a dizer:
— Camus, por favor, apenas fique parado. Não saia de perto de nós sob hipótese alguma.
— Mas...
— Você também, June. Debas, precisamos traçar um plano de urgência. As coisas não saíram como estávamos planejando.
— Mas pelo menos o Redentor está conosco. – O brasileiro volveu, sua frase a conferir certo alívio à situação inesperada. Milo assentiu, suspirando de nervoso contido.
— Você... por acaso... você é um...
Um novo estrondo interrompeu a fala hesitante do falso messias.
— Bombas? – Berrou Aldebaran. – A polícia trouxe BOMBAS, Milo?
— São bombas de efeito moral. Querem dispersar a população para que não fiquem no fogo cruzado.
— Por que Aldebaran está te chamando de “Milo”? Seu nome mundano não é Michael?
— Porque “Mikael” é um ESPIÃO, Camus. Um POLICIAL! – Vociferou o Arauto.
— O... o quê?!?
O tom do ruivo doeu nos ouvidos do agente. Sacudiu a cabeça e procurou se concentrar no que devia. Continuou a apontar a arma para o cingalês.
— Debas, arrume cordas. Amarre Chrysaor. Deixe-o no sótão, trancado, até a confusão parar. June, você fica lá com Camus e Debas também. Preciso sair para ajudar meus companheiros.
— Tá maluco? Eu vou com você. Não vou te deixar sozinho!
— Debas, não tem arma pra você.
— Tenho a espingarda de caça no quartinho lá fora.
— Até você chegar lá, já pode ter sido alvejado. Os homens de Hades estão reagindo com tudo.
— Neste caso, arrumo outra AQUI mesmo. Quer ver?
O brasileiro pôs-se a revistar o Arauto rendido. Não demorou para achar o que queria: um revólver. Milo arregalou os olhos.
— Aiyana já havia comentado comigo que os Vigias e Arautos andam armados, pois devem sempre zelar pelo Grande Pai e pelo Redentor.
Do rosto vitorioso do amigo, o olhar atônito de Milo desviou-se para o sério do Arauto. Quis saber, com real curiosidade:
— Por que não usou sua arma contra mim, enquanto Debas foi buscar esta pistola?
Para a surpresa do agente, Chrysaor sorriu de modo cúmplice antes de responder:
— Talvez porque eu queira o MESMO que você, policial.
Ante a visível perplexidade de Milo, June tomou a liberdade de esclarecer:
— Chrysaor é o melhor amigo de Albior. E há tempos não concordava com os desmandos da Alta Cúpula.
— Já faz tempo que o Vale se corrompeu. A prova é o que houve com Albior. Quero libertá-lo. – Afirmou, com uma firmeza inabalável.
Milo sorriu-lhe.
— Não se preocupe, meus amigos vão tirá-lo da prisão. Prefiro que fique aqui com June e...
— E-eu não entendo... o que está acontecendo? – O Redentor deu uns passos para trás, levando as mãos trêmulas para trás das orelhas. Por mais que o momento fosse de ação imediata, Milo fitou-o longamente antes de sentenciar:
— O fim, Camus. O fim da Aurora do Novo Porvir.
*************
*** MOMENTOS ANTES ***
Algol saltou do jipe em que funcionários de Radamanthys haviam ido buscá-lo na sede da comunidade. Entrou apressado no Tabernáculo e ganhou o corredor que conduzia aos fundos da imponente edificação. Lá ficava a morada do Redentor, diferentemente de todo o lugar, simples o suficiente para imprimir no jovem messias a certeza de que sua existência prestava-se a servir aos outros. O que estava acontecendo de tão sério com Radamanthys para que chamassem logo ELE, sempre menosprezado, sempre deixado de lado nas mais diversas resoluções? Deteve-se ao ouvir o toque do celular. Diabos, o que era agora?, pensou, irritado.
—Sim? O quê? AQUI? Mas... eles não podem... como?!? NÃO, NÃO OS DEIXEM ENTRAR, de jeito nenhum! ATIREM, se for preciso! – Berrou, apavorado. – Resistam o quanto puderem! Vou contactar o meu pai e...
Então, veio a inacreditável notícia. Lágrimas começaram a verter, quentes, furtivas, pelo seu rosto petrificado. Sua voz converteu-se em um quase balbucio infantil:
— Não pode ser... o meu pai?
Como aquilo poderia ser possível?
HADES, PRESO?
— E-eu… eu preciso avisar o Rada… – disse, rouco, de forma quase inaudível. – Defendam a nossa Terra Santa. Nós vamos lutar ATÉ O FIM contra esses malditos infiéis. Não desistam...
Desligou. Um tremor apossou-se de seu corpo de tal modo que ele se sentiu estilhaçar. Retornou ao seu trajeto, em uma corrida agora mais frenética.
— RADA! RADA!!! – Gritou, assim que adentrou o quarto de Camus. O mais velho chorava, desolado, convulso no chão, onde jaziam objetos quebrados, pedaços de cadeiras destruídas, um vaso arrebentado sobre a água na qual tinham repousado flores brancas e amarelas. Tudo revirado, caótico... e... Radamanthys... Radamanthys parecia fora de si! Jamais o vira naquele estado, o irmão era um exemplo de fortaleza emocional!
Ajoelhou-se próximo a ele, e o abraçou, mais para contê-lo do que por afeição.
— Rada, o que foi? O que houve aqui? Você fez isso? Onde está Camus?
Foi como se Radamanthys sequer reconhecesse o caçula: aparvalhado, olhou-o demoradamente, soluçando com dificuldade dolorosa.
— Rada, eu PRECISO que fique firme! Estamos com problemas sérios! Por favor, fique comigo!!!
Sem obter reação favorável do irmão, Algol gritou, sacudindo-o:
— A POLÍCA ESTÁ INVADINDO O VALE, Rada!!! Estão nos atacando!!! Vieram nos destruir! Está ouvindo? Nós precisamos lutar!
— Q-que... que está dizendo...? – O primogênito principiou a emergir de seu choque, rumo a uma revelação ainda mais chocante:
— E isso não é tudo... a-acabaram de PRENDER o nosso pai no aeroporto. Rada... PRENDERAM HADES. E agora INVADIRAM a nossa comunidade...!!!
As córneas de Radamanthys cintilaram, subitamente úmidas, seu olhar novamente desfocado não pela dor, agora, mas pelo horror:
— Ele... ele disse que isso aconteceria.
— Ele?... ele quem? Quem disse o quê?
—Mikael – A resposta, em tom sombrio, fez ambos se arrepiarem dos pés à cabeça.
Radamanthys pareceu recuperar o controle. Ergueu-se; aprumou-se antes de dizer:
— Minhas armas estão na minha pick-up. Precisamos ir até a casa de Aldebaran.
— De Aldebaran? Mas por quê? – Estranhou o mais novo, pondo-se de pé com prontidão,
— Camus está lá. Com Mikael. Tenho certeza de que ele vai entregá-lo à polícia. Podem até MATAR o nosso irmão!
Algol arregalou os olhos, aterrorizado. Rosnou:
— Eu mato a todos antes!...
— Vamos JÁ. Deus é conosco. – Renovado pela força do ódio, Radamanthys recobrou a costumeira altivez. – A vitória será NOSSA! Mas antes... preciso PUNIR algumas pessoas por isso...
*************
Malgrado minutos antes intenso rubor tivesse alastrado-lhe pelo rosto, Camus empalideceu. O instinto fê-lo dar mais passos para trás. O que Mikael dissera? Que era o FIM da Aurora do Novo Porvir? Aliás... o loiro não acabara de ser chamado por outro nome, por Aldebaran? “Milo”? Mas o nome mundano de Mikael não havia sido Michael Segerson?
Percebendo a confusão e o temor no semblante do falso messias, o policial anunciou, com voz branda, porém firme:
— Camus, eu não tenho como te explicar tudo agora. Mas...
— É CLARO que vai me explicar! – Cortou-o, assustado. Com os barulhos e os gritos lá de fora, com as expressões estranhamente suspeitas, nos rostos das pessoas em que mais confiava, mas, principalmente, com as palavras do homem que há pouco beijara.
— Camus...
Como se a voz de seu Anjo agora lhe ferisse os tímpanos, cobriu os ouvidos, ao mesmo tempo em que demandou, à beira da fúria:
— O que você quis dizer com “o fim da Aurora do Novo Porvir”? Quem é você? O que está acontecendo?
June interveio, no afã de tranquilizá-lo:
— Camus, você precisa confiar em Mikael... em... em Milo. Ele está aqui para nos ajudar. Faça o que ele mandar!
O ruivo mirou-os, como quem tivesse diante de si loucos perigosos. Aproximou-se da janela. Afastou as cortinas e deparou-se com um cenário horripilante: homens, mulheres, crianças, corriam de um lado a outro, em total pânico, seguranças brandiam armas e atiravam, acertando colonos no processo de defender a Terra Santa, fumaça branca se espalhava no ar como uma antiga praga que assolasse seu lar. Gritos, clamores, súplicas, imprecações constituindo o fundo sonoro daquele pesadelo. Murmurou, apoiando-se no batente para não cair:
—É... é o Apocalipse?... o… o Juízo Final?
Com extrema cautela, Milo aproximou-se dele.
— Não. É a LIBERTAÇÃO dessas pessoas. É a SUA libertação, Camus.
— A... a libertação? Eu não entendo... o meu povo está sofrendo...
— Eles naturalmente vão resistir. Estão tão assustados quanto você. Mas a polícia está aqui para resgatar essas pessoas.
— Então... você é um policial? Um dos mundanos que perseguem o meu pai?
— Hades é um criminoso, Camus. – Milo suspirou, nervoso com o nervosismo do rapaz. – Olha, eu prometo que explico tudo depois. Preciso ir ajudar meus companheiros. Você fica aqui com a June. Vão para o sótão, estarão mais protegidos.
Neste exato momento, um tiro atingiu a vidraça da janela: Milo atirou-se sobre Camus, protegendo-o dos estilhaços que explodiram no ar. Em um ato mecânico de autopreservação, os demais também se jogaram ao chão.
— FIQUEM ABAIXADOS! June, é por ISSO que vocês têm que ficar no sótão – Insistiu o policial, enérgico. – Aqui não é seguro... estarão bem na linha de tiros.
Abaixo dele, o ruivo debateu-se, revoltado:
— É ASSIM que a polícia quer “nos salvar”? Atirando em nós?
Encostando no canto da outra janela, Chrysaor analisou:
— Não estão atirando em nós. Os seguranças do Vale estão reagindo com violência à invasão policial. Estão atirando a esmo, praticamente!
— Desse jeito, inocentes serão atingidos... – Balbuciou June, com as mãos na boca.
— “Serão”, não... já estão sendo! – Exasperou-se Milo, verificando a munição da pistola. – Debas, vai ter que ir até o quartinho de caça pegar sua espingarda. Eu te dou cobertura.
— Certo – O brasileiro assentiu.
— Procure orientar os colonos a se protegerem e a evitarem confrontos. Mas tome cuidado.
— Pode deixar.
— Devolva a arma ao Chrysaor. Ele ficará aqui para proteger Camus e June.
— Vai mesmo confiar em mim? – O Arauto indagou.
— Eu JÁ confio em você.
Percebeu uma mirada estupefata do jovem ruivo; apressou-se a explicar:
— Preciso garantir a segurança do Debas até ele pegar a espingarda, e, depois, terei de me juntar aos meus companheiros para guiá-los pela propriedade.
Chrysaor não pôde deixar de aconselhar:
— Tenha cuidado, policial. Os guardas do Vale são orientados a atirar em qualquer invasor, sem exceções... quando virem você com a polícia, vão atirar em você sem pestanejar.
— Não se preocupe, já enfrentei situações semelhantes, e com gente bem mais experiente.
Camus sequer se manifestava, tamanho o seu estupor. Incerto sobre o que mais lhe dizer, Milo optou por garantir:
— Eu volto assim que der as coordenadas aos rapazes. Eu PROMETO.
O ruivo encarou-o, sem saber o que sentir nem responder. Sentia-se vazio, sua mente estava em branco.
Enfim, Milo evadiu-se do recinto, acompanhado pelo ex pastor.
— Vocês ouviram o agente, vamos para o sótão.
O ruivo estacou. Chegou a resistir quando o Arauto foi conduzi-lo:
— Eu não vou me esconder quando o meu povo está sendo perseguido!
June cedeu à impaciência, fruto da tensão:
— O único que persegue e oprime o povo é o próprio Hades, Camus! A polícia está aqui para libertá-lo!!!
— J-June...
Novo estrondo, desta vez na sala da cabana. Algo havia sido atingido por tiros.
— Vamos, precisamos ir logo lá para cima! – Chrysaor conclamou, puxando o Redentor, June auxiliando-o. O rapaz resistia por puro instinto. O estado de choque em que se encontrava nublava-lhe o pleno entendimento.
Do lado de fora, o verdadeiro pandemônio instalara-se. Pessoas correndo desordenadamente, desnorteadas com trouxas às costas, outras caídas no chão, gritos e mais gritos... Aldebaran, chocado com o que via, acabou antecipando o que lhe fora ordenado fazer DEPOIS de estar com a arma nas mãos:
— VÃO PARA SUAS CASAS! OU PARA OS ALOJAMENTOS, OU PARA OS REFEITÓRIOS! PRECISAM SE ABRIGAR!
Um dos colonos, acompanhado da família chorosa, retrucou, colérico:
— Que está dizendo? Precisamos FUGIR! Os mundanos querem acabar conosco!!!
— Isso não é verdade...
— Debas, CONTINUE! – Milo demandou.
Mas ele prosseguiu em sua tentativa:
— ... vocês precisam se proteger! Eles estão aqui para nos ajudar!!!
Um homem próximo às pessoas que discutiam com Aldebaran brandiu uma pistola na direção do brasileiro:
— Então VOCÊ ESTÁ DO LADO DELES?
Teria acertado, se Milo não fosse mais rápido. O vigia, atingido certeiramente entre os olhos furiosos, tombou sem vida. Os demais fiéis saíram em disparada, afastando-se. Aterrado, Aldebaran virou-se para o amigo, que simplesmente deu de ombros.
— Era ele ou você. Preferi que fosse ELE. – Disse, com naturalidade. Apressou-se em arrematar a pistola do baleado.
— Debas, vai ter que fazer o que é PRECISO... OK?
A resposta veio em um fio de voz trêmula:
— O-OK...
Alcançaram o quartinho de caça; Aldebaran tomou sua espingarda, munindo-a com generosidade.
— Não tente argumentar com ninguém, Debas, apenas fique VIVO.
Milo apertou o ombro do amigo, enquanto fazia a recomendação. Que não fosse a última!...
— Não se preocupe. – Sorriu o brasileiro; juntava coragem como quem enche de ar os pulmões, antes de mergulhar em águas profundas.
— Boa sorte! – Foram as últimas palavras de Milo antes de correr em direção oposta à que iria o ex pastor, que sussurrou quase em uma prece:
— Que Deus o proteja, agente...
Milo lançou-se a uma corrida frenética pelos prados, uma pistola em cada mão, sem reservas quanto a seguir seu próprio conselho.
Fazer o que fosse preciso.
Atirava nos homens que via trocando tiros com os policiais, devidamente paramentados para o combate aberto. Isso fez com que ELE fosse adicionado aos alvos dos guardas da comunidade. Sob repentino ataque frontal, Milo abrigou-se rapidamente detrás de um carvalho, a dor consumindo seu corpo de forma traiçoeira. Não tinha, porém, tempo de ater-se àquilo. Cerrando os dentes, atirou-se à relva, rolando e disparando as duas pistolas em seu poder. Quatro homens caíram, mortalmente atingidos.
Era preciso avançar.
Viu Ovelhas sendo alvejadas por estarem na linha de tiros. Gritou o mais alto que podia:
— ABAIXEM-SE! SAIAM DO CAMPO ABAIXADOS! PROCUREM UM LUGAR PRA SE ABRIGAREM!!!
O desespero, contudo, impelia as massas a fugir aleatoriamente, o que resultava em morte para alguns.
— Deus, NÃO ERA pra ser assim! – Resmungou, acertando outro guarda que tentou abatê-lo.
Considerava que seus companheiros tivessem a MESMA resolução. O fanatismo, porém, impelia os vigias e muitas outras pessoas a destinos fatídicos! Os guardas eram claramente orientados a darem suas próprias VIDAS em luta pelo Vale, haja vistas as investidas suicidas no afã de resistirem aos policiais.
— MILO! É VOCÊ!!!
— SAGA!!!
O amigo surgiu diante dele como uma aparição mais sonhada do que esperada. Aiolia e outros deram cobertura para que os dois se comunicassem propriamente:
— Puta que pariu, cê demorou! Achei que só fosse chegar pro Natal, porra... – Riu Milo, ofegante e suado. A adrenalina cuidava de poupá-lo de dores, mas isso não impediu que Saga exclamasse, espantado:
— Você está FERIDO!...
— Isto não é nada, eu tô bem.
— PORRA NENHUMA! Precisa receber socorros agora mesmo...
— NEM FODENDO, Saga, preciso GUIAR vocês!
Célere em sua reação, o promotor acertou um homem que tentara balear Milo. Este escapara graças aos reflexos ainda intactos, e à inépcia do fiel. Uma súbita vertigem, contudo, fê-lo cair ao chão. Saga adiantou-se para ampará-lo:
—Milo, está MUITO ferido...
— N-não é de hoje... escuta... eu... – Sua vista escureceu.
“Não, não é POSSÍVEL, NÃO É POSSÍVEL QUE EU VÁ DESMAIAR AGORA...”
*************
No sótão da casa de Aldebaran, Camus e June mantinham-se em silêncio, sentados sobre o empoeirado assoalho de madeira. Chrysaor montava guarda no topo da escada, arma empunhada contra qualquer surpresa desagradável. Torcia ardentemente para que a polícia adentrasse o lugar, que tudo aquilo tivesse um fim. Não obstante, os barulhos que vinham lá de fora frustravam seus anseios. O Arauto SABIA que alguém chegaria.
Temia que não fosse a polícia.
*************
Enfraquecido e, agora, fustigado por incríveis dores no peito, Milo disse a seus companheiros:
— Prestem atenção... e-eu preciso dar logo as coordenadas a vocês, para voltar a um lugar... onde está o Redentor...
— O Redentor? Você SABE onde ele está?
— Em uma... cabana... longe daqui... está com uma pessoa de confiança, mas prometi voltar para ajudá-los...
Saga percebeu que o amigo estava à beira de um desfalecimento de pura exaustão. Mas conhecia-o o suficiente para não perder tempo com tentativas de demovê-lo de uma ideia:
— Nós entendemos, Milo. Dê-nos as coordenadas necessárias e prontamente irei contigo.
— Certo. – Cercado por policiais, apontava em cada direção mencionada. – O mais urgente... a prisão... tem gente bem machucada lá... talvez MORTA...
— Uma prisão? – Repetiu Aiolia, erguendo as sobrancelhas de perplexidade.
— Veem aquelas elevações rochosas ao pé das montanhas repletas de pinheiros? Há um complexo formado por grutas, cavernas, transformado num lugar pra onde são enviados aqueles que, em algum momento, infrigiram os ditames do louco do Hades... os prisioneiros inclusive são... t-torturados...
— Cristo – Balbuciaram alguns homens.
Milo continuou, o indicador em riste para a direção de onde as equipes acabaram de ter vindo:
— A uns duzentos ou trezentos metros da entrada... à esquerda de quem entra... há uma estrada de terra batida... se percorrerem uns 800 metros, vão chegar à sede da comunidade. É um casarão estilo vitoriano, cercado de jardins...
Tossiu um pouco. Virou-se para frente:
— Se seguirem uns 10 km, sempre acompanhando aquele rio, poderão avistar o Tabernáculo. É como o nome diz, uma construção aos moldes de um tabernáculo bíblico, só que enorme... e de concreto...
— Tá de sacanagem...
Ele apenas balançou negativamente àquela exclamação incrédula de Aiolia, e acrescentou, cansado:
— Na sede e no Tabernáculo é onde encontrarão mais evidências e provas de toda sujeirada que ocorre neste lugar... quando Hades... está na propriedade, é onde ele fica... e o filho...
— Filho? Que filho?
Os olhos de Milo turvaram-se; nem pareciam aqueles olhos luminosos da cor do céu de verão. Dir-se-ia um mar revolto, encrespado, sombrio.
— O Redentor...
— O QUÊ?
— O… o Redentor… é filho do...
— MILO! – Saga sacudiu-o pelos ombros, tanto pelo choque da revelação quanto para mantê-lo desperto. – Está dizendo que HADES É O PAI DO RAPAZ DO VÍDEO?!?
— Por favor – disse entre dentes, apertando as pálpebras nervosamente – Precisamos agir RÁPIDO...
Os policiais entreolharam-se por alguns segundos. Quase todos seguranças do Vale haviam sido dominados: muitos presos, muitos mortos…
Amparando o agente quase sem ar, Saga bradou aos seus subordinados:
— Vocês ouviram o Milo! Lewis, Trevor, Silva, peguem os carros com mais homens e vão para a sede. Acionem a Polícia Rodoviária para acobertar as estradas. Aiolia, Tony, Alves e Smith, vocês fazem o mesmo, mas vão para o Tabernáculo. Comuniquem os pilotos do Eagle I e II. Eu vou com Milo até onde está o tal rapaz.
— Certo, chefe! – Explodiram as vozes em uníssono.
O promotor ainda encontrou tempo de inteirar seu amigo da grande boa nova:
— Pegamos Hades, Milo.
— É... é sério?
— Sim. Vamos, te conto mais depois!
Milo e Saga entraram em um dos carros, no qual havia mais dois policiais, e rumaram para onde Milo ia indicando.
— Caralho, cara, VAI MAIS RÁPIDO – Berrou, nervoso.
O policial que dirigia apenas olhou para o promotor, que assentiu, corroborando com a ordem desesperada.
*************
“Radamanthys SABE que Camus estaria aqui... mas assim que ele aparecer ao pé desta escada, estará MORTO”, planejava Chrysaor, quase abdicando de piscar.
Dentro do compartimento, June compadeceu-se do cunhado, cujo olhar estático perdia-se no nada.
— Camus... escute, vai ficar tudo bem... acredite...
Este apenas fitou-a, sem vontade de responder coisa alguma. Sentia-se oco, raspado por dentro, seus pensamentos tinham-no abandonado como aves fugitivas de um vasto viveiro. Seu óbvio estado de alheamento preocupou a loira sobremaneira. Um barulho no pavimento inferior fê-la sobressaltar-se.
— Alguém entrou na casa – Chrysaor sussurrou para o interior do sótão; voltou a ficar atento para a parte de baixo. Segurava sua pistola firmemente. Não chegou a se surpreender ao ver as abjetas figuras de Algol e Radamanthys. Também eles portavam armas.
— PAREM AÍ MESMO! Ou eu JURO POR DEUS que vou ATIRAR!!! – Anunciou o Arauto.
Os irmãos entreolharam-se. Algol ergueu as mãos, um sorriso pérfido nos lábios ao retrucar:
— Nós somos DOIS, e você é UM só, traidor. Sabe como isso vai terminar... com a SUA morte.
— Pode até ser! Mas vou levar PELO MENOS um de vocês comigo! Querem arriscar para saber quem será?
Radamanthys e Algol pareceram hesitar. O mais velho, sem deixar de empunhar a arma na direção do cingalês, propôs:
— Não precisa acabar assim. Nos entregue o nosso irmão e você nada sofrerá. Eu prometo.
— Ele não está aqui!
— Então o QUE é que você protege com tanto empenho, hein? Vou adorar saber... – Radamanthys começou a subir vagarosamente a escada.
— ESTOU AVISANDO, RADAMANTHYS! SUBA MAIS UM DEGRAU E EU ATIRO!
— Calma... eu só quero fazer um acordo contigo... posso até te PAGAR. Vai viver com tranquilidade pelo resto da vida... basta que mande Camus descer...
Um estampido seco ecoou, fazendo June levar as mãos à cabeça. Camus ergueu-se alerta.
— CHRYSAOR! Ele corre perigo! June, eu preciso me entregar!...
— NÃO, Camus! – Ela o agarrou com os dois braços.
O sangue desceu em profusão pelo ombro de Radamanthys. Antes que a primeira gota tocasse o chão, o som de um segundo tiro fez-se ouvir. E de um terceiro... e... um quarto...
Instintivamente June gritou; gritou ainda mais ao ouvir o som de algo pesado rolando pela escada de madeira.
O corpo sem vida de Chrysaor tombou no final dos degraus. Segurando o ombro com força, Radamanthys virou-se para o irmão, autor dos disparos que vitimaram o médico chefe do Vale.
— Muito bem, Algol. Você foi incrível.
— É a primeira vez que ouço isso da sua boca. – Volveu, orgulhoso, o caçula de Hades. E, em seguida – Deixa eu ver esse ferimento...
— Não é nada. Foi um tiro de raspão. Só preciso estancar o sangue...
Ele mesmo arrancou de si a camisa xadrez verde escuro e a amarrou bem firme no local atingido. Feito isto, berrou:
— CAMUS! Sabemos que está aí em cima! E que não está sozinho...
O ruivo e a loira entreolharam-se apavorados.
— Se não quiser que a puta da minha esposinha caia morta aqui mesmo, juntinha do Chrysaor, SAIA DAÍ. – Foi a vez do caçula demandar. – Desça AGORA MESMO!!!
— Está bem! Eu vou descer! – Sem pestanejar, Camus gritou em resposta. Fechou os olhos com força, assimilando com dor a morte do Arauto.
— Camus, NÃO! Não vá!!!
— Você ouviu, June! Eles... eles MATARAM Chrysaor... não quero que você...
— Se nos fizer subir, vamos abrir um buraco na cabeça dessa vadia!!! – Tornou a ameaçar Algol.
— Apenas venha, Camus. Sabe que só queremos o seu bem! – Radamanthys completou.
Trêmula, porém decidida, June pegou uma enxada encostada em um canto.
— Eu prefiro MORRER com Chrysaor a deixar você se entregar a eles – Bufou, chispas de fúria crepitando-lhe nas íris azuladas.
— June, não! – A luta de Camus agora seria para que a cunhada NÃO saísse por aquela porta. Quando ouviu o ranger contínuo nos degraus de madeira, o ruivo evocou uma força que julgara extinta de si: empurrou June para os fundos do sótão, onde havia uma portinhola aberta.
— CAMUS! O que está fazendo?!?
Atirou-a ali dentro, fechou a porta e puxou o trinco com celeridade.
— Camus! NÃO! ME TIRA DAQUI!!!
Ele tornou os olhos para onde a jovem tinha pegado a ferramenta. Havia outros instrumentos ali... escolheu um facão um tanto enferrujado. Deixou o compartimento, apontando a faca para o próprio peito. Radamanthys e Algol congelaram ao vê-lo.
— C-Camus! O que vai...
— Eu disse que ia descer. Fiquem aí embaixo. Se fizerem um único movimento para subirem, eu vou CRAVAR esta faca no meu coração. – Anunciou, friamente.
Engolindo em seco, or irmãos do Redentor fizeram conforme o ordenado. Desceram alguns degraus lentamente... novamente, estavam no térreo.
— Muito bem. Agora você pode soltar essa faca. – Sentenciou Radamanthys, com voz calma.
— Não. Só vou largar quando estivermos FORA desta casa. NÓS TRÊS.
— Não vamos sair os TRÊS daqui, Camus.
— Hã?
— Do que você tá falando, Ra... – Algol paralisou ao ver o mais velho encostando-lhe o cano da pistola na testa. – ... o... o q-que...
— Obrigado por ter me salvado, irmãozinho. Talvez por isso, pode até ser que você realmente vá para o céu.
Radamanthys disparou, o sangue espirrando sobre Camus, que, no grande susto, deixou a faca cair no chão. Foi a deixa para o primogênito agarrar o falso messias pelo braço.
— V-você... você... você matou...
— Não tenho certeza. MELHOR TER.
Deu mais cinco tiros no caçula de Hades, dois na cabeça, um entre os olhos e dois no coração.
O grito de Camus pareceu ecoar pelo mundo, pelo seu mundo, estilhaçando-o como em um sonho que julgara há muito esquecido. Seu corpo dobrou-se para frente, sem contudo conseguir apartar-se do mais velho.
— Agora sim, ele está morto.
— P-por... por quê?... – Balbuciou o Redentor, completamente horrorizado.
— Hades está preso – Sussurrou-lhe ao ouvido – Algol está morto, Agora seremos só EU e VOCÊ... como ERA PARA SER.
Ante as desesperadas tentativas de Camus para dele se desvencilhar, Radamanthys não viu outra alternativa senão desacordá-lo. Deu-lhe uma coronhada na nuca, com o que o ruivo perdeu os sentidos.
— Quem diria que o seu amado “Anjo” iria facilitar tudo para mim. – Sorriu, abaixando-se para pegar as armas de Algol e de Chrysaor. Guardou-as consigo, antes de abaixar-se para pegar o irmão desmaiado. Jogou-o por cima do ombro, rangendo os dentes de dor. Deixou a cabana, dirigindo-se para a pick-up estacionada em frente à porteira do sítio de Aldebaran. Abriu a porta de trás do veículo e pôs o jovem deitado no banco traseiro.
Do carro que se aproximava da habitação, Milo flagrou a ação. Gritou, alarmado:
— Merda, é ELE!
— Quem tá colocando o rapaz no carro?
— É o irmão maluco dele, o cara que me açoitou!
— Você foi AÇOITADO? Então esses curativos... bem que eu...
— Isso não vem ao caso, não podemos deixar ele levar o cara, Saga!!!
— Ele NÃO vai levar – O motorista deu uma fechada na pick-up que saía.
Pelo auto falante, Saga ordenou:
— PARE O CARRO! SAIA AGORA MESMO! E mãos para cima!
Um momento de hesitação. Então o veículo azul deu ré e manobrou descuidadamente, arrancando em seguida.
— Mas que filho da puta! – Enfurecido, o promotor disse ao comunicador – Rapazes, uma pick-up azul marinho está indo em alta velocidade na direção de vocês. NÃO A DEIXEM PASSAR!
— Saga, o que vai…
— Atirem nos pneus! E destaquem o atirador de elite para...
— NÃO! – Apavorou-se Milo, arrancando o comunicador da mão do amigo. – Camus está naquele carro! Se Radamanthys bater ou capotar...?
— “Camus”?
— É o nome do Redentor!
— Certo. Pessoal, mudança de planos; NÃO atirem. Há um REFÉM no veículo. Repetindo, NÃO ATIREM!
— Ao que parece, quer pegar a estrada – Intuiu Milo. – Mande apenas que sigam o desgraçado!
Saga assentiu, um tanto impaciente. Complementou:
— Não percam a pick-up de vista. Apenas a sigam, até descobrirmos para onde o louco está indo. Repetindo, APENAS SIGAM, NÃO ATIREM! As estradas estão cercadas, o miserável não vai conseguir avançar.
Por sua vez, Radamanthys, em seu delírio, não concebia se entregar, e muito menos entregar o irmão. Sem Hades nem Algol, tudo quanto possuíam em bancos do mundo inteiro seria DELE, e APENAS dele. Assim como o Redentor. Bastava que conseguissem sair do país, ele e Camus.
A Floresta do Maine era a resposta.
Lá havia um aeroporto clandestino, com monomotores para o transporte de armas, explosivos e demais cargas ilícitas destinadas ao Vale da Aurora Dourada. Em uma das aeronaves chegariam ao Canadá. Depois, Groelândia... e de lá... ganhariam o MUNDO...
NADA poderia detê-lo.
NADA.
Avançou sobre agentes e viaturas, vendo que nada faziam para impedir-lhe a escapada.
Um sinal de Deus.
Um livramento de Deus.
Nada poderiam contra ele!!!
A ausência de tiros comprovava sua tese. Gargalhou loucamente, certo de que estava fadado ao sucesso. Tudo que os mundanos faziam era lançar-se ao seu encalço.
O Salvador do mundo estava com ele.
E assim seria até o fim dos tempos.
Ganhou a estrada, rindo feliz. No entanto, na direção para a qual seguia, viaturas emparelharam-se, formando uma autêntica barreira. O que era aquilo? Como ousavam pôr-se no caminho do único herdeiro da Aurora do Novo Porvir? O Cristo desta era estava com ele! Viu dezenas e dezenas de policiais saírem dos carros, armas a postos na direção da pick-up.
— Malditos, malditos, DEMÔNIOS! – Freou bruscamente.
Que era aquilo... HELICÓPTEROS?
Por quê?
Aqueles malditos… aqueles infiéis já não detinham seu próprio mundo? Por que se metiam com coisas SANTAS, POR QUÊ?
— SAIA COM AS MÃOS PARA O ALTO!! – A ordem retumbando no auto falante fez Radamanthys mordeu o lábio inferior com tanta fúria que prontamente abriu ali uma ferida. Virou-se para trás; contemplou o irmão, que recuperava a consciência. Sorriu um sorriso maníaco.
— Você não poderia acordar em melhor hora, irmãozinho...
Saga e Milo alcançaram o local onde haviam conseguido parar o fugitivo.
— Tem alguém SAINDO da pick-up... Saga, REFORCE para que NÃO atirem!!!
— Atenção, a ordem para que NÃO abram fogo permanece inalterada! – demandou o promotor.
— Essa não... – Balbuciou Milo, ao ver Radamanthys saindo da pick-up ao mesmo tempo que brandia uma pistola para o interior do carro.
O que mais temia aconteceu; a porta traseira abriu-se. Viram sair a exótica figura do Redentor.
— Camus – O murmúrio de Milo saiu dorido, quebrantado.
— Ah, merda, ele VAI MESMO fazer o cara de refém!...
— Eu não acredito! Radamanthys é LOUCO... mas fazer o PRÓPRIO IRMÃO de refém...
Saga virou-se para ele, atônito.
— “Irmão”? Espera… aqueles dois… SÃO IRMÃOS?
Milo passou a mão pelo rosto, a vertigem voltando.
— Cara... é muita coisa pra vocês saberem... mas sim... são...
— Puta que pariu. – E o promotor nem era de xingar...
Os dois policiais saíram enfim da viatura. Tomaram o cuidado de não apontar arma alguma para o homem que tinha a cabeça do falso messias na mira.
— ESCUTEM, MUNDANOS, PORCOS IMUNDOS! Vocês já conseguiram o que queriam! Prenderam meu pai, mataram nossos irmãos, destruíram nosso lar! – O silêncio que reinava permitiu que os berros de Radamanthys ecoassem pela estrada. – Agora vão me deixar sair daqui com o MEU irmão! Caso contrário, eu O MATAREI! E depois me MATO em seguida!!!
— Rada, se você fizer isso, irá para o inferno. – Camus murmurou, sob o amplexo homicida do próprio irmão. – O suicídio é o único pecado que NÃO pode ser perdoado...
— Uma vida sem você JÁ SERIA um inferno para mim.
O ruivo rememorou, com voz embargada:
— Você matou nosso irmão...
— Ele pagou por tudo que fez a você. E ele não foi o único... – Riu baixinho de modo demente. – Pandora e os filhos dela TAMBÉM estão mortos...
As pernas de Camus estremeceram. Suas córneas queimaram pelas lágrimas que as banharam imediatamente.
— Eu não acredito – Ciciou. – Pa...Pandora... I-Ikki... Shun... e-eles... os meninos eram SEUS filhos também!!!
— Só você me importa, Camus. Só você – Encarou-o, uma convicção febril flamejando nos olhos ambarinos, sua voz doce como quem promete as maiores venturas a quem se ama. Sua expressão transformou-se ao ouvir a voz de seu maior inimigo:
— RADAMANTHYS! Desista, você não tem para onde ir! Abaixe a arma... liberte Camus!
— NEM PENSAR, seu farsante... demônio disfarçado de anjo – Agarrou Camus violentamente pelo pescoço, forçando a pistola na fronte do ruivo. – VOCÊS é que vão desistir. Ou Camus morre AQUI, COMIGO!
Milo crispou os punhos sob revolta incandescente. Lágrimas ardentes nublaram-lhe a visão, as dores desaparecendo como as brumas em uma manhã que se aquece subitamente. Não, não era possível que Camus havia passado por tantos horrores, por TODA UMA VIDA, para morrer ALI, pelas mãos do próprio irmão, quando a vitória sorria para toda a corporação, para toda uma nação que se arvorava a terra da justiça. Atirou sua arma ao chão.
— Milo, que está fazendo? – Berrou Aiolia, aflito.
Indiferente aos chamados dos companheiros, Milo elevou a voz, caminhando lentamente para os dois filhos de Hades.
— Radamanthys, fique calmo. Está tudo bem. Tudo bem. Vamos deixar você IR. Pode ir para onde quiser... só não machuque Camus...
— Milo, o que...
— Espere um pouco, Saga, sei o que estou fazendo.
Todos pareceram mergulhar em um estado de animação suspensa. O agente Hatzis dirigia-se, desarmado, para o primogênito de Hades. Este bufou nervosamente antes de gritar-lhe:
— Vocês têm meu pai! Destruíram o nosso lar, a nossa Igreja, arrebataram nossas Ovelhas, mergulharam nosso Vale em trevas... tudo que quero é viver em PAZ com meu irmão! Ele NUNCA teve paz! Nós NUNCA TIVEMOS PAZ!
— Eu posso entender isso, Radamanthys. DE VERDADE. Vocês... TODOS vocês foram corrompidos por Hades... você, Algol, Camus... TODOS OS TRÊS. Eu entendo suas palavras, de verdade...
— VOCÊ NÃO ENTENDE NADA!!! – Neste momento, Radamanthys tirou a arma da cabeça de Camus e a apontou para Milo.
Uma luz vermelha posicionou-se entre os olhos âmbar do primogênito do líder da seita destronada. E ali, alojou-se, certeiramente, a bala disparada pelo mais talentoso sniper da corporação: Giovanni Marchini, que detinha a sinistra alcunha de “Máscara da Morte”, em razão de seus notórios feitos.
A pistola de Radamanthys ainda efetuou um disparo antes de chegar ao asfalto. Por sorte, acertou a janela de um dos automóveis, felizmente sem ninguém em seu interior. Radamanthys tombou morto, como há pouco tombara Algol, ambos exterminados bem diante do homem considerado o Novo Salvador do mundo. O Novo Messias.
Um messias que não salvara nem seu pai, nem seu povo, nem seus irmãos... nem a si mesmo.
Também a respiração de Camus se extinguira ao baixar seu rosto horrorizado e contemplar o irmão de cuja fronte vertia a nascente de sangue que simulava dois rios de lágrimas rubras. Os olhos muito abertos de Radamanthys, fixos nas alturas que jamais alcançaria...
— CAMUS! – Milo correu para o ruivo, que claramente estava prestes a desfalecer. Viu-o revirar os olhos castanho avermelhados e cair ao solo, bem ao lado do lado do irmão abatido.
Abaixou-se para verificar se o ruivo estava ferido.
Quer dizer, ferido ele estava, mas não onde pudessem ver...
Ajoelhou-se e amparou o jovem tanto quanto podia. Quis pegá-lo no colo, o que, em seu estado, porém, fazia-se impossível. Apoiou Camus em seus braços, segurando-lhe a cabeça para tirar-lhes os cabelos do rosto e contemplar aquela face lívida e imota.
Comemorações foram inevitáveis. A operação fora um sucesso. Pessoas seriam libertadas. Criminosos foram neutralizados. Um refém fora salvo. A Igreja Aurora do Novo Porvir, finalmente, estava liquidada.
Mas ali, naquela estrada, de joelhos no chão, sustentando o corpo inerte do falso messias sob um sol pálido que ameaçava logo desaparecer, Milo não conseguia comemorar. Não ainda.
Estava tudo acabado.
Porém... o que se iniciaria, a seguir?
Por ora, só conseguiu encostar sua testa na fronte gelada do rapaz inconsciente e sussurrar, emocionado:
— Você está livre... você ESTÁ LIVRE, Camus.
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