Redentor
20 Gólgota - Ato VI : "Éramos cegos"
Notas iniciais
Do topo de um despenhadeiro, o Messias contemplava a sua Cidade Santa na Terra. Protegida pelas montanhas e pelas florestas, refulgia como uma joia celestial incrustada na sordidez do mundo.
Era chegada a hora. Ele sabia. Não temia. Não fugiria. Em um volteio, tomou o caminho descendente, seu rosto parcialmente coberto por um véu branco. Por todo o caminho, homens, mulheres, velhos, crianças erguiam ramos de oliveira e entoavam louvores à sua passagem. Cantavam “Hosana, hosana nas alturas!”, sob o rutilante sol que se derramava sobre a cidadela.
Lá estava ela.
A Cruz.
Seu Antecessor experimentara angústias infindas durante o derradeiro trajeto, mas não ele, ele não... seguia para o seu destino com serenidade. Estaria tudo terminado em breve, muito em breve.
Deteve-se diante da cruz, tão alta, tão escura. A sua esperança.
Seu martírio.
O martírio final.
O fim de seus tormentos. Um forte e repentino véu levou-lhe o véu, que ascendeu aos céus na forma de uma pomba branca. Os longos cabelos cor de sangue espalharam-se pelo ar.
Então o céu escureceu como o ar escureceu antes da tempestade, e dele irromperam raios que açoitaram a terra. Em pânico, os fiéis gritaram e correram desordenadamente. Alguns foram atingidos pelos raios. O Redentor a tudo assistia, aturdido. Elevou um clamor silencioso para as Alturas, das quais desceu o Anjo.
O Anjo do Redentor.
Mikael.
Convertera-se em um novo Astro Rei. Resplandecia dos pés à cabeça, os longos cabelos dourados como os raios solares que envolviam-lhe a espada de fogo.
O Messias da Nova Era não conseguia se mexer. Seus olhos arregalados fitavam o Anjo, que desta vez brandia a espada para a multidão em polvorosa. Chamas emanadas da lâmina celestial consumiram milhares e milhares, inclusive a ELE, Radamanthys, que a tudo observava em meio a prantos dolorosos, desesperados. A vida não se extinguiu até presenciar Camus sendo arrebatado por Mikael: este tomou o ruivo pela cintura e protegeu-o com as asas reluzentes. Radamanthys tentou gritar, implorar, suplicar... tudo que podia fazer era testemunhar, entre as chamas, Camus ser levado por Mikael, um olhando fixamente para o outro, ascendendo, ascendendo, até...
— Rada? Rada, o que foi?
— Hã?
O primogênito de Hades mirou o irmão, como se o estivesse vendo de um outro mundo.
Mas não.
Estava ali. Estavam no Vale.
Estavam juntos.
Juntos!
— Camus... – O rapaz voltava a si, esfregando a têmpora úmida.
— Você... falou coisas estranhas...
— NÃO! – Voltou a apertar os braços do “messias”. – Não são coisas estranhas. São... o FUTURO. Eu vi. Estará tudo perdido... o Vale... nossa Igreja...
— Rada... – murmurou o ruivo, entre confuso e assustado.
— É isso, é a única maneira de evitar que o PIOR aconteça.
— Do que está falando?
— Nós vamos FUGIR. Eu e você.
Desta vez Camus quedou-se realmente boquiaberto.
— Rada, não pode estar falando sério!
— Você não precisará mais sofrer tanto. Nunca mais. Eu cuidarei de você. Vou te proteger para o resto de nossas vidas. Nem Mikael te levará daqui, nem nosso pai ou Algol poderão torturá-lo mais. Teremos paz, viveremos um para o outro. – Acariciou o rosto empalidecido do Redentor, que o encarava abismado. – Tenho dinheiro o bastante, Camus, bens em meu nome. Iremos para um país bem distante, ninguém vai nos achar, nunca mais nos verão! Que tal, Camus?
Era a primeira vez que Camus via o irmão discursar naquele tom febril, maníaco, o olhar injetado de quem já se evadiu da realidade. Radamanthys segurava-o cada vez com mais força, apertando-o, apertando-o... Camus fez menção de se desvencilhar dele; foi contido com mais rigor ainda. Quis dizer que o mais velho e estava machucando, contudo, sabia que, momentaneamente, a racionalidade de Radamanthys se esfacelara sob o horror do pesadelo que tivera.
— Não vou deixar que ELE te tire de mim. – Achegou-se, à beira de um choro convulso, do pescoço, do rosto do mais novo, que tentava quanto podia se afastar. – NÃO VOU DEIXAR. Não vou deixar que você sofra mais. Que maltratem seu corpo e sua alma. Basta que venha comigo, e eu...
— CALE-SE! – Bradou o Redentor, livrando-se dos braços do irmão com um violento solavanco.Ao fazê-lo, sua expressão transformou-se. Genuína, inédita ira cintilou nos olhos rubros, agora repletos de autoridade.
— Afasta-te de mim, Satanás!
Radamanthys paralisou. Mirou o irmão com o coração trespassado de dor e desespero.
— Assim como tentaste, no Deserto, desviar meu Antecessor da Santa Missão, propondo-Lhe impérios e riquezas, vens hoje sugerir a mim que eu abandone a MINHA missão! – Camus continuou, duramente.
— Está... está me comparando ao Inimigo?!? – Tornou um mortificado Radamanthys.
— Ele fala através de ti.
— É isso que acha?
— É isso que É.
A sombra da decepção cobriu o rosto entristecido do primogênito de Hades. Afastando-se mais dele, Camus ordenou, com frieza:
—Vá agora. Nada direi a nosso pai.
— Camus... por favor, escute...
— Isso é, se fizer como estou ORDENANDO.
Encararam-se longamente: assim como momentos antes Camus não reconhecera Radamanthys, agora era Radamanthys quem não reconhecia Camus. Engolindo sua dor, o mais velho disse, em voz sumida:
— Eu vou.
Retirou-se do apartamento do “messias” visivelmente desnorteado. Seu peito ardia como se estivesse sendo incinerado de dentro para fora. Alguns seguranças saudaram-no, sem obter qualquer resposta.
A dor era uma gigantesca e férrea mão a fechar-se em seu pescoço.
Entretanto, sua vontade também se fazia férrea.
Não desistiria de seu intento.
Quisesse o Redentor ou não.
*************
Naquela manhã ensolarada de 4 de setembro de 2018, Saga bocejava em seu gabinete. Passara a noite em claro enviando mensagens, comunicando-se com alguns contatos da imprensa, Direitos Humanos, membros do Ministério Público retomando e finalizando o plano de invasão à comunidade em que infiltrado estava um de seus melhores agentes, e amigo pessoal, claro. Esfregava os olhos com força quase excessiva os olhos esverdeados quando ouviu Saori dizer, ao entrar na sala:
— Pelo visto, você dormiu tanto quanto eu, essa noite.
E diante do promotor local surgiu uma grande caneca de café fumegante.
— Obrigado, Saori. Você é um anjo.
— Mais vidente que anjo. Imaginei que estaria precisando disto. – A psicóloga também estava munida da bebida estimulante.
— Você disse que dormiu tanto quanto eu, essa noite. Bem, o que tirou seu sono?
— Você ainda PERGUNTA, Saga?
— Desculpe. É que... por um momento... achei que... achei que pudesse ser pelo...
— Que pudesse ser pelo Milo? – Ela sorriu serenamente. – Eu já superei isso. Vocês, homens, acham que todas mulheres ficam de luto eterno pelos cafajestes com que elas tiveram o azar de cruzar.
Notando a expressão constrangida do chefe, a nissei acrescentou vivaz:
— Claro que estou preocupada com Milo. Ele foi um crápula comigo, mas não é tão má pessoa. Egoísta, convencido, insensível sim, mas...
— O que sobrou pra fazer dele uma “boa pessoa”?
Eles riram brevemente.
— Bem, deixando tudo isso de lado, o cretino é um de seus mais confiáveis homens. E seu amigo. Não gostaria que você perdesse alguém em quem confia tanto. De mais a mais, ainda tem o filho... não importa que Milo tenha me usado, saber que você perdeu um amigo e uma criança perdeu um pai não me alegraria em nada.
— Deus, Sao, eu sei disso! Em nenhum segundo achei que...
— A verdade é que não dormi pelo vídeo mesmo.
— Eu não queria que você tivesse visto. Aiolos que me fez chamá-la. Disse que você não me perdoaria se não te chamasse.
— E ele estava coberto de razão. – Ela estreitou os olhos rasgados. – Saga... como pode uma loucura como aquela acontecer, bem debaixo de nossos narizes? Em nosso país? Em todos estes anos, jamais vi coisa igual.
— Nem eu. E olha que estou há mais de quinze anos na polícia. É muito pior do que imaginávamos.
— Hades deve obter alguma vantagem com isso. Possivelmente, cobra fortunas para que membros abastados participem desses rituais bárbaros. Agora, por que usar o homem que dizem ser o Cristo desta era...
— Lembra-se do primeiro vídeo em que o vimos? – Saga tornou-se grave. – O rapaz tinha marcas nos pulsos e nos braços. Pudemos ver quando ele ergueu os braços.
O café de Saori esfriava sem que ela o notasse.
— E há quanto tempo foi aquilo... Milo disse que o “Redentor” também era vítima deles... até então, achava que esse rapaz ruivo fazia parte do espetáculo montado por Hades. Mas a mensagem de Milo faz pensar que...
— Acha que o cara está sendo FORÇADO a fazer essas coisas?
— Não consigo imaginar alguém consentir em um estupro coletivo contra sua PRÓPRIA pessoa. E... ele obviamente estava sofrendo.
O promotor deixou a caneca vazia em cima da mesa. Preferiu mudar o foco da conversa:
— Estou esperando Susan Lancaster e James Astbury, do New York Times. Eles já estão a par da operação. Vão soltar a bomba no exato momento em que arrebentarmos as porteiras do rancho maldito.
— Acha que obterá a liberação do Ministério Público desta vez?
— Eu não acho. Tenho CERTEZA. O material que Milo nos mandou vai PARAR o país, permitam eles ou não. E, certamente, não vão querer aparecer nas reportagens como obstáculos àqueles que querer SALVAR pessoas de horrores como as que vive aquele ruivo.
O telefone da mesa de Saga tocou.
— Sim, diga. Hã? Pode repetir?
Saori franziu as sobrancelhas.
— Está certo. Pode deixá-la entrar... – Saga murmurou.
O ar preocupado do superior despertou a curiosidade da bela nissei.
— Algum problema?
—Hunf. Aposto que sim.
— Quem...
— Natassia.
— O quê?
Antes que a perita pudesse se retirar, a secretária abriu a porta, introduzindo a visitante.
— Natassia! Há quanto tempo! Que bom revê-la. – Saudou-a o promotor local. – Entre, fique à vontade...
A ex mulher de Milo limitou-se a adentrar o ambiente em silêncio. Vendo Saori ali, deteve-se para dirigir a ela um olhar hostil.
— Como vai, senhora Hatzis? – A nissei cumprimentou-a com simpatia.
— Ao contrário de você, que precisa seduzir homens casados para se sentir alguém, muito bem.
Saori suspirou, mais por enfado do que por intimidação.
— Senhora Hatzis... pensei que já tivesse sido tudo esclarecido... meu CURTO envolvimento com Milo foi POSTERIOR ao divórcio dele, e...
— DIVÓRCIO não, SEPARAÇÃO! Nem estávamos divorciados ainda... – A russa cruzou os braços, desafiadora. – Mas mulheres da sua laia não aguentam esperar o cadáver da esposa esfriar, não é?
— Natassia! – Chamou-a Saga, com expressão severa. – Peço que mantenha a compostura!
— Isso sei manter perfeitamente. – Sentou-se empedernida defronte à mesa do promotor. – Uma qualidade que sua subordinada ali não detém.
— Vou deixá-los a sós, Saga. Até logo. E... boa sorte. – Saori piscou um olho. E para a loira lançou, bem calma – Adeus, senhora Hatzis. Até nunca mais, espero eu.
Saiu da sala com elegância. Natassia fez ar de nojo.
— Mulherzinha baixa. – Resmungou. – Me admira você manter gente dessa categoria aqui.
— Saori é excelente profissional, Natassia, peço que a respeite, assim como me respeita. Se é que me respeita.
A resposta foi uma mirada tão gélida que o promotor não viu outra saída a não ser abaixar a cabeça e a voz, rendendo-se:
— Certo. A que devo a HONRA de sua visita?
— Eu vim saber do pai do meu filho.
— Veio saber... do Milo?
—Sim, infelizmente, é o único pai que meu filho tem. – Ironizou. – Para onde o mandou?
— M-mas... por que assim, tão de repente?
— “De repente”? Já te liguei várias vezes durante esses quatro meses em que Milo evaporou, sem que me desse uma posição. Hyoga nunca ficou tanto tempo sem ver o traste do pai. Está triste, achando que o pai que não quer mais vê-lo. Entendo que é o trabalho de Milo. Mas não poder ligar ou mandar uma mensagem para o filho uma vez sequer, isso eu não posso entender!
— Milo NÃO TEM a menor condição de fazer isso de onde ele está.
— Por quê? Por acaso ele está na Lua?
— Olha... talvez de lá fosse mais fácil, viu...
Vendo-a enrubescer de raiva, ele suavizou o tom:
— Acredite em mim. O que posso garantir é que ele está próximo de voltar.
— Não pode mesmo me dizer onde Milo está, não é? – Murmurou.
— Não.
Natassia suspirou.
— Bom, se você garante que agora não demora para ele voltar...
— Creio que ainda ESTA SEMANA.
— Sendo assim, eu espero. Por favor, mande-o entrar em contato com o filho dele.
— Tenho certeza de que é o que Milo mais quer. – Declarou Saga, abatido.
Percebendo-o, ela inquiriu:
— Saga… ele está correndo perigo, não é?
— Isso é inerente ao nosso trabalho. – Volveu secamente.
— Mas desta vez é DIFERENTE. Eu sei. Não sei onde vocês o meteram. Só sei que sinto que algo vai mudar. Mudar drasticamente...
— Não fique pensando coisas.
— Não quero que Hyoga cresça sem pai, como eu cresci. – Confessou, com tristeza súbita. – Shura é atencioso, gentil, prestativo... mas Hyoga... apesar de não demonstrar, é louco pelo pai. Shura não o substituirá, por mais que eles se deem bem.
Saga mirou-a, a irritação sendo substituída por compaixão. Droga, a mulher era um poço de amargura... mas por culpa de quem?
— Não sabe como fico feliz que tenha se acertado com um homem que realmente te merece, Natassia. Sei que serão muito felizes. Mesmo que ele não substitua o Milo, será um companheiro formidável para o pequeno.
Ela permitiu-se um sorriso. Ainda que triste, um lindo sorriso.
— Obrigada. Vamos nos casar em maio do ano que vem. Claro que vou te enviar um convite. Pra você e... pro Aiolos. – Não parecia nada confortável em mencionar o namorado do promotor local.
— Ficaremos honrados em comparecer. – E ajuntou, tomando a mão pálida da moça nas suas. – Quanto a Milo, acalme seu coração... só estou esperando um sinal verde para ir buscá-lo PESSOALMENTE. Mas eu te asseguro, falta muito pouco. Questão de dias, talvez horas... mas DESTA SEMANA não vai passar.
*************
—Bom dia, Camus. Como passou a noite?
O jovem preferiu não responder. Não queria contar acerca da visita noturna de Radamanthys. Por outro lado, não podia mentir. Não passara nada bem.
Nada.
Apertou os olhos avermelhados na direção da bandeja do desjejum que June lhe trazia.
— Não tenho fome. – Murmurou.
June suspirou.
— Você prometeu a seu pai que comeria tudo que eu lhe trouxesse.
— Não prometi. Fiz um acordo com ele. Um acordo que ele não cumpriu.
Poucas vezes Camus mostrara vontade própria daquela maneira. Longe de irritar a cunhada, alegrava-a. Era bom ver o rapaz emergindo lentamente daquele estado autômato em que sempre vivera.
— Fala dos ravanies, não é? – Ela depositou a bandeja na mesa circular perto da varanda. – Sou testemunha de que ele tentou. Enviou Bian para pedi-los a Mikael, mas...
— “Mas” o quê?
— Mikael está doente.
— Como?
—Bem, Bian foi até a lavoura onde Mikael e Aldebaran trabalham. Só que nenhum dos dois estava lá. Então foi até a cabana de Aldebaran, junto com alguns supervisores de Gideão. Souberam que ele não havia comparecido ao posto de serviço porque adoeceu repentinamente. Aldebaran precisou ficar cuidando dele, por isso também não compareceu ao...
— Mas o que é que Mikael tem? – Indagou, aflito. Agora perdera REALMENTE qualquer resquício de fome.
— Ninguém sabe...
— Chame Bian. Preciso saber o que está acontecendo. Ninguém iria me contar?
O tom severo do jovem assustou-a.
— Eu... não achei que...
— Chame Bian. AGORA.
— Está bem, vou chamá-lo – Rapidamente ela deixou o quarto do “messias”. Não demorou mais que vinte minutos para que o mais jovem dos Arautos estivesse diante do Redentor, cuja expressão fazia-se dura.
— Por que ninguém me contou que Mikael estava doente?
— Eu contei ao senhor seu pai, Messias. Pensei que ele fosse contar a você...
— Obviamente, ele não considerou necessário.
Bian estranhou grandemente o fato de o Redentor se referir ao pai como “ele”, e não como “meu Pai Terreno”. Os mais próximos já haviam notado o abandono da expressão respeitosa por parte do rapaz.
— Conte-me. O que viu? Como ele está?
Um tanto retraído pelo nervosismo do “messias”, sempre tão plácido, o Arauto respondeu:
— Mikael... parece estar bem doente mesmo. Está com o corpo todo enfaixado, devido a chagas que lhe irromperam pelo corpo...
— Chagas?
—Pelo menos, foi o que Aldebaran nos contou. Não pudemos ver as feridas por causa das ataduras. O quarto tinha um cheiro bem desagradável... Aldebaran disse que Mikael sofreu muito durante a noite, gritava de dor, arrancava os cabelos durante o delírio que o acometeu.
— Meu Deus – Balbuciou June, imaginando que se tratava de algum truque do policial. Mas Camus encontrava-se quase em pânico com aquela notícia.
A ideia de que Mikael estava a sofrer... era-lhe insuportável!
— Quero ir até lá.
— Não pode fazer isso, Messias, Aldebaran acha que pode ser contagioso. Ele já estava começando a sentir sintomas estranhos, quando falou conosco. – Argumentou Bian, já de frente ao ruivo, que fazia clara menção de sair.
— Acha que EU serei contaminado por enfermidade dos homens? Eu sou o Redentor, Bian.
— Camus, você ainda está se recuperando da Santa Ceia. Foi decidido que por esta semana você não sairia pela propriedade. – June veio acudir o Arauto.
Dirigindo um olhar frio demorado a cada um dos dois, Camus, por fim, disse:
— Neste caso, requisito a presença de meu pai aqui. Ele há de me dar a permissão para ir até Mikael.
— Camus...
— Eu curo tantas pessoas! – Volveu, enérgico. – Posso curá-lo também.
O Arauto e a Sentinela entreolharam-se brevemente. Tornaram a mirar o “messias”.
— Seu pai partiu em viagem... foi para Chicago. Só voltará no domingo... mas posso falar com Radamanthys, pedir-lhe a permissão. Se ele permitir, vou me oferecer para acompanhá-lo, está bem? – Disse Bian, solícito.
Camus apenas assentiu. Virou-se para a janela, contemplando as nuvens cinzentas que cercavam as montanhas.
*************
— Rada! Rada, tá ouvindo?
— Oh. – O jovem tornou o olhar esgazeado para o irmão, acompanhado pelos Vigias. – Sim, o que você quer?
— O que tá acontecendo contigo? Parece que está com a cabeça em outro lugar.
— Estou bem aqui. – Respondeu, fingindo uma serenidade que já não possuía, desde a conversa noturna com o “messias”.
— Espero que sim, porque temos coisas sérias para cuidar.
— Estou certo de que não é preciso ser duro com Radamanthys, ele está sempre muito ocupado.
— E eu estou colhendo framboesas no bosque por acaso, Minos?
O Vigia de longos cabelos prateados deixou escapar um suspiro para não falar umas boas verdades para o filho desmiolado do Grande Pai...
— O que está acontecendo, afinal? – Indagou Radamanthys, retomando a expressão compenetrada de sempre.
Aiacos tomou a palavra:
— O setor de segurança acabou de nos reportar o desaparecimento de um dos vigias noturnos. Como isso é algo insólito, e... inédito, viemos comunicar a você.
— Desaparecimento?
— Isso mesmo. O nome dele é Naamã, sumiu na noite de anteontem. Foi o que os supervisores ficaram sabendo quando o rapaz não se apresentou para o trabalho na noite de ontem. Foram até a casa dele, e a esposa disse que o marido não retornou desde o turno de domingo.
— Mas hoje é terça-feira. Para onde terá ido esse sujeito? – Admirou-se Radamanthys, erguendo-se da mesa de seu escritório.
— Isso não é tudo. – Capella continuou. – Pescadores encontraram dois cães mortos no rio. Cães de guarda... nossos.
— Um homem desaparecido e dois cães de guarda mortos. Aiacos usou a expressão certa: insólito. Os cachorros teriam caído no rio? – Ponderou, sem segurança.
Asterion balançou a cabeça em uma negativa. Respondeu:
— Não parece que morreram afogados, se é o que está cogitando. Estavam muito feridos.
— Feridos?...
— Os cachorros foram mortos com golpes de facão.
Perturbado, primogênito virou-se para o irmão.
— Será que esses dois fatos... INSÓLITOS... aconteceram na mesma noite? – Questionou.
— Não sabemos ainda. O fato é que esses cães foram abatidos há pouco tempo.
— Assim como o sumiço do vigia noturno... – Murmurou Radamanthys. Após pensar por alguns segundos, quis saber: – Hades está a par disso?
— Não, ainda não. Não achamos pertinente incomodar o Grande Pai em sua viagem a serviço de nossa santa igreja.
— Melhor assim. Mandem que o departamento de segurança destaque grupos de busca, juntamente com os Arautos. Que procurem por esse Naamã em todo canto da cidadela. Talvez tenha sido ele mesmo quem matou os animais.
Incrédulo, Aiacos replicou:
— Por que ele teria feito isso?
— É o que vamos tentar descobrir. Não comuniquem nada ao grande Pai, por enquanto.
— Rada, acha que está acontecendo algo estranho?
— Um dos vigilantes está desaparecido, e dois cães de guarda foram mortos a golpes de facão. JÁ ACONTECEU esse “algo estranho”, meu irmão.
Virou-se para os Vigias:
— Fiquem atentos a qualquer coisa fora do comum pela nossa comunidade. E não deixem de me informar nada. Pode ser que seja algo sem importância, mas... enfim, podem ir.
Assentindo, Algol e os Vigias pediram licença e saíram da sala de trabalho do primogênito de Hades. Apreensivo, Radamanthys coçou o queixo, voltando-se para a janela. Contemplou distraidamente a esplêndida vista do Vale. O sol antes oculto por nuvens escuras fulgurou, espalhando seus raios dourados pelas montanhas e tudo o mais que os olhos ambarinos podiam alcançar.
“Por que a memória de Mikael me vem à mente? Quase detesto o sol, agora.”, pensou, franzindo o cenho.
Pegou o celular no bolso da calça social. Fez uma chamada, de quando em quando voltando-se para a porta de seu escritório.
— Bom dia, eu gostaria de falar com o gerente Robert Hernandez. Diga-lhe que é Hector Montgomery, por favor... obrigado.
*************
Naquela noite de terça, Aldebaran dava os últimos retoques na sopa de legumes e peixe. “Mikael” ainda não havia despertado. Quando enfim o fizesse, precisaria alimentar-se, mas com algo leve, caso contrário, seu estômago poderia se revoltar. Após tirar o caldeirão do fogo, foi até o quarto verificar o jovem inconsciente. Os edemas no rosto do loiro melhoraram de aspecto, bem como o inchaço na nuca. O brasileiro quase não fazia outra coisa a não ser cuidar do rapaz que, em sua ignorância, ferira. Ervas, unguentos, emplastros, vigílias e orações, a tudo o ex pastor recorria. Não sentia exatamente culpa, pois julgava-se ludibriado pelo homem a quem considerara um amigo. Ademais, tinha a impressão de que, dali em diante, tudo mudaria. E ele precisava estar preparado, tinha plena convicção disso.
Sentado à cabeceira da cama onde repousava “Mikael”, observava-lhe as feições serenas. Durante aqueles minutos, a mente de Aldebaran fervilhava. Um vento frio entrou pela janela; considerou pegar mais uma manta para o rapaz. Cobriu-o com cuidado. Quando virou-se para sair daquele recinto, ouviu um gemido baixo. Voltou p rosto surpreso para o homem deitado. Este parecia estar despertando! Acorreu para ele, chamando-o baixinho:
— Mikael! Está acordando? Mikael!
As pálpebras contraíram-se antes de revelar as íris cor do céu de verão.
— D-Debas...?
— Shhh. Não se mexa.
— O que... acon... aah...
— Eu te falei pra não se mexer! Apenas me diga como está sentindo?
— Eu... já estive melhor... minha cabeça... dói...
— Vai passar, desde que continue calmo. E deitado.
Emergindo da escuridão, o agente encontrou a dor. A seguir, a confusão. Onde estaria? Aldebaran o entregara? Estava preso? Havia sido castigado, ou… por entre as sucessivas piscadas, distinguiu o teto de madeira da cabana do brasileiro.
— E-estou... estou na sua casa... ainda?
— O que você acha? Pensou que eu iria te entregar?
Milo levou a mão à fronte.
— Acredite, não teria como pensar em coisa alguma...
— Eu sei. – Tornou o brasileiro, tristemente. – Esteve dormindo por dois dias seguidos.
— Uau... dois dias... mas o que é que... – De repente, uma torrente de lembranças afluiu. Seu olhar tornou-se vívido, alerta. Procurou se sentar, sendo prontamente impedido pelo ex pasto.
— Já disse para não se mexer! Você ainda está muito...
— O celular... e... e a... onde...
— Estão guardados. Em segurança. Fique tranquilo quanto a isso.
Desnorteado pela vertigem causada pelo movimento brusco, Milo encarou Aldebaran, em dúvida sobre o que dizer, o que pensar e o que fazer.
— Acalme-se. – Repetiu o moreno. – Para todo mundo, você está doente, e eu estou tratando de sua enfermidade.
— Você... você sabia...?
— Sabia do quê?
— De que Camus… a Santa Ceia… – Mais não pôde dizer; viu-se presa de um forte enjoo. Tentou levantar-se às pressas, pois sabia o que estava por vir. Em vão: vomitou quase nos pés do pastor.
— Calma! Está tudo bem! – Aldebaran segurou-o, antes que ele caísse no chão. – Está tudo bem. Respire.
— Camus... – Balbuciou o loiro, à beira das lágrimas. – Você sabia do que... do que acontecia a ele? Na... na Santa...
— NÃO! – Respondeu enfático. – EU NÃO SABIA! NINGUÉM sabia!!!
— MENTIRA – Milo tossiu violentamente, sufocado. As lágrimas desceram-lhe livremente pelo rosto convulso. O brasileiro colocou-o de volta na cama. Insistiu aflito:
— NÃO É MENTIRA. Sabemos que o Redentor tem a missão de passar por martírios e suplícios dos mais variados, a fim de limpar as almas dos salvos, assim como Jesus fez antes dele... mas eu NÃO imaginava que... que coisas como AQUELA acontecessem...
Um sorriso amargo precedeu a pergunta do policial:
— Então você viu o vídeo?
— Era a “Santa Ceia”, não?
— Filme pornô é que não era. Aliás, os filmes pornôs são desenhos educativos perto daquilo que vi no Tabernáculo...
— Como conseguiu entrar lá?
— Isso não vem ao caso… onde estão o...
— Estão bem guardados, eu já disse.
— M-minhas roupas... você não as lavou, lavou? – Lembrou-se do sangue oriundo das lágrimas do “messias”. Queria levá-lo para análises.
— Eu as enterrei.
— Espero que por aqui... vou precisar da camisa...
— Você é um policial, não é?
Negar seria zombar de Aldebaran.
Bem, seu serviço estava concluído. Enviara para Saga a prova cabal que levaria à aniquilação daquela seita sinistra. Era questão de tempo que a polícia invadisse o local. Pouco tempo, quase poderia afirmar, dado o conteúdo da filmagem... se Aldebaran quisesse entregá-lo para a Alta Cúpula... não via qualquer escapatória. Fechou os olhos, desistente.
— É isso aí, Debas.
— Não me chame assim!
— Oh. Perdão. Aldebaran...
Seguiu-se um silêncio pesado como o chumbo.
— Precisa se limpar. – Disse o brasileiro, mais calmo. – E eu preciso limpar este chão. Consegue se levantar?
— Consigo sim. Deixa que eu limpo a…
— Vá tomar um banho. Quando sair, jantamos. Conversamos mais tarde.
— Escute, sem rodeios, sim? Se vai me entregar, me entregue logo…
Quase engasgou ao ter a gola da túnica que usava subitamente agarrada pelo ex pastor. Arregalou os olhos surpreso. Ouviu a ordem dada entre dentes:
— CONVERSAMOS DEPOIS, eu disse.
— OK, OK! – Aldebaran largou-o. – Cristo! Parece até o meu pai, quando eu era adolescente.
— E você deixou de ser algum dia?
Com uma careta de pouco caso, Milo foi fazer o que lhe ordenara o anfitrião. Não se importou com o avançar da hora, lavou os longos cabelos com o único sabão disponível no banheiro, de sebo de carneiro com alfazema. Ficariam ásperos e ouriçados, porém limpos.
Terminada a refeição, os dois mantiveram o silêncio que perdurara por todo jantar. Sentados de frente para o outro, mentes povoadas pelo que as bocas não libertavam. Aldebaran suspirou antes de iniciar aquele difícil colóquio.
— Tudo de que nós, Ovelhas, estamos cientes, diz respeito aos suplícios do Messias destinados a pavimentar o caminho da Salvação dos povos de hoje.
— Você sabe tanto quanto eu que esse coitado NÃO é Messias coisa alguma, não sabe?
Estupefato, o brasileiro buscou o que dizer. Não encontrou. Milo prosseguiu, sério:
— Camus é apenas uma vítima da ganância do pai. Hades criou essa farsa para enriquecer às custas da credulidade de indivíduos desamparados... e às custas do sofrimento do próprio filho!
— Mas... sempre foi dito que o Redentor veio para completar a Obra do Cristo original... a maldade no coração dos homens de hoje exigiu isso, foi o que o Senhor Deus e o próprio Cristo, que deu parte de sua essência para Camus, determinaram...
— Corta essa. Você VIU o vídeo. Aquilo te parece relacionado com os padecimentos de Jesus descritos na Bíblia? Parece?
— N-não... mas... digo... – Ciciou, constrangido. – A Santa Ceia nada tem a ver com os suplícios e autos a que assistimos... a Santa Ceia é um Ceremonial.
— Por isso mesmo. Os suplícios e autos têm uma função bem distinta; fazem parte do controle emocional dos colonos, que já perderam tudo quanto tinham. Quebranta-os. Já os cerimoniais destinam-se a quem pode PAGAR por eles. E MUITO. É com eles que Hades consegue as assombrosas fortunas que sustentam seu império. Você pôde ver pela filmagem que fiz a razão de eles serem SECRETOS.
— Quer dizer que... em todo Cerimonial... o Messias sofre abusos daquela natureza?
— Eu não sei. Mas dado o temor que pude perceber na expressão de Camus quando ele mencionou a Santa ceia da primeira vez... de qualquer forma, aquilo por que ele passa “aqui fora” também são abusos. O garoto é um prisioneiro do próprio pai. Ele usa uma tornozeleira eletrônica, você sabe para quê?
Aldebaran ergueu os ombros para responder, como se falasse alguma obviedade:
— Ora, para que identifiquem sua localização, caso se perca... o Vale é muito grande, e o Messias costuma...
— Não é só para isso. Aquilo emite uma intensa corrente elétrica mediante o acionamento por controle remoto, sempre nas mãos de quem o acompanha.
— O quê?!?
Recostando-se mais à cadeira, Milo relembrou o dia em que viu Dante imobilizar Camus com o abjeto aparelho.
— Em outras palavras, se o Redentor sair do alcance de quem o acompanha, ele recebe um choque elétrico. Forte o bastante para deixá-lo sem ação.
— Eu não posso acreditar!!!
— Pois acredite, EU VI. De mais a mais... como não acredita que façam isso ao garoto, depois do que viu naquele celular?
Entre mortificado e envergonhado, Aldebaran baixou o rosto, sem saber o que dizer.
— Me desculpe. – Sussurrou o policial. – Sei que não deve ser fácil para você...
— Não. Não é.
— Aldebaran, tem muita gente sofrendo neste pretenso paraíso terrestre, a começar pelo próprio Camus. Mas também June e seu filhinho Jacó... Albior... Deus, o coitado está à beira da morte, sendo torturado na prisão do Vale! E tantas outras pessoas, sendo exploradas em trabalhos exaustivos análogos à escravidão, sendo agredidas, violadas... mortas, até!
— Qual é o seu nome de verdade?
Atônito, Milo perguntou:
— O meu nome? Por que isso agora?
Em tom melancólico, o grandalhão continuou:
— Eu me chamo José Antonio de Carvalho Figueira Filho. Quer dizer, me chamava. Antes de ser Aldebaran.
— Não considero prudente te dar meu nome. Você pode acabar se confundindo e me chamando por ele em uma hora não muito propícia, sabe...
Algo nos grandes olhos castanhos, contuudo, acabou convencendo-o:
— Certo... meu nome é Milo Katsaros Hatzis.
— Nossa, então você é grego mesmo...
— Filho de imigrantes gregos. E também sou um agente da Polícia Federal de Red Meadow.
Aldebaran estendeu a manopla para o jovem, que, após dois segundos de hesitação, apertou-a afetuosamente.
— Milo, preciso dizer uma coisa a você. Minha esposa e minha filha... eu acredito que estejam entre as vítimas de que você fala.
— É... é sério?
— Nunca acreditei verdadeiramente que tivesse sido um acidente. Tenho razões o suficiente para crer que elas foram ATIRADAS lá daquele despenhadeiro, quando tentaram FUGIR do Vale.
— Elas... tentaram FUGIR? Você não me contou isso!
— Pois vou te contar agora. Para mim, elas foram ASSASSINADAS, Milo. ASSASSINADAS por ordens de Hades.
*************
—A família de Aiyana frequentava uma congregação em Indiana, uma espécie de seita dissidente dos presbiterianos. Quando ela completou dez anos, seu pai a entregou como noiva de um obreiro da igreja. Aiyana casou-se logo depois...
— Com dez anos?!?
—Ainda que hoje seja menos comum do que há algum tempo, algumas igrejas não veem muitos problemas em casamento de crianças...
— Casamento de crianças não – Exasperou-se o policial – casamento de crianças MENINAS com homens bem mais velhos.
Sem jeito, Aldebaran assentiu.
— Isso mesmo. Ele já passava dos sessenta...
— Revoltante... que asqueroso! E a gente aqui achando que isso só acontece em outros países!
Com voz baixa, o ex pastor prosseguiu:
— Como pode supor, Aiyana sofreu muito nesse casamento. O homem a tratava como uma verdadeira escrava. Depois que ela entrou em idade fértil, o que ainda levaria dois anos, esperou-se que gerasse um filho do maldito, mas isso não aconteceu. O desgraçado ainda descontava nela por isso! E hoje, sabemos que ELE era o estéril. Deus, as coisas que ele lhe fazia...
— Não deve ficar pensando nisso, Debas. Quero dizer... Alde...
— Tudo bem, pode voltar a me chamar assim. – Tornou, com um sorriso triste.
— Não quero que sofra compartilhando tais lembranças.
— É que elas são a chave de minha desconfiança... ou melhor, na minha CRENÇA. Na teoria de seu ASSASSINATO.
Milo fitou-o muito sério.
— Então continue, por favor. – Sussurrou, sentido.
A fogueira crepitou, enquanto iluminava o semblante compenetrado do dono da casa. Ambos sentavam-se no sofá, tendo diante de si um bule de latão e xícaras rústicas de chá.
— Após oito anos de maus tratos, Aiyana resolveu fugir. Sem levar quase nada consigo, conseguiu pegar carona na estrada e chegar até a Pennsylvania. Para pagar as caronas e não morrer de fome, teve que vender o próprio corpo... – O brasileiro respirou fundo. Milo desviou o olhar, incerto sobre o que dizer. Preferiu não dizer nada. O que foi bom, pois Aldebaran não tardou a prosseguir: – Seu objetivo era chegar a Nova York... pegando carona na estrada novamente, foi abordada por integrantes da Aurora do Novo Porvir. Eles a trouxeram para o Vale, onde ela começou a trabalhar por casa e alimento. Com o passar dos anos, já convertida e batizada, era uma bela e virtuosa jovem. Eu a conheci assim que entrei para a comunidade. Foi amor à primeira vista... em um ano e meio, estávamos nos casando. Não demorou muito, Deus nos enviou uma linda menininha, Tabita, o presente de nossas vidas. Vivemos felizes, embora vivêssemos neste lugar de tantas dores... mas éramos cegos...
Como Aldebaran começou a derramar sentidas lágrimas, o policial pensou em pedir que ele se poupasse. Contudo, cerrou os punhos e resistiu àquele ímpeto compassivo porém despropositado. Precisava ouvir até p fim, pelo bem da investigação.
— Tudo mudou depois que um dos Vigias viu Tabita, à época com nove anos, colhendo ervas medicinais com a mãe no campo. Ele veio nos pedir a mão da menina em casamento...
— O quê? Que crápula! Quem era?!?
— Capella...
— O Vigia mais velho! – O queixo do agente veio abaixo. Qualquer que fosse a idade do Vigia seria inadmissível, mas em sua estupefação, deixou sair tal interjeição.
— Sim... acho que isso foi um gatilho para Aiyana. Ela prontamente disse “não”, sem se importar com o fato de Capella ser um dos braços direitos de Hades.
— Deixa que eu adivinhe o resto. O desgraçado imundo apelou pro chefão!
— Sim. Hades tomou partido de seu Vigia, exigindo que entregássemos nossa filhinha.
— Mas você contestou essa infâmia, não foi, Debas? Porque... desculpe, mas fala de um jeito como se tivesse sido apenas sua esposa a recusar...
— E foi.
Milo arregalou os olhos, abismado.
— Como pôde concordar em entregar sua filha de NOVE ANOS para casar com um homem?!?
— É CLARO que eu NÃO concordava! – Retrucou nervosamente. – Mas quem poderia ir contra as ordens do Grande Pai?!?
— Então você não era assim TÃO cego. Estava ciente das atrocidades aqui praticadas em nome da dita harmonia do Vale. – O tom do agente despira-se da compaixão anterior.
O brasileiro abaixou a cabeça, nitidamente atingido por aquelas palavras. Passando as mãos pelos cabelos e expirando sonoramente, Milo buscou recuperar a serenidade.
— Aiyana não queria entregar Tabita a Kapella, enquanto você... sabia que não havia outro jeito. Que aconteceu em seguida?
Voltando a encarar o interlocutor, Aldebaran disse simplesmente:
— Aiyana tentou fugir com nossa filha.
— Você... tem CERTEZA disso?
—Tenho.
— OK. Da primeira vez, me disse que elas estavam colhendo plantas medicinais nas montanhas. Que havia chovido dias antes, e que as rochas estavam soltas onde elas...
— Essa foi a versão dos homens de Hades.
Balançando a cabeça, Milo indagou, calmamente:
— Certo. E qual é a SUA versão?
— Não era época de colher ervas nas montanhas, ainda mais depois das chuvas. Para completar, Aiyana não havia levado suas ferramentas de cultivo, nem mesmo potes para acondicionar as ervas. Estava tudo aqui. Quando descobri os armários sem várias de suas roupas, vi que Aiyana havia tentado a última cartada para salvar a filha do mesmo destino que ela teve antes de casar-se comigo. Infelizmente... a tentativa custou a vida das duas...
O agente apertava as mãos, sentindo-se pesado ao ouvir o relato.
— Acha que eles as interceptaram... e as atiraram lá de cima?
— Elas realmente morreram devido à queda, então... sim, eu acho. Eu diria que tenho... certeza. Aiyana era filha de cherokees que viviam em áreas agrestes e montanhosas. Ela sabia muito bem como escalar alturas bem superiores àquelas de onde se precipitou.
— Sabe... também Camus tentou fugir uma vez. É por isso que o pai faz ele usar a tornozeleira de que te falei. É por ter tirado a tornozeleira, para que Camus tivesse uns míseros minutos de alegria, que Albior está na prisão... sendo covardemente torturado.
— Eu quero te ajudar, Milo! Eu farei de tudo pra te ajudar! Me diga o que fazer!
Ligeiramente surpreso com aquele pedido, o policial disse:
— A essa altura, acredito que só nos resta esperar. A mensagem que enviei já chegou à Polícia Federal de Red Meadow. Eles devem invadir isto aqui a qualquer momento.
— Gostaria de fazer algo por Albior.
— Eu também. Mas qualquer passo agora será arriscado. Fiz umas... bagunças pelo caminho. – Comentou, pensando no vigia e nos cães que matara.
— A propósito, estou muito curioso por saber como você conseguiu se infiltrar em um Cerimonial no Tabernáculo, e como conseguiu filmar...!
— É uma longa história.
— Não importa. – Aldebaran virou mais chá nas xícaras. – Duvido que eu vá pregar o olho esta noite.
*************
Radamanthys deixava seu escritório, acompanhado de Algol, quando deu de encontro com o Arauto Bian.
— Bian? Que faz aqui? Achei que estivesse de serviço no Tabernáculo hoje.
— Vim trazer um recado do Redentor. Soube que estavam em reunião, e achei por bem esperar...
— Sim, fez bem mesmo, porque tratávamos de coisas muito importantes. – Falou, com ar de pouco caso. – O que é que Camus quer?
— Ele pede que o deixe visitar Mikael, que está doente... acamado desde o domingo.
— E como diabos Camus sabe que Mikael está doente, se nem deixou o quarto estes dias? – Estranhou Algol, metendo-se na conversa.
A contragosto, o Arauto respondeu-lhe:
— É que o Grande Pai me mandou até Mikael, para lhe pedir que fizesse uns doces para o Messias. Uns doces gregos chamados ra... rava... rava o quê, mesmo?
Os irmãos entreolharam-se, sem entender direito a conversa. Somente uma informação soou interessante...
— Mikael está doente? – Algol perguntou. – E o que ele tem?
— Ninguém sabe ao certo. Aldebaran, que está cuidando dele, disse que o novato começou a passar mal na noite de domingo...
— Na noite de domingo, é? – Radamanthys coçou o queixo, com expressão concentrada.
— Sim, está muito mal, coitado! Abriram-lhe chagas por todo o corpo, está enfaixado tal qual o próprio Lázaro, pois as feridas abriram e saiu um líquido muito mal cheiroso. Argh, só de lembrar o cheiro, dava náuseas...! Aldebaran disse que Mikael delirou e tudo. Se batia, tentava arrancar os próprios cabelos...
Algol virou-se para o irmão mais velho:
— Que deve ser? Eu o vi de relance, no domingo à noite, porque sempre senta nas primeiras fileiras... me parecia bem saudável...
Sem responder, Radamanthys demandou ao Arauto:
— Disse que ele está de cama...?
— Sim, nem foi trabalhar ontem e hoje. E, pelo que vi, não vai tão cedo! Parece estar nas últimas...
— Você viu tudo isso e não nos comunicou? – Ralhou o primogênito de Hades.
— Estou comunicando agora. Estavam em reunião com os Vigias, não?
— Hunf. Você é muito insolente, garoto. Não sei nem como chegou a Arauto.
Algol juntou-se ao irmão, na provocação a Bian:
— Verdade, ele e aquele traidor do Albior. Mas Albior pelo menos já está recebendo o que merece, hehehehe.
Bian não conseguiu disfarçar o desagrado no olhar. Prezava sobremaneira Albior, e sabia que, embora o veterano tivesse errado, não merecia aquilo por que estava passando. Nada enunciou, porém. Esperou que Radamanthys se manifestasse sobre o chamado do Redentor. Percebendo-o, o primogênito de Hades enunciou:
— Se Mikael está tão doente desse jeito, não é prudente deixar Camus se aproximar dele. Pode ser contagioso.
Chocado, o Arauto argumentou:
—O Redentor almeja justamente curá-lo! Não acho que o Filho de Deus seria contaminado por...
— Não tem que achar nada, Bian. – Rosnou Radamanthys. – Veio apenas me dar um recado do meu irmão, não é?
— É verdade. E o recado está dado. – Dito isto, virou-se e saiu sem pedir licença.
— Pivete abusado! Bem merecia uma punição por tais modos, Rada...
— Deixa ele pra lá, me deixa pensar.
— Pensar? No que você tá pensando?
— Mikael estava absolutamente normal no culto dominical noturno. E então cai gravemente enfermo, bem na noite em que um vigia desaparece... e ainda tem os cães, que talvez tenham sido mortos na mesma noite...
— Vê alguma ligação nisso tudo? – O próprio Algol soou incrédulo.
Sem responder, Radamanthys voltou a adentrar o escritório. Pegou o telefone da mesa e ligou para o supervisor de segurança.
— Radamanthys falando. Naamã apareceu? Não? O celular dele continua fora de serviço? Claro... bem, qualquer novidade, me avise.
Desligou, levemente irritado.
— Rada...
— Já conjecturaram se esse homem fugiu. Você acredita que ele tenha fugido, Algol?
— Bem... alguns já conseguiram... poucos.
— É, mas pagaram caro por isso. Tão caro que não sei se alguém teria coragem de tentar novamente.
— O que está pensando, meu irmão?
Mas Radamanthys limitou-se a apertar a têmpora, no afã de aliviar a tensão que o incomodava. Só lhe restava esperar por mais indícios de que algo estranho estava realmente acontecendo por ali.
Esperar?
Radamanthys NÃO era homem de esperar. Tanto mais na ausência do pai, quando ELE se tornava a autoridade máxima no Vale.
Voltou o rosto decidido para o irmão.
— Algol. Vamos até a cabana de Aldebaran verificar essa SÚBITA enfermidade do “Anjo do Redentor”.
— Ótima ideia, Rada! Quando?
—Quando? Ora... AGORA MESMO...
*************
—... eu fiquei muito chateado de ter matado aqueles cachorros... mais do que o cara... cê me acha um monstro por isso?
— Foi necessário. – Murmurou Aldebaran, certo do que afirmava.
— Foi, infelizmente foi.
— E depois, o que aconteceu?
— Bem, depois eu vi essa... shhhh – Fez, com o dedo em riste sobre os lábios.
Alerta, o brasileiro virou-se para as janelas.
— Ouviu alguma coisa? Estamos falando tão baixo, mas mesmo assim não...
— Não é que tenha ouvido algo. Parece que VI algo.
— O quê?
Milo abaixou-se, procurando a manta para se cobrir.
— Parece que vi uma luz. Apareceu, depois sumiu.
— Será uma lanterna? – O ex pastor gesticulou para o policial. Apurando os ouvidos, ouviu um burburinho ao longe. – Acho que vem vindo alguém. Volte para o quarto, enrole-se com mais ataduras.
— Eu vou. Não seria nada legal virem que “me curei das chagas” de repente.
Rapidamente, o loiro voltou para seus aposentos. Fez conforme disse o grandalhão. Diabos, quem estaria indo até a cabana em uma hora daquelas?
Aproveitando-se de que a sala estava escura, Aldebaran aproximou-se de uma das janelas. Detrás da espessa cortina, espreitou...
Arregalou os olhos escuros.
O que era aquilo?
Dezenas… não... talvez centenas de pontos luminosos cortavam o que estaria povoado pelo breu da noite.
Velas.
Um mar de velas se espalhando em volta de sua casa.
O burburinho voltou a zunir em seus ouvidos.
“O que é isso?”
Ovelhas, vigias, capatazes, todos unidos em uma insólita vigília diante da cabana onde se encontrava o “Anjo do Redentor”.
Rezavam por ele. Oravam por ele. Clamavam por ele.
Difícil precisar quantas pessoas reuniam-se naquele clamor coletivo por aquele que criam ser um enviado dos céus. O Messias assim o dissera!
Do alto de uma colina, os filhos de Hades , atônitos, observavam a cena. Sequer desceram do jipe no qual foram até aquelas distantes paragens.
— Começou... souberam de sua enfermidade, e agora... – Murmurou Radamanthys, mal piscando.
— Idólatras! Malditos idólatras! Rada, temos que parar essa loucura agora mesmo!
— Cale-se.
— O... o quê?
Os olhos ambarinos estreitaram-se, analíticos, a despeito do ódio que ardia em seu peito.
— Rada, eles têm que ser punidos – Insistiu Algol, quase choroso. Algo naquelas vozes o amedrontava. Eram tão baixas, mas tão constantes, tão unidas... iam chegando até eles como um enxame de abelhas agressivas.
— Isso é impossível. Veja como são tantos... tem até vigias noturnos com eles...
— Isso não impede que sejam todos punidos! Precisamos ir até lá...
Radamanthys sacudiu o irmão pelo ombro.
— São CENTENAS, não vê? CENTENAS. Eles o amam. Eles o amam... porque Camus O AMA.
Os olhos de Algol cintilaram. Sua voz saiu tremida:
—Que está dizendo, Rada?
— Não finja agora que não sabe! – Vociferou, sem se importar em ser ouvido; estavam bem distantes mesmo, e toda aquela ladainha idólatra não deixaria ninguém ouvi-los.
O caçula soluçou, desalentado. O mais velho, contudo, permaneceu firme como uma rocha no meio do mar revolto. Lançou um olhar venenoso para baixo.
— Amanhã vamos promover um Auto de Fé. – Disse o primogênito.
— Mas nosso pai só volta no final de semana...
— Tenho autoridade para fazê-lo. É uma situação que exige. Você não vê?
Algol volveu o rosto úmido de lágrimas para a vigília ardorosa, em prol do homem que ele mais odiava.
— O Auto de Fé destina-se justamente a reforçar a fé das Ovelhas em seu ÚNICO Salvador. Comove as Ovelhas, traz as Ovelhas vacilantes de volta para debaixo do cajado de seu Pastor. – Sussurrava Radamanthys ao ouvido do irmão.
— Sim... é preciso. Façamos isso...
— Amanhã – Repetiu, tácito. – Anunciaremos que o Redentor passará por um Auto de Fé. E será AMANHÃ mesmo!
*************
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