Redentor
40 Getsêmani - Ato V : Um Resgate Diário
Notas iniciais
˗ Por Deus, Milo, sossega, homem! Tá parecendo até que tá esperando filho nascer, credo!
˗ Ele tem razão, mais um pouco, você fura o chão ˗ Aldebaran concordou com Aiolia, ambos já agoniados com o vai-e-vem do agente pela sala em que se encontravam, próxima àquela em que se realizava o depoimento de Camus.
˗ Eles já estão há quase 3 horas ali! ˗ Falou, tenso. ˗ Não sei, tô preocupado com o Camus...
˗ Jura? Ninguém aqui notou... ˗ Aiolia revirou os olhos ao ironizar.
˗ Mika, sente-se, seja paciente. É por isso que não queriam que você estivesse lá nessa hora...
˗ Viu só? Até o Debas entendeu a coisa toda! ˗ Milo cruzou os braços e fitou os dois sentados no sofá, diante de copinhos de café que ele recusou.
˗ Vocês não entendem. Desde a equipe médica em Portland, o doutor Finkler, até a Saori, todos, de todos... qual era a orientação? De não forçar o Camus a falar sobre o que ele passou naquele maldito lugar. De deixa-lo desabafar, revelar tudo no TEMPO DELE. E agora, estão ali, crivando o coitado de perguntas, tentando arrancar tudo dele... essa demora...!
˗ Milo, é necessário! Ele teve 5 semanas para falar! Semana que vem é o julgamento! Se não for agora, vai ser quando? ˗ Argumentou Aiolia. ˗ Tudo bem que ele já tinha contado algumas coisas nos primeiros depoimentos, mas você sabe que...
˗ Bastava que esse maldito julgamento demorasse um pouco mais para acontecer! ˗ Exasperou-se Milo.
Aldebaran tentou apaziguar o ânimo do policial:
˗ Eu tenho certeza de que estão conduzindo a entrevista da melhor maneira possível, e pode ser justamente por isso que está demorando tanto, acalme-se, Mika.
˗ Sim, eu sei, eu confio neles, é que...
Deixou-se cair desalentado sobre uma poltrona.
˗ É porque você o ama. ˗ Resumiu Aiolia, sorrindo de forma cúmplice.
A única reação de Milo foi esboçar um sorriso de volta, o que não esmorecia a tensão que o dominava.
˗ Tem certeza de que não quer um café?
˗ Nem pensar, Olia ˗ Esfregou o rosto com as palmas das mãos. ˗ do jeito que eu tô pilhado, se eu tomar café, vou...
O barulho da porta da sala de depoimento se abrindo fez Milo se levantar prontamente.
˗ Até que enfim! ˗ Sem demora, dirigiu-se sem demora aos que deixavam a sala, ansioso por encontrar o amado. Deteve-se de repente.
˗ Saga, você se machucou?
˗ Hã? ˗ O promotor parou, com Milo à sua frente.
˗ Esse sangue na tua camisa ˗ Apontou as nódoas rubras na camisa branca do chefe.
˗ Ah... não. Não, este... hã, não é meu...
˗ Não é teu? Mas o que...
Deu-se conta de que, ao contrário de Saga, Dohko e Kanon, Saori e Camus não estavam ali.
˗ O que aconteceu? Cadê o Camus?
˗ Ele já vem. Está conversando com a Sao, só isso.
˗ O que aconteceu? Se esse sangue não é teu, de QUEM é?!? O que houve com...
˗ Milo, para. Você está quase gritando ˗ Saga pôs as mãos sobre os ombros do amigo.
˗ Mas se você não me conta logo o que...
˗ Eu conto. ˗ Dohko interrompeu-o, no afã de fazer cessar aquele princípio de escândalo ˗ Camus teve um princípio de crise nervosa, ao término do depo...
˗ O quê?!?
˗ ... ele se emocionou demais e... bem, chorou as famosas lágrimas de sangue.
˗ Ele... o quê? ˗ Atônito, Milo olhava de um semblante a outro.
˗ Foi bem... intenso o que ouvimos lá ˗ Ajuntou Kanon, quase se arrependo em seguida.
˗ E por que é que a camisa do Saga tá suja de sangue? São as lágrimas do Camus? O que aconteceu, afinal?
˗ Mika, está se exaltando... ˗ Aldebaran ousou posicionar-se ao lado do agente.
Um tanto sem jeito, o promotor esclareceu:
˗ Eu me aproximei dele. Só para mostrar... um apoio. E ele se atirou contra mim, eu... eu o abracei... mais para tentar conter o...
Milo olhou-o como que fulminado por um raio.
˗ Ele TE abraçou? E você o abraçou de volta?
˗ Na verdade, eu nem sei direito quem abraçou quem primeiro, mas...
˗ Mas eis que as lágrimas dele estão AÍ, no SEU peito ˗ Rosnou Milo, com indisfarçável amargura.
˗ Sim, por isso, me dê licença, vou tentar trocar de camisa. ˗ Saga não deu mostras de se render ao óbvio descontentamento de Milo. Retirou-se rapidamente. Quando sentiu o olhar sombrio de Milo sobre si, Kanon tratou de fazer o mesmo que o irmão:
˗ Bem, pessoal, vou fazer uma pausa, passar o vídeo pro computador e fazer um lanchinho, a próxima filmagem é do depoimento do Milo e do senhor Figueira.
Milo esteve prestes a seguir Kanon, mas deteve-se ante o pensamento de que seria melhor checar o estado de Camus. Afinal, pelo que acabara de ouvir, o companheiro se emocionara de modo pungente... havia derramado as lágrimas de sangue! Segundo ficara sabendo quando da investigação, a hemolacria acontecia mediante estresse extremo...
Sem bater à porta, adentrou a sala da qual dois que entraram não saíram.
Saori e Camus.
Prendeu a respiração ao ver o amado de cabeça baixa, o rosto oculto pelos longos cabelos vermelhos em desalinho. A seu lado, Saori segurava-lhe a mão, com ar compungido. Ambos estavam sentados em um grande sofá de couro preto.
˗ Camus... você... você tá bem?
A falta de resposta atingiu Milo como um violento tapa.
˗ Saori, ele...
Sem soltar a mão do ex-Redentor, Saori demandou:
˗ Milo, você poderia esperar lá fora?
˗ O quê? ˗ Sentiu-se brutalmente aviltado. ˗ Não, eu não “poderia esperar lá fora” não! Eu quero saber como ele está! Saga me disse que...
˗ Milo, por favor. ˗ O tom cansado da psicóloga fez o policial quase morder a língua. ˗ Camus precisa de um tempo.
˗ E por que esse TEMPO não pode ser COMIGO?
Recebeu como resposta o olhar mais gelado que a nissei já havia lhe dirigido. E olha que ela havia lhe dirigido MUITOS na vida...
˗ Eu... er... Camus ˗ Balbuciou o policial. ˗ Você quer que eu espere lá fora?
O ruivo permaneceu mudo. Pareceu mesmo encolher-se mais, dobrado por sobre o estômago. Como agoniava Milo por não poder lhe ver o rosto!
˗ Certo, eu... eu espero então ˗ Disse por fim, sem ocultar a mágoa.
Era HORRÍVEL sentir-se dispensável daquela maneira!
Então Camus pranteara no peito de Saga, fora abraçado, acolhido por este, mas o apoio do namorado de nada valia?
Fechou a porta, contrariado.
˗ Nossa, que cara é essa, Mika?
˗ A cara de quem é tido como um FARDO nesta porra aqui! ˗ Esbravejou. Sua reação fez Aldebaran arregalar os olhos castanhos.
˗ Calma, o que aconteceu?
˗ Prefiro não falar agora, Debas, eu... merda, tá me dando vontade de fumar!
˗ Hã? E por acaso você fuma?
˗ Eu PAREI. Mas sei lá de que valeu...
˗ Ora, você é inteligente demais pra isso. Senta aí e tenta se acalmar.
˗ Grunf ˗ Grunhiu, jogando-se sobre o estofado. Tentou mudar de assunto, ainda que realmente não tivesse o elucidado para Aldebaran ˗ Kanon foi fazer uma pausa pra comer. Disse que depois é a nossa vez de depor.
O brasileiro assentiu; levantou-se para pegar um copo de água no bebedouro. Bebeu e encheu um copo para o amigo. Estendeu-lhe, ao que Milo aceitou e tomou em goles curtos. Ciente de que o agente evitava falar sobre o que o aborrecera para não mais se exaltar, manteve o silêncio. E em silêncio ficaram os dois naquela sala por quase uma hora, até que Saori apareceu à porta.
˗ Bem, rapazes, daqui a pouco é a vez de vocês deporem.
Percebendo que Camus não estava com ela, Milo dirigiu-lhe um olhar inquisidor. Interpretando-o sem qualquer dificuldade, a psicóloga disse:
˗ Camus está descansando em outra sala. Pedi que o doutor Finkler, que veio a Red Meadow para o julgamento, ficasse com ele.
˗ O psiquiatra do hospital de Portland ˗ Comentou Milo. ˗ Mas o que o Camus tem afinal, que eu nem posso ficar com ele?
˗ Milo, AQUI você NÃO é o namorado de Camus De La Faure. É um profissional como todos nós, que estamos conduzindo este caso. Lembre-se disso, AQUI e, principalmente, na CORTE.
As palavras de Saori, duras, porém justas e certeiras, fizeram o loiro cerrar os punhos. Nada, contudo, saiu por entre seus lábios contraídos. Sentindo a tensão estalar no ar, Aldebaran levantou-se e disse, com um sorriso forçado:
˗ Com licença, vou ao banheiro...
Retirou-se do recinto rapidamente. Milo e Saori encararam-se com uma firmeza da qual nenhum dos dois tencionava abrir mão.
˗ Parabéns por me envergonhar na frente do Debas, foi um belo trabalho, me tratar como uma criança mimada.
˗ Milo, se você se portar como uma, é a única forma que terei de te tratar.
Optando por simplesmente grunhir e cruzar os braços, Milo deu as costas à psicóloga, que suspirou antes de dizer:
˗ Eu compreendo sua preocupação, de verdade, mas...
˗ Era só isso, o meu “comportamento de criança mimada” ˗ Interrompeu, ácido. Mordeu o lábio inferior, decidido a não externalizar o que de fato o incomodava. Sentia-se, de fato, infantil e egoísta.
“Eu me aproximei dele. Só para mostrar... um apoio. E ele se atirou contra mim, eu... eu o abracei... mais para tentar conter o...”
“Ele TE abraçou? E você o abraçou de volta?”
“Na verdade, eu nem sei direito quem abraçou quem primeiro, mas...”
“Mas eis que as lágrimas dele estão AÍ, no SEU peito!”
Contraiu novamente os punhos, um misto de mágoa e impotência a fervilhar-lhe os sentimentos.
˗ A verdade é que Camus teve um princípio de crise nervosa durante o depoimento e...
˗ Ah, sim. “Princípio de crise nervosa”. Foi a expressão usada por Saga. ˗ Interrompeu, indignado. ˗ Pude ver na camisa dele. Camus... Camus chorou nos braços de Saga!
Boquiaberta, a psicóloga considerou-o.
˗ Eu não acredito. Você está com CIÚMES. Sério, Milo? Ciúmes?!?
˗ Ciúmes! ˗ Retorquiu o agente, como que ultrajado. Chegou a soltar um riso rouco.
Por sua vez, Saori também deixou escapar um riso curto de sarcasmo.
˗ Sim, é o que está me parecendo!
˗ Merda, Sao, é isso que pensa de mim? Claro, pra vocês TODOS eu ainda sou o mesmo filho da puta de antes!
˗ Não tem nada a ver com “filho da putice”, Milo, apenas...
˗ Infantilidade? É, é isso aí, doutora Kido, é infantilidade mesmo, é egoísmo, é tudo isso!
Virou-se, sentindo-se uma bomba prestes a explodir. Mas, ao invés disso, conteve-se e voltou a encarar a nissei, com chamas no olhar. Com o dedo em riste na direção da moça, despejou:
˗ Camus NUNCA desabafou dessa forma comigo. Ele NUNCA se abriu verdadeiramente comigo. NUNCA contou abertamente o que contou pra vocês naquela sala ˗ Apontou nervosamente para a porta fechada. ˗ NUNCA. Ele nunca... ele nunca “se jogou” em meus braços e chorou no meu peito, como fez com Saga!!!
Calou-se, pois que a voz estrangulou-se na garganta. Saori balançou lentamente a cabeça em clara reprovação.
˗ Você sabe que o contexto de um depoimento é totalmente diferente de uma conversa entre dois namorados ˗ Falou com contida irritação. ˗ Há toda uma técnica envolvida, visando a que a pessoa conte o que é preciso. É incrível que você “desconheça” isso.
˗ EU SEI, Sao. Eu sei. Mas o meu sentimento é incontrolável...
˗ Você, seu, você, seu, você, seu, VOCÊ! Então é TUDO sobre VOCÊ, Milo? O mundo AINDA gira ao seu redor, não é? A situação de Camus se resume a como VOCÊ SE SENTE?
Atordoado por aquelas colocações, Milo olhou-a por uns segundos antes de prosseguir, mais contido:
˗ Você está coberta de razão. Em nenhum momento, no entanto, eu disse que estou CERTO. Eu sei que estou sendo RIDÍCULO.
˗ Está mesmo.
˗ Mas então... o que faço com essa DOR de nunca ter podido ser o amparo que Saga foi? O amparo de que Camus precisa? Eu nunca... ˗ Deixou-se cair desamparado sobre o sofá, desolado. ˗ ... não posso ser o que Camus precisa.
˗ Milo... ˗ Saori suavizou tanto a voz quanto a expressão e sentou-se ao seu lado. Pôs a mão sobre o ombro tenso do policial. Percebeu que ele soluçava. ˗ Você é o MUNDO dele. Você o salvou. Você o ama. E ele te ama. Procure entender. Coisas que foram represadas na memória de Camus vieram à tona naquela sala. Memórias de ANOS. Memórias das quais apenas AGORA ele tomou consciência. Milo, ele já não se refere a Hades como “meu pai”. Entende o que isso quer dizer?
Ele tornou os olhos marejados para ela, que continuou:
˗ Camus está despertando. Todos imaginamos, de antemão, o quanto isso exigiria dele. O quanto tudo isso seria doloroso porque, enfim, seria ACEITO.
Resignado, Milo assentiu, enquanto esfregava os olhos com fúria. Saori tomou-lhe a mão.
˗ Você também não deve represar o que sente. Só não considere tudo como algo pessoal contra você. Camus precisa de que você o apoie, o entenda, o aceite. Não apenas como tem sido até agora. O relacionamento de vocês não será permanentemente um “início de namoro”, Milo. Coisas sombrias, tristes e pesadas vão emergir, cada vez mais. As reações dele são imprevisíveis porque... porque não sabemos de ninguém que tenha passado pelas coisas que ELE passou, Milo.
Ele pareceu paralisado enquanto processava aqueles dizeres. Ela abraçou-o com ternura.
˗ Desculpe-me por ter sido dura contigo.
Ele correspondeu-lhe ao abraço, libertando o pranto.
˗ Desculpa este babaca cabeça-dura. E... obrigado, São.
˗ Estamos juntos nessa, Milo. O fardo maior está com você, mas estou aqui. Saga, Olia, Olos, Dohko... todos estamos aqui contigo.
˗ E não se esqueçam de mim! ˗ Completou Aldebaran, com sacolas de expresso para viagem.
˗ Debas... cara, eu nem estaria aqui se não fosse por você ˗ Disse Milo com voz chorosa.
˗ Ei, para de chorar, senão vou chorar também, e eu fico muito feio chorando, por mais difícil que isso possa parecer! ˗ Brincou o brasileiro. ˗ Vamos, anime-se, trouxe café, e dos bons. Nada como café pra iluminar um dia!
˗ Eu preferia cerveja, mas sei que não vende aqui no prédio...
˗ Milo ˗ Saori chamou-o uma vez mais. ˗ Sobre Camus... agora que ele começa a aceitar, ou melhor, ENTENDER o que aconteceu com ele... é que começa sua missão “aqui fora”.
Ele assentiu com aparência mais firme e segura.
˗ Bom, vamos ao café. Não deve demorar muito para sermos chamados para...
˗ Com licença... senhor Hatzis, senhor Figueira. Os senhores podem se dirigir à sala 10, por gentileza? ˗ Inquiriu uma funcionária, à porta da sala onde se encontravam.
˗ Corrigindo, não falta nada ˗ Falou o brasileiro. ˗ Será que podemos levar nossos cafés?
˗ Claro. ˗ Respondeu a moça, com um sorriso polido.
Saori acompanhou-os, pois que sua presença se fazia necessária durante aquelas audições.
˗ Acha mesmo que ELE está bem, Sao?
A psicóloga optou por ser sincera:
˗ Você não pode querer que ele esteja BEM com tudo isto acontecendo. Mas, de verdade, a meu ver, está lidando bem com a situação, que é o mais importante.
O policial fez um gesto que denotava concordância. Ela estava certa. Por mais doloroso que fosse admiti-lo, mais importante que um bem-estar à margem da realidade era o desconforto causado pelo despertar da consciência do que lhe ocorrera, a realidade em que agora se encontrava.
Ele iria ficar bem.
Tudo iria ficar bem.
Precisava desesperadamente acreditar naquilo.
*************
De volta ao seu posto, Kanon verificava seu maquinário para captar o depoimento de Milo e de Aldebaran. O primeiro seria Aldebaran: ele ocupou seu lugar defronte ao balcão no qual assentavam-se Saga e Dohko.
˗ Senhor José Antônio de Carvalho Figueira, agradecemos por sua presença, mais uma vez, diante de nós, a fim de contar pormenores de sua atuação na comunidade Vale da Aurora Dourada, principal reduto da Igreja Aurora do Novo Porvir, situada no Maine.
˗ O prazer é todo meu, senhor promotor. Faço com muito gosto.
˗ O senhor já nos contou grande parte de sua experiência quando colono da dita comunidade. ˗ Começou Saga. ˗ Como nos aproximamos do julgamento de Armand Chermont De La Faure, também conhecido como Hades, o líder da referida seita, esperamos contar mais uma vez com sua colaboração.
A porta inesperadamente se abriu e a funcionária que chamara Milo e Aldebaran até ali adentrou a sala com ar apreensivo. Ela foi até Saga e disse-lhe algo em voz baixa. Ele assentiu, dando a ela o consentimento para algo que os surpreenderia ainda mais.
˗ Camus? ˗ Murmurou Milo, ao vê-lo adentrar o recinto, acompanhado pelo doutor Finkler e por Aiolos.
˗ O senhor Camus De La Faure manifestou vivo interesse em presenciar esta sessão. ˗ Esclareceu o médico, muito grave.
˗ Mas... ˗ Milo virou-se para Saori, aflito. ˗ mas... ele... será que pode...?
˗ Se o doutor Finkler está com ele aqui, é porque atestou suas condições para tal.
˗ Estou sim em plenas condições. Senhorita Kido ˗ Anunciou Camus, que não pôde deixar de ouvir a psicóloga responder ao seu recalcitrante namorado.
Os presentes não esconderam a surpresa em ter presenciado o “ex-Redentor” responder no lugar do médico que o acompanhava, e de modo tão assertivo.
Aiolos, junto a eles, reforçou:
˗ O doutor Finkler o acompanhará. Se for necessário que Camus De La Faure deixe esta sessão, nós cuidaremos disto.
Camus olhou para os homens que os acompanhavam com uma expressão decidida, como a dizer “ não será preciso, saberei dominar a mim mesmo.” Entretanto, limitou-se a esperar que Saga lhes mostrasse onde sentar.
˗ Pois bem, hã... Aiolos, Camus, doutor Finkler, podem tomar assento atrás dos depoentes. Peço, sabendo, contudo, que disto já estão conscientes, que mantenham total silêncio enquanto ouvimos os senhores Antônio Ribeiro e Milo Hatzis. ˗ Pontuou Saga. E para o recém-chegado: ˗ Imagino, Camus, que o seu interesse em ouvir os depoimentos destes homens deva-se ao desejo de conhecer cada vez mais a real situação em que se encontrava sua antiga morada, não?
˗ Sim, senhor, não poderia ser por outra razão.
Milo fitou-o com apreensão, quase com pesar. Teria sido alguma medicação que o deixara assim tão... diferente? Não saberia especificar em que sentido, mas Camus de fato lhe parecia diferente.
“Mas ele sempre se recusa a tomar esses remédios... bom, Saori disse que ele teve uma crise nervosa”, pensava, observando-o acomodar-se “talvez não tenham tido escolha a não ser administrar algum...”
˗ ... sim, Minas Gerais, Brasil.
Ao se dar conta de que Aldebaran principiara a responder, procurou concentrar-se no depoimento.
Tudo que o brasileiro relatou, alguns dos quais ditos novamente à polícia, Milo conhecia das conversas que tiveram quando se tornaram aliados na comunidade da seita. Depois que Aldebaran abriu os olhos e se permitiu aceitar fatos dos quais somente suspeitava. Para Camus, porém, tudo que ouvia ali era novidade, uma novidade incômoda que vinha se juntar a tantas outras...
˗ E o senhor não sabia que sua mulher pretendia fugir com a filha de vocês?
˗ Não. Depois da proposta de casamento, ela ficou indignada, alterada até, pois nossa filha era só uma criança... mas depois, deu a entender que havia aceitado, afinal... era um dos Vigias que queria a mão de nossa filha ˗ A voz de Aldebaran tornou-se mais rouca ao rememorar. ˗ e os Vigias eram os mais próximos de Hades... seus assessores diretos. Braços-direitos.
˗ Eles usufruíam de regalias e privilégios em relação aos demais fiéis, não é isso?
˗ Sim, senhor promotor, exatamente isso.
Camus franziu as sobrancelhas. Não lhe eram desconhecidos casos em que varões da igreja de seu pai se casassem com moças por vezes bem mais novas, crianças até. Para ele, à época, não havia distinção marcante entre adultos e crianças. Ele mesmo fora uma criança com responsabilidades de adulto. Desconhecia, entretanto, que essas meninas pudessem se casar contra a vontade dos pais. Em outras palavras, à força, por ordens do líder religioso. E, pelo que Aldebaran contava, fora o que se abatera sobre sua família.
˗ Senhor Figueira, considerando que a palavra de Hades era a lei suprema da seita à qual o senhor e sua esposa se converteram, poderia nos dizer a razão para que houvesse tamanha resistência, por parte de sua falecida esposa, em permitir o casamento de Tabita com o Vigia chamado Kapela?
Aldebaran engoliu em seco, visivelmente constrangido.
˗ A idade de Tabita senhor promotor. Ela... só tinha nove anos!
˗ Foi por isso que sua esposa foi contra esse compromisso?
˗ Sim, senhor.
˗ Mas o senhor não.
˗ Não ˗ Estremeceu, a vergonha cada vez maior. ˗ Quer dizer, claro que eu não queria... Tabita era tão criança ainda! Mas eu sabia... eu achava... que não havia jeito...
˗ Se o Vigia escolheu sua filha, ele contava com a aprovação de Hades. E vocês não poderiam desafiar o “Grande Pai”.
˗ De forma alguma poderíamos.
˗ Que curioso ˗ Dohko se pronunciou. ˗ O título de “Grande Pai” nos faz pensar em um líder bondoso e compreensivo, aberto a negociações. Claro que também nos remete a alguém cuja autoridade é indiscutível sobre seus “filhos”. Não era assim, José Antônio?
˗ Bem, sim...
˗ Então era de seu conhecimento que os que iam contra a vontade de Hades poderiam ser duramente castigados.
˗ Bem... não era... exatamente um segredo. Tínhamos Hades como um pai amoroso sim, mas rígido. Éramos privilegiados por estarmos ali, onde o Redentor estava... e isso se devia a ele, o Grande Pai...
Foi a vez de Camus estremecer.
˗ Sim, a tudo se submeter porque era ALI que o Redentor estava. O preço da salvação direta e exclusiva, não era isso? ˗ Dohko colocou, assertivo.
˗ Isso mesmo.
˗ Por Aiyana discordar do casamento da filha com um homem pelo menos 30 anos mais velho, resolveu fugir com a menina?
˗ Sim, senhor promotor.
˗ Mas isso porque VOCÊ se negou a aceitar o ponto de vista dela.
Aldebaran sentiu-se estapeado por aquela colocação. Sibilou, quase rendendo-se ao pranto:
˗ Naquela ocasião, não foi um ponto de vista! Foi uma verdadeira rebelião, a meu ver! Para... para minha concepção... a concepção de quem estava escravo daquela seita...
Milo mirou o amigo com profunda compaixão. Queria segurar-lhe a mão, ou colocar a palma da sua sobre os ombros do brasileiro e consolá-lo. Camus percebeu a aflição do namorado. Abaixou a cabeça, sentindo-se responsável.
˗ O senhor tentou convencê-la a entregar a menina como noiva ao Vigia?
˗ Sim, pelo bem de todos nós... eu tentei. Nós TÍNHAMOS que obedecer. Sempre.
˗ O policial Milo Hatzis, em depoimentos anteriores, disse que você não sabia dos atos criminosos de Hades. ˗ Saga observou. ˗ No entanto, ao mencionar como se dobrou à vontade do “Grande Pai”, o que nos mostra é o contrário.
O sobressalto que Milo teve na cadeira não foi nada imperceptível. Que ideia era aquela? Acaso duvidavam deles?
˗ Milo ˗ Sussurrou-lhe Aiolia, ao seu lado. ˗ Fica frio. Saga sabe o que faz, pô.
˗ Mas ele... desse jeito...
De repente, Aldebaran virou-se para olhar Camus, que quase perdeu a respiração ao ver-se alvo daquela mirada agoniada.
˗ Eu NÃO sabia que eram atos criminosos que mantinham Hades no poder. Eu NÃO sabia que ele escravizava o próprio filho! ˗ Bradou, quase em desespero.
˗ Entretanto, presenciou ritos e autos nos quais o rapaz era indiscutivelmente vítima de brutais violências físicas. ˗ Volveu Saga, implacável.
˗ Porque era a LEI do maldito lugar!!!
˗ Milo, senta!... ˗ Aiolia puxava-o pelo braço, sem conseguir fazê-lo voltar para o assento.
Saga voltou-se para ele muito sério.
˗ Policial Hatzis, poderia não nos interromper? Sua vez vai chegar.
˗ Por que estão interrogando o Debas como se ELE tivesse feito algo de errado? ˗ Apontou para Camus, que estava lívido e quase encolhido no banco. ˗ Se é assim que estão conduzindo os depoimentos aqui, agora, não é à toa que o Camus passou tão mal!
˗ Milo, se não puder acompanhar o processo em SILÊNCIO e mantendo o mínimo de RESPEITO, terei que pedir que SAIA ˗ Saga ameaçou, com fria firmeza.
˗ Ele está certo, Mika ˗ Bradou Aldebaran. ˗ Eu cometi um erro... um erro que custou a vida da minha filha e da minha mulher!
˗ Esse erro, qual foi, senhor Figueira? ˗ Inquiriu Dohko.
˗ Eu... eu briguei com Aiyana... quis impor minha autoridade de marido... disse que entregaríamos Tabita a Kapela. Foi a pior coisa que eu poderia ter feito... Aiyana, aos 10 anos, casou à força com um homem de 60 anos, na seita que a família frequentava, antes de ela ir para a Aurora do Novo Porvir. Ela não quis ver a história se repetir...
˗ Seguramente. ˗ Saga pontuou, unindo as mãos sob o queixo. ˗ E o que o levou a isso, José Antônio?
Ele uniu as mãos úmidas de suas lágrimas.
˗ Medo. Medo do que nos esperaria caso não obedecêssemos a Hades.
˗ Certo. Dias depois, elas apareceram mortas. Segundo disseram, encontraram os cadáveres de mãe e filha que, horas antes, teriam ido colher ervas nos princípios escarpados da floresta.
˗ Sim, senhor Saga.
˗ Mas você nunca acreditou verdadeiramente naquilo. DISSE que acreditou, para evitar problemas, mas nunca acreditou, e até disse isso a Milo, quando ele ainda se encontrava infiltrado.
˗ Pode dizer por quê? ˗ Saga demandou após Dohko falar. ˗ Talvez coincida com os laudos que obtivemos recentemente com a exumação das covas das duas.
Um aperto no peito fez Aldebaran temer não conseguir falar. Ele bebeu metade da água do copo à sua frente. E então respondeu, com firmeza:
˗ Aiyana era de origem cherokee. Ela conhecia profundamente as plantas, ervas, fungos. Sabia o estado em que deviam ser coletados. Não teria saído para coletá-los após as chuvas como a que vínhamos tendo. Além de não ter levado ferramentas de cultivos nem potes para guardar as ervas.
˗ E ela costumava levar a filha para coletar ervas e raízes?
˗ Não. E parte dos pertences delas não estavam na casa. Por isso, sempre tive em meu coração que elas haviam fugido.
˗ E quanto à queda de Aiyana e Tabita do despenhadeiro? Parece acreditar que elas foram ATIRADAS de lá.
˗ Aiyana estava acostumada, desde criança, a escalar montanhas mais altas que aquela. Ela não teria caído de um lugar como aquele, não mesmo, e não com a nossa filha...
Após receber a resposta, Dohko levantou-se, foi até uma mesa sobre cujo tampo de vidro dispunham-se alguns envelopes. Pegou um deles e o brandiu na direção dos presentes.
˗ Pois você sempre esteve certo, senhor Figueira. Pelos laudos, foi constatado que Aiyana e Tabita foram EMPURRADAS da encosta, e com agressividade suficiente para deixar marcas. Em outras palavras, houve luta, por parte de Aiyana.
˗ O... o quê? ˗ O mundo pareceu desmanchar-se diante do brasileiro.
˗ Aiyana morreu na queda. Os peritos afirmam, porém, que Tabita sobreviveu à queda, mas faleceu horas depois, devido à ausência de socorro.
Aquilo sempre permeou o consciente de Aldebaran. Mas deparar-se com a verdade verbalizada atingiu-o de um modo impiedoso. Todo seu corpo tremia e suas lágrimas não paravam de descer por seu rosto paralisado de horror.
˗ José Antônio, provavelmente desde a recusa pública de Aiyana, o que configurou uma clara insubordinação a Hades, a propriedade estava sendo vigiada. Descobriram a fuga de mãe e filha, interceptaram-nas e as executaram de modo a parecer um acidente condizente com os hábitos de Aiyana.
˗ Sim... eu sempre desconfiei... aliás, eu sempre SOUBE! Mas... mas...
Não pôde prosseguir. Pôs-se a chorar convulsivamente sob os olhares consternados dos presentes. Camus teve ganas de se pôr de pé e sair dali naquele momento.
Sim, era sua maior vontade.
Mas de jeito nenhum sentia-se no direito.
Era exatamente ALI que deveria ficar. Para assimilar, de uma vez por todas, o que fora a Igreja Aurora do Novo Porvir. Quem fora seu pai. O que fora a sua realidade até então, que ainda o fazia chamar o mundo “real” de “este mundo”, ou o mundo de outros...
Como que adivinhando-lhe o turbilhão emocional, Milo virou-se para trás e seus olhos encontraram com os do amante, visivelmente tocado pelo que ouvia. O policial queria muito ir até ele, segurar sua mão, confortá-lo, dizer que estava tudo bem, que tudo ficaria bem e que nada, NADA do que estava sendo relatado ali era culpa dele. Pois que adivinhava perfeitamente que era ISSO que o ruivo sentia naquele momento.
CULPA.
Virou-se para frente, consciente de que infelizmente não era hora para tal. Ali, ele deveria ser o agente federal responsável pela queda da mais terrível seita abusiva em ação conhecida, não o anjo salvador do ídolo vivo desta.
Por sua vez, Camus receou que os sentimentos de Milo para com ele mudassem, desconfiança semeada pelo longo olhar analítico do outro. Uniu as mãos com força, resistindo ao impulso de deixar a sala correndo. Não, não deveria nem mesmo abaixar a cabeça! Ergueu-a, permitindo-se respirar fundo para suportar o que mais estaria por vir.
O depoimento de Aldebaran seguiu-se por mais uma hora, mencionando rotinas dos colonos, rituais e autos presenciados, tributos, movimentações legais de seus bens quando do ingresso na erma comunidade. O brasileiro não mais pranteava; antes via-se em suas feições algo como alívio e, pouco a pouco, expectativa. Enfim, Milo apertou-lhe o ombro em um gesto afetuoso, há bastante tempo pretendido. Ao que o outro sorriu agradecido.
˗ Senhores, procederemos agora ao último depoimento de Milo Hatzis, agente infiltrado na comunidade Vale da Aurora Dourada, durante a operação Êxodo 2018. ˗ Saga cuidou de anunciar.
˗ Você está bem? ˗ Perguntou Aiolos, percebendo que a respiração de Camus se alterara sonoramente. ˗ Quer uma água?
˗ Estou bem sim. É, melhor eu beber um pouco de água. ˗ Concordou o jovem, tomando da garrafa pousada à sua frente.
Atentamente, o ex-Redentor ouviu o agora namorado relatar informações novas e algumas repetidas. Escutou acerca do processo de admissão, no congresso havaiano... da entrada na comunidade e pelos percalços que passara Milo: a revista íntima (ou, como retificaram logo, a “intervenção” íntima), as provações como privação do sono, jejuns e trabalhos forçados, ser despojado de absolutamente tudo para naquele lugar outrora por Camus e tantos outros tido como “santo”.
Falou de quando viu o “Redentor” pela primeira vez. A confusão instaurada. A aproximação do jovem, considerado o Messias daquela “religião”, da qual não passava, na realidade, de um mero fantoche.
As palavras convertiam-se em cenas para Camus, que chegou a fechar os olhos à medida que submergia naquelas recordações.
˗ Pode nos falar, novamente, sobre os rituais e autos de fé que pôde, juntamente com os outros fiéis, presenciar?
Após um breve suspiro, Milo atendeu ao pedido de Saga. Revisitar aqueles horríveis episódios punha seu sangue em ebulição. Por sorte, o assunto já havia sido amplamente apresentado e registrado, sua menção servindo tão somente de anteparo ao depoimento de Aldebaran. Para Camus, no entanto, alguns dos relatos faziam-se sim novidade, especialmente no tocante às estratégias de penetração na infame Santa Ceia e aos embates de Milo com Radamanthys e Algol. Estremeceu ao pensar em como reagiria o companheiro ao ver SEU depoimento, gravado por Kanon... se o depoimento de Milo continha pormenores desconhecidos a Camus, muitos mais havia para Milo no depoimento de Camus.
Uma vez abaixou a cabeça, pesaroso. Sabia que seu destino, àquela época, envolvia sofrimento, uma vez que simplesmente “fazia parte de sua missão”. Todavia, o que descobria ali, naqueles depoimentos ˗ e descobrira em reportagens exaustivamente veiculadas na mídia ˗ é que as “Ovelhas” também passaram por provações muito maiores do que ele imaginava. O trabalho duro, incessante, fosse nos campos, fosse em outros postos, de homens, mulheres, velhos, crianças, a frugalidade de suas dietas, o controle massivo, opressivo, de suas ações, a vigilância intermitente... pouco representavam diante dos agora conhecidos brutais castigos físicos, torturas, exploração sistemática, extorsão, cárcere, estupros, execuções, assassinatos...
Crianças.
Nem mesmo crianças escaparam da sanha monstruosa daquela seita. E pensar que ele acreditara ser suficiente o SEU sacrifício...!
Imaginou Cindy a seu lado, tocando-lhe o dorso da mão. Recusou-se a olhar, as lágrimas ardendo por baixo de suas pálpebras. Então sentiu a outra mão sendo tocada e, ao permitir-se olhar, viu os pequeninos Annie e Andrew, os sorrisos inocentes a feri-lo mais que uma penitência. Virou-se para Cindy e viu detrás dela, envolta por uma cálida luz, Martin e Tom.
Por que lhe sorriram?
Estavam mortos por SUA causa.
“Não permito que pense isso!”, ouviu Cindy dizer-lhe ao ouvido.
“Mas Cindy...”
“Nada, NADA do que aconteceu foi culpa sua!”
“Se eu pudesse, JURO que teria morrido no lugar de vocês! Eu juro”
“Se você soubesse como estamos felizes AGORA, meu amigo, não diria isso.”, ela sorria-lhe doce, “se você tivesse morrido, quem libertaria todas aquelas pessoas?”
˗ Acontece que...
˗ O quê, Camus? Que ia dizer? ˗ Perguntou o doutor Finkler, pois que o ruivo começara a lhe falar algo e parara no meio da frase, o olhar esgazeado para ele.
˗ Hã... eu... nada, nada... ˗ Foi então que percebeu que o depoimento aparentemente havia terminado, a julgar pela movimentação dos presentes, erguendo-se, cumprimentando-se uns aos outros.
Nesse meio tempo, Milo aproximou-se de Kanon, como um míssil teleguiado.
˗ Você já enviou o vídeo do depoimento de Camus para mim? ˗ Perguntou à queima-roupa.
Transparecendo desconforto, o cinegrafista tentou:
˗ Não, eu...
˗ Pela sua cara, tá com medo de me mandar. Mas, de boa, Kanon, depois das coisas que vi naquele inferno... o que vi Camus passar... por mais chocante que tenha sido o depoimento dele, eu garanto: eu aguento.
˗ Espera, não é isso... ˗ Kanon estendeu-lhe um DVD. ˗ Toma. Só... só toma cuidado de assistir sozinho e... bem, vê se não explode a ponto de ASSUSTAR ele. Já foi difícil o suficiente pro carinha, sabe...
Surpreso tanto pelas palavras quanto pelo tipo de mídia ofertada, Milo considerou o irmão de Saga. Fez um gesto afirmativo com a cabeça. Em seguida, procurou Camus com o olhar: viu-o cercado por Saori, o doutor Finkler, Aiolos e Aldebaran.
˗ Obrigado, Kanon ˗ Murmurou, simultaneamente se despedindo.
*************
˗ Então amanhã Albiore e June chegam da Argentina?
˗ Isso mesmo, Debas. Com isso, a frente de batalha estará completa.
˗ Soube que há outras testemunhas com as quais só teremos contato no dia do julgamento. ˗ Disse Aiolia, pegando mais um pedaço de pizza de aliche.
Milo abriu outra long neck ao falar:
˗ Eu sei que haverá do lado do desgraçado do Hades também, precisamos esperar surpresinhas desagradáveis. ˗ Virou-se para Camus ao seu lado, sempre calado. ˗ Quer mais suco?
˗ Não, estou satisfeito, obrigado. Hã... quem podem ser as... testemunhas de Hades, têm alguma ideia? ˗ Ousou perguntar.
Sem deixar transparecer a surpresa por ouvi-lo enunciar tal questão, Dohko, esparramado em umas almofadas de Milo, respondeu:
˗ Por incrível que possa parecer, Camus, Hades ainda conta com aliados. Poucos, suponho, é verdade. Com um escândalo dessa magnitude, apoiar um homem como ele é prejudicial para quaisquer negócios que porventura essas pessoas possuam.
˗ E é claro que os que o apoiam esperam uma fantástica recompensa lá na frente ˗ Ajuntou Aldebaran, tomando suco, como o ex-Redentor, naquela reuniãozinha na casa de Milo.
˗ Mas ele não teve os bens... hã ˗ O ruivo buscou a palavra ouvida na TV. ˗ confiscados?
˗ Se ele for inocentado, isso perde a validade ˗ Dohko foi direto em sua resposta curta, angariando imediatamente a revolta do anfitrião.
˗ Ele NÃO TEM como ser inocentado ˗ Rosnou. ˗ Para de ficar falando essas coisas pro Camus!
Por sua vez, o rapaz cruzou elegantemente as pernas ao retorquir, afetando neutralidade:
˗ Acalme-se, Milo. Eu tenho que saber de todas as possibilidades, não?
˗ Claro, meu amor, mas ˗ O loiro procurou explicar seu destempero. ˗ é que, se fosse valer pelas leis antigas, o maldito estaria no corredor da morte, aposto...
˗ Como o Camus expressou, ser inocentado é apenas uma “possibilidade”, e, a meu ver, muito pequena. Morrendo ou não, ele vai pagar, meus amigos, isso é tão certo quanto o calor do sol! ˗ Dohko assegurou, com um sorriso confiante.
A conversa, por vezes discussão, estendeu-se até a meia-noite. Por fim, Aiolia e Dohko despediram-se de Aldebaran, Milo e Camus. Este já dera uns dois ou três bocejos.
˗ Amor, você tá caindo de sono.
˗ Vou sim, Milo. Até amanhã, Aldebaran.
˗ Até amanhã, Camus, durma bem.
˗ Obrigado, você também.
O ruivo retirou-se da sala de estar, ansioso por uma ducha quentinha antes de dormir.
Dormir... era difícil de acreditar que poderia dormir, após um dia como aquele.
Tão logo se despiu, já na suíte, considerou tomar aqueles calmantes prescritos pelo doutor Finkler. Temia “rever” os irmãos, bem ao lado de Milo, na madrugada: após todas aquelas lembranças remexidas, eles poderiam muito bem delas se servir para atormentá-lo. Balançou a cabeça ao combinar consigo mesmo que decidiria depois do banho.
Não se pode dizer que não decidiu. Sentindo-se finalmente limpo, com um confortável pijama preto com frisos brancos nas golas, mangas e barra da calça, não viu necessidade de “se drogar” ˗ não importava o que Saori e os outros dissessem, era assim que ele via o ato de ingerir medicamentos para contornar qualquer desconforto mental. E, de mais a mais, não o sentia, certo?
Estava confortável, aquecido, alimentado, protegido. Era amado, a dor residia no passado e estava tudo bem. Não estava?
“Se não de forma plena, estou a caminho.”, pensou, enquanto puxava para si a manta macia e perfumada. Apagou o abajur da mesinha de cabeceira e fechou os olhos.
˗ Vai ficar tudo bem. ˗ Falou baixinho para si mesmo.
*************
˗ Então quer dizer que vai admitir a derrota?
˗ Que derrota? ˗ Retrucou Aldebaran, abrindo a long neck com a mão.
˗ Largar a vida de abstêmio ˗ Riu Milo. ˗ Eu bem sabia que não combinava contigo.
˗ Ora, será apenas esta ˗ O brasileiro alegou rindo, sem acreditar na própria fala. ˗ Só não quero deixar você se sentindo desacompanhado, agora que seu primo e o Dohko foram embora.
˗ Aaaaah, agradeço muito pela consideração...
˗ Mas não espere que eu vire várias até o amanhecer. Não sou chegado a cerveja, umas poucas e me dá um sono mortal!
Satisfeito, Milo brindou com o amigo, de quem sentira real falta. Na sua mente um tanto ébria, se permitiu esperar que um dia ele esperasse viver nos Estados Unidos. Ninguém espera nunca se apartar de bons amigos. Após algumas goladas, o policial tornou-se menos risonho e falou:
˗ Eu sinto muito por hoje, Debas.
˗ Nah, que isso, tá tudo bem. Não é preciso...
˗ É preciso sim ˗ Insistiu o agente. ˗ Imagino que da primeira vez que você depôs não tenha sido tão difícil quanto foi desta vez.
˗ Novos fatos vão surgindo. Eles apenas arrancaram de mim o que eu tinha a dizer de forma mais...
Não encontrou expressão que traduzisse o que queria dizer. Milo franziu as sobrancelhas.
˗ Acho que Saga e Dohko pegaram pesado porque esperam exibir esse depoimento no tribunal. Por ele, fica evidente o dano emocional causado por Hades a quem lhe foi fiel.
˗ Sim, imagino que tenha sido por isso. ˗ Aldebaran sorriu sem-graça. ˗ eu dei um belo espetáculo surtando daquele jeito, não?
˗ E quem não surtaria no seu lugar, Debas? ˗ Volveu Milo tristemente.
Eles beberam em silêncio por longos minutos. Já abriam novas cervejas quando o brasileiro indagou:
˗ Acha que Hades pega a pena máxima?
Tomando fôlego, o policial respondeu contrafeito:
˗ Se você se refere à prisão perpétua... acredito que as chances são consideráveis.
˗ “Consideráveis”? Só... “consideráveis”?...
˗ Não há, até o momento, nenhuma prova de que o desgraçado tenha matado alguém diretamente. Eu digo, ele tinha lacaios pra fazer tudo por ele, certo?
˗ Todos os castigos físicos, torturas, estupros, mortes...
˗ Cometidos por fanáticos sob sua influência. Sob suas ordens.
Aldebaran meneou a cabeça, a preocupação patente nos olhos escuros semicerrados.
˗ Isso atenua a situação dele, é o que está dizendo?
˗ Foi o que me apresentaram...
˗ Mas e o assassinato da própria esposa? Tudo o que ele fez com o próprio filho? O que ele fez FAZEREM com o Camus... Milo, isso TEM que acabar coma vida dele...!
˗ É no que quero acreditar, amigo ˗ Viu que sua garrafa esvaziara mais rápido que percebera. ˗ Por mim, o filho da puta recebia pena de morte. Mas Saga já me adiantou que é impossível.
˗ Eu sei que é um crime a nível federal, e apenas ele estando em estados que permitissem a pena de morte, poderia...
˗ Debas, por acaso VOCÊ estaria torcendo para que o miserável pegasse a pena de morte?
O brasileiro cruzou os braços e ficou pensativo por uns instantes. Revelou, pausadamente:
˗ Normalmente, eu nunca seria a favor disso. Mas Hades... é uma mancha no mundo. Ele atingiu mais que o patrimônio, a dignidade, a integridade, a vida das pessoas... ele atingiu suas ALMAS. Seus ESPÍRITOS. Milo... milhares de pessoas NUNCA mais acreditarão em Deus.
Um tanto impressionado com aquela colocação, Milo quis saber:
˗ E você AINDA acredita, Debas?
Após um longo suspiro, o brasileiro admitiu:
˗ É difícil responder. É como um resgate diário, sabe? De algo que esteve dentro de mim desde criança, que fez parte de minha formação... minha família no Brasil era religiosa. Nasci presbiteriano. Deus sempre foi um conceito presente na minha vida. E ficou mais vívido quando me converti à Aurora do Novo Porvir. Agora... é como se um castelo de areia tivesse sido derrubado por uma onda... eu corri para salvá-lo, mas... ˗ Mostrou as palmas das grandes mãos. ˗ só ficaram comigo uns grãos de areia.
Milo pôs a mão sobre seu ombro.
˗ Se esse Deus for o Deus que um dia fez com que tudo fizesse sentido pra você, Debas... você vai “resgatá-lo”. Talvez Ele mesmo venha resgatar você dessa desesperança, trazida por Hades. A onda derrubou o castelo, mas ela se foi... outro poderá ser construído, em outro lugar.
Mirando-o com indisfarçável surpresa, um sorriso pouco a pouco surgiu no rosto de Aldebaran.
˗ Céus, eu poderia jurar que não tivesse essa veia religiosa, Mika.
˗ O que eu tô dizendo não tem nada a ver comigo, é só...
˗ Acho que você leva jeito pra pastor, hein!
Eles riram, brincando entre si, as bebidas abrilhantando aquela improvável leveza instaurada.
Já era madrugada quando resolveram se recolher. Milo adentrou o quarto escuro. Aproximou-se da cama, onde afundado nas cobertas estava o namorado. Abaixou-se e disse em voz baixa:
˗ Nada, NADA disso tudo é culpa sua, Camus. NADA.
Não demorou nada para que do edredom emergisse um rosto que pouco tinha de sonolento. De alguma forma incompreensível para Camus, Milo sabia que ele estava desperto. Ficou em silêncio encarando-o na penumbra.
˗ NADA do que aconteceu, do que está acontecendo é culpa sua. ˗ Milo insistiu sério.
˗ Como sabia que eu não estava dormindo?
˗ Porque, meu amor, meu grande amor ˗ Milo acariciava-lhe o rosto com suavidade enquanto respondia. ˗ eu o conheço. Já te conheço como você não imagina.
˗ Claro. Você é um detetive. ˗ Camus sorriu com certa ironia.
˗ Não haveria como você estar dormindo depois de ter tido um dia como hoje.
O ruivo sentou-se apoiado nos travesseiros para olhar Milo na mesma altura. Abraçou os joelhos com ar displicente.
˗ E... por que está me dizendo essas coisas?
˗ Porque eu SEI que você está se sentindo culpado. Culpa foi algo que foi plantado em você desde que toda a tramoia de Hades foi idealizada.
Por mais que o odor de álcool sugerisse que poderia ser a bebida a estar influenciando aquela fala de Milo, Camus sabia em seu coração que a mesma era legítima.
˗ É difícil eu não sentir isso.
˗ Eu sei. Mas não deve. De forma alguma você deve achar que a culpa, ou sequer um pingo dela, seja sua. ˗ As mãos de Milo agora seguravam-lhe as faces com firmeza.
˗ Eu sei que tudo foi arquitetado por Hades, mas...
˗ Sem “mas”, Camus. Você acabou de dizer. TUDO foi arquitetado por Hades. Você apenas foi o instrumento que ele usou para realizar o plano ardiloso e cruel que o pôs na cadeia! Ele, ELE! Não é você que está preso. Não é você que vai ser julgado dentro de poucos dias! Entenda... você não tem culpa de nada. Ao contrário, como Aldebaran, como Aiyana, Tabita, Albiore, June, tantas e tantas pessoas, você foi uma VÍTIMA de Hades... você é uma vítima, não o culpado!
E tantos outros...
O leal Chrysaor. Pandora, Ikki, Shun... Cindy, Martin, Tom, Annie, Andrew, Emma, Jim...
Camus fechou os olhos lentamente.
“Mas eu estou AQUI”, pensou, sentindo o conforto, o calor, o pertencimento, a proteção... o amor de Milo.
˗ Fique comigo... ˗ Murmurou, ansioso pelo encerramento daquela conversa e pelo corpo do amado.
Mais não seria preciso dizer; prontamente Milo tomou-lhe os lábios, juntando-se a ele no leito e sendo recebido de imediato. Os braços de Camus trouxeram-no para junto de si. Beijaram-se demoradamente, a ternura aos poucos sendo substituída pelo ardor que os consumiu e os levou para o ato sempre almejado.
O clímax, atingido quase que simultaneamente, deixou-os letárgicos, um de frente para o outro, apenas suas respirações entrecortadas a serem ouvidas no recinto escuro. Envolto pela paz do orgasmo e pela presença de Milo, Camus enfim foi agraciado pelo sono. Quando o percebeu ressonando com a leveza de uma criança adormecida, Milo dele apartou-se com cautela. Pôs-se de pé junto à cama e levou um bom tempo observando o amado ou, pelo menos, desvendando-lhe as feições serenadas, através da tênue iluminação vinda do quarto contíguo, onde ficava o closet e no qual um abajur resistia aceso. Com a plena certeza de que Camus dormia, deixou o quarto.
Pegou uma garrafa de uísque no bar antes de rumar para o escritório, sobre cuja escrivaninha o computador ligado e o DVD que Kanon lhe dera esperavam por ele.
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