Redentor
41 Getsâmani - Ato VI : Ventos de Mudança
Notas iniciais
“Kanon, pode parar a filmagem, por favor.”
“OK, Saga.”
Os últimos dizeres do vídeo do último depoimento de Camus.
A mão trêmula de Milo tateou a superfície lisa da escrivaninha de cerejeira até encontrar o copo de uísque.
Vazio.
Sequer percebera que a bebida havia acabado.
Por um instante, cogitou em tomar da garrafa mesmo. Antes que a pegasse, esfregou os olhos, interceptando lágrimas silenciosas. Passou os dedos pelas faces úmidas. O que acabara de ver? Ou melhor, o que acabara de ouvir?
Nunca cessaria de descobrir mais e mais absurdos? Então toda a crueldade que havia presenciado in loco havia sido uma tímida pincelada de horror concebida por Hades, vivida por Camus? Vivida por aquele a quem amava, a quem devotara seu coração, sua alma? A quem jurara proteger?
Seus olhos brilhantes pelo pranto, vidrados pelo estupor e pela revolta, continuavam fitos na tela do computador, a última imagem congelada como a derradeira cena de um pesadelo que se esvai ao despertar.
O semblante alquebrado da pessoa mais doce e pura e conhecera.
Por quê? Por que Camus tivera que passar por todo aquele tormento? Por quê?
Não era possível que Camus um dia “seguisse em frente”.
Ele, assim como seus colegas de investigação, seus amigos, não tinha como simplesmente crer que aquilo fosse capaz de acontecer. “Seguir em frente”... o que era o “em frente”? O que haveria para Camus depois de toda uma vivência tenebrosa, cativa, infligida justamente por quem deveria tê-lo amado e protegido? Depois de ter sido mero veículo do mais sórdido estratagema já cunhado pelo crime de que tivera notícia?
Como?!?
“O que posso fazer? Aliás... eu POSSO fazer ALGUMA COISA?”, pensava, a garrafa surpreendentemente esquecida durante aquela improfícua reflexão?
Fechou os olhos de repente, incomodado com a súbita iluminação do escritório.
− Milo?
Parado à porta, Camus, que acendera a luz, considerava o parceiro. Este agradeceu internamente por haver enxugado as lágrimas momentos antes.
− Ainda acordado, meu amor? – O policial tentou imprimir vivacidade ao tom genuinamente surpreso.
Encarando-o com seriedade, o ruivo respondeu:
− Eu não estava. Mas, percebendo que você não estava na cama, eu...
Milo quis dar um tapa na própria testa. Que imprudente! Logo na noite seguinte a tantos desgastes emocionais por Camus sofridos, ele se ausentara daquela forma...
− Ah, anjo, desculpa, eu... eu... – Antes que o parceiro chegasse perto da mesa, fechou a tela do computador. − ...perdi o sono e aproveitei pra vir adiantar algumas coisas pro trabalho.
Sem parecer convencido, o ex-Redentor aproximou-se do agente, que sustentava o sorriso cênico com que recebera o amante.
− Está chorando – Não foi uma pergunta e sim uma observação baixa e serena.
− Eu? Não, não tô não, amor – O loiro rebateu, com um risinho.
− “Tá” sim.
− Ah. Meus olhos, né? – Instintivamente levou até abaixo de uma das pálpebras os dedos médio e indicador da mão direita. – Ficam um pouco irritados quando uso o computador à noite, mesmo. É só isso, mas já terminei o que tava fazendo e...
− E o que estava fazendo? – Inquiriu o ruivo calmamente.
− Complementando um dos inúmeros relatórios que o Saga me manda fazer...
Camus sentou-se em uma poltrona de couro negro. Com uma serenidade impressionante até para um já àquilo acostumado Milo, disse simplesmente:
− Você estava assistindo à gravação do depoimento que prestei hoje.
O sorriso desapareceu lentamente do rosto de Milo. Ele ainda tentou:
− Não, eu não...
− O irmão do promotor filmou meu relato à equipe da investigação. Não era nada a que eu não estivesse acostumado. Muitos dos atos realizados quando eu era o “Redentor” eram filmados. E outros depoimentos à polícia também foram. Você teve acesso ao vídeo de hoje e ficou... assim.
Milo não soube mais o que dizer. Abaixou o olhar como uma criança pega em falta por algum adulto.
− Sinto muito que isso tenha te afetado desse modo. – Completou Camus, neutro.
− Camus, pelo amor de Deus, você... você não tem que “sentir muito” por nada disso!... não mais... eu...
Sentiu a voz embargar perigosamente e calou-se. Não queria que o amado lamentasse por suas reações às verdades que não cessariam de emergir. Quando notou que controlava melhor a emoção, comentou:
− É difícil não me ressentir ao saber de mais coisas que te aconteceram lá naquele... naquele inferno.
− Não é pior para mim do que foi para Cindy e sua família.
Boquiaberto, o policial encarou-o abismado com aquela frieza.
− Eu... de verdade NÃO tenho certeza disso, Camus.
− Deveria ter. Eles estão MORTOS. E eu estou vivo.
− Eu sei! Mas... é que...
Camus levantou-se e foi até ele. Bastou que suas mãos tocassem o rosto de Milo que os olhos deste marejaram novamente.
− Eu estou vivo, Milo. Aqui... com você.
Lágrimas idiotas, inconvenientes! Aquela não era hora de...
Bem, tarde demais.
− Eu odeio tanto Hades! Odeio do fundo do meu coração! Eu queria tanto MATÁ-LO com as minhas próprias mãos! Eu não suporto a ideia de que ele te fez sofrer tanto e não vai sofrer um décimo, não, nem um centésimo da dor que você experimentou! Da dor que eu SEI que ainda está aí, em você! De tudo que...
Os finos lábios do ex-Redentor uniram-se suavemente aos carnudos do choroso agente federal. Foi Camus quem buscou estreitar-lhes o contato, quente e amoroso. Milo apenas deixou-se levar. Fechou os olhos em total entrega. Sentiu sobre suas coxas o peso do amado, que ali sentava a fim de enlaçá-lo com mais propriedade. Beijaram-se longamente, um acordo silencioso de que todo o horror registrado pelo vídeo de Kanon em nada afetaria o presente que ambos estavam construindo.
Quando o beijo cessou, Camus ocupou-se de aparar as lágrimas de Milo com suas mãos macias. E, com voz igualmente macia, conclamou em um terno sussurro:
− Que tal voltarmos para NOSSA cama? Quero fazer amor com você...
O baixo ventre do policial prontamente reagiu àquela proposta. Milo fez questão de tomar Camus nos braços, nunca abandonando-lhe os lábios, para levá-lo de volta ao leito, onde se amaram até quase o amanhecer.
*************
Milo, Camus e Aldebaran esperavam o elevador. Entraram; os três trajavam roupas casuais, próprias para um sábado aprazível na casa de Saga. O promotor os esperava para um churrasco, evento de boas-vindas a Aldebaran, Albior, June e Jacó, estes três últimos recém-chegados da Argentina para depoimentos finais e, obviamente, para o julgamento.
O elevador parou no sexto e no segundo andar. Curiosamente, as pessoas que por ele esperavam escolheram não entrar. Milo, Camus e Aldebaran se entreolharam, em dúvida se tal atitude se devia ao tamanho descomunal do brasileiro – que chegava a se abaixar um pouco para não encostar a cabeça no teto do transporte – ou se era por causa da presença do ex-Redentor, pois que situações semelhantes já haviam se verificado... havia os vizinhos compreensivos, que manifestavam solidariedade e apoio ao desafortunado rapaz. No entanto, também existiam pessoas abertamente insatisfeitas com a presença de tão polêmica personagem em seu condomínio.
− Melhor pra nós, sobra mais espaço – Milo deu de ombros, simulando descaso.
− Fale por você – Resmungou Aldebaran, incomodado com aquela limitação espacial.
Por incrível que parecesse, Camus soltou uma risadinha. Milo acompanhou-o, satisfeito em vê-lo cada vez mais “bem resolvido”. Antes ele baixava o olhar, constrangido... por fim, os três acabaram por rir. E foi com sorrisos bobos no rosto que deram de cara com uma carrancuda Natassia no hall do prédio, a seu lado o noivo Shura e o filho Hyoga.
− Deeeebaaaas! – O menino gritou e correu para o brasileiro, que, de imediato, o ergueu do chão, festejando o reencontro às gargalhadas.
− Mini-Milo! Como você tá?
− Êêêê! É bom te ver! – Riu a criança, feliz.
− Ei! Ponha meu filho no...
− Natassia – Shura conteve a parceira com um discreto apalpar em seu braço.
A intervenção pareceu fazer efeito, pois a russa se conteve, malgrado seus olhos claros soltassem chispas de reprovação; em seguida, caíram sobre a recatada, porém firme figura do ex-Redentor.
− Bom dia, Natassia. Bom dia, Shura – Cumprimentou polidamente Milo.
Apenas Shura respondeu-lhe, oferecendo a mão para o cumprimento. Milo apresentou ao espanhol:
− Este é Aldebaran, ele veio do Brasil para testemunhar contra o safado do Hades no julgamento. Prestou o último depoimento ontem, era uma das pessoas que viviam lá naquela colônia de horrores. Debas, este é Shura, futuro padrasto do “Minimilo”.
A russa revirou os olhos ante a brincadeira. Seu noivo, contudo, riu com simpatia.
− Muito prazer, Aldebaran. Lamento pelos percalços pelos quais certamente passou na tal comunidade.
− O prazer é todo meu. Na verdade, foram mais que percalços... mas sobrevivi para ajudar aquele desgraçado a ir mofar na cadeia.
− E você é o Camus Chermont – O noivo de Natassia adiantou-se à apresentação de Milo.
− Sim. Prazer em conhecê-lo, senhor Shura.
− A gente vai demorar muito aqui? Quero logo ir pra casa do tio Saga! – Reclamou Hyoga, com a impaciência própria das crianças.
− Hyoga, isso são modos? – Ralhou a mãe do garotinho.
Ninguém poderia desvendar, mais tarde, o que se passou pela cabeça de Milo ao fazer o convite: fato é que, após olhar por alguns segundos para Natassia e Shura, ele o fez:
− Hã... vocês não gostariam de ir com a gente lá pro Saga?
O casal mirou-o sem disfarçar a surpresa.
− Desta vez estamos convidados? – Ironizou a loira.
Milo encarou-a com firmeza.
− Se estou convidando, é claro.
Cauteloso, Shura tomou a palavra:
− É muito gentil de sua parte, mas não queremos incomodar, Milo.
− Não será incômodo algum, Shura. Desde que não haja... bem, você me entende.
De braços cruzados, Natassia inferiu, mal-humorada:
− Desde que EU não me manifeste, não é?
− Bom, se quiser entender assim...
Percebendo a tensão no ar, o espanhol disse:
− Obrigado pelo convite, mas...
− Ora, por que não? – Uma subitamente sorridente Natassia cortou-o. – Faz tempo que não vejo Saga e os outros, eu adoraria!
− OBA, mãe, você vem com a gente? Shura também? Legaaal! – Festejou Hyoga, dando pulinhos e abraçando a russa pela cintura.
Camus e Aldebaran se entreolharam, certa dúvida em seus semblantes apreensivos. Porém, cabia a Milo administrar aquilo...
− Tenho certeza de que Saga não se importará com convidados de última hora. Vamos, então! – Falou, para surpresa de seus companheiros.
Assim, todos rumaram para a casa do promotor, que os recebeu com a maior das boas vontades, ainda que estranhando a ação de Milo.
Os presentes, disfarçando a surpresa em ver Natassia ali, cumprimentaram os recém-chegados. Cumprimentaram-no também June, seu filhinho Jacó e Albior, em uma cadeira de rodas. Camus foi até eles, maravilhado. June abraçou-o efusivamente.
− Camus! Como é bom te ver!!!
− June! Eu digo o mesmo!
− Você está ótimo! – Ela deu dois passos para trás para contemplá-lo, visivelmente emocionada.
− Graças aos seus esforços, os de Milo e os de Albior – Falou ele, cuidadosamente olhando o homem agora cadeirante. Não sabia exatamente como chegar até ele. Certo constrangimento dominava-o. Voltou a olhar June – Você também está ótima.
A outrora oprimida jovem ostentava um lindo e alegre sorriso, seus longos cabelos soltos em um corte com mechas repicadas, que lhe dava um ar mais moderno e sofisticado. Vestia uma blusa de lã azul clara cujas mangas iam-lhe até os cotovelos, os pulsos ornados de pulseiras douradas; uma calça jeans clara moldava-lhe as belas formas sempre ocultas pelos longos vestidos dos tempos de integrante da seita.
− Olá, Camus. É bom te ver.
− Albior... como vai? – Sentiu-se um tanto idiota perguntando aquilo, mas foi o que lhe ocorreu falar.
− Estou bem, e vejo que você também está.
Algo naquela fala o fez se sentir culpado.
− Eu estou bem sim. E muito graças a você, devo reconhecer. – Disse, perturbado.
− Não diga isso.
− Como não? Você... você... – Não soube mais o que dizer. Nunca tinha visto alguém paraplégico antes. Saga veio salvar a situação:
− Que bom que estão todos aqui! Fiquem à vontade, infelizmente está um bocado frio para a piscina, mas se quiserem se arriscar...
Aiolos completou, simpático, trazendo drinks em uma bandeja:
− Há petiscos e canapés ali na mesa, enquanto o almoço não sai. Hoje, quem está a cargo do churrasco é o Olia.
− E desde quando Olia entende de churrasco? Achei que ele só soubesse “fazer” seus sucrilhos de manhã – Brincou Milo.
Aiolia brincou de volta, brandindo um espeto no ar:
− Neste caso, você fica de fora dos agraciados primores churrasqueiros! Não vai querer se arriscar, né?
Os presentes, com exceção de Natassia, riram a valer. Um tanto sem jeito, Kanon aproximou-se do ex-messias para lhe perguntar:
− Como você está?
− Estou bem – Respondeu, um pouco incomodado com a pergunta.
− Isso é bom – Volveu o irmão de Saga, aparentemente aliviado. Por trás dele, surgiu Saori, dando-lhe um beijo estalado na bochecha. O ex-Redentor disfarçou a surpresa ao ver tal interação.
− Oi, Camus! Você parece muito bem hoje – Disse ela.
− Eu estou bem, obrigado, senhorita Kido.
Por que ele não estaria “bem”?
A média distância, Natassia mal disfarçou a expressão de enfado. Controlou-se, contudo, pela presença de Shura, que a todos saudava com amabilidade.
− É bom te ver, Shura, faz muito tempo que não nos encontramos – Cumprimentou-o Saga.
Shura sorriu, consciente de que a razão de seu afastamento dos demais se devesse à sua bela e temperamental noiva...
Vindo de dentro da casa, Jacó correu para abraçar Camus, que muito se alegrou ao ver o sobrinho. Como o ruivo queria poder ver os outros sobrinhos queridos, Shun e Ikki, covardemente assassinados pelo próprio pai, Radamanthys. Sacudiu a cabeça, tentando afastar aquelas dolorosas lembranças.
Pandora... Shun... Ikki...
Por quê?
Era o que acontecera... LÁ... por causa DELE... DELES...
− Tio! Que foi?
− Nada, é apenas a emoção em rever todos vocês.
− Jacó! Ei, garotão, como tá essa força?
− MIKAEL! – O menino precipitou-se afoito para aquele a quem considerava dever a nova e melhor vida.
− É “Milo”, o meu nome, Jacó, vai dizer que não sabe? – Divertiu-se o agente, tomando o pequeno nos braços.
− Eu acostumei “com” esse nome, Mikael!
− É, tô vendo! Olha, este aqui é o meu filho, seu nome é Hyoga...
De idades próximas, não demorou para que as duas crianças travassem amizade; logo estavam imersas em seu mundo próprio de jogos e brincadeiras.
− É incrível! Pensar que meu filho e Jacó finalmente se conheceram e agora viraram amiguinhos – Comentou Milo, animado entre os companheiros. Tomou uns goles de cerveja antes de prosseguir, com um quê melancólico. – Houve momentos “naquele lugar” em que achei que nunca mais voltaria a ver o Hyoga... e agora...
Veio à sua memória o tenebroso pesadelo que tivera no Vale: Hades, ele, Hyoga destinado a um sacrifício... seu semblante tornou-se ainda mais carregado. Percebendo-o, Aiolos observou:
− Você quase nunca fala sobre como se SENTIU naqueles dias.
Tomando fôlego, Milo olhou para Camus, que conversava com June e Albior. Suspirou profundamente e elucidou:
− O que senti não se compara ao inferno que ELE viveu. Não vejo realmente necessidade em ficar falando de mim.
− Não é porque você “não vê necessidade” que a necessidade não exista – Volveu Saori. – É certo de que foi terrível para você também, naquele lugar.
− Sim, você passou por poucas e boas no Vale, Milo. Foi até torturado pelos miseráveis, não tem como esquecer disso. Sem contar a pressão psicológica absurda a que...
− Milo foi TORTURADO? – Uma estupefata Natassia interrompeu Dohko. O ex-marido deu de ombros, em uma tentativa de minimizar o peso instaurado daquela conversa.
− Ossos do ofício. Tô vivo, é o que interessa – Sorriu, pegando outra long neck.
− Mas... céus, como foi isso? – Ela insistiu, a mão direcionando-se à bandeja de drinks que lhe era estendida pela psicóloga da equipe. – Desconfiaram que você era um investigador? Te torturaram para fazer você confessar?
Foi nítida a todos a má vontade de Milo para continuar aquele assunto; não obstante, Aiolia, já tocado pela bebida e sem muito tato, revelou:
− Durante um dos tais rituais daqueles malucos, Camus estava prestes a ser açoitado diante da multidão de fanáticos. Milo se ofereceu pra ser açoitado no lugar dele. – O “churrasqueiro” nem percebeu a mirada irritada do primo.
− Uau, isso... isso foi muito nobre da sua parte, Milo. – Shura falou, com sincera admiração.
Controlando a irritação, Milo retrucou:
− Não tem nada a ver com “nobreza”, sabe? Como posso explicar... é algo ligado à nossa... humanidade, eu diria. Tá mais pra um “senso de dever”. Que desperta num IMPULSO. Quem nunca viu uma notícia de alguém que arrisca ou até mesmo sacrifica a própria vida por alguém que sequer conhece?
− Você... SE OFERECEU para ser chicoteado no lugar daquele... do rapaz? – A ex-mulher ainda parecia incrédula. Jamais imaginaria um homem a quem conhecia como egoísta, um completo egocêntrico, capaz de tamanho desprendimento.
− Foi um impulso, já disse.
Munido de um cálice de vinho – a ocasião fizera-o suspender temporariamente a abstenção alcoólica – Aldebaran acrescentou:
− E não só daquela vez, embora ela tenha sido PIOR: aquele capataz, Gideão, te chicoteou a valer, lembra? Quando você se afastou da lavoura para investigar os arredores da propriedade.
Satisfeito em enfim poder mudar a tônica da conversa, Milo assentiu, vivamente.
− Soube que ele foi morto pela polícia. O cara era “osso duro de roer”. Tinha um vozeirão de locutor de rádio, hein, Debas?
− Mas ficou todo bonzinho contigo nas vezes em que o Re... o Camus foi até a lavoura para VER VOCÊ – Relembrou o brasileiro, aos risos. – De lobo passava a cordeirinho, vendo você indo caminhar com o Camus!
Ele quase riu junto com o amigo, mas a expressão mais que surpresa, interrogativa, da ex-esposa fê-lo ficar sério.
− No final das contas, era só mais um pobre coitado manipulado por Hades. – Disse, com seriedade.
Afastados do grupo que, próximos à mesa guarnecida de drinks e iguarias, rodeava Milo enquanto beliscavam e bebiam, Camus, June e Albior conversavam sobre o rumo que suas vidas haviam tomado. Encontravam-se sentados em bancos de jardim brancos, sob uma frondosa cerejeira. A viúva de Algol segurava afetuosamente as mãos de seu querido cunhado ao dizer:
− É um sonho, ver você tão bem tratado e feliz, Camus. Não está com aquela magreza, aquela palidez doentia, aquele olhar apagado... e está entre pessoas boas e amigas. Mesmo quando aquela “fé” me dominava, nunca estive em paz, testemunhando o seu sofrimento.
− Obrigado, June. Digo o mesmo quanto ao SEU sofrimento. Embora soubesse que eu não deveria jamais contestar nada do que ocorria na Comunidade, não me sentia bem em ver a maneira com que você era tratada pelo meu irmão. Nem mesmo meu... nem mesmo Hades a defendia.
June e Albior entreolharam-se brevemente, ante a recusa de Camus em proferir “meu pai”. A jovem pontuou:
− A bem dizer, às vezes ele intervinha sim, mas eu sei que era pelo bem do neto... e para que seus assessores não se revoltassem TANTO.
− “Pelo bem do neto”... acredita que Hades pudesse se preocupar pelo BEM de alguém? — Questionou o ruivo secamente.
− Jacó era neto dele, portanto, seu herdeiro, um futuro sucessor e aliado na administração da igreja que ele acreditou “eterna”. Como “Grande Pai”, zelar pela família era essencial para a manutenção desse título. Mas – Ela lançou um olhar repleto de amargura para o filho, que brincava com Hyoga no jardim. – contanto que Algol não deixasse marcas visíveis em mim... e no Jacó... Hades não se importava tanto.
Albior pôs a mão sobre o ombro da esposa ao falar:
− Isso tudo é passado, meu amor. Agora temos toda uma vida pela frente... LIVRES.
A Camus impressionou que tais palavras fossem enunciadas pela pessoa mais fisicamente afetada pelos horrores da seita, dentre eles. Armou-se de coragem para indagar:
− O que os médicos dizem sobre sua condição, Albior? Ela é... permanente?
O ex-Arauto considerou-o, um tanto surpreso. Camus tratou de se explicar:
− Andei pesquisando na Internet e vi que há casos em que pessoas que foram privadas dos movimentos nas pernas voltaram a andar depois de um tempo e... de...
O casal não pôde deixar de sorrir: o enrubescimento do ex-messias acrescentava graça à fala.
− Pelo visto, você está mesmo se adaptando a “este mundo”! – June comentou divertida.
− Bem... Milo e principalmente Hyoga me ensinam bastante sobre Internet, computador e celular – Mostrou o dele, desta vez sorrindo também. – Vejam, Milo me deu um celular!
− Mas, Camus... será que é bom para VOCÊ ter acesso a... a certas... – Albiore não sabia como expressar a preocupação de que o rapaz se inteirasse demais acerca do que se falava do caso... e DELE. Em pouco tempo “naquele mundo”, tanto ele quanto June já haviam percebido que a estupenda rede internacional de computadores era tida por muitos como “terra de ninguém”, um verdadeiro escudo de vastos contingentes de indivíduos cruéis e intolerantes...
− Eu quis mesmo para tirar fotos de Milo. Ele tem a estranha mania de ficar tirando fotos de mim o tempo todo, até quando estou dormindo! Não sei para que faz isso. Qual o sentido de fotografar alguém dormindo? Então lhe pedi um celular para poder tirar fotos dele também.
Os risos que aquela fala um tanto impaciente arrancou de June e Albior chamaram até a atenção do outro grupo...
− Bom, respondendo à sua pergunta – Albior voltou ao assunto, tão logo pôde parar de rir. – Nossa vinda aos Estados Unidos tem a ver com isso também.
Eufórica, June tomou a palavra:
− Recebemos mensagem de uma equipe médica do Hospital Central de Nova Iorque que... imagine, Camus!, que se dispôs a tratar de Albior... eles acreditam que Albior tem sim grandes chances de voltar a andar!
O semblante do ruivo iluminou-se como o sol.
− É sério? Verdade mesmo?!
− Bom, não há 100% de garantias de sucesso, mas, segundo nos informaram, as chances existem e, como a June disse, são grandes – Albior ressaltou, com o ar cauteloso que o ex-Redentor tão bem conhecia. – Por isso... estamos nos mudando para cá, em breve.
− O quê? Por que não me contaram?
− Estamos contando agora, seu bobo – A moça brincou, apertando as bochechas do cunhado pasmado.
− Esta viagem, além de ser para que possamos enfiar Hades na cadeia, é para acertarmos os trâmites da mudança. O governo norte-americano vai arcar com tudo e, tão logo nos estabeleçamos aqui, vou me submeter à primeira cirurgia.
Camus sorriu com uma empolgação jamais vista pelo casal.
− Isso... isso é ótimo! – Exclamou, emocionado. – Na verdade, é MUITO MAIS que isso, eu só... não sei o que dizer. Estou muito feliz por você, Albior! E por você também, June!
− Obrigada, meu querido...
− Fico feliz em saber que voltará a viver perto de mim, June. Você é... toda a minha família agora. Você, Jacó e Albior, que também considero como um familiar. Eu sei que não tenho direito nenhum de dizer isso, mas...
− Como assim “não tem direito de dizer isso”, Camus? – Ela franziu as sobrancelhas, estranhando aquela declaração.
O sorriso do ruivo tornou-se constrangido e triste.
− Vocês sofreram tanto por MINHA causa...
− Por SUA causa? Ora, que absurdo, Camus! Não foi você quem criou a Igreja Aurora do Novo Porvir, foi o seu PAI!
− Sim, Albior, mas EU era o Redentor pelo qual todos estavam lá, servindo a ELE, a mim, naquele lugar de tanta... dor.
Em um gesto cúmplice, June tomou as mãos do jovem, que a olhou surpreso.
− Ninguém suportou mais a dor criada por Hades que VOCÊ, Camus. Não deve jamais se culpar por NADA, ouviu bem? Por nada!
− June... é que... você... vocês não sabem de TUDO... – Intimamente ele se referia ao massacre da família de Jimmy.
Inocentes crianças, inocentes pais!
Trucidados unicamente porque ELE...
O abraço apertado da cunhada apertou de igual modo sua garganta já constringida.
− Não importa que eu não saiba de “TUDO”. O que preciso saber, eu SEI. Albior sabe. Jacó sabe: que você é alguém único, especial e muito, muito amado por nós. Você é parte de nossa família, Camus. É, sempre foi e sempre será.
Tocado por aquelas palavras, aqueles gestos de acolhimento por quem tão bem ele sempre quis, o ex-messias fechou os olhos, entregando-se por fim ao abraço. Enternecido, Albior sorriu em sincera concordância com sua amada.
Observando aquela cena, ainda que não tivesse ouvido-lhe o diálogo, Milo sorriu de um modo que atraiu a atenção de Natassia, uma vez que a russa não se furtava a estudar vez ou outra o ex-marido, da forma mais discreta que podia. Cônscia do alvo do olhar embevecido do homem que um dia amara (“amara”?), franziu de leve o cenho. Tratou de sorver logo o seu drink antes que o noivo lhe notasse o estranhamento. Viu que Shura estava plenamente enturmado entre aqueles que outrora ela considerara amigos. Sim, porque acobertaram por tanto tempo as tramoias de Milo...
Tomou a liberdade de se servir de mais um drink: seria a melhor companhia de suas ponderações.
... porque ficaram ao lado DELE à época da tumultuada separação... porque haviam caído na mítica “ela é louca” tão clichê dos discursos dos traidores...
Inconscientemente virava com crescente avidez os drinks servidos. A despeito de seus fantasmas interiores – como não tê-los? Depois de TUDO que Milo fizera... – o dia foi passando, animado, vibrante. Todos interagiam e mesmo ela parecia mais à vontade, à medida que o álcool lhe entorpecia os ânimos. Pouco comeu, embora a comida estivesse sensacional (o primo idiota até que se saíra bom churrasqueiro, comemoravam), preocupada em não comprometer sua silhueta de sílfide.
Munida de outro drink, caminhou vagarosamente até a área da piscina. Acenou de volta para o filho, que do outro lado, no jardim bem-cuidado de Saga, brincava de exploração com o novo amiguinho. Sustentou o sorriso, no fundo maldizendo aquela aproximação com gente da família de Camus. Imersa em seus pensamentos, não percebeu que Saori lhe dirigia a palavra:
− ... Natassia?
− Hã?
− Desculpe, eu perguntava se aceita uma piña colada...
A nissei segurava dois cálices com os níveos drinks. Vendo a hesitação da loira, Saori sorriu ao comentar:
− Foi Kanon quem preparou. Depois que soube que é meu drink favorito, ele se especializou nisso!
Pouco disposta a corresponder ao simpático sorriso, Natassia achou por bem aceitar a bebida. Sorveu-a de uma só vez, para genuíno espanto de Saori. Esboçou um leve sorriso de aprovação, mais torvo que amável.
− Está muito bom – Admitiu.
− Kanon vai ficar contente em saber que gostou... – A psicóloga dizia, amigável, enquanto de sua mão o drink, que era para si, era arrebatado por Natassia. Preferiu fazer que não se importava.
− Kanon isso, Kanon aquilo. Ele é a sua “nova vítima”, é?
O belo sorriso da nissei se desfez. Olhou para trás, a fim de conferir se alguém havia ouvido tal disparate. Milo, Dohko, Shura e Kanon conversavam animadamente entre si, Saga e Aldebaran haviam se juntado a Camus, June e Albior; Aiolia estava na churrasqueira, acompanhado pela noiva Marin e o irmão Aiolos. Todos afastados o suficiente para conferir a Natassia a chance de se expressar de forma tão inapropriada. Voltou a olhar sua interlocutora; calmamente, enunciou:
− Achei que poderíamos, enfim, conversar, de maneira civilizada. Pelo visto, me enganei.
− Tá dizendo que não sou civilizada? Se não fosse, o SEU EX não tinha me convidado para estar AQUI – Rebateu com ar vitorioso, conquanto quase trôpego.
Saori encarou-a com condescendência. Imaginava que Milo tomara tal atitude desejoso de uma trégua e, quem sabe, de um acordo de paz com a mãe de Hyoga. Era visível que no pai outrora negligente, dentre as mudanças nele recentemente operadas, encontrava-se a maior dedicação ao filho e, consequentemente, havia de estar objetivando um ambiente de maior harmonia para o filho. Pai e mãe não deveriam ser inimigos, e sim aliados. O futuro e o bem-estar de uma criança dependiam primordialmente daquilo.
− Milo não é “meu ex”. Nós nunca tivemos um “relacionamento”, no sentido real da palavra.
− Ah, sim, eram só... umas “ficadas”, né? Como vocês, americanos, dizem. Se bem que você não é bem “americana”...
− Eu nasci aqui, logo, sou sim, americana. E você já está aqui tempo suficiente para conhecer a palavra.
Foi a vez do sorriso de Natassia começar a desaparecer-lhe do rosto pálido.
− Ah, vocês ficam juntos por SEIS MESES e não foi um...
− O que quer que tenha sido, Natassia, NÃO foi durante o casamento de vocês. Você SABE muito bem disso.
− Mas... se foi por tanto tempo, é sinal de que vocês já estavam flertando quando eu e ele éramos casados...
A paciência era uma das marcas pessoais de Saori Kido, e não só devido à sua ocupação profissional: sempre fora um traço de sua personalidade. No entanto, limites existem para todos. Semicerrou os olhos negros e ergueu uma sobrancelha ao inquirir secamente:
− Vejo que você ainda se interessa bastante pelo Milo. Será que seu noivo Shura não precisa ouvir algo a esse respeito?
A palidez da russa intensificou-se. Ela quase deixou o copo cair. Chegou a gaguejar, por pura estupefação:
− Q-quê? De... de onde s-saiu isso? Está louca?!?
− Para mim, louca é uma mulher divorciada fazendo interrogatórios sobre o ex-marido, estando noiva de outro homem.
− Ora, sua... sua...
− Está tudo bem por aqui?
Nenhuma das duas se dera conta da aproximação de Milo durante aquela conflituosa conversa. Aparentemente imperturbável, Saori respondeu:
− Comigo sim. Se me dão licença, voltarei para perto de quem está aqui para aproveitar o churrasco.
Retirou-se sob o olhar furioso da loira. Milo encarou gravemente a ex-esposa.
− Eu não a convidei para incomodar os convidados, Natassia.
Com um muxoxo, ela terminou seu drink e depositou o cálice em uma pedra.
− Sua amiga é um tanto sensível, apesar da fachada de “japonesinha zen”.
− Bem, se o assunto com ela terminou, tem algo a tratar COMIGO?
Ela não esperava por aquilo, e sua hesitação o deixou bem claro. Ajeitou as mechas claríssimas atrás das orelhas adornadas por brincos de brilhantes ao responder:
− Não chega a ser um “assunto”. É somente uma dúvida que me ocorreu.
− Pois bem sou todo ouvidos.
Após uns segundos de fria análise visual, a loira disse:
− Eu nunca te vi exatamente como uma pessoa altruísta, muito menos capaz de se SACRIFICAR pelos outros. Fiquei intrigada com o fato de você ter se oferecido para ser chicoteado no lugar do “Redentor”.
Milo estreitou os olhos desconfiados.
− Era sobre isso que estava falando com a Sao?
− Não exatamente... mas queria entender o que te levou a fazer isso.
− E posso saber por que esse interesse?
− Hum, eu só acho estranha essa fixação que você tem nesse rapaz.
Um riso rápido e nasal escapou do agente.
− Pra você, ter compaixão de alguém é o mesmo que ter “fixação” por esse alguém? – Retrucou, como que achando graça.
− Do jeito que falaram, ele TAMBÉM tem uma fixação por você. Ia te encontrar onde você trabalhava lavrando a terra, quando, para todos os efeitos, você era só mais uma das milhares de “Ovelhas” dele.
Milo umedeceu os lábios, incomodado com o raciocínio da ex-esposa.
− Ele se apegou a mim porque, a bem do meu disfarce, me aproximei dele e ganhei sua confiança pra conduzir a investigação.
− Então você só ficou próximo dele para “conduzir a investigação”?
− Bom, era a minha missão naquele lugar, não era?
Cruzando os braços, Natassia ousou seguir adiante.
− Mas vocês acabaram por se tornar “próximos” de verdade. Amigos, até.
O policial ergueu os ombros.
− Sim. Nos tornamos amigos. Qual a grande questão, afinal de contas?
− Você parece bem defensivo quanto a este assunto.
− E você parece achar que está falando com algum réu ou testemunha em um tribunal – Replicou, um tanto ácido. – Aonde exatamente quer chegar, Natassia?
− Você até o levou para MORAR contigo, Milo, quando o procedimento padrão seria esse rapaz ter sido levado para alguma instituição de saúde mental.
− Ficou plenamente atestado que Camus não sofre de nenhum transtorno ou condição psiquiátrica que justificasse um novo cárcere para ele.
Natassia fitou-o longamente, rememorando o olhar intenso e afetuoso que Milo dirigia ao ex-Redentor quando este conversava com os recém-chegados da Argentina.
− Você se deixou ser torturado no lugar dele. Arriscou sua vida por ele. Naquele dia, no estacionamento do Aquário, protegeu ele dos curiosos como... como se... não sei nem explicar. E o jeito com que olha para ele... eu não sei, Milo. Isso me parece... – Parou, incerta da própria ponderação.
− Parece o quê, Natassia? – O agente interpelou, com indisfarçável impaciência. – Vamos, diga, parece o quê?
− Parece que são MAIS do que amigos.
*************
Na prisão de New Hampshire, o clima diferia significativamente do instalado na residência do promotor-geral que conduzia a “Operação Êxodo 2018” cujo objetivo maior era a condenação do líder máximo da Igreja Aurora do Novo Porvir. Este refletia em sua cela, um dia depois de ter recebido alguns advogados para acertar os últimos acordes da defesa.
O número deles diminuía a cada semana. Fenômeno proporcional ao decréscimo de sua influência. Entes que haviam lhe jurado apoio irrestrito pouco a pouco abandonavam aquele barco, cuja estrutura a imprensa e a opinião pública depauperavam gradativamente.
Hades sorveu um longo gole de água, desejoso de que a bebida fosse um “brandy”. Desejou que em lugar da parede cinzenta à sua frente houvesse houve um belo corpo de mulher a se exibir para ele e, quem sabe, permitir algumas vigorosas palmadas e voluptuosas mordidas. Sorriu com desânimo ao constatar que tal pensamento sequer cuidara de excitá-lo. Ele só queria NÃO estar ali. Só queria SUA vida de volta. Sua glória, seu prestígio, seu poder. Até pouco tempo mantivera fé de reavê-la.
Agora... sua fé vacilava.
Percebia pelo pouco que conseguia ver na TV, pelos jornais trazidos ora por advogados ora por resistentes aliados, que havia se tornado o inimigo número 1 dos Estados Unidos. Não apenas pela comoção gerada pela história do “Redentor”, como também por centenas de testemunhos de ex-Ovelhas que emergiam sem parar: até suicídios aconteceram, motivados tanto pela decepção com o que acreditavam, quanto pela consciência de que não mais lhes restavam quaisquer bens.
A opinião pública era mais poderosa que a própria Justiça. Ela ERA a justiça daquela nação. Sinal dos tempos...
Riu com desdém. Não fizera mais que cumprir com os desejos escapistas e de ventura imorredoura de milhares de seres vazios e sem perspectiva. Camus não fora ofertado em sacrifício vivo pelo pai, e sim por todos aqueles que agora fingiam nada terem tido a ver com a imolação alheia por suas inúteis vidas.
Por anos, acordos e alianças cuidaram de fechar os olhos dos que ocupavam as mesmas instâncias que agora conduziam-no, só, ao cadafalso. Tudo porque Milo Hatzis aparecera... a personificação de uma sórdida maquinação para condenar quem tão somente tentou salvar. As vantagens que ele, Hades, obtivera, as ações extremas que tomara, ora... tudo a serviço do cumprimento de sua missão.
Milo contaminara Camus.
Se Milo não houvesse contaminado Camus através da irresistível sedução que exercera sobre o incauto jovem... ainda estaria no trono da sua magnânima igreja, cercado pelos filhos leais, por sua família, pelos fiéis assessores, por suas Ovelhas... todos apagados pela chama daquela injusta “justiça” que não se contentava com seus muito mais vastos domínios. Ela já não possuía todo o resto do MUNDO? Por que quisera tão avidamente o DELE?
Se ao menos Camus não tivesse sido persuadido, manipulado, ENGANADO por Milo Hatzis...
Súbito, o ex-sacerdote arregalou os olhos. Seus pensamentos eram como engrenagens parando de funcionar para, em seguida, voltarem a funcionar com força total.
Mas... claro... CLARO...
Ergueu-se tão repentinamente que o coque que prendia os compridíssimos cabelos negros se soltou, e eles caíram-lhe pesados pelas costas até quase os joelhos. O rosto grave voltou a ficar sorridente.
Seus advogados vinham se concentrando na proposta de provar que Camus, pobre autômato que era, apenas se revoltara contra seu destino devido à influência e sedução do policial Milo Hatzis.
Contudo...
E se fosse a opinião pública convencida de que Camus não havia sido o Redentor TÃO CONTRA a sua vontade assim?
Sim... Milo Hatzis não deveria ser o único alvo da defesa... o PRÓPRIO CAMUS deveria sê-lo!
Não que o ruivo não figurasse como tal, mas urgia que se modificasse um pouco a estratégia. E ele SABIA como iniciar aquele processo.
Pediu para falar com seu advogado principal, de inconteste confiança. Foi atendido um par de horas depois, com o retorno do carcereiro a quem fizera a petição. O homem entregou ao Grande Pai um celular. Após agradecer polidamente, Hades pôs o aparelho junto ao ouvido após digitar o número já memorizado.
Do outro lado da cidade, em uma das melhores suítes de um conhecido hotel de luxo, Moses Stewart, homem que aparentava pelo menos dez anos a menos que seus bem vividos 37 anos, a contragosto afastou-se da bela loira profundamente adormecida ao seu lado para atender ao telefone. Não que fosse tão tarde: a garota sucumbira ao excesso de álcool, provavelmente por sua pouca idade, o que colaborava para a diversão questionável de Moses.
Ao ouvir a voz de seu mais notório cliente, Moses empertigou-se como se estivesse diante dele.
− Senhor Hades! Boa noite, como está?
− Certamente não tão bem quanto você, mas obrigado. E você, meu fiel Moses?
− Não tão mal quanto o senhor, mas obrigado.
− Desculpe por incomodá-lo em plena noite de sábado, mas é importante.
− O senhor é sempre a minha prioridade, Grande Pai, não precisa se desculpar. Sabe que pode me ligar a qualquer hora que queira... ou que CONSIGA.
− Bem observado, meu caro, não é sempre que consigo. Por mais que eu tenha me mantido na fé... devo reconhecer que o cerco está se fechando para mim. Irmãos que me apoiavam abandonaram o barco por causa da tormenta que atravessamos.
O carcereiro cruzou os braços e revirou os olhos, em claro deboche. Hades preferiu ignorá-lo: deu-lhe as costas e virou-se para a parede metálica enquanto prosseguia:
− Conto contigo, Moses, sempre contei. No momento, porém, vou me atrever a dar um palpite sobre a estratégia central da defesa.
Com ar compenetrado, Moses dirigiu-se até um aparador de mogno ricamente entalhado. De cima do belo móvel pegou um dos charutos acondicionados em um estojo de marfim. Acendeu-o, o único olho que lhe restava fito na faixa escarlate que brilhou na aconchegante penumbra.
Não era profissional de receber e, muito menos, aceitar palpites com relação ao seu ofício, invariavelmente executado com maestria. Porém, se naquela posição se encontrava, TUDO devia ao Grande Pai. Portanto...
− Sou todo ouvidos, senhor Hades.
− Não se faz mais necessária essa cerimônia, Moses...
− Para mim, sempre fará. Abaixo de Deus Todo Poderoso, há o senhor.
− No passado, também havia Camus – Volveu Hades, em tom queixoso. – Mas ele traiu sua missão. Traiu a TODOS NÓS.
− Desde o início dos tempos, o demônio corrompeu inúmeros homens de Deus. Infelizmente, até mesmo o Redentor... se entregou. Mas eu garanto, senhor, vou provar que ele somente abandonou a nossa igreja devido à sedução do policial cretino. Ele manipulou o nosso Messias!...
− É exatamente sobre isso que eu gostaria de palpitar, Moses: talvez não seja interessante atribuir APENAS a Hatzis a insurreição do meu filho. Não acho que pintá-lo com as cores do “inocentezinho seduzido” seja o caminho ideal durante nossa defesa.
Se Hades estivesse defronte Moses, teria percebido a expressão de estupefação que substituiu a decidida no semblante do advogado. Este sentiu-se mesmo perdido por breves segundos, até questionar:
− Mas foi o que aconteceu, não? O Redentor se deixou dominar pelo agente federal e virou as costas para o próprio pai... denunciou o senhor... ele está sendo visto por todos como um pobre sofredor, explorado pelo senhor, quando na verdade...
− É ESSE o ponto, Moses. Se a defesa seguir na intenção de mostrar que Camus foi tão somente manipulado, reforçará que os “eventos” por que passou, eventos esses explorados pela maldita mídia como torturas maquiavélicas, lhe foram impostos... que foi tudo à força. Que ele, de fato, é essa pobre vítima que o país “comprou” como uma verdade.
Um meio sorriso despontou no rosto marcado pela cicatriz do acidente que quase o levara do mundo. Moses não apenas sorriu; riu, satisfeito, ante o rápido entendimento.
− Caso ficasse provado que o Redentor CONSENTIA com os ritos e sacrifícios a ele destinados, uma carga CONSIDERÁVEL seria retirada do senhor.
Hades também sorriu, satisfeito em perceber que era compreendido pelo advogado, um de seus mais leais apoiadores.
− Com certeza, Moses. E para tal, Camus não deve parecer TÃO inocente assim no processo de aliança com o inimigo.
− Claro. Hatzis manipulou o Redentor com a finalidade de destruir os laços entre o senhor e o seu filho. Muito provavelmente, tornou-se mesmo seu amante, é o que se especula...
− É quase certo que não seja mera especulação. Desde os últimos dias na Santa Cidadela, Camus já estava deixando evidente sua... FIXAÇÃO pelo desgraçado.
− ... mas o Messias de tudo foi consciente, decidiu ativamente por se voltar contra o senhor. E, se pôde fazer de livre e espontânea vontade... de livre e espontânea vontade se submetia aos ritos e sacrifícios.
− Camus tinha PLENA consciência do que fazia como Redentor. Ele estava à vontade naquele papel, e nele continuaria, com gosto... se não fosse a aparição do maldito policial, por quem se apaixonou.
− O senhor é um GÊNIO – Moses reconheceu, maravilhado com a perspicácia de seu cliente e mentor. – Eu não levaria para esse lado. Mas é o que pode fazer a opinião pública, que adotou seu filho como uma VÍTIMA, encará-lo como estão encarando o senhor: como... como um...
− Um charlatão, pode falar. Ah, não apenas charlatão: um total criminoso, que se aproveitou da boa fé de milhares e milhares de fiéis fragilizados.
− Eu obviamente não penso assim, e sim o povo imbecil e mundano.
− Se esse mundo está me jogando à lama, que joguem meu querido filho também – Zombou o ex-líder religioso, tomado por uma euforia que há tempos não experimentava.
Inconscientemente, Moses assentiu com vigor, como se estivesse frente a frente com o homem a quem cria dever a segunda chance de viver. Anunciou, assertivo:
− Convocarei minha equipe amanhã, Grande Pai. O que pudermos fazer para colocar o seu filho no mesmo barco que o senhor... nós faremos!
− Há mais uma coisa que quero pedir, Moses. Pode ser que isso seja difícil, mas não creio que seja impossível.
− Já tá há muito tempo nesse telefone aí, ô esquisitão! – Rosnou o carcereiro, voltando para perto das grades.
Foi a vez de Hades revirar os olhos para o homem mal-encarado, que agora estendia a mão em sua direção.
− Diga, senhor Hades.
− Eu quero FALAR com Camus antes do julgamento. Consiga que ele venha aqui e... arrume algum repórter ousado e ambicioso para registrar esse... encontro de família. – O tom era tão cínico que o funcionário da penitenciária fez uma careta.
A hesitação de Moses foi perceptível. Enfim, respondeu, pouco confiante:
− Isso realmente é BEM DIFÍCIL de se conseguir.
− Mas não é impossível... é?
− Não – Admitiu, já pensando em certos contatos da imprensa que não se importavam com os meios, contanto que tivessem o tão almejado “furo de reportagem”.
− Traga-o, Moses. Traga Camus para o barco. Traga-o para a lama. Camus vai sentir o que é ter a opinião pública como inimiga. Com isso, minha carga, como você disse, será consideravelmente aliviada. E, com isso, os ventos podem soprar finalmente ao meu favor...
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