Redentor
42 Getsâmani - Ato VII : Uma Estranha Noite
Notas iniciais
Foi com muito esforço que Milo sustentou a expressão interrogativa, ele, que sempre fora mestre em sustentar máscaras e personagens.
− “Mais do que amigos”? Defina “mais do que amigos”, Natassia... “melhores amigos”? “Irmãos”?
O belo rosto da russa contorceu-se de desdém.
− Como se aquele pobre diabo preenchesse os requisitos para ser seu BFF, Milo. O que diabos vocês têm em comum, afinal? Você, um conquistador barato, beberrão, egocêntrico, farrista, o BFF de um lunático carola bicho-do-mato?
Irritado, ele a puxou, não sem certa rispidez, pelo braço. Ela gemeu como se o ato tivesse lhe deslocado o membro.
− Aaai, Miloo!!
− Quer falar mais baixo? Eu te chamei aqui pra você ver o pessoal, passar o dia com a gente e com Hyoga, sempre reclama de eu te isolar dos nossos amigos!
− Pelo que me consta, eles escolheram ser apenas SEUS amigos depois da nossa separação...
− Se você sempre aproveita momentos como este pra fazer escândalos, Natassia, como condená-los? Hein? – O argumento do policial era mais uma súplica do que uma acusação.
Os dois perceberam que os presentes enfim os observavam abertamente. Saga e Aiolos se entreolharam, como que em dúvida se deviam intervir ou não. Foi Marin que se adiantou, braços cruzados e semblante reprovador.
− Se não resolveram o que tinham que resolver no tribunal, poderiam ao menos escolher um outro lugar para continuar a guerrinha pessoal de vocês. Nem as crianças podem respeitar? Que não respeitem a NÓS, que somos adultos, OK, sobrevivemos... mas NEM AS CRIANÇAS?
Com efeito, os pequenos olhavam para os dois que um dia foram um casal, de modo um tanto intrigados.
Antes que Natassia desse uma resposta à altura da indignação que experimentou ante a intervenção da ruiva, foi a vez de Shura se aproximar e comandar, quase autoritário:
− Já está tarde, vamos, Natassia.
Ela cambaleou um pouco, fitando-o com um descaso inédito. Sem ousar tomar a noiva pelo braço, como realmente sentia que deveria fazer, o espanhol pôs a mão em seu ombro.
− Vamos. – Disse secamente.
− Está bem. Eu reconheço quando não sou bem-vinda em algum lugar... onde antes havia AMIGOS meus – Retorquiu Natassia, com amarga revolta. E, virando-se para Milo: − Shura vai buscar Hyoga na segunda.
Milo não se deu ao trabalho de responder verbalmente. Fez tão somente um sinal com a cabeça e retirou-se de perto deles. Quando Natassia e um contrafeito porque constrangido Shura se dirigiam para a saída, foram alcançados por Camus.
− Esperem.
Viraram-se para ele, que logo expôs:
− Não acho que devam se retirar assim. Hyoga ficou feliz por vocês estarem juntos conosco hoje, aqui.
Com um sorriso debochado, a russa mirou o jovem de alto a baixo e questionou:
− Desde quando entende tanto o meu filho, hein?
− Desde que eu e ele ficamos amigos. – Respondeu, com tranquila simplicidade.
Ela o encarou, seu equilíbrio nitidamente afetado não só pela bebida, mas pela raiva.
− Você é bom em ficar AMIGO das pessoas, não é? Antes, só as EXPLORAVA, se fazendo passar pelo “Jesus da Nova Era”...
Exasperado, Milo preparou-se para falar; Shura, porém, interpôs-se entre eles.
− Natassia, por favor, você está BÊBADA! – O espanhol voltou-se para um aparentemente imperturbável Camus. – Não ligue para o que ela diz, ela bebeu um pouco além da conta...
Foi empurrado por ela, que continuou se dirigindo ao ruivo, com ira venal:
− Só espero que não resolva ficar AMIGO do MEU FILHO como “ficou AMIGO” do Milo, ou então eu ACABO com a sua raça, seu...
− Agora CHEGA! – Desta vez Shura não se furtou a agarrá-la pelo braço como vinha evitando fazer. – Vamos AGORA. NÃO é mais um pedido.
− Não se atreva a ameaçar o Camus uma segunda vez, Natassia – Milo não deixou de se pronunciar, os olhos como duas fagulhas para ela.
− Aaah, claaaro... o “príncipe encantado” defendendo “a princesa”, não poderia faltar! – E deu uma gargalhada, antes de ser arrastada por Shura. A atitude fê-la gritar alterada: − Não ouse me tratar dessa forma!! Você é meu noivo, não é meu dono!!!
Shura largou-a e a encarou de um modo tão sombria que juraram ver no rosto da russa uma súbita sobriedade.
− Está certo, vamos embora. Como eu disse antes... – Falou, com voz baixa e resignada. – eu sei quando não sou mais bem-vinda entre aqueles que um dia se disseram meus amigos...
− Natassia... você sempre será bem-vinda – Retrucou Saga, em tom apaziguador. – É só que...
Não concluiu pois o casal já se retirava apressadamente. Todos presenciaram aquela saída com um misto de alívio e constrangimento. Até as crianças, antes tão falantes e agitadas, aderiram ao silêncio repentino dos adultos. Silêncio este cortado por Aiolia:
− Pessoal, tem mais hambúrgueres e costeletas saindo, quem vai querer?
− Vou pegar mais salada de batata na geladeira – Prontificou-se Marin.
Saori sentiu-se tentada a acompanhá-la, mas preferiu permanecer perto de Camus, atenta às suas reações, as quais pareciam inexistentes. Milo pôs a mão no ombro do ruivo ao inquirir:
− Shura mesmo disse: não ligue para ela.
O ex-Messias assentiu. Perguntou, calmo:
− Por que ela me odeia tanto? Ela nem era da “igreja”. Eu nunca... nunca a enganei.
− Camus, você NUNCA enganou ninguém – Interveio Dohko, firme. – Seu PAI enganou. Você foi USADO por ele, foi o que aconteceu.
− Não é bem assim, eu enganei todas aquelas pessoas, de qualquer forma, ainda que sob a influência do meu... – Sua garganta pareceu encher-se de areia. − ... de Hades.
− Influência... hah! Manipulação pura e simples! – Grunhiu Milo, quase assustando o amante.
Saga tentou restabelecer a boa atmosfera de antes:
− Que tal esquecermos o que houve e voltarmos ao nosso churrasco?
− “Esquecer o que houve”? Meio difícil, né? Essa doida...
− ...CONVIDADA POR VOCÊ – Frisou o promotor, fuzilando-o com o olhar. – já foi embora. Então... caso encerrado!
− Concordo com Saga.
− Em relação à ACUSAÇÃO à minha pessoa ou à partida da doida, Olos?
− Milo, relaxa... vai deixar o Camus nervoso – Kanon sussurrou, cutucando o policial.
Com um sobressalto, Milo foi obrigado a concordar com o gêmeo do chefe. Encontrou apoio no olhar de Aldebaran. Camus, por sua vez, mirava-o daquele jeito estranhamente vazio que sempre o preocupava. Teve vontade de abraçá-lo e beijar-lhe a fronte para assegurar-lhe que estava tudo bem. Não poderia, com Hyoga e Jacó ali; por isso, limitou-se a dar batidinhas no ombro do ruivo e apertá-lo afetuosamente.
“Está tenso”, percebeu, surpreso com o contraste entre os músculos retesados e a expressão plácida.
Aproximando-se da mesa para se servirem das deliciosas costeletas preparadas por Aiolia, os meninos confabulavam:
− Por que sua mãe chamou Mika e meu tio de “príncipe” e “princesa”?
− Eu sei lá, Jacó...
− Você disse que seus pais não vivem mais juntos, né? E que aquele moço que veio junto com a sua mãe é o novo parceiro dela.
− Isso aí, o Shura. Ele é legal.
− Ele vai ser o seu pai agora?
− NÃO! Que ideia!! Como poderia ser meu... – Hyoga ia responder com impaciência de quem ouve uma pergunta tola, mas lembrou-se de onde viera o novo amiguinho. – ele vai ser meu padrasto... quando se casar com a minha mãe. Meu pai sempre vai ser o idiota do meu pai. E o nome dele é “Milo”, Jacó, não é “Mika”.
− Eu conheci ele assim, acostumei a chama-lo de “Mika”.
− Até que combina com ele, é um nome bobo como ele.
− Por que você acha que seu pai é bobo? Ele é o homem mais valente que já conheci – Volveu Jacó, com uma admiração que impressionou Hyoga. Este encarou o filho de June por uns segundos até responder:
− É mesmo? Você deve ter visto ele fazer coisas corajosas lá no Vale... todo mundo disse que ele foi um herói.
− Ele enfrentou meu pai, que era o homem mais perverso do mundo. Graças ao Mika, eu e minha mãe ficamos livres do meu pai.
− Ele... seu pai... era tão mau assim?
− Eu tinha medo de que um dia ele matasse minha mãe... ou a mim. Ele nos batia muito, sabe? Estava sempre nos castigando. Eram tantas vezes que eu quase nunca sabia por que estava sendo castigado. Ah, às vezes ele me batia pra castigar a minha mãe.
Hyoga teve um estremecimento de horror.
− Ele e meu tio Radamanthys perseguiam o Mika porque ele ficou amigo do tio Camus, mas o Mika nunca se rendeu a eles. Mesmo quando o Mika foi machucado, sabe?
− Puxa... eu nunca ia imaginar que o meu pai... – Não sabia como terminar. Sequer entendia como um pai pudesse maltratar tanto um filho. Chegou a esquecer a carne no prato, tão pensativo ficou.
− Você parece surpreso em saber o quão grande homem seu pai é – Observou Jacó, que, por sua vez, não ignorava a inédita fartura daquele tipo de alimento.
− É que pra mim ele não foi exatamente um bom pai – Admitiu Hyoga, entre pesaroso e envergonhado; envergonhado porque seu dilema parecia ínfimo frente às terríveis experiências de Jacó.
− Ele te batia também? Ou na sua...
− Não, não! Nunca! – Apressou-se em responder, subitamente preocupado em defender a honra do pai. – Ele só... não ligava muito pra mim. Só de uns tempos pra cá que ele ficou... mais legal.
− Entendo. – Murmurou Jacó, incerto de que entendia realmente. E, animado: − Mas olha, Mika enfrentou a todos: meu pai, o tio Rada, até o Grande Pai! – Exultou-se, como quem enaltece um herói de filmes.
Um sorriso de indisfarçável orgulho se desenhou no rostinho melancólico de Hyoga.
− Legal saber disso. Acho que ele mudou mesmo. – Disse, mais para si mesmo do que para o amiguinho.
− E sua mãe? Por que não gosta dele?
Hyoga coçou a cabeça. Respondeu, com uma perspicácia incomum para sua idade:
− Ele fez coisas ruins pra ela. Muitas. Mas... Jacó, acho que cê não vai entender, mas acho que ela não gosta dele justamente porque AINDA GOSTA DELE.
− Você tem razão: eu não entendi...
*************
O silêncio de Shura durante todo o caminho de volta incomodava Natassia tanto quanto o mais histriônico dos sons. Não obstante, ela preferiu pagar na mesma moeda, mantendo-se igualmente silenciosa. Somente optou por se manifestar ao perceber o caminho pelo qual o automóvel seguia.
− Não estamos indo para sua casa?
− Não.
− Então para...
− Para SUA casa.
− Ah... você quer ficar lá hoje? – Indagou, pois que o planejado era passar o fim de semana na casa do noivo.
− Não.
A resposta lacônica desconcertou-a.
− Não?...
− Não.
− Shura, quer me explicar...
− O quê? – Cortou-a secamente. – Vou te deixar em casa, é só isso.
− Mas você disse que não vai ficar lá...
− Não vou mesmo não.
− Não estou entendendo. Não vamos passar a noite juntos então?
− Bem, você ESTÁ ENTENDENDO.
O espanhol não era dado a ironias ou sarcasmos, o que a alarmou de verdade.
− OK, você está chateado comigo porque eu fiquei um pouquinho alta e disse umas verdades àqueles imbecis – Racionalizou, jogando a cabeça para trás, os cabelos dourados revoltos ao vento da rodovia.
− Natassia...
− Não devia ter me arrastado daquele jeito. O que você estava pensando? Você é meu NOIVO, não é meu dono.
− Não, Natassia, eu NÃO sou mais seu noivo.
Boquiaberta, ela considerou-o por alguns segundos antes de falar:
− Como é que é?
− Eu não posso ser seu noivo enquanto você claramente tem sentimentos por seu ex-marido, posso?
− Que loucura é essa agora, Shura?
− Vamos dar um tempo, Natassia.
− Tempo? Que é isso, você está rompendo nosso compromisso e chamando isso de “dar um tempo”? Somos adolescentes, por acaso?
Ele suspirou, nitidamente cansado.
− É por causa do que houve no...
− Não, Natassia, não é SÓ por causa do que houve na casa do Saga. Lá eu apenas tive a certeza do que desconfiava há tempos.
− Você só pode estar brincando.
− Eu não sou homem de brincar. Você é que está brincando comigo. Brincando de esquecer Milo.
De tão pasmada, a russa não conseguiu mais articular palavra alguma. Chegaram à frente do condomínio da loira, que, em vez de sair do carro, falou:
− De onde você tirou essa ideia estapafúrdia? Eu AMO você!
− Você tem CIÚMES de Milo. A meu ver, se tem ciúmes dele, é porque não o esqueceu.
− Não se trata de ciúmes! Meu Deus – Ela pôs a mão na testa, visivelmente aflita. – Você sabe de TUDO que ele me fez! Eu simplesmente não consigo conviver com o fato de que TODO MUNDO tem o cretino como esse cara incrível e maravilhoso e esquece de TUDO que ele me fez quando...
− VOCÊ não consegue esquecer Milo, Natassia.
− Eu não consigo esquecer das SACANAGENS que ele fez comigo e com Hyoga, isso sim!
− Boa noite, Natassia. Depois eu trago as coisas que estão no meu apartamento e deixo aqui na portaria. Pode deixar que busco o Hyoga no pai dele segunda, como você combinou com Milo. – Disse, sem nem ao menos olhar para ela.
Sem ação, sem argumentos, Natassia fitou-o longamente, sem que àquilo o espanhol correspondesse. Então saiu do carro, batendo a porta com força. Não olhou para trás enquanto entrava no prédio, lágrimas quentes de ódio e revolta a descer-lhe pelo belo rosto.
De volta ao seu apartamento, rumou diretamente para o bar, de onde retirou vodca da qual se serviria pura, apenas com duas pedras de gelo. Jogando longe os sapatos de salto alto, foi até a varanda.
O céu dourado resultante da luta do sol com nuvens púrpuras que teimavam em enfrentá-lo recebeu-a. Em meio àquele pranto de quem se vê injustiçado, ela mirou-o por tanto tempo que se sentiu compreendida pelo Astro-Rei, cujo brilho se via ameaçado aqui e ali pelo que lhe era tão inferior, tão transitório, tão insignificante frente à sua incontestável grandeza.
− Como ele pode amar aquele homem? Como ele se acha no direito de achar que pode escapar impune depois de TUDO que me fez... e ainda querer viver o amor?!? – Dizia para si mesma, as lágrimas misturando-se à vodca que rapidamente desaparecia de seu copo.
Serviu-se de mais uma dose, e outra mais, e mais outra...
− Agora é boa pessoa, bom amigo, bom pai... e protetor do maldito Redentor – Murmurava, saboreando drinks e ódio em um crescente incontrolável. – Eu sei, Milo, eu SEI o que você está querendo... acha que é fácil assim? Acha que não haverá pagamento pra você?
Riu um riso rouco e dolorido como seu coração ao murmurar tendo apenas o céu como testemunha:
− Veremos, Milo. Veremos...
*************
O churrasco na casa de Saga prosseguiu em total harmonia, sem o elemento de conflito encarnado pela convidada de Milo. No final, todos voltaram para suas casas, assim como Milo, dirigindo sua pick-up, tendo a seu lado um aparentemente sonolento Camus e no banco traseiro um já adormecido Hyoga, cuja cabecinha repousava no colo de um risonho Aldebaran. Apesar dos tensos momentos oferecidos por Natassia, o sábado fora um agradável respiro antes da tempestade que estava por vir.
A custo, Milo conseguiu que o filho se banhasse e tomasse um leite morno antes que se rendesse à cama. Por sua vez, Aldebaran não demorou a se recolher.
Após um reconfortante banho quente, Camus seguiu o mesmo caminho e já se encontrava debaixo das cobertas quando Milo saiu da suíte, o vapor envolvendo-lhe o corpo abrigado pelo roupão azul-marinho. Certo de que o amado dormia, Milo se preparava para sair do quarto e ir fazer uma última visita ao bar quando ouviu:
− Milo, por que sua ex-mulher te odeia tanto?
O loiro se virou, surpreso tanto com a pergunta quanto pelo fato de que o amante não adormecera.
− Camus, é uma longa história e você está com sono. A gente fala sobre isso em uma outra hora, pode ser?
− Eu lhe fiz uma pergunta NESTE momento e gostaria que ela fosse respondida NESTE momento, pode ser?
Sentindo-se desarmado por aquela réplica, Milo sentou-se na cama. Camus aprumou o corpo para ficar frente a frente com o namorado, que parecia procurar por onde começar.
− Ela me odeia porque eu não fui, por assim dizer, o melhor dos maridos, sabe?
− Você precisava ser “o melhor dos maridos”? Havia algum tipo de competição para isso? – Estranhou o ruivo.
O agente riu.
− É uma expressão. Um modo de dizer... de dizer que eu fui... um PÉSSIMO marido para ela – Admitiu, sorrindo desanimado.
− Oh. Você... você a agredia? Batia nela, como Algol batia em June e em...
− Não, não, NÃO! Por Deus... nunca. Nunca agredi Natassia nem Hyoga. Eu nunca agredi minha ex-esposa... digo... FISICAMENTE. Fisicamente NÃO.
Apertando os lábios, Camus esperou pacientemente que Milo elucidasse a última colocação. Percebeu-o evasivo; não queria pressionar o amado, contudo não queria ficar à parte da razão por que Natassia o detestasse tanto. Sabia que se devia ao que Milo lhe fizera no passado... ainda que também se devesse ao óbvio sentimento que a russa nutria pelo ex-marido. Faltava experiência ao ex-Redentor para afirmar com certeza, mas sua intuição e mesmo as ações de Natassia sinalizavam para a existência daquele sentimento, que rivalizava com o ódio, pois que se tratava de seu poderoso contraponto... seu olhar insistente fez o policial finalmente elucidar:
− Eu a traía constantemente... antes mesmo de nos casarmos. Na verdade, eu me casei mesmo com Natassia porque ela engravidou de mim. Eu tinha em mente que era a coisa certa. E... cheguei a acreditar que talvez me emendaria. Mas... não foi o que aconteceu.
− Você se deitava com outras mulheres mesmo comprometido com ela?
− Sim. Não é algo de que me orgulhe AGORA. Mas... na época... realmente me orgulhava. Era como um vício.
A expressão um tanto indignada de Camus semeou receio no coração de Milo. Entretanto... devia-lhe sinceridade, uma vez que decidira abrir o jogo.
− Eu era... insaciável. Não a respeitava. Não poupei nem mesmo AMIGAS dela. E quando ela desconfiava, ou até DESCOBRIA algo, eu a acusava de LOUCA... de estar imaginando coisas.
− Ela deve ter sofrido muito – Observou, pensativo.
− Não é algo de que me orgulhe – Repetiu Milo, inconscientemente defensivo.
− Isso não faz diferença – Retrucou Camus, lentamente. – O que ela sofreu ainda reside em seu coração de mulher. Ela te amava... acho que...
Calou-se antes de dizer “ainda te ama”.
− O quê? O que você acha?
− Acho que você não está me contando tudo – em vez de mentir, preferiu dizer outra de suas impressões.
Milo suspirou.
− Eu tentava fazer com que Natassia pensasse que o problema era com ELA. Que ela era muito ciumenta, possessiva... que ela deveria se tratar.
− “Se tratar”?
− Ver um psiquiatra. – Admitiu. – Ou, ao menos, um psicólogo. Ela começou a fazer terapia com a Saori.
Camus não evitou um bufar de desagrado.
− Você envolveu até a doutora Saori nisso?
− Por isso eu disse que não era o melhor dos maridos. Mas a Saori preferiu encaminhá-la também a um psiquiatra. Precisou mesmo fazer uso de medicação... depois que flagrou... que me flagrou com AMIGAS dela em nossa cama.
A serenidade de Camus desvaneceu-se por completo.
− Natassia viu você e outra... outras mulheres... na cama que dividia contigo?
− Ela tinha ido visitar os pais na Rússia. Nosso apartamento então virou palco de “festinhas” quase todos os dias, na época eu estava de férias, mas MENTI a ela, dizendo que não poderia acompanhá-la na viagem por estar trabalhando. Hyoga estava com uns tios. Assim que ela viajou, eu deixei o menino na casa dos meus pais, que ainda moravam na Carolina do Norte. Dessa forma, eu ficaria totalmente livre pra fazer todas as pilantragens que fiz.
Ele fez uma pausa, em dúvida se pegava uma bebida ou não. A expressão do parceiro convenceu-o de que não era a melhor ideia.
− Natassia quis me pegar em flagrante, tempos depois me disse; falou que voltaria em determinada data, mas voltou exatamente dois dias antes. Mais do que imaginava, ela SABIA que iria me encontrar como me encontrou. Na verdade... foi até pior do que ela esperava.
− Como assim?
− Eu não apenas estava na cama com uma mulher: estava completamente apagado depois de beber todas... com DUAS mulheres nuas e em iguais condições, em nossa cama. Com o agravante de que eram as MELHORES AMIGAS DELA.
Nauseado, Camus desviou o olhar dele. Uniu as mãos e as torceu nervosamente.
− Ela deve ter ficado fora de si. – Murmurou.
**** ALERTA DE GATILHO — MENÇÃO A TENTATIVA DE SUICÍDIO ****
− Sim, exatamente isso. – Esfregou o rosto com as duas mãos. – Acordei com os gritos dela. Estava atordoado demais para impedi-la de correr para a varanda da sala, de onde...
Calou-se, de repente, visivelmente atormentado pelas lembranças que emergiam.
− De onde o quê, Milo? – Camus demandou, em voz mais alta do que queria.
− De onde ela tentou se atirar.
O ex-Redentor arregalou os olhos em completo horror. Ficou estático, boquiaberto. Vê-lo daquele jeito causou uma pontada no coração de Milo. Mas sentiu que deveria continuar:
− Ela chegou a ficar fora do gradil. Eu não podia chegar perto dela; ela estava muito alterada, e... bem, eu tive que chamar os bombeiros.
− Que são “bombeiros”?
− Profissionais que lidam com incêndios, acidentes e... ocorrências como essas.
− Você quer dizer que ela queria... se matar? – Perguntou Camus, estarrecido.
− Sim, foi considerado tentativa de suicídio.
**** FIM DA RECORDAÇÃO DA CENA ****
Os dois ficaram em silêncio por alguns minutos, Milo por não saber como continuar, Camus por não saber o que dizer. O quarto pareceu mais escuro, mais frio. O aconchego, o calor, a atmosfera de outrora... pareceram desaparecer para o ex-Redentor. Não sentia vontade alguma de proferir palavra sequer. Coube a Milo romper a mudez instaurada:
− Por causa disso, ela ficou internada um mês em uma clínica psiquiátrica.
Os olhos castanhos de Camus arderam e ele soube que lágrimas surgiam. Milo prosseguiu:
− Quando ela quis tirar Hyoga de mim, na época da separação... eu cheguei a ameaçá-la, usando seu estado mental para impedi-la de levar o menino para viver com ela... Saga, Olia... e justamente Saori, que ela odeia tanto... me convenceram a não fazer aquilo. Foi mais um tormento psicológico pelo qual fiz Natassia passar.
− Você disse que não foi “o melhor marido”...na verdade, não foi nem mesmo a melhor das pesssoas.
− Eu sei – Voltou a cobrir o rosto com as mãos, o arrependimento e a vergonha consumindo-o como chamas internas.
Camus desviou o olhar dele novamente.
− Você pediu perdão a ela?
− VÁRIAS VEZES! Várias e várias e várias vezes...
− E ela não te perdoou?
− Você acha que ela poderia?
O ruivo balançou a cabeça em uma decidida negativa.
− Não.
− Entende agora por que tantas pessoas dizem que eu “mudei”? Eu era uma pessoa horrível.
Afastando-se mais do parceiro, Camus não deixava de efetuar o gesto de negação. Doía de um modo incompreensível, a percepção de que Milo agira de tal forma com alguém que o amara... que lhe dera um filho!
− Está decepcionado comigo – Milo observou tristemente.
− Você MANIPULOU sua esposa... tentou fazê-la acreditar em coisas...
“Igual ao MEU PAI”, pensou, aterrado, “COMIGO!”
Um súbito mal-estar invadiu-o. Não externaria a comparação, mas ela cravara espinhos em seu coração já tão ferido. Nem se dera conta do quão rapidamente retirara sua mão quando sobre ela pousou a de Milo; este olhou-o com um dolorido estupor.
− Camus...
− Obrigado pela sinceridade... por ter enfim... me contado. – Respirou fundo e readquiriu a expressão fria ao dizer, roboticamente: − Agora, devo dormir. Tenho sono.
− Camus, não faz assim! – Suplicou o loiro, resistindo com todas as forças ao anseio de abraçá-lo.
− Creio que a hora seja realmente avançada. Boa noite. – E deitou-se, virado para a parede, puxando a coberta até cobrir a cabeça. Com pesar, Milo sentiu que precisava dar-lhe espaço... até que ele assimilasse o que ouvira.
Sentado no colchão, de costas para o jovem abrigado sobre o edredom, enunciou com voz melancólica:
− Eu não sou hipócrita a ponto de acreditar que eu “mudei”; os OUTROS é que acreditam nisso. Eles vivem dizendo isso, né? Besteira. Sou uma pessoa RUIM. SEMPRE FUI. Insensível. Arrogante. Cheio de mim. Superior a tudo e a todos...! Nada, hehe, Nada me atingia, nada me comovia... inclusive... foi POR ISSO que mandaram a mim e não a outro agente para o Vale. A pessoa que tinha que se infiltrar naquela maldita comunidade precisava ser alguém, acima de tudo, fiel apenas a si mesmo. Insensível. Alguém que não corresse o menor risco de se envolver. Todos me viam assim, porque... hehehe... era EXATAMENTE assim que eu era...
Protegido do olhar do outro, Camus deixou as lágrimas correrem livremente, cuidando para que som algum emergisse daquele pranto dorido.
No afã de reter as lágrimas em seus olhos, Milo ergueu o rosto para o teto escuro.
− Eu não queria nunca que você soubesse desses detalhes do meu passado. Não que eu quisesse esconder de você; tinha era medo de que se decepcionasse comigo... não... tinha medo de que temesse CONFIAR em mim... como você sempre confiou, desde... mas... enfim, uma vez que quis saber a verdade, eu não tinha direito de escondê-la de você, Camus.
O silêncio foi sua torturante resposta. Desanimado, prosseguiu:
− Acontece que todo mundo se enganou a meu respeito em uma coisa, Camus: eu não mudei... VOCÊ me mudou.
Mordendo os lábios durante o pranto contido, o ex-Messias apertava os punhos contra o peito.
− O amor que sinto por você, que é o maior que já senti por alguém, é que me mudou. Não posso mudar o passado, desfazer o que fiz. A decepção que você está sentindo me fere profundamente, é verdade... é uma dor PIOR que uma dor física. Mas é legítima. Justificável. Eu... – Deteve, ao sentir a voz embargar-se. Parou para enxugar as lágrimas que venceram seu controle. – Boa noite. Eu te amo.
E, como se sentindo expulso do próprio quarto, evadiu-se, rumo ao refúgio inevitável do bar da sala.
Nem por um segundo passou pela cabeça de Camus impedi-lo ou ir atrás dele. Queria tão somente ficar ali, como que enterrado vivo, como exatamente se sentia.
Não saberia quanto tempo se passara, mas era certo que o tempo passara...
Dormira?
Não tinha certeza. Foi quando ouviu a voz metálica em seu ouvido:
− Sabe que ele fará o MESMO contigo.
Abriu os olhos (estiveram mesmo fechados?) e atirou para longe de si o edredom, assustado. Viu os irmãos diante de si.
− Nem precisou de muito tempo... viu? Ele mesmo admitiu QUEM É, de verdade. – Algol sorria condescendente. Camus jamais vira tal expressão em seu rosto sempre sarcástico.
− Nós avisamos – Radamanthys, ao contrário, pontuou com a costumeira seriedade.
− Que estão fazendo aqui? – Indagou o ruivo, contendo o pavor. Sentou-se na cama, alarmado.
− Você odeia tanto o nosso pai e, veja só, seu adorado Milo é EXATAMENTE como ele.
− Está enganado, Rada...
− Ora, VOCÊ MESMO pensou isso. É o que pensa... AGORA.
− Não, eu NÃO penso isso – Tartamudeou Camus, as mãos trêmulas a cobrir os ouvidos.
− Pensaaa, pensa siiim – Algol cantarolou, o sarcasmo de volta ao seu tom. – E é isso que vai te acontecer, você SABE.
− Se ele traiu aquela mulher linda, mãe do filho que ele tanto ama... por que não faria o mesmo com VOCÊ? – Radamanthys argumentou, sentando-se ao seu lado.
− Calem-se – A ordem de Camus saiu tremida, hesitante.
− Talvez você devesse adiantar as coisas para ele, se o ama tanto – Radamanthys pôs o dedo indicado no queixo, pensativo.
− Do que está falando?
O primogênito ergueu-se e pôs a face sombria quase colada à sua aterrorizada.
− De se MATAR. Não é melhor evitar uma dor maior?
− CALEM-SE! – Bradou, a um salto já de pé, as mãos apertadas aos ouvidos. – Mortos estão VOCÊS!
− Se estamos mortos, por que fala conosco?
Ante esse apontamento, Camus gelou.
− Talvez você devesse adiantar as coisas, como bem disse o Rada... – Algol aproximou-se mansamente dele. Camus chegou para trás, recusando-lhe o toque no rosto.
− Quem sabe, fazer como a bela Natassia fez, quando viu do que Milo era capaz... – Sussurrou-lhe o irmão mais velho.
− Não. NUNCA. Milo me ama. Nunca me faria nada parecido.
− Você quis abandonar a vida como Redentor ao ver nosso pai como um reles manipulador. Por que ao descobrir que Milo pode fazer o MESMO com você, vai se prender a esta vida?
− Você nem pertence a esta vida... a este mundo...
− CALEM-SE! Desapareçam daqui, DESAPAREÇAM DA...
Mãos quentes agarraram-lhe os pulsos ainda juntos aos ouvidos.
− CAMUS! Com QUEM você tá falando?!?
Estupefato, deu com Milo diante de si. Olhou ao redor.
− Onde estão eles? – Indagou confuso.
− ELES QUEM??
− Pai? Camus? Que tá acontecendo?
Viraram-se para a porta, de onde Hyoga estava parado, visivelmente assustado. Atrás dele, Aldebaran, com as mãos sobre seus ombrinhos.
− Filho – Milo olhou para os dois – Não foi nada, Camus tava tendo um pesadelo, só isso. Já tá tudo bem.
− Eu te falei, Oguinha, não falei?
Ante o olhar espantado da criança, Camus só pôde voltar para a cama e nela se enfiar como se pudesse atravessá-la e dali partir para qualquer outro lugar.
− Camus... ele às vezes tem esses pesadelos... também, né, depois de tudo que... – Abaixou-se até acariciar os cabelos desfeitos do menino. – Vai dormir, vai, filho, tá tudo bem, de verdade.
− Ele parecia estar gritando com alguém... parecia estar com muito medo – Murmurou Hyoga, franzindo os olhinhos sonolentos.
− Bem, pesadelos dão mesmo medo na gente, não é, campeão? Agora vai dormir, vai. Amanhã cedo a gente vai ao parque, lembra?
− Ouviu seu pai, grandão, todo mundo aqui tem que dormir, vamos – Disse o brasileiro, sorrindo. Tomou o garotinho pela mão e o conduziu de volta para o corredor, lançando um olhar preocupado para Milo por sobre o ombro.
Assentindo em agradecimento, o policial apressou-se em fechar a porta e trancá-la. Esperou uns instantes e foi se juntar ao jovem já encolhido no leito.
− Me diz. Com QUEM estava falando?
Em um sussurro constrangido, o ex-Redentor revelou:
− Rada e Algol.
Impensadamente, Milo puxou o edredom que cobria o parceiro para encará-lo com firmeza.
− Eles estão MORTOS, Camus. Você estava tendo um pesadelo. – Falava em voz baixa, desta vez.
− Não... não, eu nem estava dormindo!...
− Estava sim, Camus.
− Não! Eu estava aqui sentado...
− Fale baixo. Você estava sentado sim, mas sonhava.
− Como eu estava sonhando se estava SENTADO na cama?
A angústia no tom do ruivo abrandou a gravidade do agente.
− Sonambulismo. Você deve ser sonâmbulo...
− O que é isso?
− É quando a pessoa tá dormindo, mas, ainda assim, caminha, fala, age como se estivesse acordada.
− Não... eles JÁ estiveram aqui antes... e eu estava ACORDADO...
− Está me dizendo que isso já aconteceu antes?
Pego em falta, Camus desvencilhou-se dele, evitando seu olhar.
− Me fala, Camus, isso já aconteceu antes? Você viu seus irmãos aqui antes?
− Sim.
− E conversa com eles?
− Eu mando eles irem embora, mas eles... ficam me dizendo coisas...
Encostou-se na parede, abraçou as pernas e abaixou a cabeça junto aos joelhos unidos.
− Por que nunca me contou isso?
Camus não respondeu.
− Há quanto tempo...? – O policial insistiu, quase acusatório.
− Que importa? Não é real – Havia uma nota diferente no tom do ruivo; Milo poderia jurar que era ironia. Respondeu, rígido:
− Se te atormenta, IMPORTA sim, e muito.
O ex-Redentor mirou-o com perturbadora frieza.
− Me responde, há quanto tempo?
− Desde que cheguei à SUA casa. Mas tinha parado, alguns dias atrás.
− Por que nunca me disse nada?
− Eu disse à Saori, se te serve de alguma coisa. – Replicou, irritado.
− Deus, Camus, você devia ter me contado...
− Para quê? Para você finalmente achar que sou LOUCO, como as pessoas do SEU país acham? Para você exigir que eu tome os remédios que por toda a minha vida fui forçado a tomar?
− Camus, fala baixo, você tá se alterando.
− É mesmo? Vai me dar uma injeção, então? – Ele riu de um modo estranho, desafiador. – Que tal me dar uma injeção para aliviar minha mente e as minhas dores, como às vezes MISERICORDIOSAMENTE faziam lá no Vale?
− Camus! – Milo agarrou-o pelos pulsos mais uma vez e com mais força agora, pois percebia-o quase fora de si. A boca de Camus ficou próxima da sua ao propor, entre provocativo e agressivo:
− Que tal me dar uma injeção e se servir do meu corpo?...
− Camus, pelo amor de Deus!
− Deus, DEUS! De fato... DEUS! – Gargalhou loucamente, enviando um temor inédito ao amante. – Tudo por Ele... para Ele... “tomai, este é o meu corpo...”
− Eu sei que você não gosta de tomar remédios, mas... por favor! Veja como você está!...
− Dê! Me dê! – Ria de um jeito ensandecido, de um jeito que Milo ainda não presenciara, sequer imaginara. Jogou a cabeça para trás e oferecia os braços enquanto clamava: − Vamos, Milo, me DROGUE e me...
Milo cobriu-lhe a boca com a mão.
− Por favor, não grite! – Implorou, rouco e assustado. – Meu filho pode ouvir!
Subitamente em desespero com aquela restrição, o ruivo se debateu freneticamente.
− Camus, ACALME-SE! Se isso tudo é por causa do que eu te contei...
Suprimiu um grito de dor ao sentir a mordida na base do polegar. Liberto, mais pelo inesperado da ação do que pela inépcia do federal, o ex-Redentor fuzilou-o com o olhar soturno.
− Vamos, Milo, me POSSUA... – Pôs-se a retirar o moletom que vestia, com presteza. – Tantos me possuíram, você tem o seu DIREITO...
− Para com isso! Você sabe que eu NUNCA te machucaria!
O ruivo atirou-se a ele, com ímpeto feroz.
− Camus, NÃO, eu NÃO quero ASSIM! – Rebateu assertivo, a mão ensanguentada contendo-o pelo antebraço.
− Mas EU quero.
− Camus...?
Mordendo lascivamente o lábio inferior, o jovem curvou-se sobre o ventre de Milo. Abriu-lhe o roupão, ganhando acesso ao membro do loiro, que seguia com os protestos:
− Camus, não! Não devemos! Não com você ASSIM... vamos conversar... – O ar faltou-lhe quando a boca do outro tomou-lhe o sexo. – Aah! Não... p-por favor... pare... não faça isso...
Alheio às suas súplicas, Camus lambeu-o vigorosamente de cima a baixo, tomando-o por vezes por inteiro em sua cavidade bucal ansiosa como nunca. Repetiu até sentir o pênis inchar-se e as coxas grossas do loiro se contraírem em espasmos que pouco tinham de revoltosos.
Milo sentia que era errado, como era!, não podia permitir que aquilo seguisse adiante, não no estado em que se encontrava o ex-Redentor, ele... mas como não sentir? Como não fechar os olhos úmidos, tomado de prazer invasor, hediondo, como não jogar a cabeça latejante para trás, como não se abandonar, como não gemer, como não se permitir?
Quando sentiu que estava prestes a gozar, afastou o amante com suas mãos potentes, empurrou-o bruscamente para a cama. Arrancou de si o roupão, despindo-se igualmente da razão que o fizera protestar com tanta veemência minutos antes. Colou seus lábios sequiosos aos lábios melados de Camus, que se contorcia debaixo de si, manifestando desejo imperioso de recebê-lo dentro de seu corpo arquejante. As pernas do ruivo entrelaçaram-se por sobre sua cintura, uma armadilha da qual o agente não poderia escapar... e, no momento, essa nem era mais sua intenção.
Mergulhou fundo nos seus olhos sombrios, no seu sorriso enigmático, antes de mergulhar em seu interior suplicante; penetrou-o com urgência quase cruel, arrancando do ex-Redentor uma exclamação de dor. Aquilo o fez despertar, de súbito.
− Camus?
− Não pare – Demandou entre dentes, abraçando-o com desespero.
− Mas...
− Milo!! Aaah... – Gemeu, arqueando-se debaixo dele, empregando todas forças para jogar-se de encontro ao homem, o que varreu de vez a resistência deste; o policial arremeteu-se com a força pelo ruivo exigida.
− Mais... mais forte, Milo... ah... uhn... ahhh... mais... for... AAH!
− Camus, eu... eu vou te... arrhn... aaahh...! – Sentia-se sugado com uma força misteriosa, tragado como nunca. O que Camus estava fazendo com ele?
− MAIS FORTE! Mais! Mais!!
− Isso... isso não é c-certo... aaah... m-meu Deus...
As unhas de Camus afundavam-se nas suas costas, em uma furiosa demonstração do quão imperiosa era sua vontade. Milo agarrou-lhe uma das pernas e ergueu-a quase na perpendicular, aprofundando a penetração ao mesmo tempo que imprimia força e velocidade quase bestiais ao ato. Estocou-o o mais potente que podia, abandonando de vez a razão que o mandava se controlar, a fim de não machucar o parceiro, e nem assim suprimiu deste os comandos urgentes, lastimosos:
− Mais forte, Milo! Acabe comigo! Aaaah! AAAH! Hnnng...
Camus agarrou-se-lhe ao ombro e mordeu ali com força desmedida; a dor pungente misturou-se ao prazer crescente que enlouquecia os sentidos do loiro. Seu membro pulsava, expandia-se, dentro do amante ansioso.
− Deste jeito e-eu... eu vou... vou gozar...
− NÃO, Milo, você... deve... m-mais forte!!!
− C-Camus...
− V-você... precisa...
Milo levou a mão até o pênis inchado entre suas virilhas e bombeou-o com vigor até sentir os dedos molhados pelo sêmen abundante que vertia à medida que o ruivo estremecia vitimado pelo orgasmo. Gozou fartamente dentro dele, estremecendo de tal forma que achou que jamais poderia se refazer daquele clímax arrebatador, poderoso. Tombou por cima do peito arquejante de Camus. Sua mente enevoada fazia-o ter a impressão de que flutuava, sensação semelhante à experimentada pelo ex-Messias. Quando deu por si, o amante estava desacordado. Havia lágrimas nas extremidades de suas pálpebras imóveis.
− Camus...?
Não obteve resposta. Antes que a preocupação o tomasse de vez, o torpor tragou-o para junto do jovem adormecido.
Certo, errado, erros, acertos, verdades, mentiras... nada mais existia.
Apenas o langor selando aquele momento. Cerrou os olhos e abandonou-se ao sono.
*************
Um movimento ao seu lado o fez despertar.
Camus, que dormia junto a si, virou o rosto mais para o centro de seu peito nu. Percebendo-o, com as pálpebras semicerradas, Milo foi invadido por uma ternura que conferiu-lhe um doce sorriso. Pensou em estreitá-lo com mais firmeza em seus braços de corpo desperto, contudo, o receio de arrebatar o ruivo daquele sono reparador demoveu-o da ideia. Mirando-lhe o sereno semblante, aos poucos o olhar do policial caiu por sobre a própria mão, ferida, ensanguentada. Tornou-se menos sorridente ante aquela visão e às lembranças daquela estranha noite.
Repleta de prazer e gozo explosivo, sim, seria hipocrisia negá-lo, mas ainda assim... estranha.
Com os olhos novamente fixos no rosto adormecido, buscava entender a postura assumida por Camus durante o ato que certamente conduzira-os a inefáveis delícias, mas também a dúvidas das quais ele não podia fugir.
Não mais.
Fora ingenuidade acreditar que depois de tudo que sofrera, Camus não carregasse seus fantasmas. Certo, não se diagnosticaram transtornos que, conforme argumentara com Natassia, justificassem a permanência do ex-Redentor em clínicas psiquiátricas ou algo do tipo. A terapia parecia estar rendendo frutos, embora qualquer medicação fosse ferrenhamente recusada pelo jovem – mesmo as destinadas a episódios emergenciais, o que, claramente, fora o caso de horas antes. Tivera grande parcela de culpa, talvez toda ela, daquela vez. Não obstante, mais uma vez, ficara provado que Camus ainda escondia dele os terrores que o rondavam.
Imagine, ver (certo, achar que via!) os abomináveis irmãos abusadores... era horrível demais! E rememorar os abusos sofridos durante sua tenebrosa vivência como Redentor...
Sua cabeça estava confusa demais.
Ele queria tanto ver Camus bem, integrado a uma nova vida... será que, por causa desse anseio que, agora lhe parecia pueril até, deixara de perceber que NÃO, não teria como Camus ter uma vida... normal? O passado do ex-Redentor emergira de forma devastadora ante a ciência do passado de Milo.
Quantas coisas mais, “daquele novo mundo”, fariam aquilo a Camus?
Distraído com tais conjecturas, não percebeu que o ruivo despertava em seu peito. Somente deu por si quando sentiu-lhe as mãos passeando por sobre seu torso desnudo. Teve um arrepio de surpresa e prazer.
− Bom dia, meu amor – Tencionou saudá-lo com carinho, mas havia temor ali...
− Bom dia, Milo – Camus respondeu fracamente.
− Como você está? – E não foi sem desconforto que perguntou: − Dormiu bem?
− Eu... hum... – Um movimento não calculado fez o jovem trincar os dentes de repente. Deixou escapar um gemido baixo.
− Camus? O que foi?
− É que... uhn! Aah!
− Droga, tá dolorido, né?
“Não tinha como não ficar, do jeito que a gente fez, essa noite.”, o agente respondeu a si mesmo em pensamento.
− N-não é nada.
A expressão do ex-Messias transmitia o contrário de sua fala. Foi irresistível o remorso de Milo.
− Espera, vou pegar um remédio pra você...
− Eu NÃO quero tomar re... – Um novo gemido de dor cortou-lhe a frase.
− Não tô falando DAQUELES remédios, Camus, é só um analgésico e... pomada também... pra... – Alegou o loiro, paciente. – Você tá com dor, e... depois do que... de COMO fizemos...
− Não me arrependo de nada.
− E quem disse que eu me arrependo?
− Milo Hatzis, eu não sou feito de cristal, sabia?
Foi difícil o agente conter o riso.
− Você aprendeu essa fala na TV, né? Só pode!
− Foi sim – Admitiu, sorrindo em meio à expressão de desconforto.
Preocupado, Milo aproximou-se dele, acariciando-lhe os ombros.
− Camus, me desculpe. Eu não deveria... ter cedido às suas exigências... me empolguei...
Os olhos castanhos pousaram sobre a clavícula e a mão ferida do amado. Até as costas do agente tinha horríveis arranhões. Desviou o olhar, consternado.
− Ao que parece, também devo me desculpar.
− Nada disso! Eu é que acabei me exaltando e... me excedi com você.
Como que admirado, o ruivo arregalou os olhos.
− Do que está falando, Milo?
− Quando a gente fez amor... você queria uma pegada mais... “hard”. Só que, pra isso, a gente tem que tomar certos cuidados, sabe? Tem toda uma preparação antes, não é assim como a GENTE fez, agora você tá aí, todo dolorido.
− Não é como se fosse algo novo para mim, não se preocupe. – Camus deixou escapar em um murmúrio que nada tinha de acusatório. Ainda assim, Milo sentiu como um tapa no rosto. Com amargura patente no tom consternado, o agente sentenciou:
− Por isso mesmo, não é algo que quero que se repita na sua vida.
− Pare, Milo! O que fizemos NÃO tem comparação com nada do que me aconteceu antes, o que fazemos é com AMOR, é movido pelo amor!
− Camus, acontece que... – Respirou fundo; não importava o quanto aquilo fosse difícil, PRECISAVA falar. – Você disse coisas... agiu de um jeito diferente... me assustou, confesso. Acho que... impressionado com o que te contei, não sei... o certo é que você me disse coisas que me mostraram claramente o que você não quer que eu veja... e o que, muito provavelmente, eu evito que venha aos meus próprios pensamentos.
Ambos silenciaram, subitamente afastados. Milo pôs-se de pé, enquanto Camus limitou-se a sentar na cama, mirando o chão acarpetado. O loiro caminhou até a janela, incerto se abria as cortinas ou não. Temeu o choque da luz matinal em seus olhos sensibilizados. Deu um longo suspiro. As frases ecoadas pela madrugada ardente e turbulenta fizeram-no cerrar as pálpebras com mais força do que se o sol lhe saudasse.
“Que tal me dar uma injeção e se servir do meu corpo?...”
“Vamos, Milo, me drogue...”
“Vamos, Milo, me POSSUA... Tantos me possuíram, você tem o seu DIREITO...”
− Sabe... você tinha que ser resgatado daquele inferno. O que lhe faziam era DESUMANO. – Pontuou Milo, em voz lenta, baixa. – Mas o que é mais desumano é que justamente quando você é retirado daquele ambiente é que se deu conta de que o que te faziam era uma VIOLÊNCIA. Você sofria, claro, mas não tinha consciência do que de fato acontecia. E, agora, que acho que você vai refazer sua vida, viver em paz... que ingênuo, eu!, é quando JUSTAMENTE você se dá conta de que...
Camus tomou-lhe as mãos ao interrompê-lo:
− Entender é bem menos desagradável do que vivenciar.
− E se ao entender cada vez mais você passe a... transportar TUDO AQUILO para o que NÓS temos, o que nós vivemos?
− Milo – O jovem bufou um tanto impaciente. – Escute. Eu só não queria que você pensasse que sou frágil como Natassia. Que eu me quebraria em mil pedaços se um dia você me machucasse como a machucou. Quis mostrar que você PODE me machucar o quanto quiser que eu permanecerei ao seu lado...
Tais palavras golpearam o policial de tal forma que ele jurava sentir o maxilar atingido.
− Não diga essas coisas, não é assim que funciona! E eu NUNCA vou te machucar, Camus!
− Talvez um dia você tenha feito a mesma promessa a ela.
Puxou-o para junto de si e aninhou-se em seu peito. Prontamente braços fortes, musculosos envolveram-no, trazendo de volta o calor perdido.
− Eu te amo – A voz de Milo praticamente não saiu, de tão constringida estava sua garganta. O parceiro, porém, ouviu-a com perfeição.
− Eu também te amo.
Beijaram-se terna e longamente. Ao término daquele selar de promessas não ditas, mas por suas almas entendidas, Milo propôs:
− Vamos tomar banho juntos. E depois, tomar café da manhã com Hyoga e Debas, que acha?
− Ótima ideia.
− Então vem, meu anjo... – Trouxe-o consigo, cobrindo-o de beijos estalados e carinhos furtivos.
− O anjo era você, se esqueceu?
− Meu amor, anjos não têm os pensamentos que tenho sobre você...
*************
Após deixarem a suíte, arrumaram-se e trocaram um último beijo antes de saírem do quarto.
− Vamos, meu amor. Quem diria que já passam das 11 horas! Meu filho deve estar irritado com a minha ausência, querendo me ver e... espera, uma notificação no meu celular... QUÊ?
− O que foi, Milo?
− Mensagem do Hyoga...
“Fui jogar futebol c o Debas no parque finalmente vou aprender c um brasileiro e não com um fracasso na bola como vc”
Deixando escapar uma risadinha, o ruivo cobriu a boca ante a estupefação do amante.
− Essa é boa! Eu, um “fracasso na bola”?
− Não se pode ser bom em tudo, Milo Hatzis...
− ATÉ TU, CAMUS?!?
*************
Não apenas Hyoga, mas um time inteiro de meninos desfrutou da experiência de jogar futebol com um brasileiro. O tamanho descomunal de Antônio não demorou a chamar a atenção de curiosos que, em seguida, tornaram-se ávidos espectadores das lições por ele dadas ao loirinho espevitado, que corria alucinado atrás da bola, um presente, aliás, do gigantesco amigo de seu pai. Logo, mais garotos a eles se juntaram no campo; Aldebaran não se fez de rogado, e Hyoga bem que gostou do clube improvisado de futebol, pois foi excelente oportunidade de fazer novas amizades na área em que seu pai vivia. Saíra daquele bairro há tanto tempo, tinha apenas cinco anos de idade, pouco se lembrava de coleguinhas... agora que ele estava ficando mais vezes na casa de Milo, seria ótimo ter companhias para futuras brincadeiras. Os pais dos meninos gostaram bastante de ver seus filhos entretidos e empolgados daquele jeito, de modo que compuseram uma verdadeira torcida organizada. E tudo isso acontecendo desde as dez horas da manhã daquele domingo frio, porém satisfatoriamente ensolarado.
Por volta das 12 horas, as outras crianças começaram a ser chamadas por seus pais, afinal, chegara a hora do almoço. Após se despedirem dos garotos, Aldebaran e Hyoga dirigiram-se para um dos bancos de frente ao lago verde por sobre cuja superfície cisnes deslizavam morosamente. Um vendedor de bebidas passou por ali, e o brasileiro comprou limonadas. Deu uma das garrafinhas a um rubro e suado Hyoga, que exclamava, feliz:
− Foi irado, Debas! A gente tem que fazer isso mais vezes!
− E eu achei que estava enferrujado, hahaha, pelo visto, deu para o gasto, hã?
− Agora sim aprendi a jogar futebol! Se dependesse do meu pai, eu nem saberia o meu lado do time!
− Não fale assim – Riu o brasileiro. – Seu pai certamente lhe ensinou outras coisas, aposto.
O menino admitiu, pensativo:
− Huum... é, ele me ensinou a nadar.
− Viu só? Isso é muito mais importante que saber jogar futebol, tá?
− Ué, como assim?
− Ora, saber nadar pode salvar sua vida! Como saber jogar futebol pode salvar sua vida?
− Fazendo “eu” ganhar um montão de dinheiro!!!
Aldebaran deu uma sonora gargalhada.
− Você tá falando que nem os meninos da minha terra!
− Meu pai prometeu me ensinar a surfar nas próximas férias de verão. Vamos ver, né... meu pai não é muito bom em cumprir promessas.
Erguendo os ombros um tanto sério, Aldebaran disse à criança:
− Claro que você conhece Mika... digo, Milo há mais tempo que eu, mas, olha... nisso, eu acho que ele mudou, porque eu o conheci como um homem que SEMPRE cumpre as promessas que faz.
− É mesmo, Debas? – Ele olhou para o céu azul como seus olhos. – Bem que dizem que ele mudou.
− Dizem, é? Eu percebi, na casa do Saga.
− É. Dizem que ele mudou depois dessa missão na comunidade da seita que escravizava o Camus. Que ele... foi um herói e tudo... hã... Debas.
− Hum?
− Me diz uma coisa, com SINCERIDADE?
− Claro – O imenso homem arqueou as sobrancelhas espessas.
− Promete que não vai mentir pra mim só porque eu sou uma criança? Quer dizer, na verdade, eu NÃO sou criança, mas tenho uma idade que todo mundo acha que é de criança, um saco isso...
Aldebaran riu de leve.
− Eu prometo.
− O meu pai e o Camus tão namorando?
Os olhos escuros de Aldebaran tornaram-se duas jabuticabas prestes a estourar. Quase se engasgou com a limonada, teve que tossir para evitar o pior. Virou o rosto aparvalhado para o garotinho, que encolhera os ombros ante aquela reação. Instintivamente, Hyoga deu uns tapas nas costas convulsas do grandalhão, o que foi quase igual a nada.
− Ô garoto, d-de onde tirou essa ideia?!?
− Só me responde a verdade, você prometeu!
Apesar da temperatura amena que fazia naquele início de tarde outonal, o brasileiro teve a nítida sensação de que suava, e não era mais pelo jogo...
− Você está perguntando isso por causa do jeito com que sua mãe falou no churrasco ontem, não é?
− Também. Mas não é só por causa dela não.
− Mas então... por que perguntou isso?
Hyoga inclinou a cabeça para a esquerda, considerando o outro com uma seriedade incomum na idade que tinha.
− Não sei explicar direito. Só sei que eles não parecem SÓ amigos. Meu pai tem um jeito de cuidar dele, de olhar pra ele... e o Camus também olha pra ele assim... como quem olha prum sundae triplo de chocolate, não como quem olha prum amigo.
Malgrado o nervosismo causado pela situação, foi impossível Antônio segurar um risinho.
− E essa noite ouvi uns barulhos vindos lá do quarto do meu pai. Acho que eles tavam transando.
O riso de Aldebaran cessou imediatamente.
− Hyoga, eles estavam no mesmo quarto porque os outros quartos estavam ocupados por nós dois, eu, no quarto de hóspedes, você, no seu quarto de sempre, só por isso! – Aldebaran tentou contornar a situação, internamente censurando a falta de discrição dos dois amantes. – Quanto aos barulhos, Camus estava tendo pesadelos antes, lembra? Na certa, estava tendo outra vez...
− Os sons tavam BEM diferentes de quando a gente chegou no quarto do meu pai naquela hora. – O menino cruzou os braços e fez um muxoxo de reprovação. − Você prometeu não mentir pra mim.
− Eu não estou mentindo... – Suspirou; pôs a garrafa vazia na lixeira ao lado do banco antes de unir as mãos e torcê-las nervosamente. Obviamente não cabia a ele contar àquela criança acerca do relacionamento de Milo e Camus.
− Tá bom, se não quer contar...
− Não vou mais perguntar “por que pergunta isso”. Agora vou perguntar “por que quer saber”?
− Ué, porque ele é meu pai!!
− E isso te incomoda?
− Teve uma época que sim, mas depois me acostumei, pai a gente não escolhe, né.
− Eu falo da sua suspeita – Riu o brasileiro.
− Tá querendo saber se me incomoda meu pai ser gay?
− Hyoga, não fale assim.
− Ué, por que não? Não é o que um homem que namora outro homem é?
Sob o peso daquela derrota que já se anunciava, Aldebaran esfregou o rosto com as mãos.
− Vamos supor, supor, SUPOR – Fez questão de frisar a palavra. – que seu pai e Camus estivessem sim... namorando. Você teria raiva deles?
− RAIVA? Por que eu teria raiva deles por serem namorados?
− Ou... ou ficaria magoado com Milo...? Ou com algum outro sentimento ruim?
− Ruim é eles esconderem de mim.
− Hyoga...?
O loirinho abriu os braços, gesticulando ao elucidar indignado:
− Poxa, Camus é meu amigo! Ou pelo menos, diz que é! E o meu pai disse que não ia mais me decepcionar, como ele fez tantas vezes. Debas, se ele esconde de mim que tá namorando o Camus, ele tá me decepcionando de novo.
− Hyoga... ele não quer te decepcionar de novo. Acontece que, por mais que você seja “adulto pra sua idade”... – Parou ao se deparar com o olhar gelado do menino. – Certo, certo... olha, mas SE isso fosse verdade, como você reagiria?
− Eu ia achar muito estranho. Estranho pra caralho.
− Ei, não diga palavrão.
− Mas... eu só ia achar estranho porque nunca imaginei meu pai sendo gay. E não imaginava que ele fosse namorar logo o Camus. Mas raiva... raiva eu não ia ter não.
Com um sorriso, Aldebaran indagou gentilmente:
− Como tem certeza?
− O importante é gostar de quem gosta da gente. Se é homem ou mulher, não faz diferença, o importante é o amor. É não magoar, não machucar a outra pessoa. Quando meu pai era casado com a minha mãe... você vê, era um homem e uma mulher, e eles sempre se machucavam, se odiavam.
− Não queria fazer lembrar dessas coisas.
− E o Camus é legal. É meu amigo. Ele passou por muita coisa ruim. Ele merece ser feliz. Mesmo que seja com meu pai... e que eu ache isso esquisito pra cara... caramba.
O brasileiro deu leves tapinhas amistosos no ombro do menino.
− Eu nunca vi um garoto de 9 anos tão maduro quanto você. Parece adulto.
− Viu por que eu disse que não precisava mentir pra mim por causa da minha idade? Todo mundo acha que eu pareço adulto – Disse, com indisfarçável orgulho.
− Ei, mas não se deve apressar as coisas, tá? Você pode ter um cérebro avançadinho debaixo desta cabeleira dourada aqui – Bagunçou afetuosamente os cabelos de Hyoga, que riu divertido. – mas ainda é uma criança. Vai ter muito mais tempo pra ser adulto. Agora, Oga, me escuta...
O loirinho voltou a ficar sério ante a gravidade no semblante moreno, que beirava a autêntica preocupação.
− Por muito que eu não queira mentir pra você... não sou eu quem deve te contar a respeito da vida amorosa do seu pai. Espero que entenda.
Resoluto, o pequeno abriu um sorriso triunfal.
− Entendo sim. E tudo que você me disse, posso traduzir como “sim, Milo e Camus estão namorando”!
Ao ver a expressão embasbacada do outro, apressou-se em assegurar:
− Não se preocupa, não vou falar nada pra minha mãe. E nem vou dizer para aqueles dois idiotas que eu sei de tudo.
− Ai, meu Pai do Céu – Aldebaran ergueu as palmas unidas para o céu. – O Senhor é testemunha que eu não contei nada!!!
“Não contou nada mas disse tudo”, pensou o loirinho, marchando vitorioso rumo a um carrinho de cachorro-quente que se aproximava; apontou para ele, indicando a um inconsolável Antônio que acabara de escolher um suborno para o seu silêncio de criança.
*************
Aquela manhã terrivelmente chuvosa de terça poderia ser a razão do mau humor com que Saga irrompeu no escritório. Contudo...
− Cada dia tem mais repórteres na entrada do prédio! Impressionante, nem um tempo desses afasta essa gente! – Resmungou, tirando de si o sobretudo de couro.
− E com a proximidade do julgamento, a tendência é que o número de jornalistas nos cercando aumente – Pontuou Aiolos, atrás dele.
Dohko pegou o telefone após saudá-los:
− Olá, pode nos trazer café e três xícaras? Obrigado.
− Aaah, com certeza preciso de um café antes de começar o trabalho. Céus, sei que é o trabalho deles também, mas dá nos nervos...
− É, faz tempo que um caso não mexe tanto assim com a opinião pública – E do alto de seus cinquenta anos, Dohko podia afirmar com mais experiência que o próprio chefe. Balançou a cabeça ao emendar: − Fico aliviado que a turma lá embaixo não tenha descoberto o endereço de Milo. Não é mais segredo que o “Redentor” está sob custódia dele.
Dohko esperou que os cafés chegassem e que os recém-chegados se servissem, para anunciar:
− Chegou uma mensagem da juíza Montañez. E uma liminar para você assinar, Saga.
O promotor ergueu para ele o olhar interrogativo:
− Eileen Montañez?... É a juíza do “nosso grande dia”...
− A liminar tem a ver com ela?
− Tem sim, Olos.
− E do que se trata? – Saga franziu o cenho, sob uma intuição desagradável.
− O advogado principal de Armand, Moses Stewart, entrou com um pedido de seu cliente famoso: Hades quer receber a visita de Camus.
Saga e Aiolos retrucaram a uma só voz:
− O quê?!?
− Aqui está – Pôs sobre a mesa de carvalho escuro do centro da sala um envelope branco. – Moses afirma que Hades solicitou a visita de Camus ao presídio. Quer falar com ele antes do julgamento.
− Por que isso agora? O que esse desgraçado está tramando?
− Infelizmente, a permissão já foi concedida. Sua assinatura nem mesmo é sobre deixar ou não que essa visita aconteça, é meramente um registro de ciência.
− Claro... bem ou mal, Armand AINDA não foi condenado. E, mesmo que tivesse sido, é algo que ele sempre poderá pleitear. Mas negá-lo seria mais fácil do que nesta situação. – Soltou um longo suspiro de indignação. – Merda, não estou gostando disso.
− Saga, não há o que possamos fazer. Precisamos comunicar logo ao Milo...
− Olos, ele vai ficar POSSESSO. É óbvio que não vai concordar, vai fazer um escândalo daqueles, bem típicos dele, só de ouvir um negócio desse!...
Deixou a xícara vazia sobre o móvel. Levou os dedos até a base do nariz, apertando-o quase com força. Aiolos, do alto de sua experiência de advogado na corte marcial de Red Meadow, prosseguiu:
− ... só que NÃO cabe a ele decidir. Se não consta em nenhum laudo psiquiátrico nada que conteste a capacidade de Camus de responder por si mesmo... – Encarou os dois federais que transpareciam a mesma preocupação que a sua. – é Camus, e somente ele, quem deverá decidir... se aceita ou não aceita ir ter com o pai... Hades... cara a cara... na prisão!
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