Redentor

39 Getsêmani - Ato IV : Choque de Realidade


Notas iniciais
Capítulo especial de aniversário de 4 anos da fic, iniciada em 23 de outubro de 2017 Well, até que este capítulo, frente à demora do anterior, veio rapidinho, né? Espero que gostem... devo dizer que foi um capítulo que me deu vários arrepios em escrever, e um suorzinho no olho vez ou outra, hehe Obrigada pelo apoio e, em especial, pelos comentários no último capítulo postado. Boa leitura!

Por muito que quisesse obedecer à sua mãe, devia admitir que a empreitada se revelava mais difícil que o imaginado, tanto pela parte física quanto pela parte sentimental: correr não era algo a que ele estivesse acostumado, não fora criança de qualquer atividade física do gênero (agora sabia que não tivera sequer a experiência de brincar); e em sua mente, um terrível embate se travava impiedosamente. Estava seguindo ordens de sua mãe... mas... não deveria única e exclusivamente seguir ordens de seu pai? Do Grande Pai? Do líder absoluto da Igreja que abrigava o Messias daquela era?

Ver sua mãe ferida, mancando, porém, causara-lhe inédita impressão. Se ele viera ao mundo para sofrer como o Cristo original, a fim de Lhe preparar terreno para a triunfal volta ao mundo dos homens... fazia sentido que OUTROS TAMBÉM tivessem que sofrer?

A dúvida, aliada à dor dos últimos rituais realizados, impelia-o a continuar a fuga desvairada por entre os incontáveis troncos de pinho. Milhares de folhas secas estalavam sob seus pés ligeiros, indiferentes ao cansaço do resto do corpo machucado.

Lançou um olhar rápido para o céu: as nuvens escuras prenunciavam uma chuva que muito lhe atrapalharia correr. No entanto, poderia ajudá-lo a ficar mais protegido, pois que, havia pouco, tivera a nítida impressão ouvir vozes ao longe. Tomou um caminho descendente, deixando-se escorregar pelo declive de terra macia. Ao perceber que dera com um rio, tratou de rumar em direção oposta, atento à orientação materna de evitar quaisquer cursos de água. Embrenhou-se por entre árvores e arbustos, por vezes machucando-se em galhos e espinhos.

Sua respiração tornou-se ofegante. Ficou tentado a parar para descansar um pouco, mas não havia nem sinal de estrada ou fazenda. E ele imaginava que ainda estava bem longe de qualquer uma dessas. Provavelmente passaria a noite na floresta.

“E se eu me perder?”, pensava, aflito.

Bem, talvez fosse um destino melhor do que o que o Grande Pai lhe reservara. Se sua mãe tivesse razão, claro.

“Um ritual nos moldes do Cerimonial da Sagrada Semente, só que com mais pessoas, foi tudo que ela me disse. A Santa Ceia.”

Ciente de que sua missão àqueles ritos, cerimoniais e suplícios o obrigava, não se detinha verdadeiramente em analisar COMO se sentia. Seu corpo ressentia-se, lógico, revoltava-se, não era feito de pedra, e sim de carne, osso e sangue... sua mente, porém, já se encerrava em um compartimento inacessível a suas emoções.

“Não será pior do que ver você afundar nas trevas que Hades invocou!”

Como aquilo seria possível? O próprio Anjo Gabriel não visitara o Grande Pai, tempos atrás, e o investira da responsabilidade de criar a Igreja que abrigaria o Novo Messias?

“O ritual que ele nomeou ‘Santa Ceia’ não passa de uma profanação demoníaca!”

As palavras de sua mãe ecoavam em sua mente confusa, talvez confusa DE VERDADE pela primeira vez na vida. Desde os primórdios de sua missão, comunicada por seu pai, jamais refutara tal dever. E, agora, ali estava ele, correndo alucinadamente, FUGINDO de sua missão.

Apenas pelas ordens de sua mãe ou por ALGO que se movia dentro de si?

A vegetação tornava-se cada vez mais cerrada. Seguiu mata adentro, pouco a pouco diminuindo o ritmo da escapada, uma vez que começava a ficar difícil de mover-se com rapidez. Andou, andou e andou... caminhou por horas a fio.

As primeiras estrelas despontaram no céu, agora aberto e tingido de tons violáceos. O frio intensificava-se; Camus puxou sua touca de lã até quase cobrir-lhe os olhos e, em seguida, cobriu sua cabeça com o capuz de pelos grossos. Fechou o zíper da jaqueta, torcendo para que ela permanecesse quente como estivera até então. Olhou ao redor, plenamente convencido de que passaria a noite na floresta.

*************

Retirou do bornal uma das fatias de pão de centeio e um naco de carne salgada. Fez um sanduíche. Resistiu ao ímpeto de enfiá-lo apressadamente na boca. Escolheu mastigá-lo de forma lenta. Suas mãos tremiam de frio. Nada podia enxergar, a lua resolvera se esconder naquela noite. Logo naquela noite. Ele estava só, como jamais estivera. Fez sua refeição enquanto ouvia os sons da floresta sem propriamente temê-los. Bebeu um pouco de água de seu cantil. Bem, estava alimentado. E agora? Restava-lhe esperar. Na escuridão. Na solidão.

Surpreendia-se por não temê-la. Sentia-se parte daquela natureza misteriosa e não tão silenciosa como havia esperado. Nada poderia fazer. Teria que esperar o sol dar o ar de sua graça para prosseguir. Tinha, entretanto, a grata impressão de que se encontrava suficientemente longe da Comunidade, como bem intentara sua mãe. E ela, como estaria?

Respirou fundo, mirando as trevas que o acolhiam de forma mais que pacífica, indiferente.

Era o que tinha que ser feito.

E dormir... conseguiria?

Não estava certo.

Talvez se fizesse uma oração...

Uniu as pernas com os braços. Buscou se esquentar, pois que o frio fazia-se intenso. Nada daquilo deveria ser empecilho.

Precisava descansar e seguir adiante, tão logo fosse possível.

Recostou a cabeça no tronco da árvore sob a qual pousara; fechou os olhos cansados de fitar o breu. A fadiga havia de conduzi-lo ao necessário repouso.

O que se provou o oposto do que esperava.

Camus apenas pegou no sono horas depois, na verdade quase ao alvorecer...

O orvalho cobrira seu jovem e exaurido corpo.

Tempos depois, ele acordou num sobressalto.

Não era possível! Já amanhecera?

Não podia ficar ali... urgia que retomasse o caminho para... para...

Não sabia.

Apenas deveria prosseguir.

Ergueu-se resoluto. E, quase em um gesto automático, pôs-se a andar.

Caminhou e caminhou, até que o sol, brilhante e dominador, ocupasse o topo do céu azul.

A despeito do sol acolhedor, o frio fazia-o estremecer. Afundou mais o gorro sobre a cabeça e recolocou o capuz, sentindo-lhe a parte felpuda úmida. Mas era melhor usar assim mesmo. Quem sabe, o “sol acolhedor” fizesse a gentileza de secá-la... seguiu rumo ao desconhecido. Até mesmo a vegetação lhe parecia diferente em alguns pontos.

“Certamente estou em direção ao coração da floresta.”

Esperava, através dela, acessar algum monte ou elevação que permitisse a visão de uma fazenda ou de uma estrada. Parecia-lhe improvável, no entanto, devia seguir as orientações de sua mãe.

Passado algum tempo, distinguiu o som de um regato. A despeito das admoestações maternas, não resistiu a ali parar para fazer uma higiene improvisada, por mais gelada que fosse a água. Aproveitou para completar o cantil, temeroso de ficar sem aquele líquido precioso. Não tinha o conceito de “potável”: para ele, se era água, podia beber e pronto. Assim o fez, a fim de voltar a andar para... para longe.

E longe ele deveria estar, acreditava.

Resolveu comer uns pedaços de pão ao sentir que a fome, até então ignorada, começara a causar legítimo incômodo. O frio diminuíra, o que não o animava a remover a touca tampouco o capuz. Passara tanto frio à noite e pela manhã que desejava armazenar tanto quanto pudesse aquele doce calor em seu corpo.

O terreno tornava-se acidentado e difícil de transpor pela agora abundante vegetação. Percebeu que, enfim, galgava uma tão esperada colina. O ar condensava-se à frente de seus lábios ressecados e entreabertos.

Imaginou, com um frêmito de súbito receio, o desagrado do Grande Pai ao se dar conta do sumiço do Messias da nova era. Sabia que, acima de todos, exceto de Deus, devia obediência ao Grande Pai. Não fora ele que preparara com tanto desprendimento o próprio filho para tão grandiosa missão?

“Será que eu não deveria voltar?...”, pensou, o coração disparado pela dúvida e pelo esforço físico. Fechou os olhos com força ao evocar o semblante aterrorizado da mãe. Ela parecia estar com tanto MEDO!... e por que estava machucada? (Sim, ele sabia, embora...) Lembrou de seu andar claudicante, de sua extenuante aparência. De suas intrigantes palavras.

“Não será pior do que ver você afundar nas trevas que Hades invocou!”

Trevas... como poderia ser a missão ordenada pelo Anjo Gabriel... TREVAS?

Por causa de sua distração, descuidou-se e pisou em uma pedra solta. Sentiu o pé virar e desequilibrou-se: caiu e rolou terreno abaixo. O mundo girou em meio a dor de se chocar com rochas, arbustos e galhos. O impacto com um tronco pôs fim à queda. Permaneceu, não saberia por quanto tempo, estirado sobre a terra, consciente, contudo imerso em dores lancinantes. Por fim, tentou levantar-se. A muito custo, conseguiu. Gemeu dolorosamente, a visão tremulando como se ainda estivesse caindo. Esperou até que recuperasse o equilíbrio, evitando analisar possíveis efeitos do acidente. Pôs-se em marcha novamente, braços fechados em volta de seu corpo magoado.

Não sabia se havia saído do caminho pretendido. A bem dizer, sequer havia um: todos os caminhos eram iguais... tomou uma direção aleatória.

O sol iniciara sua lenta trajetória descendente. O frio voltava a se intensificar, aos poucos. O dia caminhava para o seu fim.

Quando a forme apertou de novo, resolveu pegar a bolsa a tiracolo que continha suas provisões. Com pavor, viu que a alça arrebentara na queda. Sua comida ficara em algum lugar agora distante, certamente fazendo, naquele instante, a alegria de algum animal silvestre.

O que faria sem poder se alimentar, perdido na floresta? Sim, considerava-se irremediavelmente perdido. Fora do alcance do pai e também de qualquer um. Não percebera nenhum pé de amoras ou framboesas, tampouco árvore frutífera. Sem poder se aproximar de rios e lagos, não poderia procurar por peixes ou outro tipo de alimento. Isto é, considerando que ele SOUBESSE fazê-lo. Nunca o havia feito. No entanto, a necessidade constituiria o melhor professor, instintivamente sabia.

De repente, seus pés se detiveram. Teve a impressão de ter ouvido VOZES. Apurou os ouvidos até se dar conta de que NÃO se tratava de mera impressão. Aquilo acelerou seus batimentos cardíacos. Não apenas vozes, mas GRITOS... pareciam CRIANÇAS. Apavorado, procurou se esconder em meio a arbustos bastos debaixo de uma frondosa nogueira. Agachou-se ali e, sem perceber, até prendeu a respiração. Foi então que notou que RISOS também ecoavam em meio àquela barulheira perturbadora. Intrigado, tentou entender o que se passava, muito embora não pudesse ver o que acontecia.

Os gritos estridentes, as risadas que se convertiam em álacres gargalhadas... tornaram-se mais e mais próximas. Camus encolheu-se até quase virar uma bola. Ignorando a dor no corpo, afastou algumas folhas com as mãos, o suficiente para ver o que se passava, ainda que o medo de ser descoberto lhe avisasse para não efetuar tal ação.

Viu duas crianças pequenas com uma maiorzinha e uma menina mais ou menos de seu tamanho correndo alucinadamente por entre as árvores. Iam para todas as direções e delas corriam, sempre com grande alarido.

A menina maior parecia perseguir as demais. Foi o que achou, pois que fugiam dela, que tentava em vão alcançá-los. Ela lançou-se sobre um dos pequenos, derrubando-o no chão. Camus teve um sobressalto ante a cena. Deveria ajudá-lo? Então as risadas explodiram uma vez mais. Ele não conseguia compreender. Por que estavam rindo, se aquela garota os perseguia e, agora, capturara um deles?

˗ Agora tá com você, Annie! ˗ Gritou a maior.

˗ Não valeu, Cindyyy... ˗ Fez a menor. Malgrado a voz chorosa, um largo sorriso se via em seu rostinho vermelho.

˗ Valeu sim, Annie, não adianta reclamar ˗ Rebateu um menininho de cabelos tão claros que eram quase brancos. ˗ Agora é você quem é o “caçador”!

“Caçador? Estão caçando? Mas pareciam fugir uns dos outros”, pensou o adolescente, confuso.

˗ Tá bom, tá bom! Mas eu vou pegar vocês, e vai ser rapidinho! ˗ Bradou em tom de desafio a garotinha a quem chamavam “Annie”.

˗ É pra contar até vinte, hein? Não vale trapacear e contar até menos ˗ A garota que, pelo que Camus entendera, chamava-se Cindy, disse séria.

˗ E será que ela sabe mesmo contar até 20, mana?

Annie mostrou a língua para o menino de macacão jeans que perguntara.

˗ Sei sim senhor, não sou burra como você!

˗ Burro, eu? Vamos ver quem é o burro, quando você ficar que nem uma barata tonta procurando a gente até amanhã!

˗ Cindyyy, manda o Tom paraaar...

˗ Chega, Annie, fica virada naquela árvore e conta até 20...

A princípio com um muxoxo, a pequena fez conforme o ordenado. As outras crianças apressaram-se em sair de perto dela. Camus viu que eles desapareceram pelos matos. Franziu a testa. O que estavam fazendo afinal? Esperou, mudo como as pedras, para descobrir o que se passava.

De repente, viu olhos por entre as folhas que afastava com as mãos. Assustado, jogou-se para trás. Um menino de cabelos loiros escuros e sardas no rosto surgiu diante de si, andando de quatro. Cada qual olhou para o outro, a surpresa arregalando sobremaneira os olhos azuis e os olhos castanhos claros.

˗ Mas... quem é você?!? ˗ Sibilou o garoto.

Camus entreabriu a boca mas palavra alguma pôde por ela sair. Apoiando as palmas feridas na relva, afastou-se, em cautelosa defensiva.

˗ Ué, tá com medo de mim? ˗ O loirinho notou com facilidade. E, a plenos pulmões: ˗ CINDYYY! Vem cá! Tem um GAROTO aquiii!!

Paralisado de indizível e, por que não dizer (era uma simples criança!), incompreensível, horror, Camus viu-se incapaz de se mover e muito menos de escapar.

As demais crianças acorreram para o local de onde o garoto que encontrara Camus acenava, chamando-os. O adolescente sentiu-se acuado ante os olhares curiosos.

˗ Oi ˗ A mais velha das crianças tentou contato aproximando-se, ao que o ruivo retraiu-se de pronto. ˗ Quem é você?

˗ Ele tá machucado ˗ Um dos pequenos observou, o dedinho rechonchudo apontado para o rosto cheio de cortes do desconhecido.

˗ O que aconteceu contigo? Que tá fazendo aqui escondido?

˗ Por que tá machucado?

˗ Da onde você veio?

˗ Fala, menino, quem é você?

Atordoado por tantas perguntas e pela dúvida sobre o que deveria fazer, Camus continuava sem conseguir articular uma resposta sequer.

˗ Gente, vocês estão assustando ele. Afastem-se, deem espaço pro coitado. ˗ A adolescente falou. Ajoelhou-se diante do rapaz que mais parecia um animal diante de seu predador. ˗ Eu sou a Cindy, estes aqui são meus irmãos. Sou a mais velha deles.

˗ I-irmãos?...

˗ Pelo menos sabemos que ele não é mudo!

˗ Calaboca, Martin!

˗ Desculpa, Cindy...

A menina sorriu para Camus ao apresentar a si e os irmãos:

˗ Bom, como eu disse, eu sou a Cindy. Estes são Martin, Tom, Annie e Andy. Annie e Andy são gêmeos!

Sem dele ouvir qualquer comentário, Cindy indagou:

˗ E você? Qual é o seu nome?

˗ Eu... e-eu me chamo Camus.

˗ Camus? Que tipo de nome é esse? ˗ Estranhou Tom.

˗ Diferente, né? ˗ Sorriu Cindy, em uma tentativa de deixar o esquivo menino à vontade.

˗ Da onde você veio, Camus? ˗ Quis saber o que fora apresentado como Martin.

Ele não entendeu a pergunta. Optou por não responder.

˗ Você mora onde? ˗ Acudiu um dos menorzinhos, Andy.

˗ A próxima propriedade fica bem longe daqui. Por acaso, você veio de lá, Camus?

˗ Sim ˗ Murmurou o Redentor, sem saber se agia certo. Mas não sabia mentir. Por isso, recorrer ao silêncio fazia-se costumeiro.

˗ Puxa, você veio de lá? E veio pela floresta, sozinho?

˗ Seus pais deixam você andar pela floresta sozinho?

˗ Camus ˗ Cindy fez sinal para que os irmãos parassem de falar. ˗ Seus pais sabem que você tá aqui?

˗ Eu... minha mãe sabe... ela... ela falou para eu vir.

˗ Ah, sim, pensei até que você fosse um fujão ˗ Disse Martin sorridente.

˗ Quantos anos você tem, Camus? Parece ser velho como a Cindy.

˗ Quem você tá chamando de velha, seu folgadinho? ˗ Ela deu um tapinha na cabeça de Tom.

Aquela era uma pergunta à qual nem se Camus quisesse responder poderia.

Ele desconhecia a própria idade.

˗ Eu não sei ˗ Respondeu, como se fosse algo normal.

As crianças fitaram-no incrédulas.

˗ Como assim “não sabe”?

˗ Você NÃO sabe quantos anos tem???

˗ Quem não sabe quantos anos tem?!?

A menorzinha puxou a mão de Camus para que ele prestasse atenção nela. Afastou os dedinhos ao dizer:

˗ Eu tenho 5 anos! O Andy também tem 5 anos, a gente nasceu juntinho!

˗ Juntinho, não, eu sou mais velho que você, nasci primeiro!

˗ Eu tenho 8 anos ˗ Disse Tom.

˗ E eu, onze ˗ Foi a vez de Martin.

˗ Bom, e a “velha” aqui tem 13 anos ˗ Brincou Cindy. ˗ E você, Camus? Parece ter a minha idade.

˗ É que... bem, eu não sei a minha idade ˗ Respondeu, um tanto sem jeito.

As crianças se entreolharam.

˗ Ah, tá legal, se não quer falar, tudo bem ˗ Martin disparou. E afastou-se, simulando desinteresse.

˗ Vai ver, ele não sabe contar ˗ Andy supôs.

˗ Ou é como você, só sabe contar até até 10! ˗ Tom provocou o caçula.

˗ Não, não, não, eu não contei até 20 pra ir procurar vocês?

˗ Parem com isso, daqui a pouco estão brigando.

˗ Eu tô brincando com ele, Cindy. ˗ Retrucou Tom, rindo maroto.

˗ Por falar em brincar, vamos voltar a brincar! Daqui a pouco vai escurecer e a mãe vai mandar a gente entrar! ˗ Conclamou Martin, de longe.

˗ É verdade ˗ Concordou Cindy. Ela pôs-se de pé e estendeu a mão para Camus, sentado na relva. ˗ Quer brincar com a gente?

O Redentor lançou um olhar cauteloso a cada uma das crianças e enfim perguntou:

˗ O que é “brincar”?

Os cinco encararam o adolescente com grande surpresa. Então alguns começaram a rir.

˗ Camus, você é engraçado!

˗ Tá, ele não sabe o que é “brincar”!

˗ Vai ver, ele quis dizer que não sabe DO QUE a gente tá brincando ˗ Martin revirou os olhos ao dar sua versão: de jeito nenhum acreditava que aquele “esquisito” não soubesse o que era “brincar”.

˗ Ah, então é isso! ˗ Anuiu Cindy. Finalmente Camus aceitou-lhe a ajuda para se pôr de pé. ˗ A gente tá brincando de “pique”, mas inventamos o NOSSO pique: chamamos de “pique monstro”; misturamos o pique-esconde com o pique-pega. É assim: um conta até 20, virado pra árvore, sem olhar os outros, que vão se esconder enquanto o “caçador” faz a contagem. Depois o “caçador” vai procurar os que estão escondidos. Quando achar alguém, tem que gritar “achei!”, e aí, todos correm pra fugir. A primeira pessoa a ser pega é a próxima a contar até 20 e ir atrás de todo mundo. Entendeu?

Nem foi preciso ouvir resposta: a expressão facial de Camus respondia suficientemente...

˗ Acho que esse cara “não bate muito bem” ˗ Martin cochichou para Tom.

˗ Também acho, mano...

˗ Bom, vamos brincar que você entende melhor do que só ouvindo explicações ˗ Cindy tomou Camus pelas mãos, dirigindo-lhe um sorriso tão amistoso que o rapaz corou. Sem que ele esperasse, a menina tocou-lhe a face com a palma da mão tépida. ˗ Mas você pode correr, será? Parece que caiu feio.

˗ É, eu caí. Mas não estou machucado não.

˗ Teu rosto diz o contrário.

˗ Ah, meu rosto está...? ˗ Camus levou as mãos às faces, finalmente averiguando a extensão dos danos da queda.

˗ Bom, cê não vai correr com rosto mesmo, né, Camus? ˗ Disse Tom, rindo para ele.

Embora não compreendesse de todo a fala do menino, Camus sorriu, mais para corresponder-lhe o sorriso.

˗ Tá, então pro Camus aprender, eu vou ser a “caçadora” de novo ˗ Decidiu Cindy. ˗ Vou contar... escondam-se!

Quando ela começou “Um, dois, três...”, Annie sacudiu a mão de um inerte Camus.

˗ Veeem, você tem que se esconder!

˗ Ah... sim, claro ˗ Respondeu, confuso. Procurou um lugar em meio à vegetação para fazê-lo. Observou como os demais faziam.

Seu esforço não o poupou de ser o primeiro a ser encontrado. Sem conseguir escapar de Cindy ˗ que chegou a derrubá-lo no chão ao empreender sua captura ˗ foi o seguinte a contar até vinte e sair ao encalço daquelas crianças. Sua inépcia divertiu-os às lágrimas. Prevendo que naquele ritmo continuariam na mata até a madrugada, Martin deixou-se capturado pelo estranho rapaz.

˗ Tira esse capuz e essa touca, deve estar com calor! E isso te impede de ser ágil ˗ Era menos uma sugestão que uma ordem.

˗ Ah, verdade ˗ Deixou os longos e lisos cabelos vermelhos caírem pelos ombros.

˗ Cindy, olha, ele tem cabelo comprido! ˗ Andy apontou impressionado.

˗ Por que você usa cabelo de menina? ˗ Martin fez uma careta de desgosto ao inquirir.

˗ Cabelo de menina? ˗ Repetiu Camus, sem entender.

˗ “Deixa” eles, seus chatos! Vamos brincar!

˗ A Annie é a mais esperta aqui. Ouviram ela, né? Vamos brincar! ˗ Conclamou a primogênita.

Camus nada disse, mas NUNCA havia brincado antes. Não obstante, como se fosse algo instintivo, não demorou a aprender... e a tomar gosto pela coisa. À medida que brincava, incrementava a velocidade da corrida por entre as árvores iluminadas pelo poente dourado. Não se ressentia de ser um péssimo jogador, a atividade o divertia da mesma maneira. Sem perceber, suas faces avermelhadas cobriam-se de gotículas de suor, seus lábios repuxavam-se em risos e sorrisos. Os gritos, os empurrões, as puxadas, as gargalhadas, os toques, tudo era novo, diferente e, sobretudo, agradável.

Àquela altura da vida, não conhecia o conceito de “divertido”. A palavra sequer figurava em seu vocabulário.

˗ Crianças! Já pra dentro! Vamos!

˗ É a nossa mãe! ˗ Cindy virou-se para Camus ˗ Melhor você voltar pra sua casa!

Camus olhou fundo nos olhos esverdeados da nova amiga.

˗ Eu não posso voltar para casa, Cindy.

˗ Quê? Como assim, não pode voltar pra casa?

Ante o silêncio do adolescente, a garota insistiu:

˗ Camus, você fugiu mesmo de casa, por acaso?

˗ Eu... minha mãe...

˗ Sua mãe o quê?

˗ ... mandou que eu... ˗ Retirou um envelope do bolso da calça suja de terra. ˗ que eu entregasse isto a um adulto.

˗ O quê?!?

˗ Vamos, Cindy, os meninos já vieram, cadê você?

˗ Preciso atender a mãe. ˗ Tomou a mão de Camus e conduziu-o à cabana. ˗ Vem, você entrega a ela.

A mãe dos novos amigos surpreendeu-se com aquela aparição de revoltos cabelos rubros, rosto arranhado e sujo.

˗ Quem é esse garoto?

˗ Mãe, este é o Camus, ele tava aqui no sítio... encontramos ele quando estávamos brincando de pique ˗ Elucidou a filha mais velha.

A mulher, de cabelos loiros e claros emoldurando a face pálida, mirou-o com desconfiança. Observou, em tom de dispensa:

˗ Oh, sim. Bem, Camus, já está escurecendo, é melhor você voltar para sua casa. Seus pais devem estar preocupados.

˗ Ele tem uma carta, mãe; a mãe dele disse pra ele entregar essa carta a um adulto ˗ Cindy apressou-se a explicar.

Franzindo a testa, a mulher esperou que o menino sujo lhe entregasse a dita carta. Abriu o envelope. Seus olhos correram para cá e para lá, ora pelas linhas diante de si, ora pela figura caótica à sua frente. Fitou o adolescente por uns instantes, até que disse, por fim:

˗ Cindy, leve-o para o banheiro. Deixe-o se banhar, está se vendo que ele precisa. Todos vocês, claro, mas ele está em estado lastimável. Dê-lhe alguma roupa limpa sua, as roupas de Martin vão ficar apertadas, e as de seu pai, enormes.

˗ Tá bom, mãe.

˗ Bom, vou terminar o jantar. E até terminar, quero todos limpos, ouviram bem?

Diante dos olhares interrogativos dos irmãos, Cindy levou Camus até o quarto que ela ocupava com a pequena Annie. Revirou um armário de madeira escura e dele tirou uma camisola azul clara e uma calça de pijama com xadrez vermelho e branco. Ao depositar as roupas nos braços do hóspede, ela indagou em voz baixa:

˗ Camus, o que tava escrito naquela carta, afinal? Minha mãe fez uma cara... e logo mudou de ideia sobre você ir embora!

˗ Eu não sei.

˗ Não sabe?

˗ Minha mãe só mandou que eu a entregasse a um adulto, não me disse o que estava...

˗ Peraí, você tava andando com ela o tempo todo e não teve curiosidade em NENHUM momento pra ver o que tava escrito nela?

˗ Mas por que eu leria Ela só mandou que eu a entregasse a um adulto ˗ Repetiu, monocórdio. ˗ não mandou que eu lesse.

Intrigada, Cindy encarou-o, consciente de que ali residia um mistério.

˗ Você fugiu, não foi? ˗ Sussurrou. ˗ Por acaso foi sua mãe que...

˗ Cindy, preciso de você aqui na cozinha!

A menina estalou a língua. Empurrou o ruivo para fora do quarto, e mostrou-lhe onde ficava o banheiro.

˗ Depois você me conta. Preciso ir ajudar a mãe.

Sem nada retrucar, Camus viu-se em um cômodo bem diferente do “seu” banheiro por causa das cortininhas rendadas brancas nas janelas e vasos de flores sobre algumas prateleiras, tapetinhos rendados pelo chão. Distinguiu o que sabia ser um chuveiro ˗ já utilizara em algumas vezes, mas em sua “cela” dispunha apenas de uma tina de madeira. Ali banhou-se, deliciando-se com a água quente e reconfortante.

A calça de pijama de Cindy ficou curta em suas pernas, mas pelo menos não ficou apertada. A camisola perfumada cujas mangas iam até antes dos pulsos finos era macia ao toque. Inconscientemente, levou uma parte da gola até o nariz. Aspirou-a e cerrou os olhos sob um inédito conforto. Calçou chinelos ali deixados por Cindy, perguntando-se se também eram dela.

Quando todos se reuniam à mesa, o pai de família, recém-chegado, a eles se juntou. Olhou para Camus com grande interesse antes de revelar:

˗ Emma mostrou-me a carta de sua mãe, Camus. Não se preocupe, faremos o que ela pede.

As crianças olharam para Camus como que esperando que ele explicasse aqueles dizeres. Contudo, tampouco ele conhecia o conteúdo da missiva. Diante da visível curiosidade dos filhos, o homem disse:

˗ Camus sofre maus tratos por parte de seu pai. Para livrá-lo do pior, sua mãe mandou que Camus fugisse e que entregasse esta carta a um adulto, alguém que pudesse chamar a polícia e contar tudo.

Real estupor cobriu os rostinhos dos novos amigos.

˗ Por que você não nos contou, Camus?

˗ Eu...

˗ Foi o seu pai que machucou o seu rosto?

˗ Não, eu caí... na floresta. Despenquei de um barranco...

˗ O que é “maus tratos”?

˗ Quer dizer que o pai do Camus maltrata ele, Annie. Que bate nele. ˗ Martin explicou.

O silêncio de uma incômoda piedade constrangeu o ruivo. Percebendo-o, o pai de família anunciou:

˗ Ligaremos para a polícia amanhã. Já está muito tarde, e, com certeza, Camus está cansado e com fome, depois de andar tanto tempo pela floresta.

Com um sorriso de tímida gratidão, o Redentor assentiu. O delicioso aroma do que estava sobre a mesa fê-lo salivar. Nunca sentia cheiros tão instigantes quando de suas refeições frugais.

De fato, estava tudo delicioso. Carne, purê, feijões... carne... ele NUNCA comia carne. Apenas cereais, pão, mingau e sopas ralos. Vez ou outra uma fruta, um peixe cozido, sem nem sombra do tempero que experimentava naquele alimento.

˗ O cozido de cervo da mãe é o melhor ˗ Festejou Tom.

˗ Coma o quanto quiser, Camus ˗ O pai de família falou, amável.

˗ E depois tem sobremesa... torta de abóbora com creme ˗ Ajuntou Emma, sorrindo do mesmo modo para o visitante.

˗ OBAAA! ˗ As Crianças vibraram, braços para o alto, felizes. Camus jamais vira crianças com aquelas expressões. Nunca vira NINGUÉM com tais expressões. Os semblantes dos pais igualmente luminosos, alegres...

Que alegria seria aquela?

Achava que apenas no Céu as pessoas pudessem expressar tamanha alegria.

Terminada a refeição, todos se reuniram na sala de estar, em frente a uma acolhedora lareira. Iriam contar histórias, disseram. Cindy explicou a Camus:

˗ Papai acha mais saudável que assistirmos televisão. Somente raras vezes ligamos. Bom, ELE liga, quando tem jogo de futebol americano a ser transmitido ˗ Ela riu, como se contasse algo engraçado ou, ao menos, curioso. Como Camus não soubesse o que era “televisão”, tampouco “futebol”, limitou-se a sorrir, simulando compreensão.

Passaram momentos agradáveis, narrando contos que o Redentor, que apenas conhecia histórias da Bíblia, não entendia, ainda que sorrisse quando os demais sorrissem ou rissem. Seu sorriso nem por isso era falso. Algo naquela casa, naquela atmosfera, acolhia-o como um abraço invisível.

Quando chegou a hora de se retirarem, ficou decidido que Camus dormiria no sofá da sala. Seus novos amigos se despediram dele. O Redentor acomodou-se na cama improvisada, forrada com macias cobertas e peles. Emma cobriu-o com uma grossa manta. Acariciou-lhe a testa, afastando dali a volumosa franja.

˗ Amanhã chamaremos a polícia, como Jimmy falou. Você não tem com que se preocupar, Camus. Tudo vai ficar bem.

˗ E quem é a polícia, senhora McCoy?

Ela deixou escapar um risinho.

˗ “Quem é a polícia”? Você não sabe o que é a polícia?

˗ Não.

˗ É um grupo de pessoas que sempre ajudam os outros, que os protegem do mal, dos crimes. Eles vão ajudar você e, depois, a sua mãe.

˗ Eles vão ajudar minha mãe também?

Sentiu o coração aquecer mais do que já se aquecera, sob o aconchegante carinho de Emma. De alguma forma difusa, preocupava-o, muito, a situação da mãe. O Grande Pai havia de estar furioso com ela por ter promovido a fuga do Messias da Igreja Aurora do Novo Porvir.

˗ Certamente que vão. ˗ Confirmou Emma afetuosa. ˗ Agora durma. Você teve momentos difíceis. Precisa descansar.

E Camus sentiu-lhe os lábios encostarem suavemente em sua fronte. Um beijo terno. Sua mãe havia feito o mesmo havia tanto tempo... nos últimos tempos, não ficavam juntos com a frequência de épocas passadas. O adolescente cerrou os olhos vagarosamente, evocando aquele contato perdido, imerso na doçura de sua gentil hospedeira. Em meio àquele benfazejo calor, não demorou a dormir, um sono, ao contrário do que costumava acontecer, sem sonhos... nem pesadelos...

O dia seguinte irrompeu, claro e prateado, ressentindo-se da ausência do sol. Tão logo concluíram suas higienes, todos reuniram-se em torno da mesa, mais uma vez repleta de refeição cheirosa e fumegante. O pai a eles se juntou. Estendeu o prato à esposa, para que por ela fosse servido.

˗ E então, Jimmy querido, ligou para a polícia?

˗ Liguei sim. Devem chegar em uma ou duas horas. ˗ Respondeu ele.

˗ E eles vão levar o Camus?

˗ Precisam levar, Tom, para o bem dele.

˗ Poxa, o senhor podia ter deixado pra ligar amanhã, pro Camus brincar hoje com a gente ˗ Reclamou Martin.

˗ É mesmo... ˗ Bufou Andy, cruzando os bracinhos.

˗ Eu não quero que o Camus “vai” embora ˗ Protestou Annie.

Jimmy sorriu para os filhos.

˗ Não fiquem assim, a polícia vai ajudar o Camus e a mãe dele. E ele poderá vir nos visitar sempre que quiser. ˗ Garantiu.

˗ Verdade, pai?? ˗ Cindy uniu as mãos de animação.

˗ Claro, quando foi que eu menti para vocês?

As crianças sorriram animadas. Até Camus percebeu que sorria. Nunca havia se sentido tão bem. Tão querido. E não quisera tão bem a outras pessoas como queria a Cindy, Martin, Tom, Annie e Andy.

Camus não saberia precisar se fora o tempo estimado por Jimmy, mas, enfim, bateram à porta da cabana. O dono da casa atendeu: dois homens de terno preto cumprimentaram-no.

˗ Sejam bem-vindos. Minha esposa já vai trazer o menino. Querem tomar alguma coisa? Um chá, um café...?

˗ Muito obrigados, senhor McCoy, estamos bem. Agradecemos sua gentileza. ˗ Um deles, de óculos escuros, respondeu formalmente.

Emma adentrou a sala com Camus a seu lado. Ele ainda vestia as roupas de Cindy. A mulher estendeu para os recém-chegados uma bolsa.

˗ Aqui estão as roupas dele. Estão sujas de terra e lama, mas não as lavei, pois não teria tempo de secá-las a tempo para entregá-las limpas e...

˗ Não tem problema. ˗ O outro homem tomou a sacola nas mãos. O tom era subitamente seco, quase ríspido, mas ninguém daquilo fez caso.

As crianças acompanharam-nos até onde carros com vidros fumê esperavam por Camus e pelos homens. Annie puxou a barra da camisola que o Redentor trajava.

˗ Você vai mesmo voltar pra visitar a gente, Camus?

˗ Espero que sim. ˗ Respondeu, agradecido pelo carinho. E, ao sentir o olhar doce de Cindy sobre si, completou: ˗ Eu adoraria voltar um dia.

Jimmy interpôs-se entre Camus e seus filhos.

˗ Despeçam-se de Camus, crianças. ˗ Ordenou. Virou-se para um dos homens. ˗ Ele está entregue. Nós cuidamos muito bem dele, viu? Foi muito bem tratado.

˗ Ele SEMPRE foi ˗ Replicou o de óculos escuros, agora abertamente ríspido.

Foi quando de um dos carros saiu Hades, de terno preto, como os demais homens que saíam dos outros carros, como os homens que escoltavam Camus.

Os que deixaram os veículos portavam armas. Em um reflexo, Camus estacou. Disse, aterrado:

˗ PAI...?

Surpresas, as crianças tentaram chegar perto, a despeito do cerco dos homens.

˗ Ele é o seu pai, Camus?? ˗ Martin, como os demais, mostrava-se atônito.

˗ O que ele tá fazendo aqui? ˗ Gritou Tom.

˗ Mas... é o pai dele? ˗ Cindy virou-se para Jimmy, transtornada ˗ O senhor ligou pro PAI dele?

˗ Então eles não são da polícia? ˗ O pequeno Andy tentava entender.

Hades aproximou-se do filho. Nele cravou seu olhar gélido.

˗ Por que... por que o senhor está aqui?... — Balbuciou Camus, visivelmente aterrorizado.

Jimmy pôs as mãos sobre os ombros do adolescente trêmulo.

˗ Conforme o combinado, eis o garoto. ˗ Falou firme.

˗ Bom trabalho, McCoy. Quando você foi contratado para vigiar uma das fronteiras da minha propriedade, eu não poderia imaginar que um dia cumpriria melhor do que eu esperaria com o ofício designado.

Os meninos, boquiabertos, viram o imponente homem lívido, de cabelos muito compridos e negros acercar-se de Camus. Puxou-o para si, em um gesto que nada tinha de afetuoso. Revoltado, Martin gritou para o pai:

˗ O senhor ENGANOU a gente!!!

˗ Não pode entregar Camus a ele! ˗ Cindy juntou-se ao irmão. ˗ O pai dele maltrata ele, a mãe do Camus disse na carta que...

˗ Calem-se! ˗ A voz de Jimmy rugiu imperiosa. A seu lado, Emma parecia tranquila. Dirigiu-se ao Grande Pai.

˗ O menino está entregue, senhor Hades. Como disse meu marido, ele foi muito bem tratado nesta casa. ˗ Disse, altiva.

˗ Bem o vejo. Fez até fiéis amiguinhos... ˗ Hades sorriu sarcástico. Puxando o filho para junto de si, fez menção de voltar ao automóvel de onde saíra.

Àquele movimento, Jimmy manifestou-se vivamente:

˗ Espere, o senhor já vai? E o meu pagamento? Nós combinamos que...

Com um erguer de ombros, o líder religioso falou, entre um sorriso sardônico:

˗ Oh, sim. O pagamento. É claro que você RECEBERÁ o seu pagamento...

Os homens de terno apontaram as armas na direção da estarrecida família.

˗ O que... o que significa isso, senhor Hades?

˗ Significa, senhor McCoy, que o pagamento será efetuado AGORA.

E segurando Camus pelos ombros, disse-lhe gravemente:

˗ Contemple agora o resultado de seu ato de rebelião, Messias.

Sob sons repetidos e ensurdecedores, Camus viu os corpos daqueles que tão gentilmente o acolheram tremerem alucinados no ar. Nuvens vermelhas emergiam deles, enquanto eram sacudidos violentamente sob o terrificante som das impiedosas e incessantes rajadas. Assim que essas cessaram, o que para Camus, pareceu após uma eternidade, tombaram no solo alagado de sangue. O grito nunca deixou a garganta estrangulada de Camus. Em sua boca muito aberta, recebia as lágrimas mais salgadas que nunca. Esperou o mesmo fim, uma vez que sequer seu coração sentia mais. Agora acariciando os ombros do filho, Hades enunciou, em meio à recém estabelecida quietude:

˗ Não pode haver testemunhas da falha daquele que veio para salvar os últimos Escolhidos de Cristo. Imagine que duro golpe em sua fé seria, se soubessem...

˗ E-eles... eles... e-stão... o senhor... ˗ Camus sentiu os fundilhos da calça de Cindy se encharcarem.

˗ Guarde esse momento em sua mente. Essa cena em seus olhos.

O Redentor julgou que a morte de si também se apoderaria, não pelas armas que vitimaram aquela família, e sim pelas emoções paralisantes que varavam seu corpo.

˗ Chrysaor, por favor.

A última coisa que sentira antes de ver seus amigos mortos se perderem no breu foi a aguda dor da seringa em seu pescoço. Antes de perder a consciência, sentiu os braços do pai o erguerem do chão.

˗ Vamos para casa ˗ A voz, já desvanecendo-se no nada, fez-se lenta e suave. ˗ meu filho.

*************

A despeito dos anos de serviço na Polícia Federal, que chegavam a quase duas décadas, Saga viu-se sem palavras e sem ação ao término do relato de Camus sobre sua primeira e última tentativa de fuga. Dohko, de braços cruzados e sério como nunca, percebeu o estupor no rosto de seu chefe. Saori, que escutava a história pela primeira vez, partilhava da sensação sufocante que pairava no recinto. Kanon filmava tudo, imaginando como não seria a reação de Milo ao ver o inquietante vídeo.

˗ Então foi a partir daí que você passou a usar a tornozeleira de contenção de que Milo falou. ˗ Observou o procurador.

˗ Sim. Quando eu andava a pé pelo Vale, tinha que usá-la.

˗ E a qualquer movimento inesperado, a pessoa que te vigiava...

Camus sorriu discretamente.

˗ Era bem desagradável. Eu procurava tanto quanto possível me portar de forma a que aquilo não fosse necessário.

˗ Mas não foi apenas nessas circunstâncias que ela foi acionada, certo?

O ex-Redentor encarou Saori.

˗ Seu irmão mais novo. Algol.

˗ Ah, sim.

˗ Quer que eu conte essa parte? Você permite?

Ele abaixou a cabeça, apertando as mãos entre os joelhos.

˗ Sim.

˗ Algol utilizou o controle da tornozeleira certa vez para dominar Camus... e cometer violência sexual contra ele.

˗ Quê?!? ˗ Kanon não se conteve. ˗ O próprio irmão...?

˗ Radamanthys, o irmão mais velho de Camus, também abusava de Camus.

˗ Não é possível! Que gente doente era...? ˗ Dohko, a custo, conteve-se.

Em um gesto puramente maquinal, Saga pigarreou. E, em seguida:

˗ Trataremos disso em outra hora, ainda hoje. Peço que concentremos essa parte do depoimento no episódio da fuga, pois ele é a chave do desaparecimento de Marie De La Faure.

Os demais assentiram. Camus fez o mesmo.

˗ O que aconteceu depois que seu pai te levou de volta para a Comunidade? ˗ Dohko inquiriu.

˗ Depois que recobrei a consciência, vi que estava na Câmara de Expiação, onde por vezes era castigado.

˗ “Por vezes”? Então esteve lá mais vezes?

˗ Sim.

˗ Antes ou depois desse episódio?

˗ Antes e depois. Pelos delitos mais graves.

˗ Era uma sala destinada a sessões de tortura, é isso?

˗ Não só para mim. Meus irmãos também já foram punidos ali, e outras pessoas, pelo que sei.

˗ Que lhe fizeram? E quem fez? ˗ Indagou Saori.

˗ Auxiliares do meu pai me despiram; fui imobilizado por cordas que pendiam do teto e fui açoitado até perder a consciência. Quando a recobrava, o castigo continuava.

˗ Santo Deus ˗ Murmurou Kanon.

˗ E seu pai assistia a TUDO?

˗ Desta vez, SIM. Era um castigo especial.

˗ Camus ˗ Saga retomou a palavra. ˗ Durante esse... castigo... ele disse o que havia acontecido com Marie De La Faure?

˗ O que ELE fez com ela? ˗ Frisou Dohko.

Camus considerou os dois homens ao responder:

˗ Ele nunca falou o “que fez com ela”. Apenas para ONDE ela havia ido.

˗ Pode nos explicar? ˗ A psicóloga demandou, quase com receio.

˗ Posso sim.

*************

O intenso desgaste físico e mental a que Camus vinha sendo submetido havia pelo menos uma semana era a única explicação para seu sono tão profundo e ininterrupto. Com as costas e o torso envoltos por ataduras, o adolescente dormia no chão liso da Câmara da Expiação. O curativo fora uma misericordiosa obra de Chrysaor, conforme ele saberia tempos depois através de Albiore. Médico renomado antes de se encerrar na cidadela religiosa, o Arauto era o principal responsável por não somente cuidar da saúde do Redentor, como, principalmente, remediar-lhe os danos físicos oriundos dos ritos e cerimoniais, bem como prepará-lo para os próximos.

Afora as faixas que lhe cobriam parte do corpo ferido, Camus trajava uma calça branca de linho, irrisório auxílio para a temperatura do inóspito recinto: todo branco, de piso e paredes luzidias, cujo único mobiliário, se é que assim poderia ser designado, eram as instalações destinadas às sevícias.

Fazia muito tempo que Camus dormia profundamente, talvez por mais de um dia inteiro, sem dar mostras de despertar. Nem sonhos nem pesadelos vinham levá-lo a outras esferas, tão somente o sono escuro e denso, que se assemelhava ao repouso final.

Esse, porém, foi bruscamente interrompido pela água gelada atirada por sobre o corpo adormecido. Camus acordou assustado, levantando-se de súbito. Atordoado, distinguiu diante de si a figura impassível do Grande Pai. Trajava um impecável terno risca-de-giz e trazia os cabelos longos e negros presos em um rabo de cavalo que ultrapassava-lhe a linha da cintura. A seu lado, o filho mais velho, Radamanthys, de 16 anos. O rapaz, sério, vestido com macacão jeans e camisa flanelada xadrez, segurava o balde que usara, a mando do pai, para acordar o Redentor.

˗ S-se-senhor m-meu pai... R-Ra-Rada...

˗ Pode sair agora, Rada. Minha conversa com o Messias é particular. ˗ Ordenou Hades, com voz sombria, o olhar pétreo fixo no adolescente tiritante e confuso.

˗ Sim, Grande Pai. Com a sua licença. ˗ O rapaz de cabelos loiros curtos e espetados retirou-se, sem ter demonstrado qualquer emoção.

Tão logo a porta da Câmara se fechou, o líder da seita se viu a sós com o segundo filho. A atmosfera tornou-se ainda mais opressiva.

˗ Como está, meu filho? Tem descansado bastante, não? Logo estará plenamente revigorado e poderá voltar a cumprir com suas obrigações, não é verdade?

As palavras de Hades soavam difusas, quase distantes, ao menino atordoado pelo susto e pelo horrível frio. Permaneceu em silêncio, olhos esgazeados fixos no pai, que estava em “trajes mundanos”, o que significava que se preparava para ir ter com aliados “mundanos”, fosse dentro ou fora da Santa Cidadela.

Ao líder religioso não passou despercebida a agonia do filho, trêmulo, os músculos retesando-se.

˗ O que você tem? Para alguém que nos últimos sete dias nada tem feito além de comer e dormir, você parece inexplicavelmente incomodado. ˗ Hades inclinou a cabeça ao dar um sorriso cínico.

Comer?

Um pedaço de pão e uma cuia de sopa rala, jogados ali uma vez por dia, era toda a refeição do pobre adolescente naquela masmorra. Além da água, salobra e racionada. Invariavelmente ele vomitava tudo na toalete da prisão. O que só o deixava mais fraco ainda.

˗ Responda! O que você tem, Camus?

Dor, fome, sede, exaustão, medo, remorso, tristeza.

No entanto, sua resposta contemplou o que mais o atormentava NAQUELE momento:

˗ F-frio... t-te-tenho... frio... ˗ Balbuciou, trêmulo.

Hades abaixou-se para encará-lo de forma maníaca.

˗ Frio? Você tem frio, Camus? Não, Camus, você NÃO tem frio. Sabe quem REALMENTE sente frio neste exato instante, Camus? Aquela família que VOCÊ matou. Sim, sua ação leviana e egoísta levou-os para debaixo da terra!

O jovem arregalou os olhos, horrorizado.

˗ Lá é muito mais frio que aqui, Camus. Eles estão sentindo muito mais frio que você, cobertos pelo solo gelado, pelo esquecimento, pela morte provocada por SUA infidelidade para com o seu Antecessor, Nosso Senhor Jesus Cristo. ˗ Hades suavizou a expressão e abrandou a voz. ˗ Foi necessário. Foi uma ordem de Deus. Que seria de Seu Plano se Suas Ovelhas descobrissem que o Messias desta era, responsável por concluir o Projeto de Salvação Universal, quis ABANDONÁ-LAS? Elas, que abandonaram suas casas e parentelas, suas vidas mundanas, suas posses, bens e riquezas... como reagiriam as Ovelhas, que TUDO abandonaram, ao serem ABANDONADAS pelo seu Salvador?

Atônito, o adolescente considerava a assertiva admoestação do pai.

˗ Há 7 anos, o Anjo Gabriel manifestou-se diante de mim, flamejante como o próprio Sol. Ele anunciou que Deus escolhera VOCÊ para encerrar a obra do Unigênito, visto que o mundo tinha se tornado ímpio para além da concepção divina. ˗ Neste ponto, sua voz aproximou-se de um doce murmúrio. ˗ Também EU abandonei TUDO para cumprir os desígnios do Messias original. Acha que errei, Camus? Acha que o Anjo Gabriel errou? Que Cristo errou? Que DEUS errou?

Em lenta negativa, Camus moveu a cabeça.

˗ Nunca lhe foi atribuída a perfeição, Camus. Isso faz parte do milagre: um imperfeito a conduzir os imperfeitos para a Salvação. Entretanto, a fim de que não haja vítimas inocentes, é preciso aprender a NÃO ERRAR. Viu o que o SEU erro causou?

Não havia forças em Camus para responder. Meros gestos faziam-se custosos. Sua expressão quebrantada, contudo, a Hades comunicava a vitória.

˗ Tem algo a dizer, meu filho?

A muito custo, o rapaz murmurou:

˗ Eu sinto muito.

˗ É claro que sente. Não foi à toa que você foi o escolhido do Redentor original. Não é à toa que você É o novo Redentor. Ocorre tão apenas que não é perfeito como seu Antecessor, que pôde resistir à Tentação no Deserto. Você não pôde. Mas isso não tornará a acontecer.

Aos poucos, a mente de Camus pôs-se a se organizar. O frio pareceu mesmo se amenizar.

˗ A despeito da veneração que lhe votam milhões de fariseus, Maria tampouco era perfeita. ˗ Hades ergueu-se ao elucidar. ˗ Se Maria, que concebeu o Homem Perfeito, não era perfeita, o que dirá daquela que gerou VOCÊ, Camus?

Sentindo o coração acelerar, o ruivo mirou o pai. Ainda não havia tido coragem de perguntar o que fora feito de seu mãe.

Inconscientemente, porém, ele SABIA. E, sem poder se conter, deixou escapar:

˗ O senhor a matou, como matou aquelas pessoas?

Hades esbofeteou-lhe com força o rosto úmido. O Redentor tombou sobre o piso.

˗ Meça suas palavras, garoto ˗ Rosnou o líder religioso. ˗ Quem matou aquelas pessoas foi VOCÊ, Camus. VOCÊ! Nunca se esqueça disso! REPITA COMIGO, AGORA!!!

˗ Fui eu! Fui EU quem matou aquelas pessoas! ˗ Respondeu em completo pavor, braços à frente do rosto ensanguentado em uma inconsciente e vã tentativa de se proteger. Teve os cabelos puxados com violência pelo pai, que assim o elevou para fitá-lo nos olhos enquanto pontuava:

˗ VOCÊ matou aquelas pessoas. E SEMPRE que se voltar contra MIM, OUTROS pagarão. INOCENTES pagarão, Camus. Você ouviu bem?

˗ Sim, senhor meu pai ˗ O adolescente era sacudido pelo pai, com fúria.

˗ Quanto à sua mãe, a idealizadora dessa satânica insubordinação... Marie foi para junto do Criador. Para que ela não pecasse mais, para que não pusesse o Plano em risco novamente, Ele a chamou para si.

˗ Minha... minha mãe está morta? ˗ A pergunta saiu em voz quase inaudível.

˗ Ao contrário. Está mais VIVA que nunca. Está no Reino dos Céus, no Castelo de Deus, purificando-se após esse ato terrível.

˗ E-então... ela... minha mãe...

Hades soltou-o de repente.

˗ Quero lhe dar um presente, antes de partir para uma viagem de negócios a Washington. ˗ Anunciou, gélido. Dirigiu-se até uma mesa sobre cujo tampo de mármore encontrava-se uma caixa, da qual Camus não havia tomado ciência.

˗ É um item muito interessante, feito sob medida para você...

Hades retirou da caixa algo que Camus identificou como uma argola ou uma algema. O líder religioso ajoelhou-se perante o filho. Abriu a tal argola e a fechou em torno de um dos tornozelos do adolescente, que não se furtou a erguer as sobrancelhas em nítida dúvida.

˗ De hoje em diante, você estará sempre em vigilância irrestrita, ou então, trancado em seu quarto no Tabernáculo. E mesmo lá, haverá seguranças à porta e do lado de fora da morada. Quando tiver que deixar o Tabernáculo e, principalmente, quando for andar pela propriedade, usará esta tornozeleira.

Aturdido, Camus olhou para o anel de metal em seu tornozelo; o objeto talvez tivesse a espessura de três ou quatro dedos. Tornou a mirar o pai, em muda interrogação. Hades pôs-se de pé. E da caixa tirou outro objeto.

˗ Sempre que sair do Tabernáculo, haverá um vigilante contigo. Se por um acaso fizer menção de se afastar de seu guarda sem aviso ou permissão, ou qualquer movimento suspeito que seja ˗ Brandiu o novo objeto na direção de Camus. ˗ Acontecerá ISTO...

Algo inédito e perniciosamente doloroso percorreu o corpo de Camus. Estremeceu e convulsionou, um longo grito escapando por entre seus lábios muito abertos e, em seguida, seus dentes cerrados. Ele caiu com violência no chão. Seu pai ainda apontava o estranho aparelho em sua direção.

˗ AAAAAAAAAAHHHHH!!! ˗ Os gritos incessantes ecoavam pela Câmara. De repente aquela chama interna ˗ assim lhe pareceu ˗ foi repentinamente suspensa.

Ele permaneceu tremendo no piso, sem entender o que acabara de se passar. Com dificuldade, ergueu o rosto aflito para o pai, que estava a observá-lo desprovido de qualquer emoção.

˗ Isso que você acabou de experimentar chama-se ELETRICIDADE. É o que faz com que o Templo e os cômodos do Tabernáculo fiquem iluminados à noite e em dias escuros. É do que são feitos os raios que Deus envia a esta terra degradada para lembra-la de Seu poder.

˗ O que... c-como... ˗ Falar era tão difícil quanto pensar.

˗ Se você fizer menção de se afastar daquele que estiver responsável por vigiá-lo ˗ Repetiu friamente ao mostrar o aparelho em sua mão. ˗ seu guardião apertará um destes botões e você sentirá o que acabou de sentir. Mas não se preocupe tanto, possivelmente a sensação de agora foi potencializada pelo fato de seu corpo estar molhado. Faz com que a experiência seja PIOR, sabe? Se bem que há NÍVEIS de intensidade, que...

Apavorado, o menino encontrou forças para suplicar:

˗ Por favor, senhor meu pai! Isso não será necessário, NUNCA! Eu PROMETO que nunca mais tentarei escapar!...

˗ Nesse caso, nada terá com que se preocupar, meu amado filho ˗ Abaixou-se para retirar-lhe do tornozelo o tenebroso equipamento. ˗ Se não fizer besteira novamente, não sentirá o que acabou de sentir.

Ao guardar os objetos na caixa expôs didático:

˗ É um tipo de “disciplinador” largamente utilizado no mundo. Chama-se eletrochoque. Bastante útil, pois, utilizado com responsabilidade, não compromete o organismo, tampouco deixa marcas... embora seja particularmente desagradável, você pode confirmá-lo, não?

Nem um pouco disposto a esperar pela resposta, Hades preparou-se para sair. Não antes de anunciar neutro:

˗ Tão logo os ferimentos do açoite cicatrizem minimamente para tal, procederemos ao novo Cerimonial, a Santa Ceia.

A Santa Ceia.

O ritual do qual sua mãe tentou livrá-lo.

Ele engoliu em seco, contudo, assentiu.

Não havia outro jeito.

Não havia escapatória.

E mesmo que houvesse nova chance no futuro... ele NÃO teria tal direito. Reviu o rosto extenuado da mãe. Os rostos antes sorridentes e, no fim, contorcidos e ensanguentados de Cindy, Martin, Tom, Andy e Annie. De Emma, que depositara em sua fronte um beijo de boa noite como os que recebera em tenra infância. De Jimmy, que sequer pudera proteger a própria família.

Não, não deveria dar as costas à sua missão nunca mais.

Não importasse o quão pesado fosse o seu fardo.

O que tivesse de suportar.

Mais do que fazê-lo pelas Ovelhas, deveria fazer pelos que, devido às suas ações, não mais ali se encontravam.

˗ Fique aqui até amanhã, para refletir mais um pouco. ˗ Hades virou-se para a porta e enfim deixou o Redentor a sós com seus tormentos mentais.

*************

Uma vez mais o silêncio pousou na sala de depoimentos. Dohko suspirou e voltou-se para Saga, como que para verificar-lhe a reação. Saori fez o mesmo. Percebendo que sua mudez causava estranheza nos outros, Saga se recompôs e, espalmando as mãos sobre a mesa, indagou:

˗ E desse dia em diante, você não viu mais sua mãe, correto?

O ruivo assentiu.

˗ Você teve consciência, à época, do que de fato ocorreu a ela?

Camus encolheu os ombros.

˗ Tudo que eu entendia era que ela havia partido para viver no Céu. Para que não mais tentasse o... o “redentor”.

˗ Você não entendia que seu pai a havia ASSASSINADO, Camus? Como fez com a família McCoy? ˗ Dohko foi mais assertivo que Saga.

Mordendo o lábio inferior, Camus baixou o olhar úmido.

˗ Eu não vi. Não testemunhei. Então... o que ELE dizia... me pareceu... eu...

Os federais se entreolharam ante aquelas palavras entrecortadas. Pela primeira vez, Camus se referia a Hades como “ELE”. Não “meu pai”. Via-se mesmo um esboço de sorriso no rosto de Saori.

˗ Mas, e agora? ˗ Insistiu o promotor. ˗ AGORA você tem consciência do que REALMENTE houve com a sua mãe?

A psicóloga inclinou-se para o jovem ao questionar:

˗ Você reconhece que Hades MATOU Marie De La Faure, Camus?

A hesitação, até então presente nas respostas do ex-messias, não se verificou na resposta curta e baixa:

˗ Sim. Reconheço.

Os quatro trocaram olhares de júbilo. Dohko tomou fôlego antes de perguntar:

˗ Camus, essa “Santa Ceia” de que sua mãe tentou te livrar, ao idealizar sua fuga... não era esse o nome do ritual que Milo filmou quando esteve na comunidade?

Ele confirmou com um gesto resignado.

˗ E... por quanto tempo aquela... INFÂMIA foi realizada? Por quanto tempo te sujeitaram ÀQUILO?

˗ Eu não tinha noção de tempo como vocês têm. Não sabia o que eram semanas, meses, anos. ˗ Explicou o rapaz, sem encarar ninguém, apenas uma direção aleatória. ˗ Mas eu lembro de que mencionavam o intervalo de um ano... que era anual...

˗ Uma vez por ano?

˗ Sim. A última foi justamente aquela que Milo invadiu.

˗ Hum. Diga-nos... houve outras ocasiões em que seu pai... promoveu rituais cujo foco era a exploração sexual da figura do Redentor?

Camus considerou Saga, aparentemente sem compreender a questão. Saori cuidou de “traduzir”:

˗ Além da Santa Ceia, houve outros rituais em que pessoas abusaram sexualmente de você? Que possuíram você?

˗ Bem... não era o... foco do Cerimonial da Sagrada Semente, mas houve vezes em que...

˗ “Cerimonial da Sagrada Semente” ˗ Repetiu Dohko, arqueando as espessas sobrancelhas e olhando para os parceiros. ˗ eu espero que isso NÃO seja o que estou imaginando.

˗ Possivelmente é ˗ Saori murmurou, quase amarga. ˗ Poderia nos contar como era esse “Cerimonial da Sagrada Semente”, Camus? Como era realizado? A que se destinava?

˗ Ele era menos frequente que o Cerimonial das Relíquias, e...

˗ Mais esse ˗ Bufou Saga sem disfarçar a indignação. ˗ Conte-nos sobre TODOS.

E ele contou. As lembranças não tão distantes de uma época em que fora o instrumento central da seita criada por Armand De La Faure, jorravam de modo assombrosamente fluido e desapaixonado, para indisfarçável estranheza dos que o escutavam.

Uma hora depois...

˗ Kanon, pode parar a filmagem, por favor.

˗ OK, Saga.

Saindo de trás da câmera filmadora, Kanon soltou um assobio, braços cruzados e olhar admirado.

˗ Caras... eu realmente não acho que Milo deve assistir a esse depoimento. De verdade.

˗ Como se você pudesse evitar isso ˗ Volveu o irmão. ˗ Quando você sair por aquela porta, ele vai colar em você e exigir assistir.

Dohko ajuntou:

˗ E ele não vai desistir enquanto não conseguir que você mostre a ele ou que lhe envie o vídeo. Sujeito mais teimoso e insistente que aquele não tem não.

˗ E mesmo que você pudesse negar isso a ele ˗ A psicóloga pontuou ˗ ele assistiria de qualquer modo, durante o julgamento, pois que vamos exibir lá, junto com os outros que já foram gravados.

˗ Ele vai ficar enlouquecido de ódio... ˗ Comentou o cinegrafista ao assentir.

Saga olhou para Camus, imóvel na cadeira, mãos unidas com força. Antes mesmo que pudesse lhe dirigir qualquer palavra de apoio ou que ao menos manifestasse alguma cumplicidade, o ex-messias interpelou-o:

˗ Posso fazer uma pergunta ao senhor?

˗ Camus, não precisa usar esse “senhor”... me chame apenas de Saga, OK?

O ruivo meneou a cabeça afirmativamente e prosseguiu:

˗ Afinal, meu pai se equivocou quanto ao recebimento da mensagem Do Anjo Gabriel... ou ele enganou a todos... DELIBERADAMENTE?

˗ Camus...

˗ Profetas podem ser visitados por falsos anjos, que pretendam desvirtuar os planos de Deus! ˗ De repente, o jovem demonstrou energia em sua voz. Pareceu mesmo afoito. ˗ Ou talvez a luz da razão o tivesse abandonado momentaneamente e ele... IMAGINOU que... que...

Abaixou a cabeça e agarrou os cabelos com as mãos, cotovelos sobre os joelhos.

˗ ... meu pai... meu pai não teria feito TUDO o que FEZ COMIGO... se não... se não tivesse...

˗ Camus... ˗ Saori postou-se junto a ele, tocando-lhe o ombro com suavidade. ˗ ainda tem dúvidas. É normal. É compreensível que...

˗ EU NÃO PODIA DUVIDAR! ˗ Interrompeu-a com o inesperado brado. ˗ E... e eu NÃO SEI duvidar!! Eu... por favor... por favor, me digam no que DEVO ACREDITAR!

˗ Isso não é possível, Camus, você deve acreditar no que considera que DEVE acreditar ˗ Dohko respondeu com uma firmeza igualmente abrupta.

Percebendo que o jovem se encontrava à beira de uma crise nervosa, Saga acercou-se dele e, em tom incrivelmente manso, disse-lhe:

˗ O que posso lhe dizer é o que ANOS de investigação, de denúncias, de testemunhos PROVARAM: Hades FORJOU tudo, desde o início. Ele INVENTOU a aparição do Anjo Gabriel, sua mensagem, a tal missão destinada a um novo messias, um de seus filhos, TUDO para erguer um império centrado na Igreja Aurora do Novo Porvir. Para permanecer no centro desse império, pôs VOCÊ, seu próprio filho, como o Redentor que atrairia milhares para ELE. Que entregariam a ele suas vidas e tudo o que possuíam. Milhares de aliados. De seguidores. E maníacos. MILHÕES de dólares. E... oh... oh meu Deus...

Para estupefação de todos, dos olhos de Camus lágrimas rubras vertiam. Lentas, silenciosas, diminutos rios de sangue deslizavam-lhe pelas faces subitamente descoradas.

˗ PUTA QUE PARIU! E-eu preciso filmar isso!

Saori conteve o ímpeto de Kanon segurando-lhe o braço.

˗ NÃO.

˗ Mas, Sao, OLHA ˗ Apontou, atônito, para o ex-redentor. ˗ é a prova de que...

˗ Já temos provas disso. Por favor. Não.

Um tanto contrafeito, Kanon concordou. Ela voltou-se para o rapaz em pranto sentido.

˗ Lembre-se: ele CONTROLOU sua existência. Submeteu-o a sofrimentos indizíveis em prol da própria ganância. Extorquiu, explorou, feriu e MATOU tantas outras... VOCÊ mesmo presenciou. Apenas afundou tudo em sua mente... até HOJE. Isso sem falar em sua mãe, Camus. Camus, Hades matou a sua mãe porque ela quis te salvar!

Ele nada respondeu. Continuou chorando, chorando como nunca havia chorado em sua vida, a consciência nua e crua de TUDO que houve possuindo-o como uma febre perniciosa. Saga aproximou-se e tencionou ampará-lo, movido por uma compaixão que jamais sentira antes; afagou-lhe a cabeça como a uma criança. E, como uma criança, Camus atirou-se ao peito do promotor, entregue a um choro incontrolável, convulso. Saga abraçou-o, cuidadosa e ternamente.

˗ Chore. ˗ Sussurrou-lhe o promotor, com lágrimas nos olhos que a custo tentava esconder. ˗ seu choro é a prova de que você, enfim, aceitou a verdade, Camus.

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Notas finais
Como disse Saga, enfim Camus reconheceu, de vez, que tudo que viveu foi arquitetado por seu pai, unicamente em prol de benefício e enriquecimento próprios. E o julgamento de Hades se aproxima... pelo visto, um novo Camus estará cara a cara com Hades em breve. Obrigada por prestigiarem. Até o próximo capítulo!