Redentor

38 Getsêmani - Ato III : Reforços para a Guerra


Notas iniciais
Olá, pessoas! Peço desculpas pela demora ABSURDA da atualização (mais de 6 meses!), este ano não está lá muito gentil comigo, mas, a vida é assim! Peço a compreensão de vocês por não ter respondido os comentários do último capítulo, prometo responder os futuros com mais presteza. Agradeço-os do fundo do coração. E obrigada àqueles que não desistiram da fic :') Boa leitura!

˗ Ah, pai, por que eu tenho que ir embora, hein?

˗ Porque hoje à tarde você tem escola, Hyoga. E durante a semana toda, por isso, precisa voltar pra casa da sua mãe. ˗ Argumentou Milo, durante o café da manhã naquela segunda cinzenta.

˗ O tio Aldebaran chega amanhã, né? Eu queria ver ele, poxa ˗ O garotinho franziu a testa ao fazer uma careta de desagrado.

˗ Você vai ver o Debas, fica frio, ô resmungãozinho. Ele vai passar o mês aqui em casa.

Camus quase cair deixou a torrada das mãos. Um mês! Imaginou-se todo aquele tempo sozinho no quarto de hóspedes. Fez o possível para disfarçar o desânimo que subitamente o assaltou. Queria reencontrar o leal Aldebaran também, claro, mas não o animava ficar tanto tempo sem poder aninhar-se junto ao amado em seu leito...

˗ Tomara que minha mãe me deixe vir pra cá semana que vem! Ela vai chiar, aposto...

˗ Não se preocupe, eu já falei com ela. No sábado, vou fazer uma recepção aqui em casa, pro Debas e pra outros dois amigos que vão chegar pro julgamento. ˗ O policial assegurou sorridente.

˗ E ela deixou? Você é demais, pai! Mas quem são os outros dois amigos?

˗ Eles se chamam June e Albior. June é cunhada de Camus. Ah, ela tem um filhinho da tua idade, o Jacó. Albior é o marido de June.

˗ Ué, eu achei que todos os irmãos do Camus tivessem morrido. Não sabia desse Albior.

˗ E morreram. Albior não é irmão do Camus, ele era um dos auxiliares do pai do Camus.

O loirinho prontamente fez uma cara zangada.

˗ Então ele era mau com o Camus! Por que esse cara é teu amigo?

˗ Não, não, ele era uma das poucas pessoas que se importavam com o Camus de verdade na comunidade. E ele nos ajudou muito lá naquele... ˗ Milo quase falou “inferno”. Conteve-se por causa da criança à sua frente. ˗ ...lugar.

Camus tornou-se pesaroso. Pensar em Albior sempre lhe deixava com um amargo sentimento de culpa.

˗ Por ter permitido que seu pai ficasse mais próximo de mim, meu pai o castigou com severidade. Mandou que o machucassem por minha causa...

˗ Não foi por “sua” causa coisa nenhuma! Foi por causa da perversidade de Hades! ˗ Rebateu Milo, que sequer suportava dizer “seu pai”.

Assentindo sem qualquer convicção, o ruivo prosseguiu a explicação ao menino:

˗ June, que hoje é parceira de Albior, era casada com meu irmão mais novo. Ele a maltratava muito.

˗ Então não foi só você que teve sorte com a morte dos seus irmãos malvados, né?

˗ Hyoga! Não quero que fale assim! ˗ Ralhou Milo.

˗ Ué, por quê? Falei alguma mentira?

˗ Não. Mas não é bom que um menino da sua idade se expresse dessa maneira.

˗ Tá bom, tá bom ˗ O loirinho revirou os olhos azuis. ˗ E o Albior e a June vão ficar aqui na tua casa também?

˗ Não, como já vou hospedar o Debas, Saga se ofereceu para recebê-los. Além do mais, lá é melhor por causa da condição do Albior. Ele tá... ele agora usa cadeira de rodas.

˗ Cadeira de rodas? Foi o pai do Camus que deixou ele aleijado?

˗ A palavra é “paraplégico”, filho, não se diz aleijado, é feio.

˗ Mas é mais fácil.

˗ Não importa, risca essa palavra do teu vocabulário ˗ O policial insistiu, sério.

Sentido, Camus voltou a se dirigir ao garotinho:

˗ Sim, meu pai... na verdade, meus irmãos, sob ordens dele, deixaram-no sem poder andar... e também sem um dos olhos.

˗ Caralhoooo...

˗ HYOGA!

˗ Foi mal, pai, mas, porra...

˗ HYOGA!

˗ Tá, tá! Não xingo mais! ˗ E, para Camus: ˗ E pensar que cê vai ter que ficar cara a cara com esse... esse... desgraçado que é o teu pai.

˗ HYOGA!!!

˗ Que é?!? Eu não xinguei!

˗ Certo, mas o que que eu falei dessa maneira de falar?!?

˗ Mas pai... é revoltante ˗ O menino encolheu-se na cadeira. ˗ O pai do Camus tinha era que MORRER, igual aos filhos malvados.

Milo mordeu o lábio inferior. Era um desejo do qual sinceramente partilhava.

˗ Como teus irmãos morreram, Camus? Foi durante a operação policial, não foi? ˗ Hyoga indagou.

˗ Foi sim. Algol, o mais novo, foi morto por Radamanthys, nosso irmão mais velho.

˗ Quê? Pelo próprio irmão...?

˗ Sim.

Hyoga olhou de esguelha para o pai, a fim de segurar o palavrão que quase lhe escapulira.

˗ E esse Radamanthys, foi um policial que acertou ele, né?

Desconfortável, Milo desviou o olhar. Incrível que o filho ainda não soubesse quem havia sido o autor dos disparos que vitimaram o primogênito de Hades, vendo tantas reportagens sobre o caso. Possivelmente isso mudaria após o julgamento.

˗ Foi sim ˗ Confirmou o ex-messias, sem entrar em detalhes. A expressão carregada do amante orientara-o em sua decisão.

˗ Pois esse policial merecia uma medalha, isso sim! Espero que tenham dado pra ele.

˗ Hyoga, ele fez o que fez pelo dever, não por uma medalha.

˗ Caralh... nossa, pai, cê tá chato hoje, hein.

˗ Bom, chega de papo, já terminou o café, né? Se tá tão tagarela, é porque terminou. Então vai escovar os dentes e se arrumar, sua mãe deve estar chegando logo logo.

O “timing” foi perfeito, pois menos de meia hora depois, o interfone tocou. Após respirar fundo, Milo desceu com o filho. Por alguma graça divina, o processo foi rápido e ausente de acusações ou observações mordazes por parte da russa. Talvez ela enfim tivesse decidido não mais fazê-lo na frente do filho, pensou Milo, com esperança. O agente voltou para o apartamento e deu com Camus ajeitando a copa.

˗ Larga isso já!

O ruivo chegou a se sobressaltar ante aquela ordem quase ríspida. E foi enlaçado de surpresa pelo policial, que buscou-lhe a boca de forma brusca e ávida. Passado o estupor, correspondeu ao beijo com igual paixão. Também ele estava saudoso... quando finalmente se separaram, o que só ocorreu quando o fôlego começara a abandoná-los, Milo sussurrou, rouco de um desejo feroz:

˗ Eu quero você. Eu preciso de você, AGORA.

Ao assentir, ansioso, Camus fez menção de rumar para o corredor. Não esperava ser puxado pelo braço pelo companheiro, que o pôs sobre a mesa num movimento inesperado. Alguns utensílios foram derrubados e outros caíram ao piso. O ruivo exclamou surpreso:

˗ Milo! Está derrubando tudo! O que...

Calou-se abruptamente ao ter a calça de moletom puxada para baixo. Apoiou os cotovelos sobre a mesa, sem entender por que Milo decidira que ali era lugar para praticar tal ato... antes que decidisse perguntar, teve o membro negligenciado há dias abocanhado com volúpia ansiosa. Suspirou com langor, até o momento de contorcer-se em torno da boca faminta de Milo. Gemia o nome do amado quando sentiu-lhe os dedos o prepararem para a profunda e lenta penetração. Camus agarrava o loiro como se daquilo dependesse sua vida. Por sua vez, a Milo foi necessária uma gigantesca força de vontade para não gozar antes do tempo desejado, tamanha a saudade daquele recôndito quente, apertado e docemente receptivo. Beijava o ruivo por todos os lugares que se faziam possíveis naquela posição, naquela ânsia. Camus chegou ao orgasmo antes dele, o que contribuiu para que o controle de Milo explodisse como o gozo no interior pulsante do amado. Gemeram alto o nome um do outro, ao mesmo tempo que duas cadeiras foram ao chão com grande ruído.

Milo tomou Camus nos braços e carregou-o até a cama por fazer. O ex-Redentor não saberia dizer se o parceiro estivera com preguiça naquela manhã ou se simplesmente já planejara aquele momento. Ofegante, permitiu-se tão somente abandonar-se na suavidade do corpo que o acolhia.

˗ Eu te amo ˗ Murmurou Milo, fitando-o com profunda paixão.

˗ Eu também te amo.

Após minutos de confortante silêncio entre os dois, Camus sentiu que deveria abordar uma certa questão:

˗ Milo.

˗ Hum? ˗ Fez o agente, que estivera prestes a pegar no sono.

˗ Já que Aldebaran ficará em sua casa por um mês, suponho que eu não possa dormir aqui contigo por esse período em que ele permanecer hosped...

˗ Em primeiro lugar ˗ Interrompeu Milo, em meio a um bocejo. ˗ não é “minha casa”, é “nossa casa”. Ela é sua também, sabe disso.

Aspirando-lhe o inebriante aroma de seu peito vasto, Camus suspirou antes de retomar o raciocínio:

˗ Certo, vou reformular minha pergunta...

˗ Não precisa. Camus, é uma situação completamente diferente da que vivemos esse final de semana. Debas é adulto, e... bem, ele já sabe que estamos “juntos”.

˗ Oh ˗ Murmurou o ruivo, incerto sobre o que dizer.

˗ Ele está feliz por nós. Na verdade ˗ O policial deu uma risadinha. ˗ o safado disse que desconfiava dos nossos sentimentos, desde que eu estava lá na cabana dele, no /vale.

˗ Mas... então...

˗ De mais a mais, ele ficará no quarto de hóspedes. A faxineira virá daqui a pouco, não só pela chegada do Debas, como também por causa do furacãozinho que é o meu filho.

˗ Você é mais bagunceiro que o Hyoga, Milo.

˗ Ah, já tá defendendo o amiguinho, hã? ˗ E pôs-se a fazer cócegas no jovem, em represália.

O ex-messias ria, ao tentar escapar das investidas do loiro. Rolaram pelo colchão, em um prenúncio do novo intercurso...

˗ É claro que teremos de ser discretos, você não vai poder ficar fazendo esses barulhos...

˗ É você quem está provocando meus barulhos... ˗ Retrucou Camus manhoso, empurrando o companheiro de brincadeira. Foi imobilizado sob o corpo musculoso e bronzeado do agente. As cócegas não demoraram a se converter em carícia, beijos rápidos flutuantes por sobre a pele avermelhada pelo esforço e pelo domingo na piscina.

˗ Milo... n-não... ahhn... Mi...

Desprovidos de qualquer convicção, aqueles lânguidos apelos desembocaram em gemidos baixinhos, que cuidaram de despertar de vez o pênis de Milo.

˗ Você me deixa louco, Camus... louco...

˗ Milo... ooh... a-assim...

Ocupados como estavam, sequer ouviram a chegada de Consuelo ao apartamento: a profissional de limpeza possuía cópias das chaves da casa de Milo. Entrou pela cozinha e parou, estarrecida, ao se deparar com a bagunça na copa: caixa de cereal, de leite, talheres e cesto de torradas pelo chão, bem como duas cadeiras, dentre outras coisas.

˗ Dios! Passou um furacão por aqui, será? ˗ Disse para si mesma. Apurou os ouvidos e pôde distinguir certos sons, que explicaram o cenário diante de seus olhos surpresos. Sorriu enquanto balançava a cabeça.

“Ficar bem quietinha para não atrapalhar o senhor Hatzis”, aproveitou para servir-se de café com bolo, e também checar as redes sociais, até poder começar o trabalho.

*************

No dia seguinte, Milo foi ao aeroporto buscar Aldebaran. Devido ao ocorrido no estacionamento do aquário, preferiu deixar Camus em casa. Não iria se demorar, de qualquer maneira. Ao ver o brasileiro, cuja figura elevava-se muito acima dos demais passageiros que desembarcaram, sorriu empolgado. Caminhou até o grandalhão, braços já abertos para o abraço esmaga-ossos.

˗ Debas!

˗ Mika!

˗ Ê, sai pra lá com esse apelido vencido!

˗ Hahahahaha, pô, cara, não precisava vir me buscar, eu podia chamar um táxi pra tua casa!

˗ Fala sério, que amigo eu seria deixando de vir te buscar? Economiza o táxi pra me pagar uma bebida!

˗ E quem disse que eu bebo?

˗ Por isso que eu disse “ME pagar uma bebida”, não “pagar uma bebida pra você”!

Não havia como os dois passarem despercebidos: Aldebaran, pelo tamanho descomunal, e Milo... bom, Milo levaria um bom tempo para voltar a ser um simples anônimo...

˗ Olha, é o policial do caso do Redentor ˗ alguns cochichavam entre si e apontavam o homem, trajado com jeans e camiseta vermelha sob uma jaqueta marrom de couro cru.

˗ É ele mesmo.

˗ Será que o Redentor tá por aqui?

˗ Não tô vendo... mas quem é o grandão?

Percebendo que chamavam a atenção, Milo sugeriu:

˗ Vamos apertar o passo, Debas...

˗ É, eu já me liguei... ˗ O brasileiro dispensou o carrinho e pôs-se a carregar sua mala. Milo ofereceu-se para levar a bolsa de viagem, que servira ao amigo de bagagem de mão.

˗ Policial Hatzis, podemos tirar uma foto com o senhor?

˗ Por favor, policial Hatzis, tira uma foto com a gente!

˗ Policial Hatzis, sou sua fã! O senhor é lindo!

A maioria das pessoas não se dava sequer ao trabalho de esperar pela concordância do loiro, tão somente sacavam seus celulares e fotografavam agente, alguns por meio de “selfies”.

˗ Foi mal, meu empresário não permite ˗ A brincadeira disfarçava mal a irritação. Ele abaixou a cabeça e apertou o passo. Seguindo-o, Aldebaran perguntou:

˗ Mas o que tá acontecendo, Mika? Quer que eu dê um chega-pra-lá nessa gente?

˗ Eu ADORARIA, mas não rola, grandão ˗ Respondeu em voz baixa. Teve de desviar de umas garotas que tiravam fotos dele, sem qualquer cerimônia, paradas bem em seu caminho. Acenou para alguns seguranças do aeroporto, que prontamente acorreram em seu auxílio. Pôde, enfim, graças a um cerco detrás de si, acessar o elevador para o estacionamento.

˗ Tu ficou famoso, hein? Era de se esperar, se até no Brasil não se fala em outra coisa, imagina aqui!

˗ É. Minha esperança é que depois do julgamento de Hades as coisas acalmem um pouco... mesmo que leve umas semanas...

˗ Pelo visto, não está sendo fácil.

˗ Hah, tá bem pior que isso, gigante. BEM pior.

˗ Por isso o Reden... o Camus não veio contigo, né?

˗ Isso aí. Te conto tudo, assim que estivermos em PAZ.

No trajeto do aeroporto para a casa do amigo, Aldebaran admirava-se com a vista. Não sabia que o policial vivia em um balneário, imaginava-o em uma cidade à la Chicago dos filmes de máfia.

˗ Bonita cidade! Bom, finalmente vou conhecer os Estados Unidos de maneira adequada, não enfurnado em uma comunidade fanática maluca no meio do mato...

˗ Lamento que só possa começar a aproveitar a viagem de fato daqui a uns 8 dias, depois do julgamento do maldito do Hades.

˗ Que nada, já tô aproveitando, acredite. Puxa, não vejo a hora de ver o Mes... o Camus. Como ele tá?

˗ Agora... bem. Passou por uns maus bocados, mas...

˗ Não pode ter sido pior do que o coitado viveu no Vale. ˗ O brasileiro acabou por interromper, pesaroso.

Mais sério, Milo assentiu.

˗ Não. Não foi pior, óbvio. Mas, ainda assim, como você disse, “não está sendo fácil”.

˗ Eu faço ideia... não, na verdade, NÃO faço. Não posso nem imaginar como está a cabeça dele. Se a MINHA já ficou uma bagunça total...

Milo pôs uma das mãos no ombro do amigo.

˗ Quando quiser conversar sobre isso, estarei aqui pra te ouvir, certo? Ninguém que passou por aquele inferno sairia ileso de lá, e você não seria diferente, ainda mais com... com o que houve com sua mulher e filha.

Sorrindo fracamente, Aldebaran anuiu. O agente voltou a segurar o volante com ambas mãos ao prosseguir:

˗ Camus tem conversado com uma psicóloga todas as semanas. Saori, o nome dela. É da Federal também. Foi quem me instruiu como agir quando ficou decidido que eu me infiltraria no Vale da Aurora Dourada.

˗ E o que ela acha? Ele... hã... ele tem chance de, algum dia, ter uma vida NORMAL? Ou... ser uma...?

Deixando evidente certo desalento, Milo suspirou antes de responder:

˗ É muito cedo para saber. Ela me garante que ele está se abrindo cada vez mais durante as sessões, mas... foi um negócio muito pesado, o que Camus viveu. Muito pesado.

˗ É, foi mesmo.

˗ Mas ˗ Imprimiu ânimo à voz. ˗ eu sei que vai dar tudo certo. Ele já tá se adaptando a “este mundo”... hehehe, falei igual a ele, agora. Temos saído, passeado, feito coisas...

˗ E, Milo... como está sendo se relacionar com ele? Digo... Camus só conheceu essas... coisas... de formas... RUINS.

˗ Então... você acompanhou mesmo as reportagens.

˗ Ora, claro que sim! Não sabia que o pai dele... que Hades o submetia a tais... BARBARIDADES. Em verdade, a esmagadora maioria dos colonos não sabia! Claro, me refiro ao que não presenciávamos, as de cunho sexual.

As mãos de Milo apertaram fortemente o volante. Um gosto amargo invadiu-lhe a boca, subitamente seca.

˗ E há outras, Debas... que sequer apareceram nas matérias. Mas que virão à tona no julgamento.

˗ Outras? ˗ A expressão de Aldebaran era de puro horror.

˗ Esta semana Camus vai depor pela última vez antes do julgamento. A menos que ele segure para si, o que ele ainda tem pra revelar vai render novas reportagens e especiais jornalísticos “campeões de audiência” ˗ As últimas palavras saíram em tom de dorido sarcasmo.

Aldebaran olhou-o consternado.

˗ Queria muito que ele não tivesse que passar por isso. E nem você, Mika. Imagino que sofra ouvindo tais coisas.

˗ Infelizmente não tem outro jeito. Até para termos mais armas contra o filho da puta do Hades... esses horrores precisam ser conhecidos.

˗ Tomara que passe rápido. E que ele aguente firme...

˗ É. É o que eu espero.

˗ ... e que VOCÊ também aguente firme.

Milo sorriu ao constatar como, apesar do pouco tempo que se conheciam, Aldebaran já parecia amigo de longa data, tão conhecedor dele, leal e empático.

˗ Camus tem você como um porto seguro, Mika. E você não recua diante de uma briga, eu sei bem disso, ô se sei!

Desta vez o policial deixou escapar um riso genuíno ao se lembrar da luta entre ambos na cabana.

˗ Nem você, Debas. Com a sua ajuda, e a de Albior e June, que chegam na sexta, bem como a de tantos amigos... nós vamos vencer. Por tantas pessoas enganadas, feridas... e mortas...

˗ E mortas ˗ Murmurou o brasileiro, melancólico. ˗ Como Ayana e Tabita.

Lançando-lhe um olhar compassivo, o agente concluiu:

˗ Por ELAS. Por todos eles. E por NÓS, Debas. Por NÓS.

Aldebaran chegou a cerrar os dentes ao pontuar:

˗ Hades não vai escapar, Mika. NÃO VAI!

*************

15:27 da tarde. Com o controle da TV na mão, Camus perguntava-se se deveria ou não ligar o aparelho. Sabia que se “zapeasse” pelos canais, fatalmente veria imagens que Milo preferia que não fossem vistas pelo ex-Redentor. Entretanto, os próximos dias haveriam de exigir muito mais de si do que aquilo...

Ligou a TV.

Em menos de 15 segundos, lá estava seu rosto na tela. Abraçado por Milo, era conduzido apressadamente por entre dezenas de curiosos, Hyoga junto deles e mostrando o dedo do meio – o que deveria dizer aquele símbolo, afinal? – para os inconvenientes que os cercavam.

“... o rapaz conhecido como ‘o Redentor’ da seita abusiva Aurora do Novo Porvir, foi retirado do lugar pelo agente federal Milo Hatzis, responsável por...”

Mudou o canal.

“... não é o primeiro caso no gênero do mundo, e nem em nosso país, porém o que chamou a atenção desta vez foi o fato de o próprio pai de Camus De La Faure ter sido responsável pelos...”

Mudou novamente.

“... a Bíblia alerta para o surgimento de falsos profetas, notadamente no fim dos tempos”, falava uma loira tão maquiada que seria impossível precisar-lhe a idade, “e não é o que o ‘Redentor’ é, na verdade? DIZEM que ele foi obrigado a agir como ‘messias’, mas, meus irmãos, lembrem-se de que o diabo é o pai da men...”

Mudou mais uma vez.

“Durante o julgamento de Armand Chermont De La Faure, conhecido como Hades, que terá início na terça, dia 2 de novembro, em New Hamphshire...”, a imagem do pai olhando fixamente para a câmera do repórter, causou calafrios em Camus. Apressou-se em mudar de canal.

“... a banda de doom metal norueguês Bloody Redeemer está causando polêmica e, com isso aumentando sua popularidade, devido ao fato de o vocalista Kasper Haakonsoon imitar Camus De La Faure, o Redentor, em vídeos e performances.” Camus arregalou os olhos ante a imagem de um homem de cabelos compridos lisos e vermelhos vestido com uma longa túnica branca ostentando lágrimas de sangue cuidadosamente pintadas em seu rosto pálido e trocista. “Ao que parece, o Redentor se converte pouco a pouco em uma espécie de ícone da cultura pop de nossa...”

Enjoado a ponto de torcer o nariz, o jovem trocou de canal.

“... muito provavelmente, Camus De La Faure jamais conseguirá viver o que podemos considerar uma vida normal”, afirmava um psicólogo entrevistado em um programa de auditório vespertino, “ele nem mesmo tem referência de como é ser um cidadão americano comum e, após ter vivido nessa ‘bolha da fantasia fanática’ para ele construída, por toda sua existência, é pouco provável que...”

Desligou a TV, entre irritado e enojado. Não chegava a ter vontade de vomitar, porém algo revolvia-se em seu estômago. Viu que desligara o aparelho em boa hora, pois ouviu o barulho de chave destrancando a porta da sala. Esticou-se com presteza para alcançar o livro que largara sobre o sofá; deitou-se em uma postura displicente para fingir que lia relaxado.

˗ Olá, Camus, chegamos! ˗ Milo fez-se anunciar.

˗ Ah, oi, Milo ˗ Camus virou-se para o corredor de onde o parceiro vinha, seguido pelo visitante. Pôs-se de pé para saudá-lo, seu coração acelerando de forma incompreensível. ˗ Seja bem-vindo, Aldebaran.

Os olhos do brasileiro quase dobraram de tamanho. Aquele jovem corado de sol, vestido de moletom e camiseta de malha, pantufas listradas de cetim nos pés... era o “Messias”?

˗ Muito obrigado, Mes... Camus! Nossa ˗ Esticou a mão para cumprimenta-lo. ˗ Nossa, olha só pra você... está... está BEM. ˗ Pensou em dizer “ótimo”, mas ficou em dúvida se seria adequado. Uma estranha emoção se apossava de Aldebaran. Prestara culto àquele rapaz por tanto tempo, era estranho...!

˗ Você também está... bem. Aldebaran... devo chama-lo pelo seu nome original, não? Antônio...?

A palma enorme do homem balançou em uma vigorosa negativa.

˗ Não, não, eu já estou acostumado. Era por esse nome que meus maiores tesouros me conheciam, .... e ... ˗ Explicou, e, tentando dar leveza à justificativa, acrescentou: ˗ Você pode me chamar de Debas, que é como o Mika aqui me chama.

˗ Argh, cara, para de me chamar de “Mika”, tem o mesmíssimo número de sílabas que meu nome, MI-LO!

˗ Hahahahaha, mas se te irrita, é bem mais divertido!

˗ Quando eu achar a graça, prometo que rio, tá? ˗ Alfinetou o policial, com uma careta. E, desfazendo-a: ˗ Bom, vamos colocar suas coisas no quarto de hóspedes, vou te mostrar a casa.

˗ Bela casa, aliás.

Ao se ver sozinho na sala, Camus suspirou profundamente.

Estava começando.

Aldebaran chegara.

Em três dias, Albior e June chegariam também.

No dia seguinte, prestaria seu último depoimento antes do julgamento. Neste dia, faria os últimos exames médicos antes da data amplamente anunciada em rede nacional.

8 de novembro de 2018.

Um leve tremor tomou-lhe as mãos. Reviu o semblante altivo... não, mais que altivo, prepotente do pai, que a TV transmitira havia pouco.

Quem mais estaria lá?

Alguns dos Vigias e Arautos perderam a vida, ora na queda da igreja, vitimados pela ação policial, ora no cárcere, mediante autoextermínio, como soubera... havia, contudo, sobreviventes.

Ainda fiéis ao Grande Pai, decerto. E também pessoas contra ele, unindo-se para o golpe de misericórdia no líder que já se encontrava destituído de sua igreja, da glória e da honra como Grande Pai. E ELE estaria entre os que brandiam armas para aquela derrocada.

Diziam que seu pai o havia enganado. Que o havia usado, todos aqueles anos, em prol de enriquecimento próprio. Por dinheiro, influência, prestígio;

“Mas, se eu fui ENGANADO... não poderia estar meu pai, por sua vez, ENGANADO também?”

A visita de Gabriel, tantos anos atrás...

E se Hades REALMENTE tivesse tido uma visão?

Também ele, Camus, não as tivera?

O anjo com a aparência de Milo, antes mesmo que os dois se conhecessem... os irmãos que vinham fazer-lhe visitas inconvenientes no quarto de hóspedes.

E se o seu pai...

“Não, ele forjou tudo. É o que Milo disse. Saga, Saori, Aiolia, June... todos. Eles não poderiam estar errados. O que é que estou pensando?”

Deixou-se cair pesadamente sobre o sofá.

Se não fosse por Milo, por ter concretizado seu amor por Milo, um amor que nasceu desde o primeiro instante em que nele pusera seus olhos, agora tinha disso plena consciência, ele quase desejaria que nada daquilo nunca tivesse acontecido.

Que nada nunca tivesse mudado.

Sentir-se mal por se permitir pensamento tão mesquinho foi-lhe imediato. Não se tratava só dele! Quantas e quantas pessoas não foram traídas, enganadas, traídas, machucadas por seu pai? Por seus irmãos? Pelos asseclas do Grande Pai?

˗ ... que acha, Camus?

Deu-se conta de que Milo estava ali, à sua frente, indagando-lhe algo.

˗ O que eu acho? ˗ Tentou disfarçar.

˗ Tava viajando, né?

˗ Viajando?...

O loiro riu com vontade.

˗ Maneira de falar. Cê não tava escutando nada do que eu tava dizendo.

˗ Desculpa. ˗ Era difícil enganar Milo.

Este parou de rir.

˗ Que houve?

˗ Nada ˗ Murmurou uma mentira que saberia inútil. ˗ Me diz o que você estava... dizendo.

Desconfiado, Milo cruzou os braços, olhar analítico fixo no ruivo que, previsível!, abaixou os olhos. Não obstante, respondeu:

˗ Eu tava pedindo a sua opinião sobre o que faço pro jantar, hambúrguer ou pizza?

˗ Talvez fosse melhor perguntar ao Alde... ao Debas. Sondar a preferência dele. Os convidados têm a primazia.

˗ É, cê tem razão. Ele tá tomando banho agora, daqui a pouco pergunto. ˗ Puxou o ruivo para si, beijando-o de leve. ˗ E agora, vai me contar por que tava longe?

Camus franziu as sobrancelhas bifurcadas.

˗ Mas como eu estava longe?, eu não saí daqui!...

˗ Eu quis dizer com o PENSAMENTO longe ˗ Milo explicou, acariciando-o pela nuca. ˗ distraído, com a cabeça no mundo da... aff, sabe, talvez você devesse mesmo assistir mais à TV, afinal, pra aprender as expressões do... ˗ De repente, o loiro caiu em si. ˗ A TV. É isso. Você tava assistindo à TV. Por isso tava todo esquisito.

˗ Não vi por muito tempo, não chegou a mais que alguns minutos.

˗ Será que posso acreditar em você? ˗ Milo arqueou uma sobrancelha.

Deixando transparecer certo enfado, o ex-Redentor alegou:

˗ Não é como antigamente, que eu não podia mentir. Mas eu garanto que liguei e desliguei a TV sem demora.

˗ OK, meu amor, eu acredito ˗ Passou os dedos carinhosamente pelo contorno do rosto visivelmente tenso. ˗ Não foi minha intenção duvidar de você. É que... me preocupa que tenha sido por algo que tenha visto na TV que você tá assim...

˗ “Assim”, como?

˗ ASSIM ˗ Frisou. ˗ Ressabiado. Distante, evasivo.

˗ Vou acabar vendo, de uma forma ou de outra ˗ O tom do ruivo fez-se firme. ˗ Ouvindo. Experimentando. Você quer tanto que eu viva “neste mundo”, que me acostume a “este mundo”. Será inevitável que eu saiba das coisas, se eu fizer o que VOCÊ quer.

Um tanto desconcertado pela assertividade do amante, Milo demorou um pouco antes de redarguir:

˗ Eu sei. E não quero te esconder nada. Só queria... só queria... ˗ Abraçou-o com ternura. Camus não correspondeu ao abraço, contudo... ˗ preservá-lo um pouco mais. Minha vontade é proteger você de tudo, de todos. Sei que nem sempre vou poder, mas...

˗ Do que está falando? Milo, você me SALVOU. Você me salva todos os dias ˗ Volveu o ex-messias, desvencilhando-se do abraço e segurando o rosto do policial entre suas mãos frias.

Um largo sorriso iluminou o semblante de Milo.

˗ Você também me salva todos os dias, Camus... ˗ Sussurrou comovido.

*************

No dia seguinte, Milo, Camus e Aldebaran foram à sede da Polícia Federal de Red Meadow. Milo esperava que houvesse repórteres nas imediações, mas não tantos. Ao menos, eram impedidos de se aproximarem em demasia das instalações, por isso, bastou entrar no estacionamento que o agente libertou um suspiro de alívio.

˗ Se aqui já tem esse povo todo da imprensa, imagina no dia do julgamento. ˗ Comentou Aldebaran.

˗ Vamos ter que respirar fundo e esperar tudo passar. ˗ Respondeu Milo, mais para Camus do que para Aldebaran. ˗ Logo logo explode outro escândalo para eles caírem em cima.

Daquela magnitude?

Nem ele acreditava em suas palavras.

O que não queria dizer que não deveriam ser enunciadas...

Adentraram o prédio, sendo recebidos por Aiolia.

˗ Até que enfim! Cês demoraram!

˗ Ei, Debas chegou ontem, a gente tinha que “bebemorar”, né?

˗ O único com cara de quem bebeu todas aqui é VOCÊ, Milo ˗ Virou-se para o homem de mais de 2 metros. ˗ Tô errado?

˗ De fato, se herdei algo dos tempos de religioso, foi a abstinência ˗ Riu Aldebaran.

˗ Não é de todo mau. Seja bem-vindo, Debas. Como foi a viagem?

˗ Excelente!

˗ Oi, Camus ˗ Aiolia dirigiu-se ao silencioso jovem. ˗ Como você está? Preparado?

O ruivo assentiu cordato.

˗ Olá, Aiolia. Estou bem. Preparado, sim.

˗ Certo. Vamos, então. Já estão esperando por nós. ˗ Disse, tomando a frente deles pelos corredores, iluminados de modo quase ofuscante. O elevador levou-os até o sexto andar, onde ficava a sala do promotor Saga. Lá estavam, à espera do ex-Messias e seus acompanhantes, além de Saga, Dohko, Aiolos, Saori e Kanon. Cuidaram de recepcionar Camus cordialmente, sem deixar de observá-lo com cautela. Assim que o viram instalado em uma poltrona junto ao sofá de couro verde-escuro, decidiram esclarecer as medidas do dia:

˗ Bem, Camus, hoje você deverá prestar o último depoimento antes do julgamento, que acontecerá daqui a uma semana. ˗ Anunciou Saga, didático.˗ Você já prestou depoimentos anteriormente. Imagino que esteja a par do processo, a esta altura.

˗ Sim.

˗ Algumas perguntas serão feitas novamente, peço paciência por termos que revisitar os mesmos assuntos.

˗ Não tem problema ˗ Murmurou o jovem, com uma inexpressividade quase perturbadora.

Cuidadosamente, Saori tomou a palavra:

˗ Camus, nós temos conversado sobre sua vida na comunidade religiosa, e grande parte do teor do vivenciado tem que ser revelado neste último depoimento. Há fatos que, por ética profissional, jamais revelei, mas que, agora, terão de vir à tona. Mantendo a postura impassível, o ex-Redentor concordou.

˗ Compreendo ˗ Ele disse, calmamente. ˗ Responderei integralmente ao que for questionado.

˗ Disso depende o sucesso da acusação. ˗ Reforçou a psicóloga, terna e firme ao mesmo tempo.

˗ Saori estará com você durante seu depoimento. Kanon vai gravar a entrevista, tudo bem?

˗ Tudo bem. ˗ Camus optou por encarar Saga para demonstrar sua firmeza.

“Eu não posso estar lá?”, Milo quase perguntou. Conteve-se, por fim. A hora demandava profissionalismo. O que poderia abandoná-lo ao ouvir Camus relatar, com detalhes, determinados acontecimentos.

˗ Aldebaran deverá depor em seguida. Já o fez, em Portland, e no Brasil, por telefone. Contamos com sua colaboração, mais uma vez. ˗ Conclamou Dohko.

˗ Podem contar comigo.

Saga retomou a palavra:

˗ Amanhã será a vez de novos exames médicos. Camus deverá, além dos usuais, submeter-se a um outro exame de DNA.

˗ Achei que o parentesco com Hades já tivesse sido comprovado ˗ Estranhou Milo.

O promotor pareceu hesitar, o que era extremamente raro. Revelou, de uma vez:

˗ Não apenas Camus, como também Aldebaran. Isso em função da descoberta recente de um cemitério clandestino nos limites ao norte da comunidade.

˗ O... o que isso quer dizer? ˗ O brasileiro balbuciou.

˗ Os membros da comunidade eram sepultados no cemitério oficial, próximo ao que chamavam de Tabernáculo. Neste, estavam os jazigos da esposa e da filha de Aldebaran. Porém, não foi encontrado o túmulo da mãe de Camus, nem de outros membros tidos como desaparecidos nos registros oficiais de nosso país. Por isso, foram feitas varreduras na região e...

˗ A mãe de Camus estava nesse cemitério clandestino? ˗ Quis logo saber Milo, impactado.

˗ Foram encontradas, até agora, 217 ossadas. ˗ Aiolos respondeu pelo marido.

Abismado, Milo abriu os braços ao interpelar, claramente indignado:

˗ Eu NÃO sabia disso! Por que não fui informado?!?

˗ Porque levará tempo para identificar essas pessoas e de nada adiantaria atormentar você e Camus com isso. ˗ Um impávido Saga respondeu. Voltou-se para o ex-Redentor. ˗ Até hoje, você também não foi muito claro quanto ao que aconteceu com a sua mãe, não?

Milo contraiu os punhos. Não insistira no assunto por recomendações de Saori, e agora iriam pressionar Camus daquele jeito?

˗ Tudo que me foi dito é que ela havia ido “morar com Deus”, para não mais tentar me TIRAR do Grande Pai. Da minha MISSÃO. ˗ Camus elucidou, com surpreendente tranquilidade.

Dohko falou, considerando a cada um dos presentes:

˗ Acreditamos que ela tenha sido EXECUTADA por Hades, como punição por ter tramado a fuga de Camus, quando ele estava com 14 anos.

˗ Mas Hades nunca admitiu isso, não? ˗ Kanon ousou indagar, curioso que estava.

˗ E aquele canalha admite alguma coisa?!? ˗ Rosnou Milo.

Camus retraiu-se no assento. Aquele, sem dúvida, era o assunto mais desconfortável para ele. Mais do que qualquer outra coisa por que tivesse passado. Mesmo a Saori não chegara a revelar de fato, por ser-lhe mais que custoso, quase inacessível.

Pensar naquilo conduzia-o a uma exaustão mental imediata. As luzes pareciam se apagar...

“Depressa, Camus!”

“Mas mãe, e a senhora?”

“Eu vou te atrasar, você é jovem e forte, vai escapar mais facilmente sem mim... olhe, estou mancando, não tenho como...”

“Mas não estamos pecando? O ritual que meu pai quer que eu realize não faz parte de minha missão?”

“Não, não, o que ele pretende é totalmente fora dos propósitos de Deus!”

“O que, exatamente, eu deveria fazer?”

“Não pare, continue!”

“Está bem...”

“O ritual que ele nomeou ‘Santa Ceia’ não passa de uma profanação demoníaca!”

“O Grande Pai... mãe, está dizendo que o Grande Pai está possuído por...”

“Não olhe para trás, Camus, apenas me ouça!”

“Mãe...”

“Camus, daqui em diante você vai sozinho. Não posso mais... não... posso... tome, nesta bolsa tem água e comida o suficiente para você chegar até alguma estrada ou fazenda. Procure andar por locais de mata cerrada, evite clareiras e principalmente os rios e lagos.”

“Vou me perder assim.”

“Não vai não, Deus há de te guiar.”

“Mas mãe... o que vai acontecer com a senhora?”

“O que quer que aconteça comigo, não será pior do que ver você afundar nas trevas que Hades invocou!”

“Nas... trevas?...”

“Agora vá! Não pare por NADA! Não olhe para trás! Vá, Camus... salve-se, em nome de Jesus!”

“Mas...”

“Você NÃO É ELE. NÃO é nenhum messias!”

As luzes pareciam se apagar...

˗ Camus, o que você tem? CAMUS! ˗ Desesperou-se Milo, ao vê-lo empalidecer e segurar a própria testa, como se fosse desfalecer.

˗ Vou pegar uma água pra ele!

˗ Valeu, Olos... Camus ˗ Milo o amparou, sentando-se no braço da poltrona. ˗ Estou aqui, meu amor.

Não houve resposta alguma, apenas um olhar perdido. Aquilo fez o coração de Milo doer. Com voz suave, ele disse:

˗ Por isso nunca te pressionei sobre esse assunto. Mas... infelizmente... você VAI TER que revelar o que houve há dez anos. Dentre outras coisas... seus irmãos... os Cerimoniais...

Há muito Camus não evocara aquece momento. Sepultara-o em sua mente. Não apenas para escapar da dor. E sim, principalmente, para não questionar.

Para não duvidar.

Para não dar as costas para sua “missão”.

Para não dar as costas ao Cristo crucificado que nas alturas esperasse que ELE lhe preparasse o caminho.

Uma ovelha imolada no altar do sacrifício...

O altar principiara a desmoronar...

O céu principiara a toldar...

˗ Camus...

˗ Não se preocupe, Milo. ˗ Erguia a cabeça, resoluto. ˗ Eu vou falar tudo. ˗ Aceitou o copo trazido por Aiolos e bebeu vagarosamente toda a água. E, ao devolver o copo, sentenciou firme, para todos os presentes. ˗ Eu vou falar TUDO. Estou pronto.

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Notas finais
Camus, enfim, contará à equipe do Projeto Êxodo 2018 realmente TUDO o que se passou no Vale da Aurora Dourada? Como será o impacto de tais revelações, principalmente para Milo? Não deixem de conferir no próximo, e não tão demorado, espero!, capítulo. Muito obrigada por prestigiarem! Grupo no Facebook de minhas fics https://www.facebook.com/groups/1690225937895246