Redentor
36 Getsêmani - Ato I : Cativeiros
Notas iniciais
A despeito do ventinho frio que recepcionou os três na entrada do Aquário, o céu estava deslumbrante e claro, fazendo com que Milo permanecesse com os óculos escuros. A temperatura deixou Camus confortável o suficiente para continuar usando o capuz – não que ele, de fato, tivesse alguma escolha... lembrava-se, porém, um tanto incomodado, da observação do pequeno Hyoga: “Cê tá parecendo um bandido”.
— É isso aí, rapazes, cá estamos. Só a entrada já impressiona, né? – Comentou Milo animado, contemplando as gigantescas sequoias que ladeavam a entrada do que mais parecia um castelo do reino das águas. Pôs-se a caminho da bilheteria, ao final de uma das alamedas floridas do imenso pavilhão pelo qual diversos visitantes já circulavam.
— Tomara que tenha shows com tubarões! – Hyoga falou alegremente, ao se deparar com os cartazes dos números com animais marinhos e seus adestradores. Algumas pessoas tiravam selfies ao lado das promissoras imagens.
— Shows com tubarões? Filho, acho isso meio difícil.
— Ué, por quê?
— Você já ouviu falar em show com tubarão?
— Não! Por isso mesmo que eu queria ver!
— Se não ouviu falar, é porque não existem – O policial argumentou com paciência.
— E por que não?
— Hyoga, o que mais os tubarões fariam num show além de atacar gente?
— Justamente, por isso que seria legal!
— Não seria não, vai tirando esses gostos malucos dessa sua cabecinha – Pôs a mão sobre a cabeça do menino, bagunçando-lhe os cabelos médios e dourados. Apontou para os cartazes que o filho estudava com um “bico”. – Esses são os bichos que você vai ver nas atrações.
Milo comprou as entradas. Percebeu que o filho ainda mantinha uma careta de desprezo.
— Sempre os mesmos bichos, pô... golfinhos, focas, leões-marinhos, orca...
— Claro, são mamíferos, extremamente mais inteligentes que peixes. Você nunca vai ver um show com sardinhas ou atuns. – Riu o agente, posicionando-se ao lado de Camus, que acompanhava em silêncio aquela conversa, para ele ininteligível.
— Mas pai, pinguins também são mamíferos, porque não tem show deles? Eu gosto de pinguins.
— Pinguins não são mamíferos, Hyoga. São aves.
— Quê? Sério? Mas eles não voam!
— Nem todas aves voam... ( 1 ) mas o que é que o senhor anda fazendo nas aulas de Ciências, hein?
O menino virou-se para o ex-Redentor:
— Camus, você sabia disso?!?
— Eu? Não… não sabia. Na verdade… – Pôs as mãos nos bolsos, um tanto sem-jeito. – Soube da existência de pinguins há pouco tempo.
— Como assim? – Exclamou o pequeno, surpreso. – Você não sabia o que era um pinguim?
— Hyoga, eu não sei muitas coisas – Admitiu, sereno. – Conheço pouco do mundo... bem pouco.
— Mas você não estudou em nenhuma escola?
Sob o olhar pesaroso de Milo, o ruivo não se abalou. Com um suave sorriso, respondeu:
— Onde vivi, apenas lia e estudava a Bíblia, Hyoga. São bem poucos os assuntos sobre os quais entendo. Você sabe de muito mais coisas do que eu.
— Mas você é adulto e eu sou criança! Como é que eu posso saber mais coisas que você? Meus pais tão sempre dizendo que eles entendem de tudo e só depois que eu crescer vou entender.
— É como ele falou, filho – Milo tentou ajudar. – você frequenta a escola desde pequenininho. Lê livros, revistas, vê filmes, noticiários, desenhos. Ele... Camus não podia fazer nada disso, sabe?
— Puxa, então é como dizem na televisão!, você era um prisioneiro mesmo, né, Camus?
A esta observação, o jovem perdeu a fala. Desviou o olhar, constrangido. Foi com dificuldade que Milo resistiu ao anseio de abraçá-lo, de ampará-lo. Limitou-se a pôr a mão sobre o ombro do filho ao explicar:
— Sim, Hyoga, ele ERA um prisioneiro. Agora, não é mais. E a partir de agora, ele vai aprender muitas e muitas coisas. A gente vai ajudar nisso, não vai?
— Claro, pai! Não esquenta não, Camus, eu sou o melhor aluno da sala... bom, em Matemática e História... mas sou bom nas outras matérias também, eu vou te ajudar!
Camus sorriu, sinceramente tocado pela euforia da criança.
— Bem, a gente vai ficar de papo aqui fora o tempo todo ou vamos entrar de uma vez e curtir o passeio? – Conclamou o policial animadamente. Não podia segurar a mão de Camus como queria. Teve que se conformar em dar-lhe uma leve sacudida no ombro, como forma de demonstrar apoio. Disse-lhe baixinho:
— Ele é só uma criança. Crianças têm a língua solta, você sabe.
— Língua solta? – Espantou-se o ex-messias.
— É, falam o que dá na telha.
— Telha? Telha de casas?
— Não – Riu o agente. – Quero dizer que elas falam o que lhes vem à mente. Falam o que querem, de jeito franco... não fica incomodado não, tá?
— Mas eu não fiquei incomodado. – Replicou o ruivo, neutro. – Ele não disse nenhuma mentira ou ofensa. Eu era mesmo um prisioneiro, não era?
— Camus…
— Vamos, seus moloides, compramos ingressos pra vocês ficarem conversando aí fora? – Gritou Hyoga, ao lado das catracas. Com cara de poucos amigos, o agente resmungou:
— Esse moleque tá ficando meio sem noção...
— Ele é só uma criança, Milo, não fique incomodado...
— Ah, você também, é? – Soltou, ao ver que o parceiro sorria maroto.
As coisas estavam definitivamente mudando! Pensar que Camus fosse agora capaz de brincar com ele...
Os três enfim entraram e chegaram a um corredor que dava acesso às salas de vídeos sobre o lugar e suas atrações.
Depois foram para a área dos aquários. Viam as mais diversas espécies aquáticas. Em seguida, os famosos corredores circulares e transparentes, que ofereciam a experiência de observar os animais como se o espectador estivesse no fundo do mar. Era um espetáculo de cores, formas e movimentos. Camus quase se esquecia de que se tratavam de criaturas vivas, tão fantásticas lhe pareciam.
— Ali, ó, ó, os tubarões, o tubarões!! – Pulou Hyoga, entusiasmado.
— Sim, entramos na ala dos tubarões – Milo virou-se para Camus. – São os preferidos do Hyoga.
— Eu vi na TV que são os mais temíveis animais marinhos. – O ruivo comentou, o olhar atento nos imponentes peixes.
— Muito mais pela fama trazida por filmes sobre eles do que por ocorrências reais, Camus. O risco de alguém ser morto por um tubarão é bem pequeno, menor do que morrer por um ataque de abelhas. Ou mesmo por mordida de cachorro!
O menino volveu, em tom de desafio:
— Ah, tá, queria só ver se você estivesse surfando e visse um por perto!
— Mas eu já vi – Milo deu de ombros.
— Sério mesmo, pai? Onde, onde? – Temor e respeito estampavam-se nas feições infantis.
— No Havaí e na Austrália.
— Caramba! E não teve medo?
— O “medo” dos filmes, não. Tive o medo mais próximo da cautela. Apenas fiquei quieto e tomei cuidado para não atraí-los mais para perto de mim. Se você não parecer perigoso para eles ou convencê-los de que NÃO é uma tartaruga disponível pro jantar, a chance de eles irem embora é quase certa. –
Camus ouvia boquiaberto, vendo os sinistros animais indo e vindo.
— Mas tem surfista que acaba sendo lanchinho deles assim mesmo – Hyoga insistiu, meio incrédulo.
— Não vou negar que, além da cautela, contei com o fator “sorte”, né? Além do quê, eu não tava sangrando nem nada, e esses bichões são atraídos por sangue como abelhas por doce.
— São tão rápidos. E as bocas tão cheias de dentes que mal se fecham. Têm caras de maus.
— Não existem animais “maus”, Camus. Existe a fome, o instinto. Há os animais predadores, que vivem da carne dos outros. Matam e caçam para sobreviver. O tubarão é um dos maiores predadores do mar, por isso intimida tanto e...
— “Um” dos maiores? Não é o maior não? – Hyoga quis saber.
— Acima deles está justamente a bonitinha orca.
— QUÊ? Aquelas baleias-orca são mais perigosas que os tubarões?
— Não vamos pensar em “perigosas” e sim “vorazes”. Pois é, elas são predadoras mais duronas que os tubarões.
— Eu não acredito! Aquelas baleiazinhas com cara de gato malhado, que viram até bonequinhos de pelúcia mascotes dos parques, mais ferozes que os tubarões!...
Eles pararam diante da imensa parede de vidro que os separavam dos tubarões. O temível tubarão-branco passou por ali, o brilho de seus diminutos olhos meros reflexos da iluminação artificial que os revelava para o público.
— Apesar de elas serem chamadas de “baleias-assassinas”, elas são mais como golfinhos. E se alimentam inclusive de tubarões. Até desse cara pálido aí. O contrário já não acontece.
— Caramba, eu não sabia disso. Como é que você sabe essas coisas todas?
— Ao contrário de você, eu adorava Ciências, Biologia – Brincou o policial. – Além do mais, sou bem mais velho que você, tive bem mais tempo de aprender mais e mais coisas.
— A mamãe acha que o Shura é mais inteligente que você, só porque ele é chique e você se veste como um adolescente. – O garotinho soltou, sem qualquer cerimônia, enquanto ria com gosto.
— Tenho certeza de que essas são exatamente as palavras que ela usa. Só porque o Shura é um burguesinho... um almofadinha empertigado, ela...
Parou ante a expressão interrogativa de Camus. Apressou-se a elucidar:
—Shura é o noivo de Natassia.
Hyoga adiantou-se para ocupar um bom lugar a fim de observar um imenso tubarão-baleia que planava tranquilamente sobre os extasiados visitantes. A resposta de Milo, contudo, monopolizou completamente a atenção de Camus naquele momento.
— Natassia tem um noivo? Digo… ela vai se CASAR com alguém?
— Sim, é isso que significa “ter um noivo” – O policial não pôde deixar de sorrir ante o estupor do namorado. – Mas por que isso parece te surpreender? Na Aurora do Novo Porvir ninguém se casava de novo?
— Não é isso – Mordeu o lábio inferior, inseguro de continuar. Mas foi em frente: – É que... bem, eu... eu achei que ela ainda gostasse de você.
O queixo de Milo despencou durante seu riso incrédulo: – Quê? Meu Deus, Camus, da onde você tirou essa ideia?!?
O ruivo manteve-se mudo enquanto flashes de memória o assaltavam: as feições torcidas, zombeteiras, o azedume, os sorrisos sarcásticos e... principalmente... o olhar... e o súbito empalidecimento, após o enrubescer da cólera.
Natasha AMAVA Milo.
Camus soubera-o desde o hospital, quando ela invadira seu quarto. Quando ela o confrontara de forma tão cruel e...
Sim, Natassia AINDA amava Milo. Este acreditava ser rancor, ressentimento e... bom, tudo isso não deixava de fazer parte daquele AMOR que Milo não enxergava.
Ou fingia não enxergar?
— Hein, Camus, fala – O loiro insistiu, tocando de leve o braço de um retraído Camus. – De onde você tirou essa ideia de que Natassia ainda gosta de mim?
“Ele quer mesmo saber? Ficou interessado? Ele de fato NÃO SABE?”, pensou o ruivo, quase atordoado. Simulou uma serenidade que não mais estava ali ao responder:
— Não sei. Uma bobagem minha, deve ser. Ainda não entendo o sistema de relações de vocês, é isso.
Afastou-se, fingindo interesse num cardume multicor que passava ali perto.
O agente soltou um longo suspiro. Por ora, preferiu acreditar que tivesse sido uma “interpretação equivocada” do amado. De fato, Camus não entendia muito as coisas da sociedade em que agora vivia. E, quem sabe, não fosse um laivo de ciúme...
Não pôde evitar um sorriso bobo de contentamento íntimo: Camus, com ciúme dele! Não fosse o lugar em que se encontravam, o agarraria por trás e o atacaria com dezenas de beijos.
— Olha que maneiras, Camus – Hyoga chamou-o, o dedo em riste apontado para o topo. – parecem pássaros, né? Olha como parecem estar batendo asas!
— O que são?
— Arraias! Legais, né?
— Não parecem peixes... são peixes?
— São sim! Mas, falando em bicho do mar que não é peixe, vamos ver o mais legal de todos: o polvo! – Pôs-se a puxar o ruivo pela mão, empolgado. – Os polvos são irados!
— Imagino que isso não queira necessariamente dizer que são “bravos” ou “furiosos”... – Volveu o ex-messias, sorrindo.
— Não, quer dizer que eles são MUITO LEGAIS! Se bem que parecem carrancudos, sabe? Olha, olha lá!
Ante dois imensos polvos que erguiam vagarosamente alguns de seus tentáculos, Camus arregalou os olhos.
— Parecem tranquilos, mas nada amigáveis. – Perto dali, algumas lulas davam o ar de sua graça. Também atraíram a atenção do atônito jovem, que acabou por confessar ao menino: – São os bichos mais estranhos que eu já vi, Hyoga.
— Hah, espera pra ver o caranguejo-rei!
— Rei...?
—Caranguejo-rei! Ele tem esse nome porque é super super grandão! É o maior caranguejo do... mas, pô, acho que tu nem sabe o que é um caranguejo.
O ruivo meneou a cabeça, de modo comicamente resignado. Foi o bastante para o loirinho puxá-lo para o tanque dos crustáceos. Com um sorriso de orelha a orelha, Milo os seguia. Alegrava-o mais que tudo que dois de seus entes mais amados estivessem se dando bem, muito pela espontaneidade infantil do filho. Se bem que Camus, de certa forma, assemelhava-se a uma criança, talvez por isso aquela afinidade deliciosa de se ver não tivesse demorado a se instituir.
Demorou razoavelmente, mas finalmente Camus estava se soltando um pouco mais, já não era puxado pelo menino, e sim acompanhava-o, seu rosto invariavelmente impassível agora palco de emoções e sensações.
Descoberta.
Surpresa.
Êxtase.
Alegria.
Assim visitaram cada uma das extensas seções do Aquário, Milo ora se comprazendo tão somente em contemplar os dois, ora se unindo a eles.
— A maioria destes bichos você nunca deve ter visto, né, Camus?
— Eu poderia dizer que nunca vi quase NENHUM deles, Hyoga.
Os três estavam diante de um tanque com dezenas de equinodermos dispostos como enfeites pelas rochas e pelo chão cintilante, por sobre os quais cavalos-marinhos e medusas passeavam.
— Lá onde você vivia tinha rios e lagos, não? – Hyoga inquiriu. – Deve conhecer algumas espécies.
Com o dedo sobre o queixo, o pensativo ex-Redentor ia rememorando:
— Só conheço alguns peixes. Trutas. Salmões. Arenques. Outros cujos nomes nunca soube. – Deu de ombros, sorrindo. – Ah, já vi uns camarões também. Caramujos.
— Por falar nisso, você gosta de camarão e lagosta? Eu adoro!
— Bem... meu pai e meus irmãos comiam, mas eu não comia não.
— Quê? Você não gosta? Mas são tão gostosos! – Espantou-se o garotinho.
— Não sei se gosto ou não – Incrivelmente o ex-messias revelou com um discreto sorriso. – A verdade é que eu não podia comer. Meu pai não permitia.
A expressão estupefata do filho incitou Milo a lhe explicar:
— O pai do Camus o proibia de fazer um monte de coisas, inclusive de COMER certos alimentos... melhor dizendo, VÁRIOS, né?
Sem demonstrar qualquer perturbação, o ex-messias anuiu em concordância. Indignado, Hyoga dirigiu-lhe o olhar franzido.
— Teu pai era mau mesmo, hein? Ele também te batia e te maltratava bastante, né?
— Hyoga – O policial interviu suavemente. – acho que não é uma hora legal pra gente conversar sobre isso.
— Tudo bem – Disse Camus. – eu não tenho problemas em falar, se ele quiser ouvir.
Milo ergueu as sobrancelhas, pasmado.
— Eu quero. – Admitiu a criança, balançando as perninhas e, em seguida, saltando do banco no qual sentara enquanto falava com Camus. – Mas meu pai tá certo. A gente pode conversar sobre isso mais tarde.
— Hyoga... – Murmurou o agente, tocado com a sensibilidade do filho.
— Até porque tá na hora do almoço e meu pai vai levar a gente no Lob & Crab Bros.!
O policial quase caiu do banco. Ao restaurante mais caro do lugar! Arregalou os olhos azuis ao retrucar:
—Quêêê? E nossos queridos triplo cheeseburgers com molho, fritas e milkshakes de sempre?
De modo altivo, o menininho ergueu o queixo, como quem vai explicar algo muito óbvio:
— Como você mesmo disse, isso é o de sempre. – Virou-se sorridente para o rapaz ruivo. – Hoje, o Camus vai experimentar frutos do mar!
A despeito da iminência de gastar muito mais que o planejado, um arrepio de emoção correu pelo corpo de Milo. Tentou não pensar no ardor que sentiu no fundo dos olhos. Olhou do filho para Camus, e de Camus para o filho. Uma onda de calor, oriunda do orgulho e da emoção, quase o fez embargar a voz ao falar com Camus:
— Tá vendo que esse sem-vergonha é mais esperto que o pai, né?
Com uma ternura contida, o ex-Redentor assentiu:
— Ele vai ser um policial melhor que você, pelo visto.
Sem demorar, o garotinho protestou:
— É ruim de eu ser policial, tá louco, é muito perigoso! Quero ser piloto de avião!
Com um frio na espinha, Camus lembrou-se da estranha sensação de estar tão acima da terra, encerrado naquela máquina misteriosa e se viu incapaz de concordar com o novo amigo.
Os três dirigiram-se para a praça de alimentação e entraram no famoso restaurante especializado em frutos do mar. Enquanto esperavam pelos pedidos, Milo tomava uma cerveja, Hyoga, um refrigerante, e Camus, um suco de morango. Ocupavam uma mesa próxima a um belo aquário repleto de peixinhos coloridos.
— Me conta, Camus, – Pediu o loirinho. – que bichos você via na selva?
— Na selva?
— É, na selva onde você morou.
Esticando-se no banco estofado de couro vermelho, Milo elucidou:
— Não é bem uma “selva”, filho. A comunidade ficava em Grayville, uma região montanhosa próxima às florestas do Maine...
— Ah, então você já deve ter visto um urso, né, Camus?
— Bem... só abatido. Quando uns caçadores foram surpreendidos por um grande urso negro, tiveram que matá-lo e aí o levaram para a vila. Eu o vi na caçamba da carroça.
— Carroça? Não usavam carros? Vocês eram tipo os amish ( 2 )?
— Hã... quem?
Milo ajudou:
— Era um outro tipo de seita, filho. Eles...
De repente, o policial teve a impressão de estar sendo observado.
E estava. Ou era mesmo impressão. Mas lhe pareceu que um grupo de jovens sentados à média distância, próximos a uma das janelas enfeitadas com âncora, o observava discretamente. A discrição utilizada não fora, porém, suficiente para ludibriar o loiro. Abraçando o filho, pediu em voz baixa:
— Vamos conversar sobre isso em casa, tá bom?
— Tá bom, pai. Mas ele pode pelo menos dizer que bichos via lá, não pode?
— Pode sim... – Cedeu a palavra ao companheiro, que respondeu:
— Quando eu andava pelo Vale, às vezes eu via esquilos, lebres, raposas... para ser sincero, eu prestava mais atenção nos pássaros. Gostava de vê-los voar, cruzando o céu, tão alto e livres...
— Eu queria ter um cachorro. Minha mãe não deixa. Você já teve algum cachorro ou um gato, Camus?
Milo pôs a mão no ombro do menino.
— Ora, por isso não, filho, eu poderia arrumar um cachorrinho. Você pode escolher um nome pra ele. – Lembrou-se, como se tivesse sido há muitos anos, quando, reconhecido seu cativeiro no Vale da Aurora Dourada, tomara a resolução de um dia ter um cão galgo, caso conseguisse voltar para a “civilização”.
Ele chegou a pensar que aquilo não seria possível.
Que dias terríveis. Não pensava muito sobre aqueles momentos, mas agora a torturante sensação voltava-lhe à memória.
— Pô, isso ia ser legal, pai! Do jeito que o pai do Camus prendia ele, aposto que também nem deixava ele ter um bichinho de estimação, né?
O ruivo sorriu de forma indefinida.
— Na verdade, eu nem sabia que as pessoas tinham... animais de estimação. Os cachorros no Vale prestavam a guardar a propriedade, apenas. Fora eles, sempre pensei nos animais como fonte de alimento, transporte ou para nos dar peles.
— De jeito nenhum você poderia ser vegetariano! – Brincou Hyoga.
— Camus aprendeu assim porque na Bíblia há passagens que falam exatamente isso, que os animais existem para nos servir.
— Ah... – Fez a criança, pensativa, para em seguida vibrar com a chegada da refeição.
Com alívio, Milo notou que o grupo que os observava se retirava das mesas. Não tinha certeza se daquela distância haviam escutado algo da conversa ou não.
— Tem um aroma muito bom. – Comentou o ex-messias, contemplando aquela comida diferente que, no entanto, não lhe era de todo estranha, pois que já a vira nas mesas em que se banqueteavam Hades, Radamanthys, Albior e suas famílias, e também membros da alta cúpula da Aurora do Novo Porvir. Apenas a ele nunca lhe fora permitido provar dela.
Walt’s Favorite Shrimp (camarões empanados em formato de borboleta com molho cocktail sauce), acompanhado de batata assada, patas de caranguejo ao vapor com molho de ervas, lagosta grelhada ao molho de manteiga, combinado de queijo, lagosta e nachos...
— Mas, Camus, eu não entendi por que seu pai não te deixava comer camarões, lagostas e tal. A Bíblia não diz que os animais existem pra nos alimentar?
O ar pensativo do ruivo fez Milo se questionar se a pergunta lhe era incômoda. No entanto, o jovem só procurava uma forma de se fazer entender por alguém que não vivera sua... realidade.
— Para a “igreja”, Hyoga, eu era o Messias desta época. E, sendo assim, eu deveria viver conforme Jesus Cristo viveu, enquanto esteve entre os homens, seguir seus passos, ser exatamente como ele foi...
Hyoga ouvia atento, os cotovelos sobre a mesa, as mãozinhas sobre o queixo, as delícias momentaneamente esquecidas. Àquela cena, Milo assistia encantado; não via a hora de contar para Saori... Camus estava conseguindo falar de suas experiências “na outra vida” de um jeito aberto jamais esperado por ninguém... estava progredindo tanto!
— ...ocorre que Jesus teve uma vida muito simples, apenas com o básico. Sua alimentação era bem frugal, e Ele...
— Que é alimentação “frugal”? Ele só comia frutas? – O pequeno pôs a língua para fora, em sinal de desgosto.
— Oh, não – Sorriu o ruivo. – é uma alimentação bem simples, com o mínimo possível que garanta a sobrevivência.
— Então o pai de Camus, que mandava em tudo e em todos, controlava até o que o Camus podia ou não comer. – Ajuntou o policial. – E eu te garanto que é diferente da sua mãe evitar que você tenha acesso a guloseimas e outras besteiras.
Hyoga abocanhou um dos camarões empanados. Olhando para o ex-Redentor, que obtinha ajuda de Milo para comer as patas de caranguejo, quis saber:
— O que mais você não podia comer?
— Carne, em geral: bovina, de porco, nunca. Cordeiro e carne de caça também não podia. Nada de frutos do mar ou peixes mais nobres, como bacalhau, salmão, esturjão. Ovas de peixe. Frutas caras, como as tropicais, também não. Sobremesas elaboradas como tortas, pudins, manjares. Nada confeitado, enfeitado, com creme. De um modo geral, nenhuma comida mais elaborada. Peru, faisão, codornas... – Mirou, enleado, a carne branca à sua frente, que emergia da pata avermelhada do crustáceo. Provou-a. Chegou a revirar os olhos ao dizer, maravilhado:
— Milo, é delicioso!
— Viu? O pestinha tinha razão!
Após mastigar alguns bocados, o ex-messias continuou:
— Também não me era permitido ingerir vinho... salvo em algumas... ocasiões – Lembrou de quando faziam-no beber vinho em ritos. E de quando Radamanthys e Algol também...
— Experimenta com o molho, Camus!
O jovem seguiu a dica de Hyoga e não se arrependeu. Olhava curioso a lagosta enquanto arrematava:
— Tinha direito a me alimentar de legumes, frutas, verduras, raízes, ovos, leite, suco, cereais...
— Nossa, que saco, é como se fosse uma tia de regime!
— ... queijo de cabra... às vezes, podia comer peixe... mas era raro...
— Ah, mas aposto que seu pai enchia o bucho de carne, frango, e de tudo que era delicioso, bem na sua frente, só de maldade! – A revolta de Hyoga não arrefecia.
— Sim, ele... meus irmãos e suas famílias... e outros... tinham uma dieta bem mais diversificada – Ele preferiu omitir os inúmeros jejuns que era obrigado a fazer. Serviu-se da lagosta. – Acho que nunca comi nada tão deliciosa. Ah! Exceto as ravanies de Milo!
— As o QUÊ? – Inquiriu o menino.
O agente riu e explicou, obviamente sem entrar em detalhes, sobre o dia em que preparou o doce grego, na casa de Aldebaran ( 3 ) para o “Redentor”.
— E por que você nunca fez isso pra mim? – Resmungou o loirinho.
— Aquela foi a primeira vez que fiz ..... na VIDA. Tentei me lembrar de como minha avó fazia, eu a vi fazer tantas vezes, quando era criança... – Fitou Camus com carinho. – pelo jeito, deu muito certo, você se lembra até hoje.
Hyoga não entendeu por que ao ouvir aquilo Camus ficou vermelho como um pimentão e baixou os olhos. Virou-se para o pai a tempo de flagrá-lo com uma cara igualmente boba, os olhos de peixe morto em cima do ruivo.
“Eu, hein. Se não fosse o MEU pai, e se Camus não fosse homem, eu ia até pensar que eles...”, a criança fez questão de interromper o pensamento como quem corta a linha de uma pipa. Para acabar com aquele silêncio súbito e um tanto perturbador, falou:
— É, eu nem consigo decidir o que tá mais gostoso!
— Estou na mesma situação, Hyoga – Comentou Camus, servindo-se dos camarões.
— Se vocês continuarem comendo assim, não vai sobrar espaço pra sobremesa! – Milo brincou, ele mesmo pedindo outra cerveja.
— Vai nessa... sempre sobra! Não é mesmo, Camus?
— Nisso não sei se posso concordar contigo, Hyoga...
O almoço teve prosseguimento, leve e agradável, nem mesmo as lembranças partilhadas por Camus tiveram o poder de toldar aquele momento luminoso. Milo pensava que a refeição tinha sido muito mais cara do que o pretendido, mas nem de longe teria a mesma graça se tivessem ido comer hambúrgueres. Cada centavo fora muito bem gasto, e gastaria tudo outra vez!
Mas de preferência em um outro mês, concluiu, rindo consigo. Hyoga se gabara tanto de que seria capaz de dar conta de um chocolate lava cookie e, no entanto, confessou que seria demais para seu pobre estômago lotado: contentou-se com uma taça pequena de sorvete de morango. A sobremesa de Milo foi outra cerveja, e a de Camus, bem... nadinha. Como diziam – e esta expressão ele já conhecia muito bem – parecia que tinha “comido um boi”.
— Que tal a gente dar uma volta pelo parque pra “fazer a digestão” e depois ir pra onde vai ter os shows?
— Não é uma boa ideia, pai, a gente tem que chegar ao lugar dos shows antes de todo mundo, pra pegar um lugar beeeem lá na frente – Hyoga disse, tomando a mão de Camus. – O Camus tem que ver tudo super de perto, senão não tem graça, né?
— O Camus e VOCÊ também, né, rapazinho? – Riu o policial, que, incapaz de sustentar qualquer resistência, concordou com o filho. Dirigiram-se logo para o pavilhão dos shows aquáticos.
De fato, como as atrações demorariam quase uma hora para começar, poucos assentos estavam ocupados, e eles puderam ocupar três dos poucos frontais, bem colados à parede de vidro, através da qual podiam ver alguns animais nadando e mergulhando despreocupados.
— Aqueles ali, na beira da piscina, com os treinadores, são leões-marinhos, e essas aí nadando felizonas são as focas. – Milo ia explicando a Camus, atento aos bichos.
— É muito interessante, mas tenho uma pergunta – Começou o ex-messias, timidamente. – todas as diversões deste mundo envolvem animais em cativeiro?
Tanto Milo quanto Hyoga ficaram momentaneamente em silêncio, intrigados com aquela questão. Diante de suas expressões de dúvida, o ruivo continuou:
— Era assim no zoológico também, os bichos presos, e todos...
— Você já foi ao zoológico? – Hyoga perguntou, surpreso.
— Sim, seu pai me levou.
O loirinho, que estava sentado entre os dois adultos, inclinou-se para o pai e disse-lhe em voz baixa:
— Seus neurônios andam apresentando defeitos, hein?
— Quê?! Por que diz isso? – O agente sussurrou, na defensiva.
— Pô, pai, tu leva um cara que passou a vida toda PRESO pra passear logo num zoológico, e, dias depois, num aquário. Tá tentando distrair um cara que só conheceu o cativeiro levando ele pra ver BICHOS PRESOS!
Atordoado com aquela inegavelmente precoce exposição, Milo levou a mão à boca.
— Como foi que você ficou tão sábio, moleque? – Murmurou, assombrado.
— A quem será que puxei...? – Provocou o menino, segurando os joelhos e olhando para o alto com ar inocente.
Aprumando-se em seu assento, o policial disse, agora para que o namorado também escutasse:
— Er... acho que da próxima vez podemos... hã... podemos ir... acampar!
— Aí sim! Isso sim seria da hora! – Vibrou o menino. – Né, Camus? Vamos acampar!
— Acampar?
— É, armar barracas no mato, acender fogueira, assar marshmallows, contar histórias de terror...
— Histórias de... ? – O ruivo ia repetindo, sem entender.
— Terror! Histórias assustadoras, de dar medo! – O garotinho arregalou os olhos de maneira cômica.
A cara confusa de Camus fez Milo rir. Entretanto, logo ficou sério: os mesmos jovens do restaurante, os quais, tinha quase certeza, olhavam fixamente para Camus, ocuparam seu campo de visão. Eram seis, quatro rapazes e duas moças, e, desta vez, não era impressão: encaravam-no diretamente, e, em seguida, olhavam para Camus, sempre protegido pelo capuz por sobre a testa, quase a cobrir-lhes os olhos. Foi então que Milo entendeu: estavam reconhecendo não a Camus, e sim a ELE. Quantas vezes sua imagem não aparecera na mídia, associada ao Redentor?
“Se eles escutaram algo das nossas conversas, já devem ter inferido que... merda.” Procurou relaxar, contudo: havia de ser mera curiosidade. De qualquer modo, não poderia deixar que aquilo atrapalhasse o passeio, que estava sendo perfeito.
Apesar de, sim, mais uma vez, ter levado Camus para ver “bichos presos”.
— A gente também pode ir velejar – Comentou, em uma tentativa de se distrair daquela súbita preocupação. – chamamos o Aiolia, o Aiolos... vai ser legal, hã?
— Se você não se ESQUECER de novo, vai sim.
A memória de uma criança é sempre implacável...
— Ah... você não esquece DAQUELE dia, né? – Tornou Milo, sem-graça.
— E dava pra esquecer? Tive que ir com mamãe e Shura praquele parque chato de criancinha idiota...
— Ele foi muito legal. – Admitiu o policial. – Por que tá falando assim do Shura? Achei que gostasse dele.
— Eu gosto! Mas ele é meio careta.
— “Careta”! A juventude de hoje ainda fala isso?
— Eu vi num filme – Hyoga virou-se para o ex-Redentor. – Camus, você gosta de filmes?
— Eu... prefiro documentários.
— QUÊ! Sério? Nossa, que saco! Na escola, passam documentários direto pra gente ver, urgh, dá um sono!...
— Por que eles te dão sono? Passam muito conhecimento.
— Dão sono porque são chaaaatos... não me diga que você gosta de documentários tipo “a vida dos macacos da Floresta Amazônica”?
Camus levou o indicador à boca, ao se lembrar distraidamente:
— Bem, dia desses, assisti a um documentário sobre os beduínos tecelões do Deserto de Gobi...
O menino soltou uma gargalhada.
— Tá de sacanagem! Por que você gosta de ver essas coisas?!? – Indagou, entre o riso.
— Porque aprendo mais sobre o “seu mundo”. Eu nunca poderia ter acesso a essas informações onde eu vivia, e quero conhecer mais sobre... “aqui”.
A resposta veio em tom impessoal, mesmo assim, fez a criança engolir em seco. O agente não pôde deixar de sentir também certo desconforto.
— Puxa, foi mal. Eu nem me liguei nisso. – Disse o menino.
— Ele pediu desculpas. – Milo apressou-se em explicar, pois percebeu que o namorado não compreendera a expressão. – Não se deu conta das suas razões pra gostar desse tipo de programa.
Sorrindo, Camus pôs a mão sobre o ombro do garotinho. Falou:
— Mas isso não é problema algum, Hyoga. Não precisa se desculpar por nada. Eu gosto de conversar com você, sabe?
— Verdade, Camus? – O semblante do loirinho se iluminou.
O ex-messias assentiu, sustentando o sorriso amigável.
— Eu também gosto de conversar com você! Você não é nada mau, como minha mãe pensa!
— Ah, quer dizer que com o Camus você gosta de conversar, mas com o paizão aqui... ei, peraí, que papo é esse, Hyoga?
— Eu sou mau? – O ruivo ergueu as sobrancelhas confuso.
Os treinadores e adestradores começaram a assumir seus postos para o início do espetáculo.Todos assentos agora estavam ocupados. Temendo que a conversa pudesse ser ouvida por pessoas mais próximas, Milo propôs:
— Que tal deixarmos pra falar sobre isso em uma outra hora, hein? O show já vai começar.
Ambos acompanhantes acataram, e foi exatamente como dissera o mais velho; teve início o número das focas, caminhando graciosamente de ponta-cabeça às margens da grande piscina. Em seguida, duas delas equilibrava, a cada vez que lhe era pela outra jogada, uma imensa bola dourada e brilhante. Depis de alguns truques por elas realizados, foi a vez dos leões-marinhos. As atrações eram bem apreciadas, mas a plateia se empolgou mesmo com os números estrelados pelos animais mais visados do espetáculo: os golfinhos, as baleias beluga e, principalmente, a orca Mandy.
A esmagadora maioria dos espectadores se extasiava e pasmava com a capacidade humana de conseguir com que aqueles seres lhes fizessem as vontades. Camus, por sua vez, encontrava-se particularmente assombrado, chegava a se perguntar se havia alguma ação espiritual ali: lembrava-se de passagens bíblicas sobre homens de Deus que impuseram suas vontades aos animais, ou que deles se serviram de modo milagroso. E, se aquilo não era milagroso, que mais “naquele mundo” seria?
Uma hora e meia depois o show chegou ao fim, não sem estrondosos aplausos para atestar a satisfação do público. Milo preferiu esperar que uma grande parte da plateia deixasse o local para que enfim pudessem sair também.
— E então, gostaram?
— Foi maneiríssimo, pai!
— Bastante impressionante.
— “Impressionante” em um bom sentido ou ou em um mau sentido? – Quis saber o agente, um tanto receoso.
— Eu... só fiquei impressionado em ver como os bichos obedeciam àquelas pessoas.
— Ah, eles são treinados, adestrados por muito tempo.
— Adestrados?
— Sim, não teria como os animais fazerem tais números. Aquelas pessoas são profissionais gabaritados, inclusive há biólogos entre eles.
Camus pensou um pouco. E perguntou:
—Biólogos não são conhecedores dos hábitos dos bichos?
— Sim, são.
— Bom, se eles conhecem tanto os bichos assim, devem saber que os animais seriam mais felizes se não vivessem presos, não? Acho que eles preferiam estar livres no mar.
Hyoga lançou um olhar vitorioso ao pai.
— O que foi que eu te disse? – Soltou, sorrindo.
Milo ergueu os olhos para o alto e gesticulou em sinal de desistência ao pontuar:
— OK, eu sou um idiota. Nada mais de passeios com bichos presos.
Viu que já podiam se retirar. Ainda no estacionamento, enquanto se dirigiam para o carro, Hyoga viu uma grande borboleta azul e amarela.
— Olha que linda! Nunca vi uma assim!... – Pôs-se a segui-la, se afastando dos adultos.
— Hyoga, espera, não sai de perto! – Admoestou o pai, indo atrás do filho. Camus ouviu uma voz feminina atrás de si chamar:
—Senhor! Senhor, deixou cair isto!
Um casal de jovens se aproximou dele, a mulher brandindo um porta-níqueis em sua direção.
— A senhora se enganou, isso não é meu – Disse o ruivo.
— Mas eu vi o exato momento em que caiu do bolso do seu casaco – Ela insistiu, cada vez mais perto dele. Instintivamente, Camus deu dois passos para trás. Mas o acompanhante da moça foi mais rápido: avançou para o ex-messias, os braços decididamente estendidos.
Milo, que alcançara Hyoga e o segurava, virou-se a tempo de ver o desconhecido remover o capuz de Camus em um gesto ligeiro.
— EI! TIRA AS MÃOS DELE! – Gritou, precipitando-se para onde um atônito Camus, agora com os cabelos vermelhos ao vento, permanecia sem ação.
Não fora uma ação sensata a de Milo, embora fosse a natural, pois que prontamente atraíra a atenção de mais gente.
— Eu DISSE que era ele! O Redentor! – Bradou a moça, olhos vidrados sobre o jovem cuja figura era revelada.
— O Messias da seita satânica! – Gritou o acompanhante desta, o celular em punho a registrar sua descoberta. Os colegas do casal acorreram, mas não puderam se aproximar de Camus, pois que o policial se posicionara, protetor, à sua frente. Milo controlou-se para não agir de forma mais enérgica: havia testemunhas fotografando-os, e, de mais a mais, seu filho o acompanhava. Não podia se exceder. Sem querer forçar Camus a nada, tampouco apavorá-lo mais, simplesmente ordenou-lhe:
— Põe o capuz de volta!
Inútil. O rapaz paralisara completamente.
— É ele mesmo, o falso messias! – Um dos jovens apontou.
— É o Anticristo!!! – Outro berrou.
— Seus babacas, vão procurar o que fazer! – Vociferou Hyoga, que teve que ser contido pelo pai, pois que a criança já avançava para os jovens.
Perto dali, uma mulher saiu do carro para ver a cena, apontando para Milo e Camus:
— São eles, os caras das notícias da seita!!!
— É mesmo! – Atestou um homem, sacando também seu celular para registrar.
Milo, à frente de Camus, puxava Hyoga com uma das mãos e com a outra gesticulava, pedindo:
— Por favor, parem de tirar fotos! Estão assustando ele!
— Ah, isso assusta ele, mas se colocar no lugar de Jesus não assusta não, né? – Uma senhora que se juntava aos curiosos gritou.
— Apenas nos deixem ir – Insistia o agente, consciente de que era tudo que podia fazer.
Um rapaz de boné questionou:
— Ele é maluco ou acreditava mesmo naquilo tudo?
— Maluco nada, era tudo planejado!
Irrompendo entre as pessoas, um senhor de idade bradou:
— Calem a boca, vocês não viram que o coitado foi enganado e preso pelo próprio pai?
Estimulados pela fala deste, alguns gritaram:
— Camus, tira uma foto com a gente, nós te apoiamos!
— Isso mesmo, seu pai vai pagar pelo que te fez, pode ter certeza!
Inflamada, uma mulher gritou:
— Balela, o canalha sabia muito bem o que tava fazendo!
A esta se seguiram:
— É!!! Falso profeta! A Bíblia avisou que você viria!
— Pode enganar aos tolos, mas a nós não engana!!!
Alerta, Milo percebeu que a aglomeração no estacionamento só fazia crescer. A cada vez mais, mãos e braços com múltiplas intenções se aproximavam. Camus estaria em estado de choque? Achava que sim, o ruivo não tinha qualquer reação, apenas olhava aqueles estranhos como quem presencia um fenômeno desconhecido. Tentou apelar outra vez, retrocedendo como podia:
— Por favor, eu tô com criança aqui, só nos deixem ir pro nosso carro!
— A criança é seu filho, policial Hatzis?
— Você deixa seu filho ficar perto do Anticristo, policial?!?
— Não fala merda, Tommy, o Redentor não teve culpa de nada!
— Isso é o que dizem, mas olha só como ele é esquisito!
— Quer dizer que o policial que acabou com a seita agora ficou amigo do falso messias?
Vendo-se perigosamente engolidos por aquele turbilhão insano, Milo não viu outra saída a não ser tirar seu distintivo do bolso e mostrá-lo, o olhar em chamas.
— JÁ CHEGA! PRA TRÁS! O primeiro que encostar em qualquer um de nós será levado AGORA MESMO pra delegacia! Pra trás!!! – Bradou, colérico.
Tocadas pela autoridade do policial, enfim as pessoas se detiveram. Seguranças do parque acorreram enfim. Milo ainda fitou o grupo inconveniente com ira fervente antes de, tendo enfim o apoio do cordão de isolamento dos seguranças, conduzir Camus e Hyoga até a pickup. O pequeno não se conteve e pôs a língua para fora, mostrando o dedo do meio para os curiosos:
— Bando de babacas!!!
O policial passou o braço esquerdo por trás das costas de um ainda atônito Camus. Era como se o ruivo estivesse com pés cimentados no chão! Praticamente empurrado para o banco do carona, o ex-Redentor, os longos cabelos agora desfeitos e quase desgrenhados, sentou-se, calado. Com Hyoga devidamente acomodado no banco de trás, Milo deu partida. Praguejava furioso. Ao se dar conta do silêncio dos outros passageiros, esforçou-se por se conter. Tomou fôlego longamente.
— Vocês estão bem? – Indagou, embora nem ele mesmo visse sentido naquele questionamento.
— Eu estaria se você tivesse me deixado dar umas porradas naqueles otários! – Cuspiu Hyoga, indignado.
— Ei, ei, desde quando o senhor tem esse comportamento violento? – Ralhou Milo, sem tirar o olhar vidrado da estrada. – Desde NUNCA, né? Ou agora virou um brigão? Se eu souber que tá brigando na escola...
— Sério mesmo, pai? – O loirinho fez ar de desdém. – Vai falar de escola AGORA?
Após novo suspiro, o policial calou-se. Olhou de soslaio para o namorado, cuja expressão lhe era uma incógnita.
— Camus. Tá tudo bem?
O ruivo fez que sim com a cabeça.
— Dá pra você responder com a boca?
— Eu estou bem, Milo.
— Então que tal responder olhando pra mim, por gentileza?
Hyoga chegou a se assustar com o tom do pai. Lentamente, o ex-messias virou-se para o companheiro.
Nada de lágrimas.
Nada de pânico.
Apenas... o NADA.
“Não gosto quando fica com essa expressão vazia como a que tinha quando era o...”, por pouco isso não saiu dos lábios do loiro. Mordeu o lábio para refrear aquele comentário. Desviou o olhar irritado dele e afirmou:
— Você se assustou. E com razão. Mas tá tudo bem agora, OK? Só que... caramba, tem que ficar um pouco mais atento. Não percebeu que quando o casalzinho “atencioso” se aproximou de você, eles...
— Pai! – Foi a vez da criança ralhar.
Aquilo trouxe Milo de volta à racionalidade. Passou a mão pelos cabelos da franja, puxando-os para trás. Sua voz então fez-se branda:
— Eu sinto muito que tenha passado por essa situação. A culpa foi minha. Por nada do tipo ter acontecido no zoológico, eu confiei que podíamos ir ao aquário sem que nada...
— A culpa não foi sua. – Camus interrompeu, de modo firme porém tranquilo. – A culpa é MINHA. Por ser QUEM SOU. Por achar que posso ser como vocês.
— Mas você É um de nós! Por favor, pare de se culpar por algo pelo qual você não teve absolutamente QUALQUER controle!
— Digo-lhe o mesmo.
Milo jogou a cabeça para trás e apertou o volante com força.
— Tem razão – Anuiu, em voz baixa mas perfeitamente audível. – Nenhum de nós é culpado pelo que aconteceu. A culpa foi da falta de educação daquelas pessoas.
— Isso mesmo, pai, a culpa é daqueles filhos da puta que quiseram estragar nosso passeio!
— Primeiro de tudo, nada de palavrões, mocinho. Segundo, eles não estragaram porra nenhuma...
— Pai, agora foi você que...
— ...nós já tínhamos terminado nosso passeio, tivemos um dia excelente juntos no Aquário. Certo?
Recostando-se de novo no assento do qual quase pulara, Hyoga assentiu, concordando. Camus também assentiu.
Calmamente, Milo pôs-se a elucidar:
— Camus, eu não posso prometer que nunca mais vai te acontecer algo do tipo. Com o julgamento daqui a umas semanas, é capaz até de as pessoas ficarem ainda mais ouriçadas. O caso parou o país, você sabe.
O ruivo meneou a cabeça, a tensão quase visível por trás de sua máscara de placidez.
— O que posso prometer é que vou vigiar mais nesse sentido. – Prosseguiu o agente. – As nossas idas bem-sucedidas a lugares públicos me fizeram ficar descuidado. Agora SEI que você passa a atrair mais atenção com o avançar das notícias, mas eu posso te garantir que isso é passageiro, logo os holofotes vão pra cima de outros caso, outro escândalo, outra pessoa, enfim...
— Estávamos certos sobre o uso do capuz o tempo todo, não? – Lembrou o ex-messias, um discreto sorriso a tirar um pouco do peso do coração de Milo.
— É, estávamos sim. Podemos investir em uma peruca ou...
— O Camus podia cortar o cabelo bem curto, pintar de preto e usar lentes de contato escuras – Opinou Hyoga.
Com uma careta indisfarçável, Milo sacudiu a cabeça em uma negativa apavorada.
— Isso jamais!!! NUNCA, NUNCA, NUNQUINHA!!!
— Ué, pai, ficou nervoso por quê?
— Eu, nervoso? Imagina, impressão sua, filhão!... – Riu, sem jeito.
Com as mãos displicentemente atrás da cabeça, o menino comentou:
— Bem, amanhã já sabemos o que NÃO devemos fazer.
— É, nada de parques, shoppings ou qualquer coisa assim, ao menos por um tempo. Mas já sei o que vamos fazer – O agente fez questão de demonstrar animação com a ideia. – um churrasco na varanda!
Hyoga bateu palmas, animado com a ideia.
— Curti! Vamos chamar os tios Olia e Olos!
— Vamos sim. Como o Olia deve levar a noiva dele, vamos ter que chamar o Saga também.
— Ué, que que isso tem a ver?
Milo mordeu a língua.
— Não lembra? Ele é... hã... o namorado do seu tio Olos.
— Ih, é, esqueci!
Pelo reflexo do espelho.... o loiro buscou alguma reação negativa no rosto do filho, mas nada viu...
— Você não acha isso estranho, Hyoga?
— O quê?
— Dois homens namorarem.
— Ué, por que vou achar estranho?
Camus olhou inquieto para Milo.
— Bem... porque não é muito comum dois homens... serem um casal. – O policial respondeu, com pretensa naturalidade.
— Ih, pai, em que século você vive? Onde que não é comum? – Riu a criança, com real naturalidade. – O que não é muito comum é todo mundo aceitar, aí pode até ser...
— E por que você acha que nem todo mundo aceita?
— Porque a maioria das pessoas é babaca! Cê não viu lá no estacionamento?
Um sorriso luminoso pairou nos lábios de Milo. Ele virou-se para Camus e disse, com inegável orgulho:
— Não falei que meu filho era esperto?
— Verdade. – Concordou o ruivo, sorrindo de volta.
*************
Naquela noite, Milo terminava de se trocar após o banho, em sua suíte, quando ouviu Hyoga gritar:
— Pai! Paiêêê! Vem ver, a gente tá aparecendo na TV!
— Isso não me surpreende nada... – Resmungou o agente, o que não o impediu de correr até a sala. O filho, assim como Camus, já estava de banho tomado e roupa de dormir. Ambos tinham o olhar fixo nas imagens que passavam na TV de 75 polegadas, enquanto ouviam, em total silêncio:
“... curiosos prontamente cercaram o jovem conhecido como o ‘Redentor’ da seita Aurora do Novo Porvir, cujo líder, conhecido como Hades, o Grande Pai, ninguém menos que o próprio pai de Camus De La Faure, será julgado em 17 dias por crimes contra a humanidade, dentre os quais cárcere, abuso e exploração do filho tido como ‘messias’, lavagem de dinheiro, extorsão, estelionato e tráfico de influência. Sobre o guru, preso à espera do julgamento, ainda pairam suspeitas de sequestros, assassinatos...”
— Olha a gente, olha, pai!!!
— Tô vendo, filho, deixa o pai ouvir também.
“Camus De La Faure não deu declarações tampouco respondeu aos curiosos, sendo rapidamente retirado do local pelo policial Milo Hatzis, principal responsável pelo desmantelamento da seita criminosa, que acompanhava o jovem no momento em que...”
Milo cruzou os braços. Pôs a mão sobre o queixo, reflexivo. Ao menos o rosto do filho...
— Pô, por que é que o meu rosto tá borrado? – Esbravejou o loirinho.
— Porque é contra a lei expor o rosto de menores de idade em vídeos de notícia.
— Isso não tem graça! Ninguém da escola vai me ver!
— Bem, COM CERTEZA vão saber que é você... – Murmurou o agente, visitado por uma inevitável apreensão.
— E se começarem a me chamar de BORRÃO, só de sacanagem?
— Chega, Hyoga, tá tarde. – Pegou o controle da TV e desligou o aparelho. – Vai dormir, estamos todos cansados, e amanhã vamos pra casa do Saga cedo.
— Pra casa do “tio” Saga?
— É, quando eu o chamei pra vir aqui amanhã, ele ofereceu a casa dele pra fazermos o churrasco lá.
Para surpresa de Camus, o menino começou a dar pulinhos diante dele.
— ÊÊÊÊÊÊÊÊÊ! Camus, a gente vai se divertir a valer, vai ser bem mais legal, lá tem uma piscina grandona, trampolim, escorregador, obaaa!
Camus sorriu docemente para a criança ao dizer:
— Que bom que gostou da ideia, Hyoga.
— Você vai gostar de lá! Vamos brincar de tubarão, hein?
— De... tubarão? – O ex-Redentor lembrou das intimidantes criaturas que vira mais cedo.
— Isso aí, eu sou um tubarão-branco do tamanho de um tubarão-baleia, e você é o turista tonto que...
— Tá bom, filho, agora se despede do Camus e já pra cama.
— Boa noite, Camus!
— Boa noite, Hyoga.
Por fim, Milo suspendeu o garotinho nos braços e deu-lhe um beijo de boa-noite. Viu-o ir para o quarto com o coração repleto de um calor há muito naquele peito ausente.
Luzes apagadas, em meio à tênue claridade advinda do corredor, Camus parou diante de Milo e murmurou:
— Bem, boa noite, Milo.
— Boa noite, Camus. – Volveu o agente, tão somente.
Hesitante, o ruivo lançou um olhar furtivo para o corredor. Em seguida, fitou o amante.
— Gostaria que dormisse comigo. – Sussurrou, em uma tímida porém direta súplica.
— Camus... falamos sobre isso ontem.
— Eu sei, não precisamos fazer nada. Só queria... que ficasse ao meu lado.
Uma seta de dor atingiu a ternura que invadia o policial. Precisou ser muito forte para não tomar o outro em seus braços. E também para argumentar, com voz baixa quase quebrantada:
— Sabe que eu quero isso tanto quanto você. Mas é como combinamos, enquanto Hyoga estiver aqui, não podemos. Procure entender, meu amor.
Resignado, o ex-messias aquiesceu:
— Eu entendo.
Milo não resistiu a fazer-lhe uma rápida carícia no rosto desalentado.
— Ele é criança. Pode ter um pesadelo durante a noite, ir pro meu quarto e... como explicar? Ou pode simplesmente comentar com a mãe que eu e você dormimos no mesmo quarto, na mesma cama...
— Certo, eu entendo. – O ruivo cortou-o, com uma tranquilidade não de todo despida de enfado. – Boa noite, Milo.
O agente o interceptou-o brevemente e sussurrou “te amo”. Sem nada responder, Camus dirigiu-se para o quarto de hóspedes, no qual não dormia fazia duas semanas.
Desde que se tornara amante de Milo.
Ao fechar a porta, nela o jovem se encostou. Levou a mão ao coração.
“E se EU tiver um pesadelo, Milo?”
Deixou os olhos castanho avermelhados vagarem pelo quarto escuro.
— Rada? Algol?...
Esperou alguns segundos.
Nada...
Silêncio.
Meteu-se na cama de uma vez, torcendo para que o sono viesse logo.
*************
À mesma hora em que Milo, Camus e Hyoga assistiram no noticiário noturno às cenas por eles protagonizadas, internos da ala 2 do Presídio de New Hampshire ouviram, com os olhos ainda grudados no telão da sala de TV, a voz monótona de todas as noites no alto-falante do recinto:
— Hora de retornar aos seus aposentos, senhores. Tenham todos uma boa noite. — Certo, não apenas monótona, como também zombeteira.
O tratamento devido àquela escória da sociedade, ninguém discutia, embora disso não se agradasse. Um homem pálido, de longos cabelos negros presos em um firme rabo de cavalo, porém, não dá nenhuma atenção à voz ou ao dito tratamento. Não dá mostras de que se levantará do banco desconfortável como os demais já estão fazendo. Prefere manter os olhos violeta, estreitos, na TV, que só será desligada quando o último dos presos saírem.
As imagens do noticiário o fazem sorrir.
As mensagens faladas alargam seu sorriso.
— É o seu filhinho “Salvador”, né? – Um dos presos atira, rindo debochado.
— Olha só, o “grande Messias” todo apavoradinho no estacionamento de um parque infantil! – Zombou outro, as tatuagens do rosto movendo-se com sua hilaridade.
— É, salvava todo mundo, mas não salva a si próprio de uma dúzia de idiotas!
Risos ecoaram. Nada que atingisse o “Grande Pai”, contudo.
Rejubilava-se pelo PRESENTE que acabara de receber de seu inimigo. Aliás... de SEUS inimigos.
Afinal, não somente Milo Hatzis, também Camus, seu filho, era seu inimigo.
Como nomear alguém que lhe trai de forma tão abjeta?
E aquelas cenas ridículas, pateticamente protagonizadas pelos dois idiotas, testemunhadas por TODO O PAÍS, reforçariam sobremaneira a alegação que consistia no pilar de sua defesa: a de que o policial infiltrado no Vale Aurora do Novo Porvir SEDUZIRA o Redentor, o que culminara na insurreição dentro daquela “pacífica comunidade religiosa, que não fazia mal algum aos que ali, por livre e espontânea vontade, se encontravam”.
Estelionato, lavagem de dinheiro, tráfico de influência, oras... de TODAS essas acusações ele se livrara anteriormente, graças ao seu séquito de advogados renomados e de apoiadores e aliados poderosos.
O que o metera de fato naquela arapuca fora a intervenção de Milo Hatzis na história.
Suas acusações, seus testemunhos, seus contatos com traidores da igreja.
Principalmente, o vídeo por ele feito no maior cerimonial do ano, a Santa Ceia.
Se pudesse negativar o feito de Hatzis, virando contra ELE a acusação do que realmente causara a queda da Aurora do Novo Porvir...
“Um país livre, com plena liberdade religiosa. Nada do que fazíamos era errado, até que a FIGURA CENTRAL de nosso culto se convenceu do contrário... mediante influência de um invasor que o seduziu... e que está COM ELE até hoje...”, raciocinava, rindo baixinho.
— Vamos, Hades, só falta você. – Um guarda sisudo tencionou apressá-lo para deixar a sala.
— Claro, estou indo. – Ergueu-se do assento. Ficou quase tão alto quanto o mais alto dos guardas do lugar, o sudanês Joey, da largura de um armário.
— Parece que ver o seu filho te deixou feliz, hã? Pensei que seria o contrário.
— Oh, não. – Sorriu para o homem. – Eu diria que foi um verdadeiro presente dos céus.
— Se você diz... – O guarda respondeu, dando de ombros.
— Tenha uma boa noite, Joey.
— Você também. Sonhe com os anjos.
O sorriso de Hades alargou-se, mas longe de transmitir simpatia ao sudanês, provocou neste um arrepio inexplicável.
— Sim, Joey, eu certamente irei sonhar com eles... com eles e com um TRONO. Um trono que hei de reaver.
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