Redentor

37 Getsêmani - Ato II : Sombras Em Seu Olhar


Notas iniciais
Hello, peoples do meu kokoro! Desculpem a demora em postar novo capítulo, aqui vai ele... quero agradecer pelo apoio que vêm dando a esta fic, especialmente pelos maravilhosos comentários que coroam o esforço desta que vos fala. Há apenas uma explicação nas notas finais, acerca da pena de morte nos Estados Unidos, pertinente a um determinado diálogo do capítulo. Boa leitura!

Todos aqueles rostos... todas aquelas vozes... brados, gritos, súplicas, impropérios... vindo até ele como ondas de um mar revolto, sempre indo e vindo, constantes, inevitáveis, incessantes.

Não adianta virar-se para o outro lado, tampouco para trás ou voltar a mirar a frente: TODOS permanecem ali. E agora não são só rostos, vozes, brados, gritos, súplicas, impropérios.

Agora são braços, mãos, tentáculos humanos em frenesi, cada vez mais perto, cada vez mais perto...

“Anticristo!”

“Coitado!”

‘Enganou muita gente!”

“O próprio pai enganou ele!”

‘Falso messias!”

“Nós te apoiamos!”

“Canalha!”

“Ele não teve culpa!”

Trêmulo, com o suor a nascer-lhe na têmpora, ele tenta fugir. Em vão: os tentáculos humanos o alcançam, o detêm, o restringem. Assim como sua esperança de escapatória, sua respiração o abandona. Diante dele, uma carroça guiada por colonos, cujos rostos estão cobertos pela sombra dos grandes chapéus de palha, próprios de quem trabalha na terra, para. No interior da caçamba, um enorme urso negro abatido. Coberto de sangue, o animal é retirado da carroça, e para ela ELE, que a tudo assiste atônito, é empurrado. Ele percebe que não há como fugir nem lutar. E percebe, ainda, que na verdade nunca tentou nem uma coisa nem outra.

“Não é verdade! Eu TENTEI, há tempos... não sei quantos anos... foi por isso que ELE matou minha mãe!”

Um homem alto, trajado com uma longa túnica negra, posta-se defronte a ele, que, em vão, cerra os punhos sob ardente revolta.

“Então, Camus, está realmente contra mim?”, o homem indaga, sua voz profunda como um eco longínquo num precipício.

“Você MENTIU para mim! Eu não era quem você dizia que eu era!”

“Oh... então QUEM é você agora, Camus? QUEM?”

Ele leva as mãos aos ouvidos para não ouvir:

“Anticristo!”

“Coitado!”

“Canalha!”

“Ele não teve culpa!”

“Ele é maluco mesmo?”

“Falso messias!”

No rosto pálido do homem que um dia chamou de “Grande Pai” um sorriso impiedoso antecipa a sentença:

— Se você não é o Messias, deve pagar por um dia ter fingido ser.

— Eu NÃO fingi! Eu ACREDITEI, porque você...

Súbito, nada mais saiu de sua boca. Tentou falar, tentou gritar. Som algum, porém, nascia em sua garganta apertada pelo torno da aflição. A agonia dominou-o, ele ajoelhou-se em pânico na carroça.

Tanto sangue.

Sangue em suas mãos.

Sangue do grande urso negro, abatido para salvar os caçadores incautos que com o animal se depararam.

“Não remi o sangue de ninguém, de ninguém!...”, pensava, em desespero.

— Lá está o seu destino final, Camus. – Anunciou o Grande Pai, apontando para o cume de um monte brotando por entre copas frondosas movidas pelo vento.

— Não... não, eu não sou ELE – Balbuciou apavorado, a imagem da Cruz delineando o prenúncio de seu fim.

— Se não é, como impostor, é o que merece!

Para a carroça novamente se precipitaram as mãos, os braços da multidão em alvoroço.

— Não... não me toquem... NÃO... NÃO!!!

Não saberia dizer se aquele grito ecoara no mundo real. Fato era que não estava no Vale da Aurora Dourada, o lugar que um dia fora seu lar, e sim na cama do quarto de hóspedes da casa de Milo.

Seu novo lar.

A respiração pesada, entrecortada, aos poucos ia retomando o ritmo normal. Bem, ao que parecia, ninguém havia acordado com seu grito.

“Talvez eu não tenha gritado”, raciocinou, considerando o silêncio intocado, a porta muda. Suspirou, entre exausto e aliviado. “Que bom. Menos mal. Que eu tenha sonhos é o de menos.”

Foi então que ouviu um ruído baixo. A maçaneta. A porta se abrindo. O quarto estava escuro graças ao blackout fechado, mas por estreitas frestas entre suas bandas, percebia-se que a noite já havia partido. Pôde distinguir a figura de Milo surgir ao pé da cama.

— Milo? Que faz aqui?

O loiro riu da surpresa do amante.

— Bom dia pra você também, Camus.

— Eu... por acaso... acordei você?

— Não – Uma nota de estranheza pontuou a resposta do policial. – Como você teria me acordado, estando aqui? A menos que...

Sentou-se no colchão, tocando de leve o braço do ruivo.

— Camus, teve algum pesadelo?

Com um gesto de negação, o ex-Redentor desvencilhou-se levemente daquele toque. Temia que seu tremor residual fosse notado.

— Responde, Camus!

— Eu estava dormindo, Milo. – Não era de todo mentira, por isso, não se importou em desse modo responder. Mesmo na penumbra, foi capaz de distinguir a preocupação no semblante do amado.

— Sabe que pode confiar em mim. Tem que me dizer se...

— Já está na hora de eu levantar?

— Não. Ainda é cedo. Só... vim ver como você estava.

— Estou bem. – Camus voltou a deitar, de bruços, agarrando os travesseiros.

— Sentiu saudade de mim? – Perguntou o loiro, com voz manhosa, enquanto pousava a mão sobre as costas de Camus.

— Por que eu sentiria saudade de você? Não foi a lugar nenhum.

Milo riu baixinho, encantado com a inocência do jovem.

— Não é desse tipo de “saudade” que tô falando... – Sussurrou-lhe ao ouvido. As carícias nas costas do ruivo foram se deslocando para a cintura, os quadris... os dedos do agente se insinuaram por debaixo da camisa do pijama do ruivo.

— Então, de que tipo? – Quis saber Camus, em meio a um arrepio.

— Hum, será que você está insensível hoje? Tá parecendo...

Sem compreender a que o namorado se referia, o ex-messias suprimiu um suspiro ao ter a orelha envolvida pela boca úmida do amante. Este pôs-se a apalpar-lhe, com malícia, as nádegas.

— Milo, o que está fazendo?

— Bom, se você não sentiu saudade de mim, saiba que eu senti de você...

Ainda de bruços e decidido a não se mover, Camus sentiu as mãos do policial abaixar-lhe a calça de moletom. Teve um leve sobressalto quando os dedos de Milo deslizaram por entre suas pernas. Tentou fechá-las, mas o companheiro já ali fincaram seus dígitos desbravadores.

— Milo, não! Não podemos fazer isso...

— Por que não?

Camus olhou-o, completamente estupefato.

— Porque VOCÊ disse que não podíamos...! O seu... o seu filho...

— Hyoga tá dormindo, não são nem sete horas ainda... eu tranquei a porta ao entrar aqui, amor... – Argumentava, em meio às incessantes tentativas de excitar o parceiro. Ao contrário do que poderia imaginar, o ex-Redentor quis afastá-lo de si.

— O que você tem? – Murmurou Milo, tentando deitar sobre ele. Deu um risinho malicioso. – Já sei, tá bravo porque não dormimos juntos, né?

— Sua lógica me confunde – Rebateu Camus, em tom gélido. – Não pôde passar a noite comigo, mas pode vir ao quarto de hóspedes ao amanhecer para ter relações comigo.

Boquiaberto, o policial encarou-o por uns segundos antes de responder:

— Há uma diferença entre passarmos a noite inteira no meu quarto e a gente “dar uma rapidinha” aqui antes do meu filho acordar. Em qual situação você acha que é mais fácil pra ele descobrir que estamos juntos e contar pra Natassia?

— Não sei, Milo. Não importa, de qualquer maneira.

— Camus?

O ruivo saiu de baixo do amante e ergueu meio corpo. Declarou à queima-roupa:

— Não vai acontecer.

— O quê?

— Se não era conveniente que dormisse comigo, tampouco é propício que façamos amor agora.

— Camus... não tô te entendendo, juro! – Ergueu os braços para o namorado, agarrando-o e trazendo-o de volta para junto de seu corpo sequioso de contato. Beijava-o vorazmente, passando as mãos pelo corpo quente porém resistente. Quando alcançou o sexo do parceiro, este proferiu em um murmúrio frio e desapaixonado:

— Não vou fazer nada com você, Milo, a menos que ME FORCE.

O efeito daquelas palavras foi imediato como um soco na boca do estômago. Estupefato, Milo desprendeu-se dele. Sentado no colchão, viu o outro recostar-se na parede e fitá-lo com uma expressão assustadoramente desconhecida.

A despeito do tom de seu discurso, o semblante do ex-messias revelava-se provocador... de uma forma sombria, quase desafiadora.

— Camus, em nome de DEUS, que DIABOS tá dizendo? – Tartamudeou.

— Isso mesmo que ouviu. – E ergueu o queixo, altivo. Separou os joelhos, abrindo bem as pernas. – Se quiser fazer algo comigo, terá de ser À FORÇA.

Totalmente aturdido, Milo afastou-se de vez, um silêncio de pasmo a silenciar-lhe a voz. Pareceu-lhe ver sombras no olhar de Camus... sombras que nunca estiveram ali.

Ou que, pelo menos, nunca haviam se revelado daquela forma...

Por fim, o loiro levantou-se da cama. Encarou fixamente o amado ao sentenciar:

— Sabe que eu NUNCA te forçaria a nada.

— NUNCA?

— Nunca. – O policial usou de toda sua força interna para não perder a fala ante aquela réplica, que foi como uma seta em seu peito. – Eu não tenho a menor ideia do que se passou nessa sua cabeça...

Calou-se, de súbito. Algo emaranhava-se em sua garganta. Temeu chorar. Então, forçando-se a agir de modo comedido, falou simplesmente:

— Olha. Quer saber? Eu vou preparar o café. Dorme um pouco mais, vai.

Ao vê-lo desconcertado daquele jeito, Camus sentiu uma pontada no coração. Pensou em algo para dizer, mas o outro já se retirava do quarto. Chegou a abrir a boca para chamá-lo de volta, a mão suspensa no ar em um apelo que nunca se concretizou. Ouviu a porta se fechar, e foi se o novo mundo se fechasse para ele.

Como se o tampo de um túmulo roubasse-lhe pouco a pouco a luz do dia.

“Milo”, seus lábios se moveram sem som.

— “Nunca te forçaria a nada”, que balela! Você acredita nessa?

Assustado, Camus virou-se para o autor da fala. Ali estava, sentado na poltrona de forro aveludado, pernas cruzadas, olhar inquisitivo, perscrutador.

— Rada – Murmurou o ruivo, aturdido.

— Hunf. “Não te forçaria a nada”, mas te forçou a passar uma noite em total solidão, hã?

— Algol – Sussurrou Camus, vendo o outro irmão em pé, à sua esquerda.

— Foi por causa dele que você acabou tendo um pesadelo. Porque ele te deixou sozinho.

— Ele não fez por mal, Rada. – Sem perceber, o ex-Redentor defendeu o namorado.

— Bom, e isso fez alguma maldita diferença, por acaso? – O caçula respondeu pelo mais velho.

— E ele nem ao menos percebeu que você estava atormentado, Camus. Sabe por quê?

— São duas respostas, não são, Rada?

Atônito, Camus, já de pé, mirava os irmãos, que, muito à vontade vieram sentar-se em sua cama. Usavam as roupas casuais do dia a dia, calças jeans e camisas de flanela quadriculadas.

— São sim, Algol. – Confirmou o primogênito, mostrando o indicador e o médio.

Camus viu os olhos de âmbar flamejante fixos nos seus durante a lenta exposição.

— Uma: porque ele não se importa. Tudo que queria, como sempre quis e SEMPRE quer, é o SEU CORPO.

— Isso não é verdade – Balbuciou o ex-messias, tentado a sentar-se novamente devido à fraqueza repentina que amolecia-lhe as pernas.

— A gente nem pode criticá-lo tanto, Rada. É TUDO que sempre foi o que importava no Camus... o CORPO dele.

— Parem – O ruivo pediu, levando as mãos aos ouvidos.

— “Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós...”

— PAREM!!!

Radamanthys considerou-o com gravidade ao prosseguir:

— E a outra resposta é... porque ele NÃO TE AMA.

— Não, isso é mentira! Ele me ama SIM – Ainda em voz baixa e angustiada, Camus rebatia.

— Se ele só quer o teu corpo, de que forma pode te amar?

— Vocês, sim, não me amavam! – O ex-Redentor tinha a voz embargada, o tom mais elevado que há alguns instantes.

Para conter-se, levou as mãos à boca e soluçou alto, imerso em uma angústia que parecia arrebatá-lo. Fechou os olhos com força, surpreso por nenhuma lágrima vir atenuar aquele ardor em suas órbitas. Quando os abriu, viu-se novamente só.

— Rada? Algol?

Por que os chamava?

Arrependeu-se de o fazer. Fora um mero impulso. De qualquer modo, de nada servira: ambos haviam desaparecido, da mesma forma como haviam surgido.

“Mas estou ACORDADO. Desta vez, é certo que eu NÃO estava dormindo. E, se eu estava dormindo...”

Não.

Nada daquilo havia sido real.

Sua PRÓPRIA vida não havia sido real.

Por que Rada e Algol haveriam de ser?

“Estão mortos. Meus irmãos... estão mortos.”

Eles NUNCA o amaram!

Com que direito afirmavam que Milo...

“Milo”, seu coração comprimiu-se dolorosamente em seu peito.

Milo sim era REAL! E o amava!

Livrara-o da dor.

Como poderia esquecer?

Todos os dias. TODOS OS DIAS. Sua função como Messias tinha sido PADECER. EXPIAR. SOFRER. E Milo o livrara daquela sina!

Súbito, dirigiu-se para o banheiro. Depois de usar a suíte, deixou o quarto sem mudar a roupa com que dormira, o pijama de moletom verde-claro. Limitou-se a prender os cabelos em um rabo de cavalo. Rumou para a cozinha, onde um Milo repleto de pensamentos difusos ocupava-se de preparar a refeição matinal. O policial tentava avidamente sondar as razões de Camus o haver rejeitado.

“Ele ficou chateado porque não o deixei passar a noite comigo. Pensei que pudesse ter sido por algum tipo de capricho, mas... Camus lá tem caprichos? Nunca os pode ter… não deve nem saber o que é isso. Será que... ah, meu Deus, será que teve alguma crise? Ou... algum sonho... um pesadelo?”

Seus pensamentos chocavam-se como mariposas ao redor do lume, quando viu o ruivo à porta da cozinha. Ouviu-o indagar, timidamente:

— Quer ajuda?

Foi irresistível a Milo uma reação um tanto seca àquele oferecimento:

— Não precisa, você pode voltar a dormir.

“Que merda, tô sendo infantil”, pensou, sem, contudo, poder alterar a atitude.

— Se é tão cedo, por que está preparando o desjejum?

— Credo, tem que usar linguagem do século XII? – Voltou a prestar atenção no que fazia: batia uma certa massa clara e lisa. – Porque hoje tô fazendo uma parada diferente de panquecas... é mais demorado.

— Deve haver algo que eu possa fazer...

— Não, não tem. – Forçou um tom menos duro. – Obrigado por oferecer.

Hesitante, o ruivo deu uns passos dentro da cozinha. A postura retraída traía a firmeza da sua fala:

— Me desculpe.

O policial parou de bater a massa; descansou o fouet na tigela e suspirou antes de virar para o namorado:

— Por que você tá me pedindo desculpa?

— Você sabe – Foi o máximo que o ex-messias pôde responder. Baixou o olhar ao sentir o de Milo sobre si.

— Escuta, EU é que devo te pedir desculpas. – Volveu o agente, sincero. – Fui um idiota contigo.

— Não, não foi n...

— Fui sim, não negue. Eu não tava raciocinando. Ao menos... – Baixou a voz ainda mais. – não com a “cabeça de cima”.

— Hã?

— Esquece – Milo balançou a cabeça, displicente. – Não foi legal o que eu fiz. Peço desculpas. Eu só... só tava muito... ah, eu fui um idiota, um babaca, pronto.

— Talvez tenha sido um pouco – Admitiu o ruivo, mais seguro e quase dando de ombros. – Mas eu exagerei também. Acredito que estejamos quites.

A mão do policial largou de vez os utensílios culinários e dirigiu-se ao rosto do amado, com extrema suavidade.

— Camus, eu NUNCA te forçaria a NADA.

— Eu sei.

— Me ASSUSTOU ouvir aquilo de você. – Confessou, com o olhar triste.

— Desculpe... é que...

— O quê? – A impaciência de Milo simplesmente impediu-o de esperar. – O que houve pra você ter falado aquelas coisas?

— Eu não sei – O ruivo afastou-se de seu toque, voltando a fugir-lhe do olhar.

— Foi porque não passei a noite contigo, mas de manhã cedo tava lá no quarto de hóspedes que nem um tarado querendo...?

— Não, não. Bem talvez.

Ambos silenciaram-se por uns instantes. O que rompeu o silêncio foi uma pergunta surpreendente de Camus:

— Você me ama de verdade?

Os olhos azuis arregalaram-se.

— Mas é CLARO, Camus! Por que tá me perguntando isso?

— Porque eles...

Calou-se, resistindo ao impulso de levar a mão à boca. Surpreso, o loiro adiantou-se:

— “Eles”? “Eles” QUEM, Camus?

— N-não... não é nada...

— Você disse “porque eles”, eles QUEM? Tem relação com essa sua pergunta? – Tomou o companheiro pelos pulsos ao lhe perceber a tentativa de escapar.

— Não é nada, já disse!

— Por que você continua me escondendo as coisas, Camus? Por que não pode confiar em mim?

— Eu confio! É que...

— Pai?

Ao ouvir a voz do filho, o policial prontamente soltou os pulsos do amante. Hyoga surgiu à porta da cozinha, sonolento, esfregando os olhinhos sob a franja bagunçada.

— Hyoga! – Sorriu, quase forçado. – Já de pé, meu filho?

O menino intercalou o olhar interrogativo entre o pai e o ex-messias.

— Tá tudo bem? – Perguntou, desconfiado.

— Tá, tá sim! É que o Camus foi me ajudar e – Apressou-se a explicar. – achei que ele tivesse se cortado.

Aquela resposta não convenceu verdadeiramente a criança. Entretanto, como os adultos estivessem conversando em voz baixa, quase sussurrada, enquanto ele se dirigia à cozinha, de fato não pôde desvendar o que diziam antes de sua chegada.

Mas ouvira Camus dizer “Eu confio!”

— E ele se cortou?

— Não, não, alarme falso – Garantiu-lhe o pai.

Incomodado com o próprio silêncio, Camus ajuntou:

— É, está tudo bem. Não me cortei.

— Ah, que bom... – O menino sequer se preocupou em disfarçar a desconfiança no tom. Sabia, porém, que seria inútil insistir, adultos eram cheios de segredinhos, e ali certamente havia algum.

— Por que você e o Camus não vão assistir um pouco de TV enquanto termino aqui? Já já chamo vocês pra mesa.

O garotinho concordou:

— Tá bom. Camus, vem, tá na hora dos desenhos no canal 12.

Resignado, o ruivo assentiu e acompanhou a criança. Entretanto, embora tivesse o olhar fixo na tela, nada absorvia. Pensava em Milo, em Rada, em Algol, em Hades...

Hyoga percebeu que o rapaz, enquanto abaixava a cabeça, levava a mão à fronte.

— Camus? Cê tá legal?

— Hã? Ah, sim! – Procurou se recompor. Até forçou um sorriso. – Estou sim!

— Tá com sono ainda?

— Hã... é... é, um pouco.

— Eu também. Mas tô doido pra ir pra casa do tio Saga. Lá é mó legal! Tem mó piscinão com trampolim, tobogã, cascata! Você gosta de nadar?

— Eu gosto de ficar na água.

— Não me diga, já sei: você não sabe nadar.

O ruivo balançou a cabeça em uma resignada negativa.

— Taí uma coisa que todo mundo tem que saber fazer, Camus – O garotinho afirmou, sério. – Ou você entra em uma aula de natação ou pede pro meu pai te ensinar. Não pode é ficar sem saber!

— Por quê?

— Hah! – Exclamou o loirinho, com ar de quem se prepara para explicar a coisa mais óbvia do mundo. – Cara, se tiver uma inundação? E se você estiver num navio e ele começar a afundar? E se...

— Hyoga – Camus cortou-o, lembrando-se de algo sobre o qual queria realmente saber desde a véspera. – Ontem, você me disse que sua mãe acha que sou mau. Por quê? Por que ela acha isso?

O menino não deu qualquer sinal de que aquela interrupção o incomodara. Tanto que sua resposta foi imediata:

— Ela diz que, geralmente, pessoas que são más ficaram assim porque foram muito maltratadas quando eram crianças. Ou era o contrário, que quem sofreu muito na infância pode ficar mau, não lembro muito bem. – Encarou o jovem, que o fitava boquiaberto. –Minha mãe acha que, por você ter sofrido tanto, podia ter ficado mau.

— Oh. – Murmurou o ex-Redentor, sem encontrar o que dizer. Não seria mesmo necessário, pois Hyoga arrematou, com um sorriso luminoso e puro:

— Mas é ELA que acha isso. Eu SEI que você NÃO é mau.

“E COMO você acha que não sou mau?”, Camus esteve a ponto de perguntar.

Sentiu-se mau ao desafiar Milo.

“Terá de me possuir À FORÇA.”

Algo de mau correu em suas veias.

Em seu coração.

Desejou algo mau, quando abriu as pernas e desafiou o policial a...

Sacudiu a cabeça e agradeceu, sorrindo:

— Obrigado, Hyoga. Você é um garoto... muito legal.

— Mas, Camus, me diz, você odeia o seu pai? Por tudo que ele te fez?

O jovem uniu as mãos e para elas dirigiu o olhar fixo ao responder:

— Eu não gostava de SEMPRE ter que sentir dor. Mas eu acreditava que era meu destino... meu dever. Meu pai dizia que, como o Messias desta era, meu sofrimento salvaria milhões de pessoas.

— Mas agora você SABE que era tudo mentira dele, né?

Os lábios do ruivo comprimiram-se. Ele sabia?

Bem, na verdade, sabia porque assim lhe contaram.

Era tudo tão estranho. Novo. Recente. Aquela verdade era recente!

Não sabia ao certo o que sentir.

Sua vida, contaram-lhe, havia sido uma mentira.

Seus sentimentos sequer estavam plenamente moldados.

Sentia como se tivesse um ídolo de barro e não um ser um humano com emoções e pensamentos próprios.

Um ídolo de barro que tinha caído em um lago e vinha pouco a pouco se dissolvendo pela ação da água.

— Eu... eu fico triste porque ele mentiu para mim e para tantas pessoas...

— Triste?!? – Espantou-se Hyoga. – Eu, no teu lugar, iria querer MATAR ele! Bom, claro que você não pode matar ele, mas devia desejar que ele morresse!

— Como eu posso desejar a morte de alguém?

— Camus, teu pai te manteve preso a vida toda! Ele te fazia passar por um monte de coisas ruins! Ele... ele até fez pessoas transar com você!

O termo não era desconhecido do jovem, ouvira-o na TV em alguns momentos e soubera-lhe o significado pelo contexto. Por isso, corou até a raiz dos cabelos, mas, curiosamente, nem tanto pela menção do ato, e sim porque quem a fizera fora uma criança.

— Não sabia que meninos da sua idade podiam falar sobre isso.

— Ah, fala sério! – Riu o loirinho. Porém, logo recobrou o ar indignado. – Olha, é uma coisa que todas notícias sempre falam, acho que pra mostrar como seu pai foi um total demônio. Pô, teu pai é o cara mais filho da puta do mundo. Eu tô torcendo pra ele pegar pena de morte!

— Pena de morte – Camus repetiu, como em um transe.

Radamanthys, Algol, Pandora, Ikki, Shun, Chrysaor, dentre tantos – soube que vários servos leais a Hades haviam cometido suicídio quando da queda da igreja – tiveram suas “penas de morte”.

— Pessoal, tá na mesa! – Da porta da cozinha Milo anunciou bem alto. Os dois atenderam ao chamado.

Sobre a mesa, ovos mexidos com bacon, café, leite, torradas, suco de laranja e...

— Que é isso? – Hyoga não demorou a perguntar, apontando uma travessa repleta de uns quitutes desconhecidos.

— Ravanies. Os doces gregos de que Camus falou lá no Aquário... que fiz pra ele na comunidade. – Respondeu o policial, o avental de caveiras sujo de farinha e massa.

— Você preparou... – O ruivo murmurou, em meio a doces lembranças, as PRIMEIRAS lembranças BOAS de sua vida quando Redentor.

Milo balançou o indicativo em uma enérgica negativa diante do rosto surpresa do namorado.

— Não fica muito emocionado não, porque não ficaram bons como aqueles... aquilo lá foi sorte de principiante. – E sinalizou para que os dois se sentassem à mesa. – Mas deve dar pro gasto!

Não foi a opinião de Camus, tampouco de Hyoga: ambos apreciaram bastante os bolinhos. O menino chegou a sugerir:

— Pai, cê podia fazer mais isto em vez de panquecas!

— Por quê? Agora minhas panquecas são ruins? – Fez uma careta cômica.

— Nãão! – Riu o loirinho. – Mas isto é mais gostoso... e diferente!

— É, mas dá mais trabalho! – Simulou um muxoxo, por dentro extremamente feliz pela aprovação do filho. E ver o semblante satisfeito de Camus era a cereja do bolo daquele belo momento.

Cerca de duas horas depois, quando estavam prestes a deixar o apartamento, o celular de Milo tocou. O policial disfarçou o desagrado ante o nome que apareceu no visor.

— Rapazes, podem esperar um pouquinho? Ligação de trabalho... – Mentiu. – volto já!

Foi para o quarto; Hyoga deu de ombros e decidiu “melhorar o disfarce” de Camus.

— Tá certo que vamos direto pra casa do tio Saga, mas melhor não dar bobeira. Senta aqui no sofá. — Ordenou.

Ante a expressão interrogativa do jovem, o menino esclareceu, com ar condescendente:

— Eu não alcanço você, tu é quase tão alto quanto meu pai.

Camus obedeceu-o, consciente de que não havia como não o fazer... Hyoga enrolou os cabelos presos até ficarem como um enorme coque bem mal feito. Enfiou a touca de lã preta até quase os olhos do pobre rapaz. Em seguida, puxou-lhe a gola da jaqueta de brim preta mais para cima.

— Tó, coloca estes óculos escuros. Peguei no quarto do meu pai.

— Mas... ficou tudo escuro! – Exclamou o ex-Redentor, que nunca havia usado o acessório.

— Você se acostuma, não é como ficar cego, vai. Agora... o toque final... fica BEM QUIETO.

Tirou do bolso do casaco duas canetinhas do tipo hidrocor, uma preta e uma vermelha.

A salvo dos ouvidos dos dois, Milo falava, postado à janela:

— Até que você demorou a ligar, Natasha.

— Cinismo no lugar de um civilizado “bom dia”, típico de você. Ou, pelo menos, do Milo dos velhos tempos, já que andam dizendo que você mudou. – Ela tratou de frisar a última palavra para conferir o tom duvidoso.

— Hã? Quem é que diz isso?

Um suspiro exasperado se fez ouvir.

— Não importa. O que interessa é que estou indo aí, agora mesmo, para buscar o Hyoga.

Foi com extremo esforço que o policial controlou o volume da voz indignada:

— Quê? Sem essa, Natassia, a gente tá de saída neste exato momento!

— Ah, é? Vai levar o meu filho pro meio de multidões de curiosos malucos de que lugar, desta vez?

Em uma árdua batalha para não ceder à provocação da ex-esposa, o agente massageou por entre os olhos cerrados. Inspirou longamente o ar fresco daquela manhã parcialmente encoberta por nuvens prateadas.

— Certo, você viu a confusão no noticiário... fique tranquila, hoje não vamos a nenhum lugar do tipo. – Assegurou calmamente. – Vamos para a casa do Saga. Estaremos só entre amigos. Vamos fazer churrasco, ficar na piscina e coisa e tal, distrações longe de locais públicos.

— Você não percebe que pôs nosso filho em uma situação de RISCO? E tudo por causa desse MANÍACO que você levou pra morar contigo?

— Eu NÃO pus Hyoga em situação de...

— Ah, não? E se um daqueles encrenqueiros começasse a atirar coisas contra o DEMENTE, o qual você cisma em deixar perto do meu filho?

— Pra começar, PARA de usar esses nomes pro Camus. E deixa de drama, ninguém atirou nada contra nós, Hyoga não correu perigo algum. – Imprimiu à voz uma convicção de que, de fato, não dispunha em sua totalidade. – Foi uma situação desagradável, culpa minha sim, mas NÃO vai se repetir. Por um tempo, não iremos frequentar locais públicos assim.

— “Por um tempo”? Milo, por acaso você pensa em deixar esse... esse homem morando em sua casa até quando? Do jeito que fala, dá a entender que ele não sai daí tão cedo.

— Não posso precisar por quanto tempo ele fica aqui, Natassia, é só por isso que me expressei assim. – Buscou uma evasiva. – Olha, vai dar tudo certo hoje, tá? Hyoga tá super animado com o churrasco e a piscina, não estraga o dia dele... por favor.

A dureza no tom da russa pareceu amainar com o pedido. No entanto, não foi sem uma ponta de ressentimento que ela falou:

— Hunf. Pelo visto, virei persona non grata no clubinho. Saga podia ter me convidado, ele é meu amigo também, e Shura já lhe prestou consultoria mais de uma vez...

Milo não conteve um suspiro pesaroso antes de argumentar:

— Natassia... nós sabemos que, se o Camus estiver lá, não tem como VOCÊ estar também...

— Ei, ei. Nossa. Eu não mordo não, tá? Não está mais aqui quem falou. Esqueci que o seu HÓSPEDE é feito de cristal...

— Por que não para de falar assim dele? Você tem visto as matérias, as reportagens, não te desperta nem um pingo de HUMANIDADE? Além do mais, Hyoga e ele estão se dando tão bem! Se você soubesse o como...

— Não quero saber, porque na verdade nem queria que isso estivesse acontecendo. — Interrompeu, quase ríspida. E, voltando a um tom mais sereno — Bom, se você garante que ficará de olho... que é seguro...

— Eu prometo.

— Tudo bem. Amanhã de manhã passo aí... digo... EM SUA PORTARIA – Fez questão de enfatizar – para buscá-lo.

Ao término daquele telefonema, Milo chegou a dizer “obrigado”. Retornou para a sala e levou um susto com a nova aparência de Camus. Ao reparar que não lhe faltou nem um bigode preto desenhado sob o nariz, nem pintinhas vermelhas nas bochechas enrubescidas, soltou uma gargalhada. Assim que conseguiu controlar o riso, disse:

— Certo, vamos assim mesmo, ou nos atrasaremos. Você se limpa lá no Saga.

— Agora você aprendeu como se disfarça alguém, né, pai. – E, para um calado Camus: – Não sei como ele virou detetive se nem sabe fazer isso direito.

*************

As nuvens cediam pouco a pouco espaço àquele sol frágil do outono que avançava. Por sorte, a piscina de Saga era aquecida. Hyoga não parava de subir e descer do tobogã, e, em vão, tentava convencer Camus a fazer o mesmo. O ruivo nunca tinha visto aquilo, não tinha segurança para fazer o mesmo que o menino fazia, aos gritos de convite e risos. Ao chegar à água, o loirinho atirava-se na direção de Camus. Marin, noiva de Aiolia, é que ajudava o rapaz a não ser o brinquedo permanente da incansável criança. Conforme planejado pelo mesmo, brincaram de “tubarão”, o que, depois de algum tempo, chegou mesmo a arrancar sorrisos do ex-Redentor. Jogavam água um no outro, Saori a eles se juntando, os longos cabelos, presos em um firme coque. O de Camus há muito havia se desfeito, não que, àquela altura, aquilo o atrapalhasse.

Debaixo de um imenso guarda-sol, Milo, Aiolia, Aiolos e Saga observavam sorridentes a animação na piscina, enquanto bebiam cervejas. A churrasqueira, a cargo do promotor, estava repleta de carnes, salsichas e hambúrgueres, os quais de quando em quando ele ia diligentemente vigiar e virar. Algumas folhas marrons e avermelhadas precipitavam-se suavemente das árvores que rodeavam a área de lazer da bela residência.

— E aí, Milo, não quer ir lá se juntar a eles?

— Não tô a fim de molhar o cabelo, leãozinho – Respondeu o loiro, sem tirar os olhos brilhantes do namorado. Ele estava tão lindo, os longos cabelos molhados e colados na pele branca, o sorriso iluminado liberto como poucas vezes vira. Apesar de ter escolhido para si uma sunga preta, deu um short mais comportado para Camus usar, na mesma cor. – Além do mais, eu tô sempre grudado no Camus, deixa ele se divertir com os novos amigos um pouco, né?

O primo fez uma careta trocista.

— Faço uma ideia de como você tá “sempre grudado no Camus”, hehehehe...

— Ô cabecinha suja, depois o mau moço da família sou eu...

— Mas, sabe, sério, tô impressionado com a mudança do ruivo. O cara parecia um caramujo!

— Que comparação, Olia... – Riu Milo.

— Olia, não tinha como o coitado ser diferente – Volveu o irmão deste, servindo-se da piña colada oferecida pelo namorado. – imagine, passar por aquele inferno por anos a fio, achando que era o destino e o dever dele, sofrendo todo aquele condicionamento, feito pelo próprio pai...

— E de repente, ser arrancado daquela realidade para, em seguida, se deparar com revelações que simplesmente anularam tudo que ele tinha sido até então. – Completou Saga, reflexivo. Milo assentiu:

—Na certa, muito da melhora do Camus se deve às sessões com a Sao. Ela diz que ele tem se aberto mais a cada semana.

— Terapia é essencial. Acolhimento, amizade, empatia, porém, certamente fazem parte da receita dessa “evolução” dele.

— Faltou a palavra “amor” nesse seu discurso bonito aí, maninho – Brincou Aiolia, ao mesmo tempo em que dava cotoveladas em Milo. Este riu, outra vez tornando o olhar terno para o rosto do amado, erguido para o sol, repleto de uma alegria nova.

— Milo, ele tá usando bloqueador solar, né? O cara é até mais branco que a Marin, meu pai!

A referida moça, que trazia-lhes alguns petiscos em uma travessa, deu um tapinha na cabeça do distraído noivo.

— Isso lá é jeito de falar da sua futura esposa, senhor Aiolia Hatzis?

Prontamente ele puxou-a pela mão e ali depositou um sem número de beijos enquanto se emendava:

— Não foi ofensa, amor, eu adoro essa sua pele branquinha de princesa de contos de fadas!

— Seu bobo... olha, a Saori também é bem branquinha – Apontou para a psicóloga, que saía da água, elegante como uma modelo internacional em seu maiô drapeado branco.

— Quem anda de olho nela é o Kanon, tá sabendo? – Disse um gaiato Aiolia, entre dentes.

— NÃO ACREDITO! – Exclamaram todos, menos Saga, assentindo com ar contrafeito.

— É como dizem, “sonhar é bom e é de graça”... – Chasqueou Milo.

— Deixa só ele saber que você disse isso.

— Cê não precisa dizer, Saga.

— Eu não escondo nada do meu irmão.

— E ele, vem ou não vem? – Marin indagou, já na esperança de ver a amiga “se acertando” com alguém.

Saga suspirou.

— Disse que vinha, mas... bem capaz de estar dormindo ou com uma ressaca daquelas. Ele consegue ser tão baladeiro quanto o Milo.

— Eeeei, não sou mais assim!

— Claro, até que nisso você mudou: primeiro, pela missão; depois, por estar namorando o "Redentor"... – Riu o promotor, levantando-se para ir ver a churrasqueira. Voltou para a mesa.

— Agora não deve demorar muito mais pra gente almoçar. – Anunciou, trazendo mais cervejas para os amigos.

— Senta, baby, você não para, eu vejo isso pra você – Disse Aiolos, atencioso.

— Gente, que loucura foi aquela lá no Aquário, hein?

— Nem me fale, Marin. – Concordou Milo. – Te confesso que foi meio assustador. Tive medo pelo Hyoga e pelo Camus.

— Hyoga se saiu muito bem, a gente viu pelas imagens! – Riu Aiolia. – O garoto tem fibra. Vai ser mais durão que você, Milo!

— Hunf, quer saber? Acho que ele já é!

Sério, Saga fitou o amigo.

— E como o Camus ficou depois da confusão?

O semblante de Milo anuviou-se de repente.

— Fechado. Distante. Obviamente foi péssimo pra ele, embora tenha me dito que tava tudo bem.

— Obviamente NÃO estava tudo bem. Ele ao menos dormiu bem?

Incomodado, Milo constatou que não podia responder a Saga, uma vez que deixou o namorado dormir sozinho.

SOZINHO.

Logo depois de uma coisa daquelas ter acontecido!

Somente naquele momento percebeu o quanto equivocada poderia ter sido aquela decisão. Absteve-se, entretanto, de o revelar aos companheiros.

— Parece que sim. – Respondeu, sem conseguir o tom convincente que pretendeu.

— Você não sabe?

Foi Saori, que pegou o diálogo na parte em que falava do ex-messias, quem perguntou. Constrangido, Milo desviou o olhar dela ao responder:

— Olha, Hyoga tá lá em casa, né? Não dava pro Camus dormir no quarto comigo.

A psicóloga balançou a cabeça.

— Compreendo, mas não deve ter sido fácil para ele passar a noite sozinho, depois de ele ter vivenciado aquela situação no estacionamento. – Observou a moça, séria.

— É, agora eu vejo isso...

Ele preferiu nem rebater Aiolia, que deixou escapar à meia-voz “oh, merda, o Milo não tem jeito...”.

— Milo, ele relatou certas... perturbações noturnas. – Saori revelou, cautelosa.

Antes que ele pudesse rebater, Saga saiu em seu auxílio:

— Mas Milo agiu certo, ninguém, além de nós, pode saber que ele está tendo um “caso” com o “Redentor”.

Milo franziu as sobrancelhas.

— Não é um “caso”, Saga!

— Me desculpe o termo, mas é assim que as pessoas irão interpretar.

Um silêncio constrangedor pairou sobre os amigos, até que Aiolos, observador, lembrou:

— De mais a mais, o que aconteceu ontem pode favorecer a defesa. Não precisamos de uma revelação como o “caso” entre o policial que desmantelou a seita e a figura central da dita seita. Isso pode complicar as coisas para o nosso lado.

Um manto gélido de apreensão cobriu o coração de Milo. Ele, Aiolia, Saori e Marin cravaram os olhares mais que curiosos, ansiosos, no marido do líder da operação. Este preferiu dar a palavra a Saga e se retirar para verificar a churrasqueira. Saga uniu as mãos sobre a mesa e elucidou:

— A defesa certamente alegará que você, Milo, influenciou o Camus. Que não foi voluntária a insurreição dele contra o pai, Hades, e todo aquele circo montado por anos.

— Por isso não podem nem sonhar que o Milo tá pegando o cara, né?

— Olia, não fala assim, eu não tô “pegando” ele, eu tô namorando ele!

Saori emendou:

— A bem dizer, não tive bons pressentimentos ao ver o noticiário. Você se expôs muito, Milo. Estava ABRAÇANDO o homem conhecido como o Redentor da seita que você destruiu.

Gesticulando, o policial se defendeu:

— Eu tava só PROTEGENDO ele! Aqueles malucos começaram a fechar o cerco de uma forma que, devo dizer, pareceu AMEAÇADORA... e outra, ele tava paralisado, se eu não o tivesse puxado, Camus não sairia dali!

— Fala baixo – Alertou Saga. Todos olharam para a piscina: Camus e Hyoga ainda brincavam na piscina, o menino finalmente convencera o amigo mais velho a experimentar o tobogã.

— O que está feito, está feito. – Disse o promotor gravemente. – Foi a solução encontrada na hora. Como você disse, já tinha levado ele a locais públicos antes e nada de errado tinha acontecido.

— O mais provável é que as pessoas tenham reconhecido A MIM, e não a ele, que estava disfarçado. – Admitiu Milo desalentado. – Tomamos os cuidados de sempre, com a aparência dele, mas não me liguei que esta minha cara maravilhosa estava aparecendo direto nas notícias e reportagens sobre o caso.

Saori não quis cerveja, mas aceitou um drink que Aiolos preparara para as moças, com vodca e morangos. Após dois goles generosos, ela se permitiu apontar:

— Esta semana, Camus deverá prestar o último depoimento antes do julgamento. Ele também terá de se submeter a alguns exames. Não serão dias muito tranquilos para ele.

Nada animado, Milo assentiu. Virou-se para o líder da operação:

— Saga, por falar em exames... e o resultado das “lágrimas de sangue”?

— Isso também será oficializado e anexado aos laudos pertinentes ao processo esta semana. – Fez uma pausa significativa. – Sua roupa estava em condições bem ruins, mas, no fim, deu POSITIVO.

Todos se entreolharam abismados.

— Era sangue mesmo? – Indagou Marin.

— Sim. Camus chorava SANGUE DE VERDADE. Meio como o que vemos na Bíblia, Jesus transpirando sangue.

— Eu SABIA que Camus não simularia nada, ele não mentia sobre NADA, mas... achava que pudesse ser algum truque orquestrado por Hades ou seus assessores. – Adiantou Milo.

— Mas como isso era possível? – Disse a ruiva, admirada. Ouvira o noivo contar, sem ter podido acreditar.

— Hemolacria – Disse o promotor. – É uma condição rara, ainda não plenamente explicada pela Medicina, mas parece estar ligada a alterações hormonais. Sabemos que Camus esteve submetido a dietas extremamente restritivas desde tenra idade, seja pela alimentação controlada, seja pelos constantes jejuns impostos, e a níveis de estresse inimagináveis, o que poderia ter potencializado uma condição já predisposta, em virtude dessas ditas restrições. São, claro, suposições, visto que a própria causa da hemolacria não tem um consenso. O certo é que... sim, Camus chorava, de fato, lágrimas de sangue.

Milo virou a cerveja e, ao verificar que a long neck estava vazia, disse:

— Preciso de algo mais forte, pelo amor de Deus.

Marin cuidou de ir pegar uma garrafa de uísque, prontamente aceita por Aiolia também. Saori, sorvendo seu drink, não pôde deixar de comentar, tocada:

— Embora consciente de que tudo era algo normal para ele, pois que era sua missão, Camus NÃO estava em paz nas condições em que vivia. Era uma pessoa explorada, abusada, que, apesar de resignada com o que PENSAVA ser seu destino, sofria terrivelmente... a ponto de chorar lágrimas de sangue.

— Meu Deus – Murmurou Marin, nitidamente compadecida. – Vocês têm ideia do nível de stress necessário para fazer alguém chorar lágrimas de sangue?

— Na própria Bíblia – Aiolos observou, com ar pesaroso. – é dito que Cristo suou sangue, no Monte Getsâmani, justamente por estar em terrível aflição...

Com os punhos involuntariamente contraídos, Milo virou-se para a piscina. Hyoga reaplicava o bloqueador em Camus (ensinaram-lhe a fazer aquilo), cujo rubor poderia tanto ser do sol, que agora se desvendasse em totalidade, quanto da animação do jovem, cujo sorriso agora se fazia perene. A súbita tristeza no olhar de Milo deu lugar um lampejo de ódio.

— Quais as chances de Hades pegar a pena máxima? – Indagou, o olhar baixo para suas mãos unidas em torno do copo de uísque. – É o que ele merece, e, se há justiça neste mundo, é o que ele vai ter.

— No máximo, prisão perpétua, mas, mesmo esta, não é totalmente certa. A pena de morte encontra-se suspensa há 15 anos, você sabe. (1)

— Certo, mas o que impediria o desgraçado de receber a prisão perpétua? – Aludiu Milo, nervoso.

— Calma. Há uma possibilidade. Porém temos que aceitar que é remota. Precisamos de evidências de que ele orquestrou assassinatos...

— E as evidências de assassinato da mãe de Camus? Da esposa e da filha de Aldebaran?

— Camus ainda não revelou muito sobre a suposta execução de sua mãe. Estão sendo feitas buscas nos cemitérios da comunidade. Mas exames de DNA demoram a ser conclusivos. – Explicava calmamente Saga. – Aldebaran deverá voltar para a América esta semana e deve auxiliar nisso.

Agoniado, Milo amparou o rosto com as mãos ao proferir:

— E quanto às torturas? Suponho que June e Albior também venham. Hades torturou Albior por DIAS.... o coitado perdeu um olho e tá numa maldita cadeira de rodas por causa do maldito!

Saga pôs a mão sobre o ombro do amigo. Pode sentir-lhe a imensa tensão.

— Hades NÃO vai escapar. Não perca o controle. Camus vai precisar de um Milo equilibrado, CENTRADO nos próximos dias.

— Caramba, isto aqui é um churrasco ou um velório?

Eles voltaram-se na direção do recém-chegado, já em trajes de banho, uma sunga azul-marinho, os músculos bem definidos a compor aquela perfeita cópia de Saga.

— Kanon! Está atrasado! – Disse Saga.

— Sem chance de eu sair da cama antes das 11 horas num domingo. – E ele soltou um assobio ao contemplar Saori, de braços cruzados. – Uh, se bem que se eu soubesse que a psicóloga mais gata do país estava aqui, eu teria feito o sacrifício...

— Kanon, nada de importunar a Sao – Admoestou Saga.

— Fica frio, não sou nenhum sem-noção não. Com este físico aqui, também, não preciso ser, nem um pouco...

— Chegou o rei da modéstia – Ironizou Milo.

— Apesar de serem fisicamente idênticos, sempre me surpreendo com o quanto vocês são diferentes. – Observou Aiolia, rindo. – Kanon tinha que dar um pouco desse bom humor pro Saga.

— Pois eu acho que meu amor é perfeito do jeito que é. – Aiolos pontuou, acariciando os ombros do marido.

— Podem parar com a melação, quero ver isso não – Declarou Kanon fazendo uma careta cômica, e, ao ver Saori voltar para a piscina, arrematou: – Aquilo sim, quero ver...

Foi atrás da nissei e disse-lhe:

— Olá, Sao, faz tempo que não nos vemos.

Saori olhou-o de alto a baixo e não pareceu particularmente insatisfeita.

— Olá, Kanon.

— Com todo o respeito, devo dizer que você está absolutamente linda.

Ela sorriu, e aquele sorriso de maneira alguma estava desprovido de interesse, para surpresa dos espectadores.

— Obrigada, Kanon...

Da piscina, Hyoga apontou para o irmão de Saga, cuja distinção se fazia apenas pela cor da sunga e pelo fato de a nova aparição não estar com os cabelos molhados.

— Ah, o tio Kanon chegou! Ele é legal, Camus, você vai gostar dele, sempre faz a gente rir!

— Ouviram, Hyoga acabou de patentear que Kanon é legal e Saga é chato – Riu Aiolia.

O ruivo, admirado, viu Kanon se aproximar da piscina, seguindo Saori, que deu um belo mergulho.

— Ele é igual ao Saga – Comentou, admirado.

— Igual não, ruivo, sou muito melhor – Respondeu Kanon, fazendo pose ao mostrar os músculos, fazendo graça.

Hyoga achegou-se ao ouvido do ex-messias:

— Só são iguais na aparência, não se deixe enganar! Eles são bem diferentes...

— “Iguais na aparência” nada, rapazinho, eu sou muito mais bonitão!

“Mas como, se são iguais?”, pensou um intrigado ex-Redentor, que ainda nem sempre era capaz de compreender o humor daqueles que um dia considerou “mundanos”.

Kanon já se abaixava perto da piscina e estendia a mão para Camus.

— Oi, moço, prazer em conhecer!

Camus apertou-lhe a mão, um tanto sem jeito. O irmão de Saga lembrava das cenas dos vídeos de Milo, nos quais ele trabalhou com afinco, para o bem da operação e, obviamente, para exibição no julgamento. Não pôde deixar de sentir estranha emoção vendo, ao vivo e a cores, o “personagem” das terríveis filmagens.

— Como é que cê tá indo, hein? – Perguntou ao ruivo, que o fitou, em dúvida.

— Hã... no momento, não estou indo a nenhum lugar...

— Não, Camus – Riu Hyoga. – Ele quer saber como você tá? Como tá se sentindo?

— Ah. Bem. “Ando” bem.

— Tio Kanon, o Camus não sabe nadar! Você já foi campeão estadual de natação, seria o melhor professor pra ele!

Sorrindo amigavelmente, Kanon assentiu.

— Seria um prazer! Podemos começar as lições hoje mesmo, se Camus quiser.

Sentada à beira da piscina, Saori sorriu. Percebendo-o, o videomaker sorriu de volta.

Então ouviram Saga anuciar:

— Pessoal, tá tudo pronto, venham se servir... vamos almoçar!

Acomodaram-se na extensa mesa de cerejeira no jardim, próxima à churrasqueira, e deram início à refeição principal, abrilhantada pela salada de batatas levada por Saori e pela salada de feijões mexicanos com tomate e queijo levada por Marin. A atmosfera leve então instituída baniu momentaneamente o ressentimento de Milo e as preocupações dos amigos.

Eles precisavam muito daquela calmaria antes da tempestade que se aproximava...

*************

Segunda-feira, 09:03 da manhã daquele 29 de outubro de 2018.

Presídio de New Hampshire. Os advogados de Armand Chermont De La Faure já se encontravam à mesa, à espera do notório cliente. Este chega à sala, devidamente escoltado por guardas carrancudos como de praxe. A despeito das algemas em seus pulsos, do uniforme de presidiário e das olheiras que acentuam-lhe a espantosa palidez, seu semblante é sereno, beatífico até. Os presentes consideram internamente que o recém-chegado excede os bem trajados advogados em altivez e elegância. Estes sentem-se mesmo um tanto intimidados na presença deste homem algemado e vigiado. Cumprimentam-no com respeito, ao que o líder religioso corresponde com uma civilidade quase cerimoniosa.

Notebooks abertos, pastas e envelopes sobre a mesa, relatórios e tudo o mais para inteirar o atual inimigo número 1 da América acerca do processo e do julgamento do qual ele crê piamente que escapará. E à medida que a conversa avançava, mais essa crença se enraizava no coração sombrio do Grande Pai.

O ocorrido no estacionamento do Aquário de fato fornecera mais munição à defesa de Hades: corroborava com a planejada alegação de sedução do “messias” por parte do policial, peça-chave de um esquema arbitrário movido pela infame intolerância religiosa, que teimava em não ser erradicada naquela “terra da liberdade”.

— O fato de seu filho estar em tratamento também colabora com o argumento de que ele não se encontrava em seu pleno juízo e, consequentemente, não poderia ter resistido à influência de Milo Hatzis.

— Melhor dizendo, à sua manipulação mental. – Murmurou o acusado.

— Se convencermos o júri de que Camus foi levado a rejeitar tudo aquilo em que acreditava mediante essa MANIPULAÇÃO... essa SEDUÇÃO por parte de um intruso, que não levou em consideração a ESCOLHA de milhares de pessoas em estarem no Vale, e que tudo fez para cercear-lhes o direito religioso...

— Temos chance de que a questão mais séria será mais atenuada: Camus NUNCA FOI UM PRISIONEIRO. Nunca foi torturado, explorado, abusado, nada disso que lhe imputam. Em verdade, Camus foi CONVENCIDO pelo policial de que tudo isso lhe acontecia.

— Quando na verdade eram processos ritualísticos previamente acordados aos quais ele se submetia de bom grado, consoante à crença de que seus sacrifícios salvariam fiéis.

— Sim, toda uma vida consagrada ao que acreditava... ao que ACREDITÁVAMOS – Disse Hades. – Transformada por causa de sua paixonite imunda e tola pelo policial.

— Temos informações que podem atestar que não se tratava de simples “paixonite” por parte de seu filho, senhor.

— Informações? O que temos além das patéticas cenas do estacionamento?

— Seu filho e o policial Hatzis estão MORANDO JUNTOS, senhor De La Faure.

Pela primeira vez, a serenidade abandonou o semblante de Hades.

— Como?

— Milo Hatzis levou o seu filho, Camus, para morar com ele, tão logo chegaram a Red Meadow, onde trabalhou a equipe do promotor Saga.

Boquiaberto, o Grande Pai fitou cada um dos quatro advogados ali presentes antes de falar:

— Eu pensei que Camus estivesse sob custódia do governo... em algum hospício ou coisa que o valha!

— A medida oficialmente a ser tomada seria essa: que o rapaz fosse abrigado em uma casa de saúde mental, sob custódia do governo. Mas o policial Milo Hatzis exigiu que Camus ficasse sob sua proteção em SUA casa.

— Exigiu?

—Temos informações de que chegou a querer abrir mão de seu cargo na Polícia Federal para obter a guarda de Camus.

— Hatzis EXIGIU que meu filho fosse viver com ele... – Disse entre dentes. Um sorriso insidioso começou a se formar.

— Não temos evidências de que haja algo entre eles. – Um dos advogados achou por bem esclarecer. – A insistência de Milo Hatzis em ter o Redentor ao seu lado, porém, seria um trunfo e tanto para...

— Há. Há SIM algo entre eles – Murmurou o Grande Pai, com um sorriso sombrio.

Hades curvou-se para dar o que poderia ser considerado um ultimato.

— Façam Camus FALAR no tribunal. Pressionem o traidorzinho. Por mais que ele esteja LITERALMENTE “abrindo as pernas” para este mundo, Camus foi desde cedo ensinado a NÃO MENTIR. Ele acabará dizendo o que precisamos que ele diga. Que tem um relacionamento amoroso com seu adorado “Anjo”. Milo Hatzis.

— Além do quê, além das imagens veiculadas na TV, temos uma gravação realizada no Vale da Aurora Dourada, a muito custo conseguida junto a assessores do senhor, felizmente ainda em liberdade.

— A Cachoeira do Profeta – Murmurou o pai de Camus, enleado. Arrematou, subitamente eufórico:

— Além de tais filmagens servirem aos nossos propósitos, estou certo de que mancharão a imagem do “eficientíssimo” agente Milo Hatzis... a carreira do miserável está com os dias contados!

E o Grande Pai terminou aquela sessão rindo loucamente, o rosto lívido voltado para o alto.

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Notas finais
( 1 ) A fic, no momento, está no ano de 2018, e, àquela altura, a pena de morte encontrava-se suspensa nos Estados Unidos, desde o ano de 2003. Após um intervalo de 16 anos, ela foi retomada, sob o governo do então presidente Donald Trump, mais especificamente em 2019. ************* É, como eu disse em uma das respostas às leitoras, "paz não é uma opção". Hades pretende virar certas "evidências" (as quais sabemos reais) a seu favor no julgamento. Será que ele conseguirá o que pretende? Espero que tenham gostado, espero vocês no próximo capítulo. Obrigada por lerem, bjs bjs