Redentor
19 Gólgota - Ato V : Revelações
Notas iniciais
O longo retorno à cabana de Aldebaran foi, felizmente, bem menos conturbado do que a ida ao Tabernáculo. Milo quase se sentia constrangido em murmurar “graças a Deus”; ele nunca fora religioso, e, após testemunhar o cerimonial intitulado “Santa Ceia”, dificilmente o seria algum dia. Não obstante, creditar somente à sorte um retorno tão tranquilo depois de ter presenciado verdadeiros horrores parecia-lhe igualmente frívolo.
Deu uma boa olhada na habitação antes de ir até a janela pela qual saíra. Estava tudo escuro e silencioso, como esperado de uma madrugada ainda distante da alvorada. Deu a volta, sempre atento, pensando em como se livrar dos trajes de apicultor. Por ora, teria de escondê-los no quarto. Depois, poderia enterrá-los em algum momento em que Aldebaran estivesse fora.
Parou diante da janela do cômodo por ele ocupado havia dois meses. Aberta até a metade, como a deixara. Empurrou-a delicadamente para cima, torcendo para que não rangesse. Tudo certo: o óleo de milho com que aspergira as dobradiças funcionara muito bem. Apoiou as mãos e ergueu do solo as pernas, que pareciam pesar uma tonelada.
Enfim, a salvo.
Refreou o impulso de respirar aliviado. Preferiu despir-se logo do excêntrico disfarce. Arrancou de si a jaqueta, em seguida o macacão largo. Colocou tudo sob roupas no armário de madeira rústica. Não sem antes com elas embrulhar a pistola afanada do homem que matara...
Fechou a porta, pensando em como seria bom se pudesse tomar um banho para tirar de si aquela imundície: terra, sangue de cachorro, sangue de gente, sangue dele mesmo. Desnecessário dizer que isso se fazia inviável àquela hora. Teria de se contentar com um paninho molhado...
Tirou a camisa de algodão cru, o frio da noite açoitando sua carne úmida de suor. Olhou com certa preocupação para os ferimentos nos braços. Seria bem complicado se aqueles arranhões infeccionassem, o que era bem capaz. Não poderia garantir que os cães de guarda do Vale tivessem vacinas em dia ou algo do tipo... sobre um pano macio e limpo derramou um pouco da água do jarro que sempre ficava na mesinha ao lado da cama. Esfregou o rosto com vigor, depois o pescoço e o peito. Molhou outra vez o tecido e procurou limpar os braços o melhor que pudesse. Não se incomodou em desfazer o coque de cabelo. Ajudava-o naquela ablução precária. Enquanto se limpava, voltou a ver o rosto de Camus, contorcido de dor e agonia.
“Maldito Hades! Como pode fazer isso ao próprio filho?!? Tudo por ganância, ambição...! Não consigo imaginar como Camus tem passado tantos horrores, por todos estes anos... o coitado ainda acha que é por ordem de Deus!”
Reviu os cabelos ruivos espalhados em mechas por sobre seu corpo, pelo altar, por mãos pérfidos, beijados por lábios ímpios... os mesmos cabelos que dias antes ele prendera, na cachoeira, ante a cômica expressão estupefata do “messias”. Fora-lhe irresistível rir! E por falar em rir... era tão difícil para Milo acreditar que aquele mesmo sorriso puro e luminoso com que fora recompensado pelos ravanies agora se convertera em um angustioso ranger de dentes, sob a mais abjeta das torturas pelo agente presenciada... cerrou os punhos com força, sentindo-se dolorosamente inútil. Era IMPERIOSO libertar Camus daquela sina hedionda.
Sem mais demora, tirou o celular do bolso. Havia desligado-o para poupar-lhe a bateria. Com o semblante iluminado de uma criança que encontra o presente de Natal, ligou-o.
“14% de bateria! Vou mandar uma mensagem para Saga AGORA mesmo... e o vídeo...”, pensou, esperando ansiosamente o aparelho carregar as funções. A seguir, digitar o número do amigo. E, quando começou a digitar a mensagem...
— Fazendo passeios noturnos, Mikael?
Em um sobressalto, Milo voltou-se para a porta do quarto.
— Debas! – Fingiu não ter ouvido a pergunta do ex-pastor, muito sério parado no batente. – Já tá acordado?
— Talvez não estivesse se você tivesse aprendido a manipular direito as ervas medicinais com que tentou me dopar, meu caro.
O loiro ergueu os ombros, balançando a cabeça de leve.
— Hã? Do que é que você tá falando?
— Além da concentração e dosagem, precisava se ater melhor aos artifícios para disfarçar o sabor. Tente em um simples chá de jasmim com amora, da próxima vez. – O enorme homem aproximou-se, sem a típica expressão amistosa. – Isto é, SE HOUVER uma próxima vez para você.
Milo deixou livre o riso para ocultar a tensão:
— Certo, certo... é isso mesmo, eu fui dar uma volta... não queria que você acordasse e se desse conta de que eu não estava aqui, poderia ficar preocupado e...
— Acha que passo as noites verificando se você está MESMO dormindo no seu quarto? Não sou sua babá, Mikael. – Aldebaran interrompeu-o com rispidez.
— Ora, não! Claro que não...
— Se você teme por isso, é porque está fazendo algo de errado.
— Olha... tá legal. – Milo ergueu as mãos como quem pede uma trégua. – Tá legal, vou contar...
— Para onde você foi?
— Vamos lá. Eu ADORARIA ser como você, é sério! Um abstêmio, praticamente um MONGE, OK? Você se contenta em curtir sua viuvez na solidão e tal, mas eu... eu tenho minhas necessidades.
— Do que está falando?
— Tô falando que fui me encontrar com uma mulher.
O brasileiro ergueu as espessas sobrancelhas, incrédulo.
— Uma mulher?
— Sim, sabe como são as coisas aqui... infelizmente, isso tinha que ser na clandestinidade...
— Não é a esposa do Algol, é?
— QUÊ? Deus! NÃO!!!
— Então quem é?
— É uma garota... mais nova...
— Por que não a pede em casamento, ao invés de pecar dessa forma?
— E-eu não tinha pensado ainda em...
— Ou não pediu porque ela é comprometida? Noiva?
—Não, tenho certeza de que não é.
— Ótimo. Nesse caso, não há empecilho algum.
Estalando os dedos, o loiro sorriu, como que concordando:
— Não é que você tá certo???
— Por acaso cometeu algum crime, Mikael?
— O quê? Tá maluco?
— Há sangue na roupa que você tentou esconder assim que me viu. – Apontou para debaixo do travesseiro.
— Ah. Eu caí sobre um espinheiro, imagine só que azar.
— Seus braços estão feridos como se tivesse sido atacado por um animal.
— Eram muitos espinhos, cara, quase virei peneira.
— Mais importante... – Avançou para o jovem e puxou-lhe o celular do bolso da calça. – O que é ISTO?
— Você não sabe? É um celular.
— EU SEI que é um celular.
— Então porque perguntou?
— Quero saber como foi que arranjou ISTO.
— Mas não foi o que você perguntou...
O ex pastor apertou nervosamente o aparelho. O visor acendeu. Aldebaran tentou, em vão, ler o que estava escrito.
— Estava escrevendo uma mensagem! Que idioma é ESTE? É GREGO, não é?
—Mesmo estando no alfabeto latino você conseguiu perceber. É bom nisso.
— Mikael, é melhor dizer aonde foi, e o que foi fazer, senão... serei obrigado a chamar algum superior.
— Mas por quê? – Demandou, levemente aflito. – Eu já te disse! Fui encontrar uma garota...
— E voltou arranhado por algum bicho, sujo de sangue, de terra, e com um celular.
— Como pode ver, à parte do celular, não foi lá um encontro muito bem sucedido.
A mão gigantesca do brasileiro fechou-se no pescoço do policial.
— EU NÃO ESTOU BRINCANDO, Mikael! DIGA! O que pretende? Aonde foi?
— AAARGH! E-espera! E-eu já di-disse...
— Só disse MENTIRAS! Para QUEM você estava digitando esta mensagem?
— M-meu tio! Ele é grego... aack... sou de família grega, n-não se lembra?
Com certa violência, Aldebaran atirou-o à cama. Para desespero de Milo, o brasileiro enfiou o celular no bolso da calça do pijama.
— O que está fazendo?
— Guardando o que você ROUBOU. Vou agora mesmo à sede denunciar você. Está na cara que tem algum objetivo escuso.
Recompondo-se, o loiro apelou, com mais sinceridade do que julgaria:
— Pensei que fôssemos AMIGOS!
— Não sou amigo de quem é amigo da MENTIRA.
— Debas... por favor... não faça isso...
O ex pastor deu as costas ao jovem suplicante.
— É meu dever, Mikael. Se você está fazendo algo errado, é meu dever denunciá-lo. Não quero que me tomem por cúmplice de alguém que está no erro.
Resoluto, o agente levantou-se da cama. Aprumou-se, sua expressão subitamente transformada.
— Eu não posso deixar você fazer isso. – Anunciou, em tom sombrio.
O homenzarrão não lhe deu ouvidos. Continuou caminhando pelo corredor, em direção à sala. Antes que pudesse alcançar a porta, um vaso espatifou-se em sua cabeça. A dor, e, sobretudo, a surpresa, fizeram-no vacilar. Suas imensas pernas bambearam. Desabou sobre o assoalho, com grande estrondo. Foi a deixa para Milo recuperar o celular, caído próximo ao homem no chão. Restava pouca bateria, tinha que ser rápido... enviando a mensagem a Saga, quem sabe todo aquele horror teria fim na manhã seguinte!
“Camus, só mais um pouco, você vai ver”, foi no que primeiro pensou. Mas logo pensou também em Albior, June, Jacó... e tantas pessoas boas e injustiçadas, como essas que havia conhecido naquela terra maldita!
Mal voltou à caixa de mensagens, curvou-se de dor ante o golpe que explodiu em suas costas. Aldebaran não perdera a consciência; erguera-se rapidamente e desferira um chute certeiro no policial. O celular rodopiou pelo assoalho. Antes que o loiro pudesse se erguer, foi agarrado pelo brasileiro e alçado do chão como uma sacola vazia. Embora tonto pela dor, conseguiu interceptar um soco de Aldebaran com maestria. Tomou-lhe o antebraço e, com uma rasteira, derrubou o grandalhão.
— Debas – Bufou Milo, segurando as costelas, temendo tê-las fraturado. – Não quero machucar você.
— Não me parece que você está em condições de dizer isso, Mikael. – Respondeu, levantando-se lentamente. Contudo, ao contrário de seu oponente, não demonstrava qualquer desconforto.
— Debas, não...
Iniciou-se uma feroz luta corporal, força bruta e desmedida contra técnica e experiência. Se Milo levava a melhor nas investidas, por outro lado a assombrosa compleição física de Aldebaran convertia-se em uma muralha praticamente imune aos ataques. O brasileiro avançou sobre o rapaz, que conseguiu livrar-se com uma inesperada cotovelada na altura no pescoço. Aldebaran tossiu um pouco, sua fúria potencializada pela dor. Tentou acertar o agente de todas maneiras, até que recebeu um chute giratório que quase o pôs a nocaute. Vendo-o no chão novamente, Milo renovou a proposta:
— Eu já disse que não quero machucar você... por favor, apenas me escute...
Sua resposta veio na forma de um grunhido de fera ferida. Em segundos, Aldebaran estava de pé mais uma vez, e, desta vez, ainda mais furioso. Milo desviou-se de novos ataques, contra-atacando ao mesmo tempo. Brigar com o brasileiro era como enfrentar um urso com as mãos nuas! Sentiu que não o neutralizaria tão facilmente, dada a estrutura física e a ira do ex pastor. Nem toda sua técnica dava jeito de nocautear aquele homem mais resistente que um rochedo. A menos...
“A menos que O MATE.”, pensou, atemorizado.
Qual o problema?
Matara um homem naquela noite.
E nem havia sido a primeira vez em sua vida. Se fosse para não ser a última... ele preferiria que não fosse alguém a quem, infelizmente, se afeiçoara.
“Quero salvar Camus. Quero salvar June e seu filhinho. Quero salvar Albior. Mas também quero salvar Aldebaran. Sempre quis...”
Distraído com tais ponderações, foi surpreendido por um soco no diafragma que o derrubou de vez. O ar faltou-lhe imediatamente. A impressão era que sufocaria e perderia os sentidos em breve. Tombou após heroica resistência, os cabelos agora libertos do rígido coque.
Ofegante, Aldebaran contemplou o jovem a quem chamara de amigo, contorcendo-se no chão. AMIGO. Rangeu os dentes ante este pensamento. Cambaleou até o celular, agora debaixo de cadeiras caídas. Onde “Mikael” teria conseguido o telefone? E por que temia TANTO dele se desfazer?
— Esse mistério acaba agora... – Murmurou, manuseando-o.
Não sabia mexer naquela coisa mundana, estava BEM diferente dos celulares que costumava ver antes de ir para os Estados Unidos. Para início de conversa, cadê as malditas TECLAS? BOTÕES? Era só uma tela grandona, era isso mesmo? Ouviu um gemido seguido de uma risadinha abafada. Voltou-se para o loiro, que erguia-se do chão, ferido e trêmulo. Encararam-se com cólera febril, certos de que nem um nem outro desistiria.
— Não sabe mexer num celular atual, né? – riu Milo.
— Por que roubou isto? E de QUEM?
O policial fitou-o, emudecido, sem saber o que fazer. Não, não poderia matar Aldebaran, mesmo que fosse plenamente capaz de fazê-lo. O que estava acontecendo com ele? Hesitações como aquelas colocariam tudo a perder! Seu olhar esgazeado caiu sobre o aparelho.
— Você tem muito a explicar, Mikael, e se recusa! Desobedeceu ao toque de recolher, está mentindo sobre o que fez durante o tempo que esteve fora, e, por fim, volta machucado e com um celular que obviamente não lhe pertence. – Caminhou ameaçador para o agente. – Mais suspeito ainda, estava digitando uma mensagem EM GREGO para alguém.
Nervoso, o policial abriu a boca ensanguentada. Sim... prezava Aldebaran... mas... o mais importante agora... era enviar a mensagem a Saga!!!
NÃO TINHA o direito de hesitar.
— Debas...
— NÃO ME CHAME ASSIM!!!
— OK. OK. Aldebaran, eu vou contar. Vou te explicar tudo. Mas antes... me entregue o celular.
— Não.
— Por favor, confie em mim! Tem que confiar em mim!
— Como posso confiar em quem mente?
— Por favor, é importante para sua própria segurança! Para a segurança de várias pessoas! Se não fizer o que preciso fazer... não poderei ajudar a Camus...
— O que o Redentor tem a ver com isso?
— Devolva-me, e prometo que explico!
— Isso está fora de cogitação. – Sentenciou o ex pastor, guardando o celular no bolso da calça. – Preciso levar esse caso às autoridades da comunidade.
Derrotado em argumentos, o policial fechou os olhos, consternado. Restava torcer para que não INUTILIZASSE Aldebaran. Porque, a despeito da superioridade física do moreno...
— Você não me deixa escolha. – Falou, em voz baixa. Detinha grau máximo em muay thai, krav maga e karate. E o tempo escoava... – Eu sinto muito, amigo.
Aldebaran sequer seria capaz de se lembrar o que houvera. Sua tentativa de defesa foi totalmente ineficaz contra o rápido giro das pernas no ar, como hélices de um helicóptero. O golpe abateu-se violentamente em um ponto de seu queixo. Tudo escureceu de imediato, o eclipse vindo com a excruciante dor que não durou quase nada, pois que foi arremessado já sem sentidos contra a mesa de refeições. Esta quebrou-se com a força do impacto. Quadros caíram da parede sobre o corpanzil imóvel. Nenhum som mais foi ouvido de seus lábios.
Milo preferiu não se perguntar se o homem morrera ou não. Aproximou-se do gigantesco homem sobre pedaços de mesa quebrada. Tirou o aparelho do bolso da calça do ex pastor, e continuou de onde havia parado. Escrevia em grego:
“Sei que o combinado era esperar que você entrasse em contato, mas tudo aqui é muito pior do que jamais poderíamos imaginar. Há pessoas trabalhando como escravas, pessoas sendo castigadas, torturadas, violentadas. Os investigadores que aqui estiveram antes de mim foram assassinados. O próprio Redentor é uma vítima, sofrendo nas mãos deles há anos. Isso que vai ver no vídeo que envio é apenas um dos horrores que acontecem neste inferno. Venha imediatamente!”, digitou com presteza. Anexou a gravação de oito minutos que fizera na Santa Ceia. A cobertura não deveria ajudar na velocidade de envio, contudo, havia bateria ainda suficiente para carregar. 11%. Apertou “send”.
Estava feito!
“Mensagem enviada”.
Permitiu-se um nervoso riso de vitória e alívio. Finalmente, a informação precisa sobre a real face da Igreja Aurora do Novo Porvir, uma contundente prova sobre sua essência criminosa, chegaria ao FBI. Enfim, viria à tona toda a verdade!
“Camus! June! Albior! Logo tudo estará terminado...”
Algo explodiu em sua nuca. O mundo tingiu-se de escuridão. Sem mais nada escutar, ver ou pensar, Milo tombou sem sentidos. De pé, Aldebaran ofegava pelo esforço e pela dor, com um pedaço de madeira maciça nas mãos, anteriormente um dos pés da mesa agora arruinada...
— Você... m-me pegou de jeito, novato... mas é preciso... muito mais pra derrubar alguém conhecido por ser “forte como um touro”! – Balbuciou o ex pastor, cuspindo sangue para o lado. Deixou cair o bastão improvisado. Observou o jovem completamente inconsciente desta vez; de bruços, os cabelos loiros e compridos espalhados pelas costas e pelo chão cobriam-lhe parcialmente o rosto. Abaixou-se para pegar o celular, ainda envolto pelos dedos do rapaz. Olhou-o.
“Que diabo de mensagem é esta?”, aturdido, lia seguidas vezes. Embaixo, uma imagem congelada... aquilo seria o vídeo de que falava o texto? Instintivamente, apertou a seta por cima da tal imagem, escura e indecifrável.
Agora a imagem já não estava estática como dantes.
“É o vídeo”, pensou, observando atentamente.
Sim, uma filmagem.
E à medida que as cenas se desenrolavam diante do brasileiro, seus olhos castanhos abriam-se mais e mais, bem como sua boca, cujos lábios agora tremiam.
O QUE ERA AQUILO?
“Mas... mas esse é o Grande Pai... e... o Redentor...”
E todas aquelas pessoas...
O QUE ERA AQUILO?
O QUE ESTAVAM FAZENDO COM O MESSIAS?
— Deus Todo Poderoso – Ciciou, caindo de joelhos, aterrado.
Os sons.
Oh, Deus.
OS SONS.
O Messias... gemendo... GRITANDO...
O QUE ERA AQUELE HORROR?
— Meu Deus... meu Deus... – Grossas lágrimas escorreram pela tez morena, indo juntar-se ao sangue que havia em seu queixo.
Seres cobertos por mantos e capuzes debruçavam-se sobre o amado Redentor, como abutres por sobre um novilho recém abatido. Profanavam-no de todas as maneiras imagináveis... e inimagináveis...
— MESSIAS...! – Gemeu o ex pastor, quase em choque.
Ele permaneceu ali, ajoelhado, sem sentir as amarras da realidade. Aparvalhado, mirava o celular, cuja tela agora escurecera.
— Meu Deus. Deus Misericordioso, Deus Todo Poderoso, o que foi isso que vi...? O que... – Súbito, lembrou-se... – MIKAEL!
O outro não deu resposta. Debruçou-se sobre ele, chamando-o temeroso:
— Mika! Acorde! MIKA!
Nada. Será que... tomou-lhe o pulso.
— Graças a Deus... – Suspirou, em meio ao pranto. – por favor, acorde...
Não obstante, o forte golpe na nuca fora o bastante para deixar Milo, já exaurido da missão noturna, totalmente fora de ação. Com extremo cuidado, Aldebaran tomou o jovem nos braços. Carregou-o até o quarto e o depositou na cama. Mirou-o, sob imenso pesar. Pensou em assistir novamente ao vídeo para se certificar de que o que vira não se tratava de uma farsa. Mas não... não suportaria rever aquilo! Sabia que se tratava da realidade, a terrível realidade que espreitara suas convicções quando da morte de sua família. A alvorada aproximava-se, era o que anunciavam os primeiros gorjeios álacres.
— Mika... vou cuidar para que se recupere. É o mínimo que posso fazer.
*************
—Messias, por favor, tente ao menos comer um pouquinho...
Na mesma posição em que estava desde que amanhecera, virado para a parede de madeira escura de seu modesto quarto, Camus nada respondeu a sua preocupada cunhada. Ela lhe trouxera um frugal desjejum, consciente de que, após a noite de abusos, o jovem não estaria nada disposto. Contudo, nem mesmo água o jovem aceitava, a despeito dos insistentes apelos da moça.
— Camus, precisa se hidratar. Por favor, pelo menos água...
Só obtendo o silêncio como resposta, June abaixou a cabeça, resignada.
— Está bem, não vou mais incomodá-lo, meu querido Messias. Vou deixar tudo na mesa da saleta. Mas voltarei daqui a duas horas, tudo bem? Já sei, vou trazer um suco de morangos. É o seu preferido, não?
O ruivo virou-se para ela. Tencionou dizer-lhe algo, para não fazer desfeita. Entretanto, enunciar qualquer coisa foi além de suas possibilidades no momento. Sentiu a garganta constringir como se fosse afogar nas lágrimas que continha a todo custo. Com um doce sorriso, June falou:
— Procure descansar. Quer que eu chame Chrysaor?
Ele balançou a cabeça em uma exausta negativa. O médico já havia lhe dado analgésicos suficientes quando retornara da Santa Ceia para seus aposentos. Não que as dores tivessem sido aplacadas de todo, mas não considerava as dores físicas tão devastadoras quanto as de sua alma. Não entender por que as sentia atormentava-o ainda mais. Afinal, era o seu dever...
— Tudo bem. Eu já vou indo, tá? Com licença.
A cuidadosa jovem deixou a refeição recusada em cima da mesa do cômodo anexo. Antes de sair, deu de encontro com Hades adentrando o apartamento.
— Grande Pai – Saudou-o, surpresa por vê-lo nos aposentos de Camus tão cedo.
Ele fitou-a com total indiferença; desviou o olhar para a bandeja. O pão, o queijo de cabra, a maçã, o leite... tudo intocado.
— Por que está saindo se não alimentou o Messias?
— Eu tentei fazê-lo comer alguma coisa... mas ele se recusa... nem água quer tomar... – Explicou, aflita.
— Creio que não se esforçou o suficiente. – Retrucou secamente o líder da seita.
— Não, Grande Pai, eu insisti! Juro por Deus!...
— E para onde está indo, se não cumpriu seu dever?
A loira torceu as mãos antes de esclarecer, com voz sumida:
— Eu só ia deixá-lo por um pouco para ir preparar o suco de que ele mais gosta...
— Quanta frivolidade. Camus agora ESCOLHE o que quer?
— Não foi ele que pediu, eu que me ofereci para trazer. Camus... está muito indisposto, senhor. Talvez oferecendo algo que ele realmente aprecie...
— Está bem, está bem. – Interrompeu-a com um gesto de desdém. – Impressionante como ele anda mimado. Nunca foi melindroso assim.
— Meu senhor... Camus... ele... – Tomou coragem para dizer – ... o cerimonial foi muito intenso... desta vez... – procurou amenizar no final da fala.
— Que quer dizer, menina?
— Penso que ele… ele precisava ser poupado de eventos como esse… está bastante abalado... e ferido...
Hades fê-la calar-se com um brutal tapa no rosto.
— Quem você pensa que é para definir os caminhos do nosso Salvador?
Com a mão na face agredida, a moça mordeu a língua para não gemer nem chorar. Tampouco proferiu quaisquer desculpas. O sogro a considerou, intrigado com tal postura. Contudo, preferiu apenas ordenar ríspido:
—Vá, saia logo daqui, sua imprestável! Às vezes, digo a Algol que ele deveria ser menos rígido com você. Hunf. Mas, agora, vejo que ele deveria ser ATÉ MAIS.
Com os olhos marejados, June retirou-se apressadamente. Caminhando pelo corredor rumo à cozinha, pensava se “Mikael” realmente havia conseguido se infiltrar na “Santa Ceia”. Decidiu ir até o depósito de cuja chave ela fizera uma cópia. Respirou aliviada, e até sorriu, ao ver a túnica e o capuz amarfanhados dentro do mesmo balde, não com o pano vermelho por cima, mas com um curioso chapéu de apicultor.
“Ele conseguiu”, regozijou-se esperançosa. “Agora poderá testemunhar sobre os atos tenebrosos deste lugar maldito.”
*************
A passos lentos, Hades adentrou o humilde quarto do filho. Viu-o deitado sobre a cama, de costas para quem acessava o recinto. Estava coberto pelos lençóis, não parecia estar vestido. Por alguns segundos, observou as marcas roxas e avermelhadas pelos ombros e parte descoberta do pescoço.
— Camus.
O ruivo continuou na mesma posição.
— Por que não quer se alimentar? Parece até que está ressentido. É isso, Camus?
Silêncio.
— Eu já lhe disse que essa é uma atitude condenável. Não tem o direito de ficar doente. É o que quer? Adoecer, ficar de cama, para negligenciar seus compromissos como Messias?
Camus ouvira direito?
Então o pai desconsiderava TUDO pelo que ele passara naquela noite...?
Um gosto amargo na boca fez o Redentor sentir-se enjoado novamente.
— Todos estes anos você enfrentou sua missão com honra e coragem. – Suspirou Hades, abrandando o tom da reprimenda. – Temo que esteja capitulando...
— Acaso fugi do meu dever na Santa Ceia?
O sacerdote ergueu as sobrancelhas, surpreso com a réplica do jovem, agora virado para ele e com expressão firme.
— Não. Não fugiu. Não como quando fugiu anos atrás. – Tornou, sarcástico. – Por acaso, foi exatamente após a primeira “Santa Ceia” que você tentou fugir. É um cerimonial como qualquer outro.
— O senhor acha mesmo?
Aturdido com a atitude do filho, Hades respondeu:
— Mas é claro. Mediante seu sacrifício, aquelas pessoas foram grandemente abençoadas por tomarem de sua carne, de seu sangue... e, através desse ato, nossa igreja recebeu MILHÕES DE DÓLARES. Havia homens e mulheres ali que entregaram tudo que possuíam, pela dádiva de estreitar a comunhão do mais íntimo modo com o Cordeiro Santo desta era... consequentemente, estreitar a comunhão com os céus que os esperam.
Sentado no colchão ordinário, nada satisfeito com aquela explanação, Camus desviou o olhar, ainda duro.
— Isso não é uma coisa boa, meu filho? – Inquiriu, com voz macia. – Não se sente feliz em ser o veículo de todas essas bênçãos?
— Eu quero me sentir assim, meu pai, mas é que... é que agora... eu só sinto dor... – Confessou o ruivo, exaurido.
— Oh, meu querido... – Pôs a mão no ombro do rapaz, que esquivou-se em um reflexo dolorido. – Pensei que Chrysaor tivesse te medicado.
— Ele me medicou... me limpou... e...
— Deixe-me ver.
Assentindo, Camus pôs-se de pé, abandonando o lençol branco que cobria-lhe a nudez. O olhar do líder religioso, puramente analítico, nada piedoso, percorreu arranhões, hematomas, marcas de mordidas, arroxeados, curativos com gaze e esparadrapo, emplastros.
— Isso não é NADA perto do que Cristo passou. – Disparou o Grande Pai, friamente. – Se está tão incomodado assim, pois bem, descanse e alimente-se. Não quero ouvir que adoeceu por um mero capricho momentâneo, entendeu? Você NÃO é assim.
— Sim, senhor. – Respondeu em tom resignado.
Mirando-o de modo enigmático, Hades perguntou:
— Há algo em especial que queira comer?
Sem acreditar no que escutava, Camus ergueu a cabeça devagar para mirar o pai. Hesitou. Então...
— Ravanies.
— Quê? O que é isso?
—É um doce grego que Mikael preparou para mim... quando estive na cabana dele...
— Grego! E por que um “doce grego”? Ah, sim, ele é de família grega, agora que me lembrei. – Hades coçou o queixo. Um tanto confuso, encarou o filho, cujos olhos brilhavam.
— Façamos assim: se você comer tudo o que June trouxe, mandarei alguém buscar esses... como chamam?
— Ravanies.
— Sim, mando alguém buscar isso com Mikael.
Camus enrolou-se novamente no lençol. Após um curto momento de hesitação, quis saber:
— Ele poderia... pessoalmente... vir até aqui trazê-los?
Hades quase caiu para trás com aquela audácia! A despeito de seu estupor, manteve o tom gentil:
— Por que quer que ELE venha?
— Gostaria de saber se Deus transmitiu-lhe alguma revelação acerca dos sonhos... ou da missão dele aqui...
— Se Mikael tivesse recebido alguma mensagem divina, estou certo de que ele teria falado a você.
— É que... faz tempo que não nos encontramos... desde que...
— Sim, desde que você cometeu aqueles atos condenáveis, que culminaram no castigo de Albior.
Ouvir o nome do Arauto esmigalhou a euforia nascida da expectativa de encontrar o “Anjo”. Abaixou o rosto e perguntou:
— Como ele está?
— Vivo, AINDA. É um homem muito forte.
— Por favor, tire-o de lá. – Murmurou.
— Sabe que isso não é possível.
— Como não é possível? Bastaria uma palavra do senhor, e ele seria…
— Não foi o que quis dizer, Camus. – Cortou impaciente. – Eu me refiro à gravidade do crime de Albior. Ele desobedeceu minha ordem de NUNCA deixar que você ande pela propriedade sem a tornozeleira paralisante. Se essa regra existe, é porque foi causada por VOCÊ mesmo, quanto tentou escapar, justamente após uma Santa Ceia!
— Sim... eu sei... mas...
Calou-se, por exaustão, e não por vontade de se calar. Uma vertigem fê-lo sentar-se na cama. Notando-o, o líder religioso fez-se brando. Acariciou o rosto empalidecido do jovem.
— Meu filho, por que não pode apenas acatar as decisões de seu pai, que só quer o teu bem?
— Sim... me perdoe... pai.
— Vá, tome sua refeição. Eu cuidarei para que receba os tais doces gregos, se me obedecer. Quero que descanse por hoje.
De volta à postura submissa, Camus meneou a cabeça em concordância.
*************
HORAS ANTES
3 de setembro de 2018.
Mais um dia ensolarado em Red Meadow. Apesar de o verão ser considerado ameno naquela localidade a noroeste dos Estados Unidos, neste ano a estação do sol resolvera presentear os moradores do balneário com dias estupendos de céu azul e luminosidade até a noite. Os quiosques à beira mar faturavam como nunca, graças ao calor atípico, muito bem recebido para prática de esportes, banhos de mar e passeios pelas praias. Em julho, fora inaugurado um parque de diversões em frente ao deck e ao cais da cidade. Alheio à movimentação que principiava logo cedo bem à frente de sua bela casa, Saga espreguiçou-se, cuidando para não acordar Aiolos, que dormia profundamente ao seu lado. Olhou para o relógio; sete e doze. Como sempre, acordava antes mesmo de o despertador tocar. Sempre fora assim, desde menino! Aiolos já não fazia o tipo matutino: se lhe fosse permitido, poderia tranquilamente dormir até meio dia. E o namorado bem gostaria de deixá-lo realizar a vontade, se não fosse segunda-feira... mas, bem. Poderia deixá-lo no mundo dos sonhos até as nove horas, que era o horário programado por Saga para o alarme do relógio.
Não precisava abrir as janelas para saber que o dia seria magnífico.
Haviam aproveitado o domingo para velejarem e nadarem em alto mar. O promotor preparara um delicioso polvo à moda grega em seu veleiro, que degustaram com vinho branco à vontade. Um esplêndido divertimento. Na certa, começaria a semana com o pé direito.
Quem sabe até não conseguia que a operação “Projeto Êxodo 2018” fosse adiante, enfim...
O sorriso de satisfação tornou-se um muxoxo impaciente.
Havia semanas que pleiteava junto ao Ministério Público uma liminar para poder efetuar a batida policial no Vale da Aurora Dourada. Sem sucesso. Sabia que tal morosidade tinha relação com a influência que membros da seita possuíam na alta sociedade. Não poderia prová-lo, entretanto. Enquanto isso, um de seus melhores homens permanecia enclausurado por entre remotas montanhas, a fim de obter provas concretas do que, efetivamente, acontecia no seio da Igreja fundada por Hades havia 16 anos.
“Milo deve estar achando que eu estou demorando por vontade própria”, pensou, virando-se para o criado-mudo. Pegou seu celular. “Mas só posso entrar em contato fingindo ser seu tio assim que obtiver a permissão de invadir imediatamente aquela merda, caso seja realmente necessário...”
Viu que havia algumas mensagens.
Apenas uma não estava nomeada.
“Que número é esse?”, ajeitou-se nos travesseiros para ficar com meio corpo ereto. Franziu o cenho ao dar-se conta de que era uma ligação interurbana. Abriu-a, quase ansioso.
— Não acredito! MILO! – O promotor surpreendeu-se tão sonoramente que acordou o parceiro. Este, no entanto, ainda não estava disposto a abrir os olhos... espreguiçou-se lânguido como um gato e simplesmente virou-se para o lado. A noite fora tórrida, precisava se recuperar...
Por isso, não percebeu que o namorado perdia pouco a pouco as cores do rosto. Os olhos muito abertos de Saga sequer piscavam ante o que lia... e, agora, ante o que via.
Em nome de Deus, o que era AQUILO?
Uma encenação?
Um auto?
—Será possível? Tá vendo filme pornô a uma hora destas? – Resmungou Aiolos, ao ouvir gemidos e gritos.
Mas... era ELE... O TAL REDENTOR!
Como Milo fizera aquele vídeo?
— Saga?
Deus! Será que Milo estava em segurança, após ter feito tais imagens, e, principalmente, ENVIADO-AS?
— SAGA! Que cara é essa? Cristo!
Só voltou a si com os insistentes chamados do amante. Olhou aturdido para Aiolos, que chegou a se assustar com a expressão aterrorizada do outro. Não era a cara de quem estava vendo um “filme pornô”, não mesmo!
— Por Deus! O que há com você? O que aconteceu?
— Eu… eu não estou bem certo… mas…
O homem de longos cabelos platinados ergueu-se da cama como um robô.
— Saga? O que foi?
— Olos... eu... preciso ir. Você... você vai depois...
— Que história é essa? – Aiolos jogou a manta para o lado, intrigado com a tensão patente no rosto do namorado. – É claro que vou com você! Ainda mais que você tá aí com essa cara de quem viu uma assombração no celular!
— Olha... é bem pior... BEM PIOR.
— Que merda, me dá esse telefone aqui! – Tirou o aparelho da mão do promotor. – O que te mandaram que você ficou tão horrorizado assim? Algum pornô hardcore demais pra... oh, é do Milo? Então ele conseguiu entrar em contato com você antes de... de... espera, ELE te mandou este vídeo? O que...
— Eu não sei! Assista você também e me diga se vi errado... se não foi tudo uma encenação ou sei lá o quê... eu tenho quinze anos de Polícia Federal e nunca vi nem soube de nada parecido.
— Mas... Saga... isto parece... – Minutos de silêncio entrecortados por gemidos, grunhidos e gritos do vídeo se passaram. Um coral. Podia ouvir um coral cantando...! – É o... mas esse é o...
— Aiolos. Me faz um favor, convoca a equipe para uma reunião às dez horas horas. Quero todo mundo lá. Entre em contato com aqueles seus conhecidos do New York Times, mas não solte muito o ouro. Espera – Parou e pensou. – Todo mundo não. Menos Saori. Não quero que uma mulher assista a uma BESTIALIDADE dessas.
— Saga, ela é da equipe! Não vai te perdoar quando essa bomba aqui estourar. – Opinou, deixando o leito. – Vai por mim.
— Está certo. Você está sempre certo. – Tentou brincar, mas o semblante carregado mostrava o quão mal sucedido fora.
— Enquanto você toma um banho e se arruma, preparo o café.
— Sei nem se tenho apetite depois do que vi, Olos.
— Tem que se alimentar sim, ouviu bem? – Deu-lhe um abraço carinhoso. – Está se vendo que hoje vai ser um dia longo e difícil. Precisa estar forte.
Enternecido, Saga aceitou o apoio. Confessou:
— Olos, estou preocupado com Milo. Como ele arrumou um celular NAQUELE lugar? Como fez essas imagens? Se descobrirem que ele gravou ISSO... se é que já NÃO descobriram...
— Ele não foi escolhido à toa para estar lá, meu querido. O cara é meio tosco, mas é bom. É o melhor, vamos combinar.
— Não fala isso perto dele, ou o safado vai querer um aumento. – Riu o promotor, melancólico.
— Acho que depois dessa, o “safado” merece, hein? Bem, vai logo. Vou cuidar do café.
— Mais forte do que de costume, por favor.
— Às suas ordens, chefe!
*************
Aldebaran já esperava por eles. Portanto, não chegou a se assustar com as batidas na porta de carvalho, embora seu coração tivesse saltado-lhe no peito. Respirou fundo e tratou de atender.
— Boa tarde, irmãos. Que bom que vieram. – Caprichou na expressão cansada. Estavam ali dois supervisores da lavoura de batatas, que assessoravam Gideão, e o Arauto Bian. Estranhou a presença deste último, porém, manteve-se no papel com perfeição.
— Boa tarde, irmão Aldebaran.
— A paz do Senhor.
— Como tem passado, Aldebaran? – Inquiriu Bian, o mais jovem dos Arautos. – A mando do Grande Pai, fui ao local de trabalho seu e de Mikael. Pretendia transmitir a ele uma ordem do senhor Hades, mas, que surpresa tive! Vocês dois faltaram ao trabalho, sem qualquer justificativa... viemos até aqui checar se está tudo bem.
— Eu estou bem, irmãos, mas o pobre Mikael...
— O que aconteceu com Mikael? – Bian perguntou logo, ante a hesitação do grandalhão à sua frente.
— Foi tomado por uma enfermidade terrível, pavorosa! Foi tudo tão de repente! Passei a noite em claro cuidando dele, até agora não saí de perto do coitado. De madrugada, gritava, delirava, uma febre altíssima! Fui buscar ervas para fazer um remédio, mas ainda estava muito escuro... acabei caindo em uma pequena ribanceira!
— É, eu já ia perguntar por que seu rosto está com esses machucados.
— Ah, isto não é nada, senhor Bian, pelo menos consegui as plantas! Preparei um emplastro para as chagas que irromperam pelo corpo dele.
— Chagas? – Os três homens fizeram a uma só voz.
— Sim, feridas por todo o corpo, uma coisa assustadora, nunca vi nada igual!
— Bem, gostaríamos de vê-lo. Faremos uma oração pelo seu pronto restabelecimento. – Bian falou; os outros homens assentiram.
Astuto, o ex pastor sabia exatamente o que eles queriam de fato: conferir a veracidade de suas palavras. Pois bem, preparara-se para isso:
—Claro, irmãos, entrem, por favor! Eu só temo que seja contagioso... minava um líquido purulento das feridas quando fui trocar as ataduras...
Os homens se entreolharam, nitidamente nauseados. Seus passos tornaram-se mais lentos.
— Er... será que é contagioso?
— Deus nos protegerá!
— Sim, claro...
— Agora está dormindo, mas há pouco gritava como um louco – Prosseguiu o brasileiro, dramático. – espumava pela boca, arrancava os cabelos, dizia coisas sem sentido...
Os três se detiveram diante da porta do quarto apontado como sendo de “Mikael”.
— Será... que ele teve uma possessão? – Questionou um dos supervisores da lavoura.
— Não creio. O próprio Redentor afirma que ele é um ANJO! Como seria possuído? – Analisou Bian, esticando o pescoço para dentro do quarto.
— Olhem... o coitado faz até a gente lembrar de Lázaro! – Exclamou o outro supervisor, ante a visão do homem deitado na cama, com o corpo quase todo enfaixado. Sequer podia-se ver-lhe o rosto!
Os visitantes levaram as mãos aos narizes, em meio a caretas abjetas.
— Por Deus Todo Poderoso! O que é esse CHEIRO?!?
— Vem das pústulas que irromperam pelo corpo do pobre rapaz, senhor Bian.
— Mas ele estava em perfeito estado no culto ontem! Como ficou tão doente assim, de repente?
— Também gostaria de saber, senhor Arauto. Querem que eu retire as ataduras para que vejam? Mas eu advirto: tenho medo de que se contaminem, irmãos... eu mesmo já estou sentindo um ardor esquisito nos meus membros... e começo a ter sensação de fogo em meus braços...
De modo bem pouco discreto, Bian e os dois assessores de Gideão deram alguns passos para trás, até o batente da porta, quase no corredor. O jovem arauto sorriu, sem jeito, uniu as palmas das mãos e conclamou:
— Que tal orarmos por ele daqui mesmo, irmão Zebedeu? Irmão Adonai?
—Sim, senhor Bian. Deus pode nos ouvir de todos os lugares!
— Vamos pedir pela saúde de Aldebaran também. Ele está correndo risco, caso a moléstia de Mikael seja realmente contagiosa.
— Por favor, irmãos. Já não me sinto muito bem...
Eles se afastaram mais do dono da casa.
— Sim, oremos. Por Mikael e por Aldebaran.
Terminada a prece, os visitantes apressaram-se em se retirar.
— Comunicaremos a Gideão sobre as condições de Mikael. Ele fica liberado do trabalho até melhorar. E você também, Aldebaran. Continue cuidando dele, por favor. E cuide-se também.
— Eu farei o melhor que puder, irmão Adonai. Ah... senhor Bian, qual era o recado do Grande Pai.
O jovem voltou-se para o ex pastor.
— Ele pediu que Mikael preparasse uns doces gregos para o Redentor. Rava... rava alguma coisa...
— Ravanies – Aldebaran sorriu. – Assim que ele melhorar, certamente os preparará. Eu avisarei.
Despediram-se. Após certo tempo, Aldebaran foi até o leito onde o amigo repousava. A primeira coisa que fez foi descartar as vísceras de porco que deixara debaixo da cama de “Mikael” para espalhar o tal “cheiro das chagas infectadas”. Em seguida, tirou do rosto do loiro as ataduras, verificando que, graças ao emplastro, os inchaços causados pelos socos já diminuíam.
“Se o vissem machucado desse jeito, ligariam o fato aos meus ferimentos, e entenderiam logo que andamos brigando. Isso daria margem a inúmeros questionamentos e desconfianças, tudo de que NÃO precisamos neste momento. “, pensou, colocando um pouco mais de pasta de argila em alguns pontos do rosto e corpo do jovem. O que ainda o mantinha desacordado era uma concussão causada pela barra de madeira que acertara-lhe a nuca. Só lhe restava ministrar unguentos na região e esperar que acordasse. Aldebaran cogitou fazer uma oração para tal, porém, algo petrificara dentro de si depois de ter visto o vídeo da “Santa Ceia”. Que não fosse permanente, rogava.. Contudo, por ora... não conseguiria. Pediu perdão mentalmente por isso. E pediu perdão, mais uma vez, ao rapaz inconsciente, embora soubesse que não seria ouvido.
Tirou o celular do bolso. Totalmente descarregado. Tomou também a pistola que encontrara entre o estranho macacão verde enfiado no armário. Dirigiu-se até seu quarto, onde arrastou a cama para retirar algumas tábuas do assoalho. Naquele novo compartimento secreto depositou os objetos trazidos por “Mikael” sabia-se lá de onde. Pregou cuidadosamente as tábuas de volta. Pôs um grosso tapete de urso negro sobre o esconderijo antes de recolocar a cama em seu lugar. Pôs-se de pé. Suspirou profundamente. Algo estava para acontecer. Sabia que “Mikael” havia conseguido se comunicar com alguém. Ele só não sabia QUEM.
Mas uma coisa ele sabia. Ou melhor, descobrira. Estava óbvio.
“Mikael” era um agente infiltrado.
Um policial.
Coçou o pescoço, nervoso. O mesmo perigo que o loiro corria, ELE TAMBÉM correria. Se o policial fosse descoberto, ELE seria acusado de acobertá-lo! Conquanto fosse uma Ovelha devota, tinha consciência dos rigores das punições reservadas aos que descumpriam os preceitos da comunidade. Que fariam com um conspirador, um traidor daquela magnitude!
Estalou a língua, incerto sobre o que pensar. Sobre como se sentir. Algo doía dentro dele, sem que desvendasse de imediato o que era. Tudo se misturava naquele coquetel de agonia e apreensão: ver o Redentor ser horrivelmente abusado em um Cerimonial, ouvi-lo gritar, chorar e clamar… saber que correria imenso risco por estar com um policial dentro de casa… ter sido ENGANADO por “Mikael”…
Sim.
Enganado.
Um bolo subia-lhe pela garganta.
Se pensasse amiúde naquilo, vinham-lhe ganas de entregá-lo a Hades.
Mas... a Hades? Que submetia o próprio filho àquela barbárie? O que tinha aquela orgia lasciva e blasfema a ver com os sacrifícios de Jesus? O que tinha aquilo a ver com Deus?
Não, não era um simples Cerimonial. Era um ato demoníaco.
Hades... Hades era o Mal. Não “Mikael”. Por mais que lhe doesse ter sido ENGANADO por “Mikael”, sabia que o amigo NÃO era o Mal.
“AMIGO”?
Poderia chamá-lo assim?
Sua cabeça começou a doer. Decidiu preparar um chá de erva-doce para aplacar seu mal estar. Queria poder orar... teria que esperar um pouco... sim, só um pouco.
*************
Às dez horas e onze minutos, toda a equipe do Projeto Êxodo 2018 encontrava-se na sala de reuniões da sede da Polícia Federal em Red Meadow. À mesa ovalada de vidro assentavam-se o agente policial Aiolia e seu irmão mais velho, o advogado Aiolos, o superintendente Dohko e a psicóloga e perita criminal Saori. Vindo dos escritórios da Pennsylvania, Kanon, irmão gêmeo de Saga, perito em material audiovisual. Viera do setor de homicídios onde trabalhava exclusivamente para auxiliar o mais velho, que desejava manter tudo em sigilo absoluto, até que algum dos figurões do Ministério Público desse o ar da graça e, finalmente, concedesse a liminar para a operação invasiva. Munidos de água, café e muita curiosidade, todos ouviam o promotor local e chefe da investigação, em pé diante do telão.
— É de conhecimento de vocês que somente poderíamos avançar em nossas ações com o aval do Ministério Público, o qual arrasta-se por semanas. Sem o mandado, não há sequer como entrar na comunidade em que Milo está infiltrado há quatro meses. E sem essa possibilidade, era inútil que fizéssemos contato com ele através da secretaria da organização.
— E ele lá esperando que você fizesse esse contato em dois ou três meses... já deve até ter se dado conta de que algo tá emperrado por aqui. – Dohko comentou, braços cruzados e semblante fechado. Se havia algo que aniquilava seu humor, além de não poder fumar ali, era a burocracia...
— Não descartamos a influência de membros da igreja nessa barreira. – Ajuntou Aiolia. – A Aurora do novo Porvir possui ações, empresas, imóveis, corporações, e, obviamente, pessoas que detêm o poder sócio político nos mais variados âmbitos da sociedade.
— É exatamente por essa razão que o nosso Projeto é tão sigiloso. Há apenas um tipo de prova que realmente pode atrair a atenção da opinião pública nacional, quiçá internacional, para essa seita...
— Comprovações irrefutáveis de graves violações dos direitos humanos. – Saori completou. – O que até hoje não foi possível obter, apesar das dezenas de denúncias que vieram à tona nos últimos anos.
— Você usou a expressão exata, Saori. ATÉ HOJE.
— Que quer dizer, Aiolos? – Indagou um ansioso Aiolia.
O advogado limitou-se a olhar para o namorado, a fim de dar-lhe a vez de falar:
— Quer dizer que hoje temos, enfim, essa prova.
Os presentes entreolharam-se murmurando. Saga não viu razões para suspense:
— Ainda não sei como, mas Milo deu um jeito de me enviar uma mensagem por celular.
Um pequeno alvoroço formou-se:
— Isso é sério?
—Como ele está?
—O que ele disse?
— Quando foi isso?
— Por favor – Saga ergueu as mãos. – Antes de um colega de trabalho, Milo é nosso amigo. É perfeitamente compreensível a preocupação de todos, e...
— Porra, Saga! Desembucha logo! – Aiolia bateu com força na mesa, derrubando seu copo de água.
O superior fitou-o; inspirou profundamente antes de revelar:
— A situação é crítica. Bem pior do que imaginávamos. Vocês mesmos verão. Kanon, a mensagem.
Diante dos investigadores, surgiu o texto digitado por Milo:
Sei que o combinado era esperar que você entrasse em contato, mas tudo aqui é muito pior do que jamais poderíamos imaginar. Há pessoas trabalhando como escravas, pessoas sendo castigadas, torturadas, violentadas. Os investigadores que aqui estiveram antes de mim foram assassinados. O próprio Redentor é uma vítima, sofrendo nas mãos deles há anos. Isso que vai ver no vídeo que envio é apenas um dos horrores que acontecem neste inferno. Venha imediatamente!
O estupor pairou na sala de reuniões.
— Isso parece seríssimo. Seríssimo. – Balbuciou Aiolia, sem ação.
— Ele fala que enviou um vídeo, é isso mesmo, Saga?
— Enviou sim, Dohko. Um vídeo de um ritual, ou algo parecido.
— Vídeo de um ritual?
—Sim. Vou exibi-lo a vocês. É... – Virou-se para Saori. – É forte. Coisa pesada. Sujeira da grossa.
— Não se preocupe comigo, ande logo com isso! – Demandou a nissei, gesticulando. E ela jamais gesticulava.
Assentindo, o promotor local fez um gesto para o irmão. Este ligou a aparelhagem de som e vídeo, nos quais já havia trabalhado.
E foi então que a equipe finalmente pôde vislumbrar o que, de fato, ocorria na isolada comunidade religiosa.
— CRISTO! Estão estuprando uma moça, é isso mesmo?
— Puta que pariu, Dohko, não tem olhos não? – Rosnou Aiolia, revoltado. – É exatamente o que estão fazendo!!!
— Inacreditável! Há pelo menos umas dez pessoas atacando a coitada de uma vez!
— Saori... não é uma moça! Olha!
— É mesmo! É um rapaz! Mas... SAGA! É o...?
—Ele mesmo. Aquele a quem chamam de “Redentor”...
Imagens do misterioso jovem ruivo sendo tocado, manipulado, aviltado, violentado, calou-os pelos sete minutos seguintes. Os gritos e gemidos de dor faziam gelar o coração dos mais experientes policiais. Quando o vídeo terminou, alguns engoliam em seco. Outros olhavam para baixo, outros balançavam a cabeça em indignação.
— Saga... – Começou Dohko, em voz quase sumida. – Milo fez algum outro contato depois desse?
O promotor meneou a cabeça em uma negativa. Ajuntou:
— Obviamente não posso mandar nenhuma mensagem de volta. Mas acredito que nada mais é necessário depois DISSO QUE VIMOS.
— Eu só queria saber se ele tá bem – Falou Aiolia, passando a mão pelos cabelos ocre. – A gente sabe que no Vale é proibido ter qualquer aparelho eletrônico. Fico pensando como ele conseguiu um celular. E se descobrirem que ele...
— Milo cumpriu sua missão com louvor. No momento, é nisso que temos que nos fiar. – Saga respondeu, tentando manter firmeza. – Agora, é marcar uma audiência com representantes do Ministério Público. Saori, pode cuidar disso pra nós?
— Nem precisava perguntar, chefe. – Levantou-se de pronto.
Kanon, que até em então nada proferira, finalmente se manifestou:
— Senhores, eu asseguro a autenticidade das imagens. E dou uma certeza a vocês: isso aqui vai AFUNDAR a Aurora do Novo Porvir.
*************
Tarde da noite. Sem lua, as estrelas cuidavam de adornar o céu despido de nuvens. A madrugada fazia-se fria, malgrado fosse verão. Mas este caminhava para o fim.
Pandora dormia a sono alto; regressara há algumas horas dos aposentos do sogro. O esposo já ressonava profundamente. Com um muxoxo, a morena não se preocupou nem um pouco se iria acordá-la. Mesmo que isso acontecesse, ele apenas praguejaria, viraria para o lado e estaria dormindo em segundos. Radamanthys não se importava. Ele não a amava. Radamanthys só amava a uma pessoa. E há muito Pandora deixara de se preocupar com o fato. O “Grande Pai” a tratava muitíssimo bem – cometia alguns excessos, eventualmente, ora, nada era perfeito – cobria-a de regalias e privilégios. Ao contrário de June, a linda ex modelo alemã não precisava realizar nenhum tipo de trabalho. Mal cuidava dos filhos: tinha um séquito de babás, enfermeiras, preceptores para cuidarem de Ikki e Shun. Além do mais, viajava todos os anos, ora acompanhando o amante em alguma viagem de lazer exclusivo, ora participando da Colheita Anual de Almas. Sim... Hades era o que podia se chamar de BÊNÇÃO, muito mais que qualquer coisa naquela colônia de loucos... e nas artes do amor, o vigoroso sogro comprovava ser a melhor bênção de Deus para uma mulher voluptuosa como ela. Por isso, banhou-se despreocupadamente, vestiu uma longa camisola de seda escarlate e atirou-se à cama. Sim, estava plenamente satisfeita... adormeceu logo, rumo a um sono que era sempre perfeito.
Não naquela noite, entretanto.
— NÃO... NÃO! NÃÃÃÃO!!!
Despertou em um sobressalto, quase caindo do leito.
— Rada! – Gritou, assustada. – O que foi?!?
Desesperado, o marido debatia-se aos berros:
— NÃÃÃÃO!!! NÃÃÃO!!!
— Pelo amor de Deus, ACORDE, homem! – Ela o sacudiu, não sem violência. O susto a exasperara!
— O quê? Quê?!?
— Deus! Você me assustou!
O primogênito de Hades sentou-se na cama. Ainda ofegante e confuso, nada proferiu, apenas inspirava e expirava com sofreguidão. A despeito do frio da madrugada, transpirava em profusão!
— Você estava tendo um pesadelo – Murmurou a moça, mais calma. – e, pelo visto, um pesadelo horrível!
Atordoado , Radamanthys tornou vagarosamente o rosto para a esposa. Ou ela não encontrara nada para falar ou estava curiosa acerca do teor do sonho.
Mas... JESUS!
Não poderia lhe contar, de jeito nenhum! De jeito nenhum!
De um salto, pôs-se de pé, sem responder. Em silêncio, caminhou até o closet; vestiu-se rapidamente com a primeira roupa que viu pela frente.
— Rada... para onde você vai a uma hora dessas?
Sequer deu-se ao trabalho de responder. Dirigiu-se lépido para a saída, como se tivesse algo urgente para resolver. Pandora piscou forte com o estrondo da porta se batendo.
— Ora... o que deu nesse homem agora?
Deu de ombros e voltou a afundar o belo rosto nos macios travesseiros de cetim.
*************
O sono de Camus normalmente era leve. No entanto, em virtude da elevada quantidade de analgésicos, calmantes e anti-inflamatórios que tomara, sequer despertara com o som da porta e, a seguir, dos vagarosos passos da visita noturna.
Radamanthys parou defronte o leito do “Messias”. Não era luxuoso como o seu: um mero colchão de palha, com cobertores grosseiros. Contemplou o belo semblante adormecido, tão sereno, tão destoante de seus tormentos! Era difícil acreditar que passara por tantas provações na noite anterior. Os cabelos rubros estavam soltos, contrastando dramaticamente com a alvura da pele do jovem. Mordendo o lábio inferior, o mais velho chamou:
— Camus. Camus, acorde. Acorde, vamos! – Balançou-o pelo ombro. Ainda assim, demorou a lograr seu intento. – Camus! Por favor! CAMUS!
Malgrado não gritasse, elevara a voz de modo a acordar o outro quase em um susto.
— Rada? O que… – Abriu os olhos com dificuldade. – Que houve? Que faz aqui?
Radamanthys sentou-se na cama do irmão. Parecia amedrontado como Camus JAMAIS havia visto.
— Camus... eu tive um sonho horrível...
— Um sonho? – Estranhou: desde quando Radamanthys manifestava temor por sonhos?
— Sim... um sonho terrível... terrível, meu irmão!
Atirou-se ao ruivo, quase em desespero. Abraçado a Camus, lutava para não chorar. Sua voz embargada, porém, sugeria que perderia aquela batalha. Atônito, o Redentor esperou que o mais velho explicasse o que estava acontecendo.
— Era ele... ele agora veio aparecer nos MEUS sonhos!
— Ele quem...?
— MIKAEL!
Camus experimentou um frêmito de surpresa.
— Ele... eu o vi... como ANJO...
— Você também, Rada? Mas… disse que foi um sonho terrível? – Tremia sob o amplexo do irmão.
— Ele... ele te levava para LONGE, Camus... ele tirava você do Vale, do NOSSO Vale, da NOSSA Terra Santa... e... e... – Soluçou dolorosamente. – e te levava daqui... para longe... para SEMPRE.
Camus sentiu os tremores de Radamanthys aumentarem, assim como as batidas de seu próprio coração, que parecia arder. O que deveria dizer daquilo? Lágrimas dos olhos ambarinos precipitaram sobre o pescoço marcado do “messias”.
— É por isso. É por ISSO que ele veio. Ele veio para te TIRAR de nós, Camus.
— Rada...
— Eu não vou permitir, não vou, Camus, NÃO VOU!
— O que vai fazer? – Inquiriu, apreensivo.
Afastando-se para fitar severamente o mais novo, o loiro respondeu em voz baixa e sibilante:
— Eu vou TE TIRAR DAQUI.
— C-como? Não entendi…
— Vou te tirar do Vale, Camus. Ele não vai levar você de mim, NÃO VAI!
Um fogo inédito crepitava no olhar vidrado do primogênito. Quase rangia os dentes. O Redentor, mudo de pavor, não conseguia articular uma sentença que fosse.
— Vamos fugir, Camus. Só eu e você. Vou te tirar de todo este sofrimento. E tirar você do alcance de Mikael.
— Que está dizendo, Rada...?
— É isso mesmo. Está decidido. VAMOS FUGIR, meu irmão.
*************
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