Redentor

15 Gólgota - Ato I : Auto de Fé


Notas iniciais
Hello, hello Eis que iniciamos o novo arco da história, "Gólgota", para o qual recomendo cautela aos leitores mais sensíveis. Agradecimentos expressos a todos que vêm apoiando esta fic, notadamente quem fez a gentileza de deixar um comentário, o que muito estimula e alegra esta que vos fala ^^ *** AVISOS *** CENAS DE TORTURA FÍSICA, IMAGENS DE VIOLÊNCIA INFANTIL E MENÇÕES A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER Poucos esclarecimentos nas notas finais. Aproveitem a leitura.

— Opa, parece que fisguei um, finalmente! – Exultou-se Milo, segurando com firmeza a vara de pescar.

— Puxe para cima – Orientou Aldebaran. – Mantenha a ponta da vara acima da sua cabeça, ou o peixe vai se soltar do anzol.

— OK! Puxa... vendo você fazer parecia tão fácil!...

— É a prática, nada mais – Riu o brasileiro, observando o ponto do qual se veria o grau do sucesso do amigo.

Não era menor que as cinco trutas que o ex-pastor já havia pescado. Ao contrário, deveria medir respeitáveis 40 cm. O peixe debateu-se freneticamente no ar, as laterais prateadas de seu corpo pintado reluzindo ao sol.

— Que beleza, hein! Demorou, mas pegou um belo espécime, hehe.

— Eu já tava achando que voltaria sem ter contribuído com nada. – Permitiu que Aldebaran retirasse cuidadosamente o peixe do anzol. Sentiu-se desconfortável ao ver a cena. – Err… eu sei que parece ridículo, mas tenho pena... é tão mais fácil vê-los no mercado... principalmente em forma de filés.

— É, mas não chegam aos pés do sabor destas belezuras aqui. – O moreno falou, colocando a truta capturada por Milo em um cesto, junto com as pescadas por ele.

— Ainda assim... dá pena. – Repetiu o policial, olhando distraidamente para os peixes, que ainda se mexiam.

Aldebaran cumpria naquela tarde de sábado a promessa de levar o novo amigo para pescar no Rio de Prata, do qual falara no sábado anterior. Propositadamente, o brasileiro conduziu de forma rápida o estudo dirigido daquele “dia de folga”; por volta das duas da tarde, já escolhiam um lugar propício para a esperada pescaria. Não que tivesse se denunciado ao novato. Mas Milo, observador como era, não pôde deixar de inferi-lo... preferiu, contudo, fazer de conta que nada percebera.

Dava para ver que o ex pastor estava bem animado por ter companhia para pescar suas amadas trutas. Infelizmente, Milo não partilhava de seu entusiasmo, embora tentasse disfarçar.

Não conseguia parar de pensar no “Auto de Fé”.

Nem por um minuto.

Atormentava-o a expectativa de presenciar um CRIME... e NADA poder fazer.

Não que tal situação fosse inédita em sua vida profissional.

Já se infiltrara em quadrilha de traficantes. Já se fizera passar por membro de grupo extremista. Já participara de duas ações contra terroristas, ambas bem sucedidas, mas uma delas com vítimas.

Em que, então, o que se desenrolaria no final daquela tarde se diferia das situações anteriores?

Em TUDO.

Malgrado compreendesse, não saberia explicar, caso fosse necessário.

A própria vítima se entregava. Como um cordeiro a ser imolado cessa de lutar e espera o golpe que lhe subtrairá a vida. Fora levada a acreditar que o ato grotesco a que se submeteria consistia em algo CERTO. E milhares de pessoas compactuavam com aquele absurdo. Milhares de pessoas assistiriam àquela crueldade, com júbilo em seus corações pecadores, sequiosos de salvação. Acreditavam obtê-la através da dor daquele inocente. E ele acreditava possuir a faculdade de salvá-las mediante seu sacrifício.

— Mikael?

— Hum?

Erguendo o queixo, Aldebaran apontou a vara que tremia.

— Está mordendo. Você pegou mais um.

— Oh, nem percebi!

— Deu para notar.

Seguindo as orientações recebidas anteriormente, o loiro puxou a vara para cima.

— Essa foi rápida, hein.

— É, estão começando a ceder aos meus encantos!

— Só se você fosse uma minhoca bem gorda – Brincou o brasileiro, auxiliando-o a trazer das águas o agitado peixe de tonalidade castanha.

— Caramba, é maior que o outro!

— He, he, he, he, verdade! Está sendo abençoado, meu amigo… assim… com cuidado. Pronto. – Removeu a truta do anzol, sorrindo satisfeito. Será um belíssimo jantar.

“Jantar. Nós vamos jantar trutas assadas... tomar chá diante da lareira... conversar e rir... enquanto ele...”

Como estaria Camus após aquele “grande show de loucos”? Um show que TAMBÉM seria para ele, Milo. Um gosto amargo invadiu-lhe a boca.

Que fariam a Camus?

Como seria o tal suplício?

— Oh, aí está novamente.

— O quê?

— A expressão que tem te perseguido todo o dia. Aliás... desde quarta à noite. – Aldebaran observou.

Forçando um riso, Milo retorquiu:

— Eu não sei do que cê tá falando, Debas...

— Mikael. Já conversamos sobre isso. – Agora o homenzarrão fez-se sério. – É compreensível que a iminência de testemunhar um martírio do Messias te deixe ressabiado. Não é algo a que a gente assiste com alegria. No entanto, não deve se entristecer demasiado.

— Mas eu não tô triste.

— Bem, você parece bem perturbado com a ideia do Auto de Fé. O que contraria o esperado de uma Ovelha. Nós, Ovelhas, SABEMOS da necessidade do sofrimento do Cristo reencarnado.

— Eu sei. Desculpe. – Pediu, gesticulando. – Olha, foi mal. É tudo novo pra mim. É claro que sei que os martírios por que Camus...

— AHAM. – Pigarreou o outro.

— ... digo... o Redentor passa são a etapa final do Plano Divino de Salvação de todos nós.

Vendo-o quase nervoso, o ex pastor abrandou o tom de sua voz:

— É louvável a sua empatia com o Messias. Só não deixe seu sofrimento pessoal suplantar a experimentação do sofrimento do Salvador. Você não deve lamentar. Deve refletir. Agradecer. Honrar o suplício com entrega e fé, não toldar seu espírito com a mesquinharia a que SUA dor fatalmente te conduzirá.

“Fui um idiota achando que esse cara era diferente...”, pensando nisso, o agente deu um profundo suspiro, que o brasileiro tomou por lamentoso.

— Sou fraco, amigo Debas. Preciso de sua ajuda, de suas orações. Gideão tinha razão, quando disse que ainda havia muito de mundano em mim.

Apenas um “hum” gutural foi a resposta do maior. Lançando um olhar ao longe, Aldebaran disse:

— Veja. Já tem gente indo para lá.

Seguindo o rumo que tomaram os olhos escuros do ex pastor, o policial pôde distinguir silhuetas em grupos, marchando resolutas na direção oposta à que ele e Aldebaran se encontravam.

— Já? Mas ainda é cedo... o Auto não será no final da tarde?

— Sim, porém lembre-se de que são centenas e centenas os fiéis que comparecerão. Excetuando-se os doentes ou totalmente incapacitados, pode-se dizer que TODOS estarão lá. Então já estão indo, para garantirem bons lugares.

— Um bom lugar pra assistir ao suplício do Redentor. – Murmurou o loiro, ficando de pé. Bem, também ele precisaria estar bem localizado para testemunhar o absurdo, a bem da investigação. – Eu também quero ficar perto do palco. Vamos logo, então?

Intrigado com aquela declaração, o brasileiro ergueu uma sobrancelha.

— Não imaginava que fosse querer isso. Você me parece sensibilizado quanto ao Auto de Fé. Acho que é melhor que fiquemos bem longe do palco, nas últimas fileiras...

— Talvez justamente por essa minha fraqueza seja melhor ficar em um local com a melhor visão possível. Pra arrancar isso de mim, sabe? – Argumentou o agente.

Foi convincente o suficiente para fazer Aldebaran assentir.

— Você pode ter razão, Mikael. Só que a esta altura, “local com a melhor visão possível” será bem difícil de conseguir.

— Que nada, já fui a vários shows de rock nesta vida... digo, na minha “vida mundana”. Sei abrir caminho. E se você for comigo, com esse seu tamanho, duvido que alguém vai se negar a nos dar passagem.

Eles riram, e foram recolher suas coisas.

— Vamos só deixar tudo isto em casa e partir logo para o Auto.

Enquanto caminhavam, passavam por inúmeros fiéis, que afluíam em procissões para onde seria o tão esperado evento. Milo perguntou ao companheiro:

— Esses Autos sempre são no mesmo lugar?

— Sim, são realizados nas proximidades do Rio Jordão, o rio em que o Redentor batiza as Ovelhas.

— Ah, sim – Disse simplesmente, lembrando-se de que um dia seria ele a ser “batizado” pelo “messias”. Quarenta dias após a admissão oficial na comunidade, ou seja, excluídas as três semanas de Purificação em Cafarnaum.

— Vamos apressar o passo, Mikael, ou não teremos escolha senão as últimas fileiras.

— É fácil você falar, com esse tamanho todo de pernas! – Bufou o policial, no esforço de acompanhar as longas passadas do “gigante gentil”.

*************

Aquela situação não era nenhuma novidade para ele. Isso não queria dizer que seguia tranquilo para o evento. Nessas horas, entendia com exatidão a aflição que Jesus sentiu horas antes de ser preso pelos romanos. Rodeado pelos seus, solitário em sua angústia. Contemplava através da janela do jipe a paisagem colorida pela luminosidade vespertina. Estava completamente absorto, até que escutou a voz do irmão mais novo:

— Camus? Está me escutando?

— Hã?

— Te fiz uma pergunta. Nem ouviu, né?

— Eu…

— Tudo bem, eu repito – Falou, animado. – Que acha da sugestão que dei ao nosso pai, que amanhã almocemos todos juntos no Tabernáculo? Jacó está com saudades.

— Algol... – Grunhiu Radamanthys fechando os olhos como quem reúne paciência.

— Que é? Não faz essa cara, Rada. Ikki e Shun também devem estar sentindo falta do tio, não? Faz bastante tempo que as crianças não veem Camus.

Divertindo-se com a inocência do caçula, Hades virou-se para trás e disse:

— Algol, seu irmão ficará descansando amanhã. Não haverá como ele participar de um almoço em família.

— Mas, pai! É só o garrote, ele nem estará ferido...

— Mas estará cansado. Precisará se recuperar. – O primogênito cortou-o, sem mais ocultar a irritação.

Cruzando os braços detrás da cabeça, Algol replicou, displicente:

— Bem, ele terá de se alimentar alguma hora. Por que não fazer dessa necessidade um momento feliz?

Radamanthys mirou-o com desprezo e comentou, entre dentes:

— Como você é insensível.

— Insensível? Sou EU o insensível ou ELE que ficou hipersensível? – Apontou para o ruivo, mudo e aparentemente alheio à discussão. – Desde quando Camus se ressente tanto assim de um sacrifício como o garrote? Se fosse o chicote eu entenderia, mas...

— Basta, Algol. Por Deus, você fala demais. Meus ouvidos doem.

— Sim, senhor meu pai.

Dando um longo suspiro, Hades enfim saboreou o retorno do silêncio no interior do veículo. Que não durou muito...

— Por falar em “hipersensibilidade”, parece que isso contaminou Camus depois que esse tal Mikael apareceu.

O ruivo estremeceu; seu coração disparou à menção do novato. Finalmente encarou o irmão mais novo, nenhum traço de emoção em seus olhos castanho avermelhados.

— Não comece, Algol, agora não é o momento.

— Na verdade NUNCA será, Radamanthys. – Interveio Hades. – Achei que tivesse mandado vocês deixarem o rapaz em paz.

— Eu não pretendo nada contra ele! – Defendeu-se Algol. – Apenas comentei que...

— Cale-se. Estamos quase chegando. Ah, Rada – Considerou o filho mais velho para comunicar. – Precisarei retornar a Nova York nesta semana. Quero que me acompanhe.

— Claro, meu pai. Algum motivo urgente para voltar logo para lá?

— Uma chateaçãozinha de processos... o de sempre. O que de sempre escapo. – Riu com cinismo. – A questão é que estão se avolumando. Marcaram audiências de casos diferentes para a mesma semana. Nem vou ter tempo de visitar alguns lugares. Enquanto cuido disso com os advogados, você trataria de certos assuntos com a sede. E também os pastores de...

— Por que sempre o Rada, pai? – Protestou o magoado caçula. – O senhor NUNCA me chama para acompanhá-lo em suas viagens de negócios.

— Porque você é estouvado demais. Pode meter os pés pelas mãos com esse seu jeito impulsivo e...

— Como posso ser como o senhor quer se não me dá uma chance de tentar?

Os olhos escuríssimos pousaram severos no queixoso jovem.

— É a segunda vez que me interrompe, Algol.

— M-me desculpe... eu... eu... – Abaixou a cabeça, segurando-se para não chorar. – Perdão, eu só queria...

— Você gostaria mesmo de ir?

Ele quase respondeu “Sim, claro!”, do jeito efusivo que seu temperamento sanguíneo demandava. Não obstante, olhou de esguelha para o calado “messias”, o peito apertando-se ante a ideia de passar dias longe dele. Amava-o tanto! Pelo menos, era o que julgava...

E ainda tinha Mikael. O pretenso anjo. Poderia realmente deixar o Vale, sabendo que o novato poderia se aproximar do irmão, na ausência dos leais familiares?

Por outro lado, o oferecimento do pai tentava-o sobremaneira. Seria uma oportunidade única de obter um pouco daquele respeito que parecia destinado apenas ao mais velho... e, de uma forma diferente, ao Redentor.

A dúvida selou seus lábios, de modo que o líder religioso cobrou a resposta:

— Então, Algol? Vai querer ir ou não?

Ficar longe de Camus seria o preço pela aceitação do pai.

Um preço bem alto, mas...

— Eu quero sim, senhor meu pai. Se me permitir acompanhá-los, prometo fazer o possível para ser útil. – Assegurou, sem dar-se conta da expressão de enfado de Radamanthys. Este provavelmente não acreditava nem um pouco que o mais novo criasse algum juízo. Nem que fosse de qualquer serventia para aquela importante viagem. O Grande Pai, no entanto, estava disposto a lhe dar uma chance...

— Eu vou te orientar no que for preciso, irmão. – Fingiu solicitude.

— Está certo. Não posso negar que será uma excelente oportunidade de aprendizado para você, Algol. Não posso confiar tudo somente a um de meus filhos, se tenho dois.

Camus não deu mostras de se incomodar com aquela fala. O que não impediu Hades de corrigir:

— Eu me refiro aos filhos que cuidam dos negócios e da administração da Igreja comigo, claro.

— Por quanto tempo ficaremos fora, meu pai?

— Mais do que fiquei na semana passada, Rada. Tentarei resolver tudo rapidamente, mas acho que não voltamos antes da terça ou da quarta da semana que vem.

— Puxa, tudo isso... – Murmurou Algol, quase se arrependendo. Temia deixar Camus “sozinho” por tanto tempo!

— Os mundanos não desistem das sórdidas tentativas de me derrubar. – Falou Hades. – Mas será apenas mais uma empreitada frustrada para eles... e uma vitória para a nossa Igreja.

— Amém. – Proferiram em uníssono, o motorista incluído.

— Bem, basta de conversa. Chegamos. – Anunciou o mentor da seita. O carro diminuiu a velocidade ao adentrar uma trilha rumo à estrutura que era a parte de trás do grande palco. Via-se ao longe a vasta massa escura a cobrir as planícies.

Os milhares de fiéis reunidos para o Auto de Fé.

Um arrepio eriçou os pelos do “messias”, embora ele mantivesse a máscara da inabalável tranquilidade.

O jipe estacionou em uma área reservada. Eles desceram, sendo recepcionados por assessores. Caminharam até uma entrada que dava para corredores no interior da instalação. Pessoas andavam de lá para cá, ocupadas com os ajustes finais do evento. Era tal qual um grande show, com a diferença de que nada possuía de diversão. Principalmente para o pobre ruivo, já sentindo o peito doer de ansiedade.

— Algol, Rada, sigam para os seus lugares. Seus filhos já estão lá, juntos com os Vigias, nos assentos frontais. Os outros Arautos, onde estão?

— Chrysaor está com a equipe médica, repassando as orientações. Dante está com ele, e também com o Verdugo. Bian está coordenando a equipe de iluminação. – Albior informou.

— Ótimo, e a equipe de som?

— Já verifiquei a passagem de som dos técnicos. Voltarei para lá.

— Perfeito, tudo tem que correr bem, muito bem. Pandora! Onde está Pandora?

— Está se maquiando no camarim, Grande Pai. – A voz miúda de June fez-se ouvir.

— O quê? Aquela maluca! Era para estar AQUI, para levar Camus ao camarim! É da aparência DELE que ela tem que cuidar, não da dela!

— Eu levo ele, senhor meu sogro... – Ofereceu-se a loira, timidamente.

— Esse comportamento inconsequente da sua mulher é porque você nunca a castiga por nada... você é muito mole, Radamanthys. Veja a diferença entre ela, uma desvairada vulgar, e a June, a quem mantenho na linha. – Algol não perdeu a deixa para mostrar ao pai como era “correto” e “linha-dura”, do jeito que um varão do Senhor deveria ser. Radamanthys não pareceu nada tocado por aquela tentativa de desmerecimento; June, por sua vez, abaixou a cabeça, constrangida. Em meio àquele falatório, àquelas ordens, orientações, àquela movimentação frenética típica dos bastidores, o Redentor sentia-se como um balão esvaziado. Alheio a tudo e a todos, não percebeu o piedoso olhar perscrutador de June sobre si. Ela deteve-se à frente de Hades.

— Senhor meu sogro, gostaria de falar com o senhor.

Todos olharam-na com curiosidade. O líder religioso ergueu as sobrancelhas, intrigado com a repentina vontade da moça.

— Vá em frente, minha querida nora, estou ouvindo.

Ela olhou ao redor, encolhendo os ombros. Lia-se receio em sua pálida e diminuta figura.

— Eu gostaria de sugerir uma coisa. Que permitisse a Chrysaor dar alguma medicação para que ele adormeça antes que o garrote o faça desmaiar.

Os presentes ficaram visivelmente chocados com a proposta da jovem. Até Camus foi destronado de seu alheamento ao ouvir a sugestão... o pedido da cunhada.

— Ele só será retirado da cadeira quando perder a consciência. Mas até isso acontecer, ele... o Messias sofre horrivelmente! Por favor, Grande Pai...

— Tem NOÇÃO do que está dizendo, June?

O tom severo de Hades semeou apreensão em todos.

— E você ainda diz que a minha esposa é que é desvairada... – Atirou Radamanthys, em meio a um sorriso sarcástico. – Pelo visto, não está mantendo a sua TÃO “na linha” quanto pensa...

Algol travou a mandíbula, vermelho de cólera.

— Pretende CORROMPER o Plano Divino? O que você propõe é uma FRAUDE do suplício de Camus. – O mentor da seita enunciou, fitando duramente a nora. – A Salvação dos escolhidos de Deus depende do martírio do Redentor, e você me pede para que o mesmo seja FORJADO.

— June, não... – Balbuciou Camus, sua boca oferecendo-lhe misteriosa resistência para permitir que saíssem aquelas palavras.

— Não seria forjado, meu senhor. Apenas minimizado!... Acha que até o remédio fazer efeito, ele não sofrerá o suficiente para que consideremos aquilo pelo qual passará um “suplício”?

— Cale-se, mulher! – Hades ordenou-lhe rudemente. – Só pode ser o Diabo falando por você. Imita Satanás, que tentou ao Cristo no deserto. Também ele sugeriu ao Messias que desistisse de se oferecer em sacrifício pela humanidade!

Temendo pela cunhada, Camus se interpôs entre ela e o líder religioso.

— Por favor, meu pai, eu peço que não diga isso da June. Não há mal algum na intenção dela. É equivocada, mas não maldosa.

Hades calou-se por uns segundos, encarando o jovem. E então, mais comedido, disse, voltando a mirar a loira:

— Veja o que é um Santo consagrado, ele intercede por VOCÊ, que almeja maculá-lo.

Virou-se para Algol.

— Deve educar melhor sua mulher, meu filho. Vejo que está falhando nisso.

O rapaz tremeu de ódio e vergonha. Ser repreendido diante de todos! A vagabunda iria PAGAR, prometeu em seu íntimo. Agarrou o braço da esposa com tal força que ela não pôde suprimir um gemido de dor.

— Pode deixar, meu pai, eu a corrigirei como se deve. Não sei de onde estão brotando essas ideias blasfemas... – Rosnou, apertando-a impiedosamente.

— Por favor, não a maltrate! Eu imploro, ela não fez por mal! – Um aflito Camus se pronunciou, causando surpresa a quem estava ali. Não era de seu feitio se manifestar com tanta paixão sobre algo, notadamente contrariando seu pai e seus irmãos.

Por uns instantes, entre indignado e espantado, Hades considerou-o. Então declarou, com perturbadora calma:

— Você é a personificação da misericórdia, meu filho. Mas também ingênuo, e... pelo que vejo... anda um tanto sugestionável. Esse Auto vem no momento certo. Não são apenas os fiéis que precisam ter sua fé reforçada...

Algol segurava a esposa com rispidez, deliciando-se com a expressão transtornada de Albior. O Arauto assistia à cena quieto, porém demonstrava em sua face contraída que ardia por dentro... sim, ele ainda amava June, o que deixava tudo mais divertido para o sádico rapaz. Fez questão de aumentar cruelmente a pressão de seus dedos na carne frágil, levando-a a emitir um dolente gemido.

— Pare, por favor! – Camus teve que ser contido por Radamanthys, pois que fizera menção de impedir a agressão. Enquanto tentava se desvencilhar do irmão mais velho, Albior dirigiu-se a Hades, servindo-se de todo seu controle para ocultar a revolta que o consumia:

— Senhor Hades, o próprio Redentor intercedeu por essa mulher.

— Você precisa se casar pra parar de se preocupar com a mulher dos outros – Riu Algol, torcendo o braço de June para trás. Ela gritou.

O tom do Arauto não se alterou:

— Peço que considere a vontade do Redentor, ele possui a essência do Cristo. Não poderia ser o próprio Jesus falando por Camus?

Olhando-o de modo enigmático, Hades respondeu:

— Você está certo, Albior. Algol, solte sua esposa. Desta vez, você vai perdoá-la. O próprio Redentor a perdoou. Não há razão para que a castigue.

Com um muxoxo, o caçula obedeceu. Não se furtou a fuzilar Albior com um olhar ameaçador. O Arauto, no entanto, não demonstrou qualquer intimidação. De cabeça baixa, as longas mechas douradas a lhe cobrirem o semblante desfeito, June sufocou um soluço choroso: SABIA que no recôndito do lar, não seria poupada da brutalidade do marido. Camus dirigiu-lhe um olhar apiedado, consciente do que esperava pela infeliz cunhada. Lamentava tanto por ela!

Sim, era POR ISSO que ele PRECISAVA sofrer.

Para que as outras almas obtivessem refrigério.

— June, vá ajudar Camus a se aprontar. Em trinta minutos, mandarei chamar vocês. – Assim o líder religioso deu por encerrado aquele colóquio.

Como um animal pronto para o abate, a passos resignados Camus deixou-se guiar pela sofrida June. Os olhos tristes de Albior acompanhou aquelas duas infelizes criaturas marchando para o camarim, antes de seguir para o lugar no qual era esperado.

*************

— Com licença... me desculpe... ah, perdão... – atravessando o mar de gente, Milo ia se escusando, no afã de chegar mais perto do palco. Dificilmente alguma Ovelha daria passagem de bom grado a um retardatário qualquer, a esmagadora maioria ansiava de igual maneira pela proximidade com o palco. Entretanto, ao se depararem com “o Anjo do Redentor”, não havia quem não deixasse o jovem passar. E havia ainda o homem imenso que o acompanhava: quem se negaria a abrir-lhes caminho?

— Aqui já não está bom, Mikael?

— Só mais um pouco... – O agente respondeu. E continuou pedindo permissão para avançar. – Com licença... desculpe...

Resolveu parar no que deveria ser a terceira ou quarta fileira. Tornou-se impossível continuar. Bem, a visão dali já era plenamente satisfatória. Tanto que Aldebaran, preocupado, achou melhor confirmar:

— Tem certeza de que é mesmo uma boa ideia ficar tão perto? Você já está abalado, antes mesmo de presenciar o Auto...

— Eu não estou “abalado” – Retrucou o policial. – Estou ansioso, OK? Será minha primeira vez como testemunha de um... suplício do Redentor.

— Por isso mesmo.

— Estou bem, não se preocupe, amigo.

O ex-pastor encarou-o, desconfiado. Tinha certeza de que o jovem iria se emocionar por demais. Havia dado mostras de como a expectativa do acontecimento vinha lhe impressionando. Reparou nisso desde que Mikael tomara conhecimento do evento, na noite de quarta-feira. Às vezes, o loiro ficava distante, como a refletir em algo sobre o qual jamais discorria.

Previa que não seria uma “estreia” fácil para o rapaz. Bem... de qualquer modo... NUNCA era. Para ninguém.

Seus pensamentos foram pausados ao notar o olhar estático do novato, fixo em algo coberto por um pano branco, em cima do palco.

— O que tem ali, Debas?

Uma pergunta que o brasileiro não queria responder.

— Ah... aquilo é o instrumento que vão utilizar no Auto.

— O que é? Parece ser uma cadeira.

— Não deixa de ser... mas...

— Você sabe o que é, Debas?

— Eu imagino o que seja. – Admitiu, soturno.

— Pois me diga logo o que é, homem!

— Tenha calma, você já vai ver.

— Não sei por que não quer me contar!...

— Mikael, é que... shhhh, vai começar.

Sobre a estrutura de madeira e metal, de cerca de 12 metros de comprimento, 4 de altura e nove de profundidade, surgiu o mentor da Aurora do Novo Porvir, vestido de negro, como de costume. Dirigiu-se ao microfone e pôs-se a discursar:

— Amadas Ovelhas consagradas ao Pastor Eterno, irmãos e irmãs em Cristo. Reunimo-nos hoje aqui para honrar a grande Missão do Redentor, aquele que recebeu em seu espírito a essência de Jesus. Aquele cujo sacrifício cuidará de limpar as almas dos pecadores para que o Filho Unigênito possa, enfim, levá-las até as Terras Celestiais. De tempos em tempos, o Redentor se oferece em “Autos de Fé”, com intuito adicional de reforçar nos espíritos dos agraciados a consciência da misericórdia divina. É o momento de expurgar cada dúvida, cada pensamento ímpio, cada fraqueza debilitadora, cada ameaça que porventura paire sobre a comunhão de Seu povo. Jesus sofreu por vocês... o Redentor repetirá Seu feito... por vocês. Pela Igreja Aurora do Novo Porvir.

Ensurdecido pelos “améns”, “aleluias” e exclamações em línguas desconhecidas que se seguiam ao término da fala de Hades, Milo perguntava-se o que fariam a Camus. Foi quando o viu surgir no palco, acompanhado de três homens encapuzados. Sentiu o sangue gelar ante as estranhas aparições; dois dos mascarados estavam de branco da cabeça aos pés, o terceiro deles, todo de preto. O filho de Hades trajava uma longa túnica, de uma alvura estonteante. Aos poucos, a plateia foi silenciando.

O Redentor caminhou para o microfone, do qual seu pai se afastara. O silêncio fez-se total.

A voz mansa e nada emocional dirigiu-se para a multidão:

— Isaías disse que o Salvador “derramou Sua alma na morte”. Um lume de Sua alma se acendeu na minha, segundo a vontade do Altíssimo e do próprio Cristo. O tempo final se aproxima. O Pastor virá buscar apenas as Ovelhas imaculadas. Mas de que forma pode o impuro ser imaculado? Somente através do Cordeiro imolado no altar. Por esta razão... eis-me aqui.

Murmúrios emocionados correram a plateia. Milo podia sentir a expectativa contrita no ar. Algumas pessoas já deixavam seguirem livres as lágrimas, unicamente por terem ouvido as palavras do “messias”.

— Você tava todo preocupado comigo – Sussurrou para Aldebaran – mas olha só esta gente...

— Shhhh.

— OK, OK.

— As Sagradas Escrituras relatam que o meu Antecessor “foi ferido por nossas transgressões, e moído por nossas iniquidades; o castigo que nos traz paz estava sobre Ele, e pelas Suas pisaduras fomos sarados...”

“Isaías 53”, lembrou o agente. Vinte e oito dias tendo apenas a Bíblia como leitura, e também como praticamente a única forma de distração nos escassos horários livres, tinham seus efeitos; já podia identificar algumas passagens, reconhecer-lhes os livros de origem, e até mesmo capítulos. Além disso, meses antes de se infiltrar na comunidade, estudara-a à exaustão, em suas pesquisas. Contudo, aquele capítulo fora particularmente emblemático para a investigação. Para a compreensão da proposta de Hades e da função de Camus. Sem lembrar de todas palavras com exatidão, Milo revisitou a tônica daqueles versículos em que se sustentava a cruel premissa da seita:

“Todos andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho, mas o Senhor fez cair sobre Ele as iniquidades de nós todos. Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro ele foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca.” (1)

Mordendo o lábio inferior, o agente viu Camus afastar-se do microfone. Teve a impressão de que seus olhares se encontraram em um milésimo de segundo, e quase sufocou com isso, mas bem poderia ser a sensação análoga à de um fã que assiste a um show com o ídolo. O silêncio pairava sobre a plateia à medida que o ruivo caminhava para o objeto coberto pelo pano. Os três homens encapuzados descobriram-no. Exclamações se elevaram; Milo arregalou os olhos, tentando entender do que se tratava o aparelho. Era uma cadeira, sim, uma cadeira de madeira escura acoplada a um encosto similar a um poste, no qual se via afixado uma estrutura de metal aberta... uma COLEIRA... e detrás desta, através do encosto, uma alavanca.

— O que é aquilo? – Indagou, a voz tremida de horror.

O brasileiro simplesmente respondeu, sombrio:

— É “o garrote”.

— Um... um garrote, é o que aquele... não, não me diga que...

Sem qualquer hesitação, o “messias” sentou-se no banco. Um dos homens de branco puxou de trás da cadeira uma caixa. Dela retirou algemas e correntes.

“Não, meu Deus, não é possível que vão fazer ISSO com ele!”, pensava o policial, que de tão aterrado não piscava, nem fechava a boca.

A coleira foi fechada em torno de seu pescoço alvo. Em seguida, os pulsos e os tornozelos do jovem receberam a restrição dos grilhões. Milo quase perguntou por que o prendiam daquela maneira se era ÓBVIO que ele NÃO tentaria escapar dali. Mas logo entendeu o nefasto motivo...

... para conter-lhes os espasmos quando do estrangulamento...

— Debas!... E-ele vai ser... estrangulado? – Quis saber, em um sussurro inquieto. – E... e se ele morrer...?

— Ele NÃO vai morrer. – Respondeu, no mesmo volume cuidadoso. – Usarão o garrote até ele perder a consciência. Assim que isso ocorrer, param.

Ainda boquiaberto, olhou o brasileiro com indisfarçável revolta nas íris azuis.

— E se a “perda da consciência” for na verdade o cara morrendo?!? – Insistiu, agora não tão discretamente. Por sorte, os choros, lamentos e exclamações que agora reverberavam cuidaram de ocultar o teor daquela conversa.

Franzindo o cenho, Aldebaran pontuou:

— Eu disse que ele NÃO vai morrer. É um Auto de Fé, não uma execução.

— Mas...

— Mikael. Acalme-se. NÃO é a primeira vez que o Redentor se submete ao garrote. E os que manipulam os instrumentos sempre são especialistas.

Recebeu aquela informação como quem recebe um soco no estômago. Suas órbitas ardiam de tanto que conservava o olhar vidrado.

“Não é a primeira vez que o Redentor se submete ao garrote.”, repetia-se em sua mente caótica.

“Foco, Milo, não se perca, não se desespere.”

“Eu não contesto a dor. Eu só contesto a sua duração.”

“Camus... meu Deus... por quê?”

“Estou cansado.”

Milo cerrou os punhos, presa de paralisante agonia.

O mascarado de negro posicionou-se atrás do aparelho de tortura. Estavam ele, os outros encapuzados e o Redentor todos de perfil para a congregação. O movimento instintivo de Camus umedecer os lábios e entreabrir os lábios em uma respiração profunda não passou despercebido ao agente.

Sob bramidos que eclodiram pela plateia, o verdugo começou a girar a manivela detrás do ruivo. Girava-a lentamente, fazendo com que o anel de ferro apertasse a garganta do “messias”. Este permaneceu imóvel e silencioso até quando lhe foi possível. Em dado momento, seus punhos se contraíram, bem como seus pés. Ele cerrou os olhos e abriu mais a boca, a princípio em um gemido mudo de dor.

— Meu Deus, meu Deus...! – Balbuciava Milo, horrorizado.

Malgrado pessoas chorassem e balbuciassem suas preces, era possível saber que Camus gemia.

Não que se ouvisse claramente.

Fiéis havia que uniam as mãos, trêmulos, explodindo em soluços diante do que testemunhavam; outros clamavam, como se fossem eles a serem seviciados; uns caíam ao chão, inconscientes... ou em estado de histeria. Milo resistia ao impulso de tapar os ouvidos com as mãos.

À aquela altura, a agitação dos membros de Camus denunciava que a principal fonte do sofrimento não advinha mais da dor, e sim da falta de ar...

Estava sendo asfixiado aos poucos, o dispositivo sendo girado devagar, devagar e constante...

“Não é possível, isso não tá acontecendo, puta que pariu, puta merda, dementes, dementes de merda!”, a sequência de impropérios mentais de Milo não davam conta de lhe aliviar a agonia de ser obrigado a presenciar semelhante brutalidade sem NADA poder fazer.

Aos seus pés, uma mulher desabou desacordada; ele sequer se moveu.

Sua preocupação convergia-se unicamente para o inocente que estremecia no terrível instrumento de tortura.

— Mikael, calma... – Sentiu os dedos de Aldebaran fechando-se em torno de seu pulso direito.

— Quê?... – Temeu que os dizeres tivessem se lhe escapado do cérebro e ido parar na boca escancarada.

— Eu SABIA que isso ia acontecer! Você está à beira de um COLAPSO. AGUENTE. ORE. – Disse o brasileiro, firme. Autoritário.

“Maldição, como conseguem falar em Deus e em orações quando uma pessoa está sendo TORTURADA diante deles?!? Ninguém faz nada! EU NÃO POSSO FAZER NADA!”, tudo isso lhe passava pela cabeça fervente, mas ele apenas cravou no enorme homem o seu olhar aparvalhado.

Teve enfim a atenção do grande rosto moreno desviada ao ver que o Messias daquela gente em pleno frenesi religioso cessou de se mover. Os braços e pernas imobilizados do filho de Hades relaxaram, e ele não mais abriu os olhos.

Um dos mascarados de branco fez um enérgico sinal e o de preto, rapidamente, pôs-se a girar a alavanca em sentido contrário ao de antes. Concluído o processo, ele abriu a coleira de ferro. Retiraram-lhes as algemas; o corpo inerte foi amparado pelos dois homens de branco. Um deles verificou-lhe a pulsação. Ansioso, Milo esperou que fosse anunciado que o Redentor ainda estava vivo; ao que parece, porém, isso não foi considerado necessário. Enfermeiros acorreram ao local. Puseram o jovem em uma maca e o levaram rapidamente, debaixo de uma salva de palmas.

Palmas!

Aqueles dementes APLAUDIAM uma monstruosidade daquelas!

Então estava TUDO BEM se alguém era seviciado daquela forma torpe, atroz, contanto que suas “almas” fossem SALVAS, hã?

Ah, como se enganavam.

Como suas almas eram IMUNDAS.

PÚTRIDAS.

ABJETAS.

Um manto escuro de descrédito sobrepôs-se aos resquícios de esperança que Milo tinha para com aquelas pessoas. Julgara que ali houvesse pessoas boas, enganadas, ludibriadas, manipuladas, violentadas, despojadas de seus direitos e de suas dignidades. Apiedara-se delas.

Então, pela primeira vez, as odiou verdadeiramente.

Achou-as más.

Merecedoras de todos abusos que sofriam.

MALDITAS.

“Até Aldebaran está aplaudindo”, constatou, tão decepcionado que quis gritar. No entanto, eis que ATÉ ELE, o justíssimo policial da Polícia Federal de Red Meadow, se viu obrigado a bater palmas. Poderia ser o único a não fazê-lo? Em um circo de horrores, se não se travestisse daquele horror, seria jogado aos leões.

Ser diferente suscitava dúvidas, dúvidas suscitavam desconfianças, desconfianças levariam-no ao FRACASSO.

E ele precisava TANTO vencer para livrar aquele homem do hórrido destino ao qual fora atirado pelo próprio pai!

Ora... neste caso... haveria OUTROS como ele? Aplaudindo SEM querer? Aplaudindo SEM aprovar?

“Pro inferno! São todos uns MALDITOS!!!”

Que morressem engasgados em seus prantos e lamentos patéticos. Em suas preces estúpidas. Em seus desmaios histéricos.

Odiava a todos.

— Mikael.

Odiava Aldebaran.

— Mikael...

Odiava principalmente a SI MESMO.

— MIKAEL!

— Hã?

—Não está me ouvindo?

—Desculpe… – Murmurou, sentindo-se ridículamente fraco.

— Tudo bem. Vem. Acabou. Vamos voltar.

— M-mas... eles não vão informar nada sobre como...

— Não. O Auto acabou. – Reforçou, sem dar margem a argumentações.

Os fiéis se dispersavam, entoando cânticos, louvores, grande parte deles tão emocionados que partiam escorados uns nos outros. Enfim retiraram do solo os que haviam sucumbido a emoções mais violentas. Quase como um cego, Milo deixou-se conduzir por Aldebaran, que lhe tomou o cotovelo, atento a olhares curiosos sobre o loiro, nitidamente abalado.

*************

Percorrendo um frio e comprido corredor, Milo tateava as níveas paredes de mármore com ambas mãos, dada a estreiteza do mesmo. Avistou uma porta dourada à frente, aberta, e soube que era onde deveria entrar. Uma tênue luz dali fluía, convidando-o imperiosamente.

Adentrou o recinto.

Alguém esperava por ele.

A claridade cegava seus olhos azuis turquesa. Forçou-os, a luminosidade recuando, recuando, até se concentrar em um único ponto. Um ponto que se movia, que vinha até ele, como que deslizando por sobre a névoa do mar.

Camus.

O branco de sua túnica pulsava tal qual uma estrela longínqua.

O branco tinha vida própria.

Mais vida que os olhos mortiços do jovem ruivo.

Vendo-o caminhando feérico em sua direção, Milo indagou, unicamente por não saber o que dizer:

— Camus, o que faz aqui?

Resposta alguma saiu dos finos lábios selados do Redentor. Milo umedeceu os seus, pensando que melhor pergunta seria ONDE era “ali”.

— Camus...

O filho de Hades parou à sua frente e falou:

— Milo.

O policial estremeceu, sentindo o coração parar. Seu nome verdadeiro fora descoberto pelo falso messias? Mas como?

Não, só havia uma explicação.

Aquilo era...

— Um sonho – Murmurou Camus, a face imota como de uma estátua. – Mas nem por isso irreal.

— Então... bem... por que...

— Venha. Esperei muito por você.

— Hã? Esperou por mim? Como sabia que eu viria?

Camus deu-lhe as costas, os rubros cabelos descendo espantosamente longos por sobre suas costas, chegando até... até os joelhos, quem sabe. Sem encontrar alternativa que lhe parecesse válida, Milo seguiu o rapaz por um corredor escuro e ainda mais estreito. Um vento fustigava-lhe o rosto, gotículas gélidas atingiam-no a ponto de causar arrepios por todo o corpo. Não obstante, nem um fio sequer da vasta cabeleira escarlate flutuou no ar.

— Pra onde a gente tá indo? Que lugar é este? – A franja loira, por sua vez, revolta pela forte corrente de ar, atrapalhava a visão já dificultada do agente.

O ruivo permaneceu em silêncio, sem importar em virar para trás e responder o questionamento.

Chegaram a uma porta fechada, cujo material Milo não soube precisar. As mãos brancas do jovem espalmaram-se na superfície escura e lustrosa; empurrou-a sem dificuldade. Um vasto aposento, vazio, de onde não se distinguiam teto nem paredes.

Uma caixa de vidro no centro do Universo.

Então fez-se a Luz...

... e lá estava ela, no centro da amplidão.

A cadeira utilizada no Auto de Fé.

A cadeira com o garrote.

— Que merda aquilo tá fazendo a...

Camus pousou o indicador em riste sobre os lábios praguejadores de Milo. Este não saberia dizer se o que vislumbrava no semblante do Redentor era um leve sorriso... ou uma serenidade tão plácida que o beatificava.

Saberia menos ainda o porquê de Camus dar-lhe as costas novamente... e ir se sentar na infame cadeira.

— Camus, sai já daí! Você...

— Você não veio até aqui para me SALVAR, Milo?

Paralisado ante a pergunta, ouviu a voz perturbadoramente monotônica mais uma vez:

— Se não vai me salvar... liberte-me.

Dando passos curtos, hesitantes, o policial gesticulou ao falar, como se desculpando:

— E-eu vou! Eu VOU te tirar daqui! Todo este INFERNO vai acabar...

— Quando? – O ruivo ergueu o queixo, encostando-se no espaço ladeado pelo anel de metal aberto.

— É só uma questão de tempo...

— O tempo sempre foi o meu pior carrasco. O tempo me odeia. O tempo... – Calou-se, fitando o agente de modo enigmático.

Uma angústia quase palpável tomou conta do loiro, tiritante de frio e de tensão.

— Por que cê tá sentado aí? Sai daí, vai. – Pediu, sua voz oca através de um túnel em sua mente.

O “messias” meneou a cabeça em uma negativa. Dando um suspiro resignado, Milo disse:

— Está bem. Vou te libertar do sofrimento. De todo sofrimento.

Caminhou para o aparelho, posicionando-se atrás dele. Tateou o metal frio da alavanca. Firmou ali seus dedos, que já haviam parado de tremer.

— O tempo acabou, Camus. Ele não poderá mais te ferir. – Anunciou.

— Obrigado... Milo.

Restabelecido em seu ânimo, o policial assentiu. Decidido, começou a mover a rosca.

Rígida, a princípio.

Mas ele era forte.

— Aaahn... uuhn... – Gemia o Redentor, ressentindo-se da ação do novato.

Tomando fôlego, Milo girou mais resoluto o dispositivo que apertava a coleira de ferro em torno do pescoço do “messias”. Seu fluxo de sangue para o cérebro principiara a ser dificultado: em breve perderia a consciência.

Mas a perda da consciência NÃO seria suficiente; Milo queria libertá-lo, não?

Camus pedira.

Imprimiu mais força ao processo, ouvindo os gemidos do rapaz cuja vida extraía pouco a pouco...

— Permita-me participar, meu caro Anjo?

— Hades?!?

O pai do falso messias entrava em cena, empurrando um grande espelho sobre rodinhas. Colocou-o bem à frente dos dois jovens.

— Vou ajudá-lo a cumprir sua missão, Milo. – Revelou, sorrindo de forma macabra.

Se ele queria ajudar, por que sorrir daquela maneira horripilante?

Parecia mais um mau presságio.

O reflexo ganhou a atenção de Milo. Palor doentio cobriu-lhe o belo rosto bronzeado. Seus membros amoleceram e um estranho ganido escapou de seus lábios separados e frementes.

O reflexo...

A imagem...

Era um sonho!

Era um pesadelo!

Viu-se na mesma posição, cumprindo a mesma ação... no entanto, não era Camus a ocupar o instrumento de tortura. Era seu filho Hyoga!!!

— Pa... pa-pai... D-dói... – Balbuciou, quase sufocado.

Milo travou a mandíbula, seus dentes raspando um no outro com tanta violência que julgou-os partidos tais quais cacos de porcelana. Olhos fitos no pequeno a convulsionar, imprimiu mais força na manivela.

— Não tema, filho. Vou fazer a coisa certa agora. Eu prometo! – Sentenciou, nunca cessando de girar o dispositivo.

— Pa... pa... aaarrgh... ackk...

Pelo espelho, via a criança tremendo dolorosamente, os pequenos membros agitando-se no desespero da supressão do ar. Seus grandes olhos azuis de Natassia, não os seus!, pareciam prestes a saltar do rostinho vermelho e contorcido de agonia.

— Na... nggh... eeh...

Camus veio por trás de Milo, e sussurrou-lhe ao ouvido:

— “Não temas o que estás prestes a sofrer. Sê fiel até a morte e dar-te-ei a coroa da vida.”

— Pa... paaarggh...

— “O vencedor de modo algum sofrerá a segunda morte.” (2)

Quem seria o vencedor?

O Hyoga do reflexo parou de se mover.

O Hyoga de carne e osso também teria...?

Então Milo gritou, estilhaçando as estruturas do sonho.

Seus gritos espalharam-se no ar gelado. Então as trevas a tudo ocultaram novamente...

— MIKAEL!!!

— AAAAH!!! AAAARGH! O... o quê?

Percebeu o rosto largo de Aldebaran, amarelado pela luz da lamparina, acima de si. Em seu ombro, uma das mãos enormes do homem.

— Pelo amor de Deus, você estava tendo um pesadelo terrível!

— Um pesadelo – Confuso, Milo olhou para o outro, questionando-se se havia de fato voltado para a realidade ou não.

As névoas ainda pareciam ali.

— Eu... sim... é, um pesadelo. Um pesadelo horrível. Cristo.

— Tive que te acordar, gritava e se debatia tanto que tive medo de você cair da cama, ou mesmo se machucar durante o sono.

— Eu gritava? Nossa… desculpe. Desculpe, acabei te acordando… – Murmurou o loiro, enxugando o suor da fronte.

Suando... naquele frio!

— Ei, que é isso? Você não tem que me pedir desculpas por isso, céus! – Riu Aldebaran, sem contudo esconder algo de nervoso em seu riso.

Havia de ter se assustado bastante.

Milo pensou em dizer alguma coisa, qualquer coisa... não deixar o silêncio pairar. Mas ele juraria ter pedras na boca.

— Eu vou te preparar um chá.

— Não, meu amigo, volte a dormir.

— Eu só vou dormir quando tiver a certeza de que você está bem.

— Eu ESTOU bem. – Assegurou com um sorriso tão falso que não pôde enganar o ex pastor.

Os olhos castanhos sondaram demoradamente o novato. Até que...

— Mikael. Quem é Hyoga?

—Hyoga? – O bolo na garganta quase não deixou o som sair.

— Sim. Você gritou esse nome algumas vezes.

— O que... o que mais eu disse?

Aldebaran deu de ombros ao responder:

— Só isso. “Hyoga”, três vezes. Parecia aterrorizado.

Passando os dedos pelos cabelos desgrenhados, Milo suspirou e simulou calma ao responder:

— Era o nome do meu irmão. Eu... eu o via criança, no sonho...

— Entendo. Deve ter sido um sonho realmente horrível, pelo modo como você chamava por ele.

— É... mas... não me lembro bem...

— Talvez seja melhor. Bem, descanse. Daqui a pouco, trago um chá calmante.

— Não, Debas, é sério, eu tô legal. Vai dormir.

— Tem certeza? – Olhou-o desconfiado.

— Sim, é sério. Amanhã é dia de culto...

— Certo. Que tal fazermos uma oração, então? Para você dormir melhor.

— Ah, ótimo. Vamos sim. – Concordou o policial, a contra gosto. Teve que se esforçar para não revirar os olhos e resmungar “que saco”.

*************

Ouvia os primeiros cantos inspirados dos pássaros madrugadores.

Não conseguira dormir mais.

A imagem de Hyoga debatendo-se como uma truta no anzol.

Estrebuchando.

A fala do Redentor, intrigante e ao mesmo tempo suave.

Sussurrando.

O riso torvo de Hades.

Tripudiando.

Amanhecia...

“Como ele deve estar?”, pensou, levando a mão à testa, e esfregando-a.

Não, não conseguiria mais dormir.

Além do quê, algo revirava-se em seu estômago. Correu para o banheiro, que, por sorte, era mais perto de seu quarto do que do quarto de Aldebaran. Ajoelhou-se diante da latrina e vomitou.

Sentia-se esmagado por uma fraqueza sem igual.

“Bem, acho que agora de manhã vou aceitar um chá medicinal de Debas...”. E só de pensar nisso, novamente expeliu o que havia em seu estômago dolorido.

*************

O Redentor não apareceu no culto matinal. Foi dito pelo pregador que “o Messias ficaria repousando durante aquele dia”, recuperando-se do Auto de Fé. Pediu-se que orassem por ele.

“Tocante.”, pensou Milo, ainda ruminando aquele ódio.

Tivera o cuidado de chegar bem cedo – muito antes do início do culto – para ocupar a primeira fileira após as fileiras reservadas aos membros mais elevados – a família de Hades, as famílias dos Vigias e Arautos e visitantes ilustres: autoridades eclesiásticas, políticas, figurões variados. E, ao término do cerimonial, lançou-se à empreitada planejada, mas não comunicada a Aldebaran.

Ir atrás de algum familiar de Camus.

Viu os irmãos do ruivo reunindo-se com suas esposas e filhos, e se preparando para deixar o local por uma saída exclusiva, aos fundos do templo. Disparou até eles, sendo seguido por um atônito Aldebaran:

— Mikael! O que houve? Aonde… – Quando percebeu a intenção do loiro, tentou advertir – Não, você não pode...

Seguranças fizeram menção de impedir sua aproximação, contudo, hesitaram ao ver que se tratava do “Anjo do Redentor”. Já ao brasileiro impediram, fazendo um cerco.

— Senhor Radamanthys! Senhor Algol! – Elevou a voz para chamar à distância, pois que, mesmo sem muita energia, era contido por alguns homens.

Os dois irmãos viraram-se, prontamente reconhecendo-o.

— É o novato. – O caçula disse, entre dentes. Fez cara de poucos amigos, mãos dadas com a esposa June e junto do filho Jacó.

— Oh. Mikael. É você. Como vai? – Ao contrário do mais novo, Radamanthys fez-se cordato. A seu lado, Pandora estudou o recém chegado de alto a baixo, contendo um sorriso de satisfação. Havia dois menininhos com ela, seus filhos Ikki e Shun.

Ao verem que um dos filhos do Grande Pai se dispusera a falar com o “anjo”, os seguranças se afastaram um pouco, no fundo satisfeitos pelo primogênito do líder religioso não tê-lo repelido: receberiam uma bela reprimenda, caso isso tivesse acontecido.

— Eu estou bem, muito obrigado.

— Em que posso ajudá-lo?

Estimulado por aquela recepção por parte de Radamanthys, o policial indagou:

— Eu gostaria de saber como Ca... hã... como o Redentor está?

Os olhos claros de Radamanthys escureceram sob a repentina tensão que se verificou em sua fronte ampla.

— Penso que o pregador já passou essa informação. Não estava atento ao culto, Mikael? – Respondeu, com uma frieza ferina.

Milo não se intimidou. Chegara até ali, não?

— Oh, estava sim. Ouvi claramente que o Messias está descansando hoje. Eu só queria saber se ele... er... se ele ficou machucado.

— Camus está sendo muito bem cuidado, Mikael. Ele ficará agradecido por sua preocupação. Mas sendo o Auto de Fé um passo necessário para a remissão dos pecadores, não é adequado que você se aflija a ponto de vir nos interpelar. – E nesta observação, o primogênito de Hades imprimiu uma indisfarçável repreensão.

Foi a vez de um nada sutil Algol se pronunciar:

— Isso mesmo! Quem você pensa que é, hein? Com que direito chega aqui nos interrogando sobre NOSSO irmão?

— Ele é o Anjo do Redentor, papai!

— Jacó?

A criança desprendeu-se da mão de June e adiantou-se para Milo. Este se abaixou para falar com o menino, que parara diante de si.

— Oi. Não te conheço, mas parece que você me conhece.

— Todo mundo conhece o Anjo do Redentor. E eu te vi no culto da semana passada. Meu tio falou que você é um anjo. Todo mundo fala isso. – O garotinho disse, os olhinhos verde-água brilhando.

— Ah, é mesmo? Puxa…

Os filhos de Pandora perguntaram-lhe ansiosos:

— Mamãe, podemos ir falar com o Anjo também?

— Por favor, mamãe!!!

Ela considerou o esposo:

— Eles podem?

Radamanthys meneou a cabeça em uma afirmativa muda. Observava a cena, pensando em qual seria a reação do pai caso visse aquilo. Continuaria achando que Mikael era “inofensivo”? Infelizmente o pai encontrava-se indisposto naquela manhã e não comparecera ao culto.

Ikki e Shun, de respectivos 9 e 7 anos, juntaram-se ao primo, que conversava feliz com “o anjo”.

— Ora essa – Algol cruzou os braços, raivoso, porém sem ação. Ainda havia muitas pessoas no lugar, e não podia atrair mais atenção do que a situação já estava a atrair. Via-se impossibilitado de empreender qualquer ação ríspida.

— Oi, eu sou o Ikki. Este é meu irmão Shun.

— Oi vocês! Prazer em conhecê-los. – O policial cumprimentou-os, sempre sorrindo. Os meninos ficaram encantados, pois jamais alguém sorrira daquele jeito para eles.

— Você é mesmo um anjo, Mikael? – Perguntou o menorzinho, um garotinho rosado, quase rechonchudo, de bastos cabelos castanhos claros. Tomá-lo-ia por uma boneca biscuit com aqueles traços e aqueles imensos olhos esverdeados.

— Não seja bobo, Shun! Não ouviu o tio Camus dizer que ele era um anjo? – Fez o maiorzinho, expressão altiva e decidida incomum naquela idade; tinha cabelos castanho-escuros e olhos da cor do mar ao anoitecer.

Sorridente, Milo exortou com doçura:

— Não chama seu irmão de “bobo”. Irmãos têm que ser sempre amigos.

— Mas é que ele é bobo às vezes.

— Bem, todos somos. Mais um motivo pra gente não ofender um ao outro, né? – Riu o policial, conquistando cada vez mais os pequenos.

Veio a típica saraivada de perguntas, própria de quando crianças curiosas estão reunidas:

— Então você veio do céu?

— Você morava perto de Jesus?

— Como é lá em cima das nuvens?

— Dá pra andar nelas ou tem que ficar sempre voando?

— Cadê suas asas?

— Ele deixa elas invisíveis, Jacó!

— Mas como, Ikki?

— Como seria, seu burro? Com o poder que Deus deu pra ele!

Milo inclinou a cabeça ao opinar:

— Não acho legal chamar seu primo de “burro”, Ikki...

— Então posso chamar de “bobo”, como chamei o Shun?

— Bem... também não é muito melhor, mas...

— Como você veio do céu?

— Você via a Terra lá de cima?

— Por que você deixa suas asas invisíveis?

Enquanto as crianças crivavam o novato de perguntas, Radamanthys virou-se para Algol. Em voz baixa, enunciou:

— Escolha alguns dos seguranças e mande que esperem por nós no gabinete pastoral.

O mais novo abriu um sorriso pernicioso. Não imaginava o que planejava o irmão mais velho, mas sabia que tinha a ver com o detestável que ousava roubar as atenções de seu Camus, das Ovelhas, e agora, até de seu filho!

— Em dez minutos estarei lá. Vou despachar Pandora e os meninos para casa. Faça o mesmo com os seus.

— Certo.

Eles julgaram estar maquinando fosse lá o que fosse com discrição. Entretanto, se Pandora se distraía admirando “o belo anjo”ajoelhado e rodeado pelos garotinhos, June notava cada movimento dos irmãos de Camus. Com o canto dos olhos, cabelos caídos sobre o rosto macilento, percebia sem deixar transparecer. Em seguida, tornou o olhar trépido para aquele que fora chamado “anjo” por seu desafortunado cunhado. Segurou o braço dolorido, oculto pela manga longa do vestido de cetim salmão, sem conter um pensamento aflito:

“Esse rapaz não deveria estar se aproximando desta família... que Deus tenha piedade dele!”

*************

Notas finais
(1) Isaías 53 : 6 (2) Apocalipse 2 : 10 - No sonho, Camus fala apenas uma parte do versículo, cuja versão inteira é: "Não temas o que estás prestes a sofrer. Eis que o diabo lançará alguns de vós na prisão, para que sejais tentados; e tereis uma tribulação de dez dias. Sê fiel até a morte e dar-te-ei a coroa da vida." ************* É, finalmente Milo viu do que se trata REALMENTE a seita em que se infiltrou... certeza de que está a considerar o cenário BEM PIOR do que o imaginado quando das reuniões com seus companheiros de trabalho, na Polícia Federal... June teve a impressão de que seu marido e seu cunhado estão a maquinar algo contra "o novato"... estará a jovem, outra vítima dos horrores do Vale, certa sobre isso? Muita emoção nos próximos e decisivos capítulos... espero vocês lá. Obrigada por lerem, forte abraço!