Redentor
16 Gólgota - Ato II : A Flor Na Tempestade
Notas iniciais
Acreditava estar abrindo os olhos, porém a escuridão continuava lá. Um manto de trevas envolvendo-o em meio ao silêncio. Havia o frio também, um frio oriundo do contato de seu corpo desnudo com uma superfície gélida. Pedra... mármore... granito... que importava?
Ele estava morto.
Morto para o mundo e para si mesmo.
Encerrado em uma tumba similar àquela em que depositado foi, cerca de dois milênios atrás, seu Antecessor.
Espírito de seu espírito.
Essência que moldou em um punhado de barro vil um ídolo vivo, agora sepultado.
Vivo não.
Morto.
No frio, no escuro, no silêncio.
Então ele estava morto.
Mas por que fitava as trevas disto consciente, presente?
Jazia no obscuro do inaudito esquecimento.
Já não havia dor.
Então... por que ainda...?
Pensou ouvir uma voz sussurrando, vinda não se sabia de onde: “Viva. Viva. Viva. Viva...”
Deu-se de que não era nada mais nada menos que as batidas ritmadas de seu coração.
Vivia... ou revivia?
A escuridão fragmentou-se quando a luz penetrou no sepulcro; a rocha circular que ali o selava era lentamente movida. Ele distinguiu o autor da façanha pelos contornos residentes no contraste com a luminosidade.
Asas.
Longos cabelos.
O caminhar firme, altivo. Decidido.
— Eu vim para que tenha vida, e vida em abundância.
Um anjo deveria tomar como suas palavras saídas da boca do Salvador? E no singular? (1)
O rosto de Mikael emergiu das sombras, cercado de misterioso e áureo resplandecer.
— Levante-se, Camus. Você não está morto.
— Mas... eu estou neste túmulo... como deve ser...
— Você NÃO está morto. – O Anjo repetiu, enfático.
— E quanto à minha missão? – Indagou, confuso.
— E quanto à MINHA missão?
— Então... você tem mesmo uma missão...?
— Por que acha que estou aqui?
— Eu não compreendo.
— Não poderia. A luz do conhecimento foi apagada do teu ser.
Aquela declaração golpeou Camus de um jeito quase físico. Sentou-se, enfim, na laje sobre a qual estivera deitado pelo que parecera anos.
Décadas.
De modo tão tranquilo quanto contundente, Mikael sentenciou:
— Você foi jogado nas trevas por quem se fez passar por luz.
O que significava aquilo?
— Pegue a minha mão, Camus.
Olhos castanhos pousaram sobre a palma diante de si, imperiosamente convidativa.
Hesitou. Lá fora... o sol! Não, não poderia sair... tinha medo de que o sol ofuscasse-lhe a visão, ele, que há tanto tempo se encontrava no ventre do rochedo!
Lá fora... tão amplo, claro, refulgente... ao passo que na cripta...
Mas era tão confortável... não era?
A ausência... a ausência...
Não.
Não era.
Era frio, escuro e solitário.
Depositou sua mão na palma de Mikael.
Algo fisgou-lhe nas córneas.
Despertara.
Não estava mais na catacumba. Reconheceu de pronto seu modesto quarto.
“Um sonho!... fazia tanto tempo...”
— Bom dia, Messias. – Saudou-o a voz suave e melódica da porta entreaberta.
— Bom dia, June, pode entrar.
Sobraçando uma bandeja, ela adentrou a alcova.
— Me desculpe, eu achei que já estivesse acordado, então vim trazer seu... – Enunciou, sem jeito por vê-lo ainda no leito. Afinal, passavam das oito da manhã, e Camus costumava sair da cama às seis horas!
— Eu deveria já ter levantado. Não sei o que me deu. – Sentou-se no fino colchão, ainda mais avexado que a loira. Ela sorriu-lhe ao sugerir:
— O remédio, talvez...?
— Ah – Murmurou, lembrando-se do potente medicamento aplicado por Chrysaor, a fim de aplacar-lhe as dores decorrentes do Auto de Fé. No domingo, chegara a ter uma febre alta, além de uma crise de pânico ao despertar. O médico cingalês cuidou do “messias”, que passou quase todo o dia dormindo. Na segunda e na terça as dores persistiram, de modo que se fez necessária a continuidade da medicação.
O olhar piedoso de June caiu sobre as horríveis manchas roxas que circundavam o pescoço do cunhado. Disfarçou-o, conferindo um tom casual à indagação:
— Como você está? Ainda sente dores?
— Menos. Bem menos.
— Acha que consegue comer alguma coisa sólida hoje?
— Acredito que sim. – Não que tivesse real vontade de se alimentar, contudo, estava ciente da necessidade. Não lhe interessava cair doente, principalmente naqueles dias. Precisava aproveitar a chance única.
— Trouxe frutas, leite, chá, queijo de cabra, e pãezinhos que eu mesma fiz. – June anunciou alegremente.
— Ah, são os meus preferidos! – O jovem sorriu, aproximando-se da pequena mesa circular sobre a qual a cunhada depositara a bandeja. – Coma comigo, tem bastante coisa.
— Obrigada, querido, mas eu já tomei o desjejum.
Levando uma maçã vermelhinha à boca, o ruivo fitou a moça, que permanecia de pé no humilde cômodo.
— E você, June, como está?
Ela pareceu subitamente sem jeito. Respondeu com um sorriso que Camus sabia ser forjado.
— Estou bem. Algol não me bateu muito desta vez; não queria que seu pai ficasse sabendo, já que a ordem foi para que não me castigasse...
— Mas ele não obedeceu.
— Não. – Ela murmurou, baixando o olhar.
O Redentor considerou-a, tomado de compaixão.
— Você devia ter contado ao Grande Pai, June. As ordens dele não podem ser desobedecidas, e Algol...
— Ele não me machucou tanto. – Frisou rapidamente. – Agora, se eu o denunciasse, aí sim eu...
Assentindo, Camus soube a que a jovem se referia. A vingança do irmão por haver a esposa o denunciado seria bem pior do que a agressão por ela sofrida. Suspirou, desalentado.
— Isso não foi justo. Você não propôs aquilo com má intenção.
— A natureza de nossas intenções pouco influencia no merecimento de nossas punições. Eu já entendi isso há muito tempo, Camus. Você não?
A réplica fora baixa, tímida. Seu conteúdo, porém, fizera trovejar no interior do “messias”.
— Sente-se, June. Tome ao menos um chá comigo.
— Está bem. – Sorriu ao obedecer. – Quer que passe manteiga no seu pão?
— Não é preciso, está muito bom assim.
Ficaram em silêncio por alguns minutos. June era a pessoa mais próxima de Camus, e a principal das Sentinelas, categoria das Ovelhas que trabalhavam no Tabernáculo servindo diretamente ao Redentor: cuidavam de sua alimentação, do vestuário, da limpeza de seu apartamento, bem como nas demais assessorias. Ele gostava imensamente da cunhada, e se solidarizava com o que a coitada sofria no casamento. Sabia por experiência própria o quão excessivo podia ser Algol, embora seu condicionamento o impedisse de ver o irmão como um homem simplesmente cruel.
— Hoje precisaríamos limpar seu quarto. Devido ao seu repouso estes dias, ainda não pudemos fazê-lo esta semana. – June falou, estendendo-lhe um guardanapo. – Mas, se você quiser continuar aqui, podemos deixar para amanhã...
— Não, hoje é quarta, dia de minha caminhada pelo Vale. – Costumava fazê-la de duas a três vezes por semana, optando pelas segundas, quartas e sextas.
— Mas será que você está mesmo bem para ir?
— Estou sim, não se preocupe.
Os olhos azuis de June caíram novamente sobre os hematomas do rapaz. Subiram até as petéquias que marcavam-lhe alguns pontos do alvo rosto. Ajuntou, esforçando-se para sorrir:
— É, pode ser bom respirar ar puro, tomar um sol... está um dia lindo. Assim que terminar sua refeição e se trocar, vou chamar Dante para vir buscá-lo.
O ruivo comprimiu os lábios, procurando uma forma de dizer:
— Eu gostaria de que fosse Albior a me acompanhar hoje, June.
— Mas pela escala seria Dante... – Foi a natural reação da loira, que estranhou abertamente a inédita colocação do cunhado.
— Sim... ocorre que eu gostaria de ir ter com Mikael, e... me sinto mais à vontade com Albior.
June encarou-o brevemente, incomodada por algo que não sabia precisar. Um pressentimento, talvez?
— Camus, me desculpe, mas… acha sensato ir procurar esse homem?
— Pode imaginar que tenho assuntos a tratar com ele. E de mais a mais, na semana passada Chrysaor me levou até a lavoura, nos acompanhou o tempo todo e não houve problema algum.
Ela compreendeu que ele se referia aos possessivos irmãos. Incerta se procedia bem ou não, acabou por revelar:
— No domingo, após o culto da manhã, ele foi atrás de Algol e Radamanthys para perguntar de você.
— Para perguntar de mim? – Ergueu as sobrancelhas, surpreso. – Mas por quê?
— Por quê? Ora… porque estava preocupado contigo.
— Preocupado comigo?
— Sim. E bastante, viu?
Camus ficou boquiaberto. O que era aquele calor se avolumando em seu peito? Quase sem respirar, insistiu:
— Mas por que ele estaria preocupado comigo? É meu dever passar pelos suplícios. Todas as Ovelhas deveriam saber disso.
— Quem sabe não ficou impressionado por ser a primeira vez ao presenciar um martírio seu...
Centenas e centenas também tiveram a sua “primeira vez”. Nenhuma delas tomou atitude semelhante. O ruivo experimentava uma sensação inexplicável. Não saberia nomeá-la, nunca sentira aquilo.
Não era ruim.
Não mesmo.
— De qualquer maneira – Ela prosseguiu. – Ele... Mikael... parece ter alguma coisa diferente.
— Diferente como?
June realmente não seria capaz de explicar. E mesmo se o fosse, talvez não o faria. Não tinha intenção de preocupar o pobre cunhado.
— Bem... dizem que ele é um anjo, não? Acreditam nisso, depois do que você disse diante dos fiéis. Pode ser que isso tenha ligação com esse... algo diferente que vejo nele.
— Você está certa. E é por isso que preciso falar com ele. – Não queria expor que a ausência do pai e dos irmãos o impelia àquela ação.
— Está bem. Vou chamar Albior para que o acompanhe, Camus.
— Muito obrigado.
— Mas antes, coma um pouquinho mais. Tem tempo que não se alimenta direito.
Ele sorriu e disse, animado:
— Pode deixar. Afinal, a caminhada até as plantações de batatas exige disposição!
*************
Albior trabalhava na sede da administração quando foi avisado por June que o Redentor requisitava-lhe a presença. Deixou o posto imediatamente; um segurança do Tabernáculo fora buscá-lo com a solicitação, e levou o Arauto de jipe até a residência do “messias”, pois que a distância era bem considerável. Adentrando o apartamento ocupado pelo jovem, deparou-se com a mulher que ainda amava, a despeito da separação imposta pelo destino... e pelo líder da seita. Trocaram um olhar constrangido, nada destituído de significações.
— Bom dia, June. Como está?
— Bom dia, Albior. Muito bem. – Mentiu, com pesar. – E você?
Ele mirou-a, silencioso. Desprezando a indagação, quis saber:
— Onde está Camus?
—No banheiro… terminando de se aprontar.
Aproveitando a raríssima oportunidade de falar com ela a sós, perguntou de supetão:
— O desgraçado te bateu muito?
Corando subitamente, a loira desviou o olhar ao responder com voz sumida:
— Não... ele... precisava fazer de conta que obedeceu o Grande Pai e Camus...
Viu o argentino crispar os punhos e respirar fundo, indignado. Apressou-se em acrescentar:
— Eu juro, não foi nada sério... estou bem. E, pelo menos desta vez, ele poupou Jacó.
— Isso é bom. Mas eu preferia que o covarde tivesse poupado você também. – Murmurou, entre dentes. Reparou que a loira não tinha ferimentos aparentes, entretanto usava mangas ainda mais compridas que o usual.
— Não podemos ter tudo. – Ela olhou para a porta fechada da suíte. Voltou-se ansiosa para o homem à sua frente. – Albior, que acha desse Mikael?
O Arauto franziu a testa, intrigado com aquela questão.
— Mikael? Bem... ao que me parece, é um bom rapaz. Meio agitado demais, acho, mas... por que pergunta?
— Me preocupa essa aproximação dele com Camus.
— Sabemos muito bem quem são as pessoas cuja aproximação de fato prejudica Camus.
— Sei que os irmãos abusam dele...
— June, não use essas expressões! – Advertiu em um sussurro preocupado. Correu para trancar a porta do quarto, apenas encostada. Aproximou-se bem da jovem, segurando-a pelos ombros. – Tome cuidado, por favor! Não quero que você caia em desgraça!
— Que desgraça maior a vida pode me reservar? Maior do que estar casada com Algol? – Retorquiu, o brilho de lágrimas perceptível nos olhos claros.
Uma dor pungente afligiu o Arauto, a ponto de ele se sentir sufocado. Diminuiu a pressão de suas mãos sobre os ombros da amada. Tinha que resistir à vontade que vinha assaltá-lo...
— Mas isso não importa agora. – Alegou ela, restituindo a calma anterior. – O que quero dizer é... eu temo TAMBÉM por esse rapaz. Pode ser alvo dos ciúmes de Algol e Radamanthys.
— Eles só voltarão na terça que vem. Não haverá problemas.
— Sim, mas...
— Além do quê, o senhor Hades foi enfático em proibi-los de importunar o novato.
— Também foi enfático em proibir que Algol me punisse – Retrucou, desvencilhando-se dele. Bem a tempo, pois que escutaram deslizar o trinco da porta do banheiro. Afastaram-se um do outro, antes que o Redentor testemunhasse aquela proximidade imprópria.
— Oh, olá, Albior. Agradeço por ter vindo tão rápido.
— Não há de quê, Messias. Deseja ir até a lavoura a pé ou...
— Preciso caminhar, já me sinto atrofiado. – Sorriu o ruivo, trajando uma longa túnica branca.
— Certo. Então, por favor, sente-se.
Camus fez conforme o solicitado; sabia com que fim. Ergueu a barra da roupa, o suficiente para permitir que o Arauto pusesse em um de seus tornozelos o indispensável aparelho de contenção.
June virou o rosto. Revoltava-a aquela medida. Não suportava ver a tornozeleira paralisante sendo colocada no corpo de seu cunhado e mestre. Percebendo-lhe a reprovação no semblante rígido, Albior não se furtou a comentar:
— Também não gosto de botar isto nele, e te garanto que não sou o único.
— Eu sei. Ordens do Grande Pai. – A loira fez um grande esforço para não deixar transparecer a amargura naquela fala. No entanto, o Arauto, além de ser um homem observador, a conhecia desde a infância.
— Não tem importância, June, não deixe Albior desconfortável. É o dever de todos que me acompanham pelo Vale. E sabemos que a culpa é toda MINHA.
— Mas faz tanto tempo...
— As coisas têm que ser assim. É inútil contestá-las. – Concluiu o Redentor, em decidida resignação.
Por baixo do véu de irrestrita submissão, June não se convencia muito daquilo. Não mais. Apreensivo, Albior lia-o claramente na expressão da moça. E isso era uma fonte de preocupação para ele. June era frágil, sensível... sucumbiria como uma flor delicada aos rigores de uma violenta tempestade, se algum dia deixasse de usar aquele véu.
— Podemos ir? – Indagou o Arauto.
— Sim. – Camus sorriu levemente. Virou-se para a cunhada. – Até a volta, June.
— Faça um bom passeio, Messias. E procure ir pela sombra.
— Eu cuidarei disso. – Albior garantiu, encarando-a com apaixonada firmeza. – Cuide-se você também, June.
— Digo o mesmo a você... meu amigo.
Suprimindo um suspiro, o loiro deixou o quarto, sendo seguido pelo Redentor.
June levou a mão ao peito, como se aquele gesto pudesse dissipar as névoas que envolveram seu coração.
*************
Milo carregava os pesados sacos de batatas para a caminhonete, em cuja carroceria ele e outros depositavam os legumes. Um trabalho árduo, realizado apenas pelos mais fortes que ali trabalhavam. Obviamente Aldebaran estava entre estes. Apesar de soberbamente ensolarado, o dia fazia-se fresco. Em um dia quente tal atividade teria sido ainda mais fastidiosa.
— Mikael. – Chamou o vozeirão de Gideão.
O policial acabou de colocar a carga junto com as outras e virou-se para o supervisor que vinha em sua direção. Teria cometido algum erro? Fazia tempo que não era repreendido, forçoso era reconhecê-lo. Desde que fora chamado de “anjo” pelo “messias” da seita... entretanto, na esmagadora maioria das vezes, os lavradores só eram chamados por seus supervisores para levarem bronca... ou, pior, serem castigados.
— Pois não, senhor? – Mostrou-se respeitosamente solícito.
— Deixe já esse serviço. Venha comigo. – Ordenou, atraindo a curiosidade dos presentes.
— Eu... fiz algo errado? – Sua apreensão não era lá muito cênica. Suas costas ainda estavam cicatrizando, o que o incomodava bastante.
— Não, não! Você não fez nada de errado... é que... ELE está aqui de novo. Para falar com VOCÊ!
— Ele quem?
— O REDENTOR, rapaz! – O capataz mostrou-se empolgado. – Anda, vai logo! Não o deixe esperando!
Hesitante, o loiro dirigiu um olhas ao redor, encontrando os semblantes admirados de seus companheiros de labuta. Aldebaran balançou afirmativamente a cabeça, parabenizando-o em silêncio.
— Está bem. – Murmurou, indo atrás do supervisor.
Ficou mais surpreso do que esperava, ao ver o “messias”.
Ali estava ele, acompanhado do Arauto chamado Albior, lembrava-lhe o nome. De pronto, reparou nos arroxeados sob os olhos castanhos, e nos pontinhos avermelhados na face clara. Olhou com desconforto para o pescoço marcado do jovem.
— Bom dia, Mikael. Como tem passado?
—Bom dia, Redentor. Estou muito bem, e melhor agora, que o vejo recuperado.
A fala causou estranheza ao Arauto, a Gideão e ao próprio Redentor. Não fizeram caso dela, entretanto.
— Eu disse a Gideão que você me acompanhará novamente pelo Vale. – Anunciou Camus, fitando-o com incontestável autoridade.
— Ah sim... – Voltou-se para o capataz. – Tudo bem mesmo se eu for?...
— Mas é CLARO, meu AMADO IRMÃO! E, como da outra vez, não precisa retornar à lavoura. Tire o dia para se dedicar ao Nosso Senhor!
— Ainda é cedo. Posso voltar depois. Não me sinto bem sobrecarregando meus companheiros com o trabalho que deveria estar sendo feito por mim.
Impressionados com a demonstração de altruísmo do novato, Camus e Albior se entreolharam. Gideão coçou a barba, igualmente surpreendido.
— Bem... neste caso... se você quiser voltar, volte... mas não se apresse, o Redentor detém a primazia sobre as suas Ovelhas. Leve o tempo que o Messias demandar. Se der tempo, volte...
“O CARALHO que vou voltar, babacão.”, pensou Milo, já satisfeito por se livrar daquele fardo. E, claro, por mais uma chance de obter novas informações, diretamente da peça central do tenebroso jogo...
Após ter abençoado seus servos, Camus retirou-se, seguido pelo agente e pelo Arauto. Tomaram caminho por uma trilha sombreada ali perto. Andavam sob frondosas e floridas árvores, das quais pétalas despencavam indolentemente.
— Você se desagrada de eu tirá-lo do trabalho?
O inesperado questionamento do ruivo fez o policial erguer as sobrancelhas.
— De maneira nenhuma, Mess... er... Camus. Estava mesmo querendo encontrar com você.
O coração do filho de Hades bateu mais forte.
— Verdade? E por quê?
— Ora… porque tava preocupado contigo. – Respondeu, admirado daquela pergunta.
Camus olhou-o, igualmente admirado, e abaixou o olhar. Atrás deles vinha Albior, deliberadamente atento à conversação dos dois.
— Soube que você foi falar com meus irmãos no domingo.
— Fui sim. Talvez eu tenha sido inconveniente, mas tava morrendo pra saber como você tava...
— “Morrendo”?
Milo deu uma risadinha, divertido com a expressão de dúvida do jovem.
— É uma maneira de falar! Quer dizer que eu precisava MUITO saber como você estava.
— Como pode ver, estou bem.
— Sim, graças a Deus. Mas... foi duro, não? Digo... você ainda tá... machucado...
Inconscientemente, Camus levou a mão ao pesoço, cobrindo-o.
— Está bem melhor. Você não precisava ter se preocupado.
— Olha, cê me desculpa, mas ver alguém ter a garganta torcida que nem um frango, até desmaiar... só não me preocuparia se eu tivesse gelo nas veias!
— Como ousa se dirigir ao Messias de modo tão irreverente? – Repreendeu Albior, postando-se diante do agente.
— Deixe-o, ele não me ofendeu.
— Isso não é jeito de falar com você, Camus!
Nem um pouco intimidado, Milo, contudo, se fez de constrangido. Ergueu as mãos ao se defender:
— P-perdão! Foi só uma maneira de falar...
— Pois atente mais para ela. – Rosnou. Voltou para trás dos dois, mantendo sua distância.
— E eu que achava que ele fosse um cara legal... – Suspirou Milo.
— “Legal”. Essa palavra eu conheço. – O “messias” sorriu. – Não se incomode com Albior. Ele tem um ar severo, mas é extremamente bom e gentil.
— Se eu não soubesse que você não mente, ousaria dizer “difícil acreditar!”
Desta vez Camus riu... ainda que de forma contida, riu. O policial olhou-o, reparando em como era bonito seu sorriso. O garoto não se sairia nada mal em uma carreira de modelo “lá fora”, pensou.
— Ele é o assessor de meu pai com quem eu mais fico à vontade, sabe? Considero-o um irmão mais velho. Por isso, pedi que fosse ele a me acompanhar hoje... para vir ter contigo.
— Eu fico lisonjeado, sério mesmo. Haveria algum motivo especial?
—Na verdade, dois… o primeiro é no tocante à sua missão.
— Minha missão?
—Sim. Já recebeu alguma revelação de Deus acerca do que conversamos na semana passada?
Milo simulou consternação ao dar uma resposta negativa:
— Sinto muito. Tenho orado dia e noite, pedindo por essa revelação... mas...
— Eu compreendo. Ainda não é o tempo de Deus. – Resignou-se Camus. Sabia bem como era não obter respostas, por mais que clamasse por elas.
— E qual é o segundo motivo?
— Quero pedir que não se aproxime dos meus irmãos.
Alcançaram uma aprazível clareira, banhada pelo sol tépido. Dezenas de aves ascenderam em brusca revoada. O vento suave potencializada o frescor daquela esplêndida manhã primaveril. Tomando fôlego para se fazer por envergonhado, o policial disse:
— Desculpe, não quis importunar seus irmãos.
— Não é isso – O ruivo temeu deixá-lo desconfortável. – Acontece que eles são... bem... como posso explicar... eles são um tanto ciumentos.
O agente fingiu se surpreender com o que já havia percebido:
— O quê? Eles têm ciúmes de você?!?
— Sim... sei que não é uma atitude adequada, porém...
— Mas eles devem se aborrecer todos os dias, então! – O novato não segurou o riso. – Terem ciúmes de alguém como você, que é adorado por milhares de pessoas!
— É diferente. – Contradisse, sério.
— É? E por quê?
Incapaz de responder, Camus deu de ombros. Albior permitiu-se responder por ele:
— Em todos estes anos, você, Mikael, foi a primeira Ovelha a manter contato tão próximo com o Messias. Por isso é diferente.
Surpreso por ver o Arauto tomar parte na conversa, Milo esperou que Camus pedisse por privacidade. Todavia isso não aconteceu.
“Ele deve confiar mesmo nesse cara.”, raciocinou, optando por não demonstrar sua surpresa. Simulando uma neutralidade que não poderia existir, analisou:
— De qualquer modo, é esquisito dois caras adultos, com suas próprias famílias pra cuidar, terem tantos ciúmes de um irmão.
— Bem... assim são as coisas. Enfim, peço que não se aproxime muito deles. Não quero que você tenha... aborrecimentos.
“Confirmando que os maninhos não são boa gente, hã?”, pensou o policial ao assentir, obediente.
— Pode ficar tranquilo, não vou procurá-los novamente.
Em um tímido agradecimento, o ruivo deu um breve sorriso. Enquanto atravessavam um campo pontilhado de dentes-de-leão, o agente perguntou:
— E... como é pra você, se submeter a esses autos, suplícios...?
— Como é para mim? – O outro repetiu, incerto de como deveria responder.
— Sim, parece terrível. Tão sofrido...
— Se soubesse que milhões seriam salvos da morte eterna com o seu sacrifício, não faria o mesmo?
— Eu talvez sim – Milo considerou friamente que mentia. – Mas quase ninguém faria isso.
— Por isso Deus enviou apenas dois Messias. – Racionalizou o filho de Hades, sério.
— Tem razão. Só acho que... puxa, deve ser algo bem difícil.
— Não o nego. Porém me sinto honrado em ter sido o escolhido. Isso compensa todo o... desconforto que eu possa sentir.
— Desculpe, mas você não me passou uma impressão tão satisfeita da última vez.
Ruborizando, Camus calou-se. De fato, uma semana antes admitira sua desolação, seu anseio, seu cansaço. Albior mantinha-se quieto, como convinha a um acompanhante do Redentor. Não obstante, Milo punha-o alerta.
Um discreto som de correnteza se dez ouvir. Milo apurou os ouvidos; um córrego... um riacho, talvez?
Súbito, uma ideia passou pela fervilhante mente do policial. Espreguiçou-se, pretensamente inocente, antes de comentar:
— Sempre ouço falar das cachoeiras do Vale, só que ainda não vi nenhuma. Dizem que são lindas.
— Há uma bem perto daqui. Consegue ouvir o regato? – Indagou o ruivo.
— Sim, estou ouvindo.
— Ele nasce da Cachoeira do Profeta, gostaria de ir vê-la?
— Eu adoraria! – Deliberadamente, Milo dardejou-o com um de seus sorrisos luminosos... irresistíveis, sempre lhe diziam!...
Percebeu o rubor nas faces do rapaz. Que coisa... aquele cara era como uma criança! Não lhe fazia gosto manipulá-lo. No entanto, precisava sondar... estava em meio a uma investigação, afinal. Jamais poderia perder aquilo de vista, custasse o que custasse.
Desceram por uma inclinação não muito pronunciada; esquilos escalaram apressados os troncos finos das numerosas árvores cujas copas chegavam a escurecer o trajeto. Camus ergueu a barra da túnica para facilitar-lhe os movimentos. Notando-o, Milo estendeu-lhe a mão, no intuito de ajudá-lo. O ruivo aceitou o oferecimento. Achou a cena estranhamente familiar.
Albior pensou em impedir. Era o SEU dever auxiliar o “messias”. Nem mesmo ele soube o que o impediu, contudo. Talvez...
Talvez a postura de Camus diante daquele homem, o qual o jovem acreditava ser um enviado de Deus. Jamais o vira tão à vontade com alguém!
E parecia tão... bem.
Mais que bem.
Pleno.
O som das águas tornava-se cada vez mais alto. O ar refrescava-se à medida que se aproximavam do final da descida. Milo auxiliou o rapaz a chegar até onde o terreno voltava a ser plano. Pássaros grasnaram bem alto, intrigados com suas presenças naquele santuário. Depararam-se com a belíssima queda d’água, vigiada por altas escarpas salpicadas de árvores e arbustos.
Que lugar!
Do rochedo de cerca de 15 metros precipitava-se a cortina prateada, rumo à piscina de profundo verde em cujo leito distinguiam-se seixos dourados como moedas de um antigo tesouro esquecido. Pinheiros, amendoeiras e castanheiros cercavam o que qualquer um juraria ser um pedaço do paraíso. A névoa formada pelas gotículas no ar conferia a precisa impressão de encantamento à paisagem. Milo abriu os braços e exclamou, extasiado:
— Mas olha só pra isso! É maravilhoso!!!
Camus interessou-se antes em observar o loiro do que a estonteante paisagem. Sorriu feliz ao ver o novato feliz. Não entendia por que o júbilo do outro transmitia-lhe o mesmo. Só sabia que era bom. Agradável. Envolvia-o um doce aconchego.
— Incrível, Camus! Já conhecia esta cachoeira?
—Conhecia sim. Asseguro que nem é a mais bonita daqui.
— Quê? Ah, você tá brincando!
— Hã? B-brincando?
—Ah! Nada, nada! Maneira de falar… quando alguém diz algo impressionante, a gente fala “tá brincando”?
— Ah...
— Nossa. Olha só pra isso – Repetiu o agente, exultante. A visão de algo tão bonito depois de tanta fealdade, tanto horror vigente naquela cidadela semeava nele autêntico entusiasmo. – Deus. É tão lindo.
— Quando o Final dos Tempos chegar, e a Terra voltar a ser o Paraíso Original, todo o mundo será assim. Belo, puro e perfeito. – Comentou o Redentor.
O sorriso do policial perdeu o viço. Aquela declaração trouxe-o de volta à realidade, da qual se evadira por alguns segundos. Fê-lo lembrar-se de quem era, de fato, o homem ao seu lado: conquanto fosse calmo, gentil, sereno... era um homem cuja sanidade estava irremediavelmente comprometida. Um homem deslocado de sua própria realidade.
Tinha-lhe legítima piedade. Não obstante, urgia que prosseguisse com o plano.
— Ah, eu não vou resistir! – Bradou, abaixando-se para dobrar até os joelhos a barra da calça semilarga – Se me dão licença...
— Que vai fazer? – Inquiriu Albior, desconfiado.
— Ora, que cê acha que eu vou fazer? – Certificou-se de que tinha boa parte das pernas descoberta.
— Vai entrar na cachoeira?
— É proibido?
— Não, mas...
Rindo alegremente, Milo dirigiu-se para a brilhante piscina esmeraldina. Camus mirava-o, boquiaberto. Tão apenas pisou na água, o policial estremeceu, gargalhando:
— UAU! Tá gelaaada!!!
O Arauto advertiu em tom severo:
— Mikael, se você nadar nessa água gelada, pode acabar ficando doente.
— Que nada, NUNCA fico doente. – Riu, maroto. – Mas fica frio, não vou nadar não! Deus me livre meter minha cabeça neste freezer... Só quero ir até ali um pouco...
Camus e Albior se entreolharam. O mais velho deu de ombros e soltou:
— Desde que ele pisou no Vale que o achei meio extravagante...
O jovem deixou escapar um sorriso. Voltou a olhar para aquela “Ovelha extravagante”: não tinha como não achar graça na cena de “seu anjo” com água na altura das panturrilhas, emitindo seus “OUCH! WOW! AH!”. Ficou admirando-o de costas, os longos cabelos refulgindo aos raios de sol que incidiam certeiramente onde ele estava. Tão embevecido contemplava-o que teve um leve sobressalto quando o novato virou-se para ele, animadamente.
— Vem, Camus, entra também! Tem peixinhos pra todo lado, vem ver! – Convidou-o, com o mais sublime sorriso que o ruivo presenciara na vida.
Sentindo a respiração se extinguir, o filho de Hades balbuciou:
— E-eu não posso entrar aí...
— O quê? Não te ouvi!
— Eu não posso entrar aí! – Repetiu, mais alto.
— Não pode? Ah, claro! A túnica! É só levantar até as coxas e dar um nó! – Começou a retornar para a margem, na direção dos dois homens. – Quer que te ajude?
— Não! Não é por isso... – Volveu o “messias”, ruborizando. – É que eu... eu NÃO POSSO entrar na água.
Milo parou. Simulou perplexidade. Então tornou, em meio a um riso abrupto:
— Não pode entrar na água? Mas Cristo ANDOU SOBRE a água! Como é que você não pode entrar na...
Calou-se ao se deparar com a expressão embaraçada de Camus... e a zangada de Albior, que chegou a cruzar os braços, fuzilando-o com um olhar reprovador. Fingindo estar sem jeito, o policial pôs a mão detrás da cabeça e disse:
— Er... OK, acho que isso NÃO teve graça, né?
— Pelo menos reconhece a sua insolência. – Disparou o Arauto secamente.
— Desculpe, foi só uma brincadeira...
— Não se brinca com o Redentor, Mikael. Com quem você pensa que...
— Não é por nenhuma limitação verdadeiramente MINHA que não posso entrar na água como você. – A voz firme de Camus se fez ouvir, para surpresa dos dois homens. E, para real espanto deles, ergueu um pouco a túnica, revelando a razão.
— O que é isso? – Milo apontou para a perna do jovem, fingindo não saber do que se tratava o largo anel prateado em seu tornozelo.
— Uma tornozeleira eletrônica.
— Hã? Mas por que… por que é que você usa isso?
O “messias” e o seu segurança trocaram um breve olhar.
— Que estranho! Achei que só presidiários, gente condenada pela lei usasse uma dessas! – Insistiu o agente, simulando pasmo.
— É para o caso de o Redentor se perder – Argumentou Albior, um tanto ríspido. – A propriedade é muito grande.
— Ah, sim... e você já se perdeu alguma vez, Camus?
— Pare de chamar o Redentor pelo...
— Eu já FUGI uma vez.
Por aquela nem mesmo Milo esperava. Olhou-o, sinceramente surpreso.
— Não é apenas uma tornozeleira para localização. – Calmamente, o ruivo pôs-se a elucidar. – É também um mecanismo de imobilização.
— Como...? – O policial continuou fazendo de conta que não entendia. Lembrava-se do dia em que Dante a acionara...
Calando-se, Camus abaixou a cabeça, inconscientemente ainda a segurar a barra da roupa. Tudo que se ouviu por uns instantes foi o som constante da queda d’água. Milo não pode deixar de sentir, uma vez mais, compaixão ao mirar aquele homem cativo e ludibriado. Foi então que viu o Arauto ajoelhar-se perante o “messias”.
— Albior? O que está fazendo? – Indagou o ruivo, vendo-o remover o aparelho.
— Não pode entrar na cachoeira com isto.
— Mas... você... não deve...
Antes que terminasse a ponderação, o mais velho pôs-se ereto, segurando a tornozeleira sobre a palma da mão. Milo arregalou os olhos, perplexo.
“Não é que esse carrancudo aí é mesmo um cara legal?”, analisou, admirado.
— Albior, – Murmurou o “messias”. – você tem certeza de que...
— Cuidado para não molhar o peito nem a cabeça. Pode pegar um resfriado. – Aconselhou o Arauto, seu sorriso quase imperceptível. Ora, que mal teria em permitir ao garoto um pouco de diversão em sua vida tão dura? Percebera-lhe no semblante a vontade despertada pelo convite do novato. E Mikael era um bom rapaz... extravagante, estouvado, certo, mas era bom. Sabia reconhecer um homem bom, o que, a bem dizer, não era muito comum no meio em que vivia... Camus passava por tantas privações, tantas atribulações, tantos sofrimentos! Não teve coragem de negar tão inocente distração ao jovem Messias.
— Espera! – O loiro saiu esbaforido da água. – Eu cuido disso!
Tirou alguns prendedores de cabelo dos bolsos: meras tiras de panos com elásticos, confeccionados por Aldebaran. Precisou usar mais de dois para levantar ao menos um pouco o imenso cabelo do Redentor. Este corou, ao sentir correrem pelo seu couro cabeludo e por suas rubras melenas os ágeis dedos do “anjo”.
— Nossa, seu cabelo é tão macio! Precisa me dizer o que usa, o meu tá uma palha seca! – Brincou o agente, alheio ao efeito que provocava no rapaz amuado. Afastou-se para verificar sua “obra”: um penteado bem estranho, mas pelo menos aquela impressionante cabeleira estaria um pouco mais segura da água. Por Deus! Batia mesmo na altura dos joelhos!
E por falar em joelhos...
— Afaste um pouco as suas pernas, por favor.
— Como? – Tartamudeou Camus, ruborizando de novo.
— Faça o que ele diz. – Apoiou Albior, que logo entendeu a intenção do novato.
Habilmente, Milo enrolou o tecido até as coxas do “messias”, fazendo amarrações e terminando por dar alguns nós. Ficou com a aparência de uma bermuda grotescamente larga.
Sim senhor! O que diriam os fiéis se pudessem ver seu Salvador agora? Nem mesmo o sempre sério Albior pôde evitar um risinho ao ver o resultado das adaptações de “Mikael”, necessárias a que o jovem não se molhasse em demasia. Camus fitou-os, confuso.
— Bem, você não tá parecendo nenhum galã agora, mas pelo menos pode entrar um pouco na cachoeira sem se encharcar. Vem – Milo estendeu a mão para ele.
Outra vez aquela sensação de já ter visto aquela imagem...
Oh, sim.
O sonho daquela noite!
Caminharam para a margem banhada pelas águas cristalinas. Conforme esperado, Camus retesou ao sentir-lhes a temperatura.
— Gelada, né? – O agente riu para ele.
— É.
— Mas vai valer a pena, pode acreditar. Continua segurando a minha mão, em alguns lugares tem umas pedras escorregadias. Não queremos estragar todo meu trabalho, né?
—Não.
Os dois andaram pelo leito da cachoeira, com a água um palmo acima dos calcanhares. As pedras sob a refração dos raios solares evocavam gemas preciosas. Percebendo-o hesitante, Milo perguntou:
— Tudo bem?
— Sim.
— Opa! Olha eles aí! Ali! Um monte... consegue ver?
— Sim.
Continuaram avançando, até que a água se aproximou de seus joelhos. O frio já não os incomodava tanto, frente à beleza em meio à qual se encontravam. Cercava a piscina uma infinidade de plantas, algumas bem floridas, outras derramando-se por sobre a plácida superfície esverdeada.
— Oh, tem mais ali, perto das pedras... são muitos! Tá vendo?
— Sim.
— Coloridinhos... lindos, né?
— É.
Aquela fala invariavelmente pautada por monossílabos poderia levar alguém desatento a julgar que fosse indiferença por parte de Camus. Entretanto, tratava-se exatamente do contrário: estava enleado, e apenas não sabia como responder àquilo. Não era algo com o qual estava acostumado.
Alegria.
Não.
Mais do que alegria.
Um real júbilo.
— Quer chegar mais perto da queda?
O ruivo assentiu.
Continuaram rumo à cascata; a água batia agora exatamente acima das rótulas do policial. Virou-se para seu acompanhante; mais baixo do que ele alguns centímetros, tinha-a já na metade das coxas.
Escorregando em uma superfície limosa, Camus se desequilibrou; rápido como uma flecha, Milo amparou-o, circundando-lhe a cintura com os braços fortes.
— Opa! Tudo bem, tudo bem.
O ruivo quase engasgou, ao suprimir uma exclamação de assustada surpresa... e de algo mais que não saberia definir. Levou as mãos sobre os antebraços do homem detrás de si, que o segurava tão firmemente. Sentindo-lhe o corpo vigoroso em suas costas, Camus experimentava algo tão inédito. Atemorizante, quente e bom. Seu coração estava em chamas, tinha certeza!
— Olhe pra cima!
Fez o indicado por “Mikael”. Perdeu-se no véu espumoso que desaguava em uma nuvem branca como as que passeavam no céu.
— É bonito, não?
— É sim. – Murmurou, os olhos castanhos fixos no alto. A posição fê-lo encostar-se mais no outro.
O movimento fez com que os olhos azuis de Milo acabassem por pousar no semblante maravilhado do menor. A pele translúcida manchada aqui e ali pelo trauma do sufocamento, os lábios quase azulados trêmulos pelo frio, úmidos e entreabertos naquele transe, as longas pestanas sob as quais cintilavam íris que davam a nítida impressão de serem vermelhas.
Sentiu-se subitamente estranho, tão junto a ele, envolvendo-o pela cintura... a proximidade daquele corpo junto ao seu causou-lhe insólita sensação. Seu primeiro ímpeto foi o de afastar-se com urgência. Contudo poderia fazer o rapaz cair na água, e isso lhe traria sérios problemas. Sem saber o porquê, foi conduzido a uma contagem mental de há quanto tempo durava sua abstinência sexual.
Mais de um mês.
É.
JAMAIS ficara período tão extenso sem atividades do gênero. Mesmo a masturbação parecia tão fora de propósito naquele lugar que se esquecia da última vez em que buscara alívio na modalidade solitária.
Quase com ira, afastou aqueles inacreditáveis pensamentos da cabeça. Pensar em tais coisas quando se está segurando um homem pela cintura, tendo-o tão junto a si... que absurdo!
“Para de pensar merda e volta a trabalhar”, ralhou consigo mesmo, mentalmente. Precisava aproveitar a distância de Albior e o barulho da cachoeira: seria impossível para o Arauto escutá-los.
— Não pude deixar de ficar bem espantado quando você disse que já tentou fugir do Vale.
Camus estremeceu levemente, Milo pôde sentir. Seria o frio, o efeito da pergunta, ou...
— Sim, eu tentei. Há muitos anos.
— Sério? Que idade tinha?
— Não sei... não era criança, mas ainda não era adulto.
“É mesmo, ele sequer conhece a própria idade”, lembrou-se, ainda impressionado com esse fato. Continuou:
— Não consigo imaginar o Messias querendo escapar deste paraíso... querendo fugir de sua missão.
— Está decepcionado?
Milo detectou um acento de vergonha no questionamento.
— Não, claro que não! Você tem a essência de Jesus Cristo, mas é um ser humano, antes de mais nada. Deve ter tido um motivo muito forte, muito desesperador para ter pensado nisso. Afinal, eu sei que você... sofre muitas coisas por nós pecadores...no outro dia mesmo, me disse que estava cansado...
Afastando-se um pouco dele, o Redentor esforçou-se para manter o equilíbrio. Desviou o olhar, nitidamente constrangido.
— Naquela época, eu... acabei caindo em tentação.
— Que tipo de tentação?
— Do medo.
— Medo? Medo de quê? De algum suplício específico?
O ruivo hesitou tão demoradamente que o policial temeu não obter uma resposta. Contudo...
— De um Cerimonial.
— Um Cerimonial?
Camus assentiu, evitando o olhar do loiro.
— Que tipo de Cerimonial?
Os lábios trêmulos de Camus se comprimiram. Agora Milo tinha CERTEZA de que não era por causa do frio.
— Era algo que... que te machucaria muito?
— SEMPRE machuca. Não era essa a questão...
— Então O QUE era? – O agente segurou-o pelos braços, para se mostrar mais coercivo.
— É que... eram MUITOS. – Balbuciou o jovem, aparentemente distante.
— Quem? Quem “eram muitos”?
— Os participantes.
— Do cerimonial...?
Camus fez que sim com a cabeça. Milo insistiu:
— Eram muitos assistindo ao Cerimonial?
— Participantes – Repetiu, a expressão assustadoramente vaga. – Eles não assistiram somente...
— O quê?
— Eu era pequeno… ainda não tinha... pelo menos, não com TANTOS AO MESMO TEMPO, eu ainda não tinha...
— CAMUS! – O grito de Albior ecoou imperioso.
“Não, não, inferno, não, AGORA NÃO”, pensou o agente, nervoso. Apressou-se:
— Não tinha O QUÊ, Camus? Me diz!
— CAMUS, PRECISAMOS VOLTAR!
— ... eu fiquei com medo... de ter que fazer tudo aquilo de novo... sucumbi ao medo... eu pequei...
— O que você fez que te deixou com tanto medo? Camus... que FIZERAM com você?
— A “Santa Ceia”...
— Camus, venha!!! – O senso do dever do Arauto disparou o alarme com as expressões ansiosas dos dois.
“Merda, não dá mais”, exasperou-se o policial, ao ver que o “messias” pareceu despertar para o chamado do assessor de seu pai. Albior parecia prestes a entrar na água para trazer o jovem, então Milo voltou-se para ele, ocupadíssimo em dissimular seu descontentamento. Seguiu o ruivo.
— Não estava me ouvindo, Messias?
— Desculpe, Albior.
—Tudo bem. Venha, precisamos voltar. – Tomou-lhe o braço, enquanto encarava o novato de um jeito desconfiado. – Está quase na hora do almoço. Não deve deixar de se alimentar direito, e na hora certa.
— Certo. – Como de praxe, Camus mostrou-se dócil e obediente, embora estivesse contrafeito.
— Vamos esperar que suas pernas se sequem para colocar a tornozeleira.
Assentindo, o rapaz desfez as amarrações em sua túnica, que caiu sobre seus pés, úmida e amarfanhada. Calçou as sandálias de couro cru, apoiado em uma rocha.
Iluminado por uma nova ideia ousada – Ah, se ele não era o REI delas, não era o que Saga sempre dizia? – Milo sugeriu, com o ar mais inocente possível:
— Escutem, já que Gideão me deu folga pro resto do dia, por que não vêm almoçar comigo, na cabana de Aldebaran? Pescamos tantas trutas no sábado!
— Achei que quisesse voltar para o seu posto de trabalho, a fim de não “sobrecarregar seus companheiros”... – Observou o Arauto, sem ocultar a ironia.
— Ah, sim, claro! – O agente nem de leve se perturbou. – É que só tive esta ideia agora! Meu estômago até reclamou aqui... gostam de trutas?
—Peixe é meu alimento favorito. – Murmurou o “messias”, a inclinação de aceitar o convite evidente no brilho esperançoso dos olhos castanhos. Prontamente percebido pelo policial:
—De sobremesa, prepararei ravanie, que é um doce típico da terra dos meus pais. É bem fácil de fazer! (2)
— Ravanie? E-eu nunca comi isso… nem sei o que é...
— Pois vai ficar sabendo, oras... receita da minha mãe, que Deus a...
— Mikael. – Albior se interpôs entre seu senhor e o novato. – Não sei o que pretende, mas isso não é adequado. O Redentor não pode ir à casa de uma Ovelha.
— Mas... por que não? Jesus foi a casas de pessoas simples... pecadores como eu: Zaqueu, Jairo, as irmãs Marta e Maria, Levi... (3)
— Ele está certo, Albior.
— Camus! Você... você quer ir? – Surpreendeu-se o Arauto.
— Eu gostaria. – Admitiu de imediato.
— Bem... penso que não haverá melhor oportunidade para isso... – Claramente Albior referia-se à ausência do dos irmãos do “messias”.
Abrindo um largo sorriso, o novato tratou de enunciar:
— Eu ficaria extremamente honrado!
— Não precisa ficar tão animado, Mikael. Não vamos nos demorar. – O Arauto falou, seco.
— Certo, certo! De qualquer maneira, será uma honra cozinhar para vocês! É tudo coisa simples e rápida, vão ver!
O rosto de Camus se iluminou diante daquele entusiasmo.
— Sabe cozinhar tão bem assim?
— Olha, não vou negar que Aldebaran é melhor do que eu nisso, mas ele mesmo diz que eu mando bem!
— Você “manda”? Manda ele fazer o quê?
— Hahahahaha, ó céus, eu esqueço que você não entende gírias!
— Para começo de conversa, você sequer deveria usá-las ao falar com o Redentor. – Bronqueou Albior.
Milo fez um gesto cômico de pavor que arrancou uma risada de Camus. Albior era um cara durão, não negava, mas dava para ver que era um sujeito legal, pensou o agente, satisfeito com mais aquela chance de aproximação.
Entretidos como estavam os três homens, que então se afastavam da Cachoeira do Profeta, não puderam perceber o brilho de uma lente por entre as largas palmas de uma planta. A câmera, operada por um habilidoso cinegrafista, tudo captara, desde a chegada deles até sua partida. Oculto por entre a densa vegetação do alto, o espia pudera registrar a insólita situação. Ao menos, tinha certeza de que assim considerariam-na aqueles que o contrataram...
*************
—Quer mais ravanie, Camus? – Ofereceu Milo.
— Eu aceito sim, obrigado.
— Camus, vá com calma... você... não está acostumado a comer TANTO assim... – Apesar de Albior estar alegre por ver a imensa satisfação de seu senhor, tinha medo de que ele acabasse passando mal. O Redentor não dava lá muita atenção a comida: era até mesmo frugal nesse aspecto.
— É que nunca comi nada tão gostoso – Justificou o ruivo, abocanhando com um prazer jamais visto mais um dos bolos de laranja com calda preparada com xarope de suco da fruta e mel. Eram maravilhosamente macios e úmidos.
— Deve ter gostado mesmo. Nunca te vi comer com tanto apetite assim. – Observou o Arauto, apoiando o queixo com a mão. Tornou o olhar para o policial. – Reconheço seus méritos. Tanto pelo Messias quanto por mim; admito que estava tudo ótimo.
— Oh, eu tive a melhor professora de culinária do mundo, a minha mãe, que Deus a tenha. E você, aceita mais um?
—Não, obrigado, estou satisfeitíssimo. Sabe, vou sugerir que você vá trabalhar no Tabernáculo, preparando as refeições de Camus. Talvez ele passe a comer um pouco mais. É difícil fazê-lo se alimentar com propriedade.
— Que isso, quem sou eu para merecer tal honra! Mas Camus, por que você não come direito?
O jovem encolheu os ombros, engolindo o último pedacinho do doce.
— Não sou de sentir muita fome. – Respondeu, simplesmente.
A chaleira apitou; Milo foi preparar chá. Estavam acomodados na pequena mesa de carvalho ao centro da cozinha de Aldebaran. Camus apreciou a atmosfera aconchegante da habitação, bem como a deliciosa refeição com que lhe honrara “Mikael”. As trutas assadas estavam fantásticas, bem como os acompanhamentos: creme de ervilhas, batatas coradas com alecrim e aspargos salteados na manteiga. Mas para ele o ponto alto fora a sobremesa... nunca provara coisa mais saborosa! Ele até chegara a achar que não apreciava doces! Um regalo daqueles, depois do singular passeio à cachoeira... pegar na mão de “Mikael”, ser por ele tão cuidadosa e firmemente amparado... estava sendo o melhor dia de sua vida, com toda a certeza!
— Chá preto ou jasmim, que preferem?
— Jasmim parece excelente.
— Concordo com Camus.
Sentados à mesa, saborearam o chá, que coroou com louvor a refeição.
— Se não se incomodar em responder, Mikael... a senhora sua mãe morreu de quê? – Quis saber o ruivo.
— Ela e meu irmão foram mortos em um assalto. Bandidos renderam meu irmão, que voltava de carro com minha mãe do supermercado... era véspera do aniversário de meu pai. Íamos fazer um churrasco no jardim para ele... meu irmão reagiu ao assalto... em um impulso que jamais vou entender, tentou escapar. Foram assassinados com dezenas de tiros.
— Oh. Eu... eu sinto muito. Deve ter sido terrível.
— Foi mesmo.
— E o senhor seu pai, onde está?
— Ele se foi um ano depois. Puro desgosto, foi o que disseram. Desenvolveu um câncer agressivo que o levou rapidamente.
— E-eu lamento! Estou sendo inconveniente, te trazendo tantas lembranças dolorosas à tona.
— Não, Messias, nada disso! Não se incomode. – O agente procurou tranquilizá-lo. – Pode me perguntar o que quiser, viu? O que quiser.
O rapaz correu os olhos pelo recinto simples, procurando o que dizer. Ou talvez... COMO dizer.
— Você era casado antes de vir para o Vale?
Albior quase se engasgou com o chá. E Milo também!
— QUÊ? Oh, não. Não, eu nunca me casei.
— Por quê?
— Ah, eu… bom, eu me ocupava demais com o trabalho… a empresa que papai me deixou…
— Você não gosta de mulheres?
— CAMUS! – O Arauto esteve prestes a cair da cadeira.
— E-eu? Claro que SIM! – O novato riu. – Tive várias namoradas, só que não me casei com nenhuma delas!...
“Que tipo de SANTO faz uma pergunta dessas?”, disfarçando com o riso a perplexidade diante daquela indagação. E o pior que o SANTO mantinha no rosto a expressão mais inocente do mundo!
Milo tentou mudar de assunto.
— E sua mãe, Camus? Não a tem mais, não é? Como a perdeu?
Os olhos castanhos escureceram a ponto de parecerem pretos.
— Sinto muito, mas não posso lhe revelar isso.
Um silêncio desconfortável instalou-se. Resistindo ao impulso de perguntar-lhe “por quê?”, o agente considerou prudente não insistir.
— Sim, claro, me desculpe por tocar nesse assunto.
O ruivo abaixou a cabeça, acanhado pela evasiva. Contudo, não poderia contar a real causa da morte de sua querida mãe. Poderia contar que ela se voltou contra os desígnios do Grande Pai, o fundador da Igreja Aurora do Novo Porvir, e que por isso foi PUNIDA de acordo com a Antiga Lei?
Não.
Tampouco poderia mentir.
A solução foi escapar do assunto.
A despeito daquela escapada, o perspicaz agente SABIA que havia algo de sério naquela história que Camus se negara a contar.
Algo de MUITO sério.
O “messias” vinha se mostrando receptivo a ele. Contara-lhe até segredos... na certa, a presença de Albior o demovera de contar mais aquele. Apesar de o policial considerá-lo “um cara legal”, quem sabe o Arauto não passasse de um leva-e-traz de Hades?
— Acho que é hora de voltarmos.
— Sim, tem razão, Albior.
Eles se levantaram. Milo acompanhou-os até a porta.
— Muito obrigado pela refeição, Mikael. – Albior agradeceu, polidamente.
— Verdade, estava tudo excelente!
— Que bom que gostaram! Estão convidados a voltar.
— Não creio que isso vá se repetir, mas se algum dia pudermos, retornaremos sim. – Assentiu o Arauto, quase simpático.
— Muito obrigado por hoje. – Camus teve vontade de dizer “foi o melhor dia da minha vida”. Conteve-se.
— Não há de quê.
— Daqui a uma semana eu posso... passar na lavoura outra vez? Para caminharmos novamente...
— Mas é claro! Eu adoraria... levarei ravanies pra você, que tal?
Um sorriso que começou incerto alargou-se. O Redentor assentiu em concordância. Em seguida, retirou-se com seu segurança.
Milo continuou no batente da porta vendo-os se distanciarem. Pensou ter ouvido um barulho. Folhas secas se partindo… desceu pelas escadinhas, lançando um olhar perscrutador ao redor. Nada viu de diferente; resolveu voltar para dentro e entregar-se a uma sesta… há quanto tempo não desfrutava de uma! Deveria aproveitar a chance...
************
—Ainda não posso acreditar! O Redentor, aqui, na MINHA casa!
Com a xícara de chá preto entre as mãos, Milo sorriu. Aldebaran repetia seguidamente aquelas palavras, em completo estado de graça. Sentados no confortável sofá da sala de estar, conversavam, o policial contando as aventuras do dia ao ex pastor. Este comentou, animado:
— O Redentor gostou mesmo de você, hein! Em dez anos de comunidade, nunca ouvi algo parecido.
— É, ele é um cara legal. – Não encontrou nada melhor para dizer.
— Um “cara legal”? Ele é o FILHO DE DEUS, Mikael! O Cristo Reencarnado... um deus vivo! Você recebeu uma bênção única!
“Uma bênção de alguém cuja vida é uma desgraça”, pensou o loiro, esforçando-se para não deixar o sorriso abandonar seu rosto.
— E essa proximidade sua com o Messias só está aumentando sua mítica dentre os fiéis, sabia?
— Eu tenho percebido. Todos têm me tratado com respeito... quase uma reverência... – Milo concordou. Olhou demoradamente para o fundo vazio da xícara. – Debas. Me diz uma coisa...
— Hum?
— Camus… o Redentor… sempre te pareceu uma pessoa firme em seus propósitos?
O moreno tornou-se tão sério que pareceu indignado.
— Que quer dizer?
— Quero dizer… quero saber se você, em todos estes anos, soube de algum momento em que ele... não parecesse muito à vontade no papel de Messias. – Foi a melhor maneira que o agente encontrou para sondar acerca da época em que Camus supostamente teria intentado fugir do Vale da Aurora Dourada.
Por causa daquilo, o ruivo trazia no tornozelo um aparelho similar aos usados por animais registrados e monitorados na natureza. Até pior: os bichos não levam choques elétricos meramente por se afastarem de quem os monitoram.
Vivia como um prisioneiro... por causa daquela tentativa de fuga.
Sempre vigiado.
Sempre controlado.
Sempre cerceado.
— Não sei por que está perguntando isso, mas... não. O Messias nunca deu mostras de vacilar em sua missão. Sempre foi uma presença inspiradora, em sua serenidade e benevolência.
— Foi só curiosidade de quem acabou de entrar na comunidade. É que falando com ele... – Tentou justificar-se. – bem, ele parece um cara normal, sabe? Normal, como você e eu.
— Às vezes tenho dúvidas se você é de fato normal, Mika.
— Mika? Que é isso agora?
— É o pagamento pelo apelido que me deu.
— Não tem sentido! Mikael é um nome bem menor que Aldebaran!
— Só tem uma sílaba a menos.
— Mika... parece apelido russo...
— Não destoa muito da tua aparência, loiro azedo desse jeito.
Ficaram trocando brincadeiras e gozações entre si, até que resolveram se recolher. Em algumas horas, mais um dia de intensa labuta teria início.
*************
Uma semana se passara. Nenhuma novidade digna de nota.
Milo estava até achando tudo muito calmo. A primeira semana em que não presenciava nada de revoltante, à parte daquele regime espartano ao qual as Ovelhas eram submetidas diariamente. Todavia não testemunhara castigos físicos, desfalecimentos, desmaios ou assédios morais no nível do verificado nas semanas anteriores.
42 dias haviam se passado desde que ingressara no Vale da Aurora Dourada. Imaginava que dentro de um mês, no máximo, Saga faria contato. Já possuía farto material testemonial para condenar aquele lugar.
Estranhamente, naquele dia sentia-se em paz.
Recriminava-se por se sentir assim. Estava no meio de pessoas exploradas, aviltadas, despojadas de seus bens, e de suas vidas, pois que viviam em sistema análogo ao de escravidão... como poderia sentir PAZ?
Condenava-se... mas SENTIA.
Seria o ar fresco purificando suas narinas, ao respirar fundo durante a pausa daquele esforço que tonificava seu corpo? Seria o sol cálido acariciando sua pele, devolvendo-lhe o bronzeado de priscas eras? Seria o canto dos pássaros mesclado ao cântico dos trabalhadores, harmônico como ele jamais percebera? O cansaço dos primeiros dias convertia-se em um vigor quase inebriante. E todos lhe tratavam tão bem agora! Os supervisores não ralhavam consigo, quando de uma pausa mais longa. As moças levavam-lhe água e até limonada, no roçado. Os velhos eram gentis, os homens camaradas, as crianças carinhosas. Envolvia-o uma atmosfera para a qual não atentara antes.
“É nesta hora... é assim que estes fanáticos se entregam de vez.”, pensava, sorrindo, como quem diz à sua entorpecida percepção "você está fazendo um bom trabalho, mas não me engana. Estou no controle aqui, miserável.”
Sim.
A sensação de pertencimento.
De estar em meio a pessoas especiais, em um lugar especial, de SER especial.
De comunhão.
De...
Paz.
Ele SABIA que aquela paz era uma ilusão.
Mas os demais não sabiam.
Não teriam como saber. Ele, não. Preparara-se para aquilo. Por isso, estranhava sentir. Consciente de todas as artimanhas, táticas de subjugação mental, se sentir bem.
A expectativa de nova visita de Camus não teria nada a ver com seu bem estar, teria?
Quarta-feira.
“Ele disse que viria hoje.”, pensou, lançando um olhar para a cesta que deixara debaixo de uma árvore ali perto. Ravanies.
Estavam até mais gostosas do que as daquele dia...
Sem entender bem por que, causara-lhe certo prazer ver como aquele jovem destituído de tudo, até mesmo da própria liberdade, apreciara com tamanho deleite algo preparado por ele... pensar que enquanto vivia com Natassia, nunca havia feito o doce, nem para ela, nem para o filho...
“Vou fazer ravanie pro Hyoga, o moleque é chegado em doces”, planejava, sorrindo para o céu.
Hora do almoço.
Camus não viera pela manhã. Talvez viesse à tarde. A primeira visita fora vespertina...
Recusou-se a retornar com Aldebaran para almoçar, receoso de que o Redentor desse as caras bem na sua ausência. Inteirado da situação, o brasileiro almoçou em casa e preparou uma marmita para levar para o amigo.
Abrigado na sombra do castanheiro, Milo olhava para a cesta ao seu lado, perguntando-se a que horas o ruivo apareceria.
Após o intervalo do almoço, o trabalho foi retomado. As horas se passavam. O sol pouco a pouco mudava de posição, lentamente rumando para o berço verdejante das cordilheiras a oeste. O céu toldou-se; chegaram a pensar que choveria. Logo, porém, o firmamento vestiu-se novamente de pálido azul. Um azul que começou a escurecer...
Dispensados pelos capatazes, os lavradores começaram a se despedir.
— Vamos, Mikael? – O ex pastor usou de tato, sem fazer alusão à espera em vão do outro.
— Ah, sim. Vamos.
Foi até a árvore sob a qual esperava-o a cesta com as ravanies. Tomou-a nos braços e seguiu o brasileiro, de volta à cabana.
Caminhavam em silêncio por um bom tempo.
“Ele é considerado um Messias. O Cristo desta era. Será que imagina que Jesus deixaria de cumprir algum compromisso? De cumprir uma palavra empenhada?”
— Ele deve ter tido um bom motivo para não vir, uma vez que se comprometeu em fazê-lo.
— Pois é, eu tava justamente pensando nisso, agora mesmo! – Concordou o policial, com um sorriso forçado.
Voltaram para a cabana. No dia seguinte, Milo levou a cesta de novo. Os doces, intocados, talvez fossem enfim ao encontro daquele para os quais foram preparados.
No entanto, Camus não apareceu na quinta-feira também.
“Então o homem considerado Messias realmente empenha a palavra em compromissos que não cumpre?”, questionava Milo, um tanto amargurado. Embora não o reconhecesse nem para si mesmo.
O Redentor não apareceu na sexta-feira tampouco. De volta à casa de Aldebaran, o agente resolveu dar cabo das ravanies. Praticamente jantaram aquilo.
No sábado, as chances tornaram-se absolutamente nulas; sabia que o jovem ficava recluso neste dia, em virtude da circulação mais livre das Ovelhas pela propriedade. Talvez o visse à noite, à distância, contudo. Haveria um culto presidido pelo líder da seita, de volta à Cidade Santa no início daquela semana.
Um belíssimo dia de primavera, embora um pouco fresco demais para o policial, afeito a calor, praia, verão... prometia mentalmente que quando voltasse para casa (a VERDADEIRA casa... seu lar, em um mundo NORMAL!) passaria ao menos um mês em alguma ilha tropical ou em algum balneário badalado. Inicialmente cogitou levar Hyoga, depois caiu em si: viajaria com o filho um dia, sim, mas AQUELA viagem ele tinha que fazer sozinho! Ou, no máximo, com um algum amigo, um colega... SOLTEIRO. E desimpedido. Cairia na esbórnia como nos velhos tempos! Sol, mar, cerveja, baladas, mulheres. “Parece que faz dez anos que não sei o que é isso!”, espantava-se, enquanto lavava a louça do almoço. Aldebaran ficara em casa naquela tarde de folga: havia alguns reparos a fazer na cabana. Milo permaneceu, oferecendo-se para auxiliá-lo no que precisasse. O brasileiro agradeceu, garantindo que era coisa de que poderia tratar sozinho. Mesmo assim, imprevistos poderiam acontecer, e o auxílio do loiro ser demandado.
Sol, mar, cerveja, baladas, mulheres.
Não necessariamente nesta ordem.
Que seria daquelas pessoas?
Que seria de Aldebaran?
Que seria de Camus?
“Isso não é comigo. Meu serviço é desmantelar esta seita maldita.”, raciocinava para afugentar aqueles questionamentos, infelizmente nada inéditos.
Ouviu batidas à porta.
Fechou a torneira, pegou uma toalha e enxugou as mãos. Novas batidas. Tomou a iniciativa de ir atender, pois Aldebaran estava ocupado com algum conserto no banheiro.
Ao abrir a porta, deparou-se com uma linda mulher, cujos pequenos olhos azuis estavam bem vermelhos, como se tivesse chorado bastante. Trazia os compridos cabelos loiros e lisos sob uma touca branca. Vestia um longo vestido claro, de cor indefinida, com mangas longas. Milo teve a impressão de que voltara no tempo e encontrava-se com uma habitante de uma antiga colônia de puritanos. Ela sorria, em uma simpatia que se desvelava tímida. O policial reconheceu-a: estava junto com os irmãos de Camus, no domingo em que fora falar com eles. Sim! Já havia visto a jovem em alguns cultos, nos lugares de honra. Pertencia à família de Hades!
— Boa tarde, senhor Mikael. Meu nome é June. Sou esposa de Algol, irmão mais novo do Redentor.
“É cunhada de Camus!”. Viu-se apreensivo. O que a cunhada de Camus estaria fazendo ali? E com aquele jeito de quem havia pranteado?
— Eu trago um recado de meu cunhado para o senhor. Será que posso entrar?
—Claro, claro, por favor! – Deu passagem à mulher, que adentrou a cabana a passos comedidos. – Aceita um café? Um chá? Por favor, sente-se...
— Não se incomode, não vou demorar...
Parou de falar ao ver surgir na sala o imenso homem que abrigara o “anjo do Redentor”. Aldebaran cumprimentou-a, ao que ela respondeu de modo quase inaudível. Sem ocultar o constrangimento, June disse:
—Eu… eu gostaria de falar com o senhor Mikael em… em particular.
— Oh, claro! Eu tenho mesmo que ir arrumar mais lenha! – O brasileiro imediatamente dirigiu-se para a porta. – Fiquem à vontade. Mika, sirva alguma coisa para a senhora.
— Eu já ofereci... – Sequer foi ouvido, o ex pastor já deixara a cabana, fechando a espessa porta de madeira.
Milo voltou-se para a sua visita.
— Bem, senhora, em que posso...
Não fosse versado em artes marciais, talvez o rosto do policial tivesse sido atingido pelo tapa desferido pela mulher. Se bem que, provavelmente, nem seria exigido de alguém grande habilidade para se defender: ela era pequena, magra e frágil.
Porém nitidamente enfurecida.
Tentou outra vez; seu golpe foi novamente repelido. Com facilidade e assombro.
— Ei! Que pensa que tá fazendo?
— COVARDE! Covarde, aceite, você MERECE!!! – Vociferou ela, empreendendo nova tentativa. O agente não viu saída senão contê-la segurando-lhe os braços. Ela soltou um grito de dor. Mas ele NÃO havia apertado para tal! Confuso, soltou-a logo. Afastou-se, erguendo as mãos para se defender de outros ataques.
— Moça, por que tá tentando me agredir? O que foi que eu te fiz?
— Covarde... – Balbuciou, colérica, entre dentes. – Te agredir?!? Minha vontade era ARRANCAR um olho seu... é o que merecia pelo que fez a Albior!!!
— Albior? Mas o que foi que eu fiz a Albior? – Tornou o agente, aturdido.
Lágrimas rolaram pelo rosto congestionado e transtornado da jovem. Um ódio puro, genuíno, emanava de sua diminuta figura. Milo chegou a estremecer.
— O que você fez a Albior? – Repetiu June, sem conseguir ser sarcástica. Tudo que conseguia era destilar aquele ódio fervente, dolorido, apaixonado. – Eu te digo... por SUA causa, ELE PERDEU UM OLHO!!!
— QUÊ? Que está me dizendo...?
— Por sua causa, ele… ele…
Presa de violenta crise nervosa, sufocou-se com as próprias palavras. Chegava a ganir, buscando o ar que lhe faltava. Preocupado com seu estado, Milo aproximou-se dela. Foi o bastante para June se afastar, trêmula.
— Não chegue perto de mim... não me toque... já não basta o que VOCÊ FEZ? A MALDIÇÃO que trouxe? Anjo!... – Soltou um riso torvo. – Anjo sim... enviado pelo Inimigo, só se for! A Bíblia nos adverte de que até o Diabo toma a forma de anjo de luz...
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Aterrado, Milo a encarava, sem compreender. Ela dirigiu-lhe um olhar acusador. Tentou se controlar um pouco mais.
— O que você achou que estava fazendo quando incitou o Messias a entrar naquela cachoeira? Para você era uma brincadeira, não? Uma brincadeira! Pois bem, sua brincadeira custou muito caro... como punição por ter removido a tornozeleira de Camus, Albior foi ESPANCADO!
— O QUÊ?
—Por acaso é surdo, “anjo”? – Bufou. – Ele foi castigado por ter desobedecido às ordens superiores... bateram nele durante UMA NOITE E UM DIA INTEIROS... ele apanhou tanto que PERDEU A VISÃO DO OLHO ESQUERDO!!!
Mais não pôde dizer: irrompeu em desesperado pranto, chegando a cair no chão.
Entre atordoado e aterrorizado, Milo paralisou, incerto sobre como agir. Tentava processar o que acabara de ouvir.
Albior fora castigado por ter removido a tornozeleira paralisante do Redentor? Fora TORTURADO, era isso que ela estava dizendo?
—Moça, por favor... eu quero entender... – Praticamente suplicou. – Tá dizendo que Albior foi punido por ter tirado aquilo de Camus... mas... mas ele contou que fez isso aos superiores, mesmo sabendo que desobedeceu eles? Ou foi Camus quem contou? Porque não tinha mais ninguém...
— Você é um IDIOTA, mesmo – Ela cuspiu, com amargo desprezo. – É CLARO QUE HAVIA ALGUÉM LÁ! Vocês estavam sendo vigiados O TEMPO TODO!
O coração de Milo congelou-se.
— Aliás... VOCÊ estava... desde que cometeu a loucura de ir atrás dos filhos de Hades naquele domingo!...
Nada saía da boca muito aberta do policial. O esforço para não gritar exigia demasiado de June. Tremendo de ódio, revelou:
—Um espia de Algol e Radamanthys FILMOU tudo... ele filmou vocês na cachoeira... Hades e seus... MALDITOS filhos ficaram sabendo do ato de Albior... levado àquilo POR VOCÊ!
O policial ouvia, estupefato, a mulher, que claramente estava à beira de um colapso.
— Você se arriscou vindo até aqui... podem ter te seguido também.
— Eu não me importo. Não me importo se me matarem. Será uma libertação. – Soltou, mais um ganido que um desabafo.
— June... é esse o seu nome, não? Me diga... onde ele está agora? – Ousou se aproximar dela. Fez menção de ampará-la, desfeita, no assoalho. Em meio a um choro convulsivo, a moça não o repeliu. Gentilmente, Milo a conduziu até o sofá. Fê-la sentar-se. Foi até a cozinha buscar um copo de água para a visitante. June não recusou. A crise exaurira a pobre criatura.
— Eu... eu não sei o que dizer. – Ele admitiu, em um murmúrio. – Eu nunca imaginaria que...
— Há MUITAS coisas que você não imagina. Coisas que a maioria das pessoas não imaginam... – Interrompeu-o, o tom baixo carregado de ressentimento.
— Eu gostaria de saber sobre essas... coisas.
— O que te faz pensar que tem esse direito?
— Onde está Albior agora?
Ela soluçou, perpassada por violenta dor. Abaixou a cabeça, as lágrimas escurecendo o tecido do vestido onde caíam.
— Está preso.
— Preso? Mas… ele não está ferido?
— Está – Gemeu, sentida. – Isso que é o pior... gravemente ferido e trancafiado numa cela como um bicho raivoso!... Tenho medo de que não sobreviva!
— Meu Deus – Milo enxugou o suor recém formado em seu rosto tenso. Tinha consciência de que atos desumanos ocorriam naquele nesfasto lugar... aquilo, entretanto, adquiria contornos inimagináveis!
De repente algo se contorceu dolorosamente no peito do agente. Em meio à aquisição daquelas terríveis mensagens, uma tenebrosa inferência delineou-se em sua mente: Albior fora cruelmente castigado por ter desobedecido uma “ordem de segurança” do poderoso Hades... teria acontecido o MESMO com Camus?
Sentiu a espinha gelar diante dessa possibilidade.
Correu até a entrada da cabana. Pôs a cabeça para fora, à procura de Aldebaran. Não o viu. Saiu para a varanda, observando os arredores da habitação. Nem sinal do ex pastor. Na certa, fora buscar lenha em algum lugar mais distante dali. Fechou a porta e passou o trinco. Voltou para perto da chorosa moça.
— June, sei que não tenho direito a satisfação alguma de sua parte. Estou te fazendo sofrer, posso ver isso. Mas, por favor... me diga se... me diga se Camus... se Camus também foi castigado.
Ela assentiu. Um dardo flamejante varou o coração do policial.
— Ele foi...?
— Não lhe bateram. Mas o prenderam no “quarto branco”. Está naquela gaiola horrível desde a noite de terça, quando Hades voltou e soube de tudo...
— O... o “quarto branco”?
Seria possível que se tratasse do MESMO “quarto branco”, a modalidade de tortura mental chamada “quarto branco”, por ele estudada nos tempos de formação acadêmica? (4)
— Mas... meu Deus... ele... tá me dizendo que ele... desde terça? Hoje é sábado... até quando vão deixá-lo lá?
—O Grande Pai está decidido a deixar Camus no “quarto branco” até o dia da “Santa Ceia”.
— O que foi que você disse?
Reviu o jovem ruivo, a expressão distante, os lábios trêmulos, a cerração que ascendia das águas atingidas pela ruidosa cascata.
“... eu fiquei com medo de que tivesse que fazer tudo aquilo de novo... sucumbi ao medo...”
“O que você fez que te deixou com tanto medo? Camus, que FIZERAM com você?”
“A Santa Ceia...”
A “Santa Ceia”.
Seja lá o que fosse isso, impelira o Redentor a empreender uma tentativa de fuga, anos atrás.
— June – Milo começou, em um aflito sussurro. – em nome do amor que você sente por Albior... sim, vejo bem que é amor... em nome do amor que você tem por ele, e também por seu cunhado...
— Albior... Jacó... Camus... são as únicas pessoas que amo... que me amam... – Choramingou baixinho.
— ... é em nome desse amor que eu te peço... que me conte TUDO que aconteceu.
— Por que eu faria isso? – Ela retrucou em tom patético.
— Porque eu quero ajudar. Porque eu POSSO ajudar.
A loira abriu bem os olhos banhados de lágrimas. Mirou-o demoradamente, um estranho lampejo se divisando nas íris cerúleas. Milo não saberia dizer se ela estava adivinhando, naquele instante, o QUE ele era, de fato.
Todavia não havia como voltar atrás.
A situação ultrapassara o dramático. Tornara-se decisiva. E June claramente não corroborava com o imundo e distorcido sistema vigente naquela sociedade aberrante. Resolveu correr o risco.
Os lábios frementes da mulher separaram-se, hesitantes. Ela tomou fôlego, nunca abandonando aqueles olhos da cor do céu que um dia almejara tanto alcançar... e do qual se via cada vez mais distante.
— Está bem, Mikael. Eu vou te contar tudo...
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