Redentor
28 Ascensão - Ato VII : Uma Nova Realidade
Notas iniciais
Não fosse o celular tocar, dificilmente Milo teria acordado. Dormira como uma pedra, sem interrupções, sem sonhos nem pesadelos... ou, pelo menos, não que deles se lembrasse... atendeu, no susto:
— Alô? Ah, oi, Consuelo… não, não me acordou não... sim, obrigado por avisar. Até daqui a pouco.
Era a diarista, confirmando a ida ao apartamento do policial. Ele esfregou os olhos e bocejou demoradamente. Decidiu ir ao quarto de hóspedes, onde, vencido pelo cansaço, Camus dormia há menos de duas horas. Obviamente sem saber disto, à porta, Milo teve a impressão de que o ruivo tivera um sono constante, longo e tranquilo. Não quis acordá-lo; foi cuidar de sua higiene matinal e, em seguida, trocar de roupas. Checou alguns e-mails e mensagens. Franziu o cenho ao saber, através de uma dessas, que o julgamento de Hades seria dentro de quarenta dias.
Por mais que quisesse logo conhecer a pena do maldito – e que fosse a pena máxima! – queria que o julgamento demorasse um pouco mais para acontecer. Temia por Camus. Como seria para ele comparecer à corte lotada de pessoas, enfrentar todos aqueles olhares, se submeter a tantas perguntas, e, pior, depor contra o próprio pai? Seria algo muito intenso para alguém alquebrado como Camus. Ele PRECISAVA de mais um tempo antes de se sujeitar àquilo! Sim, Milo temia muito, MUITO pelo “ex-Redentor”... mas o que poderia fazer? A determinação das datas de julgamento, assim como do dia de Camus ir à Polícia depor, escapavam anos-luz de sua alçada... só lhe restava esperar que Camus estivesse “bem” até lá. Arrepiava-lhe pensar que sobre o “ex-messias” cairia, uma vez mais, o olhar sombrio do “Grande Pai”...
Resolveu checar se o ruivo acordara. Desta vez, encontrara-o sentado na cama:
— Ah, oi! Bom dia! – Saudou o agente, simpático.
Teve a impressão de tê-lo visto tendo um leve sobressalto.
— Bom dia. – Respondeu, com voz baixa.
— Como você está? Dormiu bem?
Camus fitou-o por uns instantes.
Não.
Não havia dormido nada bem.
Aliás... não havia dormido QUASE NADA.
Mas... não queria preocupar Milo.
Pensou se finalmente não poderia MENTIR.
Bom... ele não era mais um “Messias”, correto?
Não.
Não era mais.
Podia mentir, enfim.
Sentiu que era o caminho mais fácil naquele momento. Então...
— Sim. Dormi muito bem.
— Tem certeza? Cê demorou muito pra responder. – Volveu o policial, desconfiado. Além do quê, achou-lhe os olhos um tanto avermelhados...
— Tenho certeza. É verdade, dormi maravilhosamente bem. A sua cama é muito confortável.
— A SUA cama, Camus. Agora é a SUA cama, assim como este é o SEU quarto.
O rapaz assentiu, obedientemente.
— Entendi. Minha cama. Meu quarto.
— Isso mesmo. Escuta, a pessoa que vem limpar a casa está vindo para cá. Vamos sair pra fazer umas compras. Além de comprar coisas pra você, precisamos passar no mercado. Não temos nada pra comer em casa, então, hoje, nosso café da manhã vai ser a pizza de ontem, OK?
— OK – Repetiu o ruivo, mecânico.
— Bem, vou deixar você trocar de roupa.
— Como devo me vestir?
— Como você deve se vestir? Camus… agora, é VOCÊ quem decide isso. Entendeu?
— Mas eu não sei o que devo vestir.
Milo suspirou, pensando com pesar que até isso decidiam por ele, durante todos os anos em que vivera no Vale da Aurora Dourada. Abriu a porta do guarda-roupa e mostrou ao outro as sacolas que ali depositara.
— Lembra das roupas com que você veio no avião? Escolha algumas semelhantes. Assim como estas que estou vestindo. – Apontou para si mesmo: vestia uma calça jeans escura, camiseta vermelha e um casaco de moletom preto de capuz. – É isto: camisa ou camiseta, calça e um casaco, porque tá um pouco frio.
— E uma cueca.
— Claro, e uma cueca. – Riu discretamente. – Saori comprou algumas, legal, pensou em tudo.
Hesitante, o “ex-messias” pegou alguns itens e ficou a considerar um por um, escolhendo.
— Que tal... – esta calça... este casaco, esta camisa... e esta cueca?
Milo sorriu de leve, mais comovido do que propriamente divertido.
— Sim, está tudo ótimo. Camus, lembre-se – Pôs a mão no ombro do jovem. – Agora, você é LIVRE. Claro que posso te ajudar a escolher alguma coisa, mas você tem que aprender que SUAS escolhas quem faz é VOCÊ, a partir deste momento. Tudo bem?
— Tudo bem.
— Vou ver nosso “maravilhoso” café da manhã enquanto você se troca. – Foi para a cozinha aquecer no micro-ondas os pedaços de pizza que haviam sobrado da noite anterior. Minutos depois, Camus surgiu, trajando uma calça preta, uma camiseta com listras pretas e brancas e uma jaqueta jeans por cima.
— Olha aí, você tá ótimo!
— Estou bem mesmo? – O ruivo sentia-se inseguro de sua... decisão. Decidir... era algo muito novo para ele!
— Claro que está! Eu aposto que você fica bem de qualquer jeito... – Parou de falar, subitamente, perguntando-se se a segunda frase fora adequada. Virou-se para a mesa e mostrou o desjejum. – A partir de amanhã teremos um café da manhã decente, eu prometo.
Eles sentaram-se à mesa e fizeram a refeição. Camus preferiu beber apenas água, o gás do refrigerante dava-lhe “agonia”, dissera.
Cerca de meia hora depois, a campainha tocou. Milo foi atender; uma robusta senhora morena, de grandes e expressivos olhos castanhos adentrou a residência.
— Como vai, Consuelo? Faz bastante tempo que não a vejo, você está ótima!
— É muita gentileza sua, senhor Hatzis. O senhor também está ótimo!
Camus, que seguira Milo, estava parado à porta do corredor que dava para a sala. Notando sua presença, o agente o chamou:
— Vem cá, Camus, pode vir. Quero te apresentar a Consuelo!
A mulher prontamente reconheceu o jovem ruivo. Balbuciou:
— S-senhor Hatzis! É ELE mesmo? O rapaz das notícias da...
— Sim, é ele mesmo, Consuelo. Ele agora mora comigo.
De surpresa, a diarista passou a sorridente. Exclamou:
— Ah, que coisa boa, senhor Hatzis! É bom saber que o pobrezinho conseguiu um lugar pra ficar! Falaram na TV que ele não tinha nenhuma família mais, que nem tinha pra onde ir...
— É, não tinha, por isso, vai ficar aqui. – Apresentou-os um ao outro. – Consuelo, este é o Camus. Camus, esta é a Consuelo...
— Então ela que é a sua SERVA?
Tanto Milo quanto Consuelo arregalaram os olhos. A mulher abriu muito a boca, em sinal de clara indignação.
— C-CAMUS! Ela NÃO É UMA SERVA – O loiro apressou-se em corrigi-lo. – É uma DIARISTA!
— O que é isso?
— É uma pessoa que limpa a nossa casa, que cuida de onde vivemos.
— Então, uma serva. – Insistiu o ruivo, na maior inocência.
Consuelo continuava boquiaberta. Temeroso de que ela se ofendesse, o policial explicou-lhe, atropeladamente:
— E-ele não falou por mal... de onde ele veio, pessoas que faziam esses serviços eram chamados de “servos”...
— Bem que disseram na TV que era um lugar horrível! – Rebateu a diarista de braços cruzados, bem insatisfeita com o que escutara.
— Você nem faz ideia...
Virando-se novamente para Camus, Milo explicou, com toda paciência do mundo:
— “Aqui fora” ninguém mais chama profissionais da limpeza de “servos”, Camus, é uma palavra ofensiva. Existem empregados, faxineiros, diaristas... “servos”, não.
— Nem “criados”?
— Não. Nem “criados”.
O “ex-Redentor” dirigiu-se à Consuelo, ainda de braços cruzados e cara fechada:
— Peço as minhas mais humildes desculpas, senhora. Eu não sabia disso.
A expressão compungida do rapaz desarmou-a. Ela descruzou os braços e enfim deu um sorriso:
— Está tudo bem, meu jovem. Eu vi as noticias. Sei que onde você vivia era mesmo um lugar muito diferente daqui... você sofreu muito lá, não foi?
— Bem, vamos, Camus? – O agente optou por cortar aquela conversa. – Consuelo, devemos estar de volta lá para as 16 horas, OK?
— Pode deixar que o senhor vai encontrar sua casa brilhando! Aproveitem o dia!
No elevador, Camus mostrou-se cabisbaixo. Milo deu-lhe tapinhas nas costas.
— Ei, não fica com essa cara!
— Eu não queria ofender a sua cri... a sua diarista.
— Ela sabe disso, Camus! E eu também. Vamos, relaxa! Foi apenas um mal entendido.
Camus pensou se cometeria algum novo “mal entendido” ao se dirigir novamente a alguém. Talvez fosse mesmo melhor manter-se sempre calado...
No estacionamento, entraram na pick-up Silverado preta, da qual o policial estava com imensas saudades; ele teve, é claro, que ensinar Camus a colocar o cinto de segurança. E partiram para o shopping de Red Meadow, que ficava a poucas quadras de uma das praias da cidade. Desta vez, o ruivo não precisava mais imprensar o nariz na janela, o vidro desta estava abaixado. Ele ia, maravilhado, reparando em tudo pelo caminho. A despeito de seu interesse, bocejava de quando em quando. Milo reparou e indagou:
— Dormiu bem mesmo? Parece que está com sono.
— Não, estou bem. Dormi a noite toda.
Mentir deixava-o incrivelmente incomodado. Mas se deixava Milo satisfeito...
Quando chegaram ao local, o agente considerou a quantidade de pessoas que passavam pelo estacionamento, pelas entradas. Olhou para Camus e lembrou-se de como Consuelo o reconhecera imediatamente.
— Antes de sairmos do carro, vamos trocar de casaco... – Disse, já tirando o seu.
— Por quê?
— Porque o meu tem capuz.
— Isso é para que não me reconheçam, como Consuelo me reconheceu?
Um tanto incomodado com aquela percepção certeira, o loiro falou:
— É só por um tempo, como disse o Aiolos. Aqui tem muita gente. Não quero ninguém te perturbando.
— As pessoas podem me perturbar? Como?
— Ah, querendo falar com você, te olhando, tirando foto, nada de mais... mas é chato. Você quer passar por isso?
— Não.
— Então, deixa comigo...
Milo tirou um prendedor de cabelos do porta-luvas e prendeu os cabelos do outro em um rabo-de-cavalo, assim que este tirou a jaqueta jeans. Fez Camus vestir seu casaco e pôs o capuz sobre a cabeça.
— Pronto. Assim está ótimo! – Exclamou, satisfeito.
Deixaram o automóvel e se dirigiram para a entrada do shopping. Ao entrar, Camus chegou a estacar, impressionado com o que via. Parecia uma imensidão feita de vidro! Tudo brilhava, refletia, era incrível...
— Vem – Fez Milo, pois que seu acompanhante parecia ter virado estátua.
Extasiado, o ruivo seguiu-o, logo ficando ao seu lado.
— Isto é o que chamamos “shopping center”; tem lojas, restaurantes, praças de alimentação e de jogos, cinemas... pra você, que nunca viu nada assim, deve estar parecendo algo de outro planeta, não é?
— Sim, parece que estou em outro mundo...
— Lembra-se do que eu falei hoje, mais cedo? – Disse Milo, atraindo a atenção do rapaz. – Posso até ajudar você a escolher as coisas, mas as decisões finais são exclusivamente SUAS.
— Eu me lembro.
— Sendo assim, podemos ir às compras!
A questão era que, não conhecendo nada de “modas”, tampouco tendo quaisquer referências de indumentária “mundana”, o “ex-Redentor” não teria muito como se decidir por roupa alguma. Algumas voltas pelo shopping depois, a consciência deste fato enfim chegou a Milo. Resolveu entrar em lojas de departamentos, onde ficariam mais à vontade para olharem o maior número possível de roupas. O policial sugeria as peças, sempre obtendo a concordância do ruivo, nunca uma negativa. Balançou a cabeça e rememorou:
— Camus, lembre-se… “a decisão final”... por exemplo, se eu te falo... – Pegou uma camiseta estampada em cores berrantes – ... “que tal esta?”, o que você me diz?
— Eu decido se quero ou não.
— Muito bem! Então, você quer esta?
— Sim.
Milo deu uma olhada cômica para ele e para a vestimenta, que considerou horrível. Insistiu:
—TEM CERTEZA? Pense se as cores te agradam… agradam?
— Hã... não.
— NÃO! Então você NÃO QUER. É assim que funciona. Entendeu?
Camus ficou olhando o agente, tentando assimilar o que ele queria lhe transmitir. Encarando-o de volta, o loiro prosseguiu:
— Roupas não servem só para cobrir nossos corpos. Têm de ser do nosso agrado, refletir nossa personalidade, dizer “quem somos”.
Por mais incrível que pudesse parecer, era a primeira vez que o ruivo tomava contato com tal lógica. De mais a mais, jamais lhe fora permitido, ou mesmo oferecido, que escolhesse o que vestir...
— Vamos começar pelas cores. Você só aceita o que vou te sugerir se gostar da cor, tá?
— OK – Camus estava aprendendo a usar aquela expressão.
— Certo. – Mostrou de novo a camiseta espalhafatosa. – Você quer ESTA?
— Não. Não gostei dessas... cores.
Milo quase levantou as mãos para o céu. Partiu para pegar camisetas, camisas, calças, bermudas...
— Gostou desta?
— Sim.
— OK, vamos deixar aqui no cesto para você experimentar. E esta?
— Sim.
— Sim, certo… e esta aqui?
— Hã... não.
Exultante, o policial chegou a fazer um gesto de “Yes!”
— Isso aí, ruivo, muito bom.
Quando já havia no cesto da loja pelo menos uma dúzia de peças, o agente conduziu o jovem até os provadores. Ajudou-o a experimentar as roupas, mantendo-se do lado de fora da cabine e entregando-lhe mais peças. De vez em quando, ao se deparar com o corpo semidesnudo do outro, seu coração fremia, ao reparar-lhe as cicatrizes: Camus as tinha pelas costas, pelo peito, pelos braços...
“Meu Deus, como ele sofreu... “, pensava, entre consternado e revoltado.
Sim! Sempre dizia a Camus “isso é passado”, “você está livre”, mas aquelas marcas esbofeteavam suas certezas.
— Milo? Tudo bem?
— Hã?
O loiro deu-se conta de que paralisara à porta da cabine, presa de seus pensamentos. Sorriu, entregando-lhe uma calça de linho bege:
— Ah! C-claro, tá tudo bem, sim! Tome, vista esta agora.
Com toda pressa, fechara a porta. Agora o ruivo experimentaria as calças e bermudas.
Depois daquela loja, foram a mais uma, a mais outra... à hora do almoço, Milo levou-o a um restaurante que viu não estar muito cheio. Escolheu uma mesa ao fundo do salão. Era um espaço aconchegante. Considerou o cardápio, ao lado do jovem.
— O que prefere comer, Camus? Carne, frango, peixe, massas...?
— Qualquer coisa está bom.
— Amigo, lembre-se... a “decisão final”...
O “ex-Redentor” pôs o dedo indicador sobre os lábios e pensou por uns instantes. Então respondeu:
—Carne.
—Ahá! Muito bom, era exatamente o que eu ia pedir! – Sorriu, mostrando-lhe o cardápio. – Veja, tem fotos. Escolha o que lhe parecer apetitoso.
Almoçaram bifes grelhados com batatas coradas e salada caprese. Para sobremesa, o garçom sugeriu torta gelada de maçã, o que acataram, e revelou-se excelente decisão. Deixaram o estabelecimento. Enquanto caminhavam pelo corredor do shopping, conversavam.
— Estava realmente delicioso, Milo, obrigado!
— Estava sim, que bom que gostou... escuta, que tal darmos uma passadinha na praia antes de irmos, hein? Fica aqui perto. Deixamos as compras no carro e vamos até lá.
— A praia? O… o mar, você quer dizer? – Camus olhou-o, surpreso.
— Isso aí.
— O mar... – Repetiu o “ex-messias”, baixinho. Somente soubera do mar através da Bíblia. Imaginava-o vasto, belo e misterioso.
Emudeceu, tamanha a sua expectativa. Lembrava das passagens sobre o Mar Morto... o Mar Vermelho se abrindo... Jesus andando sobre o mar... Jesus mandando os pescadores atirarem de novo suas redes ao mar, reservando-lhes um milagre...
Iria conhecer o mar!
Quando chegaram próximo à orla, Milo já reparava o ar assombrado de Camus. Parados no calçadão, com a imensidão azul diante deles, o policial inspirou profundamente o ar marinho. Seu acompanhante, porém, mantinha-se imóvel, o olhar extático, completamente admirado com o que via.
Milo olhou-o de esguelha. Vendo-o perdido naquela contemplação, respeitou-lhe o silêncio, para ele contribuindo com um doce sorriso nos lábios. Ambos ficaram ali, apenas contemplando o mar, por alguns minutos. Conquanto o sol reinasse em um céu quase sem nuvens, a praia estava quase vazia, pois as tardes de outono em Red Meadow não eram tão convidativas... pelo calçadão e pelo pier poucas pessoas caminhavam, todas munidas de casacos e abrigos.
— É lindo... – Murmurou Camus, sem deixar de fitar o oceano.
— É sim. – Milo virou-se para o rapaz; deparou-se com seu semblante plácido, seus olhos castanho avermelhados brilhantes – lágrimas, talvez? – seus lábios quase rubros entreabertos, alguns fios ruivos que escapavam da proteção do capuz, seu nariz afilado enrubescendo pela brisa... sem perceber, murmurou também – É lindo.
Virou-se rapidamente, envergonhado consigo mesmo. Aquele comentário... NÃO fora sobre o mar... pigarreou um pouco antes de comentar:
— Quando é verão, aqui fica bem mais movimentado, claro. Em alguns dias, o mar fica agitado, em outras, fica calmo como está hoje. Mas é sempre divertido quando é alta temporada. – Explicou logo o sentido da expressão – quando é a época mais quente do ano.
“Ele parece tão tranquilo”, pensou, com imensa alegria.
— Vem, vamos andar pelo pier.
Camus assentiu e pôs-se a acompanhá-lo, sem tirar os olhos do mar.
A brisa por vezes convertia-se em vento quase frio. Gaivotas davam rasantes espetaculares por sobre a superfície brilhante de onde pareciam fulgurar estrelas. Encontraram um banco de madeira e ali se sentaram, sob sugestão do policial. O silêncio cúmplice foi mantido; ambos consideraram aquele um momento de paz. Camus dirigiu um olhar de soslaio a Milo: os cabelos anelados revolviam-se ao sabor do vento suave, refletindo em seus fios dourados o brilho do sol... reparou em seus olhos azuis, exatamente da cor do firmamento naquele momento, serenos como as águas que perdiam-se no horizonte, em sua pele acetinada e morena... o mar... o mar era lindo...
Mas Milo...
Ouviu-o dar um suspiro de prazer, em seguida, inspirando e expirando longamente. Desviou o olhar, ao mesmo tempo que começava a corar. Sorriu feliz. Ver Milo tranquilo daquele jeito aquecia-lhe a alma. Com voz baixa, ele comentou:
— Eu nunca tinha visto o mar.
— Eu imaginava, já que você nunca saiu do Vale.
— É muito mais bonito do que eu pensava.
— Tem muitos e muitos lugares bonitos no mundo, Camus.
— Eu... – O ruivo hesitou por uns segundos. O policial mirou-o, esperando pacientemente que continuasse – ... eu tenho MEDO deste mundo. Do que me espera. De como vou viver. Mas... se há tantas coisas bonitas assim... e-eu...
Em um ato impensado, Milo tomou-lhe uma das mãos. Afirmou com veemência:
— Camus, você não precisa ter medo. Você não precisa ter medo de NADA. Não mais. Estarei sempre aqui, com você...
Como que percebendo o que fazia, o agente largou-lhe a mão de repente, logo lançando um olhar preocupado ao redor. Não havia ninguém por perto. Apressou-se em dizer:
— D-desculpe.
— Por quê?
— Por… por ter…
Não concluiu a resposta. Ergueu-se de súbito. Apontou um quiosque a uns dez metros dali, dizendo:
— Ali tem um sorvete maravilhoso! Você certamente nunca tomou sorvete, não é?
— Não... o que é?
— Um doce cremoso e gelado, muito bom. Vamos lá, você vai gostar.
Os dois dirigiram-se para o tal quiosque. Milo pediu duas casquinhas com duas bolas cada, de sorvete de chocolate. Riu um pouco vendo o temor com que o “ex-messias” segurou aquilo.
— Segure assim... isso, cuidado, ou vai tudo pro chão.
Experimentou o seu, com expressão de imensa satisfação. Com os olhos arregalados de curiosidade, e depois de fascínio, Camus ficou observando como Milo saboreava aquele doce... encantava-o o movimento dos lábios carnudos, a língua a passear pela superfície cremosa... sentindo o coração bater descompassadamente, resolveu imitá-lo, só para fazer uma careta, em seguida.
— O que foi, Camus? Não gostou?
— É tão... gelaaadoo...
— HAHAHAHAHAHA, eu te falei que era um doce gelado!
Ria a valer, vendo o outro franzindo os olhos ao tomar o sorvete. O vendedor não pôde deixar de ficar um tanto pasmado com aquele diálogo: como assim, alguém NÃO SABIA o que era sorvete?
“Morro e não vejo de tudo”, pensou, ao se despedir dos dois fregueses, que voltaram a andar pelo pier.
— Que achou?
— É gostoso, mas estranho.
— Você acostuma. – Notou-lhe que o doce escorrera-lhe um pouco pelo queixo – Espera, ruivo, tá sujo de sorvete...
Camus parou de andar porque Milo havia parado diante dele. E seu mundo também pareceu parar quando o loiro limpou-lhe o queixo com os próprios dedos, o polegar roçando-lhe o lábio inferior... seu coração, mais uma vez, bateu forte, sem que imaginasse que o mesmo se dava com o agente... Milo perdeu-se naquele olhar fixo, naquele rosto níveo, naqueles lábios entreabertos, enquanto seus dedos quase que acariciavam aquela pele tão macia... em um gesto tão rápido que chegou a assustar de leve o “ex-Redentor”, Milo dali removeu sua mão. Balbuciou, constrangido:
— M-me desculpe!...
Desta vez, o ruivo manifestou-se, incrivelmente calmo:
— Por que está se desculpando de novo? Eu gosto que me toque, Milo.
— CA-CAMUS! – Apressou-se em olhar ao redor; novamente estava com sorte de não haver ninguém por perto. – Isso... isso não é coisa que se fale!
— Por que não?
— Ora, porque… porque… bom… olha, vamos voltar pro carro. Precisamos passar no mercado antes de irmos pra casa – A tranquilidade parecera ter abandonado totalmente o loiro. Agora ele parecia quase afobado, segundo a percepção do outro. – eu disse à Consuelo que estaríamos de volta às 16 horas... vamos?
Silenciosamente, Camus meneou a cabeça em concordância. Cuidou de continuar seu sorvete e acompanhar o policial, que, agora, nem prestava mais atenção no mar.
*************
Quinze minutos depois, estavam dentro do super-mercado, Camus visivelmente impressionado com o que via. Eram tantas cores, um mundo de cores, de luzes, assim como o shopping center, mas, uma vez mais ele se assombrava...
— Aqui, compramos comida, bebida, artigos de limpeza, de higiene pessoal, tem roupas e calçados, também...
— Incrível, Milo!
— É bem prático. – Sorriu, vendo o outro enfim tomando coragem para mexer nos produtos. Camus tomava nas mãos as embalagens que lhe chamassem a atenção, lia-lhes os rótulos, balançava-as... parecia encantado com tantas novidades...
— Acho que você gostou mais do mercado do que do shopping – Milo observou, empurrando o carrinho pelo estacionamento. Camus empurrava outro, com ar divertido. Sorria como uma criança voltando do parque de diversões, comparou o policial, mentalmente.
*************
Naquela noite, Milo preparou sanduíches de queijo, picles e rosbife. Colocou-os em uma travessa e depositou-a sobre a mesa de centro, defronte ao sofá. Trouxera sucos também. Camus acompanhara todo o processo, interessado em aprender a fazer as coisas. O policial sentou-se no sofá e convidou o “ex-Redentor” a fazer o mesmo.
— Pode se servir. – Ligou a TV; soube que em um dos canais da TV a cabo estava passando um “festival Jim Carey”. – Vamos assistir a um filme. É uma história que você não precisa ler. E vai passar uma bem divertida.
— Uma história com imagens que se movem?
— Isso mesmo. São interpretadas por atores, pessoas que vivem os personagens.
— Que são “personagens”?
— Ah… são pessoas que estão em uma história... tipo isso...
— Então aquelas pessoas só existem ali na TV? – Indagou o ruivo, apontando o aparelho.
— Bom, elas existem na vida real, como atores. Os atores fazem papel dessas pessoas, desses personagens. É igual ao teatro. Havia apresentações teatrais no Vale, por vezes, não?
— Sim, o Auto de Páscoa e o Auto de Natal.
— Pois então! É tipo isso... e, esse cara – Apontou Jim Carey, que aparecia na tela – faz filmes de humor... são engraçados, ele é ótimo ator...
“Tinha que começar com ‘O Todo Poderoso’”, pensou Milo, rindo consigo mesmo. Introduzir Camus ao universo cinematográfico através de filmes cômicos poderia vir a calhar, considerava. Mesmo que ele não entendesse grande coisa...
A bem dizer, Camus não estava entendendo nada. Contudo, as imagens o entretinham demais, e ele fazia a refeição com os olhos pregados na tela.
“Já é alguma coisa a distraí-lo”, o policial pensou, satisfeito. Era muito bom estar ali, novamente em seu imenso e confortável sofá, comendo e bebendo o que gostava, relaxando, vendo um bom filme. De quando em quando, olhava para o lado, notando o ruivo sempre atento ao que via. Este só desviava o olhar quando Milo ria ou gargalhava. Gostava de vê-lo rir. Sorria, alegre. Então voltava a fitar as “imagens móveis”. Com o passar do tempo, os efeitos da noite mal dormida começaram a vir sobre si, e ele sentiu as pálpebras muito pesadas...
Em dado momento, Milo sentiu-o encostando em seu corpo. Percebeu que Camus adormecera. A cabeça ruiva recostava-lhe no ombro; o agente sorriu, nem por um momento cogitando em tirá-lo dali. Deixou-o assim, enquanto continuava a assistir ao filme. Para ele, Camus estava somente cansado devido ao dia de passeio e compras.
O filme terminara. Achou melhor fazer o outro ir para a cama, a fim de descansar com propriedade. Também precisava ir ao banheiro... antes de fazê-lo, porém, permitiu-se observar-lhe a face adormecida, admirando-se com a serenidade e, não poderia negá-lo, com a beleza de suas feições... algo quente subiu-lhe pelo peito... ao aproximar seus lábios do rosto do rapaz, para sussurrar-lhe que acordasse – não queria assustá-lo! – demorou-se ali, aspirando com langor a respiração suave do ruivo, sentindo o calor que irradiava-lhe da pele perfumada de sabonete...
“O QUE CÊ TÁ FAZENDO, IDIOTA?”, algo gritou dentro de si, de tal forma que estremeceu. Afastou-se, prendendo a respiração em seu pavor: QUANDO chegara TÃO PERTO daqueles lábios?!?
Afastou-se um pouco, amparando-o para que não caísse; chamou-o, sacudindo-o de leve:
— Camus, acorde. Vai dormir na cama. Vai descansar melhor.
Este despertou, e, em seguida, bocejou indolentemente. Percebeu que havia se escorado em Milo. Apressou-se em dizer:
— Oh, me desculpe. Acabei dormindo e caindo em cima de você.
— Tudo bem, você pegou no sono. É o cansaço de hoje.
— Hum... é. Bem, vou me recolher.
— Certo. Tenha uma boa noite. E, lembre-se: se sentir qualquer indisposição, me chame.
— OK – Estava começando a usar amiúde aquela expressão. Dirigiu-se para o corredor e rumou para o seu quarto.
O sono, entretanto, ainda não chegara a Milo, e, depois do que acabara de se suceder, pelo visto, demoraria um pouco mais para chegar...
Pegou o controle e resolveu dar uma zapeada pelos canais. Parou de imediato ao ver o rosto odioso de Hades.
— ... era chamado “Grande Pai” pelos integrantes da seita. – Relatava a repórter do canal de noticiários. – As empresas e estabelecimentos comerciais em nome de fiéis que a ele tudo haviam entregado serviam para lavar dinheiro angariado pelo mundo, através de extorsões, doações realizadas de forma ilegal, subornos e desvios de fundos para supostas missões. Hades será levado a julgamento no dia 29 de setembro por estes crimes, e pelos crimes contra os Direitos Humanos a partir do dia 8 de novembro.
Milo tivera o cuidado de abaixar bastante o volume da TV. Camus havia se retirado havia mais de uma hora, mas temia que ouvisse. Por que temia, não sabia ao certo. Foi então que imagens de Camus surgiram na tela.
— Dentre suas vítimas, surpreendentemente está o próprio filho caçula, forçado desde criança a representar o papel de messias da seita. Segundo o apurado pela investigação da Polícia Federal de Red Meadow, Camus teria sido mantido em cárcere privado e regularmente era submetido a torturas públicas com intuito de emular os martírios de Jesus Cristo, bem como a sessões secretas dos mais variados abusos, assistidas por fiéis que por elas pagavam enormes somas de dinheiro em forma de “doações”...
“É, fiz bem em abaixar”, pensou o agente, sentindo pontadas do mais puro ódio... pelo que ouvia... pelo que se lembrava...
— Mais informações sobre o escândalo da Igreja Aurora do Novo Porvir, e sobre o andamento das investigações sobre este caso, você vê aqui, no decorrer de nossa programação. Acompanhe-nos no...
Milo mudou de canal, enjoado pela revolta que sentia. Desistiu dos filmes pornô que planejara assistir depois que Camus dormisse; preferiu jogar videogame. Fora uma bela ideia, pois o tempo passava sem que disso ele se desse conta, e “matar zumbis” o fazia espairecer.
Já era alta madrugada quando resolveu ir dormir. Desligou tudo; dirigiu-se para seu quarto. Quando chegou à porta, pensou ter ouvido um gemido. Melhor, parecia um lamento... e mais um... e mais um...
Súbito, um grito.
“Camus!”, correu para o quarto de hóspedes. Encontrou o ruivo debatendo-se desesperadamente no leito, presa de algum terrível pesadelo.
— Não... NÃO! AAAAHHH! – Gritava em agonia, a manta e os lençóis deixando seu corpo convulso.
— Camus! CAMUS, ACORDE! – O policial acorreu até a cama; sacudiu-o para que despertasse. – CAMUS!
— NÃO! NÃO ME TOQUEM! E-EU NÃO AGUENTO MAIS! – Berrou, sacudindo vigorosamente os braços, as pernas, expulsando dali as mãos do loiro.
— Camus, SOU EU, MILO! Acorde, vamos, ACORDE!!!
Em meio ao terror noturno, o ruivo abriu os olhos. No entanto, era como se ainda continuasse em transe. Seu olhar vidrado parecia vislumbrar uma outra realidade, uma realidade assustadora, aterrorizante. Milo já não ordenava, implorava:
— Por favor, acorde! Camus… tá tudo bem... acorde, vamos!...
— Mi... Milo?... – Balbuciou o ex-Redentor, o pavor ainda estampado em seu rosto banhado de lágrimas.
— Sou eu. Estou aqui... com você. – Disse, tomando-lhe as faces em suas mãos firmes. – Tá tudo bem. Viu? Sou eu, cara…
Ofegando com dolorosa sofreguidão, Camus olhava terrificado ao seu redor. Seus tremores conduziam-no a espasmos.
— Você tá seguro, viu? Tá na minha casa, comigo. Foi apenas um sonho ruim.
O “ex-messias” balançou a cabeça em uma tensa negativa.
— N-não... não era... sonho... – Mais lágrimas verteram de seus olhos assustados. – Eu podia... sentir... eles... eles...
Parecia que o ar lhe faltava. No afã de conter-lhe aquele estado convulso, Milo abraçou-o bem forte.
— “Eles” não podem mais te fazer mal, Camus. Acabou. Calma... respire... respire bem fundo... – Dizia, com voz terna.
Pouco a pouco os tremores tornaram-se menos violentos, e os soluços menos constantes. Camus fungou e suspirou, seguidas vezes, seu rosto afundado no peito de Milo. Este pôs-se a acariciar-lhe os cabelos, sempre sussurrando:
— Tá tudo bem. Eu tô aqui. Respire. Isso... você tá indo muito bem...
O policial ficou um bom tempo ali, amparando o jovem, que, graças àquele contato, àquela voz, àquelas falas, foi recobrando a calma.
— Espera aqui que vou buscar uma água pra você. – Percebeu que não foi muito fácil desprender-se dele. – Continue respirando... espera só um pouquinho.
Quando voltou com a água, Camus parecia enfim ter recobrado seu autocontrole, ainda que soluçasse de quando em quando. Deu-lhe a água, passando a mão por suas costas ao dizer:
— Eu vou ficar aqui até você dormir, tá?
Sem conseguir falar ainda, o ruivo assentiu; voltou a deitar na cama. O agente ajudou-o a se cobrir novamente. Pegou uma poltrona que ficava junto à janela e a trouxe para perto do leito. Sentou-se ali e cumpriu sua promessa apenas em parte, pois mesmo depois que Camus, completamente esgotado, adormecera, ficou ali, velando o seu sono. Foi levado à conclusão de que, pela manhã, não fora mera impressão que lhe acometera; Camus provavelmente não dormira bem à noite. Por isso lhe parecera tão sonolento... sentiu-se um idiota por não ter percebido. Passou a mão sobre os cabelos vermelhos, sob inédita emoção.
“Você não está bem, Camus. Mas vai ficar. É questão de tempo, eu prometo.”, pensava, deixando-se preencher por aquele sentimento quente e doce, de querer bem, de querer proteger, de entender que daria o seu melhor por isso.
“Meu Deus. Você tá apaixonado por esse cara.”
Não.
Aquilo NÃO poderia acontecer.
Começava a admitir que nutria profundo sentimento por aquele rapaz. Urgia que não permitisse que saísse da esfera fraternal, solidária.
“Até porque isso NÃO seria certo. Nem por mim, nem por ele.”, pensou, embevecido com a feição agora serena do ruivo.
“Eu gosto que me toque, Milo.”
Alisou o contorno do rosto do jovem, em meio à lembrança daquelas palavras.
“Eu gosto que me toque, Milo.”
O loiro semicerrou os olhos, evocando aquelas palavras, evocando o olhar magnético de Camus.
“E eu gosto de te tocar, Camus.”
Mas não deveria.
Recolheu a mão e cruzou os braços. Recostou-se à poltrona, nunca abandonando sua vigília.
“Não deveria. Não devo. Não vou.”, pensou, hipnotizado pela visão etérea, à meia-luz, de um “ex-Redentor” adormecido.
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Mal amanhecera, Camus despertava; surpreendeu-se ao ver Milo dormindo na poltrona, todo desconjuntado. Sentou-se na cama e, por mais que tivesse pena de acordá-lo, o fez:
— Milo...?
— Quê...? Ah! Oi, Camus…
— Você disse que voltaria para o seu quarto assim que eu dormisse.
O loiro, descabelado, bocejou antes de responder:
— Pois é, né, acabei pegando no sono, hehehehe...
— Quer deitar aqui comigo? A cama é grande...
— QUÊ? N-não! Tá tudo bem... v-vou pro meu quarto, deitar lá... olha... – Respirou fundo, recuperando a serenidade. – Escuta, por que você não dorme mais um pouco? Agora sei que ontem você estava realmente com sono pela manhã porque não tinha dormido na sua primeira noite aqui... por que não me falou nada, Camus?
Dando de ombros, o ruivo respondeu, com simplicidade:
— Não achei necessário.
— Você... quer me contar com o que estava sonhando? Eu... claro, imagino que seja...
— NÃO – Respondeu, estranhamente seco. Milo piscou, confuso com aquela repentina mudança de ares. Preferiu não insistir, mas não se furtou a falar:
— Sabe, talvez... talvez, antes de dormir, você devesse tomar, sim, o remédio que o doutor Johnson lhe deu. Eu sei que você disse que não queria, mas...
— Não. Eu não quero mais tomar remédios. – Cortou-o no mesmo tom frio. – Chega de remédios.
Milo lembrou-se do desagrado manifestado pelo ruivo quando o doutor Johnson entregou uma medicação para que o “ex-messias” tomasse à noite. Na certa, o psiquiatra previa que o rapaz não teria um sono exatamente tranquilo... Camus alegara “estar farto de remédios”. Sabia-se que o jovem fora inúmeras vezes dopado quando vivia na comunidade de seu pai, disso o próprio Milo fora testemunha. O resultado foi que o “ex-Redentor” tomara verdadeira aversão por tudo que lhe remetia a drogas.
— Tudo bem, esquece os remédios. Logo logo você se acostuma com a casa, com o novo ambiente e relaxa...
— Sim. – Murmurou o ruivo, abraçando os joelhos.
— Certo, eu já tô sem sono. Vou começar o dia... que tal tomarmos café da manhã e darmos uma caminhada pelo bairro? Só pra você conhecer?
Camus pareceu animar-se com a ideia. Aceitou na hora.
— Vou preparar um café da manhã tradicionalmente americano, como você nunca comeu antes – O policial piscou o olho ao prometer. – Enquanto isso, você se troca.
— Está bem.
Deixado só no quarto para que mudasse de roupa, o ruivo foi até o guarda-roupa; escolheu uma calça jeans clara, uma camisa pólo verde escuro e um casaco de moletom cinza com capuz. O policial não fizera nenhuma observação acerca da necessidade, mas, pelo dia anterior, Camus podia facilmente deduzir que era melhor se ocultar um pouco... “por um tempo”, dissera o amigo de Milo, e depois o próprio Milo.
Sentou-se na cama, pensativo. Fechou os olhos, sob incômoda aflição ao se lembrar do sonho...
Estava de volta ao Vale da Aurora Dourada, no Tabernáculo. Em seu humilde quarto, onde havia apenas uma cama estreita com colchão fino de feno, um armário rústico de duas portas e uma cadeira gasta, ele lia a Bíblia, virando suas páginas, até que elas ficaram em BRANCO. Nenhuma linha, nenhuma palavra, nenhuma letra. Continuou a virar as páginas, intrigado, até que a porta veio abaixo com grande estrondo. Seus irmãos surgiram, com olhares famintos, em meio a uma névoa rubra como sangue. Adivinhando o que pretendiam, Camus tentou escapar pela varanda, mas, no sonho, esta dava para um salão repleto de velas onde, diante de um altar rodeado de pessoas sem rosto, Hades elevava-se, paramentado, à sua espera. Radamanthys e Algol converteram-se em serpentes escuras, que se enroscaram por seus membros e imobilizaram seu corpo. Camus gritou para que o soltassem; contudo, no instante seguinte ele era levado para o altar, e, em seguida, preso com correntes nos pés e nas mãos. Debateu-se, apavorado, ao que seu pai sorriu. Os dentes de Hades eram negros como seus olhos e seus muito longos cabelos, que serpenteavam sinistramente no ar. Diante das pessoas sem rosto, que para ele agora erguiam suas mãos descarnadas, Radamanthys e Algol voltaram às formas originais... debruçaram-se lascivamente sobre o corpo do Redentor... conservavam as línguas de cobra, úmidas e gélidas, com as quais sondavam cada pedaço de sua pele, de sua carne, ao mesmo tempo em que...
Em franca repulsa, Camus balançou furiosamente a cabeça. Repulsa! Antes, existia o dorido conformismo, a tácita aceitação por tudo ser parte de “sua missão”... agora...
Sentiu um gosto amargo na boca. Pensou se não iria vomitar. Cobriu-a, enjoado, perturbado. Não, não queria preocupar Milo. O dia anterior fora tão maravilhoso! Milo estaria com ele, viveria com ele. Estava feliz por isso.
Não podia revelar ao loiro NADA sobre aquele sonho...
“Parecia tão real”, pensou, angustiado, ainda com a mão sobre a boca.
Mas NÃO ERA.
“Eles não podem mais te fazer mal, Camus. Acabou.”
Milo estava certo.
Não tinha consciência, no passado, que aquelas pessoas lhe faziam o MAL.
Agora TINHA essa consciência... seria por isso que...?
— Camus! Tá pronto? Já tô botando a mesa.
— A-ah... n-não... não me troquei ainda...
— Ainda não? Tá tudo bem?
Pôde distinguir uma nota de preocupação na voz de Milo. Pôs-se a se despir, apressadamente.
— Sim! Está tudo bem! Já vou sair! – Falou.
— OK, vou dando os arremates... – Disse o loiro, perguntando-se por que o outro demorava tanto.
Quando enfim Camus surgiu na copa:
— Desculpe a demora.
— Que isso, brother. Tá de boa. Sentaí.
Sobre a mesa, ovos mexidos, bacon, torradas, panquecas, suco de laranja, flocos de milho, leite, café...
— Fez tudo isso agora? – Impressionou-se o ruivo.
— É a vontade de uma autêntica refeição matinal americana! – Riu o agente.
Aquele sorriso...
Disfarçando a melancolia que sobre si há pouco se abatera, Camus fez um voto secreto de não deixar o sorriso de Milo se apagar. Sob nenhuma hipótese.
Teria que conviver com seus fantasmas, custasse o que custasse.
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