Redentor

29 Éden - Ato I : Surpresas


Notas iniciais
Oi, gentchiiii Desculpe pela demora... mais de dois meses, né? Mas foram meses bem enrolados, como foi a maior parte deste ano esquisitão... Esta é a nova fase da fic, e chama-se "Éden". Bem sugestivo, né? Onde a vida do homem, segundo a Bíblia começou. E é nesse começo, em nosso mundo, em que se encontra Camus, o homem outrora considerado o "Redentor". Gostaria de agradecer pelo apoio de vocês, bem como seus comentários, como digo, poderosos combustíveis para que qualquer autor não deixe a peteca cair, hehe. Boa leitura!

Embora fosse um atributo extremamente necessário ao seu trabalho, Milo detestava esperar. A bem dizer, os meses que passara no Vale da Aurora Dourada lhe ensinaram mais como cultivar a paciência do que ele pudera aprender em toda uma vida. E, ali, na sala de espera do consultório de psiquiatria do Red Meadow Medical Center, tal característica era agravada pela preocupação por uma pessoa em especial: Camus.

Havia quarenta e cinco minutos que o jovem, ainda conhecido como “Redentor” (uma infeliz realidade com as bombásticas notícias e reportagens sobre a queda da seita de Hades), passara pela porta que Milo fitava com tanta insistência. Mesmo o celular não fora capaz de desviar-lhe a atenção: o policial queria mais que tudo saber o que estava acontecendo. Compreendia que apenas a presença de Saori tivesse sido admitida naquela entrevista, porém, nem toda compreensão do mundo aplacava sua ansiedade. Volveu os olhos azuis turquesa para as paredes cor de marfim; fechou-os, em seguida, recostando-se no estofado cinza claro da poltrona.

Finalmente, ao fim de mais vinte minutos, o som da maçaneta anunciava a saída de alguém.

Camus e Saori.

Milo não pôde deixar de entreabrir a boca; o ruivo parecia cansado, tão cansado... seus olhos injetados revelavam que em algum momento ele havia chorado, no entanto, estavam secos quando os ergueu para si. O agente sentiu o coração pesar. Teve que se controlar para não avançar e abraçar o rapaz.

— Camus... – Murmurou, sem saber o que dizer em seguida.

— Milo, o doutor Finkler gostaria de trocar umas palavrinhas contigo. – Saori falou em meio ao sorriso que tencionava ser animador. – Eu vou esperar aqui com o Camus, OK?

— Oh. Claro. Claro. – Trocou um rápido olhar com o ruivo. Entrou no consultório, fechando a porta detrás de si. Um senhor magro, de barba grisalha puxada para o loiro, indicou-lhe onde sentar.

— Doutor Finkler. Como vai?

— Muito bem, agente Hatzis. Chamei-o porque sei que, atualmente, se encontra responsável, vamos chamar assim, pelo senhor De La Faure.

Ouvir o sobrenome de Camus foi bem estranho para Milo.

— É, acho que podemos falar assim. – Ele concordou, forçando um tom casual.

— Em primeiro lugar, quero manifestar minha admiração pelo que o senhor está fazendo. Foi um gesto muito humano abrigar esse rapaz, totalmente desamparado, emocional e legalmente falando.

O policial assentiu, nada relaxado como queria parecer.

— Não vou me estender, senhor Hatzis. Foi uma sessão exaustiva para ele, e imagino que queiram ir logo para casa. É preciso que esteja a par de em qual patamar possivelmente se encontram as condições mentais e psíquicas desse jovem tão vilipendiado.

— Ele tem algum problema sério? Alguma sequela psicológica?

— Senhor Hatzis, se porventura alguém que tivesse passado pela METADE do que o senhor De La Faure passou, e NÃO tivesse “sequelas psicológicas”, esse alguém não estaria apto a ser considerado um SER HUMANO.

— C-claro. Eu imagino que...

— Sequelas psicológicas não são, porém, indícios, por si mesmas, de transtornos ou distúrbios – O psiquiatra interrompeu-o, menos por impolidez do que por consideração à evidente ansiedade do homem à sua frente. – Um diagnóstico certeiro logo de primeira é bem difícil, mesmo assim, a primeira impressão que tive é de que, apesar de tudo que o senhor De La Faure vivenciou, manifesta sintomas mais reativos do que propriamente algo ao que foi predisposto. E isso é bem natural. Eu diria até, desejável. Um total alheamento frente a experiências tão terríveis é que seria preocupante...

— Ele... ele não tem “nada sério”, então?

O médico elevou um pouco os ombros ao responder:

— Não é assim que funciona. É precipitado apontar uma suposta direção certa com apenas um vislumbre das condições atuais do rapaz. A mente humana é muito complexa. Mas... se estamos aqui falando de algum transtorno como o dissociativo de personalidade, ou o bipolar, ou mesmo esquizofrenia, borderline, coisa que o valha... por ora, não identifiquei quaisquer traços relacionados a esses transtornos nele. Por ora, repito. Serão precisas mais avaliações, é claro.

— Mas... ele acreditava que era um “messias”... isso não poderia...?

— Ele acreditava porque FOI LEVADO a acreditar. Não foi a mente dele que criou essa realidade, ele foi enganado e agora está ciente disso.

— E pensar que tudo isso foi tramado pelo próprio pai. – Rosnou o loiro.

— Sim. O senhor De La Faure está tomando consciência do que, de fato, lhe aconteceu. De maneira bem gradual, como deve ser, aliás.

— Ele não tem consciência total do que lhe fizeram, não? – O policial indagou, repleto de pesar e revolta.

— Não, e nem teria como; é muita coisa para ser processada em tão curto espaço de tempo. O que, de certa forma, o protege. Mas também mascara certos problemas que podem estar ali, prestes a emergir...

— E... como vão... “emergir”?

—Bem, de inúmeras formas... a senhorita Kido e o próprio senhor De La Faure mencionaram pesadelos bastante vívidos... crises noturnas de ansiedade... o senhor está a par disso.

Milo meneou a cabeça em afirmativa, as lembranças das últimas noites vindo à sua mente. Camus invariavelmente gritava durante a madrugada, preso em algum horror do passado ainda vívido em seu subconsciente. Ele acorria para acordá-lo, sentindo-se impotente diante da figura convulsa do pobre homem em prantos.

— Quase todas as noites. E, acho que quando não escuto, é porque ele despertou e esconde de mim que teve esses sonhos terríveis.

— O senhor De La Faure disse que, pouco antes de conhecer o senhor, “não sonhava”, em função dos remédios e drogas que o obrigavam a tomar. Sabe-se que todos sonham. O que ocorria era que a mente do senhor De La Faure era conduzida a um estado de sedação absoluta, porque assim convinha aos líderes da seita. Uma forma de desligá-lo ainda mais da realidade, a qual poderia fazê-lo questionar o que vivia. – O doutor Finkler explicou, deixando transparecer por baixo da impessoalidade profissional um quê de indignação.

— É por isso que Camus se recusa a tomar remédios... mas... ele deveria tomar alguma medicação agora, não é?

— Receio que sim, ao menos durante esses episódios de crise. À medida que ele for tomando consciência dos fatos, esses eventos... podem se tornar mais comuns, senhor Hatzis. Eu não descarto Síndrome do Estresse Pós Traumático ou algum quadro ansioso mais severo... não temos como prever. Apenas observar. E, claro, cuidar dele.

Passando os dedos nervosamente por entre a franja dourada, Milo demandou:

— Mas o que fazer com essa recusa categórica dele em tomar remédios?

— Com exceção de sedativos e ansiolíticos de emergência... podemos contar apenas com a terapia, pelo menos, até que algo de mais concreto ficar evidente.

— Até que os problemas comecem a “emergir”.

— Não é garantido que isso ocorra. Tanto mais porque a senhorita Kido é excelente profissional. Em todo caso, não deixe qualquer medicação ao alcance do senhor De La Faure. Vou pedir que seja o senhor fique a cargo de guardá-los e administrá-los, conforme a necessidade.

Um tanto ressabiado, o agente quis saber:

— Por que isso? Acha que ele pode… tentar…

— Senhor Hatzis, mesmo quando tratamos de questões corriqueiras, como um stress laboral, a mente humana mostra-se imprevisível. Imagine esse rapaz, cujo caso é algo inédito, uma situação única e muito peculiar. Precauções são indispensáveis.

— Se eu entendi bem, por enquanto ele fica apenas na terapia...

— A senhorita Kido sugeriu uma sessão semanal, e, ao término do intervalo de 4 semanas, que ele volte aqui para uma nova avaliação.

— Entendo. Me parece que devo ficar otimista, então.

— Quem não deve? – Sorriu o doutor Finkler.

Milo sorriu de volta, um pouco mais leve com as palavras que escutara do médico.

— Senhor Hatzis, faça-o se sentir confortável. Ele não precisa saber ou conhecer tudo de uma vez. O essencial é que esse jovem DESCANSE de toda uma vida de sofrimentos e privações.

Já de pé, o policial disse:

— Eu sei que o senhor não pode me contar o que ele lhe falou. Mas... desculpe, notei que ele chorou...

— Quando certas coisas vêm à tona, dores também podem vir. No entanto, senhor Hatzis, por mais que essas “certas coisas” não possam vir TODAS DE UMA VEZ... elas TÊM de vir... o senhor entende?

— Sim, entendo. Agradeço muito pela confiança – Apertou calorosamente a mão do psiquiatra.

— Disponha, agente Hatzis. Tem o meu celular: qualquer problema, não hesite em me chamar, não importa a hora que for.

— Obrigado. – Milo esperava que não fosse preciso...

Só queria ver Camus bem.

Deixou o consultório, tendo o cuidado de parecer confiante e animado.

— E aí, vocês! Voltei!

— Você demorou – Observou Camus, sério.

— Eu sei, desculpa, mas você tava bem acompanhado, logo, sem problemas, eu acho, não é verdade? – Sorriu alegre para o ruivo. Não tendo a devida correspondência, virou-se para a psicóloga. – Saori, então, uma vez por semana, Camus vai levar um papo contigo... devo levá-lo ao teu consultório em que dia?

— Não se incomode com isso, eu vou até sua casa. Às quartas está bom?

— Que isso, não quero te dar esse trabalho.

— Faço questão. É o que Saga e os outros esperam também. – Ela pôs a mão no ombro do ruivo. – Tem muitas pessoas querendo ver você bem, viu, Camus?

Ele se esforçou para sorrir, embora não entendesse direito como tudo funcionaria dali em diante...

Ele não estava “bem”?

Não se sentia doente.

Por que queriam tanto “conversar” com ele? No que aquilo poderia ajudá-lo? E... já não tinha sido ajudado o suficiente? Ele nem sentia mais dor… ninguém mais o machucava...

— Que tal irmos ao parque da cidade? Eu tenho uma surpresa pro Camus. – Propôs o policial.

— Uma surpresa? Pra mim? – O ex-Redentor arregalou os olhos castanho-avermelhados.

— Eu adoraria, mas tenho um mundo de coisas para fazer... eu outra ocasião, vou adorar acompanhá-los. – Disse a nissei.

— Não posso dizer que te invejo. Estar em licença é muito bom – Brincou o agente. Deu uns tapinhas nas costas de Camus. – Vamos então?

—C-claro. Er... Saori... – Tartamudeou. – Até um outro dia. E... obrigado.

— Não há de quê, querido. Até um outro dia – Ela deu um beijo no rosto do jovem, que enrubesceu instantaneamente.

No carro, Milo brincava com ele, trazendo à baila aquele momento.

— É, você ficou todo vermelho com o beijo da Saori! Não é pra menos, ela é uma gata, né?

— Ela... ela é o quê?

— Bonita, muito bonita.

— Oh. Sim, ela é muito bonita.

Embora o tom usado por Camus fosse absolutamente neutro, Milo sentiu algo incômodo. Ainda assim, continuou:

— É, ela é linda. E inteligente. E gentil. E elegante...

Camus virou-se para a janela, de sua parte também incomodado. Por que Milo a elogiava tanto?

Se bem que ela era tudo aquilo mesmo, reconhecia-o.

— É verdade. É uma das mulheres mais belas que já vi. Não, acho que É a mais bela que já vi. – Comentou, sem se voltar nenhuma vez.

O incômodo de Milo aumentou. Ele chegou a travar a mandíbula, inconscientemente.

“Meu Deus”, pensou, quase apavorado. “Não posso estar sentindo CIÚMES, isso é RIDÍCULO...”

— Você gosta dela?

Arregalou os olhos ao ouvir a indagação vinda do ex-Redentor.

— Quê?! Não! Digo... gosto... como uma amiga.

Após tomar fôlego de modo dramático, o agente admitiu:

— Nós nos relacionamos por seis meses, um ano depois que me separei de Natassia. Mas... não deu certo. Nos separamos. E... hoje somos... amigos.

Então Milo e Saori já haviam sido amantes... As mãos de Camus se crisparam sobre os joelhos. Fazendo o seu melhor por manter um tom impessoal, questionou:

— Não a escolheria para ser sua nova esposa?

— HAHAHAHAHAHAHA! NÃO! Da onde você tirou isso?!?

Camus sentiu como se lhe tivessem tirado um peso do coração.

E Milo sentiu exatamente o mesmo.

*************

Olhou-se ao espelho do diminuto banheiro mais uma vez.

Pálido como nunca.

Conseguira que não lhe cortassem os longos cabelos negros, cultivados com extrema dedicação ao longo dos anos. Podia dizer que se orgulhava deles.

E, não tendo muito do que se orgulhar ultimamente, precisava mantê-los. Ainda que tivessem confiscado quase todos seus bens, conquistados com tanto empenho!, sempre havia uma reserva... aliados... amigos... o próprio Deus...

Prendeu-os com um elástico a fim de barbear-se. Agora seria ELE o único responsável por aquilo.

Sem serviçais, sem criadas... sem Pandora.

Suspirou, mirando distraidamente o aparelho de barbear barato que recebera quando ali fora encarcerado. Sempre que Pandora cuidava daquilo, experimentavam uma tensão que invariavelmente culminava em deliciosos atos de luxúria.

Lamentava a morte da nora. Maldito Radamanthys! Se não tivesse deixado a loucura dominá-lo por completado, Pandora estaria viva e cuidando dele naquele momento tão crítico. Um desperdício, eliminar uma mulher tão bela, tão útil, tão servil. O que apreciara na jovem também tinha sido isso: a ELE, ela era servil, mas com qualquer outra pessoa, era impetuosa, indomável... vide como se portava debaixo do nariz do marido. Sorriu, tocado por uma inesperada saudade: às vezes, a linda alemã também se portava de forma impetuosa diante do “Grande Pai”. E, por mais que a “castigasse” por tais ousadias, como adorava tais atitudes...

Pelos netos, assassinados juntamente com a nora, nada sentia. Tampouco por Radamanthys. Menos ainda por Algol, outro desvairado, a quem creditava boa parte dos problemas que levaram sua amada Igreja à destruição. Apenas Pandora merecia alguns minutos de sua consternação. Quanto a Camus...

— Merda! – Praguejou, ao se cortar no queixo. Que diabo. Precisava se concentrar ao fazer aquilo!...

Limpou-se, resmungando pelo ardor causado pela pequena ferida. Terminou o serviço pouco depois.

Bem, agora estava apresentável.

Não mais para suas milhares de Ovelhas, seus milhões de fiéis, não mais para a alta sociedade em meio da qual circulava, magnificado pelo poder.

Nem mesmo para suas amantes.

Mas...

As paredes brancas, os poucos internos do presídio com os quais tinha contato, os funcionários e carcereiros tinham que vê-lo digno afinal, ora essa.

Sua situação não era eterna, sabia.

Advogados estavam trabalhando por ele.

Ainda tinha amigos, aliados, sócios... bastava deixava a poeira baixar. Sim, deixar a poeira baixar, pensava, tomando assento no estreito leito da cela. Viu os jornais e revistas que pedira junto às barras de ferro de sua “gaiola”. Enquanto estivera no banheiro, haviam-nos entregado. Pegou-os, voltando a sentar-se na cama.

“É, meu filho. Você está famoso.”, pensou, com um sorriso de descaso no rosto fatigado, enquanto folheava as publicações. “Não que eu esteja menos... mas você tem o benefício da juventude e da pecha de vítima...”

Na maior parte dos textos, era realmente assim que Camus era tratado. No entanto, em uma determinada coluna de um dos jornais lia-se o seguinte questionamento:

Terá sido o ‘Redentor’, de fato, uma vítima ou o ator principal desse teatro de horrores que custou a vida, o patrimônio e a sanidade de tantos?

— Previsível – Murmurou em meio a um sorrisinho. Mesmo com tantas “evidências”, alguns certamente haveriam de questionar o real lugar de Camus em tudo aquilo...

Tudo aquilo que fora necessário, aliás.

Não se arrependia de nada.

Fizera fortuna, obtivera sustento para si e para os seus, poder para levar a Palavra de Deus às massas incautas, paz e esperança para milhares de pessoas. O Altíssimo certamente não o condenava. Por que ELE condenaria a si mesmo?

Seu semblante enevoou-se ante uma foto do agente Milo Hatzis conduzindo Camus, cercados por outros policiais e seguranças. Sim, ouvira dizer que o maldito agente levara para sua própria casa o “Redentor”! Nunca imaginaria o filho vivendo com o rato abjeto que causara o esfacelamento de sua amada igreja...

“Camus traidor... teria sido melhor ter morrido como os imprestáveis dos seus irmãos”, pensou, um ódio frio a correr-lhe pelas veias.

Lembrou-se de quando sondou o filho a respeito de como se sentia em relação ao homem então conhecido como “Mikael”.

“– O que sente por Mikael, Camus?

— O que sinto? Ora… eu o amo. Acaso o Messias não ama todas as suas Ovelhas?

— Você ama as outras Ovelhas como ama Mikael?

— O senhor me confunde...

— Mikael é um homem bonito, não é verdade, Camus?

— O quê...?

— Ele é um homem bonito. Bonito demais para passar despercebido por qualquer lugar que seja. É uma beleza inspiradora. Máscula, forte, magnética. Sua aparência, seu olhar, sua voz, seus toques sobre o teu corpo devem ter causado em ti um efeito irresistível...

— Pai! É desse jeito MESMO que o senhor interpreta minha amizade com Mikael?

— ‘Amizade’? Espere… desde quando você tem AMIZADE com alguém? Você é o SALVADOR destas pessoas! Elas têm que te REVERENCIAR!

— Mikael me reverencia! Ele me respeita!

— Eu VI como ele te respeita... pegando nas suas mãos, em seus cabelos, em sua cintura... os dois bem juntinhos na água...

— O senhor está me OFENDENDO! O senhor dirige à REENCARNAÇÃO DO CRISTO acusações imorais!

— Saberemos se o imoral sou EU, se me responder com sinceridade…

—Não! Basta de perguntas!

— Só mais esta, é o Senhor Deus quem me manda perguntar, pelo bem de sua santidade, meu filho... pelo bem de nossa Obra...

— Estou ouvindo... senhor meu pai.

— Sentiu acontecer algo DIFERENTE no seu corpo quando Mikael estava tão próximo a você... quando Mikael tocava em você?”

Àquele embate, inédito entre eles, seguiu-se um profundo e, por que não dizer, revelador silêncio.

Um silêncio que o denunciava.

Não.

Não apenas o silêncio.

O rubor.

As narinas afiladas que se dilatavam ao capricho da respiração desordenada...

“– Queria que pudesse ver seu rosto, filho... É a personificação da luxúria.”

— Pecadorzinho sujo e hipócrita... lúbrico cretino... na certa já está abrindo as pernas para este filho da puta... – Rosnou, amassando a revista em que via-se, bem ampliadas, fotos em que os dois apareciam. Os fotógrafos primavam por sua insistência, conhecia bem os desgraçados... haviam, porém, se superado na cobertura da “libertação” do Redentor.

Tolos.

Não existia “libertação” para Camus. JAMAIS existiria “libertação” para o Redentor!

“Deixe estar, Camus. Nada é para sempre. E eu tenho amigos. Aliados. Sócios. Advogados. Não ficarei aqui por muito tempo.”, pensava, reservando um bocado de seu ódio para o policial que lhe arrebatara o filho santo. “É questão de honra que você pague pelo que fez a este filho de Deus, Milo Hatzis...”

— Armand De La Faure? – Uma voz abrupta retirou-o de seus devaneios de vingança. – Seus advogados chegaram.

Ah. Tony, o carcereiro latino e “super católico”...

— Vim levar essa sua carcaça herege até a sala onde eles te aguardam.

— É muita gentileza sua, meu caro rapaz.

— Não é gentileza, ô projeto de Anticristo. É o meu trabalho. – Retrucou o jovem carrancudo, de cujo pescoço pendia um crucifixo prateado.

Hades não se perturbou. Continuou sorrindo para Tony, enquanto era algemado por outro carcereiro. Tony encarou-o com irritação. O “Grande Pai” foi conduzido a um recinto gelado, nada aconchegante, excessivamente claro, e com guardas carrancudos como Tony a vigiarem a mesa onde se posicionavam os três advogados recém chegados.

Hades sorriu, antes mesmo de cumprimentá-los.

“Questão de tempo. Aproveitem a ‘lua de mel’, seus desgraçados.”, pensou, evocando as imagens de Milo e Camus.

************

—Prontinho, chegamos!

Milo desceu da Silverado, prontamente se espreguiçando sob o sol tímido que vinha recepcioná-los. Camus também deixou o carro; viu que estavam diante de uma extensa área verde. Frondosas árvores já tocadas pelas cores terrosas do outono espalhavam-se pela vista. Ao longe, distinguiam-se os topos dos prédios mais altos da cidade.

— Este é o Parque Central de Red Meadow, Camus.

Ao ouvir o policial enunciar a palavra “parque”, lembrou-se de que no hospital ouvira-o dizer que tinha uma “surpresa para ele”... o que poderia ser?

— Parece ser um lugar bonito – Comentou, a fim de disfarçar a curiosidade.

— Pode apostar que é. Não é um Central Park de Nova York, mas tem seu charme. E tem o espaço ideal pra você aprender uma coisa.

— Eu? Aprender o quê?

O policial foi até o porta-malas da pick-up e dali retirou uma bicicleta preta com detalhes azuis metálicos.

— Bom, antes, a sua surpresa! – Anunciou o loiro, alegremente.

Boquiaberto, Camus não sabia o que dizer.

— Não gostou? – Indagou o agente, divertido com a estupefação do outro.

— Isso é para mim?

— Não, eu trouxe pra vender! Olha quanta gente querendo comprar! Calma, pessoal, façam fila, sem bagunça!

O ruivo olhou ao redor, confuso, não vendo ninguém por perto. Teve um breve sobressalto ante o quase grito de Milo:

— É CLARO que é pra você! Eu não disse que tinha uma surpresa pra você?

O ex-Redentor já tinha visto pessoas sobre aquele objeto andando pelas ruas, tinha uma ideia do que poderia ser. A tal bicicleta, sim!...

— Olha só como é legal – Milo subiu na bicicleta e pedalou até certa distância, deixando o estacionamento, sempre observado pelo curioso jovem. Andou graciosamente até uma fonte de onde vários passarinhos alçaram voo. Ali ele parou e acenou para Camus, que continuava onde deixara o carro.

— Vamos, o que cê tá fazendo aí? Vem pra cá! – Chamou-o, animado.

— Ah! Sim. – Fez Camus, os passos apressados na direção do policial.

Assim que o alcançou, achou por bem anunciar de imediato:

— Só que... não sei andar de bicicleta...

— Foi por ISSO que viemos pra cá. O parque é o melhor lugar pra você aprender. É amplo, tem gramado, que alivia qualquer queda eventual... não que eu vá te deixar cair, tá? Mas... sabe-se lá...

— Mas... como sabe que vou conseguir aprender?

— Porque, meu caro, o grande Milo Hatzis vai te ensinar! – Fez uma expressão tão cômica que Camus acabou rindo.

E ver Camus rindo só convencia Milo de que estava no caminho certo. Continuou, apontando para a extensa área verde:

— Hoje é dia de semana, o parque fica bem mais vazio que aos sábados e domingos. Olha, não tem quase ninguém.

Como que subitamente consciente de algo com que devesse se preocupar, o ruivo pôs as mãos na altura da gola do casaco azul marinho.

— Devo colocar o capuz?

Gesticulando com vigor, Milo respondeu:

— Não, não, não! Você não tem com que se preocupar. Veja como o parque tá vazio. Vejo umas poucas pessoas lá longe... se uma ou outra te reconhecer, não tem problema algum. Não é como cem pessoas te reconhecerem num shopping cheio, ou algo do tipo... entendeu?

O ex-Redentor assentiu, um tanto incerto.

— Camus, você não tem que se esconder. Não vai viver escondido. Quero, sim, te preservar de multidões, aglomerações... ao menos, por enquanto. Certo?

— Certo.

— Bem, então vamos à lição número 1...

Milo pigarreou, tentando se lembrar por onde começar. Ensinara Hyoga a andar de bicicleta, mas o menino tinha 5 anos na época... treinara com rodinhas de apoio e tudo... e agora? Ensinar a um adulto? Esperava que os tutoriais de “como ensinar um adulto a andar de bicicleta”, que vira na Internet o ajudassem de fato.

Removeu os pedais para que os pés de Camus pudessem alcançar o chão a qualquer momento que quisesse. Isso iria ajudá-lo a ganhar confiança. Abaixou o banco, sob olhar atento do “aprendiz”.

— Hã... primeiro, vamos... você vai treinar como se senta no banco da bicicleta, como se sobe no negócio, sacou? Vou te mostrar primeiro.

Por repetidas vezes, assim o fez. Até que se sentiu encorajado a dizer:

— Agora é contigo. Faça como eu: treine de um lado, depois de outro. De um lado, depois de outro.

Por duas vezes o aprendiz quase caiu. Seu instrutor, no entanto, manteve-se bem próximo para auxiliá-lo.

— Está indo muito bem, Camus. Faça mais dez vezes de cada lado.

Quando o rapaz terminou, já meio ofegante, o loiro determinou:

— Me deixa subir. Vou te mostrar o que você vai fazer agora.

Deixando os pés quase deslizando no chão, ele andava com a bicicleta abaixo de si. Camus seguia-o, prestando atenção nos ensinamentos:

— Este exercício se chama “patinete”. Ele vai te ajudar a ganhar equilíbrio, substitui as rodas laterais usadas quando as crianças estão aprendendo a andar de bicicleta. Certo, mais uns minutos... OK, agora é com você.

Mesmo aquele exercício simples deixava o ruivo apreensivo. Temia cair, e a expressão de seus rosto denunciava francamente isso.

— Vamos treinar deste jeito até que você tenha segurança de tirar os pés do chão e colocá-los nos pedais, OK?

— Não acho que essa hora vá chegar, Milo.

O agente gargalhou gostosamente.

— Vai sim, você vai ver. Pode ser hoje, pode ser semana que vem ou mês que vem, mas vai chegar.

No começo, era só uma caminhada sobre a bicicleta, com o apoio permanente do policial. Tão logo este percebeu que o outro já tinha mais equilíbrio, resolveu pôr de volta os pedais.

O tempo passou como as poucas nuvens no céu claro, de forma suave, fluida. A brisa no rosto eufórico dos dois rapazes fazia dançar, além das flores das copas e dos canteiros, seus longos cabelos soltos e brilhantes. A cada promessa de sucesso, Camus abria um sorriso de expectativa, não menor que o de seu instrutor.

— Isso mesmo, parceiro, você tá indo muito bem!

— E-estou? A-ah!

— Cuidado, com calma. Não tenha pressa. Mas também não fique parado, duro como estátua. Confiança... em você e em mim!

— C-certo...

— Isso aí, assim! Vamos lá!

Milo espalmava a mão nas costas do ex-Messias a fim de ajudá-lo com o impulso.

— Eu acho que você aprende hoje mesmo, hein! – Falou, empolgado.

— S-será?

Em alguns momentos, o aprendiz julgou que iria cair; seu instrutor, contudo, sempre estava ali para ampará-lo. Apesar do medo, natural, aliás, Camus acabava rindo, e Milo mais ainda.

Não saberiam dizer por quanto tempo tentaram, até que...

— MI-MILO!

— OLHA! VOCÊ TÁ CONSEGUINDO!

— E-EU TÔ... CONSEGUINDO...

— Os freios – Apressou-se em lembrar – Controla eles do jeito que eu te ensinei!

— S-sim... meu Deus... – Ria, entre exultante e temeroso.

— Maravilha, Camus, continua, olha pra frente, não olha pra baixo! Isso... isso mesmo!

— É... é tão... é tão...

— Legal, né? – O policial pôs-se a dar uma corridinha na frente do jovem.

— É... legal – Disse, a euforia inundando seu peito de calor.

— Hahahahaha! Muito bom, Camus! Muito bom!!!

Esqueceram-se da hora, de almoçar, de tudo o mais. Como dois meninos no parque, entregaram-se unicamente àqueles momentos de diversão e contentamento.

Tempos depois, descansavam sentados na sombra de um acolhedor castanheiro. Contemplavam a verdejante vista sob o firmamento, agora totalmente límpido. Camus virou-se para Milo, perdendo-se nos olhos da cor do céu que estava a admirar... o loiro encarou-o de volta, sorrindo lindamente.

— Eu não disse que você conseguiria? Você pode fazer tudo que quiser, Camus... AGORA pode.

O ruivo sentiu seu coração bater mais forte. Sufocou um suspiro. Desviou o olhar, temendo estar corado.

— Obrigado. Eu não conseguiria sem você.

— Agradeço por confiar em mim, amigo.

“Amigo”.

Camus engoliu em seco. Algo fez seu coração, até há pouco palpitante de felicidade, quase gelar, quase doer.

Talvez... talvez fosse só uma maneira de falar.

“Amigo”.

Claro que Milo era um amigo! O maior que já tivera! Na verdade... o ÚNICO. Mas... mesmo assim...

— Oh, meu Deus. É VOCÊ – Ouviram uma voz feminina exclamar.

Distraídos um com o outro como estavam, não perceberam a aproximação do jovem casal com um carrinho de bebê.

Tomando a defensiva, Milo imediatamente ficou de pé.

— É você... o “Redentor” das notícias... – Disse a moça, seus olhos acinzentados fixos no ruivo, que permanecia sentado na relva.

— Sim, é ele. – Volveu o agente, firme e nada receptivo.

— E você é o policial que esteve infiltrado naquela comunidade de fanáticos, Milo Hatzis. – O homem que a acompanhava, de testa alta e lisa, expressivos olhos castanhos, falou, estendendo-lhe a mão. – É um prazer, senhor. Gostaria de parabenizá-lo pelo que fez.

Desarmado, Milo trocou um rápido olhar com Camus, que decidiu se levantar.

— Estamos muito impressionados com a história toda. Graças a Deus conseguiram escapar daquele lugar terrível. Que bom que a seita foi desmascarada. Custa a acreditar que coisas assim acontecem no nosso país ainda hoje. – Disse a mulher, de cabelos médios castanho claro, rosto gentil e bondoso.

— Nós... agradecemos as palavras de vocês. – O policial enfim se pronunciou.

A moça ficou diante de Camus, visivelmente emocionada por ver o “Redentor”. Sua expressão tranquila adquiriu um ar melancólico. Ela uniu as mãos sobre o peito e, com voz levemente embargada, confidenciou ao jovem:

— Eu lamento por tudo que você passou naquele lugar. Eu... sabe... e-eu... – E só pôde continuar depois que a mão do marido pousou em seu ombro. – ... eu também fui abusada quando mais nova... pelo m-meu próprio pai... por isso sua... sua história me tocou muito, sabe? Meu pai... me violentava regularmente... e... deixava que meu tio, que morava em nosso quintal, também me... me...

Sem saber como agir, Camus desviou o olhar. Ao ouvir uns pequenos soluços da jovem, que não mais pôde prosseguir, apenas disse, em voz baixa:

— Eu... eu sinto muito.

— Lamento que tenha tido tão horrível experiência, senhora...

— Sullivan. Martha Sullivan.

— Lamento muito, senhora Sullivan. – Concluiu Milo, sinceramente consternado.

O marido terminou o relato por ela:

— Martha conseguiu fugir de casa aos catorze anos. Foi então morar com a avó materna. O pai de Martha morreu de câncer, dois anos depois.

Camus sentiu uma pontada fria no peito.

Martha conseguira, corajosamente, escapar de seu suplício. Ele bem que tentara... porém...

“De agora em diante, você só poderá andar pelo vale com essa tornozeleira eletrônica. Só que NÃO é uma tornozeleira eletrônica comum. Afaste-se alguns metros de seu tutor, com intenção de escapar, e veja o que lhe acontece...”

Camus fechou os olhos ante a lembrança.

Dor.

“Senhor meu pai, eu prometo, nunca mais tentarei fugir! Por favor, não deixe mais que usem isso em mim! Algol... sempre aperta o botão... ele... e às vezes, também outro...”

“Deve ser porque você faz algo por merecer.”

“N-não... eu não...”

“Basta, Camus. Está me desafiando? Pois agora eu mesmo vou...”

“Não, pai, por favor NÃO!”

Dor...

Paralisia...

Dor...

— Camus?

—Hã?

Voltou de suas amargas recordações, guiado pelo chamado de Milo e pelo toque de sua mão em seu ombro.

— Tudo bem?

— Ah… sim. Claro.

O casal percebeu algo de errado no ar. O senhor Sullivan adiantou-se:

— Desculpem-nos. Não tínhamos a intenção de importuná-los...

— Não nos importunaram. – Rebateu o ruivo, com um sorriso complacente. – Fico agradecido pela amabilidade de vocês.

“Camus”, pensou Milo, percebendo que o rapaz se sentira mal de alguma forma. Entretanto... o casal realmente não tivera a intenção... preferiu apressar uma despedida:

— Me desculpe, mas precisamos ir.

— Oh, claro.

— Vamos torcer para que tudo dê certo para vocês.

— Desejamos o mesmo a vocês. Cuidem-se... e cuidem desse anjinho – Disse o policial, abaixando-se para olhar com ternura o bebê adormecido no carrinho.

Camus também olhou a criança adormecida. Falou, tão somente para não parecer insensível ao pequeno:

— Que ele tenha saúde... e o amor de seus pais.

O agente ergueu a bicicleta e saiu dali acompanhado pelo ruivo. Malgrado o visível incômodo experimentado por Camus nos últimos instantes, a simpatia manifestada por estranhos acendia um pouco sua esperança por dias em que o “ex-Redentor” finalmente viesse a conviver em sociedade.

— Acabou que a gente nem almoçou. – Comentou, a caminho do estacionamento. – Que tal um hambúrguer bem gigantesco?

— Milo, será que todas pessoas serão ASSIM comigo?

Aquele questionamento levou o loiro a um pensamento mais realista. Todavia, não tinha coragem de verbalizá-lo totalmente. Por isso:

— Nem todas pessoas pensam da mesma maneira. É natural. Apesar de eu acreditar que a maioria será, sim, solidária a você, imagino que, às vezes...

Resignado, o ruivo assentiu. Lembrou-se de Natassia em seu quarto no hospital...

— Mas, olha – O policial apressou-se em acrescentar – eu estarei SEMPRE ao seu lado. Então você pode ficar tranquilo.

— Eu ESTOU tranquilo. – Assegurou. E sua expressão serena supostamente o comprovava. Quando entraram no carro, porém, o loiro inquiriu:

— O que você sentiu naquela hora?

Como o ruivo fizesse cara de desentendido, Milo insistiu:

— Quando Martha Sullivan contava a história dela. Você estava bem, até o marido dela dizer que ela fugiu de casa aos catorze anos.

Camus não gostou do retorno àquele assunto. O dia fora tão agradável! Limitou a pontuar, um tanto seco:

— Nada. Não aconteceu nada de mais.

— Qualé, Camus, eu VI como você ficou. Eu só queria saber: foi um desconforto físico, mental... uma dor? Um flashback?

— Não entendo o que diz. Não sei o que é um “flashback” – O ex-Redentor não se importou em demonstrar certo mau humor.

— É quando momentos que foram dolorosos ou traumáticos pra gente voltam de forma tão vívida à nossa mente que parece que estamos vivendo aqueles momentos novamente.

Camus estremeceu.

Era exatamente o que vinha acontecendo. Principalmente à noite, quando recusava-se a dormir, com medo dos sonhos que NA CERTA viriam atormentá-lo, tragá-lo de volta à sua antiga vida... ele tentava pensar assim, “antiga vida”. Tentava sufocar os gemidos, os soluços, o choro, temendo acordar Milo, preocupá-lo além da conta...

— Oh. Isso? – Meneou a cabeça em uma calma negativa. – Não. Eu NÃO tive isso. Ou qualquer outro... “desconforto”.

Pousando as mãos no volante, Milo suspirou. Deu partida no automóvel. Quando deixavam a vaga, observou:

— Pelo visto, você não tem mais qualquer problema para MENTIR, não é?

O ruivo sentiu-se como que golpeado na boca do estômago.

— Não estou mentindo. – Retrucou, simulando tranquilidade.

Milo arqueou as sobrancelhas ao replicar, irônico:

— Está sim. Não é porque é “novo no negócio” que vai se sair bem nele de cara. Precisa de um pouco mais de prática, amigo, ainda mais COMIGO.

— Podemos, POR FAVOR, esquecer disso? O dia estava tão agradável. Eu... eu só quero lembrar do que foi bom.

“Senhor Hatzis, faça-o se sentir confortável.”

“Droga”, pensou o loiro; tirou do rosto uns cachos levados até ali pelo vento.

— Tá certo. Desculpa, cara. Foi mal. – Falou. – Não precisamos mais falar disso. OK.

— OK. – Repetiu Camus, evitando encarar o policial.

Milo mordeu o lábio inferior. Procurou entrar em novo assunto:

— Você vai adorar o hambúrguer de picanha com molho barbecue e cebolas caramelizadas do Big Joe’s Burgers. Tá com fome?

— Estou sim. – O ex-Redentor tentou sorrir; Milo sorriu-lhe de volta, satisfeito com a resposta.

Ao que parecia, desta vez Camus fora bem sucedido no “negócio”... sentindo-se pesaroso por esta pequena mentira, falou:

— Milo... muito obrigado pelo dia de hoje. Pela surpresa. Pelo presente. Eu gostei muito.

— Disponha, parceiro. Vai ser bom ter companhia pra pedalar. Quer dizer, o tonto do Aiolia sempre me acompanhou, mas... morando juntos, eu e você podemos ir pedalar a hora que quisermos.

— Aiolia... o policial que é seu primo, não?

— Ele mesmo.

— Ele parece ser uma boa pessoa.

— Todos que estiveram lá no hospital com a gente eram boas pessoas.

Sem nada dizer, mais uma vez, Camus lembrou-se da ex-mulher de Milo. Ela não lhe parecera “boa pessoa”. Em hipótese alguma...

*************

O dia amanhecera escuro e tempestuoso. Grossas gotas de chuva chocavam-se ruidosamente nas janelas, e de quando em quando trovões sobressaíam-se ao som contínuo da precipitação. Esfriara bastante, para completar. Sair estava fora de cogitação, portanto, era a hora adequada para Camus sanar uma curiosidade que já vinha se pronunciando:

— Você tem tantos livros.

— Hah, isso não é nada, eu doei montanhas deles. – Disse Milo, notando como os olhos de Camus brilhavam para sua biblioteca na sala. – Tem mais lá no escritório, mas são livros técnicos.

— Que são “livros técnicos”? – Quis saber o ruivo, tomando nas mãos um exemplar de “Dom Quixote”, de Cervantes. O livro de capa dura vermelha com detalhes dourados chamara-lhe a atenção.

— São livros relacionados ao meu ofício. Antes de entrar pra Polícia Federal, estudei Direito, então tenho livros de advocacia também.

— Livros relacionados ao seu trabalho – Camus tencionou confirmar se entendera de fato. Pegou outro livro: “O Muro”, de Jean Paul Sartre.

— Isso mesmo.

De modo neutro, como quem comenta sobre o tempo, o ex-Redentor rememorou:

— Nunca li outro livro que não fosse a Bíblia.

Milo olhou para ele. Balançando a cabeça, comentou:

— Eu imagino. Mais uma forma de te manter preso ao seu... papel.

— Ainda assim, só me era permitido ler as partes indicadas pelo meu pai.

— Sério?

—Sim. Não importava que repetisse várias vezes a leitura de determinado livro ou de determinados capítulos... era assim que tinha que ser.

O policial lutou por não parecer consternado. Camus aparentava estar em paz, e ele queria aparentar o mesmo. Espalmou a mão na direção dos livros e imprimiu animação à fala:

— Bom, agora você pode ler o que quiser.

— Não saberei escolher.

— Hum... talvez seja melhor começar com um livro de contos, que tal?

— Porque são histórias curtas?

—Não apenas por isso, mas para você ter um panorama geral de estilos e autores. – Pegou um livro em cuja capa lia-se “Maravilhas do Conto Norte-Americano”. – Toma. Se não estiver gostando muito de um conto, pule para o próximo. Depois poderá tentar novamente aquele de que desistiu. Procure não desistir totalmente de primeira. Se nem na segunda tentativa você gostar, aí sim abandone a porcaria!

Entre o riso que deixou escapar, Camus comentou:

— Você sabe mesmo como ensinar todas as coisas.

— Que nada – O loiro piscou um olho – Isso quem me ensinou foi minha mãe.

— Mas agora você ensina a mim.

— Hum. Não deixa de ter razão. Você é esperto, carinha.

Camus riu novamente. Então resolveu comentar:

— Sua mãe morreu com seu irmão, lembro de que me contou. Deve sentir falta dela...

Um tanto constrangido, o policial coçou a nuca ao explicar:

— Hã... aquela história fazia parte do disfarce de “Michael Segerson”. Na verdade, ela está viva... assim como meu pai... eles moram na Grécia. Depois que meu pai se aposentou, ele resolveu viver na terra dos meus avós, que lhe deixaram uma bela casa.

— Oh. Entendo.

— Sinto muito por ter mentido para você.

— Tudo bem. Era o seu disfarce.

Milo esperou que aquela fosse a deixa para finalmente Camus falar sobre a mãe. Sabia que ela fora morta por Hades, mas não conhecia detalhes além do pouco que o Redentor lhe contara na comunidade. Não obstante, Camus nada falou sobre a mãe. Pôs-se a folhear o livro que o agente lhe indicou, visivelmente interessado. Bem... em uma outra hora, tentaria sondar o assunto.

— Tomara que goste do livro. Escute, vou usar o computador por um tempo, botar umas coisas em dia, responder mensagens e tal... se precisar sanar alguma dúvida que aparecer no decorrer da leitura, é só me perguntar.

“Aham” foi tudo que o ruivo respondeu; sentou-se no sofá e começou a ler. O policial abriu o notebook sobre a mesa. Entregou-se aos seus afazeres enquanto o outro descobria a literatura universal...

Se estava entendendo MESMO, Milo não saberia dizer. O fato é que o livro realmente o entreteve.

“Ou talvez ele esteja fazendo o que sugeri com TODOS os contos”, pensou, virando-se de quando em quando para olhar o rapaz.

Em verdade... eram ambas coisas.

Após fazer o que deveria fazer, Milo levantou-se da mesa. Espreguiçou-se e percebeu que a chuva não havia diminuído muito, mas já não se ouvia nenhum trovão ou som de vento. Camus seguia lendo, concentrado.

“Vai ser um leitor e tanto”, pensou, esperançoso. Anunciou:

— Vou fazer um chocolate quente pra gente, que tal?

— Parece ótimo – Respondeu o ruivo, sem tirar os olhos do livro.

— Beleza.

Quando estava terminando de preparar a bebida, o interfone tocou. Franziu as sobrancelhas, levemente intrigado. Quem seria, ainda mais num dia chuvoso como aquele?

Tirou o fone do gancho. Ao ouvir o nome anunciado pelo porteiro, surpreendeu-se, e não de forma positiva.

— Pode deixá-la subir, obrigado.

Desligou, estalando a língua de puro desagrado.

“Se fosse algum problema com Hyoga, ela teria me ligado simplesmente! O que veio fazer aqui?”, pensava, experimentando uma inexplicável apreensão.

Levou a bandeja com canecas de chocolate quente para a sala. Pousou-a na mesa; ao ouvi-lo, Camus levantou-se do sofá. Prontamente estranhou ter três canecas ao invés de duas. Antes mesmo que perguntasse algo, a campainha tocou. Mordendo o lábio inferior, o policial foi abrir a porta.

— Olá, Natassia, como vai?

— Olá, Milo...

Ela não esperou que ele a convidasse para entrar; adentrou a sala, em passos curtos e decididos.

Seus olhos azuis claros encontraram imediatamente a figura do “Redentor”, de pé junto à mesa. Ele tentou disfarçar a surpresa por ver diante de si, novamente, a ex-mulher de Milo.

Natassia.

*************

Notas finais
Atenção: — O diálogo travado entre Camus e seu pai, relembrado por Hades na prisão, está no capítulo 17. — O diálogo entre o "Redentor" e Hades, relembrado por Camus no parque não se encontra em nenhuma parte da fic. É por isso que a nova fase da fic se chama "Revelações"; eventos como a morte da mãe de Camus, a tentativa de fuga de Camus, as lágrimas de sangue e outros serão detalhados no decorrer dos capítulos desta etapa. Bem como "revelações" de Milo também... — A cena em que Camus e Milo estão conversando sobre os livros do policial, durante a qual Camus relembra que até mesmo para ler a Bíblia era controlado por seu pai, foi inspirada por um comentário da leitora sakurasenpai08. Valeu mesmo! .... É, em meio a momentos agradáveis de descobertas, pairam algumas sombras... espero que tenham gostado. Quero desejar a vocês um Feliz Ano Novo, com muita saúde, paz e realizações! Tudo de bom! Até o próximo capítulo o/ Grupo "Fics da Amelinda" https://www.facebook.com/groups/1690225937895246/