Redentor
25 Ascensão - Ato IV : "Confie em Mim"
Notas iniciais
Pelo som mais insistente na janela, quase ritmado, percebia-se que a chuva aumentara. Saga continuou encarando Milo, na expectativa de que ouviria uma risadinha a desarmar a gravidade do momento.
Milo, porém, permaneceu sério. Aguardava alguma resposta do chefe. Que veio em tom de incredulidade:
—Devo creditar isso aos remédios que está tomando? Porque, se não está brincando comigo, deve estar desorientado por conta da medicação.
— Como eu poderia BRINCAR com QUALQUER COISA relacionada a este caso, Saga? Por acaso, esqueceu-se de tudo que te contei? Do que leu nos relatórios? Do que as testemunhas estão revelando?
— Então você não está regulando bem; o Milo que conheço jamais iria propor um ABSURDO desses!
— Pois eu acho mais absurdo um cara, inocente, que foi PRISIONEIRO a vida inteira sair de um cativeiro para outro! – Rebateu firme.
Boquiaberto, o promotor deixou-se cair sobre uma cadeira. Ficou alguns segundos procurando o que dizer, pois que estava analisando mentalmente o que se passava com Milo. Por fim, disse:
— Entendo que esteja com pena desse rapaz...
— Não é “pena”!
— Então, é o quê?
Foi a vez de Milo silenciar-se, caçando o que dizer.
— É claro que é PENA, Milo. Você viu o sofrimento dele, e se compadece, isso é louvável, ainda mais vindo de VOCÊ. Digamos que EMPATIA não constava, até onde se sabia, como uma de suas qualidades... não me olhe assim, não é uma crítica, embora possa parecer. Ao contrário, para o seu trabalho, sempre foi uma característica bem prática a ser mantida. Mas eu entendo. O caso do “Redentor” foi algo extremo. Desumano. Tocou você.
— Escute... analise como quiser. Que seja por “pena”. Eu ofereço minha casa para abrigar o Camus. Para evitar que ele seja enfiado num hospício. Há algum REAL empecilho para isso?
—Sim, HÁ. Camus precisará de vigilância constante. Ele não conhece NADA deste mundo, nem desta realidade, e é totalmente instável, como já pudemos comprovar. Você tem o seu trabalho, não poderá ficar de olho nele o tempo todo.
— Bem... – A voz de Milo fez-se incerta. – Pensei se... se não poderiam me conceder uma licença... talvez uns três meses... só para... só até Camus ter condições de ficar sozinho sem...
— Isso está FORA DE COGITAÇÃO, Milo.
— Por quê? Eu fiquei SEIS MESES infiltrado naquele INFERNO! Trabalhei DIRETO todo este tempo! Está dizendo que tudo que vivi não faz jus a uma licença?
— Que eu saiba, você assinou um CONTRATO, no qual NADA sobre LICENÇAS pelo seu serviço prestado era mencionado!
— Que seja menos tempo, então...
Saga levantou-se da cadeira.
— Milo. NÃO. Não há a MENOR possibilidade de você ficar responsável por Camus.
— NÃO? Legalmente falando?
— Como…?
— Sou um cidadão americano, cumpridor de todos meus deveres, detentor de todos meus direitos. Camus é maior de idade, senhor de suas faculdades mentais, em plena consciência. Se ele aceitar ficar em minha casa, legalmente, o que impede? Se é, AGORA, um cidadão LIVRE?
O promotor cruzou os braços, ponderando o argumento do outro.
— Certo. LEGALMENTE, não haveria impedimento. – Admitiu. – Mas há a questão de que ele NÃO pode ficar sozinho até compreender nossa realidade, e você não poderá ficar o tempo todo ao seu lado.
— Você pode “mexer os pauzinhos” e me conseguir essa licença, eu SEI que pode! Um mês que seja...
— Não. Já disse que está fora de cogitação. Faço isso por você mesmo. Não é um fardo que seja capaz de carregar.
— Por que não deixa que EU decida isso?
— Por que quer TANTO fazer isso?
— Por HUMANIDADE, Saga. Já ouviu falar disso? Até canalhas como eu podem manifestar, mais dia, menos dia!
— Eu nunca duvidaria disso. Mas acho que você já sofreu demais estes seis meses. Precisa se livrar disso agora. E não é se responsabilizando por esse rapaz que vai conseguir. Caso encerrado, Milo.
Este calou-se, profundamente indignado. Sentiu-se incapaz de continuar o embate verbal. Acabaria se inflamando. E tudo de que precisava agora era provar que possuía controle emocional sobre suas ações. Vendo-o silencioso, Saga disse:
— Sei que se compadeceu de Camus porque presenciou os horrores sob os quais ele vivia. E que travaram uma espécie de amizade. Contudo, não é bom nem para você nem para ele que isso continue. Camus precisa de tratamento psicológico, acompanhamento especializado, e você precisa de retomar sua vida. Voltar à normalidade.
Consciente de sua momentânea derrota, Milo assentiu. Ele, que outrora jamais a admitia, sob hipótese alguma, aprendera, em seis duros meses no Vale da Aurora Dourada, a calar-se e esperar...
Conhecendo Milo há anos, Saga não pôde deixar de estranhar aquela súbita aquiescência. No entanto, passava do horário de ir embora. Tanto ele quanto o amigo precisavam descansar.
— Amanhã tenho uma coletiva marcada com a imprensa, pela manhã. À tarde, venho até aqui.
— Tudo bem. – Murmurou Milo, agora genuinamente cansado.
— Espero que entenda que só quero o seu bem.
— Boa noite, Saga.
Resignado, o promotor limitou-se a responder:
— Boa noite, Milo.
Saiu em seguida, fechando a porta com delicadeza. Milo recostou-se na cama. Olhou para o relógio de parede.
20:12.
20:42…
21:30.
Neste meio tempo, cochilara. Acordara. Enviara uma mensagem a Saori. Olhou novamente o relógio. Eram 22 horas. Cruzou as mãos sobre o peito. Tamborilou por uns instantes. De repente, ergueu-se de supetão. Jogou as pernas para fora da cama, alcançando o chão gelado. Calçou logo os chinelos do hospital. Jogou um casaco comprido por sobre o pijama listrado. Suspirando levemente, deixou o seu quarto...
Suaves batidas levaram até a porta do quarto 426 a enfermeira que estava como acompanhante do “Redentor”.
— Ah, boa noite, senhor Milo.
— Oi, Constance. Camus está dormindo?
— Está sim, senhor.
— Eu vim vê-lo, não vou demorar.
— Tudo bem, entre.
O policial adentrou o recinto, mergulhado no mais absoluto silêncio. Não pôde deixar de associar o ambiente a um santuário, tanto mais pela visão do homem a quem tantos consideraram uma divindade ali, deitado, placidamente, no níveo leito. Aproximou-se da cama e contemplou o rosto do “Redentor”. Tinha uma aparência mais descansada, ainda que, de tão pálido, inspirasse dúvidas de que realmente estivesse vivo. Parecia uma escultura tumular... o jazigo de um santo... os longos cabelos não se encontravam mais esparramados pela cama, agora estavam presos em um rabo-de-cavalo abaixo dos ombros.
— Ele teve... algum problema hoje? – Milo perguntou baixinho à enfermeira.
— Não, ficou tranquilo o dia todo.
— Fez as refeições direito?
— Pela primeira vez nestes cinco dias, comeu tudo sem que tivéssemos que implorar. – Ela sorriu ao dizê-lo.
— Que bom. – Murmurou Milo, sem tirar os olhos daquele semblante sereno, que tanto lhe trazia paz.
Saber que Camus experimentara a paz lhe trazia paz.
Coisa curiosa.
Viu os rubros cílios se estremecerem. E, por entre eles, as íris escarlate a se revelarem.
— Milo... – Camus sussurrou.
— Oh, droga, acordei você. Achei que estivesse dormindo pesado. – Disse, com uma ternura estranha a si mesmo.
— Você está bem...?
— Eu? Eu tô ótimo!
— Aquele homem... disse que você precisava de repouso...
— Bem, quem não precisa? – Riu o loiro. – Ainda mais depois do que...
Calou-se, escolhendo não mencionar nada sobre cirurgias nem Vale da Aurora Dourada.
Camus à sua frente, tranquilo, seguro, em paz... parecia-lhe tão suficiente!
— E você, como se sente, Camus?
— Bem. Hã... bem, mas...
— “Mas”, o quê?
— Eu… eu não sei...
“Está confuso, claro.” Inconscientemente, Milo pôs-se a acariciar-lhes os cabelos enquanto falava:
— Soube que não tem colaborado com a equipe médica, nem com a psicóloga Saori, nem com a polícia. Camus, por que se recusa a falar com eles?
— Mas eu não sei quem são eles.
— Claro que sabe, eles se apresentaram, não? Saori, Saga, principalmente, são meus companheiros de trabalho.
— E-eu não sei quem são eles. – Repetiu, desviando o olhar. – Milo... onde estou?
Franzindo o cenho, o agente mirou-o.
— Não entendo. Achei que tivessem lhe falado. Contado a você.
— Eles me contaram... coisas... mas eu... eu não entendo...
Vendo a confusão no rosto do rapaz, Milo virou-se para a enfermeira.
— Constance, pode nos deixar um pouco a sós? Uns vinte ou trinta minutinhos.
— Tudo bem. Vou aproveitar para ir tomar um café. Quer que traga para vocês?
— Não, querida, estamos bem, obrigado.
Tão logo a mulher deixou o quarto, Milo puxou uma cadeira para perto do leito de Camus. Sentou-se. Coçou o queixo, procurando por onde começar. O ruivo observava-o, em silêncio.
— Sei que já devem ter lhe contado o que houve, onde está, por que está aqui... estas coisas... não é verdade?
O “Redentor” meneou afirmativamente a cabeça.
— Mesmo assim, vou te contar. Só que... do meu jeito, tá? Assim, desde o COMEÇO. Só raciocino assim: princípio, meio e fim. Bom, vamos lá. Bem... seu pai inventou a Igreja, basicamente, só pra ganhar dinheiro. Inventou toda a história de que você era um segundo Messias. Lembra de que a Bíblia fala sobre “falsos profetas”? Pois então, eles existem mesmo, e seu pai é um deles. Pra sustentar a Igreja que ele criou, roubou e extorquiu muitas pessoas. Ele até MATOU algumas. Sabe Aldebaran? A esposa e a filha dele foram mortas porque tentaram fugir do Vale. Assim como Albior... quase morreu na prisão... agora ele nem pode mais andar, e... estou indo rápido demais?
—Não. Seus... amigos já me contaram tudo sobre isso...
— Não quer mais ouvir, então?
— Ao contrário. Quero ouvir de VOCÊ. Porque confio em você.
Milo engoliu em seco. Prosseguiu:
— Vou tentar não me estender muito, tá? Eu faço parte da polícia... a mesma polícia que levou seu pai preso, por todas as coisas erradas que ele fez. Fui escolhido pra investigar a Comunidade religiosa fundada por Hades. Pessoas que haviam conseguido fugir de lá haviam contado que muitas coisas ruins aconteciam naquele lugar. Você mesmo sofreu bastante lá, não foi?
— Era a minha missão.
— Não, não era, Camus. Era tudo mentira de Hades. Ele te explorou, e... olha. Não quero falar muito disso agora. Só quero explicar como você veio parar aqui. Pode ser?
O ruivo assentiu. Milo ficou satisfeito em ver que Camus não parecia triste nem tenso. Parecia querer ouvir, tão somente.
— Certo. Eu tive que fingir ser outra pessoa, no caso, o tal Michael Segerson... e, desde já, peço perdão por ter te enganado. Mas era o meu trabalho... a minha missão, como você diz.
— Você fingiu ser meu amigo também?
— Camus, nunca FINGI nada com você – Alegou, sincero.
— Mas você fingiu ser outra pessoa.
— Quero dizer que nunca FINGI nada com você além da minha identidade. Eu precisava investigar a seita por DENTRO, saber o que se passava no Vale. Fora isso, nunca menti ora você sobre...
Calou-se. Do que estava falando, afinal?
Fez um esforço para voltar ao tópico da conversa:
— Enfim, graças ao meu trabalho, a polícia “aqui fora” descobriu tudo de mau que Hades fazia... inclusive a VOCÊ. Então a polícia invadiu o Vale e prenderam seu pai...
— Vão matá-lo como mataram Radamanthys?
— Camus... Radamanthys estava ameaçando a SUA vida. Eles precisaram abatê-lo. Era ele ou você.
Camus pareceu engolir em seco. Reformulou a pergunta:
— Meu pai será morto pelos crimes que cometeu?
— Há alguns anos, existia, sim, pena de morte em alguns estados, mas ela foi abolida. Logo, por muito que eu considere que era o que o desgraçado do Hades merecia, não será o caso...
— Graças a Deus.
— Camus...
— Assim ele terá como se arrepender dos pecados que cometeu e ainda ter uma chance de ir para o céu, não?
Milo tomou-lhe as mãos.
— Depois de TUDO, você AINDA se preocupa com o seu pai?
— Como você disse, ele é MEU PAI. Deus ordenou que honrássemos pai e mãe.
— E sua mãe, Camus? O que houve com ela? Isso, até o momento, não conseguimos saber direito.
O jovem tirou as mãos das mãos do agente, como se tivesse levado um choque. Pela primeira vez abaixando a cabeça durante a conversa, revelou:
— Minha mãe se insurgiu contra o meu pai. Ela não queria que a Santa Ceia se realizasse. Para que não mais atrapalhasse o Plano da Salvação Final, Deus a chamou para morar com ele.
Abismado com o que ouvia, Milo retrucou:
— Mas sabemos que quando sua mãe SUMIU, Camus! Se ela quis evitar que você passasse pela Santa Ceia, é porque sabia do que se tratava! Que era algo abominável!
— Você fala como se SOUBESSE como era a Santa Ceia – Camus declarou, desconfiado.
— Não mude de assunto, responda minha pergunta.
— A resposta é “sim”.
O tom frio e impessoal do ruivo feriu Milo muito mais do que se a resposta tivesse sido dada em meio a lágrimas.
— Então Hades MATOU mesmo a sua mãe, não foi, Camus?
— Ela foi para o Céu.
— Isso confirma que ele a matou?
—Tudo que sei é o que meu pai disse.
— Então ele não revelou o que fez com ela? Você não a viu ser enterrada? Não...
— Não tinha como, ela tinha ido morar com Deus.
Sob forte desconforto, o policial suspirou profundamente.
— Milo?...
—Tá tudo bem. Então você nunca chegou a ver o corpo dela ou... um enterro.
— Não.
Milo assentiu, sob estranha emoção. Passaria aquela informação à equipe, no dia seguinte.
— Você sofreu? Ficou triste?
Camus olhou para o chão. Respondeu calmamente:
— Meu pai disse que tinha sido o melhor para ela. Que, daquela forma, ela seria salva do inferno. Então eu não fiquei... muito triste.
— Oh, Camus – Milo abaixou a cabeça, esfregando os olhos com força.
— O que foi? Está se sentindo mal?
O loiro sorriu com uma tristeza devastadora.
— Não. Não, eu estou bem.
— Milo, e por que não pude ver o enterro dos meus irmãos?
— Você queria ter visto? Depois de tudo que lhe fizeram?
— Fiquei triste por eles.
— Camus! Mas... eles foram tão ruins com você!
— Assim como eu acreditava que era o messias, eles acreditavam que tinham que ser firmes comigo... porque eu fraquejava na fé.
— Você fraquejava porque SOFRIA! Porque sentia DOR! Qualquer um fraquejaria! Você foi além do que muitas, muitas pessoas suportariam – Milo abraçou Camus. Este cerrou os olhos, sentindo-se amparado. Quis corresponder-lhe ao abraço, mas algo parecia segurar seus braços. Algo em seus olhos ardia horrivelmente. Afastando-se para encará-lo com seriedade, o policial disse:
— Eu peço que colabore com a Saori. Ela é uma pessoa muito boa e quer realmente te ajudar. O Saga também é legal, apesar de parecer durão, às vezes.
— Está bem.
— Você... você quer me perguntar alguma coisa?
— E quanto a mim? Eu vou ser preso também?
— Quê? Não! Camus, você não fez nada de errado! Por que seria preso?
— Mas meu pai não está preso por ser um falso profeta? Eu também sou um falso profeta. Não sou um Messias verdadeiro...
— Meu Deus, Camus, é DIFERENTE! Você foi ENGANADO! Não se passou por “messias” porque quis. Seu pai ludibriou você, assim como ludibriou seus irmãos, até, e milhares de pessoas! Tem que entender isso!
— Mas então... o que vai acontecer comigo?
— Chegamos aonde eu queria! A primeira coisa a fazer é colaborar com Saori, Saga, os médicos, daqui em diante, entendeu? Nada de greve de silêncio, nem de greve de fome, ou de ficar se machucando. Se ficar agindo como louco, vão achar que você É MESMO louco, e aí...
— Mas eu não FIQUEI louco, Milo?
— Claro que não. Você só tá... confuso. Não é pra menos. Mas logo logo vai entender as coisas.
— Então você não acha que sou louco.
Milo acariciou o rosto do ruivo.
— Eu NUNCA achei isso. Só sabia que teria de ser resgatado para a realidade, só isso.
— Se não vou para a prisão... Milo, para onde é que eu vou?
Mais uma vez, Milo respirou fundo antes de responder:
— Não se preocupe, eu vou resolver isso...
— Você vai me abandonar?
O coração do policial bateu forte. Tomou novamente as mãos do “Redentor” entre as suas.
— Não. Não vou te abandonar. Confie em mim.
A enfermeira voltou, e, ao dar por sua chegada, o agente largou rapidamente as mãos do ruivo.
— Oh, desculpem... cheguei cedo demais?
Milo ficou levemente perturbado com aquela pergunta.
— Não, eu estava justamente me despedindo dele. – Virou-se para Camus. – Lembre-se do que falei. COLABORE. E... confie em mim.
O jovem assentiu, encarando-o fixamente. Sentindo o coração disparar mais uma vez, Milo retirou-se do quarto. Por que às vezes seu coração disparava daquele jeito, perto de Camus? Sem saber por quê, lembrou-se do beijo na cabana de Aldebaran. Que hora para se lembrar de um ato totalmente perdido na esteira dos acontecimentos! Talvez nem o próprio Camus se lembrasse daquele beijo, fruto de gratidão extrema, nada mais... deixara-se ser chicoteado no lugar do Redentor, e este lhe agradecera com um beijo, apenas isso...
O beijo mais profundo, intenso e inebriante de que se recordava.
Teve ganas de bater na própria cabeça. Por que diabos se lembrava daquilo AGORA?
De mais a mais, havia algo REALMENTE importante a ser feito...
De volta ao seu quarto, pegou o celular, que deixara carregando. Foi com grande euforia que viu que Saori havia respondido à sua mensagem.
— Ora, vejam só... muito bom... – Murmurou, lendo-a. Sorriu.
Uma opinião profissional apoiava suas intenções. Perfeito.
*************
Camus não conseguia dormir.
Nada do que Milo lhe contara era novidade, de fato, mas, em sua versão, a história toda ganhava contornos realistas como até então o jovem não pudera divisar.
Toda sua vida fora uma mentira.
Seu pai, um falso profeta.
Seus irmãos, verdadeiros carrascos.
Sua mãe, uma vítima da igreja de mentira.
Suas Ovelhas, fiéis ludibriados.
Sua missão, uma invenção criada por Hades.
Levou as mãos à fronte, esfregando-a.
Tudo real, sim, a farsa, tudo que lhe contaram, porém, ainda tão distante do que vivera, do que conhecera...
E, ainda que Milo tivesse explicado, não fazia ideia, concretamente falando, de onde estava. O mundo, para ele, sempre fora entre aquelas montanhas de Grayville. Ele só sabia que existia “mais coisa” pela Bíblia e pelas viagens do pai e de seus assessores. Pelo fato de que muitos fiéis deixavam “o mundo” para viver na “Cidade Santa”.
Queria que Milo tivesse ficado ali, com ele. Talvez assim conseguisse dormir. Dormira tão bem na noite anterior, tudo porque Milo estivera com ele! Por que Milo tivera que ir embora?
Constance apagara a luz, acreditando que o paciente dormia. Mas não: ele mantinha os olhos castanho-avermelhados fitos, muito abertos, no teto. Adivinhava-lhe contornos na penumbra e pareceu que vislumbrava a própria vida.
De olhos tão abertos, porém... tudo tão escuro!...
Milo dissera para que confiasse nele.
Mas...
Confiar em quem o ENGANARA...
Não.
Milo não o enganara, não como Hades. Tinha sido a MISSÃO dele! E, ademais, Milo livrou-o da dor. De toda a dor.
Embora... algo ainda doesse.
Queria saber o que era.
Não era o seu corpo.
Queria saber o que era.
Não, talvez fosse melhor não saber o que era.
Talvez fosse melhor não procurar mais por dor alguma.
“Milo”, pensou, fechando os olhos com força; como queria que o policial estivesse ali!
“Confie em mim”
Cada uma de suas mãos segurou a outra, evocando o gesto de Milo.
Sentiu-se tão estranho.
Tão estranho.
Pôde sentir lágrimas descendo-lhe pelo rosto sem que nem tivesse se dado conta de que chorava.
*************
Sentado na cama, Milo observava maquinalmente seu sangue enchendo o êmbolo da seringa. Terminado o exame de sangue, recostou-se nos travesseiros. A enfermeira perguntou se ele queria alguma coisa. Disse-lhe que não. Ela se foi. Ligou a TV a tempo de assistir a entrevista coletiva que Saga daria sobre o assunto do momento. Tendo à frente dezenas de microfones, o amigo respondia tranquilamente às perguntas, disparadas por vozes por vezes a outras sobrepostas:
— Com a tomada da Comunidade, centenas de famílias foram despejadas das propriedades que ocupavam. Qual será o destino dessas pessoas?
— Pouco a pouco, essa questão tem sido resolvida entre a polícia e os advogados dessas famílias. Faremos o possível para restituir a elas o que lhes é de direito, até mesmo para seguirem em frente com suas vidas. Muitos estão voltando para as casas de parentes e familiares, neste exato instante.
— Senhor Saga, já se chegou a um número exato de mortos durante a Operação Êxodo 2018?
— A maior parte dos óbitos foi em decorrência da resistência à ação policial, a isso incluídos suicídios cerimoniais. Lamentamos o número de 182 pessoas, contudo, menos de 10% das pessoas que lá habitavam.
— O senhor acredita, então, que a ação da polícia motivou tais suicídios?
— O que “motivou tais suicídios” foi o fanatismo doentio em que viviam aquelas pessoas, não a ação da polícia.
— Existe algum risco de que mais suicídios cerimoniais ocorram pelo país? Notadamente nas igrejas da Aurora do Novo Porvir?
— O Vale da Aurora Dourada era uma infâmia que precisava ser detida, por mais alto que fosse o preço. Espero que entendam isso.
— O senhor não respondeu à minha pergunta, senhor Saga.
— Engano seu.
Um burburinho elevou-se no estúdio. O promotor aproveitou para beber água, aparentemente calmo, a despeito dos clamores que se verificavam ao seu redor. Milo estalou a língua, aborrecido com o que via e com o que ouvia.
— Muitos perderam a vida, é certo, e lamentável, ora resistindo à ação policial, ora por uma escolha insana. Os que foram libertados, por outro lado, ultrapassam os dois milhares de cidadãos. Eu considero que fizemos um bom trabalho. – Pontuou Saga, de cabeça erguida.
— E quanto ao homem chamado de “Redentor”? Será levado a julgamento como o pai, que era o líder da seita?
— Mas que pergunta é essa?!? – Milo quase tacou um copo na TV.
— O rapaz considerado “messias” da Aurora do Novo Porvir foi ludibriado por Hades. Achei que isso já tivesse ficado bem claro. – Saga respondeu, franzindo o cenho.
— Então ele será inocentado?
— Inocentado? Ele sequer será julgado. Não há do que inocentá-lo. Foi tão vítima quanto os milhares de iludidos que alimentaram por anos e anos, em TODO GLOBO TERRESTRE, a infame Igreja de Hades.
Uma mulher ergueu bastante a voz:
— Então as ações presenciadas no vídeo que denunciou de vez a seita não foram realizadas sob o consentimento do “Redentor”?
Desta vez Milo viu que Saga se exasperou:
— Perguntas relevantes, por favor! Penso que isso TAMBÉM já foi exaustivamente falado.
As perguntas vieram em enxurrada:
— Considerando que o “Redentor” foi levado pelo pai a acreditar que era um Messias, podemos saber se, neste exato momento, ele já está finalmente a par de toda a verdade?
— Qual foi a reação dele ao saber que não era um “messias” e que tudo foi uma farsa?
— Qual é o estado de saúde, física e psicológica, do “Redentor”?
— O jovem Camus Chermont – A voz de Saga fez-se alta e autoritária, como a instituir que o “Redentor” tinha, afinal, um nome. – está se recuperando no Hospital Geral do Maine, em Portland. Está lúcido, consciente e fora de perigo. No momento, recebe toda assistência médica, psicológica e também do Governo.
O silêncio foi quebrado tão logo ele parou de falar:
— Como ele reagiu à prisão do pai e às mortes dos irmãos?
— Camus aceitou que não é um Messias? Ou ele ainda acredita que seja um?
— Onde ele ficará a partir de agora?
— Pronto, desembestaram de vez. – Bufou Milo, parabenizando mentalmente Saga por suportar aqueles repórteres. Se fosse ele, já estaria atirando-lhes os microfones e tudo mais o que estivesse às mãos nas cabeças.
“Pior que depois dessa coletiva, o humor dele certamente não estará dos melhores.” Bom, que remédio... não poderia adiar aquela nova conversa.
Faltavam apenas três dias para receber alta. Para voltar a Red Meadow.
E ele não voltaria sem Camus!
“Por que estou insistindo nisso?”, por vezes pegava-se se perguntando. Muito simples... seu senso de justiça assim clamava. Seu senso de humanidade assim clamava.
Acreditava fielmente naquilo.
E foi o que o motivou, horas mais tarde, a dizer, assim que viu Saga adentrar-lhe o quarto:
— Saga. Precisamos conversar.
— Milo, por favor. Tive uma manhã difícil. Você deve ter visto pela TV. Eu quase nem vinha aqui, mas...
— Eu sei. Foi cansativo. Não vai tomar muito tempo.
— Pois eu aposto que vai.
— Não vai, porque NÃO VOU TE PEDIR NADA. Não mais.
— Hein?
— Falei com a Saori. Ela concorda que Camus está plenamente senhor de suas faculdades mentais. Que a internação dele em uma instituição psiquiátrica seria mais em função de seus danos psicológicos e de ele não ter para onde ir.
— Milo, achei que tivéssemos esgotado esse assunto. Você NÃO terá como bancar a babá do cara. Desista, não receberá nenhuma licença para...
— PRO INFERNO com a tua licença, Saga. Eu tô me DEMITINDO.
Saga chegou a gesticular ao replicar, irritado:
— Que loucura é essa agora? Você NÃO pode se demitir, Milo!
— Bem, me mostra na Constituição dos Estados Unidos onde é que NÃO posso pedir demissão de um emprego.
— Olha, sério, acho que é VOCÊ, e não ELE, que tem de ser internado em uma instituição psiquiátrica!
— Não tô nem aí pro que você acha. Saori vai me dar uma declaração. Camus é um cidadão americano. Tem o direito de ir e vir. É certo de querer vir comigo, sou a única pessoa em quem ele confia agora. E se o meu trabalho é o obstáculo para que esse cara tenha uma chance de ter uma VIDA, como todos nós temos, bem... livro-me do trabalho. – Estendeu um envelope para Saga. – Aqui está, minha carta de demissão.
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