Redentor

26 Ascensão - Ato V : Um Ideal de Vida


Notas iniciais
Boa noite! Vamos a mais um capítulo de "Redentor"! Gostaria de agradecer o apoio que estão dando a esta fic, bem como aos maravilhosos comentários, os quais recebo como os mais singelos presentes. Boa leitura!

Saga não podia acreditar no que estava ouvindo. Carta de demissão? Milo? Ficou paralisado encarando o amigo. Em seguida, olhou, incrédulo, para o envelope que lhe era estendido. Sorriu, totalmente cético:

— Que brincadeira é essa, Milo?

— Pegue, veja se é brincadeira.

Hesitante, o promotor tomou o envelope abruptamente da mão do agente. Ainda sorria enquanto o abria. Ao ler a carta, porém, seu sorriso pouco a pouco se desvanecia. Voltou a olhar o policial.

— Por que está fazendo isso?

— Porque você não me deixa escolha. – Respondeu Milo, friamente.

Saga quedou-se boquiaberto. Aquele não era o Milo que conhecia! Abrir mão do trabalho que tanto amava, a que tanto se dedicava, pelo qual tanto se preparara... por um quase que completo desconhecido? Ergueu o papel no ar com certo descaso ao questionar:

— Supondo que ISTO seja sério... sem o seu emprego, como espera manter a si mesmo e ao seu... hóspede?

— Não que isso seja da sua conta, mas posso saciar sua curiosidade: o apartamento onde moro foi projetado para uma FAMÍLIA. Que, graças a MIM, fracassou. Não preciso viver naquele lugar enorme. É grande demais, até para duas pessoas. Pretendo vendê-lo e alugar um apartamento menor, perto da praia, onde posso trabalhar como instrutor de surf, assim que Camus estiver melhor. Tenho meus contatos, e minhas economias também, o que vai nos segurar até isso acontecer. Também posso trocar minha pick-up por um carro popular, e...

A estupefação no rosto de Saga só aumentava, a cada palavra de Milo. Limitou-se a verbalizar o que antes era uma impressão, agora uma certeza:

— Meu Deus. Você tá APAIXONADO por esse cara.

— O QUÊ? – Milo quase berrou, os olhos muito arregalados pareciam prestes a saltar das órbitas. – Não fala MERDA! Da onde você tirou esse absurdo?

— De todo esse esforço que está disposto a fazer para mantê-lo perto de você. – A resposta foi imediata.

— Vocês, gays, tem essa insuportável mania de achar que todo mundo é gay! – Rebateu, com aparente desprezo. Saga não deu mostras de se importar com a alfinetada:

— Se não é por isso, por que está indo tão longe por Camus?

— Cara, eu simplesmente não SUPORTO a ideia de que alguém que passou por TUDO que ele passou se livrar da situação pra viver PRESO de novo, e num HOSPÍCIO, ainda por cima! Camus NÃO é louco, ele só precisa de APOIO pra começar uma nova vida, aliás, pra COMEÇAR A VIVER, o que, até hoje, lhe foi NEGADO!

Por uns instantes, o promotor considerou-o, ponderando seus argumentos, sua emoção.

— Reconheço que foi muito triste a vida deste rapaz, mas o que você quer fazer por ele...

— Eu VI coisas por que ele passou. Torturas, maus tratos, exploração do pior tipo... por algum motivo maluco, ele se APEGOU a mim, confia em mim. Não estou apaixonado, estou apenas sendo HUMANO! – Vociferou Milo, desta vez perdendo a paciência de vez.

Saga ergueu as mãos, em sinal de trégua:

— Está bem, está bem! Acalma a tua “fúria hétero” aí, não tá mais aqui quem falou!

Esforçando-se por recobrar a calma, Milo abaixou a voz para dizer:

— Minha carta de demissão está entregue e não existe empecilho legal para que Camus venha comigo. Apenas nos deixe em paz.

O promotor engoliu em seco, mais certo do que nunca de que Milo REALMENTE nutria sentimentos para com o “Redentor”. Preferiu, entretanto, não mais se manifestar àquele respeito. Assentiu, guardando consigo a carta.

— Está bem. Se é sua decisão final, eu não vou me opor, nem tecer mais nenhum comentário sobre isso.

— Muitíssimo obrigado. – Milo soltou, sarcástico.

— Só te peço que continue a contar com a assistência de Saori. O cara precisará de tratamento psicológico, para o resto da vida, a meu ver.

— Não se preocupe, ela já se ofereceu para acompanhá-lo quando ele estiver em Red Meadow.

Saga suspirou. Queria dizer a Milo que tal responsabilidade poderia ser prejudicial a alguém como ele. Mas comprometera-se a não “tecer mais nenhum comentário” sobre aquilo.

— Só espero que nossa amizade não acabe. Não é porque não vamos mais trabalhar juntos que não podemos...

Vendo Milo fechado e inflexível, decidiu mudar a conclusão de sua fala:

— Bem, preciso ir. Tenho que fazer alguns relatórios com o doutor Osbourne. Vou comunicar à equipe e a Camus a sua decisão.

Milo apenas assentiu com a cabeça. Saga retirou-se, com profundas impressões. Ao chegar ao quarto de Camus, que estava deitado no leito, aparentemente acordado, virou-se para Saori, ali com suas anotações e ar compenetrado. Disse-lhe, sem qualquer rodeio:

—Você concorda mesmo com o que Milo pretende fazer?

Ela observou-o longamente antes de responder:

— Não é questão de concordar. Ele fará algo nesse sentido, de qualquer maneira. Agora, é questão de apoiar.

— Mas ele está agindo seguindo a emoção!

— Tanto Milo quanto Camus são maiores de idade. Se assim decidiram...

— Você já falou a ELE...? – Indagou, apontando o ruivo, que apenas olhou-o desinteressado.

— Sim.

— Meu Deus. Está consciente de que tá botando uma pessoa completamente FORA DA REALIDADE pra MORAR com o Milo?

Saori fechou a pasta que repousava em seu colo. Levantou-se da cadeira e assumiu postura altiva para confrontar seu chefe:

— Camus não é nenhum incapaz. E você deve ter percebido que existe um ELO entre ambos, algo construído naquele lugar durante estes seis meses. Milo é o ÚNICO suporte neste mundo, do qual ele não conhece ABSOLUTAMENTE NADA. Eu acredito sim que através de Milo, Camus alcançará o direito de, finalmente, ter uma vida normal em sua existência.

— Mas, Sao... é do MILO de que estamos falando.

— Você REALMENTE não percebe que ele MUDOU?

— Ele pode estar apenas sob efeito do que viveu no maldito Vale... mas... sim, percebo algo diferente nele. Bem, não há risco para o Milo, então?

— Se houver risco para ele, eu não quero ir. – Anunciou o “Redentor”, surpreendentemente tomando parte da conversa.

Saori virou-se para ele e apressou-se em falar:

— Camus, em nossas vidas, estamos SEMPRE correndo riscos. Em alguns casos, enfrentá-los nos ajuda a obter uma vida melhor. Você quer ficar com Milo, não quer?

Ele fez que “sim” com a cabeça, rapidamente.

— E Milo quer cuidar de você. Então é um risco que vale a pena correr, porque o fio condutor dessa decisão não é baseado em interesses. – Virou-se para o promotor. – Você sabe muito bem disso.

— Eu sei o que está movendo essa decisão, Sao, e confesso que estou bastante impressionado.

A psicóloga sorriu amistosamente para o chefe.

— Eu também fiquei, Tanto mais em se tratando do Milo. Deveria ficar feliz por seu amigo.

— Fico preocupado, é só isso. – Admitiu, desarmado.

— Entendo. Mas espero que entenda que é um risco que Milo escolheu correr. E o coração dele já está seriamente comprometido para desistir.

— Milo está doente do coração? – Perguntou Camus, com ar preocupado.

Saori não pôde deixar de rir.

— Não, meu querido. É uma maneira de dizer que ele está totalmente decidido a levar você para morar com ele.

O enrubescimento do ruivo foi evidente. Olhou para as próprias mãos, torcendo-as ao enunciar:

— Espero não prejudicá-lo em nada.

— Também espero isso.

— Saga! – Ralhou Saori.

*************

“Apaixonado por Camus! Saga é mesmo um idiota!”, pensava um revoltado Milo, deitado na cama, braços cruzados sob a cabeça, em postura sisuda, indignada. Aquelas palavras ecoavam em sua mente desde a véspera, tirando toda sua atenção do que quer que fosse. O celular jazia intocado, a TV, ligada em vão; passava um filme qualquer, sem que ele para a tela lançasse um único olhar interessado. Apenas AQUILO, que lhe soava como uma acusação, ia e voltava, ia e voltava, ia e voltava...

“Porque é gay, acha que todo mundo é gay! Apaixonado por Camus! Eu me preocupo com o cara, sim. Quero ajudar ele, quero...”

Fez força para conter os pensamentos que vieram a seguir:

“... quero estar perto dele, proteger ele...”

O que era aquilo?

Algum “senso de dever” exacerbado, nascido de tão dura missão? PENA, como acreditara Saga?

“Não, não é pena! Claro que Camus inspiraria piedade em qualquer um que tivesse um pouco de misericórdia, mas não, não é como se eu tivesse pena de dele.”

Foram meses duros, os piores de sua vida. E, ao mesmo tempo, meses em que alcançara algo ainda incompreensível para sua alma. Naqueles seis meses, sofrera como jamais poderia ter vislumbrado sequer em seus piores pesadelos! Mas muito, MUITO daquele sofrimento viera do que presenciara suceder ao “Redentor”!

“Estou cansado”, dissera-lhe Camus, certa vez, achegando-se a ele. Milo vira-se obrigado a abraçá-lo certa vez, a cingi-lo, a mantê-lo junto a si...

Por alguma razão, queria abraçá-lo novamente, naquele exato instante.

— ... esta noite, novos depoimentos, novas informações sobre o caso que abalou o país! – A chamada da propaganda ainda podia não ser ouvida pelo disperso policial, não fosse a odiosa imagem de Hades aparecer na tela do televisor de parede. – Testemunhas falam sobre a vida na comunidade secreta! O que podemos esperar do julgamento do líder da seita? E o homem chamado pelos fiéis “Redentor!, a quem acreditavam ser o Messias do nosso século, o que de fato acontecia a ele? Não percam, às 21:30, no canal…

—Ei! Quem desligou a… AIOLIA!

Seu primo estava ali, de pé, com o controle na mão e um sorriso nos lábios.

— Achei melhor desligar, você parecia prestes a ter um ataque.

— Q-que nada. Tava só prestando atenção.

Dohko e Aiolia trocaram um olhar significativo. Percebendo, Milo quis logo saber:

— O que foi? Que caras são essas?

O veterano foi o primeiro a responder:

— Milo. Ficamos sabendo que pediu demissão da polícia...

— ... tudo pra cuidar do Camus quando saírem do hospital – O primo completou.

— Vocês fazem eu parecer uma babá, falando assim!

— “Babá” talvez não, mas...

— MAS O QUÊ, OLIA?

— NADA! NADA NÃO! – O jovem ficou rindo, refugiando-se por trás de Dohko.

Milo corou de vergonha e irritação.

— Não me digam que o Saga falou alguma merda de mim! Tipo eu estar... merda!

— Calma, Milo, não foi pra isso que viemos aqui. – Dohko tentou cortar o acesso de raiva do outro.

— Não? Foi pra quê, então? Pra tentar me convencer de que o que tô fazendo é uma loucura?

— Não – Respondeu o veterano, sério. – Pra dizer que estamos do teu lado, seu escandaloso.

— Estão... do meu lado?

—É, seu palhaço – Ajuntou Aiolia, tomando coragem para sair de trás de Dohko. – E também dizer que vamos te apoiar em tudo que precisar. Não que isso signifique necessariamente “dinheiro”, veja bem...

Dohko tomou a palavra novamente:

— Mas nós também queremos que o rapaz tenha uma chance de se integrar à sociedade. Que tenha uma vida de paz, depois de todos os horrores que viveu. Você tá apostando tudo pra ajudar ele. Então... vamos apostar em você também.

Admirado, Milo só conseguia olhar embasbacado para os dois amigos. Aiolia deu-lhe tapinhas nas costas ao acrescentar:

— Não é só com a Saori que você pode contar. Conta com a gente também.

— Eu... e-eu não sei nem o que dizer – Milo tentou disfarçar a emoção. – Eu... obrigado. Obrigado mesmo.

— Ânimo, cara! Só faltam dois dias pra vocês irem embora!

— É... depois de amanhã... Camus já sabe? Como reagiu à notícia?

Aiolia deu de ombros, revirando os olhos ao informar:

— Como sempre. Não deixou transparecer nenhuma emoção.

— Ah, aquele cabeça de vento! Eu falei pra ele não ficar sem reação ou ficar caladão diante das pessoas que falam com ele...

— Mas ele não ficou “caladão”. Saori disse que ele se preocupou em não “prejudicar” você.

— Verdade?

Teve vontade de ir até Camus averiguar aquela fala. Dizer-lhe para não se preocupar. Aiolia pareceu adivinhar:

—Você só não pode ir até ele agora; a equipe médica e assistencial, além de Saga e Saori, estão conversando com ele.

Cruzando os braços, Milo bufou:

— Eu espero que ele esteja MESMO conversando.

— E tomara que não dê nenhum “ataque”, né? Estavam querendo botar o cara num hospício. Se ele ficar dando mostras de que tem “parafusos soltos”, aí é que enfiam ele mesmo em um.

Milo experimentou um desconfortável receio ante essas palavras. Contudo, preferiu fazer-se confiante:

— Eu já conversei com ele sobre isso. Ele me ouve. Não vai mais agir desse jeito.

— E você confia nele, Milo? O cara é tipo... fora da realidade, entende? – Disse Dohko, apreensivo com o fato de o amigo depositar suas crenças em alguém considerado instável, imprevisível.

— Eu confio. Pelo Camus que conheci no Vale da Aurora Dourada – Milo respondeu, resoluto. – eu confio.

*************

— Como está se sentindo hoje, Camus? – Indagou o doutor Osbourne, sentado diante do paciente, igualmente sentado em uma cadeira, os cabelos muito longos presos em um um comprido rabo de cavalo.

— Sinto-me bem.

— Nenhuma dor? Enjoo? Mal-estar?

— Não.

O médico impressionou-se que o jovem finalmente estava respondendo-lhe. Virou-se para os demais presentes: o médico auxiliar, Christopher Stevens, o psiquiatra George Johnson, a psicóloga Saori Kido, o promotor Saga Gianakos e o advogado Aiolos Mavros.

— Isso é bom. – Comentou amistosamente o doutor Stevens. – Camus, gostaríamos de lhe fazer algumas perguntas. Se por um acaso se sentir indisposto de qualquer forma, nos informe, tudo bem?

O ruivo lançou um breve olhar a todos. Havia algo de apreensivo em seu semblante. Quando seu olhar parou em Saori, no entanto, a jovem deu um leve sorriso e assentiu, como a encorajá-lo. Ele respirou fundo. Respondeu simplesmente:

—Tudo bem.

— Certo. Sabe há quantos dias está aqui? – Indagou o doutor Johnson.

Camus perturbou-se um pouco. O tempo era um mistério para ele. Não estava acostumado a contá-lo, era algo nunca de fato conhecido por ele, ou mesmo transmitido.

— Eu presumo que uma semana. – Foi sua tentativa. Milo havia dito para não se calar.

— Nove dias, para ser exato. Mas você passou os primeiros dias sedado, então sua percepção está correta. – Prosseguiu o psiquiatra. – Sabe em que mês estamos?

Desta vez ele não pôde disfarçar. Não fazia ideia. Respondeu como pôde:

— Sei que estamos no outono.

— Hum. Estamos em outubro. De que ano, sabe?

— Estamos em 2018.

— Fui informado de que você não tinha noção do tempo, pela forma como vivia. – Observou o doutor Osbourne.

— Foi Milo quem me disse.

— Ah.

Saga conduziu a próxima questão:

— E sua idade, Camus? Você não conhecia ao certo sua própria idade, não?

— Pelas idades dos meus falecidos irmãos, tinha uma noção.

— Quantos anos acha que tem?

— Acho que... 23 anos.

Aiolos tomou a palavra, de posse de documentos em suas mãos:

— Os registros de seu nascimento foram localizados pela polícia, Camus. Você nasceu no dia 7 de fevereiro de 1994. Este ano, você completou 24 anos.

— 24 anos? – Surpreendeu-se o “Redentor”. – Eu sou velho...

Risadas não puderam ser contidas.

— Não é não, Camus. E ainda terá muito o que viver. – Falou o advogado, simpático.

— Camus, você passou por eventos muito singulares... traumatizantes, até. Tudo para que fosse levado a acreditar em ser uma espécie de “messias” para a seita que seu pai criou. – Disse o psiquiatra, atento às reações faciais do ruivo. Percebeu que ele abaixara o olhar.

— Sabemos que, nestes primeiros momentos, trazer tudo isso à tona pode ser complicado. Iremos com calma, está bem? – Dizia Saori. – Há, porém, algo que estes senhores querem ouvir de você.

O paciente evitou contato visual. Tremia; tentou pensar em Milo. Tinha que parecer calmo, sereno. Tinha que se controlar.

Ele era bom nisso, sempre fora!

Foi o doutor Johnson quem perguntou:

— Você acredita que é o Messias desta era, Camus?

Segundos de silêncio advieram ao questionamento. Camus piscou algumas vezes, tentando escapar a uma vertigem que se insinuava.

Toda uma vida ele acreditara naquilo, vivera por aquilo, sofrera por aquilo! Não havia nada em sua mente que não fosse “ser um messias”, de forma que se sentiu muito pesado ao responder, vagarosamente:

— Não. Eu não sou o Messias.

Os profissionais entreolharam-se, entre surpresos e aliviados.

— Então você concorda com as acusações contra o seu pai? De que ele USOU você como figura central do culto da igreja por ele criada? – Foi a vez de Aiolos inquirir.

— Ele... ele dizia ter recebido uma revelação... do Anjo Gabriel – O ruivo expôs, deixando transparecer um certo pesar. – quando eu era criança.

Saori esclareceu, com bastante tato:

— As hipóteses de que Hades tenha agido por algum desequilíbrio mental ou psicológico foram descartadas. O que quero dizer, Camus, é que seu pai INVENTOU tudo isso de livre e espontânea vontade.

— Ele... inventou?

—Sim. Foi tudo habilmente premeditado. – Atinou Saga, atento às reações do jovem.

Novamente Camus abaixou o olhar.

Mentiras.

Sua vida fora erigida sobre MENTIRAS?

Mas tudo por que passara... todas privações... toda a dor...

... seu pai QUISERA aquilo?

Até o momento, julgara que o pai fora corrompido em algum momento, desviado de sua missão por Deus designada. Agora, era informado de que sequer isso ocorrera.

Seu pai o atirara a uma vida de privações, tortura e sofrimento... por LIVRE e ESPONTÂNEA VONTADE.

— Mas... por quê? – O “Redentor” inquiriu, em um fio de voz, sem erguer a cabeça.

— Por dinheiro. Poder. Influência. Para enganar o máximo de pessoas que podia, e delas tirar tudo quanto possuíam. Fez elas acreditarem que você era um agente do Plano de Salvação de Deus. – Respondeu a psicóloga, sentindo pelo rapaz imensa compaixão.

Saga acrescentou, muito direto:

— É isso mesmo. Seu pai fez você passar por tudo que passou DE PROPÓSITO. De caso pensado, como dizem.

A nissei tocou de leve a mão do chefe, sinalizando para que parasse. Apenas concluiu, compassiva:

— Sentimos muito dizer isso, Camus, mas tudo foi um plano de SEU PAI.

Erguendo a cabeça, Camus considerou os presentes. Seu coração batia acelerado demais, chegava a doer. Entreabriu os lábios, subitamente secos, e voltou a abaixar o olhar.

Aquelas coisas... nem todas eram “informações novas”. Nos últimos dias, contaram-lhe algumas delas, principalmente o que se referia ao seu pai.

Ao “Grande Pai”.

Qual a diferença em ouvi-las agora?

A diferença...

... um escudo que se partia.

Um véu que se rasgava.

Olhou para seus braços, para cada uma das cicatrizes de um passado “planejado”.

“Seu pai fez você passar por tudo que passou DE PROPÓSITO.”

As punições.

As privações.

Os Cerimoniais.

Os Autos de Fé.

A Santa Ceia.

Saori percebeu o mal estar do ruivo, que agora tremia mais visivelmente. Adiantou-se aos demais:

— Só queríamos que tivesse ciência de tudo que dissemos, Camus. Não queremos lhe trazer lembranças desagradáveis.

Não?

Mas…

Se TODA SUA VIDA…

... TODA SUA VIDA...

Uma grande mão pegou a sua. Ele levantou a cabeça e encontrou o rosto de Saga.

— Aguente. – Disse o promotor, fitando-o com firmeza. – Tudo é PASSADO, agora. NÃO É MAIS a sua vida.

Lágrimas vieram aos olhos do “Redentor”. Ele lutou para não deixá-las cair.

O psiquiatra uniu as mãos e limpou a garganta para indagar:

— Camus, diga-me: quais são as suas expectativas para quando sair daqui?

O ruivo olhou-o, sem saber o que responder. O médico ajudou-o:

— Soube que irá morar com o policial que se infiltrou na comunidade, o senhor Milo Hatzis.

— Ah. – Murmurou, ainda incerto do que dizer.

Saori percebeu que Saga pareceu incomodado com a lembrança.

— Como se sente em relação a isso?

— ...

— Vou reformular a pergunta: sente-se seguro para ir morar com o policial que foi o principal responsável por desmantelar a seita criada por seu pai?

A psicóloga temeu o efeito daquela pergunta sobre o paciente. Torceu para que ele continuasse controlado como estava, sem crises ou sem se negar a responder às questões.

“Vamos, Camus, você estava indo muito bem”, pensou, na expectativa. Sentiu grande alívio ao vê-lo responder:

— Milo... Milo me enganou também... mas ele me explicou que tinha que fazer aquilo. Era a missão dele.

— Seu pai igualmente alegava ter uma “missão”.

— Mas meu pai... enganou a mim e a muitas outras pessoas. Só me trouxe dor. Milo... me tirou da dor. Ele... – Sua voz fraquejou, ao se lembrar do agente sendo chicoteado brutalmente na sua frente, até perder os sentidos. – ... ele foi a única pessoa que se ofereceu para sofrer em meu lugar...

Aparentemente satisfeito com o que ouvira, o doutor Johnson continuou:

— Entendo. Então, o senhor Hatzis é alguém em quem você confia.

Erguendo o olhar para o médico, Camus respondeu, decidido:

— Sim. Eu confio em Milo.

— Então aceita ficar na casa dele?

O ruivo assentiu, timidamente.

— Está certo, acho que por hoje isto é mais que o suficiente. – Anunciou o doutor Johnson. – Ouvimos tudo que queríamos ouvir. Vamos até minha sala, por gentileza.

Eles se despediram do paciente. Saori pegou sua mão e elogiou:

— Você se saiu muito bem, Camus. Milo vai ficar orgulhoso de você.

Enrubescendo, o jovem apenas assentiu discretamente. Viu-os se retirarem, sem responder às despedidas. Sentia-se estranhamente vazio e só. Quando viu-se sozinho no quarto, dirigiu-se até a janela, sempre trancada, e contemplou os céus cinzentos, como acreditava estar sua alma.

Repleta de brumas, névoas, nebulosidades escuras.

Tão longe do Sol.

Queria ver Milo.

Milo... trazia um pouco do Sol.

Por que Milo não podia vir junto com aquelas pessoas?

Decidiu deitar-se na cama para fingir que dormia. Para fingir que partia. Não queria estar ali. Não queria mais ser quem era.

Alguém que nem ao menos vivera.

Alguém que nem ao menos fora alguém.

Fora apenas... um plano.

Um gosto amargo tomou-lhe a boca de assalto.

Seu pai... seus irmãos... cúmplices de Hades... fiéis ambiciosos... todos usaram-no. Exploraram-no. Machucaram-no.

Seu mundo partira-se em mil pedaços. Pousara em um novo.

Contudo, havia uma estranheza ali.

Naquele novo mundo. Não tinha como não se sentir estranho em um mundo estranho, em uma realidade estranha.

ELE era um estranho, até para si mesmo.

*************

Reunidas no gabinete do doutor Johnson, as equipes davam o aval final sobre o jovem conhecido como “Redentor”:

— Considero que é cedo determinar que o senhor Chermont sofra de algum tipo de dissociação da realidade. Ele parece reconhecer e aceitar que a “realidade” como conhecia foi algo manipulado pelo pai. Obviamente, há questões de ordem psicológica a serem tratadas, mas não creio que seja o caso de internação em instituição psiquiátrica, a menos que não houvesse como assisti-lo. O que não se verifica com o oferecimento do senhor Hatzis. – Apresentou o doutor Johnson.

— Ninguém escaparia de uma situação como a que esse rapaz vivia sem sequelas emocionais. Em vista de tudo por que passou, considero-o até bastante equilibrado. – Comentou o doutor Stevens, buscando apoio de seu superior. Este concordou:

— A meu ver, a opção de enviá-lo para uma casa de saúde mental não é mais válida, uma vez que ele tem para onde ir e terá acompanhamento psicológico, segundo nos garante a senhorita Kido.

— Ele terá minha assistência, eu asseguro aos senhores. Com a bela atitude de Milo, dispondo-se a abrigá-lo, e com meus cuidados, bem como o apoio de meus companheiros da Polícia Federal de Red Meadow, Camus terá chances reais de reconstruir sua vida. Não está de acordo, Saga?

O promotor sentiu-se como pego em falta pela psicóloga. Aiolos olhou-o de soslaio, percebendo-lhe o constrangimento. Deixou escapar um sorrisinho.

— Mas eu soube que o senhor Hatzis pediu demissão da polícia, senhorita Kido. – Observou o doutor Osbourne.

— Oh, como as notícias voam, não é mesmo, Saga? – Ela voltou a encará-lo, com astúcia no olhar. – Por que será que ele tomou uma atitude dessas?

O rosto de Saga tornou-se visivelmente vermelho. O que piorou quando todos os presentes da reunião viraram-se para ele, à espera de uma resposta.

— E-eu vou falar com ele... verificar se... se é isso mesmo que ele quer, e...

— Estaremos esperando pelo seu parecer, chefe – A nissei atirou, um sorriso já triunfante nos lábios.

*************

Milo estava quase terminando de jantar – uma sopa quase insossa, um frango da cor da parede com legumes no vapor e pouquíssimo tempero e purê de ervilhas empelotado – quando Saga adentrou seu quarto. Olhou-o curioso: achou que, pelo horário, o promotor já tivesse retornado para o hotel.

— Saga! Como foi a... a entrevista com o Camus? Qual o parecer da equipe médica? – Quis saber, deixando de lado a bandeja com a pouco atrativa refeição.

— Ele se saiu muito bem, mais sobre isso você pode confirmar com a Saori, ela virá amanhã pela manhã conversar contigo. Mas não foi para falar da entrevista que vim aqui.

— Ah, não? Quisera eu que fosse pra me trazer uma pizza quatro-queijos gigante, mas, pela sua cara, não é para isso. – Brincou o agente.

Sem quaisquer rodeios, Saga disse, apressado:

— Milo, não vou assinar sua demissão.

— Não? Mas quem você pensa que...

— Vou te dar uma licença de seis meses.

— O QUÊ?

— Já comuniquei ao Chefe Geral da Polícia Federal. Vão lhe providenciar uma licença especial, como prêmio pelo seu feito na Operação Êxodo 2018.

Sem poder acreditar no que ouvia, o agente balbuciou:

— I-isso é sério?

— Por que não seria? — O promotor deu de ombros. — Você ficou seis meses enfurnado naquele inferno, sob as piores condições possíveis, condições estas que, inclusive, te puseram nessa cama de hospital.

— Saga!!! – O loiro pulou da cama, deixando a bandeja e todo seu conteúdo cair pelos lençóis brancos. – Você é o maior!!!

Abraçou efusivamente o chefe que, muito sem graça, resmungou, sufocado pelo abraço:

— Certo, certo, não esqueça de agradecer à Saori amanhã, ela colaborou MUITO para minha decisão!

— Eu vou agradecer, claro! Mas dar beijinho de agradecimento, só em você – brincou, gaiato, fazendo um bico enorme do qual o outro tentava se desvencilhar, apavorado:

— Ei, para com isso, eu pensava que o gay aqui fosse eu!

Milo gargalhou feliz.

Todos seus amigos estavam apoiando-o em sua empreitada. Quis correr até o quarto de Camus para contar-lhe tudo, para garantir-lhe que uma VIDA estava à sua espera.

Esperou que Saga partisse para fazê-lo. Ao chegar ao quarto 426, sem bater à porta, abriu-a um pouco. Estava tudo silencioso. Apenas uma lâmpada estava acesa. Não havia ninguém no recinto, e, para a surpresa de Milo, tampouco Camus estava em seu leito. Extremamente surpreso, olhou ao redor. Foi então que ouviu-o tossir; estava no banheiro. Aproximou-se da porta fechada, um pouco preocupado com o som que ouvia; além da tosse, gemidos angustiosos.

— Camus! Está tudo bem?

Percebeu que o “Redentor” estava vomitando.

— Camus – Chamou-o, incerto se abria a porta ou não. Mas o outro parecia em grande agonia, e Milo não mais suportou; entrou e encontrou o ruivo ajoelhado diante do toalete, os cabelos muito longos quase cobrindo sua figura convulsa.

— Camus! – Correu para ampará-lo, pois que parecia prestes a ter um colapso. Segurou-lhe os cabelos, ao mesmo tempo que sustentava-lhe o corpo.

Percebeu que lágrimas abundantes corriam pelas faces do rapaz. Teve dúvidas de que fossem resultantes apenas do esforço em regurgitar, o que fazia continuamente.

— Calma, estou aqui. Ponha pra fora, isso.

Camus soluçava e gemia em meio ao incômodo. De joelhos, Milo apoiou o jovem, pacientemente. Quando julgou ter acabado, levou-o até a pia, para ajudá-lo a limpar-se. O ruivo ainda tremia, e parecia em pranto genuíno. O policial nada perguntou; tomou de uma toalha e ajudou-o a secar o rosto, o pescoço. Percebeu que ele parecia prestes a cair, tão enfraquecido ficara. Enlaçando-o pela cintura, conduziu-o até a cama, sussurrando:

— Está tudo bem agora. Tudo bem. Você vai ficar bem.

Não ouviu uma só palavra do homem que ajudava a deitar-se. O rosto de Camus, congestionado, denunciava algo que Milo não pôde decifrar de pronto. Ainda soluçava, em intervalos mais longos. O agente olhou-o, intrigado. Teria sido algo que comera? Medicação? Passou a mão pela fronte do rapaz; estava gelada.

— Está tudo bem. – Repetiu Milo, docemente. – Tô aqui contigo, ouviu? Vou ficar aqui até você dormir.

O ruivo apenas olhou-o, ainda em processo de recuperar-se. Os olhos úmidos estavam semicerrados e inspiravam compaixão... desejo de proteger... de...

Milo acariciava-lhe a face fria, dizendo-lhe baixinho:

— Soube que se saiu muito bem na “entrevista” de hoje. Estou orgulhoso de você, carinha. Muito mesmo. Descansa, OK?

Viu a mão vacilante do “Redentor” ir até a sua. Tomou-a, estreitando o contato de forma a comunicar-lhe que tão cedo a soltaria. E foi apenas assim, segurando a mão de Milo, que pôde, efetivamente, acalmar-se. Os soluços converteram-se em breves suspiros. As pálpebras pareceram pesar, e pouco a pouco Camus fechou os olhos.

— Agora falta pouco pra sairmos deste hospital. Muito pouco, tá? – Murmurou o loiro, certo de que o outro ainda o ouvia. Só quando a mão na sua afrouxou e ele ouviu-o ressonar de leve, soube que Camus dormira.

Sua expressão de atormentada passou a serena, o que levou o agente a sorrir, enternecido.

Mais do que ajudar Camus a reconstruir sua vida, desejava do fundo do coração que pudesse ajudá-lo a ser feliz.

Mais do que uma boa ação ou um ato solidário... um agradecimento.

Porque algo em Camus fazia-o sentir-se diferente. Preenchia-o com uma plenitude que ele jamais experimentara. A expectativa de torná-lo feliz tornava-se seu ideal de vida. Fazê-lo feliz faria Milo feliz. Isso era uma certeza, tão estranha quanto o sentimento que aflorava em seu interior, até alguns meses estéril, tão estéril que ele precisava sempre desesperadamente de emoções, por mais artificiais e prejudiciais que fossem.

O que seria aquilo?

Saga não poderia estar certo... poderia?

Acariciou a palma da mão do jovem adormecido, contemplando seu semblante tão belo, tão único, tão sereno.

Saga estando certo, Saga estando errado... UMA COISA era certa.

Ele não queria mais deixar de se sentir daquele modo.

Não mesmo.

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Notas finais
O momento de Milo e Camus deixarem o hospital e partirem para uma nova vida se aproxima. Como será a transição para ambos, principalmente para Camus, que adentrará um "mundo completamente novo"? Espero por vocês no próximo capítulo... obrigada por prestigiarem! Link do grupo de minhas fics no Facebook: https://www.facebook.com/groups/1690225937895246/?ref=bookmarks