Redentor
31 Éden - Ato III : Confissões
Notas iniciais
Por que nunca havia sido assim?
Por que nunca havia se sentido desta forma?
Será porque, em tempos idos, ele fora apenas uma ferramenta, um instrumento, um veículo? Porque seu corpo fora um manjar a ser queimado em sacrifício no altar? Àquela época, seu corpo NÃO era SEU corpo. Ele havia sido um “cordeiro a ser imolado”, não um HOMEM. Então isso era ser um homem, não um messias...?
Milo tornara-o um homem.
Provar dos lábios de Milo fazia-o tomar caminho rumo à humanidade.
Ele sempre pertencera à santidade.
Ele nunca fora Camus. Um homem. Alguém que pudesse querer, almejar, deleitar-se...
SENTIR.
E não apenas aceitar. DESEJAR.
Desejava Milo com todas fibras de seu ser. Aprofundou o beijo, gemendo baixinho, enquanto estreitava o contato de seu corpo com o do policial. Segurava quase de maneira possessiva o belo rosto, não mais temeroso de que tudo se desvanecesse como um sonho às portas do despertar, e sim tão somente desejoso de tocar aquele homem que o fazia ser HOMEM. Sentir a língua de Milo digladiar-se com a sua, a boca de Milo responder avidamente à sua busca sôfrega, causava-lhe sensações poderosas. Seu coração palpitava na mesma vibração ansiosa do membro entre suas pernas. Queria TANTO que Milo o tocasse ALI, começava a atormentá-lo de verdade a pressão no baixo ventre, o latejar frenético de seu sexo aflito. Por que Milo não o tocava? Sempre que o beijavam, acabavam por tocá-lo. Ele nunca quisera. Mas agora QUERIA, queria mais que o ar que principiava a lhe faltar, dada a duração e a intensidade do beijo.
Foi então que Milo interrompeu o beijo, súbito, abrupto. Afastou-o de si, nem com tanta delicadeza, nem com tanta brusquidão. Seus braços foram agarrados sem força considerável, porém com decidida firmeza, pelo outro, e assim ele foi afastado daquele calor, daquele contato, daquela boca.
Milo fitava-o, ofegante, gotículas de suor cintilando por sobre a pele levemente rubra em alguns pontos. Seus lábios carnudos reluziam, ainda abertos, ainda desejados, deixando entrever a arcada de marfim. Milo... parecia SOFRER. Parecia angustiado! Por que suas sobrancelhas loiras franziam-se como se ele estivesse sob alguma consternação?
— Milo... p-por quê?
*************
Por que era assim?
Por que se sentia TÃO BEM?
Não era errado, em tantos sentidos, estar recebendo em sua boca a boca ávida e dulcíssima de Camus? O que o ruivo fazia com ele? Jamais, jamais experimentara tamanho deleite com um simples beijo.
Hah. O DIABO que era “um simples beijo”!
Naquele “simples beijo”, Milo via tudo ao seu redor ruir. A despeito de todas conjecturas, aquele beijo transportava-o a uma esfera inédita de prazer. Era contido, era represado, era dolorido... e o pouco que se permitia sentir deixava-o com o corpo em chamas. Quis mais daquele beijo e a ele se entregou, correspondendo quase com furor, já implodindo a certeza de quem dominava a ação. Ouvir Camus gemer em sua boca enviou centelhas ao seu pênis, que pulsou nervosamente ante a capitulação. Quis desesperadamente ser tocado, que aquela pressão fosse aliviada... quis entrar em Camus... sua mão escorregou da cintura de Camus, e...
NÃO! Quando foi que enlaçara o ruivo daquele modo? Seus corpos estavam perigosamente próximos, e o beijo perigosamente longo, perigosamente delicioso e inebriante...
Por Deus!
Camus era UM HOMEM. Como ele estava se sentindo daquele jeito com um homem? Era a ausência? A solidão? O escuro? A distância? A… a…
Não.
Esse não era nem de longe o ponto mais ERRADO do que estava a fazer.
Camus era uma VÍTIMA.
Estar fazendo aquilo não necessariamente significava que Camus QUERIA, de fato, fazê-lo.
Desejoso de amparo e conforto, o ex-Redentor na certa emulava o comportamento daqueles que o seviciaram. Não como Natassia afirmara, aquilo fora grotesco. O que Camus fazia era inconsciente... e responder àquilo, por mais arrebatador e excitante que fosse, era FODIDAMENTE ERRADO!
Pensando assim, pôs as mãos nos braços do jovem e empurrou-o. Sem violência, mas firme o suficiente para afastá-lo com propriedade. A excitação a que era conduzido nublava seus sentidos, era-lhe penoso mesmo respirar. Agora seu pênis estava incrivelmente rijo e ter a urgência de seu maciço desejo ignorada só fazia decrescer a concentração. Abriu a boca para deixar passar o ar com dificuldade, sua cabeça embaralhada como nunca. Viu os belos olhos castanho avermelhados arregalarem-se para ele, enquanto a pergunta veio, entre suplicante e perplexa:
— Milo... p-por quê?
*************
Agora sentados sobre o colchão, um de frente para o outro, encaravam-se demoradamente. Ambos ofegavam, ambos encontravam-se sensibilizados por aquele beijo lento, quente e arrebatador. O som de suas respirações entrecortadas povoavam um silêncio repleto de significações. Milo não sabia o que pensar, muito menos o dizer; Camus, por sua vez, sabia, porém, faltava-lhe ainda fôlego para falar. O questionamento, baixo e dolorosamente indignado, no entanto, não tardou demasiado:
— Por que me rejeita, Milo?
O loiro arregalou os olhos, surpreso. Balbuciou, honestamente confuso:
— Camus… não devemos fazer isso.
— Por que não?
— Porque não é certo. – Odiou-se por ser tão simplório, contudo, não foi capaz de dizer coisa melhor.
— E por que não é certo?
— Céus – Milo esfregou o rosto com as mãos. – Olha. Pra começar... nós somos HOMENS... só pra começar...
— Isso não é novidade para mim. – Volveu o ruivo, em uma atitude que deixou Milo ainda mais confuso. Aquilo era sarcasmo? Comentou, sem jeito:
— Ah… certo… a seita… a seita não proibia relações entre homens...
— CLARO que proibia – O ex-Redentor rebateu, assertivo.
— Mas... você... seus irmãos... os homens que te...
— As Ovelhas comumente não podiam se relacionar com pessoas do mesmo sexo, mas isso porque era missão delas continuar povoando a comunidade. O que acontecia comigo era diferente. Não era “relacionamento”. Era sacrifício. Você bem sabe disso.
Malgrado a réplica tivesse sido proferida em tom equilibrado, o policial não pôde deixar de experimentar desconforto com ela. Percebendo-o, Camus intuiu, com um meio sorriso:
— Compreendo. Você tem repulsa. Por eu ter sido possuído por outros homens.
“Ter sido possuído”. Camus não usara a expressão “ter me deitado” com outros homens.
— Camus, eu não tenho repulsa por você. Jamais teria! Não é esse o caso.
— Então qual é o caso?
A boca do agente abria e fechava seguidamente, sem que ele pudesse articular uma resposta decente. A Camus não parecia estranho que dois homens tivessem relações físicas, carnais... como pareceria, se a ele fora imposta tal interação, pelo próprio pai até?
— Eu entendi. Sou impuro para você. – Fez menção de sair da cama; o policial o deteve.
— Quê? Não! Camus, não é nada disso!
— Então o que é? – Insistiu o ruivo, quase impaciente.
— Eu... eu... você... talvez nem você queira isso, de verdade. Você foi levado a acreditar que... que esse tipo de coisa... é normal, natural.
O ex-Redentor mirou-o, sem entender. Milo umedeceu os lábios com a língua e pôs-se a empreender uma tentativa de explicação:
— Aqueles homens usaram você para... para fins escusos. Para se aproveitarem de você, ou para obterem alguma dádiva, favor divino... e-eu... eu não pretendo nada disso contigo.
— Mas eles apreciavam meu corpo... se sentiam bem comigo...
— Eu não duvido – Prontamente arrependeu-se de dizer isto. – Acontece que... eu...
Os punhos de Camus contraíram-se sobre o lençol azul marinho. De cabeça baixa confidenciou:
— Eu nunca senti com ninguém o que você me faz sentir. Todos se deleitavam comigo, e eu nada sentia além de vazio. Dor. Medo.
— Camus...
O ruivo ergueu a cabeça e cravou no policial seus olhos úmidos. Em sua frustração, gemeu, cerrando as pálpebras com força.
— Por que quando eu FINALMENTE ME SINTO BEM fazendo ISSO, eu não posso...? Por que quando eu finalmente SEI o que é DESEJO, eu... eu não...
Sentiu a mão de Milo acariciar seu rosto com suavidade. Abriu os olhos e encontrou o mar pacífico e sereno dos de Milo. O policial sorria docemente, como a querer tranquilizar o jovem.
— Shhh – Fez o loiro, seus longos dedos alisando o semblante do ex-Redentor. – Acalme-se, por favor. Está tudo bem.
O ruivo mordeu o lábio inferior, suprimindo a ânsia de desabar, de chorar, de gritar. O toque gentil daquela mão era um bálsamo em suas feridas mais profundas. Ele permitiu-se inclinar a cabeça para sentir melhor aquele carinho. Fitou demoradamente o loiro, consciente de que em nada seu desejo esmorecia.
Amava Milo.
Amava-o como nunca amara nada, nem ninguém.
Levou sua mão até a mão do agente, fechando-se firmemente nela.
De sua parte, Milo comparava-se a um bombeiro apagando o fogo. Não apenas em relação a Camus, mas também em relação ao que ELE mesmo estava a sentir.
“Meu Deus. Você tá apaixonado por esse cara.”
Sim. Sim. SIM.
Com mil demônios, ESTAVA!
Mas ele não era imaturo a ponto de se deixar levar por tais emoções unicamente por VONTADE. Ao menos... não era mais.
— Milo.
— Sim, Camus?
— Me deixa dar prazer a você?
— O... o quê?!? – O loiro quase engasgou. Sentiu a mão do outro passeando por entre suas pernas, por sobre a calça de moletom. A qual ele usava sem nada por baixo...
— Você precisa... – Sussurrou o ex-messias, lânguido, quase ao seu ouvido. – Seu membro está tão duro... se está assim, é porque precisa...
— C-Camus... não... – Ciciou, as forças de sua resistência severamente abaladas com o movimento perscrutador da palma da mão do ruivo por sobre a protuberância ansiosa.
— Ele é tão grande, Milo. Posso sentir. E está rígido como uma rocha... eu poderia...
Tentando escapar dos toques do rapaz, o policial perdeu o equilíbrio; foi a deixa para o ex-Redentor sobrepôr seu corpo ao dele. Agora Camus massageava por entre as pernas de Milo, de forma lenta e deliciosamente ritmada.
— Camus, por favor... p-pare... – A voz de Milo saiu estrangulada, enfraquecida pela promessa de prazer, há tanto negado. Sentiu seu pênis enrijecendo cada vez mais, à medida que os estímulos sobre a região aumentavam. Aproximava-se de um ponto arriscado do qual seria difícil voltar. Inconscientemente, Milo arqueou as costas, sua cabeça pesada e lotada de questões afundando-se nos travesseiros.
Não... aquilo tinha que parar... TINHA QUE PARAR...
— Huung... C-Camus... p-pare... você… precise parar… – Suplicava, atormentado pelas ondas de prazer crescente. E ele ainda estava vestido!
“AINDA”?
No que estava pensando?
Bem, o que quer que tenha sido, encontrou ressonância na mente de Camus, cuja mão de repente forçou para baixo o cós da calça de moletom. Milo quis afastá-lo de novo, mas era como se o seu cérebro começasse a perder a batalha para o seu corpo, que formigava de tensão. De tesão.
“Caralho, isso tem que parar!”
Logo emergiu, rígido e ansioso, seu grande pênis, prontamente encontrando a mão hábil do ex-messias.
— Ca... Camus...
— Milo... – Diante do seu, surgiu o belo rosto do ex-Redentor; mesmo contra a luz, distinguia-lhe a beleza, magnificada naquele momento em que o ruivo experimentava o desejo.
— Camus... v-você... – os dedos do outro cercearam firmemente a extensão do membro túrgido. Movimentos ritmados de cima para baixo, de baixo para cima, cuidaram de esvaziar a mente de Milo; – Você... meu Deus... é tão...
Não pôde prosseguir, pois que a boca do jovem ganhou a sua uma vez mais. Não houve resistência, agora, nem poderia haver, o policial recebeu-a e a ela se entregou, o beijo, desta forma, aprofundando-se rapidamente. Enquanto desfrutavam novamente da boca um do outro, Camus masturbava-o sem trégua, e Milo temeu não aguentar. No entanto, o ruivo parou o beijo... apenas para olhar fundo nos olhos do policial e baixar seu rosto até a virilha deste.
— CAMUS! V-você não pode... AAAHH!
Ter o órgão intumescido abocanhado pelo jovem levou o agente às estrelas. O membro latejante recebeu generosamente a ablução da boca quente e voraz do ex-Redentor. Camus lambia-o com uma lascívia mole, torturante, chupava-o com volúpia, sugava-o de um jeito que fez o policial se envergar todo, alucinado com aquele prazer descomunal.
— Aaaahn!... uung... C-Camus...
Ouvi-lo gemer e, em meio aos seus gemidos, ouvir seu nome, apenas incentivava o ruivo a intensificar o ritmo e a profundidade da felação. Então era por isso que as pessoas se atiravam a ele com tanta voracidade, no passado? Porque quando o desejo impera, o corpo do outro converte-se no mais delicioso banquete... sim, o membro de Milo era delicioso, quente, estranhamente doce, poderia jurá-lo!.. Ainda que o líquido que começava a dali verter, viscoso e transparente, guardasse uma nota discretamente salgada... colheu-o com a sua língua, a princípio passando-a com delicadeza pela glande, em seguida rendendo-se à avidez... a junção dos sabores, da textura, da temperatura e dos sons que explodiam em sua boca faziam o ruivo querer mais. A julgar pela expressão de indizível prazer no rosto do loiro, pelos tremores de seu corpo, pelo pulsar incessante de seu falo... Milo também queria mais.
E Camus lhe daria.
Pois bem se Milo o fizera se sentir um homem, mostraria a Milo que, efetivamente, ele o era. Milo ensinara-lhe a desejar, sob todos os ângulos... agora desejava a Milo. Em troca, daria ao policial todo o prazer que fosse por ora permitido...
O ex-Redentor sentiu as coxas grossas do loiro retesando-se, o pênis já quase não lhe cabia na boca...
— Camus! E-eu... eu vou... meu Deus... não... C-Camus!...
Milo agarrou os cabelos ruivos com uma das mãos, e, com a outra, o ombro do jovem afundado entre suas pernas abertas e trêmulas. Cerrou os dentes para não gritar quando o orgasmo explodiu como um vulcão em erupção. E como a lava da boca de um vulcão, seu gozo emergiu em abundância, enquanto ele estremecia, convulsionava, agora abrindo a boca e gemendo longamente...
— AAAAAAAHHH! OOOOH... AHN...
Nem por um segundo Camus cogitou desperdiçar aquela semente, a ele preciosa, néctar de seu renascimento, de seu nascimento, melhor dizendo. Necessário galardão. Sorveu-a com volúpia e sofreguidão, durante todo o longo clímax do policial, e até mesmo depois desse estrondoso ápice.
— O que... o q-que... – O loiro queria perguntar “o que foi isso?”. Suas forças para tudo, entretanto, haviam sido drenadas pela boca de Camus. Tentou olhar para este. Viu-o lambendo as últimas gotas que escorriam e melavam a base do pênis, parte das coxas, por fim, os dedos do próprio ruivo.
Seus olhares se cruzaram.
Camus considerou Milo o ser mais belo da Terra, e Milo teve o mesmo pensamento acerca de Camus. Malgrado os sentidos do agente estivessem bagunçados naquela letargia pós-orgasmo, pôde distinguir uma emoção sem igual ante o semblante lúbrico do ex-Redentor. Este experimentava uma satisfação inédita na vida; levara um homem ao clímax por VONTADE PRÓPRIA.
Porque o desejava.
Porque o amava.
Nada mais ansiava.
Sequer ansiava-lhe o toque.
Sentir seu gosto cru, real, seus fluidos, seus gemidos, seu desespero em meio ao prazer... tudo bastara-lhe.
Amava Milo.
Ainda que NÃO fosse amado por ele.
Sim, considera firmemente que não era amado pelo loiro...
— Camus... – Murmurou o policial, estendendo a mão para ele. – ...eu... me... me desculpe! Você não precisava... – queria dizer “você não precisava ter engolido”, mas faltou-lhe coragem. Ao invés disso, jogou-se para fora da cama, apressadamente.
— Desculpe, preciso ir ao banheiro! – Anunciou, em tom constrangido. Virou-se para ele. – Vou trazer algo pra você se limpar!
Enfurnou-se na suíte, sem ouvir o murmúrio do ex-Redentor:
— Limpar-me? Nunca estive tão limpo... Milo... – Um sorriso doce desenhou-se em seu rosto sereno, feliz. Voltou a deitar a cabeça nos travesseiros. Parecia estar deitado sobre as nuvens...
No banheiro, Milo lavava o rosto nervosa e demoradamente. Mirou-se ao espelho; aterrorizou-se ante a visão de um homem plenamente satisfeito. Os lábios vermelhos e inchados pelos beijos deleitantes, as maçãs do rosto coradas e seus olhos com um brilho espectral que só poderia ser concedido pelo mais espetacular dos orgasmos. Esfregou as faces com força, optando sempre pela água fria, a despeito da baixa temperatura da madrugada. O banheiro estava gelado!
“O que foi que eu fiz? Puta que pariu, O QUE FOI QUE EU FIZ?”, pensava, perturbado. Ficou ali, um bom tempo, estudando-se ao espelho. Ele fizera aquilo mesmo? Ou melhor… DEIXARA aquilo acontecer mesmo?
“Eu não podia ter deixado as coisas chegarem aonde... merda... MERDA!”, resolveu banhar a região genital, praguejando. Pegou uma caixa de lenços e voltou para o quarto. Viu o ex-messias aparentemente adormecido.
— Camus?
Nenhuma resposta.
“Será que você já adormeceu?”, espantou-se. Aproximou-se dele, devagar; o ruivo realmente dormia, ressonando levemente, de bruços, uma das mãos sob o peito. Com cuidado, Milo tirou-lhe da face umas mechas que ocultavam a bela figura. Acabou por acariciar-lhe os cabelos com ternura. Ternura esta que foi pouco a pouco sendo substituída por ressentimento... contra si próprio.
“Eu não deveria... como deixei que ISSO acontecesse?”
Ergueu-se do leito. Lançou um olhar ao rapaz totalmente entregue ao sono antes de deixar o quarto. Retirou-se para a varanda, munido de uma garrafa de uísque. Sequer se preocupou em vestir uma camisa. Apenas de calça de moletom, largou-se no chão, seu olhar mortiço perdido nas luzes da cidade.
O esgotamento advindo do intenso orgasmo proporcionado por Camus não seria suficiente para que ele repousasse. Sua mente não permitiria isso. Precisava beber...
“E eu, que tinha decidido não beber mais uísque ou vodca em casa, durante a semana... bem, não estou de serviço mesmo...”, pensou, virando o gargalo na boca. Sequer se preocupara em pegar um copo e gelo. Fez uma careta sofrível ante a sensação de fogo descendo-lhe pela garganta.
Como pudera deixar que as coisas chegassem àquele ponto? Que gostasse de Camus, que quisesse vê-lo bem, recuperado, feliz, era uma coisa. Que o achasse atraente era outra. Que o beijasse era outra completamente diferente. E que o deixasse chupar o seu pau... era INADMISSÍVEL!
Por ele ser heterossexual?
Será que agora era só por isso que se atormentava?
“Puta que pariu, nunca imaginaria que um dia eu iria virar viado...”, pensava, segurando com força os cabelos que caíam-lhe sobre o rosto aflito. Sim, sentia-se atraído por um HOMEM. Precisava encarar e admitir esse fato. Contudo...
“Por incrível que pareça, esse nem é o maior dos problemas. É pior que isso. Muito pior. Eu me aproveitei da pessoa que menos merecia isso no mundo!”, cerrou os dentes, amargurado. Bebeu em generosas goladas, a garganta queimando como sua consciência. Ora, Camus fora sistematicamente violentado em seus dias de “messias”. O ruivo não era alheio ao fato de que seu corpo levara outras pessoas ao prazer. Agora, livre, iniciando uma nova vida, estaria ele considerando-se no DEVER de conceder o mesmo a Milo? Certo de ser o pior dos homens, Milo considerava imperdoável sua falta de controle. Se o seu corpo reagia ao ruivo, era imperioso que sua MENTE mantivesse o domínio da situação!
Não foi o que ocorrera.
Ele permitiu...
Ele gostou...
Ele gozou.
“Inferno! Puta que pariu, eu sou um crápula, eu não podia... Camus...”
A bebida não estava adiantando. Precisava de mais, mais... virou a garrafa, deixando escorrer um pouco do líquido ambarino pelo queixo.
“Se eu deixar isso seguir adiante, qual a diferença entre mim e os filhos da puta que abusaram dele? Foi pra isso que você trouxe ele pra sua casa, Milo? Pra ele chupar teu pau, você gozar horrores e continuar saindo como o grande e bondoso ‘tutor do Redentor’?”, acusava-se em pensamentos impiedosos. Mas... COMO resistir a Camus? Merda, admitia, ADMITIA, ESTAVA APAIXONADO POR ELE, e, provavelmente, HAVIA MUITO TEMPO. De tão idiota que era – em sua implacável autocrítica – Saga percebera-o antes mesmo que ele!
No entanto, deixar aquilo seguir adiante equivaleria a aproveitar-se do ruivo... não que Camus não tivesse noção do que fazia. Ocorre que essa noção fazia-se superficial, adulterada, até. Não deveria saber a fundo, o significado, a motivação de suas investidas. O ex-messias não aprendera a lidar com sentimentos, emoções, desejos. Fora condicionado a fazer o que lhe era exigido, a seguir com sua pretensa missão, em detrimento a entender suas próprias vontades. Camus desejava-o DE FATO? Ou apenas repetia, no automático, um padrão a ele cruelmente imposto por toda uma vida?
“Precisa se livrar disso agora.”
Saga... Saga dissera...
“Sei que se compadeceu de Camus porque presenciou os horrores sob os quais ele vivia...”
— Não... não é só isso... – Gemia, as mãos na testa. – Eu... eu o...
“... não é bom nem para você nem para ele que isso continue.”
Bebeu o uísque como se fosse água de um oásis em um deserto no qual ele estava há muito perdido. Viu as luzes da cidade se duplicarem, se triplicarem... “Eu sou um canalha mesmo.”, pensou. Estendeu a mão para o celular perto de si. Indiferente ao avançado da hora, digitou uma mensagem para Aiolia:
“Preciso mt conversar contigo. Por favor, ven aqui em casa amaanhã, podeser antesd de vc ir pro trabalhoons, estarei acoddado” enviou-a pelo Whatsapp. Mesmo que o primo estivesse dormindo, a mensagem seria vista logo pela manhã. Normalmente, Milo relutaria em se abrir do jeito que pretendia, mas desta vez havia uma pessoa envolvida. Uma pessoa que já fora muito, muito machucada.
E uma pessoa que já era especial para ele.
“Camus, eu gosto de você... mas não quero te machucar”, pensou, vendo as luzes dançarem tremidas diante de si. Agora elas estavam embaçadas, desfocadas, como se as visse através de um vidro molhado.
Evocou o rosto do ruivo virado para ele na cama. Seus olhos fascinantes fixos nos dele. Os lábios roçando suavemente nos seus. A língua provocante de Camus vencendo as barreiras e invadindo sua boca renitente. A boca aveludada de Camus sobre seu pênis latejante. Os lábios macios de Camus úmidos com seu sêmen.
“Puta que pariu, NÃO!”, percebeu, apavorado, que estava “duro” novamente. Inconscientemente, levou a mão até a região genital. O tecido da calça levantava-se, seu membro enrijecendo contra o moletom.
“Eu sou um merda, uma completa aberração”, gritava internamente, sentindo-se um autêntico desgraçado. Só de lembrar de Camus e do que acontecera, estava ele ali, com uma ereção descomunal, após ter gozado loucamente menos de uma hora atrás.
“Eu preciso... vou ter que...”, pressionou o volume crescente entre as pernas. Fechou os olhos com força, ao mesmo tempo que trincava os dentes. “NÃO! Eu preciso é beber mais... beber! Vamos a isso!”. Tomou mais uísque, em busca não apenas do alívio dos seus tormentos, mas do próprio esquecimento.
*************
Réstias alaranjadas do sol que atravessavam a pequena fresta do blackout do quarto de Milo incidiram sobre o corpo de Camus, que começava a despertar. Coberto pelo edredom, teve preguiça de abrir os olhos. Tivera uma noite de sono tranquila, apesar de seu início turbulento, e de...
Pouco a pouco, as lembranças da madrugada pintavam imagens em sua mente ainda sonolenta.
Milo.
Ele beijara Milo.
Milo o beijara de volta.
Foi tão bom. Tão único. Tão sublime. Sentiu o coração palpitar rapidamente, aquecido. Podia sentir o sabor dos lábios de Milo em seus lábios, e...
Não.
Não apenas o sabor dos lábios de Milo.
O sabor de...
Levou os dedos à sua boca. Permitiu-se um sorriso em meio àquele estado de semiconsciência.
Abriu os olhos, desejoso de encontrar diante dos seus os olhos azuis de Milo.
Constatou, porém, que o loiro não estava na cama.
Ergueu meio corpo para verificar ao redor.
Estava sozinho no quarto do policial. Volveu o olhar curioso para a suíte. Notou que a porta estava aberta. A luz, apagada. Não havia ninguém ali.
Resistiu ao impulso de chamá-lo. Preferiu pôr-se de pé e ir procurá-lo. Na certa, o agente estava na cozinha preparando o desjejum. Decidiu ir até lá ajudá-lo, tão logo fosse ao banheiro e fizesse sua higiene matinal. Terminada esta, rumou para a cozinha. Antes mesmo de adentrá-la, estranhou a ausência de sons. Não se ouvia nada que indicasse que Milo estivesse providenciando a refeição para ambos.
Nem poderia. Milo não se encontrava na cozinha.
Um pouco confuso, o ex-Redentor foi procurá-lo na sala de estar.
— Milo? – Finalmente o chamou, ao averiguar que tampouco ali se encontrava seu anfitrião.
Questionava-se, intrigado, aonde Milo teria ido quando olhou de esguelha para a varanda e deparou-se com o policial deitado ali no chão. Esparramado, aliás. Apressou-se em chegar até ele. Viu um copo perto do homem desacordado, vazio como a garrafa virada sobre o piso luzidio.
— Milo?
Não recebeu resposta. Mas por que Milo resolvera dormir ali? Largado no chão, sem camisa, naquele frio... será que tinha se aborrecido com... com...
Ajoelhou-se perto do loiro completamente apagado, os longos cabelos dourados em desalinho espalhados pela superfície de tábua corrida. Não... Milo não parecia estar dormindo... teria o policial passado mal e desmaiado?
A garrafa.
Vazia como o copo. Aquele cheiro pungente...
— Está embriagado – concluiu o ruivo, erguendo as sobrancelhas. Tentou acordá-lo com leves toques no ombro. – Milo, você está bem?
O perturbador silêncio continuou. Os prédios ao longe revestiam-se da luz dourada do sol, pareciam bastões de madeira queimada contra o fogo. A neblina rasteira na paisagem cuidava de simular a fumaça da visão.
— Milo! Acorde! – Sacudiu-o, com um pouco mais de força. Ouviu-lhe um grunhido e, em seguida, um ressonar aumentado.
Conhecia a situação. Já vira homens embriagados antes. Nos rituais, nos cerimoniais... seus irmãos... Radamanthys costumava ser mais resistente ao álcool que Algol, unicamente por sempre querer estar no controle e mantê-lo. Por vezes, quando se deitavam com ele, levavam bebida e até faziam-no beber um pouco, se estivessem de bom humor...
Sacudiu a cabeça, escolhendo não enveredar por aquelas lembranças. Não quando Milo poderia estar passando mal – presenciara o irmão caçula passar muito mal, certa vez, não queria que o agente passasse por aquilo...
— Milo! Acorde! Você precisa levantar!
Não adiantava. O loiro estava totalmente desacordado.
Camus ficou de pé, a frustração vindo como um manto gelado sobre ele. O que levara Milo a beber daquele jeito? E por que deixara seu quarto para ir beber ali na varanda?
“Ele não gostou do que fiz”, raciocinou o ruivo, “ficou bravo comigo e foi descontar na bebida.”
“Bravo” apenas não, gritava-lhe sua consciência.
ENOJADO.
Como não ficaria? Ser beijado por alguém que tivera nos lábios os lábios e os órgãos de tantos... ter seu membro sugado por uma boca que a tantos outros serviu...
Não era o que diziam?
Que ele havia sido explorado, seviciado, estuprado?
Até sair da comunidade, essas palavras não existiam em seu entendimento.
Ao adentrar o “novo mundo”, contudo, a crença de que seu corpo era um instrumento santo para a remissão daqueles “tantos” foi sendo gradativamente substituída pela pálida noção de que o que lhe fizeram fora errado e sujo.
Então...
Então ELE deveria ser errado e sujo...
Por isso Milo interrompera o beijo! Que o afastara de si. Que tentara, a princípio, recusar o contato mais íntimo com ele...
“Milo tem nojo de mim. Por isso, depois que eu provei de sua semente, ele veio para...”
Neste momento, a campainha tocou, fazendo o ruivo ter um sobressalto. Olhou para Milo, que nem acordou. A campainha tocou de novo. O ex-Redentor ficou de pé, paralisado, sem saber como agir. Deveria atender? E se fosse Natassia? Milo assegurara que a ex-mulher fora proibida de subir, mas… quem sabe ela não havia convencido o porteiro?
Tocou mais duas vezes, sem que Camus se movesse. Continuou ali imóvel, junto à porta de vidro da varanda. Aterrado, ouviu o som de chaves destrancando a porta do apartamento. Esta abriu-se, ao mesmo tempo em que uma voz de homem enunciava:
— Ó, tô entrando, hein... dá licença...
Assim que entrou em seu campo de visão, o ruivo reconheceu o primo de Milo, que, aliás, também era policial.
— Camus? Bom dia – Aiolia cumprimentou-o, estranhando vê-lo ali, com expressão surpresa, sozinho. Por que Milo não tinha ido atendê-lo?
— Bom dia… Aiolia.
— Ah, cê lembra do meu nome? Que legal, como é que você tá, hein? – O recém-chegado sorria simpático, procurando o primo com o olhar que corria todo o ambiente.
— Milo...
— Oi? – Aiolia fez-se preocupado ao ver a expressão de surpresa de Camus passar a tristonha. – Cadê ele?
Sem responder, o ex-messias apenas apontou para a varanda, o dedo em riste para baixo. Aiolia esticou o pescoço e viu o primo estirado no chão.
— Milo? MILO! – Correu até onde o dono da casa estava, sem sentidos. – O que... o que houve? Que que você tá fazendo caído aqui?
Não demorou a entender. Fechou a cara de imediato.
— Puta merda. Tu tá de porre?!? – Rosnou.
Abaixou-se até ele, sacudindo-o sem a delicadeza do ex-Redentor.
— ACORDA, seu imbecil, acorda, vamos!!!
— Hã...? Quê? – Milo abriu os olhos. Fez um muxoxo. – Ah, Olia, sai daqui, me deixa dormir... tô com sooono...
— Tá com sono? Milo, você tá BÊBADO! Se eu acender um isqueiro aqui, metade de Red Meadow vai pelos ares!
— Ele está bem? – Camus indagou timidamente, a média distância.
— Tá sim, o babaca só bebeu demais. – E voltando-se para o ébrio – Anda, levanta, vou te levar pro teu quarto.
— Ca-ra-lhoooou... me deixa aquiii...
— Eu não acredito que você bebeu até ficar nesse estado lamentável e deixou o Camus sozinho – Ralhou, entre dentes. Abaixou mais a voz para o ruivo não escutar. – e se ele fugisse ou se jogasse pela janela, ou...?
Balançando o dedo em uma negativa, Milo ciciou, desorientado:
— Aaaah... o Camus não é louco nããão... gostoso ele é, louco não...
— Como é que é? – Aiolia tornou-se boquiaberto.
Virando-se para o outro lado, Milo fez menção de voltar a dormir. A princípio, estupefato pelo que acabara de ouvir, o primo nada fez. Em seguida, pôs-se a sacudi-lo pelo ombro, de modo igualmente indelicado, como da primeira vez.
— ACORDA, seu filho da puta, ou vou tacar uma jarra de água na tua cara!!!
— OK, OK – Resmungou o agente, com dificuldade para se erguer. – Cê é chato... aliás... que é que tu tá fazendo aqui?
— VOCÊ me mandou uma mensagem pedindo que eu viesse à tua casa. Nem se lembra, né?
— Claro… que não.
— O porteiro disse que tu não tinha saído. Então como ninguém vinha atender à porta, usei a chave extra.
— Geniaaal... tu leva jeito pra ser um agente secreto – Gracejou, babando.
Aiolia empregou toda sua força para pôr Milo, que mais parecia um saco de batatas, de pé.
— Quer ajuda?
— Não, Camus, tá tudo bem. – Segurava-o pelo tórax, no afã de mantê-lo ereto, o que era bem dificultado pelo estado de embriaguez do primo. Teve de arrastá-lo pelo corredor. – Vou levar ele pra cama. Ele só precisa descansar.
— Certo – O ex-messias murmurou, levando a mão ao peito. Sentia-se inútil, desnecessário.
Chegando ao quarto, Aiolia atirou Milo sobre a cama; o loiro ali desabou como um prédio implodido. Permaneceu da mesma forma que caiu, de bruços, desconjuntado. Em meio a dezenas de imprecações, Aiolia fez o possível para ajeitá-lo no leito. Incomodado, Milo gemia, praguejava e voltava a dormir.
Com um longo suspiro, Aiolia deu-se por satisfeito com a posição em que instalara o bêbado, de barriga para cima, cabeça sobre três travesseiros.
— Como é que tu me faz uma dessas, Milo? – Indagava o rapaz; em vão, pois que o primo voltara a apagar. Deixou-o para ir se juntar a Camus, que estava sentado no sofá, o olhar perdido no nada. Em tom animado, anunciou:
— Prontinho, o bebum já tá deitado na cama. Dormiu de novo.
— Ele vai ficar bem?
— Bom, do jeito que ele bebeu, com certeza vai ter uma bela ressaca quando acordar. Milo não é muito de uísque, negócio dele é cerveja, então... – Notou o que acreditou ser desânimo no rosto do ruivo. Acrescentou, com estudado cuidado: – Me diz… aconteceu alguma coisa por aqui?
Sem demonstrar qualquer emoção, o ex-Redentor achou por bem mentir:
— Não.
— Nada que justificasse essa bebedeira de Milo?
— Não. – Repetiu, monocórdio.
— Hum. – Aiolia coçou o queixo, intrigado. – Ele encher a cara até cair não é bem uma novidade... mas... com você aqui... acho estranho ele fazer isso e deixar você... hã... sozinho...
— Eu posso ficar sozinho. Não sou nenhum bebê.
O primo de Milo abriu um largo sorriso ante a resposta seca do jovem. Gostou de ver que Camus não era a criança incapaz que julgaram semanas atrás.
— Claro que não, pude ver isso. – Justificou-se.
De qualquer modo, considerou que não seria sensato deixar o ex-Redentor sem assistência, com o primo imprestável pelo resto do dia. Pegou o celular e selecionou um contato. Camus, do sofá, ouviu-o dizer:
— Oi, Saga. Escuta, dá pra me liberar hoje? Milo me ligou, tá passando mal. Vim até a casa dele... não, não sei o que ele tem. Mas tá bem mal. Vou ficar com ele, beleza? Se piorar, vou levar ele ao pronto-socorro… sim, o Camus tá bem. Tá aqui comigo – Olhou para o ex-messias, que ergueu uma sobrancelha. – OK, pode deixar. Falou, tchau.
Desligou. Voltou a fitar o ruivo, que o mirava, aparentemente desconfiado.
— Olha, eu sou primo dele, cê sabe, né? Não precisa ter medo de mim.
— Mas eu não tenho medo de você.
— Ouch! – Exclamou Aiolia, em um riso divertido. – Assim que deve ser, carinha... já tomou café da manhã?
Camus meneou a cabeça em uma negativa.
— Certo. Vou preparar o café pra você e pra aquele bebum lá.
— Eu posso cuidar disso, já sei fazer café.
— Tá, mas só eu sei fazer um café capaz de curar a ressaca daquele bostão. – Volveu, piscando um olho. – Deixa comigo.
Desinteressado em insistir, o ex-messias concordou silenciosamente. Com Aiolia dirigindo-se para a cozinha, ele aproveitou para ir ao quarto de Milo ver como ele estava.
Encontrou-o na suíte, ajoelhado de frente para o vaso sanitário, o qual abraçava em franca agonia. Vomitava ruidosamente.
— Milo! – Exclamou, sem saber como ajudar. Limitou-se a ficar à porta, observando-o.
O policial gesticulou para que ele se mantivesse afastado. Incerto sobre como agir, o ex-Redentor acabou por acatar-lhe a ordem muda. Terminou de regurgitar, deu descarga e foi até a pia se limpar. Trôpego, deixou o banheiro, sob o olhar preocupado de Camus. Jogou-se na cama. Gemeu, com a mão cobrindo os olhos sensibilizados.
— A luz... apaga... – balbuciou.
Solícito, o jovem alcançou o interruptor para fazer a vontade do agente.
Deitado, em meio ao sofrido estado de ressaca que se iniciara com força total, balbuciou, em meio a gemidos de dor – a cabeça já estava a ponto de explodir:
— C-Camus... eu... e-eu não queria...
— Não fale nada. Apenas descanse.
— Mas eu... preciso explicar... – Explicou foi nada, porque a ânsia fê-lo cobrir a mão com a boca e correr, atabalhoado, de volta para o banheiro.
Camus ouviu-o intercalar entre vômitos e xingamentos. O agente permaneceu um bom tempo na suíte, até dela sair, pálido, enfraquecido. Sem mais nada dizer, atirou-se de novo no leito, vencido. Tampouco o ruivo falou qualquer coisa. Com uma caneca fumegante na mão, Aiolia chegou ao recinto onde estavam os dois jovens.
— Aqui está, senhor meu primo, um café bem forte pra te trazer de volta ao mundo dos vivos!
Resmungando um pouco, Milo sentou-se na cama para tomar a revigorante bebida. Aceitou também um flaconete de analgésico e antienjoo trazido pelo primo, encontrado na malinha de remédios que ficava no banheiro principal da casa. Um tanto pensativo, Aiolia considerou o primo; virou-se para Camus e sugeriu:
— Por que não aproveita pra tomar seu café da manhã? Deixei tudo lá na mesa da cozinha. Fiz bacon com ovos, torrada e deixei leite e sucrilhos lá também.
Com seu habitual jeito calmo, o ruivo limitou-se a responder:
— Sim. Obrigado. – Retirou-se do quarto com certa presteza.
Vendo-o sair, Aiolia aproveitou-se da chance de interpelar Milo:
— Agora você pode me dizer. O que aconteceu aqui? Por que tu me mandou uma mensagem desesperada daquela às três da manhã?
— Por nada... eu tava bêbado – Tentou inutilmente desconversar.
— Disso eu sei. O que te fez beber desse jeito? A ponto de apagar na varanda?
— Eu tô dizendo... não aconteceu nada... – insistiu o loiro, ao mesmo tempo em que fazia uma careta bebendo o café “super-forte-curador-de-ressacas” de Aiolia.
— “Nada” o meu rabo. Desembucha, cacete. Que foi aquela merda que tu falou na varanda?
— O que eu falei na varanda? – Milo ergueu os olhos para o teto, franzindo a testa.
Após lançar um rápido olhar para a porta encostada, Aiolia sussurrou:
— Tu disse que o Camus era gostoso.
Foi como se um potente antídoto contra os efeitos etílicos fosse injetado nas veias de Milo. Tenso e envergonhado, balbuciou:
— Eu disse isso?!?
— Disse sim. – Sério como nunca, o outro assentiu.
— E-eu... ahh, eu tava alucinando... virei uma garrafa de uísque que tava quase cheia, cara...
— Já fez isso antes e não saiu dizendo que CARAS são gostosos.
Profundamente constrangido, Milo desviou o olhar. Não que tal fuga demovesse o primo de seguir questionando:
— Aquilo me preocupou bastante, Milo. Tu fez alguma coisa com esse cara?
— NÃO! Claro que não!!!
— Porra, então por que que tu diria algo como...
— Eu já disse, PORRA, EU TAVA CHAPADO! – Cedeu à impaciência, que nada mais era reflexo de seu próprio desespero interior. Respirou fundo; esfregou os olhos, que pareciam atravessados por pregos. Suavizou o tom, por puro cansaço. – Olha... eu tive uns problemas. Umas coisas aconteceram aí, eu precisava encher a cara pra...
— Que coisas, Milo? Que coisas aconteceram?
— Natassia esteve aqui… falou um monte de merda…
— Que tipo de merda?
Desolado, o loiro sacudiu de leve a cabeça já nem tão dolorida.
— Do tipo GRANDE, Olia... ela ameaçou não deixar Hyoga vir mais à minha casa... por causa de Camus. – Na última parte do enunciado, ele abaixou bem a voz, receoso de que o ex-Redentor pudesse escutá-lo. Medo infundado, pois não era do feitio do rapaz ouvir conversas alheias detrás de portas. A esta hora, o ruivo estava sentado à mesa da cozinha, pensativo como nunca, enquanto com uma colher prateada mexia seus sucrilhos no leite...
— Mas como assim?
— Ela veio com um papo maluco de que Camus pode oferecer RISCO ao Hyoga... que o que Camus viveu na maldita seita fez dele um desequilibrado, um louco... ou que poderia ter desenvolvido uma TARA... ah, cara, ela falou coisas horríveis...
— Ela disse isso? – Aiolia tornou-se sinceramente indignado. – Puta que pariu, e eu que ainda tinha PENA dela pelo que VOCÊ FEZ... essa mulher ficou completamente louca... sem noção!
Em meio a um breve suspiro, Milo lançou a questão:
— O que FIZ não daria direito a ela de ser tão cruel, daria, Olia?
— Milo... – A profunda amizade que tinha para com o primo não anulava-lhe a sinceridade. – você aprontou MUITO com ela. Levou essa mulher ao limite...
— Eu já pedi perdão UM BILHÃO de vezes!
— Às vezes... não basta, sabe? “Quebra” alguma coisa dentro da pessoa... e pode ser pra sempre...
— É, eu imagino. – Murmurou Milo, tristemente.
Aiolia estudou-o por uns instantes. Assertivo, indagou:
— Sabe… eu só acho que as “merdas” que Natassia te disse não seriam suficientes pra te deixar assim. – Ante o olhar atônito do outro, ergueu a palma da mão como a impedi-lo de interromper seu pensamento. – Eu sou teu amigo, Milo, te conheço muito bem. SEI que tem algo além disso, tem coisa aí que você não quer me contar.
— Olia... – O loiro murmurou, entre suplicante e desolado. Calou-se.
— Milo, eu sou teu amigo, cara. Se tu não me contar o que tá acontecendo, eu não vou poder te ajudar! Por acaso não confia mais em mim? Hum?
Em silêncio, Milo encarou o primo demoradamente. Então, após um suspiro e uma profunda tomada de fôlego, confessou:
— Aiolia. Eu tô apaixonado pelo Camus.
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