Redentor

32 Éden - Ato IV : Resoluções


Notas iniciais
Olá a todos e todas! Espero que estejam todos bem... gostaria de agradecer pelo apoio que vêm dando a esta fic, bem como agradecer os maravilhosos e estimulantes comentários! Bem, cá está novo capítulo de "Redentor". Milo confessou seu amor ao seu primo, amigo e confidente Aiolia! Vejamos a continuação desse momento tão esperado e, para nosso amado policial, impensável... boa leitura!

Pronto.

Estava feito.

E o que estava feito ESTAVA FEITO!

Admitira, reconhecera... CONFESSARA.

“Aiolia... eu tô apaixonado pelo Camus.”

Nem uma palavra a menos, nem uma palavra a mais. Apenas a verdade, absoluta, inexorável, cuspida como um espinho de peixe que precisa ser expelido antes que aquele que o engoliu se sufoque.

Seu coração batia rápido ante aquele feito. Parecia que havia corrido quilômetros e quilômetros até chegar ali. Bem... figurativamente falando... era EXATAMENTE o que ele havia feito.

Mas então... por que o SILÊNCIO?

Focou o rosto do primo: este meramente o encarava com o ar parvo de quem perde a fala. Aquilo irritou Milo:

— Qual foi, Olia? Que cara é essa?

— Que... que cara você quer que eu faça?

— Eu não quero que você faça cara alguma, porra, eu quero que você DIGA alguma coisa!

— O que é que eu vou dizer depois de escutar o que ACABEI DE ESCUTAR? – Seu estupor abundava de sinceridade. Afinal, como ele reagiria diferente? Como alguém reagiria ao ouvir Milo Hatzis fazer semelhante revelação?

Ao pensar nisso, Milo sentiu a irritação amainar. Permaneceu em silêncio, incerto de como prosseguir a conversa. Aiolia continuava a fitá-lo da mesma forma que faria se estivesse nascendo um terceiro olho na testa do primo. Só depois de alguns minutos, sugeriu:

— Será que você não tá com febre? – Pôs a palma da mão na fronte do outro. – Bêbado eu sei que você não deve mais estar...

Milo deu um tapa para afastar de si a mão intrusa. Retrucou, a irritação de volta:

— Para com isso! Dá pra gente falar a sério aqui?

— Cê acha que eu não tô falando sério, Milo?

— Eu NÃO tô com febre, cacete. Nem bêbado. Não mais... – Suspirou, um tanto cansado. Em vários sentidos. – Só um pouco... sei lá.

O silêncio voltou a reinar no quarto. Na cozinha, Camus mastigava os cereais de milho, excessivamente amolecidos por terem ficado tanto tempo boiando no leite. Ele podia jurar que não sentia fome, mas, mesmo assim, continuava a se servir do desjejum preparado por Aiolia, ainda que fosse em câmera lenta. Temia que Milo nunca mais o quisesse por perto... havia repelido-o antes, certo? E deixado-o no quarto, sozinho, para ir se embebedar na varanda...

“Talvez eu tenha cometido um erro em mostrar para ele os meus reais sentimentos. Eu nunca pude mostrar meus ‘reais sentimentos’ para ninguém... nunca pude revelar de como de fato eu me sentia... isto é, quando eu PERCEBIA o que sentia de verdade...”, refletia, em uma cadência febril que destoava de seus movimentos vagarosos, de seu olhar estático.

Será que, de fato, ele não detinha o direito de externar o que sentia? Fora assim no Vale da Aurora Dourada, continuaria a sê-lo no “novo mundo”?

“Externar meus sentimentos?”, ele riu, com amargura. “Talvez eu não tenha mesmo o mero direito de SENTI-LOS.”

Permitiu-se sorrir novamente, olhando o fundo da tigela de porcelana preta.

Vazia.

Vazia como sua alma deveria ser.

— Vazia... vazio... – Murmurou, selando sua rendição à apatia que vinha proteger seu coração.

No quarto de Milo, Aiolia por fim retomou a palavra. De forma pausada, pois que, contrariando seus hábitos, pôs-se a pensar bem antes de falar:

— Não vou mentir e dizer que nunca reparei que você tava SENTINDO ALGO DIFERENTE por esse cara. A gente notava, desde o hospital...

— “A gente”...? – Então não era só o Saga? Ficara tão EVIDENTE assim? O fato de um detetive se mostrar tão transparente para as pessoas ao seu redor converteu-se em um fator extra de preocupação.

— Eu só não imaginava que era assim... sei lá... pra valer... – Aiolia coçou a cabeça, desconfortável. – Aaaah, cara, cê tem noção do que tá me dizendo?

— É claro – Bufou o loiro.

— Você confirma o que disse? Quero dizer, vai que era o último vapor do álcool saindo por suas ideias e...

— Meu Deus, Olia... SIM, eu confirmo o que eu disse, já plenamente SÓBRIO, graças aos meus vômitos que certamente entupiram a tubulação do prédio e ao seu café horroroso, que certamente cobriu meus órgãos de PICHE, – Tagarelou, nervoso. – eu tô APAIXONADO PELO CAMUS.

— Certo. OK. Beleza. Entendi. – Aiolia recostou-se na cadeira. – OK. Vamos lá. Desde quando você... se deu conta disso?

— Acho que… ter certeza… certeza, certeza, CERTEZA… esta noite. Digo, madrugada.

— Por isso a sua mensagem maluca, pedindo que eu viesse pra cá.

Fatigado, Milo assentiu.

— Por isso se embebedou daquele jeito na varanda.

E novamente Milo assentiu.

— Tá legal, Milo... você admitiu ESTA NOITE. Mas já tem tempo que tu tá gostando dele, né?

— Eu não sei explicar... na comunidade... quando começamos a nos falar... era... era como se houvesse um ÍMÃ nele, sabe? Algo nele me atraía de uma maneira que... não sei explicar. Não era num sentido físico... apenas... – Tornou-se constrangido de verdade. – eu me preocupava com ele. Queria livrá-lo daquelas... daquelas merdas todas... e ficar ao lado dele... protegê-lo... tê-lo perto de mim.

Sob o peso do olhar intrigado do primo, apressou-se a esclarecer:

— Mas eu não pensava nessas coisas de uma forma romântica, sabe? Nem tinha tesão nele, não, nada disso, seria um absurdo imperdoável naquela situação...

— Mas e AGORA, Milo? Agora é diferente, né? Deve ser. Porque tu me disse, com TODAS AS LETRAS, que o Camus era “gostoso”.

— Eu não me lembro disso. – Defendeu-se, atônito, balançando a cabeça em uma negativa.

— Era o álcool falando por você. E, cara... cê sabe que o álcool às vezes abre umas “portinhas da verdade”, não é?

Milo estalou a língua, aborrecido. Aquela conversa o exasperava, contudo, fazia-se necessária, reconhecia. Além de seu primo, Aiolia era seu melhor amigo. Embora soubesse que o colóquio chegaria a um ponto ainda mais desagradável.

— Milo... vamos lá. Você tem certeza do que tá me falando? Sobre estar “apaixonado” por Camus? Não poderia ser uma mistura de amizade, empatia, compaixão, essa vontade de “proteger” que você mencionou...?

— No início achei que fosse isso – Respondeu em um murmúrio resignado. – agora... sim, eu tenho certeza do que eu te falei. Inclusive... sinto atração por ele.

— Atração? Atração em que sentido?

Erguendo os olhos dramaticamente para o teto, Milo resmungou:

— O que você acha, Aiolia?!?

— Tesão?

— Caralho, não precisa ser tão vulgar.

— Você, reclamando de “vulgaridades”?!? – Desta vez Aiolia não pôde evitar uma risada divertida. – É, cê tá apaixonado mesmo!

— É, maravilha, estupenda novidade, não é? – Ironizou um carrancudo Milo.

O primo parou de rir; coçou o queixo, pensativo.

— Olha, se tá sem graça por mim, eu não vejo problemas em tu estar apaixonado por um... por um homem.

— Não?

— Ué, por que eu veria? Meu irmão não é gay?

— É diferente. – Replicou, agastado. – Olos é gay desde uns 11 ou 12 anos.

— Pra alguns “a ficha só cai” bem depois. – Brincou Aiolia.

Sem achar qualquer graça na brincadeira, Milo fuzilou-o com o olhar. O primo pigarreou, desviando a cara de riso.

— Eu nunca tive a menor inclinação pra isso. NUNCA. É algo que só aconteceu com o Camus...

— E TINHA que ser com ELE, Milo?

— Não entendi.

— Não? PORRA! – Aiolia abriu os braços, fazendo-se de indignado. – Quer que eu traga os relatórios onde tá escrito TUDO que esse coitado passou na vida?

— Shhh, fala baixo!

— Milo, a cabeça desse cara deve ser uma TOTAL BAGUNÇA. Cara, cê não devia...

— Eu sei, EU SEI, não pense que eu não sei! Por que você acha que eu passei a madrugada na varanda bebendo, querendo esquecer A MERDA QUE EU FIZ?

Paralisando de súbito, Aiolia encarou-o com legítimo receio.

— Espera... que “merda” VOCÊ FEZ? – Indagou, temeroso pela resposta.

Em meio a um franzir de sobrancelhas, Milo desviou o olhar. A dor de cabeça, que havia melhorado, ameaçava voltar com tudo.

— MILO. – Insistiu Aiolia.

— Eu... eu... – Simplesmente não conseguia permitir que qualquer relato da noite lhe saísse pelos lábios.

— Você transou com ele?

— QUÊ? – O loiro quase gritou. – CRISTO. NÃO. NÃO!!!

— Bom, então você não fez nada de mais, né?

— E-eu... eu fiz uma coisa sim... bem errada...

— Beijou ele?

Um violento rubor cobriu as faces do policial acamado. Ele meneou timidamente a cabeça ao admitir:

— Bem... pra falar a verdade... ELE me beijou... a iniciativa partiu dele...

— SÉRIO?

—… m-mas… mas eu correspondi. Eu ACEITEI. E a gente... bom, a gente se beijou por um bom tempo sim.

— Puta que pariu – Aiolia deixou escapar baixinho. – E tu gostou, pelo visto.

Incapaz de verbalizá-lo, Milo tão somente assentiu. Se ele havia gostado? Ele havia sido transportado a uma delirante esfera de prazer unicamente com aquele beijo! Ficara duro como uma rocha, ansioso como um adolescente inexperiente, unicamente com aquele beijo! Ao seu lado, o primo ainda processava o que escutara. De braços cruzados e expressão sisuda, este avaliou:

— Certo. Apenas um beijo. Eu entendo isso pareça o fim do mundo pra alguém como você, que é o super macho devorador de...

— Não foi “apenas um beijo”.

— Hein?

—Não... não ficamos só nos beijos...

— BeijoS? Oh, foi mais de um. E por isso... espera... como assim NÃO ficaram “só nos beijos”? Você acabou de me dizer que não transou com ele!

— E não transei.

— Nesse caso...

— Ele me chupou.

Os olhos de Aiolia esgazearam-se até se assemelharem a olhos de bonecas biscuit.

— O QUÊ?!?

—NÃO GRITA, PELAMORDE...

— MILO! Tá me dizendo que esse cara fez um BOQUETE em...

— É, é, é, É!!! Vai ficar repetindo TUDO que eu falar, porra?

— Porque não tá dando pra acreditar no que você tá me dizendo!!!

— E BRINCAR DE ECO vai fazer você acreditar mais?

— Meu Deus. – Aiolia esfregou o rosto com as mãos espalmadas. Brandiu-as em sinal de desistência. – OK. Beleza. Explica essa merda aí. Juro que não vou te interromper. Nem continuar a ser o eco do quarto.

Com imenso fastio, Milo suspirou demoradamente. Agora sentado de frente para o primo, pôs-se a contar:

— Nós nos beijamos. Da primeira vez, caí em mim, me tocando de que aquilo era errado pra caralho, e me afastei. Quer dizer, afastei ele de mim. Tarde demais, eu já tava com a “barraca armada”, tinha gostado... MUITO... – Mirou seu interlocutor, a fim de verificar se este fazia menção de exclamar algo; Aiolia, no entanto, congelara, atento e aparvalhado. – Mas aí ele... ele começou a “bater uma pra mim”. Eu SABIA que tinha que parar, que tinha que afastá-lo outra vez, mas... porra... ele tava me deixando louco... nos beijamos de novo, e então... quando eu vi... ele já tava LÁ EMBAIXO, me abocanhando... me chupando que nem um maldito bezerro desmamado, e...

— TÁ, TÁ, entendi, pode parar por aí. Só me diz: tu deixou ir até o fim?

— Deixei.

— E tu... hã... tu fez nele também...?

— JESUS, NÃO! Eu caí em mim! Vi logo que tinha feito merda!

— E aí deixou ele sozinho no quarto pra ir beber na varanda.

— É. Isso.

— Mas depois de você ter gozado, né?

— Se acha que me orgulho disso tá bem enganado.

— Cara... cara. Eu... eu não sei nem o que falar.

— Eu fui um filho da puta, né?

— Foi. E não só ontem.

— Hã?

— Milo… por um acaso tu trouxe esse cara pra morar contigo PENSANDO NISSO?

Desta vez Milo sentiu-se mortalmente ofendido.

— Eu não acredito que tu tá me perguntando isso – Murmurou, quase rangendo os dentes.

— Desculpa, mas eu TENHO que perguntar.

Foi preciso cavalares doses de controle emocional para Milo não responder aos berros raivosos. Respirou fundo e pontuou:

— Não. Eu NUNCA pensei em nada disso para decidir dar abrigo ao Camus. Eu nem ao menos sabia que estava realmente apaixonado por ele. Como eu disse, foi algo de que me dei conta só nesta noite.

Aiolia viu sinceridade em seu rosto triste. Meneou a cabeça para demonstrá-lo.

— Eu me senti um lixo por ter deixado as coisas chegarem aonde chegaram, Olia. Por isso, enchi a cara. Mas não adiantou nada – falou, com pesar. – eu AINDA me sinto um lixo.

— Pra piorar seu justificável estado de espírito, devo observar que o carinha TAMBÉM tá apaixonado por você.

Tal apontamento aumentou a angústia de Milo:

— Eu não sei. Não sei! Ele pode estar confundindo as coisas! Aiolia, Camus foi sistematicamente explorado e abusado sexualmente durante ANOS E ANOS! Não sei se ele acha que me DEVE esse tipo de coisa, por eu ter tirado ele daquele inferno, por ter trazido ele pra cá.

— Se for isso, meu amigo, as coisas são ainda PIORES.

Um pesado silêncio caiu entre eles. A garganta de Milo constringiu-se de modo a quase sufocá-lo. Quis ardentemente um copo de uísque, mas Aiolia quebraria a garrafa na cabeça dele se ousasse beber em uma hora como aquela.

— Foi um erro ter se oferecido como “tutor” de Camus, Milo. Você não devia ter assumido esse papel, se sentia que... que sentia ALGO por ele.

— Talvez tenha sido – Sussurrou, como que derrotado.

— Submeter Camus a isso... é perigosíssimo. Esse cara já tem muita MERDA na cabeça pra lidar.

— Eu sei.

— Você não tinha esse direito. – Aiolia estava sendo implacável, sem quaisquer reservas

— Mas que DIABOS eu podia fazer? Queriam enfiar ele na porra de um HOSPÍCIO!!!

— Hospício, não. – Corrigiu, enfático. – Ele iria para uma casa de saúde onde teria acompanhamento médico e psicológico, tudo custeado pelo governo. Os laudos psiquiátricos comprovaram que Camus não sofre de nenhum distúrbio mental grave. Mas não descartaram a necessidade de vigilância e terapia.

— Lindas palavras, mas seria apenas mais um lugar onde ele continuaria a viver PRESO – Cuspiu com desdém.

— E o que você acha mais certo? Trazê-lo pra tua casa, pra submetê-lo a essa tua... confusão de macho indeciso?

— Eu não fiz nada de caso pensado. – Defendeu-se.

— Não importa, cara: ACONTECEU.

Lágrimas nascidas da ira e do remorso vieram aos olhos azuis do agente. A dor de cabeça retomara seu odioso posto. Suavizando a voz, Aiolia fez a cautelosa colocação:

— Escute. Ainda tá em tempo. Deixe Camus sob a custódia do Estado. Você pode visitá-lo de vez em quando. Por solidariedade mesmo, sem essa de se deixar envolver... como deixou ATÉ AGORA.

A sugestão fez as lágrimas enfim rolarem livremente pelas faces de Milo.

— Essa situação não vai fazer bem ao Camus... e... já não tá fazendo bem pra VOCÊ. – Acrescentou Aiolia, agora com um sincero acento compassivo.

— Você... você acha mesmo?

— Eu acho, Milo. De verdade.

Milo suspirou. Enxugou as lágrimas decidida e apressadamente. Murmurou:

— Vou falar com a Saori.

— Isso. É o melhor a se fazer. – Concordou o primo, dando-lhe tapinhas amistosos no ombro.

Ao longe, o apito de alguma fábrica soou demoradamente. Nuvens alvíssimas puseram-se a aportar no céu de um azul vívido e dominante. Aiolia pôs-se de pé. Considerou o homem cabisbaixo por alguns segundos antes de arrematar:

— Esse foi o caso mais difícil da sua vida, Milo. Você viu e sofreu coisas absurdas, inimagináveis até então. Tua cabeça não poderia sair ilesa de todo aquele horror, de toda aquela privação... daquele inferno.

Apenas ouvindo, Milo concordava mentalmente com tudo o que o primo dizia.

— Acho que também VOCÊ deveria fazer terapia... nem que fosse por um tempo. Eu sei que tu sempre achou isso frescura, besteira, mas... acho que pra quem passou por TUDO que você passou... e ainda tá passando, eu posso perceber... não é tão besteira assim não.

— Eu vou pensar nisso.

— Pensa sim. – Sorriu-lhe o mais novo. – Aproveita e pede uma indicação à Saori.

— Hunf. Tá louco. Ninguém do trabalho vai saber disso.

Aiolia revirou os olhos.

— Você é quem sabe, senhor Fodão.

— E... e Camus? O que estará fazendo?

Pé ante pé, Aiolia resolveu ir averiguar a fim de informá-lo ao primo. Da porta da sala de estar, viu a plácida cena de Camus lendo no sofá, as pernas vestidas pelo moletom cinza claro por cima do estofado. Tinha os longos cabelos vermelhos esparramados por sobre as almofadas pretas.

“Ele parece um cara tão tranquilo... tão normal!”

— Aiolia? – O ex-Redentor percebeu a presença do policial, parado sob o umbral que dava para o corredor. – Milo melhorou?

— Oh, sim! Melhorou sim! Ele agora tá tirando uma soneca – Mentiu, sem saber bem por quê. – Umas horinhas de sono e ele vai ficar novinho em folha.

— Que bom. Se houver algo que eu possa fazer...

— Não, tá tudo bem! Não se preocupe, sério. Já vi ele tomar porres piores do que esse e sobreviver.

— Talvez ele não devesse beber tanto, se é algo que lhe faz tão mal. – Comentou o ruivo, fechando o livro “Espártaco”, de Howard Fast, com o cuidado de posicionar na última página lida o marcador de páginas em forma de pinguim que Milo lhe dera.

— Eis aí uma pérola de sabedoria. Bem... pode ficar aí relaxando. Eu vou ficar mais um pouco por aqui, pra olhar o idiota. Mais tarde preparo o almoço pra gente.

— Se quiser, posso ajudá-lo... – Ergueu-se do sofá, solícito.

— Não, não, não precisa! Fica aí quietinho, de boa, tá tudo sob controle – E disparou pelo corredor, deixando o ex-messias praticamente falando sozinho. Desolado, o ruivo voltou a se sentar, com pensamentos autodepreciativos a rondá-lo como feras famintas:

“Não apenas Milo tem nojo de mim, até seu primo tem nojo de mim...”

Será que Saori também teria nojo dele? Ela era tão bondosa, tão gentil e compreensiva! Mas... e quando lhe dissesse o que acontecera, o que sentia por Milo, será que também ela não lhe teria repulsa? Tornou a abrir o livro, sem contudo assimilar mais palavra alguma...

*************

— Aí está, espero que aprecie a minha especialidade! – Anunciou Aiolia, animado, colocando uma travessa de macarrão com queijo sobre a mesa.

Vendo que Camus permanecia imóvel, o olhar parado para a comida fumegante, o visitante interpelou-o:

— É, eu sei que é LINDO, mais bonito que os pratos que você vê no Masterchef, mas pode se servir, não tenha medo de estragar a obra de arte. – Brincou, sentando-se defronte o ruivo. – Ou você prefere que eu te sirva?

— Hã... – O jovem ficou tonto com o falatório incompreensível do primo de seu anfitrião. – Tudo bem, eu posso me servir.

— Você ficou com cara de quem não conhece o Masterchef.

— Não, não o conheço. Quem é ele?

Aiolia deu uma gargalhada antes de esclarecer:

— Não é uma pessoa, é um programa de TV!

— Ah. – Exclamou, neutro.

— Milo nunca te mostrou?

— Não.

— Porra, esse meu primo é um sem-graça. Por acaso, daqui a pouco tem reprise do programa de ontem. Eu não pude ver. Podemos assistir.

Camus observou-o, aparentemente desconfiado. Percebendo, Aiolia tentou conter a verborragia. Estivera tentando parecer natural e amigável, mas deveria era estar enfastiando o pobre rapaz... a verdade é que estava incomodado com a presença do ex-Redentor, depois de tudo que Milo lhe contara.

— E aí? Gostou? – Não pôde, contudo, se conter por muito tempo, o silêncio sepulcral durante qualquer refeição sempre lhe era perturbador.

Ainda mastigando, Camus fez que sim com a cabeça. Não estava sendo de todo sincero, mas que serventia teria dizer a verdade, afinal? Quando engoliu o bocado, anuiu:

— Sim, está ótimo. Obrigado.

Aiolia riu sem jeito. Algo nas maneiras de Camus remetia-o a um robô.

— Que bom, fico feliz que tenha gostado! Se quiser mais queijo ralado, ralei parmesão, está aqui...

— Milo não vem almoçar?

A comida deteve-se por alguns segundos na garganta do policial. Teve de beber uns honestos goles de suco de uva para fazê-la descer; tossiu três vezes.

— Ah, ele ainda está dormindo! – Informou, quando conseguiu responder. – Aquilo lá vai dormir o dia inteiro, nem adianta esperarmos por ele.

Mais uma vez, o ex-messias assentiu mecanicamente. Algo em seu olhar desarmou o homem à sua frente. Aiolia pensou em que não era justo manter aquela reserva para com o jovem. Ele não tinha culpa de ter se apaixonado por Milo, por Deus! Milo deveria ter sido a primeira pessoa a se importar por Camus a ponto de se arriscar por ele... Milo é que cometera um erro, se deixando envolver por tão trágica criatura... Aiolia queria tanto que Camus encontrasse seu lugar no mundo, queria sim! Que se recuperasse, que construísse sua própria vida... mas, de preferência, sem desestruturar o emocional de Milo!

Quando terminaram o almoço – que se seguiu em meio a pouquíssimas palavras – Aiolia recolheu os pratos, copos e talheres e deixou-os no lava-louças. Convidou Camus para assistir ao “Masterchef” da noite anterior, ao que o ruivo aquiesceu sem maiores entusiasmos. Acomodaram-se no sofá e o policial ligou a televisão.

Enquanto isso, Milo emergia das cobertas, seu braço a estender-se rumo ao celular em cima da mesinha de cabeceira. Entrou no Whatsapp e enviou uma mensagem para Saori, iniciando uma conversa.

Levou cerca de quinze minutos até que a psicóloga lhe respondesse:

“Oi, Milo, como você está? Melhorou?”

O loiro lembrou-se logo da justificativa usada por Aiolia para não ir trabalhar... e ir ao seu apartamento.

“Tô sim, já tô em casa”

“Então foi mesmo ao hospital?”

“É, o Olia me levou”

“Mas o que você teve?”

“Uma intoxicação alimentar”

“Nossa... sério?”

“É, mas agora tah td bem”

“Bom saber. Como está o Camus? Ele deve ter ficado preocupado com você.”

“Então, Sao, era sobre isso que eu queria falar contigo.”

“O que é? Aconteceu alguma coisa?”

“Olha... aconteceu sim. Quer dizer, ele tah bem, fica tranquila”

“Mas se você queria falar comigo sobre ele, o que é?”

“Tem como a gente se encontrar no parque aqui da minha rua, esta tarde? Prefiro conversar com vc lá”

“Milo, eu tô na delegacia revisando uns depoimentos. Mas agora tô preocupada. O que houve? Fala logo”

“Não é nada sério”

“Então por que a gente tem que conversar escondido?”

“Não é escondido. Eh a sós”

“É a mesma coisa, merda”

“Nossa, vc xingando... deve estar nervosa msm”

“Com esse seu joguinho SIM. Me diz, onde é que tá o Camus???”

Ler aquela pergunta, podendo até inferir-lhe o tom, encheu o policial de culpa, de vergonha.

“Ele tá na sala vendo TV com o Olia”

“Me dá meia hora que eu chego aí”

“Certo, a gente se encontra em frente à estátua do Wilhelm Willbourne.”

“OK. Até lá.”

*************

— UAU, que FORA! Meu Deus, esses chefs arrasam com os concorrentes! Se eu ouvisse uma crítica assim, acho que enfiava minha cara nas panelas... ou minha cabeça no forno!

Camus sorriu, mais pela forma com que Aiolia se expressara do que pelo conteúdo do que assistia. Por que aquelas pessoas recebiam tão duras reprimendas se se esforçavam para cozinhar pratos tão vistosos, tão apetitosos? Não via rigorosidade ali e sim crueldade pura e simples.

— Não é MANEIRO, Camus?

—Hã... é. É maneiro.

— Tu não tá muito com jeito de que tá gostando não.

— Admito que prende a atenção. Mas acho que as pessoas que julgam os pratos um tanto... bem, elas não parecem ter muita consideração pelos cozinheiros. – Apontou para a enorme tela. – Veja. A moça está até chorando.

— Mas esses programas são assim mesmo, brother. Eu acho até que é tudo combinado.

— Combinado?

— É, encenado, representado... não é “de verdade”, entende?

— Como um filme?

— Bem...

— Então eles são “personagens”?

— Er… não... ai, pera, meu celular apitou uma notificação... – Aiolia pegou o aparelho. Era Milo mandando-lhe mensagem via Whatsapp.

— Ué, por que é que esse idiota tá...

“Olia, vou descer pra me encontrar com a Saori. Não fala nada pro Camus.”

“Pq? Qual foi agora?”

“Dps eu te explico. Só não diz nada pro Camus aonde to indo, nem que vou ver a Sao”

Dez minutos depois, Milo aparecia na sala, de roupa trocada. Vestia uma calça brim verde musgo, um casaco de moletom preto por sobre uma camiseta azul clara. Seu aspecto melhorara um pouco, malgrado ele conservasse as olheiras sob os olhos avermelhados.

— Ah, Milo! E aí? – Aiolia saudou-o cenicamente. – Tá melhor?

— Tô bem melhor. Desculpe ter dado tanto trabalho a vocês.

— Sem problemas, tô acostumado com suas idiotices. Senta aí, a gente tá vendo o “Masterchef”.

Os olhares de Milo e Camus cruzaram-se de forma significativa. O coração do loiro apertou-se ante a dúvida a que ele não tinha mais direito... ele PRECISAVA fazer o que estava prestes a fazer! Por sua vez, o ex-messias perguntava-se se Milo o havia perdoado pela ousadia que cometera; estava certo de que esta for a a razão das atitudes recentes de seu anfitrião. Em meio àquela troca de olhares, Aiolia sentia-se totalmente deslocado. Para o seu alívio o primo enfim anunciou:

— Eu vou até a loja de conveniência. Vou comprar um pote de sorvete com crocante de nozes, deu vontade.

— Quer que eu o acompanhe? – O ruivo se ofereceu.

Com um sorriso forçado, Milo apressou-se em responder:

— Não é preciso, Camus, obrigado! Eu vou rapidinho... você tá aí entretido com o programa...

O ex-messias teve vontade de dizer-lhe que estar ao seu lado era mais importante do que qualquer atração televisiva. A presença de Aiolia, porém, selou seus lábios. Encarou-o com indisfarçável pesar. Antes que a culpa o fizesse desistir, o dono da casa girou sobre os calcanhares, ajuntando:

— Tô indo. Se quiserem alguma coisa de lá, é só me ligar.

Aiolia e Camus olharam para a porta, batida com um pouco mais de força do que poderiam esperar. Pouco a pouco seus rostos voltaram-se um para o outro. Sem graça por ser ver agora de fato a sós com o ex-Redentor, Aiolia riu de nervoso:

— Milo tem cada ideia! Eu podia ter ido no lugar dele! – Pegou o controle da TV e o brandiu para o aparelho. – Olha, agora vai começar o programa do Gordon Ramsay! Se você acha que aqueles chefs pegavam pesado, espere só pra ver esse cara!

Camus não se importou em disfarçar seu desinteresse; mesmo assim, volveu os olhos castanhos para a tela. O policial fingiu não notar. Restava-lhe torcer para que o primo não demorasse a voltar. E que, seja lá o que tivesse ido tratar com Saori Kido, que resolvesse a parada!

*************

Antes de entrar no parque, Milo realmente passou na loja de conveniência. Mas não para comprar o sorvete, isso teria de ficar para a volta, e sim cigarros. Aproveitou para adquirir também um isqueiro, já que na qualidade de ex-fumante, ele obviamente não andava com um.

Caminhou pelas alamedas cercadas de arbustos repletos de frutinhas vermelhas, deliciando-se com o Marlboro; chegava a sentir um certo torpor... desacostumara-se àquilo! Sorriu, entregue a um prazer patético e, por que não dizer, estúpido. Chegou à estátua de Wilhelm Willbourne, fundador da cidade de Red Meadow; do alto de seus três metros de altura, sem contar o pedestal de mármore marfim, o peregrino esculpido em granito cinza azulado servia de pouso aos passarinhos que imediatamente à chegada do loiro fumante levantaram voo.

Saori ainda não havia chegado. Na certa, o trânsito do centro impedira-a de cumprir à risca seu tão caro ritual de pontualidade. E ela que no passado reclamara tanto dele com relação a atrasos! Mas, bem, desta vez ela detinha o álibi do trânsito, tinha que considerar...

Por ser dia de semana, havia poucas pessoas no parque; alguns idosos caminhando com seus acompanhantes, duas mulheres correndo juntas, um homem ao longe dando de comer aos pombos. O céu dividia-se entre azul e prata, indeciso e fresco. O policial suspirou, reconhecendo que gostaria de um novo cigarro... meteu-o por entre os lábios e, antes que a chama pálida o acendesse, ouviu a voz melodiosa conquanto sarcástica:

— Eis aí duas coisas que eu não esperaria de você: que fosse pontual e que voltasse a fumar.

O agente virou-se para a psicóloga, como sempre elegante e vistosa. Ela trajava uma camisa social rosê e uma calça reta de linho preta.

— Oi, Sao.

— Já que não chegou a acendê-lo, vou pedir que o guarde para quando estiver perto de alguém que não se incomode em ficar com esse cheiro horrível até a alma. – O pedido nem de longe trazia a entonação de pedido, de modo que Milo não pestanejou em pôr o cigarro de volta no maço, com um sorriso afetado.

— Prontinho. Oi, Sao. – Repetiu, irônico.

— Oi, Milo. – Trocaram um rápido beijo no rosto. A moça não se furtou a fazer uma careta. – Meu Deus, por que é que você voltou a fumar depois de... quantos anos?

— Três.

— Três anos. Que coragem, atirar uma vitória dessas no lixo.

— É, eu sou um estúpido mesmo. – Deu de ombros, melancólico. Aquilo intrigou a psicóloga.

— Realmente, vejo que aconteceu alguma coisa, e SÉRIA. – Comentou, analítica. – Você deu a entender que era com Camus, mas está me parecendo que foi com VOCÊ.

O agente sentiu um violento desejo de voltar a pôr aquele cigarro na boca. Tomou fôlego, seu olhar perdido nas copas já um tanto desfalcadas pelo outono. Disse:

— É, esta conversa é mesmo sobre o Camus... e também sobre mim. Acontece que, apesar de ele estar envolvido, eu não queria que ele ouvisse o que será tratado aqui.

Ela estreitou os olhos violeta.

— Quanto mistério... isso também não é típico de você.

— Acho que nada mais em mim é “típico de mim” – Volveu o loiro, em franco pessimismo.

Alguns adolescentes uniformizados passaram correndo por ali. Seus risos e gritinhos invadiram momentaneamente o silêncio instaurado entre Milo e Saori. A nissei cruzou os braços, fitando-o com uma firmeza da qual ele não escaparia.

— Certo, Milo. Você estava “passando mal” – frisou em tom de sarcasmo, dando a entender que já lhe desmascarava a farsa. – fez Aiolia faltar ao trabalho, me fez sair do trabalho e agora está aí, fumando seus Marlboros enquanto faz rodeios intermináveis para me dizer o porquê disto tudo.

— Saori... eu acho que me precipitei.

— Em relação a quê?

Ele pôs as mãos nos bolsos em prol de uma postura casual.

— A ter trazido Camus pra morar comigo.

— Como é que é? – A voz da nissei, que franziu o cenho, fez-se quase inaudível.

— Saga disse que Camus seria conduzido a uma casa de saúde, onde ficaria sob custódia do Estado. A princípio, eu interpretei de forma equivocada aquela medida. Só que, hoje, vejo que teria sido o mais sensato. Eu não deveria ter me metido nisso, conforme Saga bem me avisou.

A fala pretensamente fria e decidida ocultava a dor que se espargia no peito do policial. Seu rosto impassível, tanto quanto suas palavras, escandalizaram Saori.

— Está me dizendo que você... que você está DESISTINDO de abrigar o Camus?!?

— Não foi uma boa ideia.

— Milo, afinal de contas, que diabos aconteceu ENTRE VOCÊS?

O loiro estremeceu.

— Que... como assim? O que eu tô dizendo...

— Apenas RESPONDA, Milo!

Um suor frio formava-se nas têmporas do agente. Passou a língua pelos lábios ressecados e tornou, menos seguro:

— Ele só... não tá se adaptando, OK? Não acho que vai fazer bem ele ficar aqui se não tá se adaptando do jeito que a gente acreditou que aconteceria.

Boquiaberta, Saori encarou-o com uma indignação que ele JAMAIS vira naquele belo e usualmente sereno rosto.

Nem no curto e mal sucedido relacionamento que tiveram.

— Milo, ele não é um OBJETO que você devolve à loja onde adquiriu porque não te agradou.

Aquilo foi mais certeiro e doloroso do que uma bofetada poderia ser. Lembrou-se de quando Aldebaran lhe moera de pancadas no Vale da Aurora Dourada.

Certamente doeram-lhe menos.

— Saori, as coisas não são como você tá colocando...

A psicóloga afastou-se bruscamente, pois que, em um gesto inconsciente, Milo erguera para ela as mãos em súplica.

— Eu acreditei que você tinha mudado. – A nissei derramava na réplica toda sua decepção. – Pelo visto, me enganei redondamente.

— Sao...

— Eu ainda INTERCEDI por você ao Saga! Milo... você é a LUZ da vida desse rapaz. É POR VOCÊ que ele está tentando se reerguer! Vai FINGIR que não percebeu isso?!?

— É EXATAMENTE por isso! – Sem perceber ele aumentou a voz, mais por se sentir sufocado do que por querer se impor à jovem. – Eu NÃO sou esse “guardião perfeito” de que ele precisa”!

— NINGUÉM É PERFEITO, você já ouviu isso na vida?

— Saori, eu quis falar com você porque sei que pode cuidar desses trâmites. – O tom do loiro deixava claro sua desistência em se fazer entender. A bem dizer, como ela entenderia se ele não estava revelando as reais razões daquela decisão?

Por algum tempo, a estupefação fizeram-na perder a fala. Olhava para com ele com incredulidade. E então, com legítima reprovação.

— Você enganou muitas pessoas nesta vida, Milo. Natassia, Hyoga, os amigos que se preocupavam com você, as mulheres que se envolveram contigo DURANTE e depois de seu casamento... inclusive a MIM. – Enunciava a psicóloga, de forma contida, pausada, porém não menos revoltada. – Por mais que tenha distribuído sofrimento devido ao curioso fato de se considerar o centro do universo, você fez isso com pessoas que, bem ou mal, tinham CAPACIDADE DE LIDAR com SUAS bagunças. De darem a VOLTA POR CIMA.

— Sao, escuta...

— Acha que uma pessoa que foi o REDENTOR da maldita seita Aurora do Novo Porvir tem essa mesma capacidade? – Inquiriu, quase em um brado.

Milo temeu cair de joelhos na relva tamanho o tremor de suas pernas. Suas mãos também tremiam violentamente.

— Bem, eu tenho uma notícia para você, senhor Hatzis. Camus NÃO vai para nenhuma instituição ou casa de saúde.

— Hã? – O agente murmurou, confuso.

— EU assumirei a responsabilidade por ele.

— Q-quê?

— Assim como você, eu moro sozinha, e em uma casa ainda maior que o seu belíssimo apartamento. – Ela deu de ombros com um sorriso desafiador.

— Mas... por que é que você iria abrigar o...

— Por HUMANIDADE. Não foi o que você alegou ao Saga?

Foi a vez de Milo perder a fala. Ela ajeitou as brilhantes mechas de cabelo castanho claro que uma repentina brisa espalhara pelo talhe esbelto.

— Está decidido, Milo. Vou esperar que você fale com Camus e sonde sua vontade. Veja se ele concorda ou não em vir morar COMIGO. Só depois falo com Saga.

Ao vê-lo abrir a boca para falar, ela prosseguiu, sem lhe dar qualquer chance ou trégua:

— Não precisa se preocupar mais com Camus, OK? Deixa que EU cuido de tudo. Não vou permitir que ele vá passar a vida que lhe resta enfurnado em uma casa de saúde. Camus merece conhecer uma vida normal.

— Sa... Saori...

— Avise-me assim que tiver a resposta dele, por gentileza. – Deu-lhe as costas e finalizou: – Passar bem, Milo.

Afastou-se, sem atender a nenhum dos débeis balbucios que escaparam do policial. Este contraiu os punhos sob tensão. Pegou o maço de Marlboro e enfiou nervosamente um cigarro por entre os lábios trêmulos. Súbito, arrancou-o dali e, juntamente com o maço, atirou-o para longe, em um ímpeto de fúria.

Deixou-se cair por sobre um banco próximo à fonte guardada pelo peregrino Wilhelm Willbourne, desolado, destruído. Indiferente à presença de algumas testemunhas daquela crise longamente reprimida, ele cobriu o rosto com as duas mãos, os dedos retorcidos a ponto de furar-lhe a carne, e chorou.

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Notas finais
WOW, e essa descompostura que a Saori passou no Milo! Até eu fiquei encolhida aqui como o policial... será que Camus vai mesmo deixar o lar doce lar de seu amado? E como se dará esse novo revés na vida dos dois? Confira no próximo capítulo... até lá! E cuidem-se, por favor!