Notas iniciais
Olá minhas leitoras lindaaaaaas!!!!!!!! Eis me aqui! Mil desculpas pela demora! Obrigada pelas meninas que comentaram, já estão devidamente respondidos! Vocês são meu combustível!!!!
E ai como foi o 'carna'? Passei dentro de casa, lendo, escrevendo e vendo séries como pessoa amável e sociável que sou! kkkkkkkk
Bom, ai está o demoradinho! Boa leitura e nos vemos lá em baixo!

Isabella examinou minuciosamente sua figura no espelho. Nada poderia estar fora do lugar. Se não soubesse lidar com a sua própria aparência, não poderia lidar com nada, ou talvez fosse assim que Charles pensava. Ela não poderia se descuidar. Levou a mão com as unhas impecáveis, cobertas pelo esmalte vermelho, até ao seu rosto. Limpou um mínimo borrado que o batom, da mesma cor das unhas, deixara.

Desistiu por fim de procurar um defeito inexistente e pensou como Alice a olharia com deboche se houvesse presenciado a última cena. Deu de ombros e encarou pela enésima vez o relógio delicado em seu pulso. Faltava menos de um minuto e meio para as dez horas da noite, de modo que Isabella decidiu que já era hora de esperar por ele na calçada.

Fechou a porta da sua casa, colocando a chave dentro do bolso do sobretudo, e andou até o meio fio. Passaram-se alguns poucos segundos até que viu o vulto preto do BMW se aproximando. Olhou para o relógio mais uma vez, ao mesmo tempo que o ponteiro dos segundos alinhava-se ao ponteiro das horas e minutos.

Ela arqueou as sobrancelhas, entretida com alguma piada particular. Charles era conhecido, entre outras coisas, por sua extrema pontualidade.

O BMW parou bem ao seu lado e antes que o motorista pudesse descer para abrir a porta para ela, Isabella já tinha suas mãos na maçaneta, rapidamente entrando no carro aquecido.

Sentando-se no banco de trás, a Swan mais nova abaixou ligeiramente a cabeça, fato costumeiro quando via o tio depois de um longo período de tempo. O homem, no entanto, falava ao telefone e não lhe deu a devida atenção. Ao contrário, estendeu a palma da mão como se pedisse que ela esperasse.

Isabella revirou os olhos internamente. Como se depois desse tempo todo ela não soubesse quando deveria manter a boca fechada.

– Eu não me interesso se o corpo de Alec dói, Irina... – Charles continuou a conversa despertando o interesse de Isabella assim que pronunciou o nome do garoto – Eu quero que ele volte até o galpão e termine o teste vencedor. Até porque não há outra maneira de termina-lo.

A risada encheu o carro, Isabella sentou-se confortavelmente no banco, cruzando as pernas cobertas pela calça jeans apertada e a bota preta que vinha até perto se seus joelhos.

– Ele está sangrando? Algum osso fraturado? Torção? – Charles despejou ironicamente – Não? Então digo que ele está apto e atrasado para voltar ao treinamento. Eu não quero desculpas, Irina. Alec sairá desse galpão com a missão concluída, ou em uma maca de hospital.

A última frase despertou uma antiga ira em Isabella. Alguns anos atrás se ela saísse de um treinamento queixando-se de dores seria o próprio Charles quem se asseguraria que ela acabasse em uma maca de hospital. Sem segundas chances. Desfez a cara fechada rapidamente quando sentiu os olhos do tio pairando sobre si.

– Isabella, minha bambina. – Ele saudou-a, seu timbre quase feliz.

– Tio Charles – ela trouxe a mão forte dele, aquela com o anel em ouro branco, entre as suas – Sua benção.

Charles Swan fez um gesto displicente com a mão livre, como se a abençoasse.

– Vejo que meu primo deu alguns problemas... Por acaso esse treinamento é o do labirinto, Tio Charles? – Isabella comentou, tentando parecer displicente. Charles meneou a cabeça. Os olhos de águia a estudando. – O senhor deveria dar um desconto, Alec está com dezesseis anos. Se bem me lembro aquele teste em particular era complicado.

– Eu decido se quero dar um desconto ou não ao meu filho, Isabella. Não preciso dos seus conselhos quanto a isso. – Charles retrucou audaz – E se bem me lembro, você tinha quatorze quando realizou o mesmo treinamento. Foi bem sucedida. De primeira.

Isabella tentou conter um sorriso. Primeiro porque o ultimo tom empregado pelo tio era quase de orgulho. Segundo, porque, por vezes desconfiara que Charles comparasse os dois. Ela e o filho. E com aquele último comentário tinha certeza. Seu sorriso presunçoso se abriu um pouco mais. Em comparação com Alec, ela sempre sairia vitoriosa.

– É, o senhor tem razão.

Acontece que Alec, era o motivo de Isabella ainda ser incerta sobre quem controlaria a máfia no futuro. Apesar de que, a seu ver, aquele lugar era seu por direito, já que pertenceu ao seu pai. Mas, nem tudo era uma questão de justiça. Charles ocupava o posto agora, e apesar de deixar claro para muitos a preferência pela sobrinha, Isabella achava as circunstâncias do nascimento de Alec um pouco suspeitas. Era como se o tio quisesse ter um filho. E planejasse no fundo, ceder o seu lugar a ele.

Por várias vezes se considerou tola por pensar no assunto. Era muito mais qualificada que o primo. Além de que o treinamento que Alec possuía era muito inferior em vários pontos do que ela mesma teve.

Apesar de tudo, um fato sempre a incomodava. Alec era homem. E são homens que ocupam o histórico de liderança da máfia. Não mulheres.

– Acho melhor você engolir de vez o sorrisinho que está tentando esconder, Isabella – Charles anunciou – Você tem propriedades que Alec não tem e vice versa. Além disso, não gosto que fique pensando sobre quem indicarei para o meu cargo. Quando faz isso parece que quer me ver pelas costas. Ficaria muito decepcionado se isso fosse verdade, filha.

– É claro que não é, — Isabella apreçou-se em um tom rápido, e dizia a verdade – O senhor sabe que não é, Tio Charles! Mas... Propriedades?

Charles sorriu brevemente antes de continuar.

– Você é meu melhor homem, Bella. E isso não é segredo para ninguém. Mas existem certas coisas, certas características preciosas em um líder, que Alec detém e você não.

– Como? – Isabella perguntou, incrédula. Não havia nada que Alec pudesse remotamente ser melhor do que ela.

– Você coloca medo em qualquer um, Isabella.

– E isso é ruim? – ela o interrompeu.

– Não, isso não é ruim. Porém, neste ramo, além de ser temido, precisa-se ser amado, cara mia. Temido pelos inimigos, sim. Mas amado e temido pelos de casa.

Isabella olhou para as unhas bem feitas longamente, simplesmente recusava a acreditar que o tio estava citando Maquiavel.

– Como se o senhor o fosse. – Isabella expos, por fim, tentando controlar o comportamento intempestivo.

– O que quis dizer, Isabella? – Charles lançou o olhar que fazia os maiores criminosos tremerem, mas a Swan mais nova simplesmente deu de ombros.

– O senhor me ensinou a ser assim, manter-me distante emocionalmente dos outros, para depois me dizer que isso é um defeito? Além disso, o senhor me ensinou tudo o que eu sou, Tio Charles. – Isabella explicou, pacientemente – Era mais do que o provável que eu me tornasse um espelho seu.

Charles Swan pensou um pouco sobre a premissa, e acabou concordando que Isabella realmente detinha um ponto. Seria ele, amado e temido?

– Eu te ensinei a se manter longe emocionalmente das pessoas, Isabella. É o seu gênio que faz com que elas se mantenham longe de você. Se fosse ponderada com os outros, certamente seria amada e temida.

Isabella tentou conter a sua irritação.

– O meu ponto é, se não pode se ter as duas coisas, é muito melhor ser temido. Mantém os negócios em andamento, ou pelo menos é o ponto de vista de Maquiavel sobre o assunto. Logo minha ‘propriedade’ é muito mais vantajosa. A não ser que o senhor pense que o amado Alec consiga um dia parecer temível com o seu rosto de filhotinho perdido em dia chuvoso.

A risada de Charles saiu alta naquele ambiente fechado.

– Sabe, Isabella... Pode demorar algum tempo, mas eu sei que Alec conseguirá um dia ser temível. Todo esse seu monólogo é porque você também sabe. Talvez ele nunca chegue ao seu nível, é claro. Mas tenho certeza que alcançará algo aceitável. E você, minha filha, conseguiria ser ao menos um pouco amada?

Isabella engoliu em seco.

– E é melhor que você mude o seu jeito de falar comigo quando o assunto é Alec. Não gosto do seu tom. – Charles informou. Os olhos azuis idênticos aos seus, dardejando-a.

– Eu não gosto de como o senhor escondeu o seu súbito interesse pelos russos – Ela sustentou o olhar em seu interlocutor, mesmo que um tipo de alarme interno a avisasse que estava ultrapassando o limite -, e de como continua o fazendo.

Charles Swan olhou bem dentro dos olhos da atrevida diante de si, antes de falar.

– Continue agindo assim e terei que castiga-la, Isabella – Ele comentou banalmente, como se falasse do tempo, exceto pelo olhar vívido lançando a mais nova – Não me obrigue a fazê-lo.

Bella engoliu a enxurrada de atrevimentos, que, com qualquer outra pessoa, já estaria inundando o interior do BMW. Não com Charles Swan, constatou infeliz, abaixando a cabeça em sinal de respeito.

Perdonami, zio. – Deixou que as sílabas conhecidas escapassem por entre os lábios. Charles passou os dedos por sua cabeça, um gesto que para um desavisado, parecia paternal.

– Sabe, Isabella. Quando você fala nesses termos quase parece uma boa menina.

Ela respirou contidamente diante de tal afirmação e decidiu por mudar o rumo da conversa. Apesar de que o novo assunto em pauta provavelmente arruinaria qualquer bom humor restante do mais velho.

– Tio Charles – começou cautelosa, ciente de que entrava em um terreno minado -, alguma coisa nova sobre o meu irmão?



O estabelecimento que parecia de quinta categoria do lado de fora, fazia jus a sua fachada no interior. Isabella pensou quem seria esse tal de Khoury que escolhera um lugar tão imundo para realizar seus negócios ilícitos com um filho de um banqueiro. E, mais importante, o que Charles queria com ele a ponto de aparecer no campo de trabalho?

Balançou a cabeça, tocando o suporte que continha as duas armas na cintura. Depois que ela e o tio entraram no estabelecimento decadente, Charles perguntou ao senhor no balcão que servia as bebidas, onde poderia encontrar o Khoury. Levou um pouco de tempo, e análise da figura de Charlie, até que o homem levemente calvo apontasse para uma escadaria e resmungasse em um sotaque que a reunião acontecia na segunda porta a esquerda.

Resmungasse em sotaque russo. Russo.

Charles não se afetou com o olhar repressor da sobrinha enquanto acabavam de subir as escadas. Antes de entrar pela porta, no entanto, ele olhou para Isabella.

– Você vai ficar aqui fora, de vigia. Seu rosto é conhecido pelo Barclay.

Isabella pensou seriamente em protestar, mas sabia que aquilo era sensato. Charles então virou a maçaneta e entrou pelo cômodo iluminado, bem mais confortável que o resto do estabelecimento até então. Isabella pode vislumbrar quatro, ou cinco homens dentro do quarto.

– Senhores – a falsa voz educada de Charles resoou antes que ele pudesse fechar a porta – Sei que não fui convidado, mas receio ter uma inclinação para o poker essa noite.

E essa foi a última coisa que Isabella ouviu durante os próximos dez minutos que se sucederam. Tirando, é claro, as vozes masculinas alteradas, e o barulho de copos quebrados que vinham do salão lá em baixo. Bem como o gritinho fingido de alguma puttana.

Passos ecoaram pela escada e Isabella levou a mão despropositalmente para uma de suas armas. Esperou pacientemente que a figura aparecesse em seu campo de visão. Mas ela não estava preparada para o que estava por vir. A primeira coisa que apareceu foram os cabelos de um tom levemente puxado para o caramelo. Logo em seguida, as sobrancelhas grossas e escuras adornando e aumentando o brilho dos olhos verdes esmeraldinos. O rosto completo revelou-se, e a seguir o corpo másculo que Isabella preferiu não avaliar.

O Agente Edward Masen subiu o ultimo degrau da escada e parou, olhando diretamente para ela, sorrindo logo a seguir. O maldito sorriso de lado, assinalou Isabella mentalmente, ao mesmo tempo em que sacava a arma. E para a sua surpresa, Masen empunhava uma arma também.

– Olá, Isabella. – Ele saudou, o sorriso aumentando um pouco mais. Bella se perguntou por que diabos o homem sempre falava seu nome daquele modo peculiar, pausado e rouco.

– Pensei que tinha deixado claro o que aconteceria se nos víssemos novamente, Agente Masen. – Isabella começou, com uma frieza calculada que, de fato, não era o se passava em seu interior.

– E deixou, senhorita Swan – Edward falou, dando de ombros – Mas, pensei que poderia mostrar um pouco de gratidão e poupar minha pobre vida – continuou, com falso drama, logo após ficando sério – Afinal, é por minha causa que você está aqui agora.

– Estaria aqui do mesmo modo se você não tivesse arruinado os meus planos naquela festa. – Isabella retrucou — Então considere sua pobre vida, não poupada.

– Você me decepciona Isabella. Eu andei pesquisando, e soube que essa gente da Cosa Nostra, costuma ser agradecida com aqueles que lhes prestam favores. Sejam eles diretos ou indiretos. Não há modo de negar que eu lhe prestei um favor, mas você não honra o sentimento de gratidão de seus antepassados...

Edward deu um passo para frente e Isabella engatilhou sua arma.

– Nem mais um passo, Masen.

Edward soltou um sorriso debochado.

– Vai atirar em mim se eu o fizer, Isabella? Vai comprometer seja qual for a sua função, por minha causa? Sendo assim, atire. Adoraria arruinar sua missão, como você mesma diz, uma vez mais.

A gargalhada baixa que Isabella soltou quase assustou Edward. Quase.

– Pois saiba, Federal, que minha missão aqui hoje nada mais é do que viajar essa porta. E isso implica me livrar de quem quer que ameace o que está acontecendo lá dentro. Corrija-me se estiver errada, mas, você se qualifica no termo ameaça, não é mesmo? – o brilho dos olhos de Edward diminuiu – Oh sim, é claro que você se qualifica. E será um prazer me livrar de você.

Foi a vez de Isabella dar um passo para frente, mas seu pé nunca chegou realmente a tocar a superfície a diante. Uma sequência de seis tiros foi ouvida. A audição de Isabella lhe dizia que eram de, pelo menos, duas armas diferentes. Não houve tempo para hesitação. Ela abriu a porta do quarto empunhando a pistola para o cômodo.

Quatro corpos se encontravam sem vida no chão, enquanto um homem gritava com a mão na perna, onde certamente um tiro o acertara. Mas Isabella não se incomodou em conferir quem eram, porque seus olhos estavam no atirador sobrevivente que abaixava a arma, sorrindo-lhe abertamente. Ela também abaixou a sua própria arma, o coração voltando ao ritmo normal quando seu cérebro processou que nenhum dos disparos afetara Charles.

Mas então ela viu os olhos do tio adquirirem o brilho assassino que nem sequer abandonaram totalmente, erguendo a arma para além dela. Isabella não precisou de mais nada para saber do que se tratava, olhando rápido viu que Edward entrava pela porta empunhando a arma para o seu tio.

E então, com um passo veloz para o lado, ela pôs-se na linha de tiro dos dois, levantando a mão desarmada na direção do tio. Um pedido claro para que ele tivesse calma. Engoliu em seco, se demorasse em seu lugar dois segundos a mais, um dos dois representaria um quinto corpo sem vida no chão. E ela apostaria que naquele papel estaria o agente Edward Masen.

Mas, na vida, nada é cem por cento certo. Não conhecia as habilidades de atirador que Edward possuía a fundo. Então, existia a mínima possibilidade de que Charles fosse o atingido. Ou, é o que ela pensaria algumas horas depois, quando perguntar-se-ia por que diabos se colocou entre os dois.

Bambina, sugiro que volte para o seu lugar. Ou vai ter que visitar um hospital graças a uma bala que passará de raspão pela sua cabeça, atingindo o crânio do rapaz ali, logo atrás. – Charles disse, tão friamente, que Isabella apostaria que um calafrio tinha subido pela espinha do agente Masen.

– Charles – ela começou, a voz levemente temerosa -, ele não é uma ameaça.

Edward riu e Isabella sabia bem o porque. Não fazia mais de dois minutos que ela o qualificara como aquilo que agora afirmava que ele não era.

– Oh não? – Charles devolveu sarcástico – Então porque ele está apontando a arma em minha direção, Isabella?

A mafiosa olhou para trás por sobre os ombros. A arma de Masen antes apontada para Charles pelo vão do pescoço dela, encontrava-se agora a centímetros de seu rosto. Mas foi para os olhos verdes que Isabella olhou. E, como sempre, Edward não teve escolha a não ser olha-la de volta.

– Quer fazer o favor de abaixar a porra da arma? — Ele encarou a figura feminina que sussurrava a sua frente. A mão dela ainda estava estendida para o tio.

– Claro. Quando ele abaixar a dele. – Edward disse em alto e bom som. Fazendo com que Charles Swan desse uma risada tão alta que poderia se equiparar com o barulho dos tiros de outrora. Ele constatou então que Isabella teve um excelente professor durante todos esses anos.

– Edward – a mulher sibilou, em um tom quase... implorativo. A mão de Edward foi se abaixando lentamente. Não porque a respeitava, ou estivesse com medo de Charles Swan. Aquela era a primeira vez que Isabella o chamava apenas pelo primeiro nome. E aquele determinado fato fez com que seus músculos agissem conforme ela pedia.

– Então, tio Charles – ela respirou profundamente e Edward odiou Charles Swan por fazer com que ela se comportasse daquele jeito. Quase como uma submissa a ele -, como eu dizia, ele não representa um perigo. O rapaz está comigo, sob o meu controle.

Charles olhou sarcasticamente para a sobrinha.

– Você sabe que ele é um policial, não sabe?

Edward alargou os olhos verdes diante daquela pergunta, que nada mais era do que uma afirmação. O que, possivelmente, em sua figura diria para Charles Swan que ele era um policial?

O corpo de Isabella tremeu a sua frente em uma risada. Mas Edward pode perceber que aquele era um disfarce para o nervosismo que ela sentia.

– Claro que sei, Tio Charles... Talvez ele seja meu informante! Foi com o senhor que aprendi que não se deve concluir as coisas pelo que se vê apenas na superfície.

Edward admirou a mulher a sua frente mais uma vez. Ela blefava bem. Mas quando os olhos gélidos de Charles pousaram nos verdes de Edward, ele percebeu que o homem era uma verdadeira ave de rapina, e não comprava totalmente a história da sobrinha. Mas não foi isso que fez com que um tremor percorresse as suas vértebras. Os olhos azuis e gélidos a sua frente eram muito peculiares a Edward. Ele via aquele olhar em Isabella, claro que um pouco menos poderoso. Mas era definitivamente o mesmo olhar. E essa semelhança vista tão de perto, de fato, o assustara.

– Espero que saiba o que está fazendo, Isabella – Charles assinalou, olhando de volta para a sobrinha – De qualquer modo, deixei uma sobra para você.

Charles apontou para o ferido que olhava a cena com os olhos arregalados. E então, Isabella pode, pela primeira vez, contemplar o crime. Os quatro homens mortos no chão, formavam uma única poça de sangue, que arruinava o carpete. Três foram atingidos na cabeça, e um no peito.

O ferido trêmulo, encostado na parede do quarto, obteve a sua atenção logo em seguida.

Isabella percebeu que se tratava de Thomas Barclay. Seu tio deixara o filho do banqueiro para que ela liquidasse. Uma clássica versão de que se deve acabar com o que se começa. Ela começou com o Barclay, era mais que justo que ela acabasse com ele.

Isabella não tinha problemas em matar pessoas. Pelo menos, não mais. No entanto, detestara aquele tipo de atitude recorrente do tio. Não ter problemas não significava que morria de amores pelo assassinato.

Ela empunhou a arma na direção do jovem Thomas, lamentou-se por ele um instante. Certamente o garoto nunca soube que a consequência de suas ações o levaria até aqui.

– Oh não! Não! Por favor! Eu não vou falar nada, eu juro! Eu juro! – Ele murmurou, enquanto ela engatilhava a arma. A deixa mais famosa de quem vai ser assassinado, concluiu Isabella, sombriamente.

– Isabella! – Edward sussurrou espantando, quando percebeu que ela realmente iria matar aquela pessoa.

– Não se meta – ela sibilou, e algo em seu olhar fez com que Edward deixasse que ela prosseguisse. Ela estava... afetada. O federal engoliu em seco tentando se consolar de que Thomas morreria de qualquer forma. Se Isabella não o fizesse, o próprio Charles o faria. Mas Edward preferiria mil vezes a segunda opção.

Então ela apertou o gatilho, calando os pedidos de clemência do rapaz. Isabella olhou para a sua vítima, os olhos perdendo o brilho da vida. O sangue jorrava em grande quantidade pelo buraco de saída da bala, atrás da cabeça de Thomas. No buraco de entrada, na testa do rapaz, apenas um fiapo de sangue escorria por entre as sobrancelhas.

E então o corpo inerte acabou de escorregar até o chão.

– Belo disparo, Principessa mia. – Charles comentou, quase feliz, como se a parabenizasse por um bom resultado na escola.

Grazie, tio Charles. – Isabella agradeceu, evitando encontrar o olhar de Edward. Sentiu a mão pesada de Charles Swan em seu ombro.

– Acho que você pode se virar para ir embora para casa. – Charles afirmou, olhando sugestiva e raivosamente para a figura de Masen, que engolia em seco olhando para o corpo sem vida de Thomas.

Isabella simplesmente sacudiu a cabeça. Não era hora de comprar brigas com o tio. Charles deu alguns passos em direção a porta. Parando bem ao lado de Edward Masen e olhando para Isabella.

– Sugiro que saia daqui antes da polícia chegar, Bambina. – Então ele encarou os olhos verdes do agente, vários segundos se passaram e, por fim, Charles disse mordaz – Oh, engano meu! Parece que ela já está aqui.

Isabella soltou um longo suspiro assim que a figura do tio saiu pela porta. Como se tivesse tirado um peso das costas. Olhou para todo o quarto, evitando a figura alta que ainda permanecia parada e imóvel, e concluindo que nada naquela sala poderia incrimina-la decidiu por ir embora. Com a manga do sobretudo limpou a maçaneta da porta e percebendo os olhos verdes colados em seus movimentos deu as costas, indo na direção das escadas.

A criminosa escutou seu nome ser chamado várias vezes enquanto descia as escadas e atravessava o salão, saindo do estabelecimento. Foi só lá fora, que ela parou, sentindo a mão grande puxando o seu braço e olhou friamente para ele.

– Você não deveria estar aqui Edward. – a voz dela era baixa e ameaçadora – Faça um favor a si mesmo e volte para o lugar de onde saiu.

A expressão dele era cautelosa.

– Eu... – Edward passou a mão pelos cabelos bagunçados, a mulher percebeu a nítida confusão que ele se encontrava – Eu vou leva-la para casa, Isabella.

Era riu sardonicamente.

– Eu acho que uma pessoa como eu consegue lidar com algumas ruas escuras, Masen. Ou, espere, posso pegar um taxi, como qualquer outra pessoa normal!

Ela tentou livrar-se da mão dele, mas Edward a segurou ainda mais forte, o mar verde revolto.

– Eu tenho que conversar com você!

Isabella ergueu as duas sobrancelhas.

– Eu não tenho o que falar para você.

Edward se aproximou de Isabella, sua boca era uma linha fina, a mandíbula trincada. Quando ele falou, Bella pode sentir o ar quente do hálito dele acariciar a pele fria de seu rosto.

– Eu insisto.

O percurso de menos de quinze minutos parecia durar uma eternidade. O interior do volvo era simplesmente pequeno demais para abrigar os dois ocupantes e a tensão tangível que pairava sobre eles. Edward sabia o que devia fazer, mas era simplesmente complicado demais. Difícil demais.

Passou as mãos novamente pelos cabelos acobreados, dirigindo em alta velocidade. A imagem da mulher ao seu lado apertando o gatilho a sangue frio o intrigava, e ainda não conseguira afastar aquele momento dos seus pensamentos. Lançou um olhar rápido para a figura feminina sentada ao seu lado. Ela olhava a janela, as mãos jogadas em cima das pernas, nenhum sinal de nervosismo. Parecia até, de certa forma, entediada.

Edward se perguntou quantos ela já havia matado para conseguir aquela aparente calma que transmitia. Mas, Masen sabia que havia visto algo em seus olhos momentos antes de matar Thomas. E queria muito entender o que se passava naquela cabecinha complicada da mulher, mesmo que algo em seu interior lhe avisasse que talvez não fosse capacitado para isso.

Ele estacionou o carro rente ao passeio, desligando-o logo em seguida. As luzes do apartamento de cima estavam acesas e ele pensou o que a pequena Alice estava fazendo agora. Olhou para o lado e resolveu começar a falar antes que Isabella fizesse menção de sair do carro.

– Sabe, Isabella. Thomas era... inocente. – começou incerto recebendo um olhar debochado da mulher.

– E o que acha que eu sou, Agente Masen? Um Dexter da vida real que só mata se o cara for malvadinho? Eu não preciso de princípios nobres para dar fim à vida de alguém.

Ela parou de falar, o silêncio dominando o carro momentaneamente.

– Matei Thomas Barclay sim. Porque para a máfia, ele precisava morrer. Era uma testemunha e não poderia sair daquele quarto andando. Eu não sei por que Charles matou aqueles homens e, francamente, não me interessa saber. Certamente se meteram no que não deviam, ou então não estariam em sacos pretos agora.

Edward riu sem humor.

– É impressionante o modo calculista com que você trata o assunto.

Foi a vez de Isabella gargalhar.

– Porque são negócios, e negócios devem ser tratados assim. Ou você acha que os traficantes que eu lido, os donos das casas de prostituição, e mais tantas outras figurinhas da criminalidade, me respeitariam se eu fosse tomada de piedade? – Isabella falou a ultima palavra quase que com nojo — Nunca matou um homem, Federal?

Edward engoliu em seco, as mãos em punhos sobre seu colo. O pescoço grosso pendeu para trás, o verde encarando o teto do veiculo.

– Uma vez. – Murmurou ele por fim. Os olhos de Isabella se arregalaram brevemente, reconhecia aquele sentimento, já tinha passado por aquilo.

– Eu... não devia ter perguntado. – Isabella disse, logo após chutando-se internamente por estar fazendo algo perto de pedir desculpas para ele – Se me der licença, vou entrar agora. Nada de bom pode surgir do nosso papinho, Masen. – olhou pela janela – E não posso pensar em nada que você venha a me dizer aqui. Minha mente ainda está ocupada com a discussão que tive com Charles hoje, Alec, a porra dos russos, meu irmão...

Isabella apertou os olhos quando percebeu o que acabara de falar. Que merda acontecia com ela quando estava com a porra do agente Masen?

– Seu... irmão? – Ele perguntou incerto.

– Sim. E não é da sua conta. – Isabella retrucou.

Edward riu, o bom humor voltando.

– Sempre tão cheia de reservas, Isabella... Não me espanta que você não possa demonstrar gratidão, ou mesmo se importar...

A raiva invadiu Isabella.

– Eu sei demonstrar gratidão, Federal! – A pulsação dela martelava em suas veias agora. Edward a acusava de não ser grata. E ela tinha quase certeza que demonstrar gratidão era um fator importante para ser amada... Ou assim Charles pensaria.

– Tanto sei demonstrar a porra desse sentimento, que serei grata a você agora, Masen. Mesmo que não tenha pedido para terminar minha missão, você o fez.

Isabella retirou o cinto e aproximou seu corpo do de Edward. O homem tencionou no assento do motorista. Era perturbador demais tê-la assim, tão perto.

– O que está fazendo, Isabella?

Ela simplesmente riu.

– Pude perceber que você gostou disso ontem a noite, Federal. – ela disse apoiando uma das mãos no ombro dele. Edward suspirou fundo, seu corpo tornando-se ciente da presença da mulher – E para demonstrar minha gratidão, estou disposta a lhe proporcionar uma segunda dose.

Isabella levou a mão que estava no ombro másculo até a nuca de Edward, onde enlaçou os cabelos rebeldes com os dedos, sentindo a maciez dos fios... Não pode explicar, mas era infinitamente bom toca-los. Edward fechou os olhos firmemente, travando o maxilar. Lembrou-se de como queria sentir aquele toque quando a viu pegando daquele jeito no cabelo de Thomas Barclay.

A menção do defunto, mesmo que em sua cabeça, quase o despertara da áurea que envolvia os dois naquele momento. Mas, Isabella trouxe aquela boca carnuda, colocando-a na dele. E a única coisa que Edward pode fazer foi agarrar com força aqueles cabelos negros aprofundando o beijo dos dois.

Ambos tentavam tirar o máximo que podiam do outro, sentir o máximo do outro. Era um beijo envolvente, feroz, e extremamente luxurioso.

Edward apertou firmemente o quadril de Isabella, resoluto em puxa-la para o seu colo. Mas ela ficou imóvel, logo após terminando o beijo. Levou a sua boca até perto do queixo do homem, mordiscando a região, sentindo a barba por fazer arranhando seus lábios. Deliciou-se com aquela sensação. Ou melhor, ambos deliciaram-se.

– Isabella... – Edward murmurou.

E ela estava sentada novamente em seu lugar, olhando para frente, tentando controlar a sua respiração.

– Você realmente não acha que um único beijo basta, não é? – Edward perguntou, desacreditado.

Isabella o olhou, a respiração quase controlada, as feições sérias.

Tem que bastar, Agente Masen. Porque isso – ela apontou para os dois –, acaba aqui.

Edward engoliu em seco e Isabella prosseguiu.

– Esse joguinho não é mais sustentável. Não me persiga mais, eu claramente não procurarei você também. Eu não te matei, em troca, você mantém a sua boca fechada. Uma troca justa.

Isabella procurou os olhos verdes.

– Você não me atrapalhará mais, eu me manterei longe do seu campo de trabalho também. Porque Federal, a coisa que mais prezo na vida é o meu trabalho, e agora que estamos “quites”, eu realmente não sei qual seria a minha reação se você me atrapalhasse novamente. A amostra que você viu hoje não representa uma parcela mínima do que eu sou capaz.

Edward olhou para frente. As mãos apertando firmemente o volante.

– Isso acaba hoje. – Isabella reafirmou, e Edward balançou a cabeça uma vez. Ela quase sorriu.

– Adeus, Federal. – Ela disse, abrindo a porta do carro, Edward simplesmente lhe lançou um sorriso de lado. Sua marca registrada.

Viu a mulher andar calmamente até a porta de sua casa, remexendo nos bolsos a procura da chave. Ele mesmo remexeu no bolso interno de seu casaco tirando de lá um gravador preto. Apertou um pequeno botão e o aparelho parou de gravar.

Olhou pelo retrovisor e contemplou a porta já fechada, alguma luz dentro da casa se acendeu. Batucou o gravador no volante. Em uma coisa Isabella estava certa, aquilo acabava essa noite, concluiu com uma pontada de tristeza que não soube dizer de onde vinha. Ligou o carro e olhou para o gravador novamente.

Ele tinha tudo o que precisava.

Notas finais
Opsssssssss....
Estou impressionada com o TANTO de leitoras FANTASMAS que Rede de Segredos tem! Pessoas que não aparecem, eu curto vocês! Mas curtiria mais ainda se deixassem um comentário... Não custa nada, e interfere diretamente com a velocidade que os capítulos são postados.
Por ultimo, para não dizerem que meu espírito anti carnaval está denegrindo a página, uma musiquinha carnavalesca que eu acho que deveria ser lema de toda leitora de RS:
"Olivia, eu quero! Olivia, eu quero! Olivia eu quero comentar! Meus dedos coçam! Meus dedos coçam! Vou comentar pro próximo capítulo chegar!"
Então minhas caras, vou-me. Antes que eu diga algo mais constrangedor que a paródia a cima!
beijos, COMENTEM, e até o próximo!