Rede De Segredos
31 Capítulo 27 - PARTE II
Notas iniciais
Jasper levou os dedos engordurados à procura de mais frango na vasilha branca pousada em cima da escrivaninha e, depois de uma mordida generosa, tomou um gole de cerveja direto da garrafa.
Ele fora abandonado.
Emmett saíra com alguém, provavelmente uma nova namorada, Edward estava em um estado de espírito que Jasper secretamente denominou de “ressaca pós encontro com o chefão / reconquistar a mafiosa parte 2” E bom, ele estava sozinho em uma noite de sábado, abandonado por seus dois, únicos, amigos e também pela sua série preferida que acabara de entrar em hiatus.
A situação era tão crítica que ele até cogitou, mais cedo, ligar para sua última "namorada". Porém, lembrou-se de como o último — e primeiro — encontro tinha sido desastroso. Era tão errado assim pensar que depois de alguns beijos e três horas de conversa saudável sobre séries ele tinha encontrado a mulher da sua vida?Bom... Talvez tenha sido errado externar isso para ela...
Jasper deu de ombros, conformado. Jamais poderia tirar a limpo aquela história, já que Clary– ou seria Cherry? — o ameaçara de morte se chegasse a menos de cem metros dela. Na época, Jasper se perguntou se ela estava ciente de que precisaria de uma ordem judicial para realmente garantir aquilo.
Olhou para a tela do computador e colocou os dois pés em cima da mesa, esperando que algo pudesse brotar da tela iluminada.
E brotava: o tédio.
Jasper se cansava com muita facilidade, desde pequeno. Os brinquedos normais não despertavam sua atenção, e ele preferia desmontar um carrinho de brinquedo elétrico do que guiá-lo pelo controle. Sua mãe não compreendia aquilo muito bem, e ameaçava tomar os brinquedos se Jasper continuasse com aquele espírito destruidor.
Foi em uma manhã natalina, quando o menininho meio arruivado ganhou um avião de controle remoto, que a senhora Whitlock percebeu que seu filho era especial. No melhor sentindo da palavra. Os olhinhos caramelo de Jasper arregalaram-se quando o pai manuseou o controle e o brinquedo levantou voo. Jasper correu atrás dele, e depois até a sua mãe, balançando-a pelas pernas. Quando a mulher pensou que o filho fosse agradecer o presente, ele simplesmente virou-se para ela e disse: Mamãe, como pode? Como voa? É maravilhoso... Eu tenho que descobrir! Por favor... me deixe desmontá-lo.
Jasper sempre teve uma inteligência muito acima da média, e isso o levou até o trabalho que executava hoje. Não havia código inquebrável para ele na rede. Se a informação existisse, não importava que estivesse escondida por falsas páginas e milhares de barreiras cibernéticas, Jasper Withlock a encontraria.
Mas, naquele começo de noite, não havia nada remotamente interessante para ocupar seu cérebro bem dotado e irrequieto. Contudo, Jasper sabia que, se não encontrasse algo para fazer, a alternativa seria dar uma limpeza em seu apartamento, coisa que ele não se sentia muito inclinado para executar. Quer dizer, se lavasse todas as louças amontoadas na pia e a pilha de roupas sujas, e ainda jogasse fora todos os lixos espalhados pelo seu “escritório”, o que sobraria para Marie, a empregada, na segunda pela manhã?
Pensando que deveria respeitar o trabalho de Marie, e mesmo sabendo que essa fora a desculpa mais esfarrapada que um dia já contou a si mesmo, Jasper desistiu da ideia de limpar o apartamento, abandonando-a permanentemente. Mexeu no mouse e visualizou a sua área de trabalho do seu computador, vendo vários jogos recém-lançados, mas já zerados. Mesmo que aqueles ícones fossem inúteis lhe deram a esperança de que, se não encontrasse nada ali, poderia sempre voltar para o seu videogame e jogar “The Last Of Us”. Jasper tremeu só com a expectativa, adorava os gráficos do jogo.
Os olhos ágeis continuaram passando pelos ícones quando, de repente, uma figura de notebook, juntamente com o nome "Alice" brilharam aos olhos de Jasper.
Santo Deus... Ele quase se esquecera de que tinha clonado o computador de Alice algum tempo atrás.
Colocou o ponteiro do mouse em cima do ícone, e parou.
– Bisbilhotar ou não bisbilhotar... Eis a questão. – murmurou alto e coçou a barba que nascia do queixo. Ele tinha clonado, mas não tinha dado um tour pelos arquivos da quase projeto de criminosa. Tecnicamente, Jasper ainda não invadira a privacidade dela, mesmo que já estivesse meio caminho andado. Um clique e ele saberia tudo sobre ela, as páginas que visitava, como executava os trabalhos de pseudônimo investigadora...
Será que ela mantinha fotos reveladoras? Jasper arregalou os olhos levemente, mas depois deu um tapa no meio de sua própria testa. Claro que Alice, a amadora que dizia entender de computadores, não cometeria um erro tão juvenil quanto esse. Infelizmente. A palavra passou pela cabeça antes que Jasper pudesse contê-la.
– Só uma olhadinha não vai fazer mal... — ele sorriu, tal qual uma criança prestes a fazer algo de errado — Ela nunca vai saber.
Ele olhou por sobre os ombros, para se assegurar de que nada, nem ninguém, o espiava, mesmo sabendo que não existia a possibilidade de ter mais alguém no apartamento. Jasper posicionou o mouse em cima do ícone, preparando-se para clicar e então o chamado alto do celular o pegou desprevenido, assustando-o.
– Mas, que porra! — Ele praguejou, e fisgou o aparelho. Um nome brilhava no visor: Alice.
Todo o corpo de Jasper congelou. Como assim, Alice? O que ela poderia remotamente querer com ele? A não ser que... Os olhos de Jasper voaram para o computador, para depois varrer o quarto. Quais eram as possibilidades que ela soubesse sobre o pequeno segredinho dele? A mente de Jasper não precisou trabalhar por muito tempo para saber que a probabilidade era praticamente nula.
O telefone chamou até cair, e Jasper agradeceu aos céus. Mas, aparentemente, qualquer divindade que tivesse escutado sua prece, não ia lá muito com sua cara. Já que, quase imediatamente, voltou a tocar.
Incerto, mas também movido pela curiosidade de saber o que Alice poderia querer com ele, Jasper se aproximou cautelosamente do aparelho, pegando com a mão grande e apertando o botão para atender.
– Alô? – ele perguntou baixinho, desconfiado. Preparando-se para ouvir outra voz que não fosse a de Alice, e perceber que tudo aquilo não se passava de um delírio. Ele estava tendo delírios envolvendo a mulher desde que ela... bom... o atacou na cozinha de Edward. Mas, geralmente, os delírios não envolviam uma ligação. Neles ela sempre estava bem perto e...
– FINALMENTE – o grito de Alice desviou os pensamentos de Jasper do destino final, o homem afastou o telefone levemente do ouvido — Mache cosa,o que você estava fazendo para demorar tanto?
Estava tentando resolver a dúvida interna de espiar ou não os seus dados, e eu decidi que não haveria problema. Mas você me atrapalhou.
– Saiba que eu tenho uma vida longe do celular, projeto de criminosa. – Jasper esclareceu, pomposo.
– Claro... – ele ouviu o tom debochado de Alice do outro lado – E ela certamente se interliga ao computador. E pare de me chamar assim, é simplesmente ridículo!
Jasper abriu um sorriso, colocando uma mão sobre o quadril.
– Mas é o que você é!
– Jasper... Eu realmente não tenho tempo para isso, eu... – Alice fez uma pausa e Jasper franziu o cenho, a voz dela tinha se tornado séria, e ele sentiu-se impelido a instigá-la.
– Você?
– Eu preciso da sua ajuda... – Alice disse, com um suspiro – Quer dizer, não te custa nada, eu só preciso saber onde o Edward está. Eu preciso falar com ele e eu já cansei de tentar ligar.
Jasper abriu um sorriso largo.
– Você está pedindo a minha ajuda?
– Eu estou pedindo uma informação. – Alice se corrigiu – Eu quero... quero que ele e a Bella acertem as contas, eu tenho os trunfos necessários para fazê-lo ir atrás dela, eu sei que tenho. Mas, para isso, eu preciso saber onde ele está. Você está com ele, ou sabe onde ele se encontra? – Alice engasgou – E se não sabe não poderia... descobrir isso para mim?
Jasper levantou uma sobrancelha, surpreso. Mas estranhamente gostou do fato de Alice ter ligado para ele para pedir... ajuda.
– E o que eu ganho com isso? – perguntou, a voz levemente brincalhona. Ouviu o suspiro pesado do outro lado.
– Mas será possível? Eu PRECISO falar com o Edward! Que coisa... Eu não deveria ter ligado para você! Eu não sei onde estava com a cabeça. Desculpe incomodá-lo e...
– Ei, Alice – Jasper a interrompeu – Eu só estava brincando! Pelo visto o assunto é mesmo sério. Tudo bem, Edward está em casa agora. — O Whitlock se apressou para dizer. Geralmente Alice levava tudo na brincadeira de um jeito muito divertido para ele. A sua reação agora, no entanto, dizia para Jasper que ela realmente precisava da informação.
– Você acha que ele vai me deixar subir? Quer dizer, parece que ele está ignorando tudo relacionado à bambola, então...
– Essa concepção dele mudou. – Jasper informou, andando de um lado para o outro no quarto – Ele quer encontrar a primeira sobrinha agora.
– O QUE? – Alice berrou pelo celular, e Jasper perguntou-se se aquilo era hábito comum dela. — Mas... como assim? Eu tentei falar com ele por dois meses, ele não atendeu minhas chamadas, e...
Jasper soltou um suspiro.
– Isso foi antes dele se encontrar com o poderoso chefão. – O Withlock se jogou na cama recostando-se na cabeceira – É uma história relativamente longa. Quer que eu lhe conte enquanto vai de encontro ao Edward?
Jasper Withlock finalmente tinha achado a ocupação que tanto desejava naquela noite.
~-~
Depois de passar um par de horas em seu quarto, Isabella decidiu que não poderia deixar de contar a Charles sua decisão. O quanto ela poderia adiar aquilo? Era extremamente ridículo e só pioraria a reação de seu tio quando descobrisse.
Ela convenceu-se de que ele poderia utilizar o federal como moeda de troca por aquilo também. A segurança dele estava assegurada por outro acordo. E Charles sempre manteve sua palavra.
Isabella desceu as escadas, encaminhando-se para o escritório do Swan, tentando não pensar no fato de que poderia estar entregando a máfia em uma bela bandeja de prata para Alec nesse instante.
Charles não poderia ter falado sério quanto aquilo. O primo não tinha o talento nem a força de vontade para aprender a ser um mafioso. Não fazia o menor sentindo... Seu tio não jogaria na lama o futuro da máfia italiana por uma recusa de um pedido de casamento, jogaria?
Parou de frente para a porta do escritório, que estava apenas encostada, levantando a mão para bater.
– Eu quero isso arranjado rapidamente, Bertolazzo. – A mão de Isabella parou no ar, antes que ela pudesse bater na porta, assim que a mafiosa ouviu o sobrenome italiano que fora proferido. Permaneceu sem anunciar sua presença.
Diogo Bertolazzo... Isabella franziu as sobrancelhas. O especialista em fazer com que assassinatos parecessem simples e inocentes acidentes casuais. Ele ia muito além do famoso “sem corpo, sem crime”. Às vezes, certas pessoas precisam ser eliminadas, mas não podem simplesmente desaparecer. O que Charles poderia querer com ele? Ela revirou sua mente àprocura de alguém importante que, no atual momento, pudesse representar um problema para os negócios, mas não havia ninguém assim. Ninguém que demandasse Diogo Bertolazzo para resolver o caso.
– Algumas... semanas? – Isabella ouviu a voz de Charles inquirir, incrédula. Ela empurrou a porta cuidadosamente, criando uma fenda maior. Isabella levou um de seus olhos até ela, para espiar o que acontecia lá dentro. O orbe azul visualizou as costas da cadeira pomposa de Charles. O mafioso olhava para a janela e não podia vê-la.
Cuidadosamente, para que não fizesse barulho, Isabella abriu um pouco mais a porta, ainda indecisa entre esperar ou sair dali.
– Eu sei que isso leva tempo, Bertolazzo... Va bene! Eu já estou cansado de saber dos seus métodos, não é a primeira vez que contrato os seus serviços. – Charles disse, e Isabella soube ler a impaciência e o desgosto em sua voz – Contando que o serviço seja bem feito, como sempre, eu não me importo de esperar por algumas semanas. Um acidente, Bertolazzo. Uma tragédia. Essa morte não pode levantar suspeitas, nem nas mentes mais adeptas a uma teoria de conspiração, de que poderia ser um assassinato. Todas as evidências de um acidente devem estar cristalinas para a polícia e para qualquer um que queira conhecer as minúcias da morte, fui claro?
Isabella apertou os olhos. Quem quer que fosse o futuro cadáver, ele realmente estava no caminho de seu tio. Ela decidiu permanecer ali no escritório, primeiro porque possuía a curiosidade de saber quem era o indivíduo que Charles gostaria de mandar dessa para melhor com tanto afinco, cuidado, e profissionalismo. Segundo, porque ela sabia que cedo ou tarde teria que enfrentá-lo. E Isabella Swan não era mulher de postergar coisas.
– Você já sabe que dinheiro não é problema para mim. Só faça o que você faz de melhor, Bertolazzo. – Charles Swan parou por alguns segundos e, quando voltou a falar, sua voz estava afiada como lâminas e ele parecia se deliciar com a carne que dilacerava — Mate Edward Masen.
Foi como um caminhão acertando Isabella em cheio, pegando-a desprevenida e quebrando todos os seus ossos. Ela curvou-se levemente sobre o seu estômago com a força da pancada.
Charles mentiu para ela.
Sugou o ar com força, dando mais um passo para dentro, sem se preocupar em ser silenciosa dessa vez.
Charles ouviu o som de uma respiração e seus olhos se arregalaram com a clareza do arrepio premonitório. Virou sua cadeira lentamente e o sangue esvaiu-se de seu rosto.
– Isabella – Sua voz tinha sumido e o homem pigarreou. Ela não poderia ter ouvido. Não poderia– Há quando tempo está ai?
Nenhum músculo da face da mafiosa se mexeu, e ela encarou Charles com os olhos azuis frios. Olhos que ele a ensinou a ter.
– O bastante. – declarou.
Charles sentiu como o chão sumisse dos seus pés.
– Isabella...
– Como pôde? – E então a feições impassíveis se desfizeram, as narinas inflaram-se e Isabella deu um passo a frente – Você mentiu para mim.
Charles fez um gesto negativo com a cabeça.
– Eu estou cuidando de você.
Isabella soltou uma risada incrédula.
– Nós fizemos um trato! Fizemos um trato. – Ela retrucou, completamente fora de si – Você me prometeu! O Federal tinha que estar seguro! SEGURO!
– Não grite... – Charles sibilou, mas Isabella não levou o conselho em conta.
– Você me traiu, Tio Charles.
– Está vendo o que ele faz com você? Está vendo, Isabella? – O homem retrucou apressadamente, ávido por tê-la novamente sobre o controle – É por isso que ele tem que desaparecer, não vê? Ele desestabiliza você.
Isabella virou de costas, e Charles encarou aquilo como um sinal de que ela estava cedendo.
– Ele é o seu ponto fraco – O Swan murmurou. Sabia que ela tinha horror àquilo. Saiu da cadeira, aproximando-se dela, já sorrindo, vitorioso.
Mas ao contrário do que ele pensava, Isabella não tinha ouvido uma palavra sequer. A única coisa que ressonava por sua mente era o “Mate Edward Masen”. O Federal estava em perigo e Charles tinha traído sua confiança.
Isabella virou-se, as feições duras.
– Eu não vou me casar com Jacob Black.
Charles arregalou os olhos, dando um passo para trás.
– Como é?
Isabella sorriu sardonicamente.
– É o que você ouviu. Não vou.
O Swan balançou a cabeça, fazendo uma careta desacreditada.
– Você está me contestando, Isabella?
A mafiosa mordeu o interior das bochechas, incerta. Mas sua raiva no momento sobrepunha tudo.
– Eu não vou me casar com Jacob Black – repetiu, pausadamente. O nariz em pé, sem fraquejar.
– Você sabe o que vai acontecer, não sabe? – Charles tentou relembrá-la.
Mas Isabella não conseguia mais pensar em nada.
– Sim. – ela quase cuspiu – Eu sei.
Aproximou-se mais de Charles, encarando-o firmemente. Ela se esqueceu de tudo naquele momento. A única coisa que conseguia discernir era que o federal estava em perigo e que a culpa era dela e do homem a sua frente.
– E eu não dou a mínima.
A raiva ferveu em Charles, seu rosto ficando vermelho, algo como um rugido saindo de dentro do seu corpo.
– Essa crista vai abaixar em um instante, Isabella. – E então Charles levantou o braço para desferir um tapa no rosto dela, como em tantas outras vezes. Isabella fechou os olhos – Eu vou te dar uma lição!
“- Eu vou te dar uma lição! – a voz do tio bradou de algum lugar atrás dela, mas a garotinha continuou correndo em direção ao seu quarto. – Isabella, VOLTE AQUI!
– N-não! – Ela engasgou, subindo as escadas, as pernas pequeninas mal dando contra do ritmo empregado por Isabella. Ela já estava cansada, mas precisava escapar.
– Quando eu pegar você...
A ameaça fez com que a menina possuísse o desejo de poder correr mais rápido. Ele não iria pegá-la. Não iria.
Os pés pequenos enrolaram-se no tapete, e a menina Isabella caiu no chão, segurando seu corpinho com as mãos. Tentou levantar, mas ouviu os passos do tio muito perto, e soube, mesmo com a sua inocência infantil, que era tarde demais.
Sem saída ela encolheu-se contra a parede, abraçando os seus joelhos e escondendo a cabecinha entre as pernas.
– Eu disse que ia pegar você não disse?
Bella tremeu, e soluçou.
– P-perdonami.
Ela sentiu o homem agachando-se ao seu lado e encolheu-se mais.
– Tudo o que você sabe dizer é isso, tudo o que faz é pedir desculpas. E eu estou cansado disso, ouviu, Isabella? Muito cansado. Você quer que eu fique cansado?
Ela balançou a cabeça em negativo.
– Olhe para mim quando eu falo com você, já disse!
Isabella fraquejou e sentiu a mão forte de Charles puxando seu rostinho para cima.
– O que pensou que estava fazendo? Por que saiu correndo da biblioteca, Isabella?
– Não queria mais estudar os números, tio Charles. Isa queria brincar! Então Isa saiu correndo porque pensou que Tio Charles ia bater por largar estudo.
Charles estreitou os olhos.
– Eu não iria bater em você, Isabella.
Ela franziu a testa infantil, confusa.
– Não? – perguntou, esperançosa.
– Não. – Charles sorriu – Eu iria pregar a sua bunda na cadeira se fosse preciso, mas eu não iria bater em você. Mas agora eu vou.
Isabella choramingou.
– Perdonami.
– Não. Tudo o que eu faço é para o seu bem. Você precisa ser castigada Isabella, você me desobedeceu e desrespeitou.
– Per favore...
– Pare de CHORAMINGAR! Eu odeio quando você choraminga.
Isabella abaixou o rostinho, fungando. Charles a pegou pelos braços a colocando em pé.
– Eu vou castigá-la agora, Isabella... Por que vou fazer isso?
Ela engasgou e olhou para o rosto do tio.
– Isabella desrespeitou e desobedeceu Tio Charles.
Charles balançou a cabeça, em concordância.
– E o que vai aprender com o castigo de hoje?
– Respeitar e obedecer, Tio Charles. – uma lágrima solitária caiu dos olhos azuis, descendo pela bochecha vermelha.
– Boa menina... – Charles levantou o braço – Boa menina.
E então a mão do mafioso entrou em contato com o rosto da piccola Isabella.”
A glote de Isabella fechou e ela não conseguiu deglutir. Seus olhos abririam e encararam a mão de Charles que descia em direção a sua bochecha e, pela primeira vez durante anos, ela não conseguiu se conter.
Com um movimento rápido a mafiosa segurou o braço de Charles, um pouco acima do cotovelo, a centímetros do seu rosto.
Mais velho e mais nova se encararam nos olhos. Os dois surpresos pela mudança de roteiro. O instante se prolongou enquanto cada cabeça bem dotada calculava as consequências daquilo.
– Não dessa vez. – Isabella sibilou num murmúrio. Não dessa vez.Estranhamente a mafiosa sentia-se como se tivesse acabado de fazer algo para a menininha de olhos azuis que só queria brincar, há muitos anos atrás.
Ela largou a mão de Charles com força, dando um passo para trás.
– Pense muito bem no que vai fazer a seguir Isabella – Charles tentou manter o tom controlado, mas por dentro, tremia. O que ela iria dizer? O que ela faria? Estava andando em direção a porta, para onde ela iria? Ela não poderia ter ouvido aquilo. Não poderia!
Isabella balançou a cabeça, seu rosto rasgado num sorriso incrédulo.
– Por toda a minha vida você me perguntou em que eu poderia confiar, Tio Charles – Ela passou a mão pelos seus braços, como se faz para espantar o frio. Ela sentia-se... perdida. – Depois disso...
Ela engasgou, fechou os olhos brevemente. Precisava dizer. Precisava.
– Depois disso, acho que posso responder: Não em você.
Foi como se um mundo inteiro estivesse de pernas para o ar. Porque aquela era uma das únicas certezas que a mafiosa possuía.
Sem olhar outra vez para Charles, Isabella saiu do escritório apressadamente, pegou a chave de seu carro que se encontrava em cima do aparador da cozinha e quase correu até a garagem.
Precisava sair dali. Sentiu um soluço contido pela garganta. Ela o engoliu.
De repente, Isabella sentiu uma vontade imensa de falar com Alice e com...
Balançou a cabeça, transtornada, e ligou o carro, ganhando as ruas de Boston.
~-~
Edward a deu a permissão para que ela subisse. Alice constatou, entrando no elevador. Então Jasper estava certo... Ele realmente queria entender o que aconteceu com a Isabella e o sexto sentindo de Alice dizia que isso era apenas o começo.
Ele queria livrá-la de Charles!
Sorriu abertamente, mas, no entanto, não poderia confiar apenas nas informações de Jasper e em suas próprias prospecções. Ela tinha que se assegurar que tudo correria bem.
Olhou para o espelho do elevador, dando de ombros para a câmera e para qualquer um que estivesse possivelmente assistindo aquilo. Ela sabia que não era Edward e isso era o que importava.
Desferiu várias e várias batidas nas bochechas e prendeu seu nariz fino entre os dedos, atritando-o. Ela precisava ficar vermelha. Pessoas desesperadas que choram são vermelhas. Deu tapas mais fortes nas bochechas e quase desistiu daquela “autodestruição”, mas não poderia. Isabella precisava dela.
Achando-se vermelha o suficiente, focou os olhos castanhos no espelho, sem piscar. Quinze, trinta, quarenta, sessenta segundos. Era bom que Edward morasse no vigésimo sétimo andar, ou ela não teria tempo para isso. Piscou os olhos que ardiam várias e várias vezes e as lágrimas transbordaram deles.
– O sofrimento da bambola, Alice! – Ela murmurou para si, para que mantivesse os olhos transbordando as lágrimas inicialmente falsas – Lembre-se do que ela já passou, do que ela pode passar... Ela merece ser feliz. Bella precisa de você.
A porta do elevador se abriu e ela bateu a porta localizada logo a frente: 2701.
A Brandon nem sequer pensou duas vezes, quando a porta foi aberta, ela jogou-se nos braços do homem no outro lado, soluçando.
– Você tem que impedir... Você tem que impedir... Charles quer que Isabella se case com Jacob!
Edward piscou os olhos várias vezes, aturdido com a figura descontrolada de Alice. Mas aquilo ficou para segundo plano no momento em que a sinapse permitiu que ele compreende-se a fala dela.
Pegou Alice pelos braços, para que ela olhasse para ele.
– Como é que é? – perguntou, com os dentes trincados. Aquele desgraçado estava tentando casar sua Isabella com Jacob Black?
Alice fungou.
– Ele... ele ofereceu alguma coisa importante em troca... Não sei, Edward. Ela falou de um jeito que eu não me espantaria se fosse a liderança da máfia.
O federal arregalou os olhos brevemente, e então deu as costas para Alice. Levou as mãos para o seu cabelo, passando-as nervosamente por ele.
– Ela aceitou... – declarou, andando para frente, os olhos fechados – Ela aceitou, não aceitou Alice?
A Brandon sorriu com a reação dele. Oh... definitivamente ele se importava.
– Sim... – pigarreou, tentando espantar vestígios de felicidade da voz – Ela aceitou.
O peito de Edward encheu-se de raiva... Era ódio puro e visceral, e ele socou a primeira coisa que viu pela frente, a parede da sala.
– INFERNO! – Bradou – Por que ela fez isso? Por que ela não pode enxergar que o que Charles Swan faz com ela é a pura manipulação? Por que, Alice? Por quê?
Alice mordeu os lábios, ela deveria ser forte... mas não aguentava ver o federal da Bella daquela maneira por muito tempo.
– Ela disse sim... – a mulher sorriu – mas depois ela disse não.
Edward virou-se instantaneamente para ela.
– Isabella... Isabella Swan – Ele testou – disse não para a proposta de Charles?
– Bom... não foi bem assim — Alice fez uma careta — Ela disse não para Jacob.
Mas já era alguma coisa. Edward sorriu. Nada estava perdido... Nada.
– E é por isso que eu preciso de você. Eu não sei o que pode vir daqui para a frente, não sei porque Charles fez isso... Eu tenho medo... e se aparecer uma nova proposta, e se a bambola aceitar? Ela não pode viver na garras do Charles para o resto da vida! – Alice agarrou a gola da camisa de Edward – Ela não pode! Ela merece ser feliz, Edward... Só você pode impedir uma tragédia... Só você!
O Masen fechou os olhos brevemente, ele queria que aquelas palavras fossem verdade. Que ele tivesse alguma influência sobre Isabella.
– Talvez você não saiba, Alice – Ele começou a falar soltando uma risada de deboche – Mas Isabella deixou claro da última vez que não quer me ver.
A baixinha rolou os olhos.
– Talvez você não saiba, Edward – Ela retrucou, arqueando uma sobrancelha e levantando o queixo, demonstrando seu convencimento – Mas Isabella fez com que você se afastasse dela para a SUA segurança.
Edward balançou a cabeça, incrédulo.
– Minha segurança? – repetiu, o tom de dúvida – Isso é ridículo, Alice. Eu posso muito bem lidar com os perigos eventuais que a profissão de Isabella possa trazer para mim. Você não faz ideia do que ela...
Alice levantou uma mão para ele.
– Pode lidar? – perguntou, incrédula – Você não entendeu o que eu te disse, Edward. Você “poderia” lidar se algo acontecesse com Rosalie de novo, por exemplo? Eu não estou falando dos inimigos que a bambola fez pela vida, eu estou falando do Charles.
Edward franziu as grossas sobrancelhas.
– Não estou entendendo.
Alice bufou.
– Bella fez um acordo com Charles. Um acordo para que ele nunca mais tentasse algo contra a sua família, como ele tentou com Rosalie. Um acordo em que a sua segurança fosse garantida. – Alice olhou profundamente dentro dos olhos verdes do federal – E ele aceitou, mas ela tinha que dar algo em troca, e Charles pediu que se afastasse de você. Permanentemente.
Edward arregalou os olhos, surpreso. Então... Isabella tinha o magoado, tinha tentando o afastar para a própria segurança dele? Ela se importava com a segurança dele, então? Abriu um sorriso que logo morreu, pensando no porquê daquilo tudo.
– Eu deveria ter matado aquele desgraçado quando eu tive a chance! – Declarou, as narinas infladas, as mãos em punho.
Alice sorriu.
– Quando teve a chance, han? – Ela apontou para o lábio machucado do federal que bufou.
– Você deve ter visto a cara dele. Isso não foi nada perto de como ele ficou.
Alice balançou a cabeça em concordância. Edward tinha razão.
– Jacob tentou proclamar os direitos de noivo sobre Bella – declarou em um dado momento.
Edward cerrou os olhos para a figura de Alice.
– Você quer dizer que o tal Black tentou tocar... – Ele engasgou – na mi... na Isabella?
A baixinha fez uma careta, e deu de ombros como se dissesse: “É isso mesmo”. Edward fechou os olhos inspirando ruidosamente. Tentou a todo custo não imaginar outras mãos em cima da pele branquinha de Isabella, mas não conseguia.
– Algum motivo especial para você me dizer isso ou...
– Foi ai que ela disse não – Alice explicitou, o cortando – Quando ele a tocou ela disse não... e sabe por quê?
Edward balançou a cabeça, em negativa, não entendendo onde a mulher queria chegar.
– Porque ela lembrou-se de você, “federal” – Alice fez aspas com os dedos, dando um sorriso feliz e presunçoso – Ela lembrou-se de você.
O Agente Masen tentou conter um sorriso que nascia em seu rosto, mas não conseguiu. Ela lembrou-se dele. Do mesmo modo que ele lembrou-se dela quando cometeu o erro de beijar Victoria na sala de tiros do FBI. Seu coração assumiu uma batida descompassada. Isabella lembrou-se dele. DELE!
– Alice... eu...
Mas o telefone da baixinha interrompeu qualquer coisa que o agente pudesse falar. Ela franziu a tez da testa lendo o nome de mafiosa no visor.
– Isabella? – atendeu, o tom levemente desconfiado.
Edward tentou ouvir o que a mulher falava do outro lado, sem sucesso.
– Bambola... eu não estou entendo nada... por favor se acalme! – Alice deu as costas para Edward.
– Como é? – Ela murmurou incrédula – Isabella, me escute, como você está?
– O que aconteceu? – Edward perguntou preocupado. Alice virou-se para ele fazendo um sinal de silêncio apontando para o telefone.
– Bambola, para onde você está indo? – Uma ideia se passou pela mente de Alice e ela sorriu – Tudo bem, eu vou até você... ah... quer ficar sozinha? Que coisa boa é o fato de que eu não respeito as suas vontades. Tome cuidado até lá, Isabella, pelo amor de Deus. Concentre-se no trânsito!
– O que foi? O que aconteceu? Alice! – Edward proferiu.
– Calma! – a baixinha levantou as mãos para o alto – Isabella descobriu que Charles mentiu para ela... sobre a sua segurança. Parece que ele estava planejando o seu assassinato.
Alice deu de ombros, como se aquilo se tratasse de um fato usual e Edward travou o maxilar.
– Gostaria de vê-lo tentar... – disse, entredentes, fazendo a mulher revirar os olhos.
– Você pode até querer, Bella não. Ela está abalada, é a primeira vez que ela descobre uma mentira vinda do Charles, Edward.
E então a percepção se abateu sobre Edward. Sentiu seu coração apertar. Tudo o que ele queria era ter Isabella em seus braços agora.
– Como ela estava? – lembrou-se do que Alice disse ao telefone – Você tem que ir até ela!
A baixinha sorriu abertamente.
– Isso foi o que eu disse. Mas na verdade, eu não vou, quem vai é você!
Edward levantou uma sobrancelha, incredulamente. Aquilo não pioraria as coisas? Tudo bem que ela tinha feito aquilo, a afastado dela, visando a segurança dele, mas...
– Alice...
– Não! Não me venha com incertezas, Edward Masen. A única pessoa que a bambola precisa nesse momento é você. – Ela despejou, esbaforida – Você não entende? Charles mentiu, o acordo acabou, não há mais um porquê para vocês dois estarem afastados!
Edward sorriu, absorvendo o que Alice falou. Será que Isabella pensava do mesmo jeito? Ele rogava para que sim. A única coisa que ele queria era estar ao lado dela agora, protegê-la, livrá-la das amarras que a prendiam a Charles... Não importava que demorasse, o federal era apaixonado por sua mafiosa. Ele teria toda a paciência do mundo para tê-la apenas para si.
E começaria agora.
– Eu vou. Onde Isabella está?
Alice sorriu, e sem se preocupar em evitar mostrar sua felicidade, pulou até o Masen abraçando-o apertado.
– Me perdoe pelas coisas que eu disse na cozinha aquele dia. Eu estava errada – E sabia disso desde sempre, mas você precisava de um choque de realidade, Alice completou, mentalmente. – Você é o homem certo para a bambola... Ela foi para o nosso predinho de dois andares, o apartamento em que você me conheceu.
Edward retribuiu o abraço da baixinha, Alice não tinha a mínima noção do que “ser o homem certo para Isabella” representava para ele. Pegou as chaves do carro logo em seguida, calçando os sapatos jogados na sala apressadamente.
– Encoste a porta quando sair, eu tenho um compromisso urgente. – sorriu, correndo em direção ao elevador que por sorte ainda se encontrava em seu andar. Um sinal, Edward pensou. Um bom sinal.
– TOME CUIDADO! – Alice gritou, chegando a porta do apartamento, a tempo de ver a porta do elevador fechando-se.
Quer dizer, tem alguém por ai que deve querer matar você agora. – Refletiu, balançando a cabeça, puxou a porta do apartamento de Edward e apertou o botão do elevador. Não era cristã, mas inconscientemente se viu fazendo o sinal da cruz. Não como um pedido, mas sim como uma espécie de agradecimento. Tudo daria certo agora para Isabella e Edward, era só uma questão de tempo até Charles cair.
~-~
Isabella chegou ao apartamento e ligou a televisão, mais por instinto do que qualquer outra coisa. Fato totalmente atípico para ela já que sempre preferira o silêncio a qualquer coisa. Porém, diante da atual conjectura, escutar apenas seus próprios passos, suspiros e pensamentos, mostrava-se uma tarefa impossível.
E ela estava cansada de lutar.
O fato de que Charles havia mentido sobre o futuro do Agente Masen ficava martelando em sua cabeça, turvando seus pensamentos e ela já nem sabia mais descrever detalhes da discussão que protagonizara. Tudo parecia um borrão, algo irreal, fruto da sua imaginação fértil. Mas não era e ela não sabia lidar com aquilo.
Precisava ligar para Edward. A mafiosa fechou os olhos, sentando-se no sofá. Sim, ela precisava alertá-lo de que corria perigo, mas ouvir a voz dele depois de tanto tempo... Talvez ele nem atendesse. Se a situação fosse inversa ela atenderia? Como o agente Masen conseguiria trocar palavras com ela depois de tudo o que ela foi capaz de dizer para ele?
Mas ele corria perigo...
– Inferno. – Praguejou alto, a mão direita infiltrando-se nos fios negros, maltratando-os. Isabella tombou sua cabeça para trás, encostando-a no espaldar do sofá. Os olhos azuis se abriram e passaram a encarar o teto. Pensar. Ela tinha que pensar, e costumava ser boa nisso.
Não conseguiria ligar para Edward. A mafiosa engoliu em seco com a percepção, mas era a absoluta verdade. Ela não conseguiria, não em primeiro caso. Apenas ligaria se fosse extremamente necessário, vital... Mas não deixaria que chegasse àquele ponto.
Com um suspiro pesaroso, Isabella decidiu: Cuidaria disso. Ela cuidaria da segurança do federal. Felizmente, a programação do assassinato dele apontava para daqui a semanas, o que lhe daria tempo de sobra para resolver o assunto.
Se tivesse sorte, poderia assegurar a segurança de Edward com apenas um telefonema.
Ponderou se aquela era mesmo a abordagem certa a se fazer, mas deu de ombros. De qualquer forma, ela precisava encontrar um determinado arquivo. Um arquivo sobre Diogo Bertolazzo. E precisaria de uma faca.
A cabeça de criminosa sempre soube organizar bem as prioridades, qual deveria ser o próximo passo, e mesmo completamente desestabilizada como agora, ela ainda sim conseguia fazer aquilo.
Isabella rumou para a cozinha com passos determinados, mesmo que seu interior estivesse a ponto de implodir. Ela tinha que fazer aquilo, tinha que cuidar da segurança de Edward. Não poderia simplesmente deitar-se em sua banheira como queria, como já tinha feito mais cedo.
Ela tinha uma prioridade: A segurança do federal. Qualquer coisa relacionada a ela estava em segundo plano no momento.
Agarrou o cabo de uma faca afiada, retirando-a do faqueiro. A lâmina reluziu pela luz da cozinha, e Isabella viu rapidamente o seu reflexo nela... Mas não teve tempo para analisar-se já que seu cérebro se deu ao trabalho de prestar a atenção quando a programação da televisão foi interrompida para uma notícia urgente.
Isabella retornou até a sala, com a faca em suas mãos, chegando a tempo de ver o rosto sério do ancora do principal jornal da rede televisiva aparecer.
– Um carro dirigido por um agente do FBI acaba de explodir no subúrbio de Boston. A força policial e a equipe de resgate já estão presentes no local. – O jornalista consultou o tablet em suas mãos e Isabella sentiu o sangue congelar em suas veias – Segundo as últimas informações o agente saiu do carro com vida, mas seu estado de saúde é extremamente crítico. Vamos ao local com nosso correspondente.
A imagem foi transferida para uma rua que poderia se assimilar com o cenário de um filme. Ao longe ainda se via o fogo, e os bombeiros que já o mantinham sobre controle, vários populares contidos ao fundo, por policiais, homens falando em seus celulares com feições sisudas e perturbadas, peritos... Tudo muito bem iluminado pelas luzes das sirenes de policia, que piscavam incessantemente, confirmando a premissa de que algo sério acontecera.
– Infelizmente não tenho boas notícias. – o repórter começou a falar, tentando manter o profissionalismo – O agente federal que saiu com vida do carro acaba de falecer dentro da ambulância, ainda no local.
– Não... – Isabella murmurou, os olhos presos a televisão. Sentiu seu estômago abrindo-se, criando um buraco que lhe trazia náuseas.Ela suava frio.
– O agente estava severamente queimado e teve uma série de paradas cardíacas. Os policiais já asseguraram, mesmo sem a devida perícia, que o carro foi sabotado.
– Não, não! Não pode ser... – Isabella continuava a murmurar, uma voz em sua cabeça gritando que aquilo só poderia se tratar de uma brincadeira de extremo mau gosto. Uma alucinação.
– Vários agentes do FBI já se encontram no local e falaremos diretamente com o Agente Emmett McCarty.
Os olhos da mafiosa arregalaram-se ainda mais e, assim que o rosto de Emmett foi focalizado pela câmera, ela teve sua confirmação. O homem estava com os olhos castanhos profundamente entristecidos, a voz embargada e, por mais que tentasse manter a compostura, estava visivelmente emocionado.
A cabeça de Isabella só conseguia discernir uma única coisa depois daquilo: Era ele. Era Edward.
As pernas da mafiosa pareciam incapazes de sustentar seu próprio peso e seus joelhos penderam para frente, encontrando o chão num baque surdo. Talvez aquele ato representasse a desistência da mulher, ou talvez fosse uma tentativa vã, como uma última prece que se faz de joelhos dobrados.
– Agente McCarty. O ocorrido trata-se de um acidente ou foi um ato premeditado?
– A perícia ainda não possui detalhes conclusivos – Emmett roçou a garganta, deixando a voz firme e perfeitamente audível –Mas o departamento não tem dúvidas.
Os olhos castanhos olharam diretamente para a câmera, e Isabella teve a sensação de que Emmett poderia enxergá-la ali por um momento.
– Nós vamos encontrar o responsável por isso e ele vai sentir o peso da justiça americana. O homem que morreu hoje, além de um dos melhores agentes que eu conheci, era meu amigo. Amigo de praticamente todos nós. O FBI vai achar o responsável por trás disso, eu garanto.
Isabella absorveu as palavras. Ele falava isso para ela, não era? Ela era responsável por aquilo, se sentia responsável. Poderia ter feito alguma coisa, não poderia?
A mafiosa sentiu o buraco que começou em seu estômago ocupar também o seu peito. Aquilo doía tanto. Doía demais. A dor era tanta que Isabella pensou que iria chorar, mas seus olhos estavam secos como um deserto, ardendo como o inferno e ásperos como se abrigassem dezenas de grãos de areia.
Era demais para ela. Era demais.
A Swan sentiu seus músculos moles e o corpo esbodegado pendeu para frente uma vez. Ela iria desmaiar e não tentou lutar contra a tontura que envolvia seu corpo e mente. A inconsciência agora lhe faria bem.
Em seu estado de total perturbação, Isabella não se deu conta de que ainda portava a faca firmemente em suas mãos. A lâmina afiadíssima e reluzente apontava para a cárdia, o espaço entre o esôfago e o estômago dela.
E então, o corpo da mafiosa pendeu para frente, para encontrar o seu destino.
Edward bateu a campainha do apartamento de Isabella, esperou alguns segundos, impaciente, mas não ouviu nada que indicasse que ela estava caminhando para a entrada. Bateu novamente, agora na madeira da porta, com os punhos fechados. Sentiu-se estranho, como se pressentisse algo. Era o seu instinto, tão útil no trabalhado e também fora dele.
Ele tinha que entrar ali.
Em uma última tentativa, Edward girou a maçaneta da porta. Estava aberta. E aquele fato simplesmente elevou a sua preocupação em níveis inimagináveis. Alguém entrara ali? Alguém queria fazer algo contra Isabella? Engoliu em seco, e adentrou o ambiente o mais silenciosamente que pôde. Amaldiçoou-se por não ter vindo armado, na pressa de sair do seu próprio apartamento, nem se lembrou daquele detalhe.
Fechou a porta devagar e caminhou cautelosamente pelo corredor que dava para a sala. Contudo, toda a sua racionalidade foi embora quando vislumbrou os cabelos negros de Isabella. Ela estava ajoelhada?
– Isabella... – chamou, a voz rouca. Mas a mulher não se virou para ele.
Com o coração batendo freneticamente, o federal deu a volta no sofá, e a cena que encontrou fez todo o seu mundo parar por um mísero instante.
O corpo mole de Isabella caindo sobre uma lâmina afiada.
Um grunhido de desespero saiu pela garganta de Edward e ele praticamente pulou até a figura ausente de Isabella. Com uma das mãos agarrou os ombros dela, e com a outra segurou o cabo da faca. O federal retirou o objeto afiado das mãos dela, e virou o corpo de Isabella, deitando-a delicadamente no chão.
O desespero dele cresceu enquanto analisava o rosto delicado da mulher. Tanto tempo sem vê-la... e agora a encontrava assim, ainda mais branca, as feições ausentes, os olhos morbidamente fechados. Foi como se algo pesado dilacerasse seu peito.
– Isabella? — A voz estava apavorada. Sem obter uma resposta, Edward firmou suas mãos nos braços dela, sacudindo-a.
A mafiosa sabia que se encontrava no meio de uma alucinação. Sim, ela tinha ficado maluca, pois podia jurar que aquelas mãos, que aquele timbre de voz, que até mesmo aquele cheiro de homem, pertenciam a Edward.
Isabella jamais abriria os olhos para encarar a realidade, e assim espantando Edward de suas alucinações. Jamais abriria os olhos para descobrir que ele estava morto.
Morto, morto, morto... De certa forma, ela sentia-se morta também.
Soltou um murmúrio de dor, um som arrastado, lamurioso e sofrido. Mas nada que saísse por seus lábios poderia externar a dor que realmente sentia. O vazio que, de repente, tomou conta dela.
– Isabella? – Edward chamou com mais afinco quando ouviu o som que indicava dor. Ela teria se machucado com a faca? Mas não havia sangue! – Inferno, Isabella! O que você está sentindo?
– Dói – ela respondeu, a voz baixa e fraca. Edward nunca tinha ouvido aquele tom vindo dela e o fato o apavorou – Dói demais... faça parar, por favor.
Edward soltou um impropério, segurando o rosto frio de Isabella com uma mão.
– Onde... Onde está doendo, linda? – a voz do federal beirava a insanidade agora, suas mãos e olhos vasculharam o corpo feminino a procura de algum machucado – Você se feriu com a faca, Bella? Me diga! Me mostre... onde dói, linda, onde?
Os lábios de Isabella contorceram-se e então ela abriu a boca tomando uma lufada de ar.
– Todo o lugar... Dói tanto, não vou suportar.
Edward puxou o rosto de Isabella para cima.
– Do que está falando, Bella? Olhe para mim, minha linda. – pediu, o tom de voz suplicante.
– Eu não posso... – balançou a cabeça enfaticamente e então uma de suas mãos agarrou firmemente o braço dele – Não posso... Você vai embora se eu abrir os olhos.
– Isabella... – ele chamou num lamento – Eu não vou a lugar nenhum, eu estou aqui com você.
– Não... – a mafiosa soltou uma risada amargurada – Não está. Não é real.
Edward tentou encontrar alguma coerência na fala de Isabella, sua preocupação já tinha ultrapassado todos os limites possíveis.
– Eu estou aqui. – Ele falou pausadamente, rogando para que ela entendesse – Eu estou aqui, tudo o que você tem que fazer é abrir os olhos!
Isabella negou com a cabeça mais uma vez. Não! Ela não estava pronta para perder a alucinação. Não estava.
– Você voltou para puxar o meu pé... — Ela sussurrou, sarcasticamente — Tão rápido... Eu mereço. Eu mereço.
Edward soltou o ar com força, sentindo-se derrotado. Mas não deixaria que aquele sentimento perdurasse por muito tempo. Segurou o corpo da mulher firmemente, e sentando-se direito no chão a trouxe para os seus braços.
Tão bom... Edward sorriu tristemente, apertando o corpo feminino contra ele. A textura da pele, o cheiro, os cabelos... Ele levou uma mão até as mechas sedosas, e mergulhou seu nariz no vão do pescoço de Isabella.
– Eu estou aqui, linda... estou aqui. – Murmurou feito um mantra, e então os olhos verdes se levantaram, encontrando a televisão.
Emmett?Edward franziu as grossas sobrancelhas. O que Emmett estava fazendo na televisão? Então um letreiro passou na extremidade de baixo da imagem: “Agente do FBI morto em acidente de carro. Investigações tentam apontar se foi um ato criminoso que tirou a vida de Ronald Curry.
Ronald Curry. Céus! O mentor de Emmett na época da academia. Ele deve estar completamente arrasado e...
Então Edward olhou para os cabelos de uma Isabella agarrada a ele. Ela olhava para a televisão... Ela estava posicionada de uma forma que ela poderia estar assistindo a televisão e...
INFERNO! Ela pensou que se tratava dele! Mas... é claro. Ela descobriu que Charles não iria cumprir com a parte dele no acordo e depois viu isso na televisão!
Isabella estava daquele jeito, porque ela pensou que ele havia morrido. Ele. Edward Masen.
Apesar do forte aperto no peito, o federal conseguiu sorrir. Porque, mesmo que o estado em que Isabella se encontrava fosse capaz de infringir dor física nele, ela estava assim porque acreditava que ele tinha morrido. E isso significava que ele definitivamente representava algo para ela. Que ele era importante.
– Linda, a televisão...
– Eu sei – ela o cortou, e afundou o rosto no ombro largo dele, inspirando o cheiro fortemente como se fosse a última vez. E, na cabeça de Isabella, era. Ela tinha desmaiado, estava apenas sonhando... – Eu sei... Eu deveria ter impedido, é tudo culpa minha.
Edward balançou a cabeça, e pegou o rosto dela entre as mãos.
– Não. Eu não estou morto, Isabella. Não era eu naquele carro – Ela tentou negar, mas o federal não permitiu — Eu estou aqui Isabella... abra seus olhos para mim.
Mesmo temendo perdê-lo definitivamente, ela o obedeceu. Abriu os olhos lentamente e piscou, tentando focalizar. Encontrou o rosto de Edward e arfou. A barba estava um pouco maior do que se lembrava, os olhos traziam círculos levemente roxos em baixo. E mesmo assim... ele continuava lindo.
– Você... – ela começou a falar e então se deu conta de tudo o que tinha dito para Edward durante todo aquele período. Arregalou os orbes azuis, e até se afastaria... mas não possuía forças para fazê-lo. Não quando estava tão perto dele.
O peso enorme foi retirado de seus ombros, o vazio em seu peito preenchido. Isabella finalmente conseguiu respirar de novo.
– Sim... – Edward sorriu em resposta – Sou eu.
A atenção da mafiosa foi desviada para o corte nos lábios dele. Ela franziu as sobrancelhas bem feitas, encarando-o. Como ele tinha conseguido aquilo? Soltou um som depreciativo e levou os dedos até o ferimento, acariciando levemente. Inclinou-se, sem pensar no que fazia e, fechando os olhos, depositou um beijo casto no local... beijando assim também, parte dos lábios de Edward.
– Isabella – O homem murmurou, tentando-se controlar. Apenas o toque das mãos dela, já tinha feito com que algo crescesse em seu peito. Porque aquilo para Edwardtratava-se de um gesto de carinho. Um gesto de carinho vindo dela. E agora... Agora ela beijava o seu ferimento. Beijava os seus lábios e aquilo era simplesmente demais para ele. Ter a boca macia dela tão perto e, simplesmente, controlar-se.
Os dedos de Edward infiltraram-se pelos cabelos da mafiosa, prendendo os fios macios da nuca dela entre os dedos. Afastou o rosto dela o suficiente para poder encarar as duas pedras de água marinha que eram seus olhos. Tão linda... Suas lembranças não fizeram jus aà verdadeira beleza dela. Porque nisso Charles Swan tinha razão, não era algo apenas físico. Isabella tinha alguma coisa que a circundava, alguma coisa entranhada em sua pele... alguma coisa além do entendimento do federal.
Ele não aguentava mais... ele precisava beijá-la. Precisa sentir o gosto dela novamente e...
– Me beije, Federal.
Edward arregalou os olhos, levemente surpreso. Sorriu incredulamente, quando se convenceu de que Isabella realmente tinha proferido aquilo. Puxou os cabelos dela com um pouco mais de força.
– Dessa vez você nem precisava pedir, minha linda.
O federal uniu os lábios, e ambos soltaram um gemido de reconhecimento. Naquele momento não existia certo e errado, crime e lei. Eram apenas duas pessoas, mesmo sendo eles federal e mafiosa, entregando-se a um beijo saudosista, sôfrego e apaixonado.
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