Notas iniciais
Demoreeeeeeeeeeeeeeeei, mas voltei! Não vou me estender por aqui, já que estou recebendo ameaças de morte para a postagem do capítulo! hahahaha Boa leitura, lindas! Nos vemos lá em baixo, nas notas finais.

Algo que se assemelhava a uma radiografia praticamente pendeu para fora e a mafiosa o fisgou, antes que pudesse cair. Franzindo as sobrancelhas bem feitas, ela analisou a imagem à sua frente, percebendo que se tratava de um ultrassom do útero de uma mulher grávida de gêmeos. A sua confusão aumentou ainda mais. Por que alguém mandaria algo assim para ela? Seus olhos rumaram para as informações presentes na radiografia, e então tudo parou por um segundo quando Isabella vislumbrou o nome da gestante.

Renée Dywer Swan.

Era preferível que aquilo realmente fosse um vírus letal.

O corpo todo de Isabella era uma pedra imóvel e inanimada enquanto seu cérebro processava o que ela acabara de ler. O nome da paciente, da mulher grávida de gêmeos... Sua mãe. Não. Não poderia... O que aquilo significava? Mas... como?

A Swan sempre soube que tinha um irmão, lembrava-se de Renée grávida e Charles também nunca escondera isso dela. Porém, aparentemente seu irmão tinha sido levado pelo assassino dos pais de Isabella, já que o recém-nascido nunca fora encontrado.

Inspirou com força e sentiu o ar queimando em suas narinas, trazendo-lhe para uma realidade nova e sem sentido. Suas pernas falharam e instantaneamente ela sentiu as mãos do federal circundarem sua cintura, impedindo que seu corpo encontrasse o chão.

– Isabella! – Ouviu seu nome e levantou os olhos vazios e perdidos para encarar as feições preocupadas dele. – O que é isso?

O que é isso? A mafiosa soltou o que deveria ser um gargalhar sarcástico, mas o som ficou parcialmente contido em sua garganta. Ela não sabia o que era aquilo, não o que realmente significava.

– Isabella, me diga! – Ela sentiu seu corpo ser balançado.

– Gêmeos... – tartamudeou. – Minha mãe ficou grávida de gêmeos.

– Gêmeos? – o federal murmurou, como se checasse. – Mas você disse... disse uma vez que você tinha um irmão... Você não deu detalhes, mas...

– Porque eu sempre pensei que fosse! Minha mãe chegou com um bebê. Eu... eu me lembro – proferiu, balançando a cabeça e cerrando os olhos, tentando tornar vívidas as memórias turvas daquele noite. – Eu me lembro de um bebê. Um único bebê. Charles sempre me disse que era um menino.

– Charles – o federal repetiu, como uma sentença, como se o nome e a pessoa que o detinha fossem a explicação que desse encaixe para todas as peças.

– Não. – Isabella balançou a cabeça em negativa, os olhos azuis faiscando, focalizados nas esmeraldas que eram os olhos de Edward. – Nem comece. Por que... Por que ele mentiria sobre isso? Simplesmente... não faz sentido!

Aquela era uma pergunta que Edward Masen não sabia responder. Mas o fato de que não havia uma resposta imediata, não significava que a premissa era falsa. Por que ele não mentiria? Não é só o que ele faz? Mentir, manipular... tudo a favor de seus interesses nada claros. Edward deu de ombros, deixando aquela discussão para mais tarde e voltando sua atenção para o envelope.

– Há algo aqui ainda, Isabella.

Os olhos da mafiosa voltaram-se incertos para o papel pardo e ela engoliu em seco, vendo o federal retirar o papel branco e encará-lo.

– E então?... – começou, receosa. Fazia tanto tempo que não se sentia daquela forma, e Isabella odiava o fato de que aquilo tinha voltado. O peso nas costas, o peito comprimido, as pernas trêmulas, a glote fechada. Ela odiava sentir-se assim. – O quê?

– Parecem fragmentos de uma espécie de diário – o federal informou, deixando seus olhos correrem pelas palavras. Subitamente a feição preocupada e atenta transformou-se em uma máscara de surpresa e incredulidade.

– O que foi? – Isabella perguntou novamente, exasperada. – O que diz aí?

– Isabella – o federal começou, seus olhos prospectando o rosto feminino, tentando medir como ela reagiria àquilo.

– Mas que merda, Edward! – Isabella impacientou-se. A surpresa do uso do nome ficando apenas para o Masen. – O que é? O que diz aí? Me dê esse papel! – estendeu a mão para pegar a folha, porém Edward a afastou no último segundo.

– Isabella, acalme-se!

– É endereçada a mim! – ela bradou, erguendo as duas sobrancelhas em cólera. – O que pensa que está fazendo? Você não pode me privar de ler isso! Me dê a porcaria do papel, o que diz aí?

Edward franziu o cenho, juntando as grossas sobrancelhas. Não sabia se o conteúdo era de fato aterrador, pois não teve a calma necessária para analisá-lo. Não depois de perceber a quem aquelas páginas pertenciam.

Eram apenas dois fragmentos. Fragmentos de uma obra maior, cópias, não os originais. Era o que essa obra poderia conter que preocupava o Masen. Sua Isabella... Ela estava pronta para lidar com aquilo?

– Calma, Linda! Acalme-se – pediu sussurrante, levando uma mão até a nuca de Isabella, acariciando a bochecha bem esculpida com o polegar como se ela fosse a coisa mais quebradiça do mundo, por mais contraditório que aquilo parecesse.

O federal focou seus olhos nos azuis frios, mas profundos. Deixou que eles conversassem daquela maneira, daquela forma peculiar restrita aos dois.

– É da sua mãe, Isabella – disse por fim, o tom baixo, comedido, cauteloso. – São fragmentos do diário da sua mãe.

Os orbes da mafiosa arregalaram-se instantaneamente enquanto as sobrancelhas praticamente se uniam, trazendo um vinco para o meio da testa de pele sedosa. Isabella inclinou a cabeça para o lado, abrindo a boca, como se fosse proferir alguma coisa. O que saiu por ela, no entanto, foi apenas um suspiro de descrença.

O diário da sua mãe. Ela nem mesmo sabia da existência de um.

Prendeu o ar no peito e retirou o papel das mãos do Agente Masen. Encarou as letras xerocadas, sem se prender a nada inicialmente, segurando o papel firmemente entre os dedos. Por fim, engoliu em seco e obrigou seu cérebro a decodificar o código da escrita.

18/12/1990

Eu não sei o que está acontecendo comigo! Estou sentindo coisas que eu... não posso sentir. Não devo!

O modo como ele sorri, vai muito além de um repuxar de lábios... é com os olhos. É como se eu quase pudesse ver a alma dele.

E, além de tudo, ele é tão absurdamente divertido! Me trata tão bem e é tão bom para a Bella. O modo como ele me olha, que brinca e cuida da minha menina...

Estou tão confusa, mas ao mesmo tempo... talvez eu só não queira admitir. Admitir algo que eu já sei.

A verdade é tão... amedrontadora.

Eu estou apaixonada pelo irmão do meu marido.

Estou apaixonada por Charles Swan.

21/02/1991

Eu sei que não escrevi muito depois... daquilo.

Eu tenho estado tão confusa. Eu não sei mais o que pensar, como agir, como proceder.

Tenho sido negligente com a minha própria filha! Minha piccola Isabella... E eu só fui me dar conta disso quando ela perguntou por que eu estava tão triste.

Minha própria filha! Eu deveria ser um pilar de sustentação para ela, deveria protegê-la do mundo lá fora e, de certa forma, do mundo daqui de dentro.

Mas... as coisas fugiram do controle nesses quase três meses que estamos aqui e...

Eu prometo que vou tentar ser forte. Prometo por Isabella.

Mas eu tenho uma notícia... apavorante:

Atrasada. Minha menstruação está atrasada.

Isabella releu desacreditada por mais duas vezes, até que posou a folha no colo, enquanto praticamente caía sentada no sofá da sala.

O diário da sua mãe.

A letra.

As palavras.

Era quase como se ela estivesse viva, de algum modo.

Um pedaço dela... O que não daria, anos atrás, ou mesmo dias atrás, por qualquer coisa como aquilo? Qualquer coisa que deixasse a figura de sua mãe mais palpável... mais real?

Agora que detinha algo concreto, Isabella não poderia estar mais assustada.

Valendo-se do estado da mulher, Edward pegou a folha do colo dela para se inteirar do seu conteúdo. Arqueou as sobrancelhas, surpreso com o que lia, voltando seus olhos para Isabella logo em seguida.

Aquilo significava o que ele pensava que significava? Ou a pessoa que mandou aqueles dois trechos, compilou um seguido do outro simplesmente para levantar hipóteses infundadas?

Lentamente, Edward se agachou, ficando na frente de uma Isabella sentada e de olhos perdidos, sem foco, os orbes dançando como se ela estivesse lendo um texto irregular, ora para cima, ora para os lados. O federal trouxe a mão dela entre as suas, extremamente preocupado.

– Isabella – chamou, com um sussurro urgente, e a mafiosa voltou seus olhos para ele. Nunca Edward os tinha visto daquela maneira, com aquela intensidade. Vazios e, ao mesmo tempo, perturbados.

A mafiosa não entendia o que estava acontecendo. Sua mãe... apaixonada pelo tio. Como? Como aquilo fora acontecer? Mas... e o seu pai? Ela o amava? Não...

Levou a mão livre até os próprios cabelos, agarrando uma mecha frontal, tentando pensar com clareza.

Sua mãe grávida. Por que isso seria uma notícia apavorante? Por que ela consideraria outro filho algo apavorante? A primeira resposta pediu para ser exprimida, mas Isabella não permitiu. Não! Deveria ser pela situação que viviam, pelas ameaças dos inimigos da máfia. Tinha que ser por isso!

– Isabella... Fale comigo... – o federal rogou, trazendo uma mão para o rosto dela enquanto a outra apertava firmemente a mão feminina.

A mafiosa deu de ombros.

– Falar o quê? – perguntou. A voz baixa, quase fraca. – Eu não tenho o que dizer, eu não sei o que dizer.

Edward suspirou profundamente, aproximando seu rosto do dela.

– Como você se sente, minha Linda? Diga o que está pensando, por favor.

Isabella fez uma careta, balançando a cabeça.

– Não me venha com psicologia, Agente Masen...

– Isabella – Edward interrompeu, os olhos esmeralda prospectando o rosto da mulher. – Eu só quero saber como você está, por favor...

A mafiosa fechou os olhos brevemente.

– Eu não sei! – gritou, exasperada. O tom de voz abaixou logo em seguida, mesmo que a eloquência da fala ainda estivesse presente. – Eu deveria estar de algum jeito? Eu não sei como me sinto, eu não sei o que pensar sobre isso! Eu não sei... Nada está claro... é tudo tão confuso! Minha mãe ficou grávida de gêmeos, tinha uma porra de diário e... era... era apaixonada pelo me tio e...

Em um instante, ela estava despejando o fluxo de pensamentos desconexo e, no outro, era firmemente apertada pelo federal em um abraço. Em primeira instância, ficou parada, surpresa, para depois tentar afastá-lo dali com as mãos nos ombros fortes. Sem sucesso. Por último, Isabella simplesmente deixou que seu corpo fizesse o que mais queria, o que cada célula gritava para que fizesse: entregou-se ao abraço.

Inspirou profundamente o cheiro másculo de Edward, buscando se acalmar. Incerta, levou os braços para as costas dele, de um modo meio desajeitado. Não era afeita àquelas coisas, mas de repente, se sentia tão bem ali. Como se o cheiro e os braços dele aplacassem seus pensamentos, suas indagações. Seu mais recente temor.

Como se o mundo tivesse parado por um instante, dando-lhe chance para se recuperar dos recentes fatos.

– Nós vamos esclarecer tudo isso, Isabella – a mafiosa ouviu a voz baixa e máscula proferir, vinda de cima da sua cabeça. – Eu prometo.

Mesmo que inconscientemente, a Swan apertou o corpo do federal mais em seus braços. Esclarecer as coisas. Sim, ela precisava daquilo. Precisava entender, compreender o que aquilo significava. Charles sabia sobre os gêmeos? Por que nunca lhe contara e, por que sua mãe tinha apenas um bebê quando voltou para casa? Por que a própria Renée nunca disse para ela que ganharia dois irmãos?

– Quem pode ter mandado isso para você? – Edward inquiriu, mais para ele do que para ela, franzindo as sobrancelhas, o rosto adquirindo um semblante sério e compenetrado.

A pergunta fez Isabella sair do entorpecimento causado pelos braços de Edward e afastar-se do corpo masculino como pôde. Focalizou os olhos verdes, perdendo-se neles por um milésimo de segundo.

– Não é obvio? – perguntou, em uma retórica. O sangue ferveu em suas veias, dando vazão a um sentimento arraigado e latente. Seus olhos injetaram-se de fúria enquanto ela prosseguia: – O assassino dos meus pais.

Edward arregalou os olhos, pego de surpresa. Os pais de Isabella... mas...

– Como? – testou, aturdido.

– Meus pais, Federal. Meus pais foram assassinados. E está mais do que claro que o homem que fez isso está de posse dos pertences da minha mãe!

Edward balançou a cabeça, tentando organizar as ideias. Isabella achava que o tal assassino fazia o papel de remetente do envelope... Fazia, de fato, sentido. Mas a cabeça do Masen estava focada em outras questões naquele momento.

– Você está me dizendo que...

– É uma história longa – Isabella o cortou. – E agora... agora eu preciso que você vá até a rua, comprar mantimentos.

Edward levou vários instantes para internalizar o que tinha ouvido e, assim que o fez, um bufar incrédulo escapou pelos seus lábios.

– Você não vai fugir de mim, Isabella – declarou, resoluto, procurando os olhos dela. – Está entendendo? Eu não vou deixar que fuja de mim.

Isabella inspirou o ar com dificuldade, fitando Edward de volta intensamente.

– Só alguns minutos – murmurou, deixando que uma expressão implorativa, se é que poderia ser chamada assim, desse forma às suas feições. Se não fosse ela proferindo a frase, poderia até mesmo ser considerada um choramingo. – Eu... nós precisamos de mantimentos... e não há nada aqui. Só... só vá comprá-los, Federal.

Ela precisava de tempo, Edward anuiu. Precisava de um tempo sozinha para absorver as recentes informações. Por um lado, o Masen queria contrariá-la e ficar. Mostrar para ela que poderia muito bem lidar com aquilo com ele ao seu lado. Que não precisava esconder nada dele, nem mesmo sua possível vulnerabilidade.

Por outro lado, talvez fosse exatamente daquilo que a mafiosa precisasse no momento. Um tempo para se recuperar, para desnublar a mente, para encontrar o caminho. Isabella estava mudando, e isso era perceptível aos olhos do homem. Mas era uma mudança lenta e gradual, ele precisava respeitar o tempo para que fosse efetiva.

– Tudo bem... – proferiu por fim, cansado. – Eu vou comprar mantimentos, Isabella. Mas quando voltar, e não vou demorar, nós vamos conversar sobre isso.

Isabella acenou em resposta. Mesmo que soubesse que aquilo não fora uma pergunta.

– Trinta e cinco novecentos e sete – Isabella disse, com um sussurro. – E o dinheiro vivo para comprar as coisas encontra-se no mesmo lugar de sempre.

Edward parou, franzindo a testa.

– Trinta e cinco o quê? – perguntou, genuinamente confuso, enquanto a cabeça pendia para um lado.

– Três, cinco, nove, zero, sete. – Isabella repetiu, resoluta, falando cada número dessa vez, olhando profundamente para Edward antes de continuar –, é o código da porta.

“Assim que Isabella também adentrou o apartamento, depois de fechar a porta da frente, Edward ouviu um clique, e a porta de correr voltou-se para o seu devido lugar. Ele olhou intrigado para a mulher.

– Acha mesmo que eu correria o risco de algum vândalo entrar nesse apartamento e achá-lo assim? A casa tem sensores inteligentes, Federal. Se uma pessoa entra, não pode sair sem que saiba o código. E falando nisso, é hora de desativar o alarme.

Ela rumou para uma caixinha branca do lado da porta, que era quase imperceptível, camuflando-se com a cor da parede. Digitou rapidamente o que Edward entendeu como sendo os números do código e fechou a peça branca novamente.

– Você vai me passar esse código, não vai? – Edward disse, levantando uma sobrancelha, fazendo a mulher soltar um som de esgar.

– Não tão cedo, Federal.

Edward sorriu de lado, desacreditado, lembrando-se do episódio em que ela mesma o negara aquilo. E agora o fornecia, sem quem ele ao menos pedisse.

O federal estava certo, ela estava mudando. Estava o deixando entrar na confusão que era Isabella Swan. E como ele gostava daquilo, como ele gostava de uma Isabella que abria-se para ele.

O peito do federal inflou e em um gesto despropositado, Edward colou sua boca à de Isabella, selando os lábios íntima e longamente, acariciando os cabelos da nuca da mulher.

– Trinta e cinco novecentos e sete – repetiu, contra os lábios dela, em um sorriso contido, rumou seus lábios para o topo da cabeça da mafiosa, depositando um beijo ali. – Eu volto em alguns minutos.

Então o federal levantou-se com a aquiescência da mafiosa, para deixá-la momentaneamente sozinha.

Isabella não queria ficar sozinha. Ela precisava. Era diferente.

Vários acontecimentos, vindos de todas as direções, atingiram a mulher, e ela precisava lidar com eles. Resolvê-los antes que se acoplassem, formando uma gigante bola de neve que ela não conseguiria deter.

Ela precisava estabelecer prioridades, lidar com cada um dos problemas separadamente. Criando rapidamente sua lista mental, ela soube o que deveria fazer primeiro. Por isso precisava que o federal não estivesse ali também.

Ligar para Diogo Bertollazo.

~-~

O homem esvaziou o copo de whisky com uma golada derradeira. Não era o primeiro, muito menos o último copo daquela noite. Ele não estava preocupado com a contagem.

A única que coisa que Charles pensava agora, com a cabeça deitada sobre o tampo da mesa de seu escritório, era em se entorpecer... Em parar de pensar.

Porque, desde o momento que viu a silhueta de Isabella passar pela porta, ele sentia como se pudesse... explodir. E como se aquilo fosse, verdadeiramente, um futuro iminente.

Socou o tampo da mesa. Uma, duas, três, inúmeras vezes. O sangue salpicando na madeira e na garrafa da bebida. Ela lhe deu as costas, o desafiou. Descobriu que mentira. Ela não poderia ter descoberto isso! Nunca, nunca! Nenhuma mentira que ele já contara poderia ser descoberta...

Charles deveria ser o único ponto de apoio de sua Isabella, a única pessoa em que ela poderia confiar. Ele não poderia quebrar isso. O vínculo. Uma das coisas principais que costuravam a sua menina a ele.

Contudo, ele quebrara.

Bateu a testa na mesa, fechando os olhos duramente. As mãos tatearam a gaveta à procura da foto de Renée, retirando-a rapidamente dali, trazendo-a para perto do rosto horizontalizado.

Tão linda...

Charles suspirou enquanto os olhos ébrios avaliavam a mulher como sempre faziam, valendo-se de cada mínimo detalhe que a foto lhe presenteava. Mas não era o suficiente, jamais seria. A fotografia não fazia jus à beleza de Renée ou ao seu sorriso. Ou ao brilho dos olhos.

– E-la está me deixando... – Charles murmurou. – Ela está me abandonando, Renée, ela está... a bambina... está.

Passou os dedos pelo rosto da mulher, as lágrimas chegando aos olhos.

– Como você, Renée. Como você... Por que vocês me deixaram? Por quê? — Charles perguntou, levantando as sobrancelhas, olhando pedinte para a fotografia. Como se esperasse uma resposta. – O que eu faço para que ela fique? O quê? Como... como tê-la de volta, Renée? Como?

Arrastou o rosto pela mesa, sujando-o com o próprio sangue, transtornado.

– Você mentiu para mim, Renée. Como pôde mentir para mim? Gêmeos... Eram gêmeos!

Os olhos azuis se arregalaram quando a mente de Charles trouxe o assunto em pauta. Isabella estava fora do seu domínio agora! Carlisle! Carlisle e as informações, as páginas do diário de Renée e aquele maldito ultrassom poderiam chegar até ela! O que Renée poderia ter escrito naquele diário?

Um gemido sofrido irrompeu o peito de Charles... Ele precisava recuperá-la antes que fosse tarde demais. Recuperar Isabella. Não poderia deixar que as páginas do diário chegassem até ela, não poderia dar-se o luxo de contar com a sorte.

Com a sorte de que nada de mais estaria escrito.

Nada revelador.

E agora? Onde a sua menina estaria? A resposta veio quase instantaneamente: nas garras daquele homem! Nos braços de Edward Masen. Do filho de Carlisle Cullen! Malditos sejam.

Ele a tirara dele, a roubara, a tomara para si!

Um grito de nojo e fúria escapou pelos lábios de Charles e ele levantou-se exasperadamente, cambaleando. Levou as duas mãos ao tampo da mesa, empurrando-a, virando-a. O móvel de madeira encontrou o chão com um baque estridente, juntamente com o som de várias coisas quebradas.

Charles levou as duas mãos à cabeça, puxando os cabelos, tentando dar vazão para sua fúria insana.

– Eu vou acabar com ele... eu vou acabar com ele... – repetia como um mantra.

Sua mente turva demais pela bebedeira não sabia o que fazer, a única coisa que se passava pela cabeça de Charles era que ele tinha que continuar bebendo. Para esquecer...

Esquecer... Entorpecer... Só por uma noite.

Figlio... figlio... – a voz de Irina soou desesperada além da porta. – Charly, filho... o que está acontecendo?

– SAIA DAQUI! – O Swan berrou de volta, furioso.

– Char-ly... – a voz de Irina se quebrou, evidenciando o choro, mas Charles não prestou atenção naquilo. A voz dela... a voz dela estava atrapalhando-o. Atrapalhando seus pensamentos, atrapalhando seu processo de não sentir nada, atrapalhando tudo – Filho, abra a porta... o que está acontecendo?

LASCIAMI IN PACE! VATTENE!*

Me deixe em paz! Saia!*

– Charly... eu posso ajudar você, filho. Abra a porta, por... por favor!

O Swan fez uma careta de descrença, para depois gargalhar. Um riso desenfreado que não poderia ser contido, sua cabeça pendendo de um lado para o outro enquanto ele pensava nas palavras da mãe... “Eu posso te ajudar”

– Ninguém pode me ajudar... – Charles murmurou para ele mesmo. – Ninguém pode. Preciso de Isabella... pre...ciso de Isabella.

Cambaleante, o homem foi até o barzinho, à procura de uma nova garrafa de whisky.

– Charly, abra essa porta, filho! Abra! – a voz de Irina soou novamente e, cheio daquilo, Charles pegou a nova garrafa de whisky, arremessando-a contra a porta.

– VÁ EMBORA! – Gritou novamente, enquanto caía ao chão, desequilibrando-se. O líquido da garrafa escorrendo pela porta, formando uma poça no carpete do escritório.

Charles tentou se levantar, mas, de repente, parecia esforço demais. Simplesmente deitou-se ali, enquanto o choro de lamento e ódio apoderava-se dele.

Sua Isabella... Sua menina. Sua. Para sempre sua. Não de Edward. Jamais de Edward Masen.

Charles a tiraria dele a qualquer custo!

~-~

Irina rumou para o seu quarto enquanto tentava desvencilhar-se das lágrimas que banharam o seu rosto. Torturava a matriarca não saber o que estava acontecendo, não poder fazer nada ante o sofrimento do filho. A única coisa que poderia fazer era ficar em seu quarto. O único lugar em que ela permitia-se pensar em seus fantasmas e segredos.

Andou a passos apressados até o closet, abrindo a porta corrediça de espelho e retirando uma caixinha de aparência antiga com rosas vermelhas escuras pintadas, toda trabalhada com fios de ouro. Assemelhava-se a uma obra barroca, artigo precioso para alguns, não se assomava aos olhos de Irina.

Era o que estava lá dentro, abrigado pelas seis faces da madeira maciça, que possuía verdadeiro valor para a senhora Swan.

Abriu a caixa com cuidado, como se pudesse infligir algum dano às lembranças ali contidas aplicando força ou pressa desnecessárias. Os dedos levemente enrugados de uma mão anteriormente macia, mas sempre bem cuidada, resvalaram pela aresta lateral, enquanto os olhos da matriarca já encaravam o conteúdo, vidrados.

Irina pegou a foto que parecia chamar por ela. Seus dois meninos. E aquela mulher. Todos sorrindo para a fotografia enquanto a mulher abraçava Charlie.

È tutta colpa tua*! – Irina sussurrou, um ódio profundo e arraigado deixando-se transparecer. – Sciagurata...*

*É tudo sua culpa! Miserável...

Em um ímpeto de raiva, Irina trouxe os dois indicadores até a aresta superior da fotografia, pronta para rasgá-la, mas conteve-se no último instante. Algumas coisas simplesmente têm de ser como são. O ódio deve ser cultivado, sentido, degustado. Odiar Renée Swan era só o que restara, só o que Irina poderia fazer.

Desolada, a matriarca colocou a foto de lado e seus dedos foram ansiosos, mesmo que ainda assim cautelosos, para tirar o outro objeto. Um anel.

Trouxe a joia entre os dedos, analisando cada pequeno detalhe, o ouro amarelo brilhando como um raio de sol em um dia de céu aberto. A única coisa que parecia aplacar a vida cinzenta de Irina.

Um anel. O anel do filho morto.

Com as lágrimas caindo, Irina trouxe a joia contra o peito, apertando-a fortemente ali.

Perdonami, figlio mio* – Irina murmurou, perdida. — Ti prego di perdonarmi.*

*Me perdoe, meu filho. Eu te imploro, me perdoe.

~-~

Isabella? Isabella Swan? – a voz masculina conferiu, certificando-se de que se tratava da própria.

– E você conhece mais alguma, Bertollazo? – Isabella apertou o telefone na orelha. Odiava perguntas idiotas. Se você já sabia a resposta, para que fazer o diabo da pergunta?

De todas as coisas que eu pensei que poderiam acontecer no dia de hoje, essa não me passou pela cabeça – gracejou, o característico timbre engasgado irritando a mafiosa. – A que devo a honra da ligação?

A mafiosa bufou.

– Eu quero que você cancele o alvo encomendado por Charles – informou, sucinta. Indo direto ao ponto. Isabella não se dava a rodeios.

– Ora, ora... Mafia Principessa... – o homem riu, audivelmente. – Não é segredo para ninguém a sua influência dentro da instituição, mas você ainda não tem o poder de passar por cima de uma ordem de Charles Swan.

– Ainda – frisou Isabella, levantando uma sobrancelha.

Ainda – o homem repetiu, imitando o tom utilizado por Isabella –, é o que me interessa. O tempo verbal no presente é o que importa para mim, Swan.

– Você vai fazer o que eu mando, Diogo – Isabella começou, com um sorriso convencido. – E isso não tem nada a ver com a patente que ocupo na máfia.

Mesmo? – o homem inquiriu, o tom incrédulo. – E eu posso saber como? Você pode até me oferecer dinheiro, mas suponho que qualquer que seja a quantia, seu tio pode quadruplicá-la.

Isabella rolou os olhos, deixando todo o seu convencimento soar:

– O caso de Atlanta.

O telefone ficou mudo por dois segundos ou três. Isabella pôde sentir a respiração suspensa do outro lado da linha.

Eu não sei do que você está falando.

– Então suponho que devo apresentar detalhes. Bom... por onde começar? Ah, sim... pela parte crucial. Havia essa mulher, Ca...

Pare.

Isabella sorriu.

– Oh, tem certeza? – perguntou sarcasticamente. – É uma história no mínimo interessante... mesmo sem o final feliz. Talvez, justamente por isso. Eu tenho... documentos, informações, tudo contabilizado...

E o que você vai fazer? – Diogo jogou, mordaz. – Entregar para a polícia?

– A polícia é com o que você menos se importa. Não me julgue como tola.

– Então o que vai fazer?

– Se eu espalhar isso, Diogo, sua carreia vai estar acabada. Seu nome na lama. Tem certeza de que quer jogar esse jogo?

– O que você quer? – a voz do homem soou ainda mais engasgada que de costume.

– Já disse. Você não vai pegar o trabalho que Charles lhe concedeu, o referente a Edward Masen.

– O referente à morte de Edward Masen, você quis dizer – o homem alfinetou. Claramente, o tal Masen deveria significar algo para ela.

– Sim. – Isabella engoliu em seco enquanto as palavras pesavam. – Está certo, exatamente esse serviço.

– Se eu não aceitar o trabalho, você vai me deixar em paz quanto a Atlanta? – inquiriu Diogo, desconfiado.

– Exatamente – a mafiosa confirmou.

– E quem garante?

– Eu garanto – afirmou, taxativa.

O telefone ficou mudo por alguns segundos.

– Tudo bem, Swan, considere feito. Ou melhor... – Diogo riu do outro lado. – Não feito.

– Eu sabia que você seria sensato, Diogo – Isabella disse, sorrindo vitoriosa outra vez e podendo respirar devidamente. – Até nunca mais.

Porém, antes que pudesse desligar, Diogo respondeu:

– Nunca mais é muito tempo, Isabella.

A mafiosa arqueou as duas sobrancelhas.

– Não para você.

A mafiosa desligou o aparelho com a sensação de missão cumprida. Porém algo ainda martelava em sua cabeça, mesmo que Isabella quisesse jogar a ideia para escanteio.

Diogo estava certo e, no fundo, a mafiosa tinha conhecimento disso. Nunca mais era mesmo muito tempo.

Isabella estava inquieta e precisava ocupar – ou desocupar – sua mente dos problemas recém adquiridos rapidamente. Seus olhos percorreram o corredor até pairarem sobre a porta que vivia permanentemente fechada. Institivamente, Isabella deu um passo em direção a ela, para se conter logo em seguida.

Quanto tempo Edward ainda demoraria? Dez, quinze minutos? Fosse a primeira ou a segunda prospecção, não seria o tempo necessário. O tempo que Isabella precisaria estar ali dentro.

Rumou para dentro do quarto que agora dividiria com o federal e pegou o porta-joias em cima da penteadeira. Tocou o fundo falso, jogando as joias na superfície de vidro do móvel e retirou dali uma peça prata. Uma chave.

Levou o objeto até a altura dos olhos azuis, um aperto crescente comprimiu as costelas e Isabella sugou o ar ruidosamente.

“– Aquele poderia ser meu quarto temporário?

Isabella arregalou os olhos e respondeu alto e rápido demais.

– NÃO! Não ouse chegar perto daquela porta! Existem duas regras nessa casa, Agente Masen, e eu preciso saber que você vai viver sob elas. A primeira é nunca abrir as cortinas, por motivos óbvios. E a segunda é nunca querer entrar por aquela porta. Ela sempre permanecerá fechada. Você vai dormir no sofá. É um sofá cama e te dará muito mais conforto do que realmente necessita. Pode conviver com isso?”

Isabella rodou a chave pelos dedos, observando-a cintilar graças à luz do cômodo.

Charles foi a pessoa em quem Isabella mais confiou em toda a sua vida. E isso não acabou muito bem. Ele mentira para ela, a fizera de idiota. Quais outras coisas seriam mentiras? Quais outras ele escondia?

A mafiosa balançou a cabeça a fim de afastar a linha de pensamento tomada. Não era o que estava em questão agora, nem tampouco o que se sobrepunha, porque na cabeça de Isabella uma pergunta gritava, mais que todas as outras, para ser respondida.

E quanto a Edward Masen? Ela poderia confiar nele?

Seus olhos avaliaram mais uma vez a chave antes de guardá-la no bolso da frente da calça.

Ela poderia confiar em Edward Masen?

Não sabia. Não sabia sobre mais nada. Porém esperava, com certa inquietação, que sim.

De qualquer forma — a mafiosa tocou o bolso do jeans que continha o objeto metálico — ela estava prestes a descobrir.

Notas finais
Quem estava com saudadeeeees??? hahaha Sei que demorei, mas voltei para ficar, sim? Felizes? O que será que a mafi está armando, han? E como será que o federal vai se sair? Beijos, lindas! Nos vemos nos comentários/ no grupo / no ask / nas MP's... Enfim hahahaha ask: http://ask.fm/oliviavert Grupo de RDS no facebook: https://www.facebook.com/groups/492371880844037/