Rede De Segredos
35 Capítulo 31
Notas iniciais
Carlisle observou as novas páginas xerocadas com um sorriso singelo no rosto. Ele via-se obrigado a reconhecer que era difícil escolher qual das muitas páginas existentes no diário de Renée iria xerocar, mas, ao mesmo tempo, estranhamente divertido escolher a ordem mostrada para a mafiosa.
O Cullen apostava que isso enlouquecia Isabella de certo modo. Alguém que sempre possuiu a ilusão de ter o controle de todas as coisas, de entendê-las, de repente não ter nem mesmo o poder cronológico sobre fatos importantes do seu passado?
Carlisle sorriu, retirando a arma do coldre, colocou-a em cima da cama, logo em seguida desfez-se das peças de roupa que cobriam seu corpo. Precisava de um banho de água fria depois de mais um dia odioso em seu “trabalho”.
Agachando-se para pegar a calça no chão, foi impossível para Carlisle não desviar o olhar para a tatuagem em seu joelho. Uma rosa dos ventos. O símbolo de orientação comumente tatuado por membros na máfia russa, acima do joelho, servia para lembrar a eles mesmos, e quem quer que entrasse no caminho, que a máfia russa não se ajoelhava diante de ninguém.
No entanto, Carlisle não via a tinta permanentemente enterrada em sua cútis com aquele valor poético. Ela também era uma lembrança para ele, não da força da máfia russa, mas sim de a quem pertencia agora, como se fosse um objeto, algo sem valor. Gado. Um corpo que servia as ordens de alguém, por ser sua propriedade.
“Carlisle Cullen acordou atordoado, não se lembrava de como chegara ali, ou mesmo onde era ali. Lembrou-se da mala... de Edward perguntando aonde ele iria... e então as últimas imagens do que havia feito avultaram sua mente com força total. Sentiu as lágrimas não derramadas queimarem seus olhos. Por meses se preparara para aquilo e agora descobrira que não fora o bastante. Nem que se preparasse por cinquenta anos ininterruptos ele poderia estar de fato pronto para o que fizera.
Esme. Edward. Rosalie... Sua pequena Rosalie... Nem pôde conhecê-la direito.
Tentou levar uma mão até os cabelos acobreados, mas não conseguiu. Carlisle olhou para baixo, atordoado, e foi quando se deu conta de que estava amarrado. Os pulsos presos por uma corda firmemente atada à cadeira. Tentando se levantar mesmo assim, descobriu que os tornozelos também estavam amarrados.
Mas que diabos... Onde eles o tinham levado? Ele não conseguia enxergar absolutamente nada ao seu redor.
Foi tentando ver alguma coisa com afinco que Carlisle quase ficou cego quando a luz foi acesa sem aviso. Ele piscou várias vezes tentando elucidar o que via... Eram alguns passos e o ranger inconfundível de uma cadeira de rodas.
Seu pai estava ali também.
– Parabéns, Carlisle... Você conseguiu.
A compreensão de quem era pela audição veio antes da certeza assegurada pela visão. Aro...
Carlisle soltou um riso banhado de ironia e terrivelmente angustiado.
– Vocês conseguiram – ele frisou, finalmente sendo capaz de distinguir os rostos à sua frente. Aro, Caius, seu pai, algum funcionário sem importância da máfia russa e um homem baixinho, segurando firmemente uma mala. Estava completamente vestido, mas, ainda assim, Carlisle podia ver as tatuagens saindo pelos punhos e gola da camisa, tentando aparecer perante olhos curiosos.
– Nós não estávamos dirigindo o carro em questão, esse era você. – Aro começou uma gargalhando que foi acompanhada pelos outros, exceto pelo homem com a mala e o pai de Carlisle que, antes mesmo de abrir a boca, já havia sucumbido em um acesso de tosse. A doença matava devagar no começo, e dolorosamente no final. Carlisle adorava ver aquele homem sendo nocauteado aos poucos pelo único malque foi capaz de vencer a maldade personificada que ele era: o câncer.
– Por que eu estou aqui? Amarrado? Eu já não fiz tudo que deveria fazer? – Carlisle perguntou em um repente de raiva. Não que possuísse outro lugar para estar. Ele não tinha mais nada. O único lugar para onde suas pernas queriam correr era a sua casa, junto com Esme e seus filhos. O único lugar em que queria estar era justamente o mesmo local para onde jamais poderia ir.
– Fez... Você fez tudo o que foi combinado, Carlisle... No entanto, temo que sua ligação conosco ainda seja muito... – Aro parou, escolhendo a palavra mais acertada – rasa.
Carlisle franziu a testa, praticamente unindo as sobrancelhas.
– Rasa?
– Exato – Aro confirmou. – É preciso que seja algo oficial... não concorda? – Estendeu a mão para o homem que segurava de modo firme a mala. Ele a colocou no chão, abrindo-a e retirando um aparelhinho que Carlisle reconheceu de imediato.
O homem era um tatuador.
– Yagniel! – Carlisle chamou pelo seu pai, entendendo sobre o que aquilo se tratava instantaneamente.
– O que foi, Grigory? – a voz do velho saiu impassível, rouca, arranhada como de costume. Carlisle engoliu a bile que se instalou em sua garganta com a menção de seu nome russo.
– Isso... não – praticamente rosnou, taxativo, enquanto via o tatuador se aproximando dele. – Eu nunca disse que me sujeitaria a isso.
Yagniel abriu um sorriso, deixando a mostra todos os dentes.
– Você já é nosso, filho. Agora só vamos marcar você. – As mãos foram até as rodas da cadeira, girando-as para se aproximar mais de Carlisle. – Dessa forma você vai sempre se lembrar de quem é agora, a quem pertence, e o que acontece com as pessoas que abandonou hoje, caso queira mudar o seu destino inevitável.
– Ordinário... – Carlisle cuspiu. Como ele conseguia ameaçar os próprios netos? Infeliz!
– Eto prosto tatuirovka, moy syn. Bud'te dobry .*
*É só uma tatuagem, meu filho. Seja bonzinho.
Carlisle viu sua calça sendo cortada pelo tatuador. Ele nem sequer o olhara nos olhos. Foi vendo a máquina descer até a pele desnuda de seu joelho pela primeira vez, naquela noite, que a primeira lágrima de Carlisle também desceu.
Sentia-se morto. Permanecia de pé, entretanto, por eles.
Esme, Edward, Rosalie.
As três pessoas que mais amava no mundo. E isso, tatuagem alguma poderia mudar.”
Outras imagens de um passado distante avultaram sua mente, porém Carlisle não permitiu que elas se fixassem por muito mais tempo. Lembrar tudo o que fez até o presente momento tornava o seu fardo ainda mais difícil de se carregar.
– Esme. Edward. Rosalie – Carlisle permitiu-se proferir quando já estava dentro do banheiro pequeno, recebendo as gotas de água fria em suas costas enquanto as quentes escorriam por seus olhos. Os três nomes sempre lhe davam força. O simples fato de proferi-los em voz alta fazia com que parecessem tangíveis. Palpáveis. Ao alcance de um estender de mãos.
Por eles torturara. Por eles matara. Por eles Carlisle se tornara alguém que ele mesmo desprezava. Mas não tinha importância, desde que eles estivessem seguros, desde que todo o peso, daquilo recaísse apenas sobre os ombros cansados do Cullen.
Ele faria absolutamente tudo de novo, pelo bem de sua família, mesmo que a cada dia suas ações o despedaçassem um pouco mais.
~-~
Isabella encontrava-se em um sério conflito. Se por um lado já decidira o que fazer, por outro ela não estava muito certa se deveria, de fato, prosseguir. O teste que estava prestes a aplicar para o federal já a preocupava, e pensar no que viria depois, caso Edward conseguisse passar, praticamente acabava com a sua pouca sanidade restante.
Porém, a possibilidade que a assustava mais que qualquer outra, que fazia com que um calafrio, parte de uma sensação há muito esquecida, se apoderasse de seu estômago e transpassasse sua espinha, era se Edward falhasse. Se não passasse no teste, significava que Isabella não poderia confiar nele.
Algo em seu interior dizia que ela não estava pronta para mais uma decepção. Ela não queria passar por aquilo de novo, mas, sobretudo, não queria sentir aquele golpe vindo do Federal.
E, mesmo assim, ela ainda precisava ter certeza.
Isabella andou do modo mais resoluto que pôde pelo corredor, passando pela porta do quarto que ela e o Federal compartilhavam, seguindo até a porta “proibida”. Ela não podia se dar ao luxo de pensar mais.O Federal estaria de volta a qualquer momento e, se ela realmente quisesse se assegurar daquilo, de que poderia, sim, confiar nele, o momento era agora. Teria que agir. Sem hesitações. Apagou a luz do corredor.
Não havia mais tempo para ponderações.
Isabella encaixou a chave na fechadura, girando-a duas vezes e destrancando a porta. Levou sua mão até a maçaneta e seus dedos vacilaram por alguns segundos na peça de metal. A mafiosa fechou os olhos, o rosto franzido como se tentasse resolver algo extremamente complexo, como se lidasse com os seus próprios problemas internos.
E, de fato, lidava.
Girou a maçaneta.
As dobradiças rangeram quando Isabella empurrou levemente, para livrar-se do trinco. Parou, encarando a porta entreaberta, apenas uma fresta escura. Tão perto de revelar tudo, sem revelar absolutamente nada.
Recolheu a mão.
A mafiosa deu dois passos para trás, afastando-se gradativamente do que acabara de fazer. Prendeu os braços junto ao corpo, inviabilizando qualquer tentativa de fechar a porta, ainda que consciente.
Os olhos profundos encararam a peça de madeira por longos instantes, visualizando o que havia por trás dela. O mar azul subitamente afetado.
– Não me decepcione – Isabella sussurrou, enquanto a percepção de um Edward encarando sozinho aquela porta, dentro de poucos minutos, instalava-se em sua mente. – Per favore...
Uma vez ele a assegurou que não entraria ali. Era hora de descobrir se Edward Masen era capaz de manter a sua palavra.
~-~
Edward Masen chegou até mesmo a assobiar enquanto subia as escadas de piso precário do prédio em que ele e a mafiosa estavam. Sentia-se um pouco culpado que, mesmo diante dos recém-acontecimentos na vida de Isabella, ainda se sentisse tão... feliz.
Mas era inevitável.
Eles estavam juntos de novo.
Um sorriso ocupou seus lábios, mas não durou muito tempo. Sim... eles estavam juntos de novo. E a máfia russa definitivamente queria algo com Isabella.
Edward estalou os lábios, um barulho de desgosto. Ele intuía que não iria gostar nem um pouco quando descobrissem qual era o interesse de quem havia perseguido e agora mandado aquele envelope para Isabella. Sua intuição nunca falhara antes.
Respirou profundamente antes de entrar no apartamento... Alguns bons minutos atrás o deixara sabendo que, quando voltasse, ele e Isabella teriam que ter uma conversa séria sobre o que estava acontecendo, sobre como prosseguir, e sobre a tal máfia russa e a ligação dela com Isabella... e, possivelmente, com a morte dos pais dela.
O homem sabia que não seria uma conversa fácil, principalmente para Isabella. Só esperava que ela conseguisse se abrir com ele, conversar sobre um pouco do passado dela. Edward esperava que ela confiasse nele o bastante para dar aquele pequeno gigante passo.
Entrou no apartamento, fechando as portas e digitando a senha recém aprendida para ligar o sistema de segurança. Sorriu brilhantemente contra o teclado de números brancos embutido na parede.
Três. Cinco. Nove. Zero. Sete.
Quem poderia supor que um dia ele teria aqueles números cedidos por Isabella?
Edward olhou ao redor, mas ela não estava ali. Franziu as sobrancelhas. Achando o fato estranho, andou rápido até a cozinha, depositando a sacola com as compras no balcão, e rumou para sala novamente.
– Isabella? – O Federal chamou, mas não houve resposta. Sem barulho de chuveiro também. Se não estava no banho... Por que ela não estava respondendo?
As pernas de Edward apressaram-se mais, ao passo que seu coração acelerava-se, descompassado com as novas batidas. Não. Não havia a menor possibilidade que alguém tivesse entrado ali, que Isabella não estivesse segura. Ao menos era aquilo que sua razão dizia, destoando nitidamente da adrenalina que percorria seu corpo enquanto calcorreava o corredor de forma silenciosa.
Logo chegou a porta do quarto e, antes mesmo de chamar por Isabella, viu o corpo de mulher deitado no colchão, de costas para ele. Edward adentrou o cômodo, contornando a cama e, finalmente,contemplando a expressão impassível da criminosa. Quase serena. Os olhos azuis fechados, o peito subindo e descendo lentamente.
Edward semicerrou os olhos, esticando o braço em direção a Isabella para que sua mão tocasse o pescoço alvo exposto. Ela continuou ressonando, a pulsação tão calma e controlada como sua respiração. O federal recolheu o braço, pousando as duas mãos grandes no quadril enquanto avaliava a linda mulher a sua frente.
Ela estava mesmo dormindo.
Como aquilo era possível? Ela sabia que eles deveriam conversar... Será que Isabella tinha decidido fugir do que viria a seguir? Edward balançou a cabeça, negando a própria pergunta. Por mais que a mafiosa odiasse se expor, ela não era do tipo que fugia da luta de uma forma tão descarada.
Pensando bem, diante das coisas novas acontecendo nos últimos dias, da descoberta de que Charles mentira, do envelope. Até mesmo... até mesmo do jeito que ela ficou quando pensou que ele estava... morto. Edward sorriu tristemente, lembrando-se do momento que a encontrou em frente à televisão. Bom... não era de se estranhar que ela estivesse realmente... cansada. Mentalmente estafada.
O Federal puxou a coberta que descansava ao pé da cama para o corpo de Isabella, cobrindo-a até os ombros expostos pela regata preta. Sem se conter, Edward levou uma mão até os cabelos macios e cheirosos de Isabella, fazendo uma carícia ali.
Ele deixaria que ela descansasse. Embora ele soubesse que ela jamais admitiria aquilo, descansar era tudo o que Isabella precisava no momento.
O federal saiu do quarto, pensando que deveria matar o tempo arrumando a cozinha e os mantimentos que comprara. Algo, no entanto, o fez estacar ainda no corredor. Edward não soube precisar o que era, até que finalmente entendeu.
Ele nunca havia visto o corredor tão escuro como hoje.
O Federal olhou para o teto, deparando-se com a luz apagada e franzindo as sobrancelhas. Aquela luz sempre ficava acessa, tanto de noite, quanto de dia, graças à janela do corredor que vivia permanentemente selada. Procurou o interruptor, esquecendo-se momentaneamente de onde ele ficava. Edward percorreu com os olhos todas as paredes do corredor minuciosamente a procura da peça branca. E então, de repente, estacou.
Ele achara bem mais que um mero interruptor.
Desconfiando momentaneamente da própria sanidade, o Federal deu passos incertos até a porta proibida por Isabella.
Não... Não poderia ser.
Mas era. Agora de perto, Edward podia ver nitidamente o trinco prateado encostado contra a peça de madeira.
A porta estava... aberta.
Os orbes esmeraldinos quase saltaram para fora enquanto o Federal observava a veracidade daquilo. Aberta! A porta proibida... aberta.
Quantas noites ele passara pensando no que tinha atrás dela? Quantas milhares teorias formulara? E agora, ele estava parado diante do seu objeto de curiosidade. A descoberta ao alcance de suas mãos. Literalmente.
Edward balançou a cabeça, embasbacado. Queria tanto saber o que tinha por trás daquilo. Conhecer um lado de sua Isabella que ela parecia se esforçar tanto para esconder. Conhecer tudo sobre ela. Absolutamente tudo. Cada mísero detalhe ofertado.
Levou uma mão até a maçaneta, e a peça de metal praticamente queimou sua pele, instigando-a a continuar, a saber o que havia ali dentro.
Edward soltou um riso de esgar enquanto passava a língua pelos lábios que ficaram de repente secos demais. Olhando para a porta encostada a sua frente, percebeu que, ironicamente, nunca estivera tão longe de descobrir o que ela guardava.
Não poderia fazer aquilo.
A barreira física se fora, era bem verdade, mas ela não era o único obstáculo que impedia que o impedia de simplesmente girar a maçaneta. Na cabeça do federal, aquela porta ainda estava fechada para ele, como sempre esteve...
Porque Isabella o pediu que fosse assim.
Edward fechou os olhos fortemente. Ele prometera a ela que não entraria ali. Ela não queria que ele entrasse. Isso era o que realmente impedia o Federal de passar por aquela porta. Isabella a cada dia que passava a confiar um pouquinho mais nele, e Edward jamais traíra a confiança aos poucos depositada daquele modo.
Ele não era Charles Swan.
Ele simplesmente não conseguia violar algo que parecia tão importante e secreto para Isabella. Não importava o quanto sua mão coçasse, o seu coração batesse apressado em antecipação, e a curiosidade fervilhasse os seus pensamentos. Aquilo era sobre ela. Não sobre ele.
Resoluto, Edward girou a maçaneta, puxando-a em sua direção, fechando a porta enquanto ouvia o estalar do trinco. Fechada. Como deveria ser. Como Isabella queria que permanecesse.
Suspirou pesadamente diante do que havia feito, e foi então que sentiu-se observado. A força daquele olhar era tamanha, que ele quase podia ver as duas águas marinhas alvejando-o pelas costas. O Federal engoliu em seco, retirando sua mão da maçaneta com um praguejar.
Virou-se lentamente, encontrando uma Isabella parada à porta do quarto que compartilhavam, os olhos azuis firmemente focados nele, como já imaginara. O coração de Edward perdeu um compasso enquanto sentia a bile subindo até sua garganta. Não. Aquilo não podia estar acontecendo.
– Isabella – a voz finalmente saiu como em um esguicho. O corpo dele pendendo milimetricamente para frente enquanto levantava as mãos para cima, no intuito de se mostrar inocente. De pedir calma. — Isabella, eu sei o que parece, mas não é! Não é o que você está pensando, não é!
A mafiosa permaneceu estática, sem mover um músculo sequer.
– Não é? – perguntou, simplesmente.
Um som agoniado saiu diretamente do peito do Masen, um murmúrio de dor.
– Não é, Isabella! Não é... me escute, sim?... – implorou, dando um passo pequeno em direção a ela. – O que você acabou de ver, não é... não é o que parece.
– E o que parece, agente Masen? – a mafiosa inquiriu, desencostando-se da soleira da porta.
– Não faz assim... Eu jamais... você... – O quê? O que estava prestes a dizer? Edward balançou a cabeça, atordoado. Estava prestes a dizer que ela poderia confiar nele? Que ele jamais a trairia? Essas eram coisas que Charles certamente costumava dizer para ela... Coisas que ele não deveria dizer naquele momento, não se quisesse que ela acreditasse realmente nele. – Você disse que eu não poderia saber o que estava aqui dentro. E eu respeito isso. Eu jamais... Jamais...
– Eu sei – Isabella o cortou, a voz firme e precisa, ainda que extremamente baixa.
– Sabe? – As sobrancelhas dele uniram-se, deixando a mostra sua confusão.
A mafiosa andou lentamente até o homem, parando em sua frente, suspirando ruidosamente.
– A porta estava encostada – sentenciou.
– Exatamente! – o Federal respondeu em um rompante – Eu iria chegar nessa parte, ela estava... aberta! Eu só estava... – Edward parou abruptamente, enquanto a percepção abatia-se sobre ele. A porta estava aberta. Aturdido, encarou os olhos de Isabella por muito mais que um par de segundos e foi então que, instantaneamente, soube. – Você a deixou aberta.
Ela balançou a cabeça positivamente.
– Sim. Eu deixei.
Ele não entrara. Isabella suspirou, aliviada. Não entrara.
Era como se um peso enorme que comprimia seu peito tivesse sido içado para longe de seu corpo. Era como se ela, finalmente, depois dos acontecimentos dos últimos dias, pudesse respirar de novo. Era como terra firme... e como era bom não se preocupar, mesmo que por meros segundos, com o lugar que estava pisando.
Os olhos semicerrados do Masen percorreram o ambiente à sua volta enquanto ele tentava internalizar o que acabara de acontecer. Isabella deixara a porta aberta. Mas... Por quê? Ela sempre era tão cuidadosa...
As sobrancelhas dele se levantaram em um átimo para depois praticamente se unirem, a cabeça pendeu para um lado ao mesmo tempo em que ele dava um passo em direção a ela.
– Você estava me testando?
O tom empregado desestabilizou Isabella momentaneamente. Ela engoliu em seco, conectando seu olhar ao dele.
– Eu tinha que ter certeza.
Edward bufou incredulamente, os braços pendendo ao lado do corpo como se fossem dois pesos moles. Ele girou os calcanhares, dando as costas para Isabella momentaneamente, mas sem sair do lugar. Encarou a parede branca como se ela fosse parte de uma revelação consternadora.
– Você não confiava em mim. – Não era uma pergunta. Era uma certeza, pesada, densa... Saída da boca de Edward, chegando até a mafiosa. Isabella deu um passo para trás quando finalmente a recebeu.
– Eu... confiava – informou com dificuldade, a garganta seca mal projetando as palavras. Admitir aquilo, mesmo que fosse verdade, era difícil em demasiado.
O homem deu um riso de esgar, virando-se abruptamente para encará-la.
– Confiava? – testou, incrédulo. – Então que tipo de teste foi esse? – inquiriu, apontando para a porta agora fechada.
Isabella empertigou-se, tentando não abandonar sua altivez.
– Eu estava... temerosa... – fez uma careta para a escolha de palavras, entretanto não havia uma mais adequada para expressar o que realmente acontecera – que estivesse errada. Eu precisava ter certeza.
– Temerosa que estivesse errada? – Ele uniu as sobrancelhas, dando um passo na direção dela.
– Temerosa que estivesse errada em confiar em você, Federal.
Foi olhando nos olhos azuis falsamente imperturbáveis que Edward finalmente compreendeu do que aquilo se tratava. Charles. Ela sempre confiara em Charles cegamente, inteiramente... e ele a traíra. Bem diante de seus olhos, ao alcance de seus ouvidos.
Por mais que comparar-se com o tio de Isabella fizesse Edward ficar nauseado, ele entendia o que estava acontecendo ali. A mafiosa queria ter certeza de que, um dia, o que se passou com Charles não se repetiria... com ele.
Se, por um lado, o federal odiava que Isabella pudesse pensar que ele faria algo como o que Charles fez, por outro, de um jeito meio torto, ele se sentia quase... honrado. O que ele tinha que entender era que, as visões que ele e Isabella sempre possuíram do Swan eram completamente antagônicas. Enquanto ele o via como o crápula que realmente é, Isabella o detinha, infelizmente, em uma espécie de profundo respeito e admiração.
Edward sabia que o mafioso era importante para ela, e ser posto em cheque graças ao fato de que Charles a traíra dizia muita coisa.
Dizia que ela precisava se certificar de que não sofreria outro golpe, dessa vez, desferido por ele.
Dizia que ele era importante também... para Isabella.
Edward soltou um sorriso incrédulo, balançando a cabeça, levando seus olhos ao teto... Quem precisava de um diploma em psicologia quando se convivia com Isabella Swan?
A mafiosa franziu as sobrancelhas, não entendendo o que acabara de acontecer à sua frente. Em um momento Edward a encarava com raiva e... certa mágoa. No outro, já ria abertamente sobre o que parecia ser uma piada particular de difícil acesso para ela.
Isabella cruzou os braços, esperando que aquilo acabasse.
– Eu entendo... – Edward finalmente disse, voltando seus olhos para os dela – Eu entendo por que fez o que fez, Isabella...
– Não. Não entende – ela o cortou, taxativa. – Eu precisava ter total certeza antes de te mostrar.
O homem franziu o nariz, tentando compreender o que aquilo significava.
– Me mostrar? O que você tem para me mostrar?
Isabella suspirou ruidosamente lembrando-se do que decidira, secretamente, para si mesma,caso o federal passasse no teste. E o que aconteceria se ele passasse? Ela lhe mostraria... Ela entraria com ele no quarto.
Se fossem fazer aquilo, entender o que a máfia russa queria com ela... juntos, era preciso que o federal conhecesse um pouco mais daquela história.
Da sua história.
Ele precisava entender os acontecimentos do passado, para que pudesse investigar eficazmente agora, no presente.
A mafiosa engoliu em seco, tentando não transparecer o turbilhão de pensamentos que passavam por sua mente. Balançou a cabeça em direção a porta que Edward acabara de fechar.
O Federal arregalou os olhos, complemente descrente. Não. Ele não poderia estar entendendo aquilo de maneira correta.
– Isabella...
– Existem certas coisas – A mafiosa o cortou — Que você precisa saber antes de continuar aqui. Antes de embarcar nessa investigação como tanto insiste, federal. Algumas dessas coisas, a base para elas, ao menos, está atrás dessa porta.
Edward encarou a mulher por vários instantes, pego totalmente de surpresa. Analisava os olhos azuis resolutos a sua frente com o mesmo afinco que processava aquelas informações. Isabella o deixaria entrar naquele quarto.
Ele mal podia acreditar em sua própria dedução óbvia.
Isabella Swan estava prestes a expor para ele, Edward Masen, um lado dela que, claramente, não gostava muito de trazer a tona.
O porquê de ter sido testado minutos atrás ficou ainda mais claro para Edward. Aquilo que a mafiosa iria fazer, o que ela mostraria para ele agora, não era uma abertura pequena. Era incontestavelmente um passo gigantesco partido dela.
E definitivamente Edward soube: Isabella confiava mesmo nele.
A contestação aqueceu seu peito, estufando-o de orgulho e, por que não dizer, felicidade?
Com o coração na garganta, Edward assistiu a mão de Isabella agarrando a maçaneta.
A mafiosa vacilou por um instante,dando-se conta do que estava prestes a fazer. Quando articulara aquilo alguns bons minutos atrás, em sua mente, fazia total sentindo. O federal, insistente como era, já estava certo sobre querer ajudá-la com a máfia russa, entranhando-se em seus assuntos, sem pedir permissão e sem compreender a real profundidade do terreno que explorava.
Se antes já lidavam com o fato de que os malditos russos queriam matá-la, ou ao menos capturá-la, agora, com aquele envelope, Isabella intuía que a situação se complicara ainda mais.
Era justo que Edward, antes de realmente embarcar naquilo, soubesse onde estava se metendo.
E justamente por Isabella ter plena consciência de que estava fazendo aquilo por pensar no melhor para ele, era que sentia-se atormentada. Naquele instante ela não conseguia reconhecer a si mesma.
A Isabella de meses atrás não teria aquela consideração, não se preocuparia se era justo ou não para Edward, porque, primeiramente, ele nem estaria ali. A Isabella mafiosa não teria vacilado perante uma ordem de execução. Muito pelo contrário. Ela teria tirado o brilho e a vivacidade dos olhos verdes de Edward Masen sem que tivesse tempo para admirá-los. E, principalmente, a Isabella de messes atrás não se escancararia, não se exporia daquela maneira que estava prestes a fazer.
Sua mão apertou com mais força a maçaneta.
Edward franziu as grossas sobrancelhas percebendo que a mulher vacilara.
– Isabella... – Chamou, o tom de voz baixo e suave. Rouco.
O tom de voz surtiu efeito na mafiosa, que saindo momentaneamente de suas próprias considerações, virou a cabeça para encarar o Federal.
Edward praticamente arfou quando pode encarar o rosto delicado da mulher. Os olhos de gelo encarando diretamente os seus, queimavam, sucumbindo e mostrando para o Federal as percepções inquietantes que, certamente, gladiavam na cabeça da mafiosa naquele momento.
– Não... – ele murmurou, o tom ainda suave, mas resoluto. Ter aquela amostra de como a mente de Isabella estava pelos olhos dela, literalmente infligira dor em Edward. Ele não queria que ela se sentisse daquela maneira... Ele faria qualquer coisa para que não sentisse – Não, Linda... Eu vou saber o que há por trás dessa porta no dia que você estiver pronta para me mostrar isso.
Isabella soltou um riso de esgar, balançando a cabeça inquietamente. Não era uma opção ele continuar ali, com ela, colocando sua cabeça a prêmio para a máfia russa sem saber o que acontecera no passado.
– Eu estou pronta. Eu sempre estou pronta. – contra-atacou, arqueando as sobrancelhas bem talhadas. – O que acha que eu sou? Uma bonequinha de porcelana que pode lascar diante de um mínimo esbarrão?
Edward fechou os olhos com força, sugando o ar ruidosamente.
– Não, Linda. – repetiu, inflexível. Sua mão indo até a de Isabella que encontrava-se na maçaneta, com a intenção de brecar qualquer possível movimento que ela pudesse tentar — Você não está.
O toque que tinha como intenção detê-la, fez justamente o contrário. Isabella sentiu a pele formigar e algo dentro dela... se resolver. Era quase como uma... epifania.
Olhando de relance a sua mão na maçaneta e a do Federal por cima da sua, Isabella soube que se ela fosse permitir que alguém algum dia entrasse naquele quarto, esse alguém seria Edward Masen. Como se ele fosse a única pessoa que realmente pudesse entrar ali.
Virou a cabeça de novo para ele, encarando os olhos verdes profundos, mas que passavam para ela uma estranha sensação de conhecimento... De segurança.
– Eu estou pronta.
Quando Isabella tentou girar a maçaneta, não encontrou uma força contrária feita por Edward. Ela sabia que ele tinha lido a veracidade daquelas palavras em sua expressão.
E então, com as mãos unidas na maçaneta, Mafiosa e Federal finalmente abriram a porta. Juntos.
Isabella empurrou a madeira, as dobradiças rangendo em uma reclamação, enquanto a mulher escancarava a porta. Deu um passo para trás, deixando que o Federal adentrasse primeiro o quarto ainda escuro. Ele deu dois passos para dentro, e Isabella tateou à procura do interruptor interno colocado ao lado da porta.
Enchendo o peito de ar, a mafiosa acendeu a luz e instantaneamente um som preencheu o quarto proibido.
Era o arfar de surpresa saído diretamente da garganta de Edward Masen.
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