Red Dead: Rebirth
3 Uma Bela Noite Para Uma Caçada
O cervo bebia água, às margens do rio Kamassa. Era o recanto preferido deles para beber água, sabia Charlotte Balfour. Desde que Arthur lhe fizera uma visita em sua casa e lhe ensinara o básico para sobreviver, Charlotte havia desenvolvido bem suas habilidades. Agora, prestava atenção ao comportamento dos animais que se tornariam seu almoço ou até mesmo um belo casaco de pele para aquecê-la nas noites em Willard's Rest, sua moradia desde que ela e seu falecido marido optaram por uma vida mais tranquila no interior. E aquele cervo faria bem como refeição, talvez pelos próximos dois dias.
Agachada, ergueu seu rifle. Olhou bem para ele. Inocentemente, bebendo daquela água, alheio ao que lhe acontecia. Claro, não tão alheio assim, pois ela sabia que se chegasse mais perto do que aquilo, ele notaria sua presença e fugiria. Por isso, o tiro precisava ser certeiro.
Atirou, segurando o coice da arma. Ao ouvir o grunhido do animal, Charlotte teve certeza de que sua refeição estava garantida. Caminhou a passos rápidos, contente por sua boa pontaria, até o animal. Entristeceu-se ao ver que o tiro, apesar de ter sido na cabeça, não foi fatal o suficiente, e que agora o pobre cervo agonizava. Agora, cabia a Charlotte dar o golpe de misericórdia nele. Tudo parecia mais fácil quando distante.
Ele era tão pesado que Charlotte teve que arrastá-lo caminho adentro, até sua cabana no topo da colina. Nessas horas, lamentava-se por não ter um cavalo. Chegou a ir a Annesburg comprar um, mas o preço era alto demais para as economias que mantinha em casa. Teria que ir a Saint Denis fazer uma retirada na conta que tinha no banco, mas estar de volta à civilização depois de tanto tempo ainda era uma ideia que muito a desanimava, de tão adaptada que estava à vida selvagem.
Depois de esfolar o animal e deixar sua pele secando, Charlotte percebeu que estava ensopada de sangue. Seu vestido branco chegava a estar carmesim. Mesmo com tantos meses de prática, ainda não conseguia deixar suas roupas ilesas ao esfolar os animais, sempre se esquecendo de usar um avental para se cobrir. Um banho até que seria bem-vindo, pensou unindo o útil ao agradável. Mas antes, precisava preparar o jantar.
A noite já havia caído quando Charlotte mergulhara naquela tina com água, repleta de sabão. Usava em seu banho algumas essências perfumadas, um dos poucos luxos de sua vida na cidade que ela ainda carregava. Lavou seus cabelos, descansando naquela água fresca. O banho não era tão quente como os que tinha em Chicago, mas era acalentador se ver livre da poeira e sangue, esquecendo por alguns minutos até mesmo sobre si mesma, graças aquele banho relaxante.
Era para ouvir naquela noite nada mais que o barulho de grilos, mas um som um tanto estranho despertou sua atenção. Parecia ser... Socos? E agora, grunhidos. Mas grunhidos de quê, exatamente? Em tantos meses morando em Willard's Rest, Charlotte não se recordava de nenhum animal a emitir um som assim. Parecia quase que uma briga.
A curiosidade foi maior que qualquer conforto, fazendo Charlotte correr para a toalha mais próxima e se vestir rapidamente em um roupão. Ainda com os cabelos negros soltos e encharcados de água, saiu da cabana. Não sem antes pegar sua inseparável carabina. Caminhou sorrateiramente para perto da janela que dava para seu quarto. Era nítido que alguém estava apanhando. Dava para ouvir os socos. Mas a escuridão da noite não lhe permitia compreender o que estava acontecendo.
-Mas o que é isso?! – perguntou, com a arma empunhada contra o homem que, apenas à luz do luar, esmurrava e espancava outro que estava jogado ao chão. A julgar pelos sons de dor, foi algo brutal, o que a deixou ainda mais temerosa. Ao ouvir sua voz, o homem imediatamente parou de espancar o outro, levantando-se devagar e com cuidado.
-Ponha as mãos aonde eu possa ver. Agora! – ordenou, com firmeza na voz, sendo obedecida por ele. Jamais se imaginou com tamanha força. Talvez o estranho homem de chapéu e barba compridos pensasse a mesma coisa, pois tudo que ele fez foi rir um pouco.
-E parece que você não precisava tanto assim da minha ajuda! Vejo que consegue se virar muito bem sozinha!
-Arthur! – emocionou-se a mulher, imediatamente reconhecendo a voz de seu amigo. Baixando a arma, aproximou-se dele. Mal dava para reconhece-lo, com a barba quase na altura do peito e cabelos compridos, batendo no ombro. Mas o inseparável chapéu de couro negro ainda era o mesmo, bem como seus olhos verdes confiantes.
-Mas... Mas o que você está fazendo aqui....? E batendo nesse homem?
-Você sabe quem ele é? – perguntou Arthur, levemente chutando o sujeitinho sobre o chão, já desacordado pela surra.
-Eu... Eu não faço ideia de quem ele seja.
-Pudera, depois da surra que dei nele, não haveria como reconhece-lo. Mas enfim, é uma longa história. Creio que é melhor entrarmos. Esse sereno todo... Não vai fazer bem a você.
As palavras de Arthur imediatamente fizeram Charlotte voltar a si quanto a seu estado. Vestia nada mais que um roupão e seu corpo ainda estava levemente molhado. Estaria tremendo de frio, se não fosse a felicidade em vê-lo depois de tanto tempo. Encolheu-se, fechando ainda mais o roupão contra seu corpo, notando em Arthur um olhar um tanto tímido.
-Tem razão. Vamos entrar. Mas, e quanto a ele?
-Deixa esse verme pervertido aí. Já teve a lição que merecia. – disse, finalizando com uma cusparada. O que quer que fosse a razão de seu asco contra ele, Charlotte entendia que não deveria ser à toa para deixa-lo tão bravo.
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Por sorte ainda havia um pouco do guisado de cervo na panela, e assim Arthur pôde aproveitar-se de uma refeição quente naquela noite fria em Roanoke Ridge, algo que ele não tinha há tempos, precisando se servir carne cozida na brasa e uns feijões enlatados que não chegavam aos pés daquele guisado saboroso. Esbaldou-se a ponto de raspar o prato, só não pedindo mais porque sabia que havia acabado.
Para Arthur, o reencontro com Charlotte foi bom para colocar a conversa em dia. Não conversava há muito tempo com um rosto conhecido, o que era de certa forma reconfortante. Ela sabia de quase tudo sobre seu passado, mesmo dos detalhes mais sórdidos, e inclusive sobre sua doença.
-Eu realmente estou surpresa por vê-lo vivo e bem. A julgar pelo seu estado na última vez que nos vimos, pensei que estivesse...
-Morto, eu sei. Eu também pensava o mesmo, mas fui salvo pelos Wapiti. São uma tribo de indígenas que viviam em uma reserva, não muito longe daqui.
-Acho que sei quem são.
-Provavelmente você leu sobre eles em algum jornal, mas com certeza o relato dos jornalistas não chega perto do que são de verdade. Eles salvaram a minha vida. Conheciam as propriedades de algumas ervas medicinais e souberam usar para me curar da tuberculose. Fico pensando quantas vidas seriam salvas se esse conhecimento todo fosse compartilhado, mas...
Charlotte notou certo pesar em sua voz.
-Eles serão extintos. Anos e anos sofrendo ataques dos brancos, e serão extintos. Toda essa sabedoria irá desaparecer, tudo isso porque somos arrogantes demais para aceitar que eles, com seu modo de vida tão diferente do nosso, podem saber mais do que nós. E eu não posso fazer nada para impedir isso.
Charlotte serviu a Arthur um pouco de uísque. Pensou em oferecer-lhe um cigarro, mas sabia que a oferta seria por demais estúpida a um homem que passou recentemente por problemas pulmonares.
-Mas você ficou com alguma sequela?
-Não vou negar, sim. Sinto que não tenho o mesmo fôlego de antes. Mesmo com mais de trinta anos, corria em disparada e nadava velozmente, muito melhor do que muito rapazinho, mas agora... Nas poucas vezes que tive que me colocar à prova, notei que estou bastante enferrujado. E não é porque estou mais sedentário, longe disso. Acho que nunca estive tão fisicamente ativo em toda a minha vida, neste tempo que passei com os nativos no Canadá, mas meus pulmões... Já não são mais os mesmos. Um preço cobrado pela tuberculose, infelizmente. Pequeno, tendo em vista que seria minha própria vida.
-Bom, talvez seus pulmões estejam melhores do que pensa. Você deu uma surra e tanto naquele sujeito e nem parece estar muito cansado.
-Quando estou com raiva nem consigo me cansar. Além disso, o cretino mereceu. Quer saber porquê dei uma surra nele? Pois bem. Estava em Annesburg, comprando uma passagem de balsa para ir a Nova York, quando decidi vender minha égua. Odeio ter que fazer isso, mas meu projeto era fugir para bem longe, e não havia como Guinevere me acompanhar, por isso optei por vende-la no estábulo. Era melhor deixa-la com alguém do que solta por aí. Enfim, estava negociando o preço dela com o dono do estábulo quando esse cretino perguntou sobre você. Perguntou se você havia conseguido comprar um cavalo. O dono do estábulo disse que não, e comentou que você iria a Saint Denis para conseguir o dinheiro para comprar o cavalo. Não gostei daquele sujeitinho no instante em que pus os olhos. Tinha a maior cara de tarado, desses dos mais nojentos, e estava fazendo muitas perguntas sobre você, sempre muito interessado e com todo o jeito de quem estava disposto a... Fazer uma besteira.
Charlotte engoliu em seco, apavorada. Obviamente, morar sozinha em uma cabana no meio da mata poderia ser uma ideia tentadora a homens pervertidos, mas estar diante dessa situação a acontecer diante de seus olhos a aterrorizou. Por sorte, Arthur estava lá para impedir que o pior acontecesse.
-Minha intenção não era me demorar muito por Annesburg, mas eu sabia que não poderia deixar que qualquer coisa acontecesse a você. Por isso, segui o canalha. Ele estava acampado aqui por perto, não muito longe da sua casa. Avistei com meus binóculos uma série de coisas horríveis em sua tenda, que por educação a uma dama como a senhora não irei dizer. Continuei a segui-lo, e logo percebi que minha intuição estava certa. Ele foi até aqui, e ficou a espionar você pela janela, a se banhar. Não sei por quantas vezes ele fez isso, ou se tencionava fazer algo pior essa noite, mas decidi que era hora dele tomar uma lição. O resto você já sabe e... O que diabos é isso?
Arthur colocou-se em alerta, ao ouvir o relinchar de um cavalo. Não era de sua égua Guinevere, esse relinchar ele reconhecia de longe. E Charlotte não tinha um cavalo. O que significava que eles tinham companhia. Tirou do coldre seu revólver, colocando-se à espreita na janela. Viu um vulto, iluminado escassamente pelo luar. Usava um chapéu grande e um enorme sobretudo. Bateu à porta.
Charlotte olhou para Arthur, como se perguntasse se deveria ou não abrir. O pistoleiro recusou solenemente. Tomou a iniciativa, abrindo a porta para encarar quem era o misterioso sujeito que batia na porta daquela cabana tão tarde da noite. Não deveria ter boas intenções. Arthur só esperava que não fosse nenhum caçador de recompensas ou oficial da lei que o reconheceu em sua breve passagem por Annesburg, do contrário jamais iria se perdoar por trazer tamanho perigo à Charlotte e envolve-la em sua vida bandida.
Abriu a porta, com o revólver desengatilhado e dedo no gatilho. Mas não disparou. Ao invés disso, suspirou. Depois riu, para profundo estarrecimento de Charlotte, agora confusa com sua reação inesperada ao estranho que lhe batia à porta.
-Sadie Adler. – anunciou Arthur, permitindo que uma mulher loira e armada até os dentes adentrasse aquela casa. Havia um sorriso em seu rosto, bastante semelhante ao que ele lhe direcionará após revê-la depois de tanto tempo, o que deu uma leve e inexplicável estremecida em seu coração. Deveria ser uma amiga, e muito próxima. Ele jamais falara dela, curiosamente. Falara de um amor de seu passado, uma moça chamada Mary, mas não dessa jovem loira que também parecia estonteante por vê-lo, quase tanto quanto ele. Charlotte engoliu em seco, entretanto. O que esperava, afinal? Que um pistoleiro de má fama pudesse revelar a uma quase estranha todos os segredos obscuros em seu coração? Por mais mordida que estivesse com a presença daquela jovem, Charlotte sentia que devia tanto a Arthur que deveria trata-la com a mesma cordialidade que lhe dispensava. Um amigo de Arthur era seu amigo também, ela pensava. E assim seria.
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