Red Dead: Rebirth
4 Do Diário de Arthur Morgan p. 84
Quando decidi tornar Annesburg como ponto de partida de minha rota de fuga, jamais poderia imaginar que isso resultaria em rever Charlotte Balfour e também Sadie Adler, duas mulheres que não se conhecem, mas que acabaram unidas por um calhorda qualquer que encontrei no estábulo de Annesburg. Muitos poderiam chamar de coincidência, outros de destino, mas como prefiro não dar nome a coisas dos quais não tenho como dar explicação, me atenho a simplesmente aproveitar esse momento.
Conversei com Sadie Adler até o sol raiar, o que deveria ter deixado Charlotte enfurecida se ela também não tivesse se entretido com nossa conversa. Era bom revê-la novamente, saber que ela estava viva e bem. Melhor ainda, longe da gangue de Dutch – ou melhor, do que restou dela. Era a primeira vez que tinha notícias concretas sobre o que aconteceu com eles, desde que fui acolhido pelos Wapiti e todos presumiram que eu havia sucumbido à tuberculose.
Ela contou-me com mais detalhes do que ocorreu à gangue depois do audacioso plano de explodir a ponte ferroviária e se aproveitar do caos para fugir. Sem qualquer surpresa, deu tudo errado, mas nem em minhas piores perspectivas eu poderia presumir o que iria acontecer.
John Marston está morto. Descobriu sozinho quem era o traidor da gangue. Confrontou Dutch a respeito disso, e morreu. Sadie Adler sabia, pois ambos descobriram juntos, ao resgatar Abigail das mãos dos Pinkertons. Foram as últimas palavras do agente Milton, antes de ter os miolos explodidos por Abigail. Foi seu último ato, após ter recebido uma bala no peito, que a matou lentamente. Micah Bell era o traidor. Aquele rato asqueroso, todo esse tempo mancomunado com os Pinkertons para nos destruir. E John o confrontou sozinho. Não havia ninguém ao seu lado para ajuda-lo, na Caverna dos Castores. Dutch não quis escutá-lo, ficando ao lado de Micah apesar de todas as evidências aponta-lo como o causador da ruína de sua própria gangue. Talvez, se eu estivesse lá... Talvez... Talvez John Marston ainda estivesse vivo.
Não consigo me conformar com isso. John era jovem, tinha um filho, uma mulher que o amava em troca. Tudo para dar certo. E eu? Era justo que eu ainda estivesse vivo? O que tinha eu a oferecer ainda a essa vida? Certamente Mary me repulsaria, jamais seríamos um casal. Meu filho e a única mulher que aceitou compartilhar, ainda que pouco, de sua vida comigo estavam mortos. Minha vida era a gangue, minha vida era Dutch, e agora, tudo havia virado pó. Isso não era justo. Águia Voando, John Marston... Todos mortos, e eu vivo, apesar de muitos os pecados sobre minhas costas. E por quê?
Não pude deixar de me perguntar o que houve do pequeno Jack Marston, agora completamente órfão. Sadie pareceu reticente em me contar. Por fim, cedeu. A resposta foi a pior que escutei em anos. Morto também. Não consegui segurar as lágrimas em imaginar aquele menininho, tão inteligente e cheio de vida, com um belíssimo futuro em seu horizonte, morto por causa de nossos crimes. Mais uma vítima das escolhas infelizes de minha vida, ao lado de meu garoto Isaac, e de tantos outros que ficaram pelo caminho.
Sadie me contou que Charles estava ganhando a vida como boxeador nos guetos de Saint Denis, aproveitando de suas feições indígenas para lucrar com apostas sobre os brancos racistas. Isso me enojou, mas não pude julgá-lo. Cada um de nós estava levando a vida como podia. A mesma sorte não teve Susan Grinshaw, que foi a única que esteve lá para defender John e acabou baleada mortalmente. Mesmo a morte de Herr Strauss me chocou. Aquele homem era um verme asqueroso, mas ser torturado até a morte não era algo que eu lhe desejava. Os outros fugiram e ninguém sabia ao certo se estavam vivos ou mortos.
Quanto a Dutch, fugiu acompanhado. Williamson e Javier se colocaram ao seu lado, junto ao rato do Micah, mas Sadie duvidava muito que esse grupo menor fosse resistir por muito tempo, dado que os Pinkertons, a polícia e agora até mesmo o Exército Americano estava na cola deles. Um a um, seriam presos ou mortos, ela presumia. Se não pela Lei, pelos caçadores de recompensa, graças às ofertas altíssimas por suas cabeças.
Entre esses caçadores de recompensa, estava a própria Sadie Adler. Há poucos meses, ela havia se tornado um. Começou com alguns membros remanescentes dos O’Driscolls, até a gangue ser completamente extinta e ofertas de trabalho por outros tipos de bandidos começarem a pipocar. Ela dizia que era um trabalho perigoso, talvez tanto quanto os crimes cometidos nos meus tempos de gangue, mas com a diferença que eram completamente legais. E rentável, especialmente quando se tratava de figurões. Ora prendia criminosos que assaltava bancos com dinamite, ora que assaltava com uma simples caneta. Contou-me um pouco dos últimos criminosos que levara à justiça, a maioria vivos – nem sempre dava, admitiu – e fiquei espantado com a variedade de gente que tinha a cabeça à prêmio pelo país. E também como ela não se perguntava se esses procurados eram de fatos culpados.
Não era o caso do canalha pervertido que espanquei naquela noite. Sadie estava lá justamente porque havia uma recompensa de 150 dólares pela cabeça de Ralph Stevens – esse era o nome do miserável – em Blackwater, pelo estupro de uma dama da alta sociedade de lá. Refugiou-se da Lei nas montanhas, mas não conseguiu se afastar por muito tempo de sua queda pela promiscuidade. E agora, estava amarrado nos fundos da casa de Charlotte, implorando para não ser preso e oferecendo mundos e fundos a Sadie por sua liberdade. Sabíamos que era um blefe e o safado nada tinha a oferecer, e mesmo se tivesse, seria um prazer ver um canalha desses na cadeia. Sadie chegou a me convidar para que eu a ajudasse na escolta até a prisão, mas eu declinei. Ir a Blackwater depois de toda a destruição que a gangue fez por lá seria me expor demais.
Fui dormir com o sol já raiando no horizonte, não conseguindo tirar de minha cabeça a morte de Jack, John, Abigail... Enfim, todos. Desde o roubo de Blackwater os corpos não pararam de se multiplicar. Não parava de me perguntar no quanto eu poderia ter feito a diferença se estivesse lá para ajudar John. Seria um homem a mais para enfrentar aqueles canalhas, pensei. Não parei de me mexer na cama do quarto de hóspedes de Charlotte, cedendo ao sono brevemente. Devo ter tirado apenas uma soneca de algumas horas, pois ainda era manhã quando me levantei. Decidi arejar as ideias no diário, em uma forma de encontrar lucidez diante de tamanha informação.
Estava decidido a fugir para Nova York e me perder pelo mundo, mas agora nem tanto. Tantas mortes assim não poderiam acabar impunes. Sim, Dutch tinha sua parcela de culpa, mas Micah era o grande manipulador por trás de toda a loucura que guiava seus planos, longe de serem infalíveis como antes. Provavelmente Dutch e Micah ainda estavam juntos, tramando todo tipo de maldade em um plano eterno de ficarem ricos e fugirem. Alguém precisava detê-los. Gente demais já havia sofrido, morrido, por causa deles. Não era justo que escapassem, e por mais que no mais íntimo de mim tudo que eu mais desejasse era sossegar longe de mais problemas, sentia que era meu dever destruí-los. Havia criado essa gangue junto com Dutch, dado meu sangue e vida por elas. Ninguém tinha direito a destruí-la por completo senão eu. Devia isso a Hosea, Lenny, John e tantos outros companheiros mortos pela irresponsabilidade de Dutch.
Li em algum lugar que apenas o criador seria capaz de destruir a criatura. Nunca pensei que isso tivesse lá seu fundo de verdade.
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Despedi-me de Charlotte com certa tristeza no coração. Ela parecia estar repleta de planos para uma breve estadia minha em sua casa, ainda que não tivesse expressado isso em palavras. Meu desejo era partir, ainda que isso soasse mal-educado, mas para agradecer a noite passada em sua casa, perguntei a ela se ela sabia como pescar. Ela respondeu que não, algo que imaginei. Nos poucos encontros, realmente não a havia ensinado a pescar, o que era um grande desperdício, visto que ela morava tão próxima de um rio repletos de peixes.
O convite para uma pescaria a deixou muito feliz. Parecia animada não só porque a pesca traria um pouco mais de variedade ao seu cardápio, mas também por uma confidência de sua infância: seu pai amava sair para pescar, mas nunca a levava consigo porque julgava que isso “não era coisa para meninas”. Senti-me ainda mais recompensado por ensiná-la a pescar, pois além dela ter uma nova habilidade, ainda se vingaria do pai idiota. Juntei algumas minhocas, um pouco de pão e uns pedaços de queijo que havia em sua dispensa, reuni em um balde e caminhamos até o rio.
Fazia um ótimo dia, com umas poucas nuvens no céu, incapazes de cobrir o sol. A água do rio estava cristalina, e da queda d’água notávamos alguns peixes a saltar. Aquele era um ótimo ponto para pescar. Era nítido que havia muitos peixes ali, e não tardaria até que um deles mordesse a isca e fosse pescado. Mas antes, precisava ensiná-la as iscas mais adequadas. Não precisava ser nada muito profissional, pois ela pescaria apenas para se alimentar, no máximo se divertir um pouco, por isso ensinei-lhe sobre as melhores iscas para se pescar naquele rio. Como ela não tinha uma vara de pesca, decidi ensiná-la usando a minha própria. Estando recostado às suas costas, peguei em suas mãos, mostrando como segurar firmemente e a melhor maneira de lançar a isca. Expliquei-lhe como sentir o peixe a mordiscar, e como perceber o melhor momento de puxar.
Poucas vezes me senti tão constrangido por minha barba estar tão grande, pois pude senti-la roçá-la em seu rosto, tamanho era nossa proximidade. Fiz de todo possível para tornar a pescaria o menos íntimo possível, mas não havia como. Vê-la tão animada com os peixes a mordiscar a isca fez-me perceber o quanto ela era simples, contente com o pouco que a vida lhe entregava. Uma mulher que tinha tudo, uma verdadeira fortuna no banco graças ao falecido marido banqueiro, mas que se contentava com algo tão simples como pescar à beira do rio com um pistoleiro sem eira nem beira, quase uma peça de museu. Sua risada pouco a pouco entrava na minha mente, me fazendo pensar se... Prefiro não reproduzir aqui, nesse diário. Mas penso no quão Mary era diferente nisso. Nós nos amávamos, mas hoje sinto que não combinávamos um com o outro. Ela queria uma vida diferente, confortável, rica. Algo que só poderia proporcioná-la nas minhas fantasias de bandido, na velha ladainha de que um dia, ficaria muito rico com um golpe e que nós dois viveríamos como rei e rainha. E cá estou eu, com quase quatro décadas nas costas, muito longe disso. Talvez Mrs. Grinshaw estivesse certa quando dizia que ela não servia para mim.
Estávamos já na tentativa do segundo peixe. Charlotte estava tentando agora pescar sozinha, enquanto eu apenas me sentava à beira do lago, a observá-la em silêncio, encorajando-a a continuar quando prestes a desistir. Pescaria era algo que requeria paciência, algo não muito diferente ao se caçar um cervo, por exemplo. E ela me escutava, resiliente. Havia prometido voltar para casa – melhor dizendo, à cabana dela – assim que ela pescasse um peixe pela primeira vez, mas algo deteve nossos planos.
O rugido de um urso. Mesmo um homem com a minha experiência com a vida selvagem ainda me assustava com o som desse animal, portanto não era de se estranhar que Charlotte se assustasse, mas logo notei que ela simplesmente entrou em pânico ao ver o animal. Largou a vara de pesca no chão e correu, gritando o tempo todo “é ele!”, o que não compreendi naquele momento. Minha primeira reação foi recorrer a meu rifle, mas para minha infelicidade não portava nada mais que minhas duas pistolas, fracas demais para um urso. Não tive outra alternativa senão correr também. Ele estava muito perto, na margem do rio, e corria atrás de um cervo. Não seria estupidez se ele decidisse que eu e Charlotte éramos refeições mais apetitosas, por isso o melhor a se fazer foi realmente aproveitar sua distração e correr para longe.
Já acima da colina que levava a Willard's Rest, pude ainda ter um relance do animal a comer o peixe que havíamos acabado de pescar, no qual deixamos para trás dentro de um balde. Tão logo entrei na cabana, Charlotte nos trancou. Estava ofegante, tanto por ter corrido de volta pra casa, mas também de medo. Chegava a tremer, inclusive.
-Está tudo bem agora. Ele não vai nos procurar. Tudo que queria era comer alguma coisa...
-Você não está entendendo, Arthur. Aquele urso... É ele. O urso que matou Cal.
Engoli em seco. Havia me esquecido que seu marido havia sido morto por um urso, o que explicava seu emocional tão abalado. Ainda assim, achava pouco provável que ela fosse capaz de reconhecer um animal como um urso. Realmente, não havia tantos em Roanoke Ridge, mas ursos eram geralmente parecidos demais para serem distinguidos.
-Deve ser outro urso, Charlotte. Talvez o urso que tenha matado seu esposo até já tenha sido morto por algum caçador...
-Eu sei o que eu vi! – ela gritou, um tanto irritada comigo. Era a primeira vez que me tratava assim, de modo que me impressionei com esse lado menos gentil que o costumeiro. Como dizia Hosea, não se deve contrariar as mulheres.
-Tudo bem, tudo bem... – assenti, após inalar profundamente. – Então, a alternativa que nos resta é mata-lo.
Ao me ver indo até minhas armas, ela se mortificou. Provavelmente porque já havia visto essa história antes.
-Não, Arthur... Por favor...
-Eu já matei muitos ursos na minha vida, não se preocupe. Aquele monstrengo lá não é o primeiro e duvido muito que seja o último.
-Você pode ser mais experiente do que Cal, mas aquele urso... Ele não é normal!
Resolvi não dar mais ouvidos ao que ela dizia. Coloquei sobre meus ombros meu rifle de ferrolho e também um de precisão, para caso eu tivesse a sorte de encontra-lo à distância. Um tiro a umas boas dezenas de metros do urso seria sem dúvida a opção mais segura e eficaz de mata-lo. Não era momento, afinal, de me provar um caçador habilidoso, mas sim de eliminar o problema e dar um pouco de paz e segurança a Charlotte.
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