Red Dead: Rebirth

8 Dia do Caçador


O dia já havia amanhecido quando Charlotte despertara. Sentia as costas doendo, de tão desacostumadas com o duro chão frio, mas ao menos a dor do coice do rifle havia passado. Ouvira o som de pássaros e também das calmas águas do lago. Apesar da dureza de se dormir em acampamento, era bom acordar assim, tão próxima da natureza.

O fogo sobre o chão estava apagado e Arthur não parecia estar por perto. Charlotte apavorou-se, ao perceber que estava sozinha. Onde ele estava? Será que ele saiu para caçar o alce sozinho, sem tê-la por perto para atrapalhá-lo? Ou ele foi apanhado por um bandido? Tudo bem, Arthur estava longe de ser um homem indefeso para deixar-se apanhar dessa forma, mas isso não impedia Charlotte de preocupar-se com ele.

-Bom dia!

A saudação animada de Arthur a tranquilizou. Percebeu o pistoleiro ali próximo.

-Pensei que tivesse acontecido alguma coisa...

-Nada disso. Só estava precisando me aliviar um pouco.

-Aliviar? Você está com alguma dor?

-Não, não. Não é este tipo de alívio que me refiro...

-Oh.

Com o pistoleiro a pigarrear e mudar sua atenção, numa ânsia absoluta de mudar o rumo da conversa, Charlotte corou-se. Por que tinha que ser sempre tão estúpida e tola?

-Bem.. Você está com fome? Quer comer alguma coisa?

-Sim, estou com bastante fome. Vejo que preparou café...

Após fartar-se com café e uma lata de biscoitos que trouxera em sua bolsa, Charlotte prosseguiu com Arthur mais uma vez pela floresta de Grizzlies East. Arthur, que mais uma vez estava com seus rifles, olhava pelo binóculo o tempo todo. Decidira adotar uma estratégia diferente: ao invés de apelar para iscas de herbívoro, iria procurar pelo alce com a ajuda de seus binóculos e assim mata-lo à distância. Mas antes, precisavam achar o bendito animal. Estava esperançoso que conseguissem, pois enquanto Charlotte dormia, ele escutou seu ruído por umas duas vezes. Parecia ser uma fêmea, solitária. Poderia ter ido ele mesmo atrás do animal sozinho, mas daí seu passei com Charlotte perderia toda a magia. Queria que ela participasse da caçada, e se fosse possível, matasse o animal com sua própria arma, mesmo que isso levasse tempo. Estava disposto a levar o tempo que fosse, só para ver seu sorriso.

Quando caminhavam para o outro lado do lago, pararam ao ouvir um rugido.

-É ele, não é? O alce?

-Ela, na verdade. É uma fêmea. Ontem não pegamos o macho, mas dessa vez a fêmea será nossa.

-Ainda fico impressionada, pela forma como sabe distinguir os animais pelos sons.

-Com o tempo, a gente percebe a diferença dos sons. Você também vai ficar assim, tenho certeza.

Arthur voltou suas atenções ao binóculo. Passava seus olhos por entre as vegetações. O vento fazia os galhos se moverem, como em uma dança no céu. Um rugido à sua esquerda chamou-lhe a atenção. Era o alce.

-Esse som...

-Sim, é de um alce.

-Nossa... Muito diferente. – comentou Charlotte, concordando com Arthur.

-Ela está perto. – disse, voltando seus olhos ao binóculo. Por fim, soltou uma exclamação claramente satisfatória. Avistou o animal, a caminhar tranquilamente. Àquela distância, um tiro de carabina apenas iria lhe ferir e afugentá-la. Não era o que Arthur queria. Embora a opção mais fácil fosse recorrer ao rifle de precisão que carregava em suas costas, ele decidiu simplesmente se aproximar do alce. Fazia ainda questão que Charlotte matasse o animal.

-Vamos! Já o avistei! – disse, causando enorme excitação em Charlotte, que o acompanhou como pôde em seu vestido. Embora correr fosse tentador, ambos sabiam que se fizessem muito barulho quando perto do alce, ele correria.

-Olhe para as copas das árvores! A direção do vento! Precisamos estar fora da direção do vento, senão nosso cheiro irá denunciar nossa posição! – avisou Arthur, enquanto se aproximava do animal a passos rápidos. Quando pareciam pertos, o alce se afastava, e assim foi por umas boas horas. Mas nem o sol escaldante sobre seus rostos, nem a caminhada longa lhes retirara um pouco que fosse da obstinação em matar aquele alce. Charlotte já imaginava, feliz, o belo casaco que faria daquela pele com o armadilheiro e sua mera expectativa com isso já fazia Arthur dar aquele dia como ganho. Mas completamente ganho, só depois que o alce estivesse morto, e pelas mãos dela.

Por fim, o alce fêmea desapareceu. Arthur o perdeu de vista quando ele pareceu se assustar com alguma coisa. Poderia ter sido com alguma raposa, pois ele não ouviu o som de nenhum predador que pudesse lhes causar qualquer ameaça. Caminharam mais um pouco, à procura de vestígios. Nada.

Em uma clareira, Arthur improvisou um almoço. Coletou alguns cogumelos que havia próximos às pedras e após verificar que eram comestíveis, entregou alguns poucos a Charlotte, enquanto também comia alguns deles. Embora comer coelhos ou esquilos fosse mais fortificante, não era de seu desejo matar outro animal senão o alce, do contrário o cheiro de sangue o afugentaria. Acender uma fogueira também ficou fora de cogitação.

Prosseguiram ainda, ambos juntos, lado a lado. Olhavam ora para o chão, ora para as colinas. Arthur verificava com seu binóculo se o alce estava perto. Nada ainda.

-Arthur, veja!

Atendendo ao chamado de Charlotte, Arthur caminhou para o que parecia ser um bocado de estrume. Sorriu com satisfação ao perceber que era de alce.

-Você aprende rápido, Mrs. Balfour. Ela realmente está por perto. Veja como esse excremento está fresco. – disse, contente por terem voltado a uma pista.

Notaram pegadas no chão. Seguiram, mais esperançosos em reavistar o animal. Estavam de armas em punho, preparados para o encontro. O alce era grande, e se assustasse, faria os dois comerem em poeira, em especial Arthur e seus pulmões fracos pela tuberculose superada. Mas ele não daria essa chance. Estava longe demais para bobear.

-Achei ela. – disse, guardando o binóculo após encontrar o alce que tanto buscavam. Chegava a enxugar a testa de tanto suor. Agachou-se rapidamente, fazendo Charlotte fazer o mesmo, ao tocá-la em seu ombro. Por uma ironia do destino, ela estava caminhando para perto deles. Bem devagar, alheia às suas presenças.

-Não hesite. – sussurrou no ouvido de Charlotte, ao percebê-la mirar a arma na direção do alce. Estavam à uma distância segura para um disparo eficiente, Arthur sabia. E Charlotte já provara que sua pontaria era suficientemente boa para matar aquele alce, por isso confiou em deixa-la com essa tarefa sozinha, sem sua ajuda.

E ela atirou. O alce tombou, abatido. O tiro fora certeiro, na cabeça. Por um instante, nem a própria Charlotte acreditou no que fizera. Matara aquele animal enorme, que estavam há dias lutando para caçar. Matara o alce com suas próprias mãos.

-Belo abate! – elogiou Arthur, fazendo por fim Charlotte largar a arma da pontaria. Aproximaram-se do alce, caído ao chão. Sangrava pelo crânio. Fora um tiro limpo e eficiente, que provocara uma morte instantânea no animal. Arthur preferia assim. Odiava quando errava e sua bala fazia o pobre animal agonizar em dor, não restanto outra alternativa ao pistoleiro senão dar o golpe de misericórdia para libertá-lo da dor final.

-Por Deus, é enorme!

-Sim! Preparada para esfolá-lo?

Charlotte parecia insegura. – Eu... Eu mal sei como começar...

-Não tem problema, eu te ensino. Apesar desse tamanho todo, esfolá-lo não é tão diferente de um cervo. O mais complicado é que requer mais força para puxar a pele, mas nada que você não consiga. Vamos...

Charlotte agachou-se junto a Arthur. Recebeu de suas mãos uma faca. Fez um corte incisivo na barriga do animal, começando assim a esfolá-lo. Agradeceu aos céus por ter trazido uma roupa extra, tão logo começara a ficar ensopada de sangue. Parecia uma cena macabra. Sem dúvida, porque não tinha a mesma prática que Arthur. Duvidava que ele ficasse tão sujo assim de sangue quando esfolava animais tão grandes como aquele alce. Mas Arthur não fazia qualquer observação quanto a isso. Apenas observava e a orientava quanto aos cortes.

No momento mais difícil, que seria puxar a pele do animal, Arthur conteve-se para não retirar as tarefas das mãos de Charlotte e fazê-la por suas próprias mãos. Ela estava tendo muita dificuldade, e o que era para ser um esfolamento estava se tornando quase que uma carnificina. Seu vestido estava mais vermelho do que qualquer outra coisa. Mas apesar de todas as dificuldades, ela conseguiu concluir. Enrolou a pele, ensopada de sangue, e a deixou no chão. Era agora a vez de Arthur carrega-la.

-Precisamos agora retirar a carne. Retire as melhores partes para levarmos, pois não dá para levar esse alce no cavalo. Ele é muito grande para caber em Caramelo.

-Tudo bem. – disse Charlotte, focando nas partes mais nobres do alce. De fato, Arthur estava certo. Ele parecia um cervo, só que bem maior. Não foi difícil selecionar e cortar, mas era um processo mais demorado. Tão demorado que o sol já estava se pondo no horizonte, quando terminou.

-Melhor nos apressarmos. Estamos longe do acampamento e já vai escurecer. – observou Arthur o céu começar a ficar alaranjado, por entre as copas das árvores.

Caminharam até a beira do lago, onde haviam montado acampamento. Arthur carregava nos ombros a pele de alce, enquanto Charlotte levava uma boa quantidade de carne, que certamente os faria comer alce por uma semana, se não estivessem tão longe de casa. A carne certamente estragaria ficando tantas horas assim, no caminho de casa, por isso o pobre animal apenas lhes serviria para aquele jantar.

Pânico tomou Charlotte, tão logo percebeu que o acampamento estava revirado.

-O que aconteceu aqui? – questionou, ao ver que estava tudo uma bagunça. A jarra de café estava virada no chão, e os suprimentos que carregavam estavam vazios, com as latas reviradas e esvaziadas esparramadas pelo chão. Nem mesmo a barraca havia escapado de vandalismo, com o cobertor aos frangalhos no chão.

-Lobos.

-Lobos?! – assombrou-se Charlotte com a constatação de Arthur. Ele podia ver claramente as pegadas de uma matilha de pelo menos uns quatro animais, que se banquetearam com os suprimentos do acampamento e também rasgaram seu cobertor.

-Comeram tudo que puderam e foram embora, os bastardos. Pelo menos conseguimos matar o alce e já iremos embora.

-Arthur, vamos para casa!

-O quê? Não dá, Charlotte! Já está escurecendo! A estrada de volta a Willard's Rest de noite é muito mais perigosa do que um ou dois lobos, pode ter certeza!

Uivos interromperam a conversa.

-Oh Deus... Lobos...

-Acalme-se! Olha, se quiser nós dois podemos passar a noite naquela cabana à beira do lago. Não tem ninguém lá, porque era do meu amigo Hamish e ele está morto. Lá, os lobos não vão ousar entrar, pode ter certeza. Agora, e quanto a Caramelo?

Charlotte estremeceu com a possibilidade de seu cavalo querido ter se tornado comida de logo. Por isso, assobiou forte, a ponto de seu assobio ecoar pela floresta. Para seu alívio, seu cavalo apareceu. Estava agitado, certamente porque havia visto a algazarra dos lobos no acampamento, e fez o que todo cavalo sabe fazer de melhor em momentos de perigo: fugir. Coube a Arthur acalmar um pouco o pobre animal, após alguns afagos e palavras doces e gentis.

-Bom menino. – disse, acariciando sua cabeça.

Quando terminaram de recolher o que sobrara do acampamento e guardar tudo que era possível na sela de Caramelo, caminharam até a pequena cabana, à beira do lago. Quando passaram por perto, Arthur notou sinais de abandono. Duvidava muito que houvesse outros como Hamish com a mesma pretensão de se refugiar em um lugar tão isolado quanto aquela cabana, mas tudo era possível, desde um ermitão mal-humorado a um bandido escondido da civilização. Esperava que sua intuição estivesse certa. Tivera dias cheios demais para acabar com mais sangue.