Red Dead: Rebirth

9 Amar Outra Vez


A intuição de Arthur estava correta. A cabana estava abandonada, provavelmente desde a morte de Hamish, sem ter tido qualquer habitante fixo a povoá-la senão morcegos e aranhas. Mas não havia tanta poeira assim, da mesma forma como os mantimentos que havia nos armários também estavam sumidos. Sinal de que alguém andara saqueando o lugar, mas nada que fosse lá surpreendente. O próprio Arthur teria feito isso, nos tempos de vida bandida, se avistasse uma cabana abandonada em um lugar tão selvagem e inóspito assim.

Havia um punhado de lenha. Estava seca e não daria fogo por muito tempo, mas parecia ser o suficiente para que eles passassem a noite aquecidos. A pequena lareira iluminou toda a cabana, dando a Charlotte uma sensação agradável. Era quase como se estivesse em casa, mas em uma versão menor e bem mais rústica. Havia garrafas de bebida vazias e animais empalhados pela parede.

Usando uma frigideira velha, aproveitaram para cozinhar a carne de alce, motivo daquela caçada e quase esquecida em meio a tantos acontecimentos. Colocou tomilho para aprimorar o sabor. Estava longe de ser o guisado que Arthur havia provado no Canadá, mas estava mais apetitoso do que biscoitos ou cogumelos.

-A carne de alce realmente é uma delícia... – concordou Charlotte, enquanto colocava o segundo prato.

-Gostaria que tivesse provado o guisado que comi com os índios canadenses. Até hoje nunca provei nada mais delicioso. Pena que não tenho todos os ingredientes aqui.

Sentaram-se ao redor da lareira. Conversaram principalmente sobre Hamish, o amigo falecido de Arthur, sobre suas histórias e as durezas impostas pela vida. Para Charlotte, estava cada vez mais claro o quão Arthur era um bom homem, e estranhava-lhe sempre a percepção de que ele era um homem perigoso, como diziam os oficiais da Lei a seu respeito. Não conseguia ver um milímetro do homem ameaçador e sanguinário no qual se atribuía-lhe fama. Ao contrário, sentia-se segura ao seu lado.

-Você sente falta de sua.... Antiga vida?

Nunca conversaram diretamente sobre isso, sabia Charlotte. Mas sentiu, naquele momento, necessidade de questioná-lo. Talvez a tuberculose o tivera forçado a uma vida mais reclusa, ou ele estivesse só aguardando a oportunidade certa para voltar ao banditismo que lhe fizera tão famoso.

-Não. A vida que eu levava simplesmente não existe mais. Sinto que o mundo mudou e não há mais espaços para homens como eu... Melhor dizendo, para homens que faziam o que eu fazia. O mundo está ficando civilizado e pistoleiros não são mais permitidos nele. Não que esse “mundo civilizado” não tenha espaço para crimes, longe disso. Assaltam e faturam muito mais que a gente, com gravatas e canetas, sem esconder o rosto ou dar um único tiro. Mas o nosso jeito de levar a vida, mais indomável e selvagem, transgressor e rebelde... Este não é mais tolerável. Ah, olha o que estou dizendo... Coloque um bigode em mim e estaria igual ao Dutch.

-Desculpe tocar nesse assunto. Imagino o quão doloroso possa ser...

-Tudo bem, Charlotte. Isso são águas passadas. A gangue acabou, a maioria dos meus amigos acabou morto no caminho... Pena que não posso dizer o mesmo quanto a recompensa de cinco mil dólares pela minha cabeça.

-Ainda fico abismada com isso. – admitiu Charlotte.

-Pode ter certeza, jamais consegui reunir tamanha cifra nessa minha vida clandestina, mesmo assim a recompensa está aí para qualquer um que queira enriquecer às minhas custas. Bom, melhor deixarmos o rumo dessa prosa...

-Tem razão. Deveríamos falar de coisas boas. Me fale desse tempo em que esteve no Canadá, por exemplo... Sinto pelo pouco que disse que foi feliz por lá.

Ao sentir o calor da mão de Charlotte sobre a sua, Arthur corou-se levemente. Por pouco pigarreou, mas deixou-se apenas levar por aquele momento. Não queria afastá-la, afinal. Era tudo que ele mais desejava, correto? Ou seria aquele gesto apenas um conforto entre velhos amigos? Não. Não poderia acreditar nisso.

-Fui feliz, realmente. Por vezes penso que minha oportunidade de recomeçar está lá, naquelas montanhas rochosas, ainda selvagens... Mas... Enfim, devo ser muito tolo para pensar assim...

Charlotte riu com sua rara timidez.

-No que esteve pensando? Pode contar para mim.

-Estive pensando se... Se a minha chance de recomeçar não estaria lá, mas não ao lado dos índios ou com uma nova gangue, não. Um recomeço diferente, sabe? Com uma vida de verdade, correta. Sendo o homem honesto e decente que jamais fui. Quem sabe com um pouco de terra para cultivar, uma cabana perto do lago...

-Igual a essa? – sugeriu Charlotte, levemente.

Arthur olhou ao se redor. – Bom, talvez um pouco maior e mais arrumada.

Charlotte riu de seu comentário. Bastava olhar para os cantos e avistar as teias de aranha e a camada de poeira sobre os móveis. Não tirava sua razão.

-Mas hoje não penso em retornar ao Canadá. Deixaria para trás algo muito precioso, que dinheiro nenhum no mundo poderia comprar. Um vazio que tornaria qualquer cabana no lago ou pedaço de chão sem qualquer valor. Cometi esse erro uma vez e não quero repeti-lo.

-Entendi... Está falando de Mary, não é? Mary Lynton. É a mulher que você ama.

Arthur pigarreou com a menção dela.

-Eu a amei, sim. Mas ela está no passado. Em meu futuro, vejo outra pessoa. E em meu presente, também...

Lentamente, Arthur posicionou sua mão sobre o rosto de Charlotte. Percebeu-a com os lábios entreabertos, de surpresa. Mas apesar do leve choque, não parecia rejeitar sua aproximação. Isso encorajou Arthur a aproximar seu rosto do dela, e antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, do qual sequer fazia ideia, beijaram-se. Suspirou quando a sentiu retribuir seu beijo. Seus sentimentos eram recíprocos, estava claro. Ela também o amava. Ainda um tanto enferrujado com os assuntos do amor, temia a cada beijo mais ardente que trocavam se não estaria indo longe demais, se seus avanços não a afugentariam. Não foi o que disse as mãos de Charlotte, a desabotoarem os primeiros botões de sua camisa.

Por longas horas, não havia a tuberculose que quase lhe matara. Não havia Dutch e suas promessas, ou seus companheiros mortos a clamar por vingança. Nem mesmo uma recompensa de cinco mil dólares por sua cabeça ou cartazes de procurado vivo ou morto pelo Oeste. Mesmo cada bala trocada, cada vida arrancada ou destruída como consequência de cada um de seus crimes, havia desaparecido de sua mente naquela noite. Tudo que havia era apenas aquela cabana à beira do lago, com a mulher que amava em seus braços, e assim ele queria que fosse pelo resto de sua vida.


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Charlotte ainda está dormindo. O dia começou a amanhecer timidamente por entre as montanhas, e apesar dos primeiros raios de sol a entrar na cabana, ela permanece a dormir. É a primeira vez que a vejo dormir. Sinto-me um tanto idiota por permanecer sentado ao seu lado na cama, apenas a contemplá-la em seu sono. A forma como mantém os lábios entreabertos, seu corpo encolhido na coberta improvisada por minha jaqueta e seus cabelos negros soltos sobre o travesseiro. Creio que só o amor torna os homens tão patéticos assim, a ponto de acha-la bonita mesmo dormindo.

Ela teve esse privilégio, diferente de mim. Não consegui dormir na noite passada um só minuto, ainda sem acreditar que fizemos amor. Talvez eu não quisesse dormir, temendo que aquela noite fosse só mais um daqueles sonhos quentes que me fariam acordar completamente suado e sozinho na cama. Estupidez minha. Ela não desaparecia de meus braços porque era completamente real, e nesse momento eu a invejei por seu doce sono. Seria bom, pensei, acordarmos juntos. Em meio ao prazer que sentimos, recordava-me de suas palavras doces de afeto e carinho, que há muito tempo eu não escutava. De cada suspiro, da maneira como chamava meu nome. Se soubesse que ela me desejava assim, tão ardentemente quanto eu, talvez nem fosse necessária tamanha empreitada apenas para revelar meus sentimentos. Bobagem. Penso que essa caçada ao alce foi um completo sucesso, em quase todos os sentidos, e dificilmente eu teria saído melhor em outra circunstância. Conhecia-me bem o bastante para saber que sim.

O sol parece começar a acordá-la. Estremeço agora com a vinda da realidade. Se o que vivemos não teria sido um erro para ela, ou simplesmente algo inevitável entre duas pessoas apaixonadas. E também se havia espaço para mim em seu futuro. Eu, um pistoleiro procurado por metade dos Estados Unidos. Seria eu o homem ideal para ela, com todo o meu passado a me perseguir? E ela, estaria pronta para embarcar em minha vida tão turbulenta de fugas e perigos? Antes de tudo, eu precisava responder a uma pergunta: estaria eu disposto a coloca-la sobre tamanho risco?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.