Recém Casados
30 Capítulo 30
Notas iniciais
Album completo pra ouvir enquanto lê ( se quiser)
Era bom conversar com meus pais. Era divertido e eu havia me esquecido disso. De como uma simples conversa com eles poderia ser tão agradável.
Nós estávamos bem.
Finalmente estávamos bem e era como se um peso saísse de meus ombros. Eu podia rir e sorrir com eles outra vez.
E talvez eu devesse agradecer a Genna por isso. Mesmo que sua intenção fosse de gerar audiência me magoando, no fim de tudo ela trouxe minha família de volta para mim.
Agora estava tudo bem.
Eles me contaram sobre o dia em que a produtora Owen entrou em contato com eles. Sobre como ficaram animados com a ideia de me reverem após longos anos longe da filha. Me contaram sobre como estavam nervosos diante das câmeras e soaram forçados, pois não sabiam o que fazer ou como agir.
Me senti culpada, eles estavam dando seu melhor, pois não queriam me envergonhar para o mundo e eu apenas surtei.
Pensei que estavam fingindo serem bonzinhos, quando eles na verdade acreditavam que eu havia lido suas correspondências e tudo estava bem entre nós.
Estávamos à beira da piscina. Mamãe lia um romance de banca sobre guerreiros escoceses e donzelas em perigo, e papai ouvia suas músicas antigas enquanto me atualizava sobre tudo o que eu havia perdido nesses anos fora de casa. “A filha da senhora Walkers engravidou cedo e o pai nunca aparecera, o filho dos Bakers havia ido ao exército, os Smith haviam se mudado para o Oregon...”.
Não notei quando ele chegou. Deve ter tido muito cuidado para não fazer nenhum barulho. Mas papai o avistou e o observou por alguns segundos antes de dizer qualquer coisa.
— Filha aquele não é... – Segui seus olhos e então o vi.
Ele estava ali. Parado em frente a porta dupla, com as duas mãos nos bolsos da calça jeans. Meus lábios se curvaram inconscientemente e tudo o que fiz foi correr em sua direção.
— Min Jun! – Contornei a piscina correndo e parei diante dele.
Ofegante o toquei. Queria ter plena certeza se era real ou apenas um vislumbre de minha cabeça.
— Você é real? – Toquei seu rosto com a ponta dos dedos e ele segurou minha mão, abrindo um sorriso divertido.
— O que é isso? – Como senti falta de sua voz, outrora tão irritante, mas que agora me acalmava.
— É real – Sorri – Você voltou! – O abracei com força e senti seus braços e envolvendo.
Seu coração batia tão rápido.
— Eu senti sua falta – Murmurei espremida contra seu peito.
— Eu também senti a sua – Me afastou e segurou meus braços de uma forma que pudesse me olhar nos olhos.
— Seus pais, está conversando com seus pais.
— Estranho né, nós resolvemos nossas diferenças. Acho que agora está tudo bem.
— Quando... – Ele chacoalhou a cabeça – Como isso aconteceu?
— Vai precisar assistir ao próximo episódio de “Recém Casados”, pra saber – Sério?
— Sério?
— Claro que não bobinho, depois te conto sobre tudo. Mas agora vamos cumprimenta-los.
O arrastei pelas mãos até papai e mamãe que nos observavam entre cochichos e risadinhas, feito velhas fofoqueiras.
— Olá senhor e senhora Scott. É um prazer revê-los. Min Jum se curvou e os cumprimentou com um aperto de mão.
— Ah, tão educado. É como um príncipe.
— Obrigado ajumma— Curvou-se outra vez.
— Ahn?
— Me perdoe, é a força do hábito, acabei de voltar da Coréia e algumas coisas ainda me escapam. Essa é apenas uma forma de tratamento e respeito. Como chama-la de “senhora” na sua língua.
— Isso é tão interessante. Sinta-se à vontade para me chamar assim.
— Sim, ajumma.
— Sente-se conosco rapaz – Convidou papai num tom animado.
— Então acabou de chegar da Coréia?! – Disse numa quase afirmação e me acomodei ao seu lado na espreguiçadeira.
— Sim, acabei de descer do avião e vir direto pra cá.
— Por que não avisou que estava chegando? Teria preparado algo especial.
— Queria te fazer uma surpresa. Achei que iria gostar.
— Eu gostei – Sorri feito boba e segurei sua mão.
Era como se não houvesse mais ninguém além de nós. Mas havia.
— É... bom... Vocês dois... Vocês tem alguma coisa? Algo a mais? – Ouvi a voz do papai e voltei aos meus sentidos – Pergunto se estão juntos.
— Como um casal... – Completou mamãe.
Olhei para nossas mãos entrelaçadas e as desvencilhei no mesmo instante.
O que estávamos fazendo? Havia câmera por toda parte.
A distância tinha nos tornado idiotas?
— Por que se estiverem eu não me oponho, nem nada, esse rapaz até já tem um jeito especial de chamar sua mãe.
— Nós juntos? – Min Jun se afastou – Não, claro que não. Nós não funcionamos dessa forma.
— Não mesmo – Confirmei – Nós somos mais próximos que no começo, mas não passa disso.
— Imagine só, e ela nos beijando – Ele fez uma careta um tanto convincente e quase me senti magoada – Eca, nunca mesmo.
— Nojento, eu não gosto nem de imaginar – Chacoalhei a cabeça.
— Apenas não.
— Certo, entendemos que não há nada entre os dois.
— Apenas amizade – Concluiu Min Jun.
— Grandes amigos – Ele me deu um tapinha nas costas – É, bem...- Pigarreei – Como está seu pai Min Jun?
— Meu pai? Ele está melhor agora – Ficou sério – Antes de eu embarcar no avião ele foi para o hospital, mas ficou melhor depois que conversamos. Agora as coisas estão do jeito que ele sempre quis.
— E isso é bom? – Indaguei curisosa.
— É ótimo. Pra ele.
***
Era começo da noite e Min Jun desfazia suas malas. Dobrando suas roupas já limpas e as guardando com cuidado dentro das gavetas.
Quase poético.
Me recordei de minhas roupas jogadas de qualquer jeito, atoladas e amassadas no guarda roupas, sem qualquer zelo. Prontas para caírem sobre mim quando eu abrisse as portas.
Certamente eu não havia nascido para ser uma dona de casa. Era preguiçosa demais para isso.
— Então como foi a sua viagem, tudo bem? – Indaguei me acomodando na cama, o observando guardar suas coisas irritantemente organizadas demais.
— Foi um bom voo, nada demais.
— Me refiro a sua estadia. Ainda não me contou nada sobre todos esses dias que ficou fora.
— Eu acabei de chegar.
Parou de mexer nas roupas e sentado no chão olhou em minha direção.
— Por isso mesmo estou curiosa.
— Não me disse sobre como voltou a falar com seus pais.
— Se me contar como foram as coisas na Coréia eu digo o que quiser – Sorri animada.
— Eu nem queria saber sobre seus pais mesmo – Deu de ombros e voltou as malas, quando atirei uma almofada contra ele, que gargalhou, me deixando ainda mais irritada.
— Eu estou falando sério primo do Jackie Chan! – Min Jun semicerrou os olhos e me observou sério.
— Não deveria dizer isso, não é legal.
— Foi você quem disse, para aquele segurança, na gravadora, esqueceu? Me lembro claramente “Eu sou primo do Jackie Chan, blá, blá, blá, consigo um autógrafo, blá, blá, blá – Tentei imitar sua voz.
— Foi por uma causa maior.
— E essa não é uma grande causa? Você passa dias longe de casa, do outro lado do mundo e quando volta não quer me dizer nada? Eu sei que há algo de errado Hyun Min Jun. Por acaso se encontrou com a tal da Park sei lá o que?
— Hae Jin?
— Essa aí, se encontraram não foi. Eu sei que é isso.
— Eu fui visitar meu pai, Lisa.
— O que não a impede de visitar seu pai também.
— Lisa, as pessoas vão assistir isso!
— E daí? Não é como se eu precisasse saber o que fez lá. É que eu apenas queria saber. Mas não importa, é a sua vida e não tenho nada a ver com isso. Somos apenas participantes de um programa de televisão mesmo.
— Lisa, não é assim.
— Estou cansada, tive uma tarde e tanto com meus pais, preciso descansar. Boa noite – Irritada afofei minha almofada e me deitei, esperando pelo momento que ele cederia e conversaríamos sobre sua viagem até pegarmos no sono.
Mas ele não cedeu. Nem passamos a noite conversando.
Min Jun se levantou e caminhou até a porta do quarto.
— Não vai se deitar? – Perguntei num misto de curiosidade e preocupação.
— Não estou com sono, fuso horário – Deu um sorriso forçado.
— Ah, certo – Assenti.
— Nos vemos amanhã? – Acenei assentindo e ele desapareceu quarto afora.
***
— O que? – Eu disse quando mamãe comentou sobre as ordens expressas de Genna.
— Foi o que ela nos disse. Você e seu marido devem nos levar ao píer de Santa Monica, ainda hoje, como uma despedida.
— A produtora Owen foi bem específica – Prosseguiu papai – Santa Monica, Pacific Park.
— Ela vai estar lá.
— Creio que sim, ela disse algo sobre te deixar nervosa, então acredito que sim.
— Ótimo, ótimo – Eu andava de um lado para o outro inconformada – Passar o dia todo ao lado de Genna era certamente algum tipo de punição divina.
— E o meu marido? Viram ele? Não estava no quarto quando acordei.
— Ah sim, ele passou a noite na sala e saiu bem cedo.
— Aconteceu algo entre vocês dois?
— Não, não que eu saiba. Tem certeza que ele não dormiu no quarto?
— Eu acordei mais cedo e ele estava dormindo sentado em uma poltrona. Antes de sair, nos repassou o recado da senhora Owen e disse que nos encontraria em Santa Monica.
— Parece que por enquanto seremos só nós – Sorri e peguei as chaves do carro.
***
Nós três caminhávamos pelo píer, acompanhados e seguidos por uma equipe de filmagem, para onde quer que fossemos e claro, Genna que parecia achar tudo aquilo realmente divertido por alguma razão obscura.
Papai e mamãe estavam se divertindo, apesar de eu manter minha mais perfeita cara de insatisfação.
Eu não estava apenas insatisfeita. Estava possessa. Desejava socar a cabeça de Min Jun contra a parede uma dezena de vezes e não me sentiria culpada depois disso. Queria atear fogo em suas roupas e dançar sobre as cinzas.
— Esse lugar é tão bonito Elisabeth – Mamãe sorria radiante, maravilhada, tirando milhares e milhares de fotos de tudo o que via pela frente.
— Bonito né! – Concordei me sentindo um peixe fora d’água por ser a única a achar tudo aquilo um saco.
— Digo, qualquer lugar é bonito quando se passa a vida toda em Rogersville, não acha?
— Eu concordo. Vocês nunca saíram de lá?
— Não, sempre era tão complicado. Mas desta vez conseguimos visita-la e conhecer estes lugares tão diferentes do que estamos acostumados.
— Fico feliz em saber disso.
— Não parece feliz. É por que não nos queria aqui?
— Não me importo se estão aqui. É outra coisa que me preocupa.
— Essa coisa tem um nome coreano e vive com você? – Dei uma breve risada – Acha que não percebi que há algo entre vocês? Eu sou sua mãe, percebo as coisas.
— Não acha que me conhece mais do que realmente conhece?
— Não. Eu a conheço muito bem. E percebi o jeito que se olham.
— Como nos olhamos?
— Você o olha com paixão e excitação, como uma adolescente apaixonada. Ele a olha com amor... e medo.
— Desde quando entende de olhares – Ri sem graça.
— É apenas o que percebi. Mas me diga, o que te incomoda tanto?
— É só que... Min Jun tem estado estranho desde sua chegada, eu o perguntei como foi a viagem, mas ele apenas mudava de assunto, não deveria ser assim – Debrucei-me na cerca metálica do píer, ouvindo os gritos esganiçados das pessoas na montanha russa – Não quando...
— Quando estão num relacionamento – Concluiu ela, apoiando as costas na cerca azul e fiz que sim com a cabeça.
— Talvez ele esteja preparando algo.
— Preparando algo?
— É – Ela se virou e debruçou-se sobre a grade – Se estão em algo sério, talvez o Mi..Mi...
— Min Jun.
— Isso, talvez ele queira propor algo mais sério – Ela sorriu – Ele a olha com tanto amor. E se está criando um suspense para pedi-la em casamento, ou preparando uma boa surpresa?
— Você acha?
— Não descartaria a ideia. Me lembro de quando seu pai quis me pedir em casamento. Ele vivia estranho. Como se escondesse um grande e valioso segredo. Eu fiquei com tanta raiva dele. No fim das contas, seu pai havia me preparado um momento especial para me propor. Foi tão lindo.
— O pai, romântico? O meu pai? Não, não posso imaginar – Mamãe riu.
Num instante minha visão se escureceu e tudo se apagou. Duas grandes mãos sobre meus olhos e uma voz que naquele momento me causava o mais profundo ódio.
Me virei de uma vez, não estava disposta para brincadeiras. Não com ele.
— Surpresa! – Cantarolou com um sorriso estupido e apertei a mandíbula.
Eu podia abraça-lo, mas preferi desferir alguns socos e tapas, me parecia mais adequado para a ocasião.
— Seu idiota, babaca. Seu... Seu... Imbecil, estupido, filho de uma mãe – Min Jun segurou minhas mãos, boquiaberto.
— O que é isso Lisa, você tá doida?
— To, to doidinha sim, de raiva. Só te olhar me irrita! – Respondi enfurecida – A minha vontade é de agarrar seu pescoço e socar sua cabeça contra a parede!
— E porque faria isso? – Perguntou receoso.
— Porque estou com raiva de você! O senhor acaba de voltar e fica cheio de mistérios e segredos, dorme na sala e sai sem se despedir...
— Me desculpe Lisa, eu não fiz por mal.
— Ainda estou enfurecida. Com muita raiva. Muita! – Me soltei e coloquei as mãos nos quadris – Tá planejando algo não está?
— Mais ou menos?
— Eu sabia! – Bati as mãos e apontei o dedo em seu nariz – Vai me pedir em casamento não vai? – Sussurrei – Eu posso fingir cara de surpresa.
— Não Lisa, não vou te pedir em casamento – Fechei a cara.
— Então o que é? – Berrei escandalosa e mamãe se afasto correndo para a direção do papai que recebia atenção das câmeras.
— Eu não consigo dizer.
— Só diz caramba!
— O programa terminará antes do previsto – Disse rápido.
— Não são seis meses?
— Não dessa vez – Min Jun soava abatido.
— Aconteceu alguma coisa?
— Aconteceu.
— E você pode me dizer?
— Eu posso te beijar?
— Você está me assustando Min Jun.
— Posso? – Insistiu.
— Mas, e as câmeras?
— Não me importo – Mordi o lábio, chacoalhando a perna.
Nervosa.
Beijei sua bochecha o mais rápido possível e voltei a fita-lo.
— Não vai me dizer o que está acontecendo? É coisa da Genna né? Eu sei que é. O que ela fez dessa vez? – Eu arfava.
— Depois que seus pais forem embora, depois nós podemos conversar, só nós dois, tudo bem? – Sorriu e segurou minha mão.
— É, tudo bem – Assenti contrariada – Espera, acho que entendi, a Genna quer terminar essa temporada antes, porque quer fazer uma segunda temporada com a gente não é? A audiência anda ótima, seria realmente uma boa ideia.
Ele não negou. Nem concordou. E aquilo era satisfatório.
Por enquanto.
— Lisa.
— Sim?
— Quer andar na montanha russa.
— Tenho medo.
— Rosa Gigante?
— Uhum, mas saiba que ainda estou zangada!.
***
Estávamos subindo vagarosamente, observando Santa Monica se afastando pouco a pouco. Min Jun segurava minha mão com força e apoiei minha cabeça em seu ombro.
— Estou zangada. Mas também estou assustada – Ele me olhou – Com medo.
— Medo? Do que teria medo?
— Eu não acho que seja um pedido de casamento, ou uma festa surpresa – Meu marido abriu e fechou a boca em silêncio. Surpreso – Minha mãe me disse que todo esse suspense poderia ser um pedido de casamento, ou uma outra surpresa, por isso tem estado tão estranho desde que chegou. Mas eu não acho que seja isso. Mesmo que eu desejasse que fosse. Apenas não parece ser bom.
— Lisa... – Parecia sem palvras – Se... se casaria comigo se eu a pedisse?
— Sim – Respondi sem hesitar – Me casaria com você Min Jun. Por que não? Já vivemos como casados, não seria tão diferente. E nos amamos, eu gosto de como me sinto com você. Você ama a Elisabeth, não a Lisa Scott. Não me enxerga como uma estrela pop fracassada, mas como uma pessoa. Então sim, me casaria Hyun Min Jun.
Ele segurou meu rosto e acariciou minha bochecha com o polegar. Nosso cestinho colorido se aproximava do chão, prestes a subir outra vez. Ele sorriu e me beijou com delicadeza e enxugou minhas lágrimas com as mãos, me olhando com ternura.
— Eu te amo Lisa, mais do que imagina.
— Por que me sinto tão triste? Será que não estou sabendo lidar com o fim da temporada? Deve ser isso – Senti seu olhar sobre mim e seus braços me envolvendo em um abraço.
— Deveríamos estar nos divertindo...
— Eu sinto muito – Lamentei e senti o leve solavanco quando a roda finalmente parou.
Min Jun segurou minha mão me puxando para fora do cestinho. Me guiando pelo píer.
— Não acha que devemos nos divertir já que estamos aqui? – Parou e segurou minha mão – É um parque de diversões afinal – Sorriu tentando me animar e prosseguiu me conduzindo – Onde seus pais estão? Poderíamos nos juntar e comer algo. Estou faminto.
— Estão com Genna, ela parece bem interessada neles.
— É melhor os encontrarmos, seria bom termos uma refeição juntos.
— É, eles devem conhecer melhor o genro deles, talvez até conte a eles o que andou fazendo no seu país.
— Lisa, não vai começar de novo com isso, vai?
— O que é? – O fitei séria.
— Por que quer tanto saber o que fiz na Coréia?
— Porque é a droga do meu namorado. E namorados fazem isso, dividem suas vidas com seus parceiros. Você pode ter me traído, pode ter se encontrado com a Park sei lá o que. Eu posso imaginar milhares de possibilidades e como disse antes não tenho um bom pressentimento sobre isso. Eu sei que há algo de errado e você não quer me dizer. Não sou estupida Min Jun.
— Talvez você só esteja com fome Lisa.
— Talvez eu só deva enfiar minha mão na sua cara.
— Ainda está brava...
— Estou brava, triste, faminta e com um desejo ardente de queimar suas roupas quando chegarmos em casa. Mas tirando isso estou ótima – Sorri enraivecida e comecei a caminhar sozinha.
Min Jun se apressou tentando me alcançar e com um tom cansado, quase desistente segurou meu braço.
— Tudo bem, eu digo o que fiz na Coréia!
— Ótimo! – Cruzei os braços – Pode começar. Do começo, por favor – Ele suspirou exausto.
— Eu desci do avião, meu pai me buscou no aeroporto. Conversamos no carro a caminho de casa. Park Hae Jin estava lá...
— E existe uma razão pra isso? – Apertei a mandíbula.
— Ela... – Ele parecia procurar as palavras certas – Park Hae Jin gosta de fazer companhia ao meu pai.
— Vocês conversaram?
— Trocamos breves saudações. Nós jantamos com meu amigo Min Ho e alguns amigos da família.
— Ele é tão bonito... – Comentei sem perceber.
— Lisa!
— Me desculpe. Continue – Ele pigarreou e prosseguiu tentando falar apesar da música alta e gritaria ao nosso redor.
— Eu liguei pra você, disse que te amava e dormi.
— Isso eu já sei né.
— Você encheu meu saco pra saber de tudo, então eu direi até quantas vezes fui ao banheiro se achar necessário.
— Pelo amor de Deus, eu realmente não preciso saber disso. Não mesmo.
— Jogamos golfe pela manhã com o pai de Hae Jin, eu bebi, fui à um evento beneficente com meu pai.
— Park Hae Jin estava lá?
— Sim, mas isso não importa. Você é a minha namorada Lisa. Foi isso, comia, dormia, conversava com meu pai, na noite anterior à minha volta, ele teve um mau momento, mas está bem agora. Não aconteceu nada de interessante.
— Agora me sinto mal. Eu fui uma idiota ciumenta. Ah que droga – Bati em minha cabeça e ele apenas riu.
— Está tudo bem Lisa, só não quero que sinta raiva de mim.
— Se era tão simples podia ter dito antes, me fez passar raiva à toa – O empurrei — Ah, que droga, agora eu nem quero mais botar fogo nas suas roupas.
— Isso é bom.
— Eu surtei. Fiquei tão enfurecida pensando que estava me escondendo algo e você só visitou seu pai.
— Não foi nada mesmo, é sério Lisa, não precisa ficar se desculpando. Por que não vamos...
— Aqui estão vocês! – Ouvi a voz de Genna – Finalmente as donas apareceram. O que pensam que estão fazendo nesse lugar sem minha supervisão.
— Estávamos conversando Genna, apenas conversando – Respondi impaciente — Nós fugimos quando vimos que ninguém nos seguiria, já que todas as atenções estavam em meus pais. Já enjoou de filmá-los fotografando tudo o que veem pela frente?
— Eu os procurei por toda parte.
— E nos encontrou, olha só – Bati palmas a parabenizando – Deixe de ser dramática Genna Owen, esse lugar nem é tão grande assim e eu sei que só me fez vir aqui pra infernizar minha vida.
— Olha o jeito que fala comigo.
— Reveja você como fala comigo! Quer que eu conte ao Min Jun o que me disse há alguns dias?
— Está mesmo se achando alguma coisa Lisa Scott, não pense que por ter apenas mais uma semana de gravações você...
— Espere, espere – Levantei a mão sinalizando para que parasse de falar – Uma semana, o quer dizer com uma semana?
— Ah, você ainda não sabia. Min Jun deveria...
— Não estão com fome? Porque estou morto de fome. Seria bom comermos algo. Meu estomago está roncando. Onde os pais da Lisa estão, Genna?
— Estão comendo pizza em uma barraca. Eu posso leva-los até lá – Deu um sorriso sarcástico enquanto olhava pra Min Jun e colocou o par de óculos escuros, saindo à nossa frente.
— Min Jun – O cutuquei caminhando ao seu lado, seguidos pela equipe de filmagem.
— Hum?
— O que a naja quis dizer com uma semana? – Murmurei tentando tapar a boca para que não nos escutassem.
— Precisamos falar sobre isso agora? Vamos comer antes, pizza é sua comida favorita. Podemos tomar um sorvete depois e se me lembro bem há uma cabine de fotografias em algum lugar por aqui. Devíamos tirar algumas fotos – Segurou minha mão – Não temos fotos de casal.
— E não seríamos um verdadeiro casal sem fotos de casal.
— Exatamente – Sorriu e apoiou o braço em meus ombros.
***
— Ali! – Alertou Min Jun apontando para uma cabine fotográfica – Vamos tirar fotos – Me levou consigo para o cubículo deixando Genna para trás.
Fechei a cortina escura que nos separava dos olhos da equipe de produção e meu namorado retirou uma moeda do bolso, a colocando no local indicado.
— Devemos ser divertidos ou românticos? – Indagou.
— Os dois? – Sugeri e beijei sua bochecha quando o flash disparou.
Min Jun uniu o dedo indicador e polegar formando um pequeno coração, abriu um largo sorriso, seus olhos apertados, e me trouxe para si. Minha cabeça em seu peito. Outro flash sobre nós.
Minha mão atrás de sua cabeça e um par de chifrinhos enquanto gargalhava e Min Jun me olhava com um olhar de quem não fazia ideia do que estava acontecendo.
Outra foto.
Então nos fitamos. Eu tinha a mais plena certeza de seu amor. Estava ali, claro como água. Em seus olhos. Quase palpável. Me senti culpada por um momento. Por não ser boa o bastante. Não para Hyun Min Jun.
Então me senti grata. Por ser tão amada por ele.
Segurei suas mãos e o beijei me inclinando contra seu corpo e sentindo seus lábios nos meus.
Outro flash. Outra foto.
Mas quem se importava afinal? Havíamos nos esquecido de tudo.
Outro flash. Outra foto.
Dane-se tudo.
Outro flash. Outra foto.
Por que beijá-lo era tão bom? Tão inocente e tão intenso.
Nenhum flash. Nenhuma foto.
— Vocês podem parar agora mesmo com essa sacanagem aí – Berrou a produtora do lado de fora e voltamos a realidade.
Saltamos da cabine nos recompondo.
Genna segurava a tirinha de fotos recém reveladas em mãos.
— Ai que vontade de vomitar! – Reclamou revirando os olhos e Min Jun tirou as fotos de suas mãos.
— Isso é nosso!
— Vocês me dão náuseas. Deveriam estar brigando, não se agarrando. Contratei vocês pra ver briga e confusão, não pra aturar casalzinho meloso.
— Eu poderia me irritar com você Genna, mas estou realmente grata! Assinalei e ela arqueou as sobrancelhas.
— Grata. O que te fiz de bom?
— Se não fosse você e seus planos perversos, eu não teria conhecido Min Jun e ele foi a melhor coisa que me aconteceu desde meu Grammy e a bagunça que minha vida se tornou. Então muito obrigada Genna.
— Vocês não iam comer não? – Mudou de assunto e segurei uma gargalhada – Seus pais estão naquela barraca, ali à frente.
— Ela me odeia – Cochichei e meu marido apenas riu caminhando rumo à nossa tão desejada refeição.
***
Mamãe e papai tiravam selfies juntos, como uma casal de namorados e sorriram quando nos aproximamos.
— Filha e... e... você...
— Hyun Min Jun.
— Isso. Venham cá, sentem-se conosco, estamos comendo pizza.
— A comida favorita da Lisa – Comentou papai rindo.
— É, eu percebi isso – Min jun sorriu e olhou para mim, sentada ao seu lado na mesa – Lisa poderia comer apenas pizza pelo resto de sua vida sem nenhum problema.
— E você viveria de macarrão instantâneo sem pensar duas vezes – Rimos e ele assentiu balançando a cabeça.
— Você vive de macarrão instantâneo filho? – Inquiriu mamãe arregalando os olhos e segurando seu braço sobre a mesa.
— Durante o programa estou comendo bem, mas eu vivo sozinho na vida real, e mesmo sabendo cozinhar algumas coisas é muito trabalhoso fazer comida apenas pra mim, então recorro às comidas instantâneas.
— Isso é tão triste – Minha mãe parecia comovida – Mas você tem uma sogra que é uma ótima cozinheira, quanto a Lisa, eu não sei.
— Mãe! – Resmunguei embaraçada – Eu sou ótima com ovos e bacon.
— Ninguém pode viver de pizza, ovos e bacon.
— Eu vivo! – Mordi um pedaço de pizza.
— Mas quando vocês se casarem ele poderá cozinhar para você filha.
Min Jun se engasgou e começou a tossir e eu a bater em suas costas.
— Mãe, você sabe que estão filmando, não sabe?
— Ah, eles ainda não sabem? – Sussurrou inclinando a cabeça para frente.
— Não, ninguém sabe e eu ainda tenho dificuldades de entender como vocês sabem.
— Entendo.
— Mas cá ente nós – Papai também se inclinou e fizemos o mesmo – Quando vão se casar?
— Nós... nós... – Gaguejou Min Jun trêmulo – Digo nós...
— Não falamos sobre isso. Estamos gravando uma droga de reality show agora, o mundo não precisa saber sobre nossas vidas pessoais.
— Mas realitys shows não são sobre a realidade, filha? – Mamãe me olhou confusa e gargalhei assustando a todos.
— Mas é claro que não. Nada nesse mundo é real. E a ultima coisa que um reality show é, é real. As pessoas não querem nos ver vendo televisão, dormindo e indo ao banheiro. Elas querem emoção conflitos, romances. E é isso que devemos dar a elas. As pessoas não sabem sobre a gente e vamos manter assim por um tempo.
— Claro – Ela sorriu e balançou a cabeça como se na verdade nada do que eu dissera fizesse qualquer sentido.
— E vocês, ajusshi, ajumma, estão se divertindo? – Perguntou Min Jun com a boca cheia.
— Sim, este lugar é lindo. Tiramos centenas de fotos. Agora poderemos nos gabar para a senhora Baker que vivia se exibindo por ir à casa de seus filhos na Flórida.
— E ainda aparecemos na televisão – Riu papai e sorri ao vê-los tão orgulhosos de algo tão simples.
— Infelizmente partiremos esta tarde, após o almoço.
— Já, tão rápido senhor Scott?
— A senhora Owen nos disse para ficarmos até a sua volta. Parece que as passagens já foram compradas e ela não nos permitirá ficar mais que o planejado.
— É uma pena não podermos passar mais tempo juntos, eu adorei conhecer os pais da Lisa, principalmente agora que as coisas estão melhores.
— Nos veremos mais vezes, poderão nos visitar em Rogersville, em breve sua irmã se casará Elisabeth, e esperamos ver vocês lá. Enviaremos os convites.
Passamos algum tempo ali, sentados à mesa, sob os olhares atentos das câmeras.
Sorrindo, rindo, hora falando alto demais, ora cochichando e sussurrando, e ouvindo Genna aos berros nos dizendo sobre como não deveríamos sussurrar nem falar baixo demais.
Parecíamos realmente felizes e animados.
Eu estava verdadeiramente feliz naquele momento.
Mas essa felicidade como tudo na vida teria seu prazo de validade.
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