Recém Casados

29 Capítulo 29


Notas iniciais
Oi gente tudo bom? Eu demorei, mas voltei. E bom temos mais um capítulo com dilemas familiares, mas desta vez com a dona Lisa. Ah e teremos a participação especial de Rose McIntyre de meu livro Rose e o Cara, que está disponível na Amazon : amzn.to/2zIJcTT Por favor curtam minha página de autora: www.facebook.com/Tbritoautora A musica é a trilha do capítulo, o clima dela se encaixa perfeitamente com o clima do capítulo. Espero realmente que gostem e compreendam mais sobre essa treta de familia.

Trilha do Capítulo

Brie me encarava com olhos mortos enquanto eu reclamava sem qualquer pausa. Apenas despejando todas as minhas frustrações sobre ela, afinal amigos também servem para nos ouvir reclamar da vida quando não podemos pagar por um psicólogo, certo?

A sala de sua casa estava uma bagunça. Caixas e mais caixas abertas e fechadas, deixavam o ambiente com um clima de mudança. Mas não era Brie que estava se mudando e sim seu novo namorado que realmente parecia vir de Porto Rico, falava espanhol e ela fingia que entendia.

De acordo com ela Juan era carinhoso e talvez fosse o amor de sua vida, mesmo que se conhecessem há somente um mês. No fundo eu sabia que ela provavelmente estava só encantada com seu sotaque latino.

De qualquer forma eles estavam morando juntos agora e a casa de Brie não seria mais a mesma coisa e eu não poderia mais cogitar a ideia de dividir a casa com ela depois do programa acabar e eu ter que vender minha casa para pagar minhas dívidas restantes.

Eu bem que poderia morar com Min Jun. É claro que poderia. Afinal já morávamos mesmo. Seria uma simples mudança de casa e ainda teríamos toda a privacidade que tanto desejávamos.

— Lisa? – Brie me chamou num tom mórbido e a encarei depois de falar feito uma matraca por vários minutos.

— Hum?

— Você sabe que estou morando com alguém agora, não sabe?

— Uhum, o porto-riquenho – Ela me olhou com uma expressão de interrogação – Falando nisso, você nem o conhece direito e já trouxe ele pra morar aqui!

— Você não conhecia Min Jun quando se mudaram pra mesma casa.

— É diferente, tem câmeras lá. Se algo acontecer aqui hum? E se ele for um psicopata? Não sabemos Brie, não sabemos...

— Está tudo bem Lisa, eu sei me cuidar bem. A questão é o que faz aparecendo de surpresa aqui em casa? Sabe, seria bom se começasse a me avisar daqui em diante.

— Você é minha melhor amiga e não posso pagar um psicólogo – Sorri sem graça.

— O que quer que eu diga Lisa? Eles são seus pais, você deve se resolver com eles e nessa área não há nada que eu possa fazer.

— Como? A senhorita sabe muito bem o que eles fizeram comigo... – Fiz um beiço apontando para meu próprio peito.

— E pediram desculpas, não pode apenas perdoá-los? Eles ainda são seus pais e criaram você. Tenho certeza de que eles se arrependem de toda aquela droga de anos atrás.

— Não tenho tanta certeza. Por que não se arrependeram antes? Se arrepender em frente às câmeras é fácil.

— Só... só dê uma chance a eles certo? E se for real? Se realmente sentem muito e querem seu perdão? Vamos lá Lisa, dê uma chance e volte para casa hum? O que acha?

— Realmente não me quer aqui, não é?

— Finalmente entendeu. Obrigado Senhor.

— Muito engraçadinha você hein!

— Não foi uma piada. Vá, vá para casa e converse com seus progenitores, tudo bem?

— Ok, eu vou – Saltei do sofá apertado – Eu vou – Afirmei contrariada.

— Vai! – Ela sorriu acenando para que eu saísse.

— Você é muito má! – Andei de costas em direção à porta, ainda relutante.

— Eu sou, agora vá! – Cruzei os braços e saí resmungando.

***

Meus olhos se abriram com o som alto das músicas antigas que papai costumava ouvir pela casa. Descabelada e bocejando me sentei na cama, ouvindo o som tão familiar adentrar meu quarto.

Era nostálgico, confesso. Me fazia lembrar da infância. De tempos mais simples e descomplicados, quando éramos de fato uma família e não essa coisa desconjuntada de agora, quando eu não possuía qualquer ressentimento por eles.

— Mãe, pai... – Disse sonolenta caminhando rumo à cozinha em busca de comida – Obrigada por me acordarem tão cedo, eu nem queria dormir mesmo! – Sorri irônica e abri a geladeira vasculhando e notando o quanto eu precisava ir ao supermercado com urgência.

— Eu sinto muito por isso, é um velho hábito de seu pai, você sabe disso...

— É eu me lembro bem...

— Está com fome? Preparei o café da manhã.

— Não, estou bem – Fechei os olhos quando o ronco de meu estômago ecoou pelo cômodo.

— Fique aqui, vou servir seu café da manhã, você adora panquecas com xarope de bordo, sente-se.

Mesmo relutante me sentei, eu estava faminta e havia comida pronta, um trabalho a menos.

Eu repetia isso em mente.

As coisas não estavam bem entre nós.

Eu estava apenas com muita fome para recusar comida.

Mamãe colocou sobre o balcão a minha frente, uma pilha de panquecas com calda e meu estômago reclamou alto. Estava faminta. Com um largo sorriso ela me observava comer, como se estivesse grata por aquilo. Por me ver comendo algo preparado por ela. E tinha o mesmo sabor de antes. O sabor de casa. Que nenhum restaurante ou lanchonete poderia imitar, nem em sua mais fiel reprodução.

— Lisa, minha filha, eu acho que...

Levantei os olhos e a encarei antes de meu telefone tocar e eu pular da cadeira.

Corri para o quarto a deixando para trás falando sozinha. Não havia tempo a perder. Min Jun poderia estar me ligando e eu não perderia isso por nada. Nem por uma pilha de panquecas com calda.

— Min Jun? – Indaguei ansiosa.

— Ah, não, aqui é Louane...- Ouvi a voz de uma jovem – Me dá esse telefone aqui Louane! – Outra voz distante dizia.

— O que está acontecendo? Olha que eu vou desligar! – Ameacei.

— Não, por favor não desligue – A segunda voz agora pedia com clareza – Eu gostaria de falar com Lisa, Lisa Scott.

— Sou eu.

— Ah, ótimo, meu nome é Rose McIntyre, sou presidente da Revista “Belle” de Paris...

— Ai meu Deus do céu! É apenas a maior revista de moda da França. Mas por que está me ligando?

— Sim, somos a maior revista de moda da França. Mas todos já sabem disso. Eu gostaria de convidar você, Lisa Scott para ser a capa da “Belle” do próximo mês, o que acha?

— O que eu acho? O que eu acho? Eu nem sei o que eu acho. Eu tô surpresa demais pra achar alguma coisa.

— Vamos marcar uma sessão fotográfica na próxima semana.

— Certo, certo – Gaguejei – Mas como você me conhece? Digo, eu nem sou mais famosa há um bom tempo.

— Eu adoro seu programa. Não perco nenhum episódio sequer. E eu meio que tenho uma família complicada, então rola uma identificação. Só pra saber – Deu uma risadinha – Sua mãe nunca ficou com seu noivo né?

— Que tipo de mãe faria isso?

— Não sei – Riu sem jeito – Que mãe faria isso com a filha, não é? É loucura.

— Claro. Voltando ao que importa, Louane é minha assistente, ela vai te passar as informações adicionais no decorrer da semana. Foi bom falar com você Lisa Scott.

— O prazer foi meu, senhorita Mcintyre.

— Nunca me chame de senhorita, é irritante, apenas Rose.

— O prazer foi meu, Rose.

“Ela é doida” – Pensei.

Mas uma doida que me quer na capa de sua revista.

Voltei para a sala dando de cara com meus pais de pé, me esperando com olhares preocupados.

— Aconteceu alguma coisa? – Mamãe indagou colocando a mão em meu braço. Olhei com estranheza para a mão que me tocava.

— Não importa... – Tentei me mover, mas mamãe me conteve.

— Sabe que pode nos dizer qualquer coisa – Ri num suspiro.

— Desde quando é da conta de vocês?

— Desde quando somos seus pais Elisabeth – Respondeu papai com certa melancolia.

— Agora se importam com o que faço ou deixo de fazer?

— Sempre nos importamos querida – Disse mamãe complacente.

— Ah claro, me lembro bem, como é mesmo? Saia de minha casa e não volte mais!

— Eu fiz isso... – Ele abaixou a cabeça e encarou os próprios dedos, parecia difícil falar – Por que me importava demais.

— Que ótima forma de demonstrar isso.

— Tente se colocar em meu lugar Elisabeth, você era uma jovem garota sonhadora que nunca havia saído de Rogersville e desejava viver de música na cidade grande. Nós somos seus pais, filha, nós queríamos que tivesse um futuro. Queríamos vê-la bem, mesmo vivendo naquela cidadezinha, trabalhando num escritório todos os dias – Papai me fitou aflito – Queríamos que tivesse uma vida segura. Você era nossa garotinha e tudo parecia tão incerto.

— Vocês sabiam que eu era boa.

— É claro, nunca duvidamos do seu talento. Mas quem poderia nos garantir que seria o suficiente? Naquele dia quando discutimos pela última vez eu disse coisas que não deveria ter dito, eu nunca desejei que saísse de casa.

— Então por que disse aquilo? – Cruzei os braços.

— Pensei que mudaria de ideia, que você acordaria desse sonho, pensei que voltaria depois de algumas horas fora, depois que a poeira abaixasse, mas você nunca voltou.

— Disse para eu não voltar.

— Foi meu maior erro. Me arrependo a cada segundo. Sua mãe chorava todos os dias, por meses e meses. Você não era mais uma criança, mas nos perguntávamos todos os dias se... Se estava bem, pois estava sozinha na cidade grande, coisas ruins poderiam te acontecer.

— Então a culpa é minha? Eu é quem não deveria ter saído de casa?

— Todos erramos, Eu, você, todos. Você nos ligou apenas uma vez dois dias depois, nos dizendo para não a procurarmos, que estava bem. Nunca atendeu nossas ligações, por acaso leu nossas correspondências? Se lesse saberia que sua irmã irá se casar. Sei que errei filha, mas não nos culpe por nos preocuparmos com você.

— Recebeu nossas cartas, não recebeu? – Inquiriu mamãe.

— Sim – Balancei a cabeça e apertei a mandíbula com força.

— Leu alguma delas? – Neguei em silêncio e mordi o lábio, envergonhada.

— Eu... Eu preciso ver algo – Andei de costas – Eu preciso – Suspirei afobada – Preciso saber se é verdade.

— Não acredita em nós Elisabeth?

— Eu não confio em vocês.

— Você trouxe as cartas para cá?

— Achei que em algum momento teria coragem para lê-las. Então apenas trouxe – Abaixei a cabeça e me tranquei no quarto desesperada.

Sempre tive a mais plena convicção de que estava certa sobre eles.

Eu era a mocinha e eles os vilões. Acreditei nisso por tantos anos, por que agora seria diferente?

***

“Olá Elisabeth.

Quem escreve é a sua mãe. Não conseguimos entrar em contato com você desde sua última ligação. Você nos disse que estava bem e nunca mais nos ligou. Nós tentamos te ligar inúmeras vezes, mas parece que não quer falar conosco. Da última vez que nos falamos foi tudo tão rápido que não pude lhe dizer o que queria. Uma amiga sua nos passou seu novo endereço e decidimos enviar cartas.

Nós queremos dizer que sentimos muito. Seu pai repensou sobre o que disse a você e está arrependido. Ele nunca quis dizer aquilo. Foram coisas estupidas ditas na hora da raiva. Seu pai estava preocupado com seu futuro.

Sabemos que é uma garota talentosa filhinha, mas a vida não é fácil como aparece nos filmes que tanto gosta. Queríamos apenas que tivesse algo certo e concreto nas mãos ao invés de uma possibilidade incerta.

E se algo acontecesse a você? O mundo lá fora é tão perigoso. Estamos preocupados. Por favor filha, volte para casa, sua irmã tem chorado todas as noites e seu pai sequer pode dormir preocupado se está bem de verdade.

Com todo nosso amor.

Mamãe”.

***

Olá Elisabeth,

É sua mãe outra vez. Não recebemos resposta sobre a outra carta, mas não a culpo. Não devo ser boa com palavras. Mas espero que a tenha lido.

Você está bem filha? Tem se alimentado? Dormido bem? Dizem que a comida da cidade grande não é boa. Nós podemos levar algo para você se quiser. Apenas nos diga o que e quando e estaremos aí. Você ainda gosta de panquecas com calda, gosta?

Seu pai não dorme há algum tempo e foi ao médico. Receitaram a ele algumas pílulas para dormir. Bernard ainda se sente mal pelo que disse a você. Dizemos coisas que não queremos a pessoas que amamos quando perdemos a cabeça.

O rendimento de Elaine na escola decaiu. Ela tem estado preocupada demais. Todos estamos. A conselheira escolar sugeriu leva-la a um psicólogo para conversar. Ela sente sua falta Elisabeth. Você nunca mais nos telefonou. Nem no dia do seu aniversário na última semana.

Você comemorou Elisabeth? Espero que tenha passado este dia com pessoas especiais.

Teríamos comprado um belo bolo e estivesse aqui. Um de nozes. Seu preferido.

Feliz aniversário filha. Que seus sonhos se realizem e lembre-se que sempre estaremos de portas abertas para recebe-la.

Com amor, mamãe”.

***

“Elisabeth,

Quem lhe escreve dessa vez não é a sua mãe. Sou eu, Bernard seu pai. Essa já deve ser a décima carta que a enviamos, mas você nunca respondeu nenhuma delas. Pensamos se é realmente o endereço certo, ou se essa sua amiga mentiu para nós. Nunca saberemos a menos que nos responda.

Continuamos tentando te ligar, mas parece que mudou de número.

Eu sei que não deveria estar te escrevendo Elisabeth. Eu sei que sou a última pessoa que deveria estar fazendo isso e tenho plena certeza de que me odeia e não a culpo. Mas sua mãe está adoentada e não pôde escrever desta vez. Ela não parece nada bem, estamos preocupados com sua saúde. Creio que deva estar ciente disso.

Eu gostaria de pedir desculpas a você filha. Elen sempre tem feito isso por mim, mas sinto que eu mesmo deva fazer isso. Eu admito que estava fora de mim e me deixei levar pelas emoções e o calor do momento. Nunca foi minha intenção expulsá-la de casa, eu nunca quis que fosse embora. Nenhum segundo sequer. Aquelas malditas palavras destruíram nossa família e todos os dias me pego arrependido, remoendo cada uma delas. Minha filha, eu estava tão preocupado com seu futuro que me esqueci que você tinha seus próprios sonhos e ambições. Eu a afastei tentando trazê-la para mais perto.

Em momento algum minha intenção foi machucá-la, mas machuquei e lamento isso a cada minuto de meus dias. Sua mãe acha que estou doente, mas é apenas remorso misturado as saudades. Eu adoraria vê-la outra vez e pedir desculpas por todo o mal que te causei Elisabeth. Pois te amo tanto que as vezes dói. Amo você de todo meu coração.

Venha nos visitar, sua mãe ficaria feliz, poderia fazer isso por ela? Acredito que isso daria forças a ela. E claro, adoraria pedir desculpas pessoalmente. Pode não parecer sincero o bastante por cartas. E poderíamos nos abraçar. Seria algo bom.

Nos avise quando vier. Mamãe preparará algo delicioso.

Com carinho. Papai”.

***

Me mantive encolhida ao lado da cômoda. Era normal eu me sentir tão horrível? Como se a verdadeira vilã da história fosse eu no fim das contas?

E se eu apenas tivesse lido suas cartas anos atrás? Se eu tivesse apenas aberto os malditos envelopes e voltado para casa?

Eu ainda me sentiria tão mal?

Minha irmã havia me noticiado sobre seu noivado há meses. Estava tudo ali, escrito a mão em uma das dezenas de cartas socadas no fundo de uma gaveta dentro de uma sacola de supermercado. Amareladas e amassadas.

Eles nunca vieram, pois achavam que eu não queria vê-los e respeitaram isso.

No fundo eu sabia que todos tínhamos nossas parcelas de culpa. Eu e eles. Numa história sem mocinhos, apenas vilões.

A garota egoísta e seus pais superprotetores. Nunca daria certo de qualquer forma.

Eu deveria pedir desculpas?

Deveria ignorá-los como antes e fingir que nunca li nada disso?

Talvez eu pudesse descobrir depois que abrisse a porta. Eu saberia o que fazer.

Olharia para eles e saberia. Certamente saberia.

E foi isso que fiz. Me levantei deixando para trás as cartas abertas sobre o chão, espalhadas ao meu redor.

Caminhei hesitando até a porta. Segurei sua maçaneta e a girei. Por que parecia tão difícil?

Eles estavam ali. Sentados no sofá, pareciam tão aflitos, ansiosos. Então se levantaram e meus pés me conduziram até eles. Como se tivessem vontade própria.

Seus braços me acolheram, me trazendo para si. Era quente, aconchegante, como se sentar em frente à lareira no inverno com uma boa caneca de chocolate quente, enrolada em um cobertor. Era como um sopro de ar puro em meio à fumaça. Era bom. Simples e complexo. Perfeito de uma forma imperfeita. E eu queria que o mundo acabasse ali mesmo. Por que talvez eu já tivesse o paraíso.

Notas finais
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