Reconstituídos - Interativa
1 Introdução: O fim para o começo.
Notas iniciais
O homem olhava tranquilamente a paisagem pelas janelas enormes do escritório que havia sido seu desde que chegou ali pela primeira vez com a solução para o fim do mundo. Ou parte dela.
O mundo estava se degenerando desde que a humanidade se lembrava, e mesmo assim foi preciso que todos os alarmes vermelhos soassem para que eles pensassem em uma solução e, pior ainda, para notar que precisavam de uma.
Do nada, o fim estava próximo e nenhum presidente tinha uma solução, ninguém sabia o que fazer, os mais ignorantes ainda tinham filhos mesmo que fossem punidos, arvores continuavam caindo, o mundo permanecia envelhecendo, e todos estavam fadados a apenas sentar e rezar.
Foi quando Hunter Shepperd surgiu, invadindo a câmara que surgiu especialmente para decidirem o que fazer. O cientista explicou seu plano, e a terra estava salva, porém, é claro, com um preço.
Sempre há um preço, mesmo que não tenhamos com o que pagar.
Parte da humanidade, a maior parte, teria de se sacrificar. Apenas jovens dentre doze e vinte anos foram selecionados para o experimento que poria um fim aquela bagunça. Eles seriam armazenados e preservados adormecidos por muitos anos enquanto os ancestrais morriam e o mundo era reconstituído a sua forma original, tornando-se apta para a colonização como um dia havia sido. O organismo, mesmo que mais lentamente, continuaria funcionando, de forma que os mais velhos teriam apenas trinta anos dali a mais de três mil anos, quando acordariam. Toda a população restante teria de "suicidar-se" para que não fossem extintos.
Era a única forma, e mesmo que sob protestos as pessoas a aceitaram. Com o início do plano em curso, faltava apenas o governante do novo mundo, aquele que guiaria os recém acordados em um mundo deserto.
Os escolhidos foram óbvios, votados com unanimidade. Hunter, Helen e Holden Shepperd, os trigêmeos seriam sucessores do pai.
E está era a parte do plano que lhe fugiu do controle. Olhando os corpos serem arrastados para dentro do subsolo, o recém governante temia que os filhos não conseguiriam vencer suas diferenças no futuro, que acabassem com uma sociedade dividida outra vez, e principalmente, que aquele fardo era grande demais para jovens de vinte anos em um corpo de trinta. E se a radiação conseguisse alcança-los e de algum modo modifica-los? E se algumas pessoas não foram evacuadas, burlando as regras? E se...
— Senhor?
Ele apenas piscou, mas a secretária continuou falando mesmo assim. Ela estava chorando, ele sabia.
— Está na hora...
Hunter suspirou. Não estava nem perto da hora, nunca estaria.
— Então aperte o botão, Karen. E por favor, não chore. Sua filha foi salva, não foi?
Ela engoliu a seco, como se não gostasse da ideia de apertar o botão que explodiria tudo. Apenas alguns locais com grande concentração de áreas verdes foram estrategicamente poupados, as pessoas foram retiradas, e o mundo daria um modo de se manter vivo apenas com essas áreas. Já tinha feito antes, afinal.
—Sim... Minha Mary... Eu só espero que de tudo certo.
Então ela apertou o botão, e o mundo reiniciou.
~
De fato, o mundo reiniciou, porém os temores de Hunter estavam certos.
Algumas pessoas, batizadas de Renegados após a reconstituição da vida, conseguiram manter-se vivas. Apesar de tentarem encontrar os escolhidos, não foram capazes, mas souberam que os mesmos tinham acordado assim que de fato acordaram, levando conflitos a Terra outra vez. E como se não bastasse, o mundo se dividiu em três cinco anos após o grande começo, cada uma governada por um irmão.
Helen era muito apegada ao pai. Estudava com ele antes de aprender o que todos aqueles números significavam, graduou-se em Medicina como ele e ajudou-o a reformular toda a teoria para o reinicio do mundo, ninguém era tão inteligente quanto ela nem caçava tão bem desde que o pai havia levado-a para treinar ao invés de deixa-la com os avós nas férias, coisa que fez com os irmãos. Como consequência, seu povo, constituído apenas por mulheres, separavam-se em três funções: Caçadoras, responsáveis por trazer alimentos e manter a cidade protegida; Curandeiras, toda e qualquer garota com habilidades médicas; E Construtoras, as mais inteligentes e as únicas capazes de manter o ecossistema o mais intacto possível, normalmente mantinham as coisas na cidade sob controle enquanto erguia tanto a ela quanto a vegetação ao redor. Dentre os três era a menos agressiva, de fato, até fez um acordo com os gêmeos. Eles lhe dariam qualquer mulher que quisesse abandona-los por sua nação, e em troca ela cederia algumas curandeiras em situações extremas. Seu povo foi chamado de Pientia, nome que tirou da palavra Sabedoria em latim.
Holden, o gêmeo do meio, não era ligado nem ao pai nem a mãe. Holden era apenas Holden, popular e trapaceiro. Era preso mais vezes do que a família podia acompanhar, e era solto por sua simpatia mais vezes do que qualquer um saberia. Um espertalhão e desordeiro, para falar o mínimo, e criou os Sparrow — seu povo foi batizado em homenagem ao pirata de seus filmes favoritos — para ganharem a vida como ele ganhava a sua. Faziam festas, contavam lendas e roubavam coisas. Eram divididos entre Piratas, caçadores de recompensa que navegavam muito bem, mas atuavam tanto na terra quanto no mar. Ladrões, basicamente; Poetas, que transmitiam as antigas histórias do mundo antes do fim e mantinham as festas animadas. Cantores, dançarinos, artistas...; E Organizadores, os "faz-tudo" de Sparrow, erguiam casas, providenciavam mantimentos e se responsabilizavam por horários e todas as coisas chatas. Eram uma nação animada, de artistas, festeiros e espertinhos.
Hunter era o gêmeo mais velho e o mais próximo da mãe, que faleceu muito antes do mundo. Quando o pai e suas teorias não tinham tempo para ela, quando Helen estava estudando junto a ele, quando Holden ia a festas de amigos e quando o mundo parecia dar as costas ao que mais importava, era ele quem cuidava dela. E então, ela se foi, e se ele não era o cuidador, o que era então? Descobriu quando fez dezoito. Hunter era um soldado. Serviu o exército e, naturalmente, não podia criar um povo diferente. Em sua civilização, batizada de Leviatã, tanto homens quanto mulheres eram divididos entre ferreiros e soldados. Aqueles que eram feridos na batalha e/ou não possuíam habilidades para fazer armas tinham o dever de cuidar dos mais jovens para que fossem exatamente iguais a eles. Eram uma nação implacável, tinham qualquer terra para si e como aparentemente os irmãos não se importavam com o problema dos Renegados, eles também adotaram a função de mante-los sob controle.
E, como ainda não era o suficiente, a radiação conseguiu de fato atingir os corpos preservados e modifica-los. Todos adquiriram uma habilidade especifica, tornando-se quase "Super-heróis", como a Terra costumava chamar nos quadrinhos. E a habilidade dos trigêmeos? Era, é claro, a imortalidade.
Governantes eternos, civilização dividida, guerras implícitas... Tudo mudou, mas tudo continuava o mesmo.
Uma nação guerreira, uma artística e uma equilibrada. Não seria natural tentar unifica-las outra vez, e nenhum dos Shepperd, cem anos depois, pensou que precisariam ver-se outra vez. Mas precisaram, afinal, e o fizeram mesmo sabendo que nada seria como antes outra vez.
Por um bem maior eles teriam de enviar cinco dos seus para uma missão suicida.
O mundo estava prestes a recomeçar outra vez.
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