Recomeçar
10 Dia de chuva
Notas iniciais
A minha sorte é que era sábado. Eu tinha de fazer um trabalho de matemática com a Bárbara, então tratei de estar o mais “apresentável” possível, tentando dispersar a dor de cabeça do inferno. Coloquei uma camiseta básica branca da Hering meus jeans desbotados comprados na havan – o que é muito comum pela região – meu all star preto, dei uma “rebocada na cara” e saí para as ruas.
Senti a doce necessidade de abraçar alguém, aproveitei o caminho longo para escutar uma música e relaxar um pouco. O dia estava cinzento, a atmosfera pesada, eu não podia pensar em desastres. Mas parece que eles me seguem!
Quase fui atropelada, e do nada as nuvens cinzentas resolveram derramar chuva sobre a cidade. Pega de surpresa, e sem um bolso que prestasse nem guarda-chuva, meu mp4 pifou. Coisa do Paraguai é assim mesmo!
Tive de gastar o meu dinheiro que iria usar para comprar papel para um passe de ônibus e uma sombrinha, sobrando um mísero real.
Essa era a minha realidade antes da depressão e antes da Valéria e todo o grupo entrarem na minha vida – desastrada, quase atropelada (toda vez que saía de casa), nunca uma boa aluna.. Sou um ímã para confusão.
Aí então entrou a doença na minha vida: meus pais se separaram, mudei minhas músicas e meu estilo; e como se isso já não bastasse, vi as pessoas a quem mais amava, mais até do que meus próprios pais, morrerem em minha frente.
Estava morando com meus tios há algumas semanas, depois do divórcio dos meus pais imaturos, preferi ficar com eles por um tempo, o que acabou durando dois anos.
Quando íamos para a praia, na ida a um posto de gasolina, acabamos todos assaltados – e mortos. Digo “acabamos” porque a partir daquele momento, daquelas cenas que vi, morri por dentro. De ódio por uma sociedade tão nojenta, e de tristeza por perder aqueles que mais me amaram na vida.
E se isso não bastasse, ainda tinha a volta para a escola, que foi o fim para a minha lucidez. Segundo Jorge, o meu antigo namorado, eu estava meio “zumbi”. Não vou negar, estava mesmo, e foi por isso que ele terminou comigo, ao invés de me ajudar.
Nunca mais o vi – até este momento. Cruzei com ele na quinta avenida, que era toda enfeitada. É, foi como um filme, mas eu não pensava mais nele. Ele já estava fora da escola, quando começamos a namorar – isto ano passado -, ele estava no terceiro ano do ensino médio. Ou seja, eu na oitava série, e ele prestes a fazer faculdade.
O mais intrigante foi não sentir absolutamente nada com a sua presença ali. Eu estava parada, ali, bem na frente dele, sem mexer um músculo.
— Você está diferente! Foi só o que ele disse.
- As pessoas mudam, Jorge. De namorado, de cabelo, de roupa, enfim... Fui rude para ele perceber o quanto tinha me magoado por me deixar para trás.
- Achei que já tinha me esquecido de como você é estúpida quando quer.
- E eu acho que se você não quis saber da minha vida antes, não vai querer saber agora. Adeus, Jorge! Estou atrasada. Com licença.
Dei as costas satisfeita. Agora ele sabia todos os motivos, sabia o porque de eu ser tão grossa. Deveria entender, então. Ele foi o meu grande amor e minha grande decepção.
- Está tudo bem?
- Já dei a minha resposta, Jorge. Respondi, dando um leve aceno. — Boa sorte com as suas menininhas! Ah, e que elas não precisem de você, não é!
Foi uma atitude infantil, mas mesmo assim, que precisava ser feita. Eu estava mais forte agora, mas mesmo assim, sentia-me vazia.
As lágrimas começaram a escorrer por meu rosto. A chuva se tornava mais forte, tanto que se não houvesse guarda-chuva molharia do mesmo jeito. Sendo assim, o fechei e corri para o ponto de ônibus.
Peguei a linha 067, que dava direto na frente da casa da Bárbara. No meio de tanta confusão, achei que não iria chegar!
Ela estava me esperando na porta, já com uma toalha na mão, e com um sorriso entre os lábios.
- Não tem guarda-chuva não, garota?
- E de que adianta? Falei, olhando para o céu. – Parece que não vai parar nunca!
- Entre, está muito frio aí fora. Te arranjo uma roupa!
- Ok.
Então entrei. A casa, apesar de ser muito distante do centro, era de grande luxo. Muito bem iluminada, uma destas novas casas construídas, com alta tecnologia e tudo mais.
Era estranho não poder me vestir na frente da minha melhor amiga, por saber que era lésbica. Era estranho sentir que ela gostava de mim mais do que uma amiga, que queria estar comigo o tempo todo, que talvez me amasse como um homem ama uma mulher, e que me desejasse.
Apesar de sentir receio por minha parte, Bárbara não parecia incomodada. Estava muito bem, diferente da Bárbara dos últimos dias.
- Então, Bárbara. Você... Está melhor?
- Melhor do que nunca. Sabe, só não gosto quando você está com a sua namorada..
- Ah. Bem, a Vale não é mais a minha namorada. Na verdade, parece que ela não quer nem olhar mais na minha cara.
- Isso significaria... Bem, quer dizer, de algum modo... Há chances para mim?
Suspirei. Mas que pergunta!
- Não vou te enganar Bárbara... Te amo, e muito, mas é como amiga! Não quero mais me envolver com nenhuma de vocês, e não quero machucá-las.
- Ok, entendi. Nenhuma chance...
- Bárbara, não fique assim!
- Ãh... Me passa a fita?
- Claro.
Estou com medo. Não sei o que Bárbara pode fazer, não sei o que eu devo fazer! Se volto para a minha normal e pacata vida como excluída, ou se procuro o meu eu interior, meu lugar no mundo, aquilo que eu realmente gosto.
Bárbara entendeu o meu recado. A tarde correu bem, e esfriou – quero dizer algo entre oito graus célsius.
Não tinha casaco. Fiquei com quase toda a roupa da Bárbara, a não ser pelos tênis e roupa íntima.
Consegui chegar na casa do meu pai inteira e sem me molhar, peguei dois ônibus – detalhe, com dinheiro emprestado da Bárbara. E mais uma vez, eu dando trabalho para os outros!
Notas finais
Mas eu volteeei *parei
Enfim, espero que gostem desse novo capítulo de "Recomeçar"..
Minhas sinceras desculpas pra Dani, que mandou muuitos reviews elogiando a fic e eu não respondi.
É que um trouxa fez com que me apaixonasse por ele e eu tava na maior deprê por causa dele essas semanas... E não tinha vontade de nada!!
Beijoss :***
Fale com o autor