Recomeçar
18 Capítulo 18
Notas iniciais
Como quem não queria nada, apenas o seu habitual chocolate quente, Henry se aproximou do balcão do Granny’s fingindo estar em uma ligação para não ser atendido por outra garçonete e se sentou em um banquinho. Ele encontrou em sua tia, uma forma de obter informações sobre os seus parentes e Fiona, então, para que tudo desse certo, ele não podia ser atendido por outra. Ao perceber que a jovem que provavelmente lhe atenderia seguiu para atender um homem sentado perto da entrada da lanchonete, encerrou a falsa ligação, guardou o celular no bolso e se escorou na bancada, entrelaçando as mãos uma na outra. Segundos depois, Kelly Miller West, como Zelena estava sendo chamada atualmente, aproximou-se com um lindo sorriso e simpatia. Expressão bem diferente do seu habitual quando Zelena Mills. Ele sorriu satisfeito.
— Ei, garoto! Já fez o seu pedido? — Retirou um pequeno caderno do bolso do avental e preparou sua caneta, coincidentemente, de tubo verde, retirada de seu decote.
— Na verdade, eu acabei de chegar aqui. — Fingiu pensar por uns segundos. — Vou querer um chocolate quente com bastante canela. — Respondeu, observando a mulher escrever com rapidez no papel.
— Essa coisa com canelas é de família? — Perguntou bem-humorada, arrancando o papel do bloco, guardando a caneta em seu decote novamente e pendurando o pedido na bancada da cozinha. — Uma de suas mães sempre pede com bastante canela também.
— Sim, é uma coisa de família. — Dá um sorrisinho. — Eu sou bem dividido, sabe? Em algumas coisas eu sou muito parecido com a minha mãe Emma, a loira, a que também pede o chocolate com canela. ― Kelly assentiu, entendendo de quem ele falava. — Em outras, eu me pareço bastante com a minha mãe Regina, a morena. — E então sua expressão se tornou pensativa, observando bem a mulher à sua frente. — Aliás, você me faz lembrar dela em alguns momentos. — Disse como quem não quer nada, com um sorrisinho, esperando qualquer reação suspeita da outra. Todavia, a mulher apenas sorriu como resposta, porém o ato não chegou aos seus olhos. Sua mente ainda estava processando o fato de o garoto ter duas mães enquanto ela não tinha sequer uma. ― Henry! ― Estende a mão para ela.
— Como você já sabe, Kelly! ― Aperta a mão dele e a balança. ― Deve ser muito legal ter duas mães, não? — Solta em tom melancólico. Henry lhe observa atentamente, sentando-se melhor na cadeira e apoiando-se ainda mais no balcão, esperando que ela continue a falar e conte sua história. Mas Kelly desvia o olhar e tenta se controlar para não ter que contar sua história para mais um estranho, porém falha miseravelmente e solta um alto suspiro em rendimento. — Meu pai disse que eu fui adotada, minha mãe me deixou na porta dele, no Kansas. — Soltou baixinho.
— E como veio parar aqui? — Perguntou rapidamente, no impulso.
Também no impulso, West lhe respondeu: — Alguns anos mais tarde, minha mãe deixou uma carta em nossa porta. Na frente dizia que era um presente. — Deu de ombros, franzindo o cenho, sem perceber que começava a contar coisas desnecessárias para responder à pergunta do garoto. — Havia uma breve explicação do porquê me deixou e dizia também que eu tinha uma irmã mais nova... — E então o olhar da ruiva se torna opaco, sem foco, perdido, indicando que ela havia se perdido em meio às lembranças. Henry desejou ter o poder de ler mentes naquele momento, para saber o que se passava na cabeça de sua tia. Será que, mesmo com outras lembranças, ela tinha raiva da mãe dele? Será que tinha inveja? Será que queria vingança? Suas indagações são interrompidas por uma garota trazendo o seu pedido, escorregando-o por cima do balcão até chegar em suas mãos. Com a movimentação, West também é trazida de volta para a realidade percebendo que não só tinha divagado, como também contou mais do que gostaria. Mas ela já devia estar acostumada. Sempre fazia isso. Não foi diferente com o seu marido e com Ruby, assim que os conheceu. — Uh, bem... — Sorriu sem graça. — Enquanto procurava minha mãe e irmã por aí, eu conheci e me casei com um homem que nasceu, cresceu e também morreu aqui. Robin era o nome dele. — Continuou falando, como se não tivesse acabado de contar detalhes da sua vida para um garoto desconhecido. — Viemos para cá porque ele queria ficar perto de sua família. Eu não tinha ninguém, apenas ele e a Margot, minha filha, então não fui contra a nossa mudança.
— Eu pensei que você tinha algo com a outra atendente, a Ruby. — Soltou, tentando sondar mais.
— Você é um pouco curioso, não acha?
— E você parece o tipo de pessoa que conta toda sua história para estranhos. — Rebateu afiado e viu a sobrancelha ruiva arquear-se. — Eu gosto de histórias. Gostaria de ouvir um pouco mais da sua. — A mulher suspirou, olhando para os lados, procurando uma desculpa para não cometer o erro mais uma vez. Mas o olhar atento e empolgado do garoto, era tão confortável, familiar e inocente, que ela não resistiu.
— Ruby e eu somos grandes amigas. Ela me deu uma força quando meu marido morreu. Além de ter feito a frente com sua avó para conseguir uma vaga aqui para mim, antes disso, quando estávamos na pior, eu e minha filha, ela levava comida e remédio para nós, ajudava-me a cuidar da casa e da Margot, e trazia sua alegria para nós. Principalmente nos dias mais frios. — Conta, perdida em pensamentos, com os olhos brilhando e um sorriso nos lábios. — Ruby era casada com Dorothy na época. Ela achava, e pensa até hoje, que temos algo a mais. — Deu um sorrisinho e balançou a cabeça negativamente, deixando o garoto intrigado. — Sabe? Eu gosto de pensar que Ruby é a irmã que eu procurava, assim não me sinto tão sozinha nesse mundo.
— Talvez ela possa estar mais perto do que você imagina. — Comentou casualmente, bebericando seu chocolate. — Às vezes, só é preciso prestar mais atenção ao seu redor. — Diz em tom de suspense.
— Eu não sei como é possível, mas você parece saber de alguma coisa que eu não sei. — Encara os olhos castanhos, jogando-se em cima da bancada e ficando bem próxima. — Você sabe, garoto? — Pergunta, intimidante.
— Oh, não! Eu não sei. — Rebate rapidamente, nervoso. — Eu... ― Kelly estreita o olhar. — Eu digo isso apenas por ver bastante em filmes.
— Cinéfilo? — Pergunta desconfiada.
— Talvez... — Sorri sem jeito.
A conversa tem uma pausa por alguns segundos, até West tornar a falar:
— Talvez você tenha razão. Talvez um dia eu a encontre, quem sabe, por aqui pela cidade... — Dá de ombros. De repente, o sino da porta toca indicando que alguém chegara. Uma mulher com duas crianças pequenas. Os dois olharam para a direção. — Gosto de imaginar como ela deve ser. Provavelmente ruiva como eu... — Henry balança a cabeça negativamente, fazendo uma careta, imaginando sua mãe ruiva. — Talvez morena? — Dá de ombros, e Henry balança a cabeça concordando. — Eu não sou boa em biologia, mas sei que não é muito possível eu ser ruiva e ela não.
— Exceto se você levar em consideração que não conheceu a sua mãe e seu pai biológicos.
— OK! Você está certo. — O garoto sorri vitorioso, tomando mais um gole do seu, não-tão-quente-agora, chocolate. — Talvez ela seja morena ou quem sabe loira... — Dá de ombros. O olhar perdido na mulher que acabara de entrar com as crianças. — Fico pensando se é alta, baixa, se é bonita como eu... — Passa a mão nos cabelos ruivos caídos por seu rosto. — Se é casada, se tem filhos, se é uma médica, uma advogada, uma professora, uma artista. Ou então, se é uma aventureira mochileira, quem sabe... — Os olhos azuis já brilhavam de emoção. — Talvez ela nem saiba que eu existo. — E então o jovem Mills percebeu que a mulher falava mais para si do que para ele. — Eu só queria tê-la por perto.
Percebendo o rumo que a conversa estava tomando, e querendo evitar que ela ficasse emotiva demais, resolveu mudar de assunto.
— Bem, como você já percebeu que eu sou muito curioso... — A ruiva riu, voltando sua atenção para ele. — Eu gostaria de te perguntar uma coisa... ― Kelly assentiu, ficando atenta. — Eu sou novo na cidade, minha mãe Regina, a morena, ajudou um homem, o Xerife, ele não estava muito bem para ir para casa. No caminho ele falou sobre filhos. Você sabe o que aconteceu?
— Um pouco... — West se aproximou mais do balcão e pediu para o garoto se aproximar ainda mais. — Muitos anos atrás, nem sei quantos, eles tiveram uma filha, falaram que era um bebê lindo, igual dos filmes, mas ela sumiu e nunca foi encontrada. Mais tarde, tiveram outro filho, um garoto dessa vez. Alguns dizem que o menino morreu no hospital, outros dizem que ele foi sequestrado quando saiam de lá, mas a mãe, Mary Margaret, afirma que o filho ainda está vivo. — Sussurra tudo perto do ouvido de Henry, que fica surpreso com as informações. — Pobre mulher... Depois disso o casamento que todos veneravam foi desmoronando. — Diz em tom de lamento. — Por isso, às vezes, o Xerife acaba passando dos limites com a bebida. — Henry abaixa a cabeça, triste. Não imaginava que seus avós estariam sofrendo tanto. Ao menos um de seus filhos estava por perto. Mas o outro, não fazia ideia de onde poderia estar. Poderia estar em qualquer lugar da cidade, ser qualquer criança. Não seria muito fácil encontrar seu tio Neal.
— Só mais uma pergunta... — Henry é interrompido pelo sino da porta tocando novamente.
— Eu preciso trabalhar, chegou mais um cliente. — Aponta discretamente com a cabeça, para uma jovem que acabara de entrar na lanchonete.
— Eu sei, mas vai ser rápido. — West assentiu. — Quem é a Prefeita da cidade? — Perguntou, esperando que ela pudesse lhe dizer muito mais que só “Fiona”.
— É a senhorita Fiona. Ela é Prefeita desde que eu cheguei na cidade. Mais alguma coisa?
— Não, obrigado! — Agradece um pouco decepcionado. Toma o resto do seu chocolate e se levanta. — Coloca o chocolate na conta do quarto, por favor. — Arrasta a caneca até a mão da ruiva. — Tenha um bom dia, Zele…
— Kelly. — Corrige-o, franzido o cenho.
— Isso! Kelly. — Corrige-se, sem graça e sai apressado, deixando a mulher curiosa. Mesmo já tendo escurecido, precisava vasculhar a cidade à procura de qualquer coisa que pudesse ajudar a encontrar o seu tio, o pequeno Neal, e precisava também, pensar em uma forma não complicada de unir sua mãe e Zelena novamente. Uma nova operação estava para começar.
•§•
Após várias horas fazendo inúmeras combinações de poções para se fortalecer mais e estar preparado para enfrentar a sua mãe, e vasculhar o seu passado e descobrir poucas informações significativas para a situação, como a sua história com uma poderosa fada chamada Tiger Lily, que a conhecia melhor que qualquer outro ser em todos os mundos, Gold saiu de sua loja com um destino certo. A Prefeitura. Estava determinado a vigiar Fiona para ver se conseguia descobrir alguma coisa do que ela estava planejando, antes de ir até Belle, Emma e Regina para contar o que descobriu.
Ao chegar em seu destino, não demorou muito para ver o seu alvo andando de um lado para o outro, sendo seguida por um homem que não conhecia. Poucos minutos depois, ela entrou no seu carro com o homem e seguiu pela cidade. Gold não perdeu tempo em segui-la discretamente.
Fiona seguiu direto para o convento, e assim que chegou ao local, estacionou o carro de qualquer jeito e logo entrou, sumindo das vistas de Gold, que não se abalou por perdê-la de vista, pois, conhecendo bem aquele local como só ele e as Fadas conheciam, esgueirou-se pelo jardim até uma enorme janela e logo conseguiu ter uma boa visão do que a mulher fazia do lado de dentro. Assim que ela entrou, conversou rapidamente com umas Fadas e logo a Fada Azul apareceu, fazendo as outras irem embora. Ao ver quem a mulher segurava nos braços, algo despertou em sua mente. Então, tendo conseguido o que queria, Gold se levantou e, do jeito que chegou, foi embora.
•§•
Gold entrou na Biblioteca da cidade e seguiu direto para a sessão de magias antigas e obscuras. Se a sua amada não estava em sua loja, ele sabia exatamente onde encontrá-la. Passou por algumas fileiras e a encontrou sentada em uma das mesas ao fundo, absorta em uma leitura.
— Belle? — Chamou-a, receoso por estar a interrompendo. Quando ela levantou a cabeça em sua direção, ele lhe sorriu brevemente, tendo outro sorriso como resposta e um tímido consentimento para falar. — Podemos conversar?
— Claro! — Puxou a cadeira ao seu lado.
— Não aqui. — O homem olhou ao redor, vendo outros frequentadores.
— O que aconteceu? — Belle perguntou, preocupada. — Aconteceu alguma coisa com Gideon?
— É sobre a minha adorável mãe. — Respondeu em tom baixo. Belle se levantou, guardou o livro que lia e pediu que o homem a acompanhasse. Conhecendo aquela Biblioteca como só ela conhecia, Belle o levou para uma salinha pouco conhecida, mais ao fundo, que sabia bem que não seriam incomodados ou ouvidos por quem não deveria. Na sala, havia apenas algumas mesas e uns livros antigos e empoeirados. Livros pouco procurados ou totalmente rejeitados pelos leitores.
— Aqui podemos conversar melhor. — A mulher fechou a porta com cuidado e se sentou em uma das mesas. — O que você descobriu? — Apontou para outra mesa, pedindo que o homem se sentasse, mas ele negou, preferindo ficar em pé, apoiado em sua bengala de ouro.
— Precisamos encontrar Tiger Lily. Ela a conhece melhor do que qualquer livro que conte a história dela ou qualquer pessoa em todos os Reinos e poderá nos ajudar a derrotá-la.
— E você sabe onde a encontramos?
— Há duas pessoas por aqui que a conhecem e podem responder essa pergunta.
— Quem? — Perguntou com os olhos brilhando. Seu coração se enchendo de esperança de que tudo aquilo finalmente acabaria e ela poderia ficar com seu filho e recuperar o tempo perdido.
— A Fada Azul e o nosso querido Capitão Gancho.
— Então vamos atrás deles. Não podemos perder tempo. — Belle se levantou em um pulo e seguiu em direção a porta, mas antes de chegar, foi impedida pela mão de Gold a segurando.
— Tem mais uma coisa, Belle.
— O que? — Franziu o cenho.
— Talvez Killian não se lembre de nós e a Fada Azul está sob os comandos da Fada Negra, presa no convento. — Falou em um tom mais baixo, baixando a cabeça. — E ainda não tenho total certeza, mas acho que a minha querida mãe está planejando voltar no passado.
— O que o faz pensar isso? ― Seus olhos verdes denotaram o medo que se apoderou do seu corpo no momento. Sua mente rapidamente a lembrou dos planos de Zelena.
― Antes de vir para cá eu a vigiei por alguns minutos na Prefeitura. Depois ela foi para o convento e eu a segui. Quando ela se encontrou com a Fada Azul, o filho dos Encantados estava em seus braços.
― O Neal está nas mãos dela? Precisamos contar para...
― Belle, não! ― Gold a interrompeu com firmeza. Belle franziu o cenho, confusa. ― Se Emma souber que o irmão dela está com a Fada Negra, ela pode fazer alguma besteira para tentar recuperá-lo e pode acabar nos trazendo mais problemas. Então, infelizmente, é melhor que ela não saiba.
A morena ficou em silêncio, pensando na justificava do homem. Não era certo que o pequeno Encantado ficasse nas mãos de Fiona, mas ele estava certo sobre a possibilidade de Emma tentar recuperá-lo e fazer alguma besteira que pudesse atrapalhá-los na derrota de Fiona.
― Você tem razão... ― Com um pequeno sorriso, ele a agradece por o compreender e ficar ao seu lado. ― Mas então, o que será que ela pretende, querendo voltar no passado? Você tem alguma suspeita?
— Não, mas eu não quero esperar ela conseguir o que quer, para descobrir. Precisamos encontrar Tiger Lily com ou sem a ajuda deles. — Belle assentiu sem pestanejar. — Vamos jantar e depois procuraremos Emma e Regina. — E então soltou o braço da mulher e seguiu para a saída, sendo rapidamente acompanhando pela outra.
•§•
Do outro lado da cidade, nas docas de Storybrooke, diferindo com a tranquilidade e a paz que o som do mar e dos animais marinhos faziam e traziam para quem os escutasse, estava Killian Jones, bebendo sua terceira garrafa de rum, com seu coração acelerado, machucado e enraivecido, e sua alma agitada e dolorida. Em sua mente, trechos da conversa que tivera com Emma, eram responsáveis por tirar sua paz.
“— Ela está bem longe de ser um animal disfarçado de humano.”
“— Regina? Vocês estão juntas?”
“— Ela era minha vizinha lá no prédio. Henry a adorou assim que a viu pela primeira vez, quando ela se mudou. Ele se tornou muito amigo dela e eu acabei me aproximando também e...”
— Você está casada com Regina Mills? — Indagou em alto tom, como se Emma pudesse lhe ouvir, ou como se isso fosse fazê-lo acreditar de fato, na realidade. — A Salvadora está casada com a Rainha Má? — Indagou-se incrédulo. Deu uma risada irônica, balançando a cabeça negativamente e fechou os olhos. — Se bem que, Capitão Gancho também não era uma escolha boa, julgando pelo meu passado não muito bom, assim como o dela. — Falou baixinho e deu uma risadinha. — Mas, pelo menos eu não fui culpado por separá-la da família por 28 anos. — Tomou mais um golo do líquido puro, sentindo-o queimar na garganta.
“— Você queria acordar?”
— Eu viajei entre Reinos, quase fui morto... — Sussurrou, lágrimas descendo por seu rosto. Uma chuva fina começou a cair, molhando-o e tornando a cena ainda mais melancólica. — E você está com outra pessoa... — Balançou a cabeça negativamente. Sentindo a raiva lhe consumir ainda mais, levantou-se do baú, correu até a proa do navio, e usando toda a sua força, jogou a garrafa da bebida no chão, escutando-a se espatifar. Em seguida, olhou para o horizonte escuro com poucas estrelas no céu e gritou. Gritou o mais alto que podia. Gritou, na esperança de sentir alívio em sua alma. Gritou, com a esperança de que sua dor iria embora. Gritou, na esperança de que tudo aquilo fosse um pesadelo e na manhã seguinte, ele estaria ao lado de Emma Swan. Todavia, o que Killian Jones não sabia, era que, enquanto pensasse e agisse de forma egoísta, jamais conseguiria ter o que queria. Exceto Emma Swan. Essa ele já havia perdido há muito tempo.
•§•
Era uma tranquila e fria noite em Storybrooke. Após o jantar entre Emma e Regina apenas, pois Henry tinha saído depois da conversa com Kelly, não tinha voltado ainda e mandou só uma mensagem para as mães dizendo que jantaria depois, Regina ainda tentou saber o motivo, mas ele não respondeu mais, Emma convidou Regina para caminharem um pouco por alguns pontos da cidade, e agora andavam tranquilamente pela rua Mifflin, quando Mills avistou a mansão de Nº 108, sua antiga moradia, e parou seus passos.
— O que aconteceu? — Emma perguntou, não entendendo sua repentina parada.
— Faz tanto tempo... — Disse simplesmente, olhando intensamente para a mansão. Emma direcionou sua cabeça para onde a mulher olhava e então entendeu do que ela falava.
— Podemos ir lá se você quiser. — Ofereceu, animada.
— É bastante arriscado, Emma. — Balançou a cabeça negativamente e retomou seus passos. — Fiona pode nos ver e... — Interrompeu-se ao sentir seu braço ser segurado e puxado na direção contrária a que seguia. — O que está fazendo? — Franziu o cenho, vendo a loira lhe levar na direção do portão da mansão.
— Está escuro. Não deve ter ninguém aí. Sem falar que, você provavelmente deve conhecer algum lugar nesse jardim que permita nos esconder sem correr riscos, caso alguém apareça. — Regina interrompeu seus passos novamente, pensando a respeito do que ouvira. Estava prestes a negar a ideia quando viu o sorriso e o olhar pidão da loira, ambos sempre usados em momentos estratégicos. Revirou os olhos, causando sorrisos em Emma, e enfim cedeu ao seu pedido.
Caminharam, de mãos dadas, pelo caminho de cimento que dava na porta da mansão, mas na metade dele, passaram para a grama e seguiram até a macieira.
— Eu tenho essa macieira desde jovem, foi a única coisa que minha mãe não tirou de mim. — Mills diz melancólica, tocando no grosso tronco da árvore.
— Eu sinto muito por um dia tê-la cortado... — Emma se aproxima devagar, com suas mãos enfiadas no bolso da calça. Regina a olha surpresa por ela tocar nesse assunto. Já fazia tanto tempo e já haviam passado por tanta coisa desde que Emma chegou à cidade, anos atrás. — Eu sabia da importância para você. — Confessa em um tom mais baixo. — Mas você tinha me ferido. Então, eu só quis ferir você também.
— Sabe? Eu não gostei do que você fez, fiquei bastante irritada quando a vi com a serra elétrica apontada para ela, mas também não me orgulho do que fiz. Eu joguei baixo com você, Emma. — Disse sincera, encostando-se no tronco da macieira e olhando para o céu.
— Mas eu te entendo, afinal. — Rebate, repetindo os movimentos da morena e se encostando na árvore. “Você sempre me entende” Regina pensou, encarando-a. — Você tinha medo de que eu tirasse o Henry de você. Eu também ficaria com medo se a mãe biológica do meu filho aparecesse na cidade, ameaçando nossa relação. Eu só não faria o que você fez.
— Eu estava desesperada. Henry era tudo o que eu tinha. — Sussurrou, desviando o olhar para o chão. — Eu faria, e ainda faço, tudo pelo nosso filho.
— Nosso filho... — Repete. — Soa ainda melhor agora, com as nossas reais lembranças do nosso passado. — Regina a encara por breves segundos. — Regina... — A morena a encara novamente, já imaginando sobre o que ela falaria.
— Eu tenho medo. — Confessou antes que Emma continuasse. — Emma... — Suspira, segurando a emoção que lhe acometeu. — Eu tenho medo do que seus pais farão. Eles não aceitarão que a filha deles tenha um relacionamento amoroso com a pessoa responsável por separá-los por 28 anos, a pessoa que passou anos tentando matá-los, a pessoa responsável por incontáveis mortes em nome de uma vingança, a pessoa responsável por amaldiçoar um Reino inteiro por causal de uma vingança contra uma única pessoa...
— Não são eles que têm de decidir com quem eu fico ou deixo de ficar. — Falou séria, interrompendo-a. Desencostou-se da árvore e ficou em frente à mulher. — Eu conheço você. — Olhou fundo nos olhos castanhos e brilhantes. — Eu acredito em você, Regina. — Reafirmou o que dissera tantas outras vezes, aquecendo, como sempre, o coração da mulher. — Sei, há bastante tempo, que a pessoa que fez tudo isso que acabou de citar, era quem você era, e não quem você é hoje. — Mills desvia o olhar e Emma toca em seu rosto, trazendo sua atenção para si novamente. — Eu te aceito com toda a bagagem que você carrega. Eu te aceito como você é. Isso é o que importa. — Deixa claro. — Eu decido com quem eu me relaciono, e eu escolhi você, Regina Swan Mills. — Diz com convicção, não desviando um segundo dos seus castanhos.
— Você escolheu quando não sabia quem eu era de verdade. Escolheu quando não lembrava do passado. — Sua voz já estava embargada. Não aguentaria segurar a vontade de chorar por muito tempo.
— E estou escolhendo agora, novamente, sabendo exatamente quem você foi, e quem você é. — Rebate sem pensar duas vezes.
— E quanto ao pirata? Eu sei que você disse que não me trocaria por ele, mas as coisas mudam. — Faz uma breve pausa e respira fundo. — E se você se arrepender da escolha que fez? Se você perceber que é com ele que você quer passar o resto da sua vida?
— Você escutou... — Sussurrou afirmativamente, mas a morena assentiu. — Isso não vai acontecer... — Diz com firmeza. — Sabe por quê? — Apesar da pergunta ser retórica, Regina balança a cabeça negativamente, respondendo. — Eu já estava apaixonada por você muito antes. — Confessa, pegando Regina de surpresa. — Eu já havia feito a minha escolha muito antes disso tudo. — E mais uma vez no dia, o coração da morena se acelera com uma confissão de Emma. — O que eu vivia com o Killian? Era fachada. Apesar de por um tempo eu ter realmente acreditado que o amava. Eu só queria mesmo, era ter alguém ao meu lado. Não queria mais ficar sozinha. — Confessa. — Eu não tinha certeza sobre os seus sentimentos por mim, e tinha também o Robin, ele era o seu amor e...
— Um pó de fada não decide com quem eu vou passar o resto da minha vida. — Interrompe, falando com firmeza. — Ele apenas mostra possibilidades. — Deixa claro não só para Emma, mas para ela, que por tanto tempo acreditou veemente em algo errôneo. — Eu decido quem eu quero ao meu lado até o fim dos meus dias. — Acrescenta. Na verdade, ela falava aquilo mais para si do que para Emma. — Eu gostava do Robin, mas não era com ele que eu gostaria de passar o resto da minha vida.
— E com quem vo...
— Não era só você que já estava apaixonada por mim muito antes disso tudo acontecer. — Interrompe-a, desviando o olhar rapidamente dos verdes, nervosa por estar confessando aquilo em voz alta, não só para ela, mas para Emma também.
— Você...? — Emma não termina a pergunta. Havia perdido momentaneamente a fala. A surpresa havia a afetado. Estava tentando assimilar a nova informação. Não estava acreditando no que ouvia. Regina também era apaixonada por ela? Mills abre um sorrisinho acanhado, sentindo suas bochechas queimarem e assente, mesmo a loira não tendo terminado de perguntar. — Não acredito que foi preciso uma maldição para você me dizer isso... — Emma sussurra, recuperando a fala e se aproximando mais, encurralando-a entre ela e o tronco da macieira, que estava sendo palco de algo muito importante.
— Eu digo o mesmo para você, Srta. Swan. — Sussurra de volta, arqueando a sobrancelha.
— Mills... — Corrigiu-a e Regina revirou os olhos. — Senhora, não senhorita, Swan Mills. — Sussurra, olhando fixamente para os lábios tão bem pintados de vermelho, mas que se dependesse dela, não estariam assim por muito mais tempo.
— Ainda não acredito que deixei você colocar seu nome primeiro. — Diz bem-humorada apesar de estar bem séria.
— Você estava apaixonada. É uma boa desculpa. — Rebateu dando de ombros e sorrindo.
— Eu ainda estou... — Rebate sem pensar duas vezes, pegando Emma de surpresa mais uma vez.
— Você ainda está? Apaixonada por mim? — Questiona, ainda incrédula. Tinha medo de que tudo não passasse de um lindo sonho. — Acho que eu preciso de um beliscão para ver se não é mesmo um sonho. — Deixa escapar seus pensamentos.
— Emma, às vezes você é uma idiota. — Murmura rindo. Segundos depois, toma os lábios da loira com os seus, em um selinho demorado, sentindo o seu coração acelerar gradativamente. Jamais se imaginou iniciando um beijo. Mas, ao não sentir resposta de Emma, Regina se afasta, abrindo os olhos e suspirando pesadamente. Todavia, antes que pudesse se afastar totalmente, Emma abre os olhos também, e pegando-a de surpresa, puxa-a para junto de si, colando seus lábios em um beijo urgente, cheio de paixão e saudade.
Sem sutilezas, as mãos de Regina puxam a jaqueta vermelha de Emma, colando mais seus corpos, e devagar, Swan a empurra até senti-la se encostar totalmente no tronco, aprofundando o beijo, enfiando seus dedos pelos cabelos curtos e trazendo-a ainda mais para perto, sentindo suas línguas se tocarem em busca de mais contato, em busca de dominância, escutando ambas as respirações pesadas, deleitando-se com o gosto doce dos lábios da amada, que por tanto tempo sentiu falta, embriagando-se com o cheiro de íris, jasmim, rosa e baunilha do shalimar que lhe deu no último aniversário e apaixonando-se ainda mais pelo perfeito encaixe de suas bocas.
— Você não precisa mais ter medo. — Emma sussurra segundos depois, quebrando o contato, ainda de olhos fechados, testas coladas e narizes se acariciando. — Você pode ser feliz, só precisa se permitir ser. Eu e Henry estamos aqui. Somos uma família. — Beija os lábios não tão mais bem pintados de vermelho. — Estávamos felizes antes, e quando tudo isso acabar podemos voltar a ser novamente. Podemos continuar de onde paramos, ou então, podemos recomeçar. — Finaliza, voltando a beijá-la intensamente.
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