Recomeço
8 Capítulo 8 - Rumo a um caso sobrenatural
Notas iniciais
Estava entardecendo e Mia dirigia o Mustang velozmente por uma estrada deserta em direção ao estado do Tennessee. Como sempre, Dean havia a ultrapassado. Aliás, ele e Natalie já deviam estar quase chegando ao destino pretendido, a cidade de Memphis. Mas Mia não estava mais preocupada com aquela disputa idiota. A verdade é que ela sentia-se leve e feliz porque finalmente havia conseguido controlar a sua vampira interior e não sentia mais vontade de morder Castiel. Pelo menos, não com a intenção de machucá-lo...
Ao pensar nisso, a garota sorriu levemente e aumentou o volume do rádio enquanto Vincent ronronava no banco de trás e Castiel a observava com uma expressão serena e apaixonada.
E embora Castiel fosse humano agora e, por isso, precisasse variar as roupas que vestia, naquele dia, depois daquele inesquecível banho de chuveiro com Mia, ele resolveu vestir o sobretudo. Então, de vez em quando, a garota lhe dava uma rápida olhada. Isso porque Mia simplesmente adorava quando Castiel vestia aquela peça de roupa. Não era exagero afirmar que aquele sobretudo era quase como uma extensão dele, como uma parte dele. E trazia muitas lembranças à Mia. Quando Castiel apareceu no seu quarto, há alguns meses, por exemplo, a primeira coisa que chamou a sua atenção foi aquele bendito sobretudo. Além é claro, dos belos e expressivos olhos azuis. E o jeito meio sem noção também.
Ao relembrar essas coisas, Mia riu mais uma vez. Em seguida tomou fôlego e começou a cantar a música que tocava no rádio. Era Fire do Babyface. E a cada verso, Mia olhava sugestivamente para Castiel que estava começando a achar aquilo muito interessante.
– Late at night, you're taking me home. You say you wanna stay, but I want you to go. I say I don't love you, but you know I'm a liar. 'Cause when we kiss... Ooh...Fire...
Animada e envolvida pelas coisas que a letra da música insinuava, Mia bateu no volante algumas vezes simulando um instrumento musical não identificado e balançou um pouco os ombros e a cabeça como se fosse uma estrela da música e estivesse fazendo uma performance no palco naquele exato momento. Em outras palavras, Mia estava dançando e cantando muito empolgada enquanto revezava a atenção entre a estrada, a música e o belo e adorável homem ao seu lado.
– Você está feliz. — observou ele a olhando com carinho.
Então Mia parou de cantar e respondeu:
– É claro que eu estou! Eu tenho um carro, eu tenho armas, eu tenho você, anjo, eu tenho um animal de estimação e eu sou imortal. O que mais uma garota pode querer?
Neste momento, os seus olhares se encontraram por um breve instante e Castiel deu um leve e sugestivo sorriso para ela. E ele não precisou dizer mais nada porque Mia havia entendido perfeitamente "o que mais uma garota poderia querer". Então de repente, e para surpresa de Castiel, ela desviou da estrada bruscamente, passou pelo acostamento e parou o Mustang na beira da estrada próximo a uma árvore.
– Mia, o que você está fazendo? — perguntou ele um pouco confuso enquanto a garota simplesmente tirava o cinto de segurança e partia pra cima dele.
– Você é inteligente, anjo. Sabe muito bem o que eu estou fazendo... — insinuou Mia devolvendo a provocação feita por ele mais cedo.
Antes que pudesse argumentar, Castiel fechou os olhos ao sentir os lábios macios e quentes da garota contra os seus. Por um lado, estava um pouco assustado com a atitude impulsiva de Mia, mas, por outro, sabia que não conseguiria resistir a ela. Não que ele quisesse resistir. Só não achava aquele lugar e aquele momento os mais apropriados para o que Mia parecia estar planejando. Então, quando a garota afastou um pouco o rosto do seu, Castiel aproveitou e perguntou preocupado:
– E se aparecer alguém?
Mia tirou o cinto de segurança de Castiel, reclinou um pouco o banco para trás e se posicionou melhor em cima dele antes de responder:
– Eu faço o infeliz dar meia volta. Não se preocupe.
Após dizer isso, Mia o beijou de novo e começou a tirar a gravata e abrir os primeiros botões da camisa que ele usava. Entre um beijo e outro, Castiel tentou dizer:
– Mia... Nós não devíamos... Fazer... Isso... Aqui...
– Ah! E nós devíamos ter feito no chuveiro? — devolveu ela tirando o sobretudo dele e jogando no banco detrás em cima de Vincent — Acho que não... E, no entanto, lá estava você, lindo e nu, praticamente me atacando enquanto eu tentava tomar um simples banho depois de uma noite mal dormida. — acrescentou ela tirando a blusa que vestia e deixando à mostra o sutiã branco e delicado que usava por baixo.
Castiel a olhou um tanto zonzo e encantado. Acabou lembrando do ocorrido naquela manhã e então disse com certa presunção:
– Praticamente te atacando? Você que estava praticamente me implorando pra tomar uma atitude como aquela. Aliás, se não fosse por mim, nós dois ainda estaríamos naquela situação... Subindo pelas paredes.
Ao ouvir isso, Mia riu e bateu no ombro de Castiel antes de repreendê-lo:
– Convencido! — e após um breve momento de silêncio em que os dois se encararam, ela insinuou — Parece que agora é a minha vez de atacar você, Cas.
– Mia... — começou a dizer ele, mas a garota o impediu de continuar, colocando o dedo indicador sobre os seus lábios.
– Cala a boca, anjo. Foi você que sugeriu. Agora aguenta... — ordenou ela e em seguida se aproximou novamente e tocou os lábios de Castiel suavemente o envolvendo com um beijo doce e quente ao mesmo tempo.
E desta vez, Mia parecia não ter pressa de conseguir o que queria. O que os dois queriam, aliás. E involuntariamente, Castiel acariciou as costas nuas da garota e a segurando firmemente pelos cabelos da nuca, ele a trouxe para mais perto do seu corpo que ansiava ardentemente pelo dela.
– Que se dane... — murmurou ele se dando por vencido e a envolvendo novamente em seus braços.
Após se desvencilhar do sobretudo, Vincent olhou para o casal um pouco desconfiado. Em seguida pulou a janela e foi se refugiar em cima de uma árvore a alguns metros do Mustang.
A alguns quilômetros à frente, Dean ligou o rádio do Impala e passou rapidamente pela mesma estação que tocava a música que naquele momento embalava o namoro de Mia e Castiel na beira da estrada. O Winchester ergueu uma sobrancelha e olhou discretamente para a loira ao seu lado e em seguida mudou para uma estação de rock. Então começou a tocar Highway to Hell do AC/DC e Natalie se mexeu um pouco no banco e olhou pela janela.
– Algum problema com a música? — perguntou ele ao perceber que Natalie parecia um pouco incomodada.
Ela o olhou sem entender direito a pergunta e depois olhou para o rádio. Quando percebeu o mal entendido, ela fez questão de esclarecer:
– Oh! Não! Claro que não. Eu amo rock e sou simplesmente louca pelo AC/DC, mas... É que essa música me faz lembrar dos CDs que eu deixei no meu bebê.
Dean franziu a testa e repetiu confuso:
– Seu bebê?
– Meu Camaro. — explicou ela fazendo Dean franzir a testa novamente e em seguida olhar para a estrada enquanto percebia certa semelhança entre ele e Natalie — Eu só espero que o seu irmão cuide bem do meu bebê e não se atreva a mexer nos meus CDs durante a viagem. Muito menos nos do Led Zeppelin. Se ele fizer isso, Sam Winchester será um homem morto. Pode apostar. — acrescentou ela em tom ameaçador enquanto Dean a observava mais uma vez e ainda mais intrigado — O quê? — indagou Natalie ao perceber que estava sendo observada.
– Nada. — respondeu Dean prontamente voltando a se concentrar na direção — É só que... Você não é tão idiota como eu havia imaginado. — confessou ele evitando olhar para Natalie e mantendo os olhos na estrada.
Ela o observou por alguns instantes e em seguida deu de ombros e disse:
– Ok, eu vou encarar isso como um elogio.
Depois disso, Natalie virou a cabeça para o lado e se concentrou na paisagem do lado de fora. E após alguns instantes em silêncio, Dean abaixou um pouco o volume do rádio e indagou:
– Posso te perguntar uma coisa?
A garota o olhou de canto e respondeu com um sorriso cínico depois de fingir que estava pensando:
– Não.
Ignorando a resposta da garota e querendo descobrir de onde a conhecia, Dean resolveu arriscar e perguntou:
– Como você se tornou caçadora?
– Eu disse não, Dean. — lembrou Natalie de forma seca e em seguida olhou novamente para o lado de fora.
– Ótimo papo... — resmungou ele em tom de ironia.
Ao ouvir isso, Natalie revirou os olhos, se virou um pouco na direção de Dean e esclareceu um tanto irritada:
– Olha, não é porque nós estamos no mesmo carro, viajando juntos, que necessariamente temos que trocar confidências e virarmos amigos de infância. Além disso, você deixou bem claro que não confia em mim, que acha que eu estou mentindo e até que eu estou trabalhando com demônios! Então, por favor, não me peça para falar sobre o meu passado porque provavelmente você vai achar que eu estou mentindo sobre ele também e isso é um saco!
Dean pensou um pouco e resolveu arriscar novamente:
– E se eu te disser que desta vez eu vou acreditar? Ou que pelo menos eu quero acreditar em você?
– Então, eu vou te dizer que eu não quero falar sobre o meu passado. — esquivou-se ela.
– Por que não? — insistiu Dean mais uma vez e no instante em que encontrou o olhar de Natalie teve certeza de que conhecia a garota de algum lugar.
Natalie o encarava confusa. Não entendia o súbito interesse de Dean em seu passado. Com certeza, ele ainda estava desconfiado dela. Mas passar o tempo todo tentando provar que estava sendo sincera, estava começando a cansá-la. Quando Dean voltou a olhar para a estrada, Natalie perguntou:
– Por quê?
– Por que o quê? — indagou ele confuso.
– Por que eu deveria falar sobre a minha vida particular com você? — perguntou Natalie e como Dean se calou, ela resolveu insistir — Anda, Dean. Me dê um bom motivo para contar e eu prometo que vou pensar no seu caso. Por que você está tão interessado no meu passado?
– Por nada. — mentiu ele sem querer dizer o real motivo e parecer ridículo.
Natalie revirou os olhos e encostou as costas no banco antes de resmungar:
– Ótimo papo.
No entanto, a curiosidade de Dean em relação àquela sensação que tinha toda vez que estava perto de Natalie falou mais alto. Ele precisava descobrir de onde a conhecia. Precisava entender quem era aquela garota no banco ao seu lado. Então, ele resolveu retomar o assunto, mas acabou hesitando:
– Digamos que eu... Que eu... Digamos que... Digamos que eu...
– Ok, eu já entendi essa parte, Dean. — interrompeu Natalie voltando a olhá-lo — Digamos que eu o quê?
Dean respirou fundo e resolveu dizer de uma vez:
– Digamos que eu tenho a estranha sensação de te conhecer de algum lugar. Então, por favor, apenas responda a pergunta. Eu conheço?
Durante alguns instantes, Natalie apenas observou Dean e inclinou um pouco a cabeça para o lado enquanto o encarava. Em seguida, e já arrependido por ter feito aquela pergunta, o Winchester notou um sorriso discreto se formando nos lábios de Natalie, até que ela riu de vez e indagou surpresa:
– Isso é algum tipo de cantada?
– O quê?! — surpreendeu-se ele a olhando com desdém.
– Porque se for, saiba que você não faz o meu tipo, Dean Winchester. — desdenhou a loira.
– Pois saiba que a recíproca é verdadeira. — devolveu Dean também com desdém.
Natalie parou um pouco de rir e sugeriu:
– Quem sabe dos seus sonhos?
– Você quer dizer, pesadelos? — provocou ele.
Um pouco irritada, Natalie respirou fundo e finalmente resolveu responder a pergunta dele:
– Não. Nós não nos conhecemos, Dean. Eu acho que me lembraria de um cara tão idiota e convencido como você.
– Obrigado! Era só isso que eu precisava saber. Custava responder a droga da pergunta desde o começo? — resmungou ele também irritado.
Então Natalie parou e lembrou de algo. Em seguida, perguntou cheia de si:
– Espera um pouco. Foi por isso que o Sam me chamou de "a loira do déjà vu"? Você falou de mim para o seu irmão? Eu te impressionei tanto assim, Dean? A ponto de você achar que já me conhecia? Awesome!
Ao ouvir isso, especialmente a última palavra dita por Natalie, Dean a olhou espantado. Como era possível que alguém tão insuportável fosse, ao mesmo tempo, tão parecida com ele? Como se fosse sua... Alma gêmea...
Imediatamente, Dean afastou esse pensamento. Sam estava certo, ele estava conversando demais com a Mia. Então ele aumentou o volume do rádio até o máximo. Com isso, Natalie tampou os ouvidos com as mãos e reclamou aos gritos:
– O que você está fazendo? Eu gosto do AC/DC, mas desse jeito você vai me deixar surda!
– Oh! Essa é a minha intenção, querida! Eu ouvi dizer que os surdos deixam de falar porque não conseguem ouvir o som da própria voz. Isso sim seria awesome! Um mundo em que eu não tivesse que ouvir o som irritante da sua voz! — provocou Dean.
Natalie tirou as mãos dos ouvidos e suspirou perplexa. Depois cruzou os braços e se concentrou na paisagem de novo tentando esquecer a raiva que sentia.
Dean Winchester era o cara mais insuportável que ela já havia conhecido. E se já o conhecia de antes do bar, com certeza fez questão de esquecer. A única coisa que a consolava era saber que quando toda aquela busca por Ezekiel terminasse, ela não ia precisar ver aquele caçador idiota nunca mais. Não queria vê-lo nunca mais! Pelo menos, era nisso que Natalie acreditava naquele momento.
Enquanto isso, em St. Louis, Claire estava no meio de uma aula de defesa pessoal em uma academia que ficava no centro da cidade. Ela vestia uma calça preta e uma blusinha cinza que ficava justa no seu belo corpo.
A garota mantinha os longos cabelos acobreados presos em um rabo de cavalo enquanto lutava com o professor. Mas, embora se esforçasse ao máximo para render o seu mestre, era ela que sempre acabava sendo derrubada e imobilizada por ele.
Perdeu as contas de quantas vezes, bateu com o punho no chão para indicar que ele havia vencido mais uma vez e para que a luta recomeçasse.
– Foco, Claire. — aconselhou o treinador, em pé de frente pra ela — Lembre-se do que te trouxe até aqui. Lembre-se da sua motivação. Por que você escolheu lutar, Claire?
– Porque eu cansei de me esconder atrás da imagem da garota frágil. Eu cansei de ser frágil. De sentir medo. De ficar assustada, apavorada... Eu quero ter controle sobre mim mesma. Eu quero me defender dos meus inimigos quando eles tiverem a péssima ideia de me atacarem de novo. Mais do que isso, eu quero vencê-los desta vez. — respondeu ela convicta de cada palavra.
– Então me mostre o que você pode fazer. — desafiou o professor a chamando para mais uma luta.
Então Claire deu alguns passos a frente e os dois recomeçaram. E completamente focada desta vez, a garota finalmente conseguiu virar o jogo a seu favor e surpreendeu o seu mestre, ao derrubá-lo e imobilizá-lo no chão rapidamente.
Claire abriu um enorme sorriso de vitória e o treinador bateu a mão no chão. Ele estava satisfeito por ter perdido aquela luta porque significava que a aluna havia aprendido a lição.
– Muito bem, Claire. — parabenizou ele enquanto se levantava — Te vejo amanhã?
– Com certeza. — afirmou ela sentindo um grande orgulho de si mesma.
Então o professor se afastou e saiu da sala, deixando Claire sozinha no lugar. Em seguida, a garota caminhou até um banco onde havia deixado a sua mochila e tirou uma toalha de dentro dela. Secou um pouco o rosto e depois pegou um squeeze com água e tomou alguns goles. Fechou os olhos enquanto bebia mais um pouco, mas os abriu imediatamente quando percebeu que as luzes da sala começaram a piscar de repente. Então Claire olhou em volta procurando algo ou alguém sobrenatural que justificasse o que estava acontecendo com as lâmpadas. Seu coração acelerava a cada instante em que o silêncio perdurava e as luzes continuavam piscando. Mas desta vez, ela prometeu para si mesma que não deixaria o medo dominá-la.
– Quem está aí? — indagou ela enquanto mantinha os olhos fixos na porta.
Então Claire ouviu passos. Viu uma sombra se aproximando da entrada. Ficou ainda mais apreensiva, mas conseguiu controlar o medo. Não deixaria que nada sobrenatural a assustasse de novo. Nada nem ninguém iria machucá-la.
Ela prometia essas coisas para si mesma, quando um rapaz, vestindo um macacão azul e trazendo uma enorme escada e um pequena maleta, apareceu na porta. E ao perceber que a garota estava visivelmente tensa, ele explicou:
– Desculpe, eu não quis assustá-la. Mas me pediram para trocar algumas lâmpadas. Elas estão com defeito.
Claire suspirou e relaxou um pouco. Sentiu-se estúpida e paranoica demais. Riu levemente de si mesma e em seguida pegou a mochila e saiu da sala sorrindo constrangida para o eletricista. Mas ao chegar no corredor, ela acabou se assustando de verdade com alguém que vinha na direção oposta e os dois se esbarraram em cheio. Ao olhar para o rosto conhecido bem na sua frente, Claire não conseguiu disfarçar a surpresa e indagou confusa:
– David? O que você está fazendo aqui?
O homem de aproximadamente trinta anos, rosto anguloso e cabelos escuros, a encarou, sorriu levemente e repreendeu:
– Isso é jeito de falar com o seu noivo?
Claire passou a mão pelo pescoço visivelmente incomodada com aquele encontro e instantes depois, esclareceu:
– Você quis dizer, ex-noivo.
Desta vez, foi David que pareceu incomodado. Desde que Claire rompeu o relacionamento com ele, há quase dois meses, os dois não haviam se visto mais. No entanto, David nunca conseguiu entender por que Claire tomou aquela decisão. Muito menos se conformou com o fim do noivado.
– Nós precisamos conversar. — anunciou ele.
Enquanto isso, Sam parava em uma lanchonete em Indiana. Passava das cinco horas da tarde e ele resolveu comer alguma antes de retomar a viagem. Mais algumas horas na estrada e logo chegaria em St. Louis. Lá, procuraria um hotel para descansar um pouco e depois iria procurar por Claire Davis.
Mas Sam não estava nenhum pouco satisfeito com esta última etapa da viagem. No fundo, torcia para que Claire fosse mesmo uma invenção de Natalie, ou para que pelo menos, ela não odiasse caçadores como a loira fez questão de deixar claro. Então decidiu que seria frio com ela, que não lhe daria qualquer chance de expor a sua antipatia por caçadores e que deixaria bem claro que não dava a mínima para a opinião dela.
Se Claire existia mesmo, devia ser uma garota fútil, prepotente e incapaz de entender o que levava uma pessoa a entrar para aquele negócio de caçar coisas e salvar pessoas. Quem ela pensava que era? Não se pode simplesmente odiar alguém por precisar fazer isso ou por querer vingança por alguma tragédia ocorrida na família. Uma tragédia que sempre envolvia o sobrenatural.
Foi uma tragédia assim, que levou o seu pai para aquela vida. Foi por causa de Mary que tudo começou. O que John deveria ter feito? Aceitado e esquecido o que aconteceu com a esposa só para não desagradar pessoas como Claire que não se envolviam com caçadores? Que não gostavam de caçadores? Que odiavam caçadores?
Sam balançou a cabeça afastando aqueles pensamentos, tomou um pouco de café, mexeu no notebook e resolveu parar de pensar naquela garota que ele nem sabia se existia de verdade. Por um momento, torceu para que Dean estivesse certo e para que Natalie fosse mesmo uma mentirosa. Era mais fácil lidar com isso do que com alguém que não entendia o que era ser um caçador e toda a dor e sofrimento que aquela vida envolvia.
Enquanto isso, Dean e Natalie chegaram em Memphis e pararam em um hotel para trocarem de roupa. Momentos depois, os dois saíram de seus respectivos quartos vestindo roupas sociais. Dean estava com um terno preto, usava uma gravata grafite, uma calça também preta e uma camisa branca por baixo. Natalie vestia uma calça risca de giz de um tom cinza bem escuro, uma camisa branca bonita e um casaco cinza por cima. Seus cabelos estavam presos em um penteado formal e quando a viu, Dean lhe deu uma discreta "secada". Não podia negar que ela era bem bonita. Um pouco bonita. Bonitinha. Mas extremamente insuportável.
Em seguida, ele resolveu parar de pensar nessas coisas e olhou para o relógio em seu pulso. Eram cinco e meia da tarde. Então, Dean olhou o estacionamento em volta e indagou:
– Cadê a Mia e o Cas?
Neste momento os dois ouviram o barulho de um carro e viram o Mustang se aproximando. Mia estacionou perto deles e em seguida desceu com Castiel. Vincent permaneceu no carro. O gato parecia de mau humor por ter tido que passar a tarde inteira em cima de uma árvore. O casal se aproximou de Natalie e Dean e o Winchester observou intrigado:
– Cas, a sua gravata está... Torta. E Mia... Você está um pouco descabelada. — e em seguida, perguntou — Onde diabos vocês estavam e por que demoraram tanto?
Mia e Castiel se entreolharam de uma forma suspeita e tentaram disfarçar um leve sorriso. Natalie entendeu automaticamente por que os dois só estavam chegando naquele momento e olhou para Dean levantando uma das sobrancelhas. Após alguns instantes, Dean finalmente deduziu o motivo da demora e dispensou um pouco sem graça:
– Por favor, não respondam. — e antes de entrar no Impala com Natalie, orientou — Apenas troquem de roupa e nos encontrem no IML, ok?
Os dois assentiram com um meneio de cabeça e enquanto viam o Impala se afastando, Mia insinuou:
– Você ouviu o Dean. Ele quer que a gente troque de roupa...
Castiel entendeu a provocação da garota e sorriu levemente para ela.
– Você quer ajuda com isso? — sugeriu ele.
– É uma ótima ideia, anjo. — concordou Mia o olhando com carinho.
Em seguida, Castiel segurou a mão da garota entrelaçando os dedos dela com os seus e os dois caminharam em direção à entrada do hotel.
No Impala, e depois de colocar o cinto de segurança, Natalie perguntou insatisfeita:
– Isso é mesmo necessário?
Dean a olhou e após entender sobre o que a garota estava falando, respondeu:
– Sim. Desculpe, mas eu não podia te deixar no hotel sozinha. Você é a garantia, lembra?
– Eu estou cansada. — confessou ela — Tudo que eu queria era um bom banho e dormir um pouco. Não podemos deixar isso pra amanhã?
– Não, amanhã pode ser tarde demais e alguém mais pode morrer nessa cidade. Eu preciso descobrir o que matou aquela mulher e impedir que aconteça de novo. — respondeu Dean.
Natalie assentiu e depois pegou o jornal no porta luvas. Leu a matéria que relatava a morte misteriosa de uma mulher de aproximadamente trinta anos. Ela havia sido morta dentro de casa e as portas e janelas estavam fechadas quando a polícia encontrou o corpo dias depois.
Embora Dean acreditasse que aquele caso envolvia um fantasma, demônio ou mesmo algum tipo de objeto amaldiçoado, Natalie tentava pensar em outras possibilidades para explicar o ocorrido.
Dean interrompeu os seus pensamentos ao dizer com um tom provocador:
– Pense pelo lado positivo. Pelo menos você estará caçando com um expert no assunto. Observe e aprenda, loirinha.
Natalie revirou os olhos antes de resmungar:
– Awesome!
E Dean a olhou intrigado mais uma vez antes de voltar a se concentrar na direção.
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