Recomeço
38 Capítulo 38 - De onde nos conhecemos
Notas iniciais
Dean entrou no banheiro do bunker levando Natalie pelo braço. Ao deduzir o que o Winchester planejava, a loira tentou se soltar e implorou:
– Dean... Por favor! Não faça isso!
– Eu falei que ia cuidar de você e eu vou, Naty. — lembrou ele enquanto levava a garota até o box.
– Isso não é cuidar de mim, isso é tortura. — protestou ela e em seguida garantiu — Além disso, eu já estou bem! Sério! Eu não estou mais bêbada! Eu não me sinto mais bêbada!
– É mesmo? — duvidou Dean e mostrando dois dedos para ela, perguntou — Então quantos dedos tem aqui?
Natalie olhou para a mão do Winchester, fez um esforço para enxergar e depois respondeu:
– Você acha que eu sou idiota, Sr. Awesome? Você não está mostrando dedo algum.
– Boa tentativa. — debochou ele se preparando para abrir o chuveiro.
– Espera! — pediu Natalie e Dean parou. Então ela olhou para baixo e lembrou — Minhas botas. Você quer me torturar, tudo bem, mas eu amo essas botas e se alguma coisa acontecer com elas, eu te mato. Mesmo.
– Ok. Se apoia em mim. — orientou ele se abaixando um pouco e quando Natalie colocou as mãos nos seus ombros para não cair, ele tirou a primeira bota e depois a outra. Ficou observando os pés dela por algum tempo. Eram lindos. Depois subiu o olhar em direção as pernas de Natalie. Eram lindas. Em seguida, levantou e admitiu — Isso vai ser mais difícil do que eu imaginei.
– Então por que você não desiste disso logo? Eu não preciso de banho frio, Dean. Eu estou bem... — disse Natalie, mas parou imediatamente quando ele abriu o chuveiro — Son of a bitch! — xingou ela enquanto a água fria caía sobre a sua cabeça e escorria pelo seu corpo. — Eu te odeio, Dean Winchester! Eu te odeio! Você me paga, seu desgraçado! — xingou novamente enquanto tentava se soltar, mas além dele ser mais forte do que ela, Natalie estava bêbada e mal conseguia se equilibrar sozinha.
Ela se debatia, tentava se soltar e batia em Dean espalhando água por todos os lados.
– Calma! Calma! — pediu o Winchester segurando os braços dela e tentando mantê-la embaixo do chuveiro — Eu sei que você está com raiva e que a água está um pouco fria, mas...
– Fria?! Parece que eu estou nas geleiras do Ártico! — interrompeu a loira ainda mais nervosa.
– Não seja dramática, eu estou fazendo isso para o seu próprio bem, Naty. Amanhã você vai se sentir melhor, eu garanto. — afirmou Dean tentando acalmá-la e depois disse nervoso — Droga! Por que você tinha que fazer isso, Natalie? Por que você tinha que tomar esse porre? Mulheres...
Natalie não respondeu nada. Aos poucos foi parando de se debater e tomando consciência do que havia feito. Sentiu-se envergonhada por ter tomado aquele porre, ainda mais porque Dean sabia muito bem que ele era o motivo da bebedeira e devia estar se sentindo o máximo naquele momento.
Natalie sentia-se uma adolescente. Uma adolescente idiota que não sabe como agir diante do cara que gosta. E sentia-se ainda mais idiota por gostar tanto de Dean, o cara que até pouco tempo, ela não suportava.
De repente, Natalie notou que Dean a olhava de um jeito diferente, profundo, com certo desejo, enquanto a água molhava totalmente os seus cabelos e deixava o seu vestido bem colado ao corpo. De repente Natalie notou também que Dean percorria o seu corpo com o olhar sem conseguir disfarçar o que estava sentindo naquele momento.
– E por que você tem que ser tão linda? E sexy? — perguntou ele.
Ao ouvir isso, Natalie sentiu-se melhor automaticamente. Mais do que isso, sentiu-se ela de novo. Saber que Dean a achava linda era muito bom, lhe dava segurança. Era como se ela estivesse no controle da situação de novo. Então ela o olhou também de um jeito profundo e querendo ouvir aquilo de novo, indagou:
– Você me acha linda? E sexy?
Dean inclinou um pouco a cabeça e avisou:
– Não me provoque.
– Por quê? — perguntou ela sem se importar com o aviso.
– Porque você está bêbada, Natalie. E eu não quero me aproveitar disso. — explicou ele.
– Por que não, Dean? — desafiou ela gostando daquele jogo e no fundo desejando que ele não se controlasse tanto.
De repente, Dean entrou no box, segurou Natalie nos braços com firmeza e a encostou contra a parede.
– Eu disse não me provoque... — repetiu o Winchester enquanto a água do chuveiro caía sobre ele.
– E eu perguntei por quê? — provocou Natalie mais uma vez também sendo tomado por um desejo irresistível.
No fundo, ela estava cansada de lutar contra o que sentia por Dean e queria consertar o que havia estragado quando tomou o porre. Ela sabia que havia estragado a noite e o encontro porque tinha ficado insegura. Mas agora, ao ouvir que Dean a achava linda e sexy, a insegurança havia passado e tudo que ela queria era ouvir aquilo de novo. Então deu um passo a frente ficando embaixo do chuveiro com o Winchester e pediu:
– Fala de novo... Por favor... Eu quero ouvir...
Dean estava nervoso, mas não nervoso de raiva, mas sim porque estava ficando difícil resistir à Natalie com ela o provocando daquele jeito. Mas não queria se aproveitar dela. Natalie estava bêbada e se acontecesse qualquer coisa, no dia seguinte ela ia jogar isso na cara dele e dizer que ele se aproveitou da situação, de um momento de fraqueza dela. Dean a queria. Muito. Mas sóbria. Mesmo assim, se ouviu dizendo com a respiração um tanto ofegante:
– Você é linda... E irritantemente sexy...
Natalie sorriu e se aproximou ainda mais. Passou uma das mãos pelo rosto do Winchester e fechou os olhos enquanto roçava seu rosto no dele. Dean olhou para os lábios de Natalie e fechou os olhos também enquanto a água continuava caindo sobre eles. Natalie aproximou sua boca da dele e Dean a empurrou contra a parede de novo dizendo:
– Não! Olha... Eu quero isso, ok? E pelo que eu percebi você quer também. Mas não pode ser assim, Naty. Você está bêbada, vulnerável, confusa e amanhã você vai dizer que eu forcei isso. E então nós vamos brigar e eu não quero mais brigar com você... Eu não posso mais brigar com você...
– Dean... — tentou dizer ela.
– E não diga mais nada! — interrompeu ele tentando controlar o impulso de beijá-la de uma vez. — Eu te proíbo de dizer qualquer coisa até amanhã, entendeu? Não responda! O simples som da sua voz já me deixa louco...
Dean ficou algum tempo olhando para a loira enquanto tentava achar forças para sair dali. Fechou os olhos e repetiu para si mesmo:
– Eu não posso fazer isso... Eu não posso fazer isso... Eu não posso fazer isso...
– Por que não? — questionou Natalie passando as mãos pelo pescoço e rosto dele — Eu quero, Dean... Você está certo, eu quero tanto quanto você... Nós já perdemos tanto tempo brigando... E eu fui tão estúpida esta noite... Eu estraguei tudo... Por favor, me deixa consertar o que eu fiz... Eu quero...
Dean abriu os olhos e a encarou por mais algum tempo, antes de finalmente sair do box e dizer:
– Isso não vai dar certo... Eu e você num banheiro... Sozinhos num chuveiro... Você linda desse jeito e falando essas coisas... Eu não quero me aproveitar da situação, mas é exatamente isso que vai acontecer se eu ficar mais um minuto nesse banheiro com você, Naty...
– Dean... — chamou ela saindo do box.
– Shiiiiiiiiii! Não fala mais nada. — ordenou ele tentando manter o controle. Em seguida, pegou uma toalha e enrolou a loira com ela — Muito bem, agora você vai tirar essa roupa molhada, se secar, colocar um daqueles seus pijamas lindos e depois vai pra cama. — Dean deu um beijo na testa de Natalie e antes de deixar o banheiro, encerrou — Tenha uma boa noite, se você conseguir. Eu também vou tentar... Te vejo amanhã, loirinha. E não responda! Não diga mais nada! OK? Mais nada!
Natalie ficou no banheiro sozinha por algum tempo pensando no que quase tinha acontecido ali. Sorriu levemente pensando no que Dean havia dito.
– Ele me acha linda... E sexy. — murmurou satisfeita.
XXX
Claire estacionou o carro em frente ao bunker enquanto tocava Fix You do Coldplay no aparelho de som da Pajero. Ela tirou o cinto de segurança, voltou-se para Sam e disse:
– Chegamos, Sam Winchester. — e ao ver que ele estava dormindo, ela resolveu chamá-lo de novo com cuidado para não assustá-lo — Sam? Sam, chegamos. — Claire esperou um pouco, mas o Winchester nem se mexeu. Então, ela continuou — Sam, eu não vou conseguir te carregar sozinha. Se eu me lembro bem, você é meio pesado. Você precisa acordar e me ajudar a fazer isso... Sam? Sam, acorda...
Claire desistiu de acordá-lo por algum tempo. Ficou olhando para o Winchester dormindo e constatando mais uma vez como ele era lindo. Lembrou do que a sua mãe disse pouco antes de morrer. Que a filha gostava de caras altos e cabeludos. Rachel estava certa. Completamente certa. Sam era exatamente o tipo de homem que Claire gostava. E como se não bastasse ele ser lindo por fora, Sam também era lindo por dentro. Por mais que ele relutasse em acreditar nisso por causa de todos os erros que cometeu no passado.
Ele podia não acreditar, mas Claire não se importa com o passado dele. Tudo que queria era algum lugar no seu presente. E também no seu futuro. Isso porque Sam despertava sentimentos em Claire que até pouco tempo ela desconhecia. Ela já havia se apaixonado outras vezes, quase casou com David, mas nunca sentiu algo tão forte e tão bom como o que sentia por Sam. A verdade, era que ela já tinha se encantado por ele quando o conheceu em Stanford há alguns anos, mas na época, as coisas eram mais complicadas porque Sam namorava uma garota chamada Jessica.
Imediatamente ela afastou aquelas lembranças e começou a pensar em outras coisas. A pensar em todas as afinidades que tinha com Sam. Em como eles eram parecidos. Em como era bom estar com ele. Em como foi bom reencontrá-lo. Em tudo que ele fez por ela desde então. Em todo o apoio, em todos os abraços, em todas as palavras doces, gentis, reconfortantes. Nas cantadas veladas... No sorriso dele... Nele com aquela toalha em volta da cintura quando ela bateu na porta do quarto dele no hotel, há algumas semanas. No beijo forçado por Mia... E na vontade que sentia de beijá-lo por livre e espontânea vontade.
– Sam... Sam, acorda. Sam? — disse a garota tentando acordá-lo mais uma vez enquanto a música continuava tocando.
Fix you era uma das suas músicas favoritas do Coldplay e Claire começou a se perguntar se também era a do Winchester.
– Sam... — chamou ela de novo, porém sem sucesso.
Então ela se aproximou mais do Winchester e olhou bem para o seu rosto antes de chamá-lo mais uma vez com a voz suave:
– Sam? Acorda. Eu não vou conseguir te carregar. Sam...
Claire ficou olhando para o rosto de Sam por um bom tempo enquanto uma ideia irresistível passava pela sua cabeça. Seu coração acelerou quando ela olhou para a boca dele. Para os seus lábios... Não conseguia resistir... Precisava fazer uma coisa.
Então Claire se aproximou ainda mais do caçador e o olhou mais uma vez antes de fechar os olhos e encostar seus lábios suavemente nos dele. Agora que não estava compelida, Claire pôde sentir de verdade como os lábios de Sam eram macios. Quentes. E se encaixavam perfeitamente nos seus. Podia ficar assim para sempre, podia explorá-los mais, porém ela não queria se aproveitar da situação e resolveu parar com aquilo antes que não conseguisse mais resistir. Então abriu os olhos devagar e viu que Sam estava olhando para ela. Se afastou um pouco, devagar, e continuou olhando para ele. Seu coração acelerou ainda mais enquanto ficava um pouco sem graça por ter o beijado daquela forma e Sam se perguntava se aquilo era um sonho ou não. Ele estava meio zonzo por causa da bebida e não tinha certeza se aquilo era real ou se havia imaginado. Para completar, de repente, uma lembrança veio à sua cabeça. Uma espécie de flashback de quando ele estudava em Stanford.
Ele estava caminhando pela biblioteca quando virou em um dos corredores e esbarrou em alguém. Em uma garota. Com o choque, os livros que ela carregava caíram no chão. Os dois se abaixaram para pegá-los e Sam olhou para o rosto da garota. Era linda. Ela ergueu o olhar e também o encarou. Os dois se olharam profundamente por alguns instantes e Sam pode ver que a garota tinha algumas mechas nas pontas dos cabelos. Mechas roxas, suaves, delicadas e que davam um ar sexy e rebelde para aquele rosto tão lindo. Ela sorriu um pouco sem graça e voltou a pegar os livros.
– Chegamos. — disse Claire fazendo Sam acordar daquela espécie de transe.
Sam queria gritar que finalmente tinha lembrado como a conheceu, mas ainda estava zonzo por causa do álcool e por conta do choque de lembrar daquelas coisas assim de repente. Então, ele apenas assentiu e ela saiu do carro. Deu a volta no veículo enquanto ele tirava o cinto de segurança. Em seguida, Claire abriu a porta ao lado dele e o ajudou a se levantar. Passou um dos braços de Sam em volta do seu pescoço e os dois se olharam mais uma vez antes de começarem a andar na direção do bunker.
Sam não lembrava como, mas quando percebeu já estava deitado na sua cama. Sentiu alguém tirando os seus sapatos. Fechou os olhos e a imagem daquela garota na biblioteca em Stanford veio mais uma vez na sua cabeça. A mesma garota que o cobria com um cobertor naquele momento e que depois deixou o quarto.
XXX
No dia seguinte, Natalie começou a abrir os olhos devagar. Instantes depois, colocou as mãos sobre o rosto um pouco incomodada com a luz do Sol que entrou pela janela quando Dean abriu as cortinas de repente e disse:
– Bom dia, Sunshine!
– Não grita... — reclamou ela sentindo uma forte dor de cabeça.
– Ah... Certo. Parece que alguém está de ressaca. Isso é bom! Agora você vai pensar duas vezes antes de entornar uma garrafa de vodca. — provocou ele.
Natalie sentou na cama devagar, pois todo o seu corpo doía muito. Olhou em volta e seu coração foi parar na boca quando ela percebeu onde estava. Aquela não era a sua cama, muito menos o seu quarto. Aquele era o quarto e a cama de Dean. Rapidamente, ela se desenrolou e viu que vestia um pijama composto por um short de tecido leve e uma camisa preta do Def Leppard. O único problema era que Natalie não tinha ideia de como tinha ido parar ali e muito menos onde o vestido que usava na noite anterior tinha ido parar. Uma ideia passou pela sua cabeça e ela olhou para o Winchester em choque. Teve medo de perguntar, mas precisava descobrir o que tinha acontecido já que não conseguia lembrar sozinha. Então perguntou:
– Nós... Nós? Você sabe... Nós fizemos? Você sabe, Dean... Nós fizemos? Por favor, não me faça terminar essa frase...
Ao entender do que Natalie estava falando, Dean riu e enquanto sentava na cama de frente para a garota, respondeu:
– Você é ainda mais engraçada de ressaca, sabia, Naty? Mas não se preocupe, não aconteceu nada. — e entregando um copo de água e uma aspirina para ela, orientou — Toma. Você vai se sentir melhor.
Natalie pegou o remédio e tomou com alguns goles de água. Depois colocou o copo em cima do criado-mudo e ao voltar-se para Dean, percebeu que ele estava olhando para as suas pernas. Rapidamente ela se enrolou com o cobertor de novo e perguntou:
– Então como eu vim parar no seu quarto, Sr. Awesome?
– É uma ótima pergunta e a verdade é que eu ainda estou tentando entender como isso aconteceu. Eu acho que você confundiu com o seu ou resolveu dormir aqui porque no fundo sente alguma coisa pelo dono do quarto... Sei lá... Bem, mas o fato é que você estava bem doida ontem, Naty. Meio fora de si, sabe? Eu tinha ido até a cozinha porque estava cheio de fome e quando voltei você já estava aí. Deitada na minha cama. Dormindo feito um bebê. — relatou ele.
– E onde você dormiu? — perguntou a loira desconfiada daquela história
– Na sala. — respondeu Dean tranquilamente.
– E quem trocou a minha roupa? — quis saber ela.
Dean riu daquele interrogatório e perguntou:
– Você não lembra de nada mesmo?
– Responda a pergunta, Dean Winchester. — ordenou ela com medo de que tivesse acontecido algo entre eles na noite anterior.
– Não se preocupe, você mesma se trocou, Natalie. No meio do corredor. Levou quase uma hora. Eu ouvi você resmungando quando eu estava na cozinha. E acho até que você levou alguns tombos. — contou ele tentando não rir.
– Então não aconteceu nada entre a gente, certo? Eu posso acreditar em você, não posso, Dean? — quis confirmar ela.
– Com certeza. — garantiu ele e em seguida disse com um sorriso debochado — Acredite, Naty, se tivesse acontecido o que você está pensando, eu garanto que você não teria esquecido.
– Convencido. — resmungou ela.
Depois disso, um silêncio se instalou entre eles e os dois se olharam por alguns instantes até que Dean avisou:
– Nós precisamos conversar, Naty. Não apenas sobre o seu porre lendário e sobre as coisas que nós conversamos ontem antes do porre lendário, mas também sobre algo que eu preciso te contar. Mas primeiro desça e tome o seu café, ok?
Um pouco intrigada em relação ao que Dean tinha para contar e também um pouco nervosa ao lembrar da conversa deles no bar quando os dois deixaram transparecer que sentiam algo um pelo outro, Natalie hesitou um pouco para levantar da cama. Mas quando o fez, pediu:
– Por favor, tenta não olhar para as minhas pernas de novo, ok? Está ficando meio constrangedor.
Dean franziu a testa um pouco ofendido e mentiu:
– Eu não olhei para as suas pernas, convencida.
Mas quando ela se afastou da cama e começou a caminhar em direção a porta, Dean se virou para dar uma olhada de novo nas suas pernas enquanto erguia as sobrancelhas e sorria levemente gostando do que estava vendo. E quando Natalie saiu do quarto, Dean murmurou:
– Oh meu Deus... Que pernas...
Meia hora depois, Natalie já tinha tomado café. Aproveitou e tomou um banho também, escovou os dentes, trocou de roupa e colocou uma calça para que Dean não ficasse olhando tanto para as suas pernas.
Mas ao se aproximar da porta do quarto dele, ela hesitou um pouco. Sentia-se envergonhada pelas coisas que fez na noite passada e enquanto tomava banho, acabou lembrando de alguns flashes. Lembrou de Dean lhe dando aquele banho gelado, da forma como ela o provocou no banheiro e de como ele resistiu porque ela estava bêbada e ele não queria se aproveitar disso. Lembrou também de trocar de roupa no meio do corredor e de ir para o quarto do Winchester logo depois.
Ao pensar em todas essas coisas, Natalie percebeu que não ia conseguir conversar com Dean naquele momento. Pelo menos não até aquela ressaca moral passar um pouco.
Então resolveu ir para o seu próprio quarto. E foi o que ela fez. Entrou e fechou a porta devagar para que Dean não ouvisse do quarto dele. Era melhor ele pensar que ela ainda estava no banheiro.
No entanto, ao se virar Natalie viu Dean sentado na sua cama, com as costas apoiadas na cabeceira e com o diário do pai no colo. Ao vê-la ali parada na porta, ele lhe deu um sorriso sarcástico e acenou antes de dizer:
– Eu imaginei que você fosse fugir. Por isso, resolvi te esperar aqui mesmo.
Depois disso, Dean bateu a mão levemente na cama indicando que era para a garota sentar ali, de frente para ele. E depois de hesitar um pouco, Natalie resolveu fazer isso de uma vez porque sabia que Dean não a deixaria em paz enquanto os dois não conversassem. Então se aproximou e sentou mantendo certa distância de Dean. Ele percebeu e se aproximou um pouco.
– O que o diário de John Winchester tem a ver com o que você precisa conversar comigo, Sr. Awesome? — começou Natalie.
– Tudo. Eu preciso te mostrar uma coisa, loirinha. — respondeu Dean e depois de retirar uma foto de dentro do diário, entregou para ela e perguntou — Isso te diz alguma coisa?
Natalie segurou a foto e deu uma boa olhada no garoto que estava nela. Por um momento, ela teve uma sensação de déjà vu, mas como não conseguia explicar por que sentiu isso, deixou pra lá e perguntou:
– Quem é esse garotinho tão fofo?
Feliz por ouvir isso, Dean sorriu cheio de si e respondeu:
– Na verdade, sou eu com treze anos.
Natalie olhou para a foto de novo e deixou escapar:
– Você era meio baixo para alguém que tinha treze anos.
Dean desmanchou o sorriso imediatamente e pegou a foto das mãos dela rispidamente antes de reclamar:
– Por que você tem sempre que dizer isso?
– Como assim "sempre"? É a primeira vez que eu vejo essa foto ridícula na minha vida. — disse ela um pouco confusa.
– Mas não é a primeira vez que você vê esse garoto. — argumentou o Winchester.
– É claro que não. O idiota está bem na minha frente. — contrapôs ela.
– Não é isso que eu quero dizer... — disse Dean tentando manter a calma, mas sem saber como explicar. Então entregou a foto para ela de novo e pediu — Naty, dê uma boa olhada nesta foto. Por favor. Ela realmente não te diz nada?
A loira examinou a foto mais uma vez. E teve uma sensação de déjà vu de novo. Aquele rosto, aquele menino era familiar. E não porque ela estava diante de Dean, era outra coisa que ela não conseguia explicar. Era como se ela já tivesse visto aquela foto antes ou Dean naquela idade.
Para ajudá-la Dean foi dizendo com cuidado:
– Naty, quando você tropeçou em mim naquele bar há algumas semanas, eu tive uma sensação. Uma sensação de já ter te visto em algum lugar. Me diga honestamente. Você teve essa sensação também?
Natalie pensou um pouco enquanto mantinha os olhos fixos na foto e lembrava daquela noite em Kentucky. E então admitiu:
– Na verdade, sim.
– E você nunca se perguntou por quê? — incentivou ele.
– Eu pensei que por você ser caçador e eu também talvez nós tivéssemos nos esbarrado em algum lugar, por causa de algum caso.... Eu não sei... Dean, por que você está fazendo essas perguntas? — disse a loira ficando mais intrigada.
– Naty... E se eu disser que antes daquela noite no bar, bem antes... Nós dois já tínhamos nos visto, nos conhecido? O que você diria? — aprofundou-se Dean.
– Eu diria "talvez nos seus sonhos, Winchester". — zombou ela pensando que aquilo era algum tipo de cantada.
– Ou talvez nos seus pesadelos. — rebateu Dean se referindo a noite em que os pais dela morreram.
– Como assim? — não entendeu Natalie.
Dean pensou um pouco e sem encontrar palavras mais sútis para dizer aquilo, ele resolveu simplesmente dizer de uma vez:
– Ok, o negócio é o seguinte, Natalie Jones, nós dois nos conhecemos há bem mais do que há algumas semanas. Mais precisamente, de um pouco antes desta foto ter sido tirada. Eu tinha treze anos e você...
– Sete. — completou ela antes de levantar da cama e se afastar um pouco enquanto continuava olhando para aquele menino na foto. — Bem na época em que os meus pais morreram... — completo ela tentando se lembrar de como tinha conhecido Dean.
Dean levantou e se aproximou. Ficou de frente para ela e prosseguiu:
– Olha, eu acho que você não lembra justamente por causa da morte dos seus pais. Foi traumatizante. Mas é verdade, nós nos conhecemos naquela época. Mais precisamente... Na noite em que Sarah e Henry Jones foram mortos por um demônio.
Natalie tirou os olhos da foto e olhou para Dean antes de perguntar ainda mais confusa:
– Como você sabe os nomes dos meus pais, Dean?
– Porque eu estava lá, Naty. Eu e o meu pai. — revelou Dean. — É isso que eu estou tentando te dizer. Eu estava lá. Na sua casa. Com você.
Natalie deu alguns passos para trás tomada pela tristeza por lembrar dos pais ao mesmo tempo em que tentava lembrar do que tinha acontecido exatamente naquela noite.
– Como assim "você estava lá"? — perguntou ela com a voz trêmula.
Dean deu alguns passos na direção da loira e segurou em seus ombros antes de reafirmar:
– É isso mesmo que você ouviu, Naty. Eu estava lá. Talvez você não se lembre por causa do trauma, ou porque era muito criança, ou porque eu e o meu pai usamos nomes falsos, mas eu estava lá, Natalie. Eu juro que eu estava lá.
Enquanto Dean dizia aquelas coisas, Natalie fazia um esforço enorme para se lembrar daquela noite. Era tudo muito confuso e doloroso, mas Dean estava certo. Havia mais alguém na casa. Na verdade, ela sempre soube que alguém a tirou da casa dos seus pais e a levou para o orfanato. Mas nunca deu muita importância para isso.
Em seguida, Natalie começou a lembrar da assistente social perguntando quem era Robert Plant. Perguntando quem era o sujeito que havia invadido a casa da família dela e depois a deixado no orfanato.
– Meu pai usou um nome falso. Robert Plant! Por causa do Led Zeppelin. — continuou Dean enquanto Natalie levava as mãos a cabeça e andava pelo quarto tentando lembrar de tudo — Nós tentamos ajudar o seu pai, Naty. Eu juro que nós tentamos. Mas eu acho que quando ele percebeu que a esposa estava morta, ele não aguentou... Ele desmoronou, Naty. E não por causa do exorcismo, mas sim porque ele tinha perdido a mulher que amava e não sabia como iria encarar a filha depois daquilo.
Natalie lembrou do pai matando a sua mãe na frente dela e fechou os olhos enquanto lágrimas escorriam pelo seu rosto. Lembrou de correr para o quarto enquanto ouvia o barulho estridente da porta sendo aberta. Alguém tinha entrado na casa.
Respirou fundo e tentou manter a calma. Precisava lembrar de tudo. Queria lembrar de tudo. Sempre se torturou por não lembrar. Sempre pensou que tinha esquecido algum detalhe importante. Alguém importante. E agora ela percebia que essa sensação se intensificou quando ela esbarrou em Dean há algumas semanas. Era porque ela havia o esquecido. E agora tentava lembrar. E estava conseguindo.
– Eu estava lá, Naty. — continuou Dean enquanto ela lembrava pouco a pouco como tinha sido — Fui eu que achei você embaixo da cama. Fui eu que te tirei de lá! Então você falou que eu era muito baixo para a minha idade e depois confessou que tinha medo de bonecas. Depois eu e o meu pai tiramos você da casa e te levamos para aquele orfanato em Saint Paul! E tem mais! Fui eu que te ensinei a dizer Awesome quando alguma coisa é... Awesome! E o seu amor por tortas, adivinha? Sim, fui eu que te viciei naquelas delícias também! E foi por minha causa que você acabou com o sal do orfanato, porque você ouviu uma conversa minha com o Bobby... De certa forma, Natalie Jones, eu despertei a caçadora que sempre existiu em você... De certa forma, eu sempre estive com você. E você sempre esteve comigo também, Naty, porque apesar de ter te esquecido por anos, eu sempre senti um vazio, um vazio que eu não sabia como preencher... Um vazio que eu senti quando o meu pai te deixou naquele orfanato e que foi preenchido de novo quando você reapareceu na minha vida... Porque mesmo sem lembrar de você, eu senti sua falta, Naty. Eu não sei, mas talvez você não lembre de mim porque eu também usei um nome falso... Eu não disse que me chamava Dean... Eu disse...
– Jimmy Page. — completou ela parando de andar de um lado para o outro depois de ter se lembrado de tudo. Depois de se recuperar do choque causado por aquelas lembranças, Natalie se acalmou, enxugou o rosto e acrescentou — Você disse que se chamava Jimmy Page. E eu perguntei "Como o do Led Zeppelin?"
– Sim, foi exatamente o que você disse. — confirmou Dean.
Movida por um impulso e feliz por ter reencontrado aquele garoto e por ter lembrado de tudo, Natalie andou rapidamente até Dean e o abraçou. Ele retribuiu o gesto a abraçando o mais forte que pôde. Natalie chorou no ombro do Winchester e depois lhe deu alguns socos ali enquanto reclamava indignada:
– Seu filho da mãe desgraçado! Por que você não voltou, Dean?! Por que você não foi me visitar? Eu fiquei esperando você e o seu pai voltarem por semanas, mas vocês nunca voltaram! Você tem ideia do que eu passei naquele orfanato? Sozinha? Cercada por garotas vestindo roupas cor de rosa e que ficavam dizendo que porque eu gostava de rock, eu tinha pacto com o capeta! Cercada por bonecas por todos os lados! Você acha que eu fiquei com medo do fantasma?! Fantasmas não são nada perto de bonecas! Bonecas são macabras! Seu idiota! Por que, Dean? Por que você não foi me visitar? Por que você não voltou pra me visitar?
– Eu sinto muito, Naty. Eu quis voltar, eu juro, mas o meu pai... Ele dizia que era arriscado porque a polícia estava investigando a morte dos seus pais... Mas eu quis voltar... Me desculpe. — explicou-se Dean enquanto acariciava os cabelos da loira. — Mas eu estou aqui agora. E eu não vou sair do seu lado de novo, Naty. Nunca mais. Eu prometo. — e em seguida, brincou — Mas você vai ter que me contar o que a Barbie fez pra você ficar com tanto medo dela.
Natalie bateu no ombro de Dean com força e resmungou:
– Isso não tem graça, Sr. Awesome!
E depois o abraçou mais forte e sorriu. Natalie nunca imaginou que poderia se sentir tão bem por abraçar Dean. Aquilo era ainda melhor do que o abraço que ele deu na cozinha dias antes e que agora ela entendia por que.
Era engraçado, mas se alguém tivesse dito que ela abraçaria Dean daquele jeito algum dia, certamente Natalie não teria acreditado. E no entanto, lá estava ela. O abraçando e gostando muito de estar nos braços de Dean.
No fim, ele não era o idiota que ela havia imaginado. Na verdade, ele era simplesmente o garoto que tinha a ajudado quando os seus pais morreram. Ele era Jimmy Page. E tinha voltado para ela.
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